Resumo
Tecnologias sociais são compreendidas como inovações concretizadas em produtos, técnicas ou metodologias reaplicáveis, desenvolvidas em interação com a comunidade, representando soluções efetivas para a transformação social. Este ensaio reflexivo apresenta uma tecnologia social construída pelo engajamento cultural de pessoas idosas por meio de atividades artísticas e socioculturais desenvolvidas em um projeto de extensão universitária. A proposta baseia-se em metodologias participativas e no uso de tecnologias acessíveis, envolvendo etapas sequenciais, registro das ações e culminância em eventos coletivos. Os resultados apontaram valorização das narrativas, fortalecimento da autoestima e senso de pertencimento social, além do desenvolvimento de novas formas de expressão. Diferenciando-se das práticas tradicionalmente ofertadas a esse público, a proposta configura-se como tecnologia social inovadora e replicável, capaz de articular saberes científicos e comunitários e contribuir para políticas públicas mais criativas, inventivas e contextualizadas nas problemáticas inerentes ao envelhecimento.
Palavras-chave
Tecnologia social; Metodologias participativas; Pessoas idosas; Atividades artísticas; Extensão universitária
Abstract
Social technologies are understood as innovations implemented in reusable products, techniques, or methodologies, developed in interaction with the community, representing effective solutions for social transformation. This reflective essay presents a social technology built from the cultural engagement of older adults, through artistic and sociocultural activities carried out in a university extension project. The proposal is based on participatory methodologies and the use of accessible technologies, involving sequential steps, recording of actions, and culminating in collective events. The results showed appreciation of narratives, strengthening of self-esteem and sense of social belonging, as well as the development of new forms of expression. Distinct from practices traditionally offered to this audience, the proposal is framed as an innovative and replicable social technology, capable of articulating scientific and community knowledge and contributing to creative, inventive, and contextualized public policies for the challenges of aging.
Keywords
Social technology; Participatory methodologies; Elderly people; Artistic activities; University extension
Resumen
Las tecnologías sociales se entienden como innovaciones concretizadas en productos, técnicas o metodologías reaplicables, desarrolladas en interacción con la comunidad, representando soluciones efectivas para la transformación social. Este ensayo reflexivo presenta una tecnología social construida a partir de la participación cultural de personas de edad, por medio de actividades artísticas y socioculturales, envolviendo etapas secuenciales, registro de las acciones y culminación en eventos colectivos. Los resultados señalaron valorización de las narrativas, fortalecimiento de la autoestima y sentido de pertenencia social, además del desarrollo de nuevas formas de expresión. Diferenciándose de las prácticas tradicionalmente ofrecidas a ese público, la propuesta se configura como una tecnología social innovadora y replicable, capaz de articular saberes científicos y comunitarios y contribuir a la elaboración de políticas públicas más creativas, inventivas y contextualizadas en las problemáticas inherentes al envejecimiento.
Palabras clave
Tecnología social; Metodologías participativas; Personas de edad; Actividades artísticas; Extensión universitaria
Introdução
O envelhecimento populacional no contexto de vulnerabilidade socioeconômica demanda a criação de ideias inovadoras voltadas à promoção do desenvolvimento social com justiça e participação.
A Década do Envelhecimento Saudável (2021-2030), liderada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), é uma iniciativa que busca responder aos desafios do envelhecimento populacional global, promovendo ações coordenadas entre governos, sociedade civil e organizações internacionais, com o objetivo de construir uma sociedade que valorize o envelhecimento ativo e saudável1. Alinhada à Agenda 20302 da Organização das Nações Unidas (ONU) e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), seus pilares centrais incluem o combate ao idadismo com o objetivo de reduzir preconceitos e estigmas relacionados à idade e promover respeito e inclusão; a criação de ambientes favoráveis que garantam autonomia e acessibilidade; a oferta de cuidados integrados com acesso a serviços de saúde e assistência social adaptados às necessidades da população idosa; e o fortalecimento de sistemas de apoio, como redes de proteção social e suporte comunitário1.
A Década dialoga diretamente com diversos ODS, como o ODS 3 (Saúde e Bem-Estar), ao incentivar políticas que promovam saúde e longevidade; o ODS 10 (Redução das Desigualdades), ao combater o idadismo e promover a inclusão social; e o ODS 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis), ao estimular o desenvolvimento de ambientes urbanos acessíveis e inclusivos. Essa abordagem integrada reforça o compromisso global de construir um mundo mais inclusivo, equitativo e sustentável para as pessoas idosas2.
As tecnologias sociais apresentam relação estreita com os ODS, oferecendo respostas inovadoras a problemas complexos e tendo como eixo central a inclusão social e a promoção do bem comum3.
Definidas como inovações que se concretizam em produtos, técnicas ou metodologias reaplicáveis, as tecnologias sociais são desenvolvidas em interação com a comunidade e buscam soluções efetivas para a transformação social4. Essas tecnologias têm como princípios fundamentais o baixo custo e a replicabilidade que asseguram sua aplicação em diferentes contextos; a participação comunitária que garante a adequação às necessidades locais e promove o empoderamento social; e o impacto socioambiental positivo, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida e para a sustentabilidade4.
A extensão universitária desempenha um papel central na promoção de práticas que integram o saber acadêmico às demandas sociais, especialmente no desenvolvimento e na implementação de tecnologias sociais.
As ações extensionistas são ponte entre a universidade e a sociedade, permitindo que os saberes acadêmicos contribuam para promover transformações sociais5. Por meio de projetos de extensão, as universidades auxiliam com soluções em colaboração com as comunidades, respeitando suas especificidades e fomentando a apropriação dos resultados por parte dos envolvidos6,7. Além disso, a extensão universitária fortalece o processo de validação e disseminação de tecnologias sociais. Conforme apontado por Dagnino4, a tecnologia social representa uma alternativa ao modelo hegemônico de inovação, pois está baseada na articulação entre conhecimento científico e saberes populares. Ao promover a interação dialógica com comunidades, a extensão universitária possibilita a construção de projetos sustentáveis e inclusivos, como iniciativas em agroecologia, economia solidária e Educação Popular8-10. Esses projetos não apenas atendem a demandas imediatas, mas também geram impactos de longo prazo ao estimular a autonomia, o empoderamento e a transformação social das comunidades, reafirmando o compromisso da universidade com o desenvolvimento humano e social. Nesse sentido, defende-se que a proposta aqui apresentada, baseada nas produções socioculturais, pode ser comparada a outras tecnologias sociais já consolidadas, como hortas comunitárias, círculos de economia solidária ou práticas educativas populares, por sua capacidade de articular saberes locais e acadêmicos, fomentar redes sociais e produzir impacto sustentável.
Trata-se de um ensaio teórico-reflexivo que articula uma construção teórico-prática, reunindo elementos de um relato de experiência com a implementação de um conjunto de metodologias participativas baseadas nas experiências culturais. Neste estudo, foi valorizada a explicitação descritiva, interpretativa e compreensiva de fenômenos, sustentada por uma teorização acerca da proposta.
Produções socioculturais no contexto do envelhecimento
A discussão aqui apresentada está bastante relacionada às ações do Projeto de Pesquisa e Extensão “Participação Sociocultural da População Idosa”, que é realizado em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura e atualmente acontece no Centro de Artes Calouste Gulbenkian, na cidade do Rio de Janeiro. Seu principal objetivo é fomentar a participação das pessoas idosas em atividades culturais e promover a aproximação intergeracional. O projeto de pesquisa e extensão está devidamente aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro sob parecer n. 3.121.146, de 24 de janeiro de 2019; pelos pareceres 3.917.355, de 16 de março de 2020; 6.119.454, de 15 de junho de 2023; e 7.626.004 de 8 de junho de 2025, decorrentes de suas emendas e atualizações metodológicas. Todas as atividades realizadas no âmbito do projeto são atividades complexas, sequenciais, planejadas e apresentadas à comunidade em um evento de culminância11. Elas têm o protagonismo das pessoas idosas e se caracterizam por: gerar sentido de comunidade, envolver o registro e a documentação das ações e apresentar a culminância em eventos abertos à comunidade. Já foram realizados: desfile de moda, peça teatral, fotonovela, produção de documentário sobre dança sênior, ensaios fotográficos e outros.
Participaram do processo pessoas idosas frequentadoras do equipamento cultural parceiro, estudantes de graduação e pós-graduação vinculados às ações de extensão e pesquisa, a docente responsável pela coordenação do projeto e profissionais colaboradores das áreas da Cultura e da Saúde. As pessoas idosas atuaram como protagonistas das produções socioculturais; os estudantes participaram do planejamento, da mediação das atividades e dos registros; a docente coordenou a proposta metodológica; e os parceiros institucionais contribuíram com infraestrutura, apoio técnico e articulação com o território.
A dimensão intergeracional da tecnologia social concretiza-se por meio da participação ativa de estudantes de graduação e pós-graduação, docentes e profissionais parceiros nas diferentes etapas do processo, incluindo o planejamento, a mediação das atividades, os ensaios, os registros audiovisuais e os eventos de culminância. Essas interações possibilitam trocas de saberes, aprendizagens mútuas e a construção compartilhada de narrativas entre gerações, nas quais as pessoas idosas ocupam lugar central como protagonistas, enquanto os demais participantes atuam como mediadores e colaboradores do processo criativo e organizativo.
O projeto de extensão constituiu o principal espaço de concepção, experimentação, sistematização e validação da tecnologia social apresentada neste artigo. Foi no âmbito de suas ações continuadas que se estruturaram as etapas metodológicas, os dispositivos participativos, os processos de registro e os eventos de culminância, possibilitando testar sua replicabilidade, seu baixo custo e o potencial de impacto social em diferentes contextos.
Diferentemente das atividades tradicionais dirigidas a pessoas idosas, que muitas vezes se limitam a práticas recreativas padronizadas, como oficinas artesanais repetitivas, ginásticas leves ou encontros sociais que pouco dialogam com a diversidade cultural e a singularidade dos sujeitos, a tecnologia social ancorada em produções culturais propõe um deslocamento paradigmático. Em vez de oferecer atividades como fim em si mesmas, essa abordagem reconhece o potencial da arte, da memória coletiva e da cultura popular como dispositivos de emancipação, pertencimento e transformação social. Enquanto as práticas tradicionais tendem a reforçar a passividade e o consumo de atividades pré-formatadas, as produções culturais, quando concebidas como tecnologia social, favorecem a autoria, a expressão e o protagonismo da pessoa idosa, conectando-a a seu território e às redes intergeracionais. Assim, a diferença central reside no horizonte político-pedagógico e nos atributos que tornam as atividades socioculturais mais complexas, interessantes, significativas e gerando real engajamento das pessoas. São atividades que se diferenciam e se configuram como tecnologia social por envolverem um processo que constitui uma nova metodologia que atende aos requisitos de gerar sentido de comunidade, envolver o registro, a documentação das ações e a culminância em eventos abertos à comunidade.
O sentido de comunidade é definido como a experiência de pertencimento e a percepção de que os membros importam uns para os outros e para o grupo, acompanhada de uma crença compartilhada de que as necessidades dos integrantes serão atendidas pelo compromisso mútuo12. Essa definição se baseia em quatro elementos principais: pertencimento (membership); influência; integração e satisfação de necessidades; e conexão emocional compartilhada. O pertencimento implica a sensação de inclusão e o reconhecimento de fronteiras que diferenciam os membros do grupo dos não membros. A influência reflete a dinâmica bidirecional em que os membros moldam e são moldados pelo grupo, enquanto a integração está relacionada ao cumprimento das necessidades individuais por meio da participação na comunidade. A conexão emocional, por sua vez, é sustentada por experiências e histórias compartilhadas que fortalecem o vínculo entre os participantes12. A ideia de comunidade refere-se a uma rede de relações estabelecidas com um propósito comum12, no caso, os interesses e atividades de um coletivo de pessoas idosas. É importante compreender que esses vínculos apresentam certa fluidez, e são influenciados por elementos que articulam de forma dinâmica a vida dos participantes, como experiências compartilhadas, projetos coletivos, memórias e práticas culturais.
A implementação do projeto sociocultural como tecnologia social
O primeiro investimento a se fazer é gerar nas pessoas o sentimento de que elas constituem um coletivo, investir nas relações e no compromisso de se empreender um projeto no qual todos compartilham responsabilidades e fazeres que se interferem mutuamente. Levar a cabo uma produção sociocultural em longo prazo, com inúmeras etapas e organização, não se faz sem uma vinculação importante entre os participantes. As abordagens grupais são essenciais nesse caso.
Um grupo de pessoas idosas pode constituir um “projeto comum”, expresso na autorrepresentação e nos valores compartilhados pelos participantes. A ação do coletivo ganha sentido ao transformar esse projeto em realidade, sustentada pelo imaginário social do grupo: “só podemos agir enquanto tenhamos uma maneira de representar para nós aquilo que somos”13 (p. 92). Nesse contexto, o grupo busca concretizar desejos e objetivos coletivos que promovam bem-estar, sociabilidade e participação ativa no cotidiano.
O funcionamento do coletivo apoia-se na construção de um projeto comum, sustentado por vínculos afetivos, valores compartilhados e pelo desejo coletivo de concretizar uma produção sociocultural. Esses elementos fortalecem o engajamento, a corresponsabilidade e a permanência dos participantes ao longo do processo12.
Esses processos tornam o projeto comum do coletivo de pessoas idosas, no caso a produção sociocultural a ser realizada, uma causa a ser defendida. Cada participante atua como porta-voz e garante a ação coletiva, legitimando seu engajamento e sua vida social13.
O projeto cultural ganha força se defender uma causa, por exemplo: combate ao idadismo, estímulo ao protagonismo no envelhecimento, enfim, pautar algum tema fortalecedor da identidade do grupo. No teatro e na fotonovela foram retratadas histórias elaboradas pelas pessoas idosas mediante suas experiências; elas incluíram as situações vivenciadas que são compartilhadas e ganham forma por meio dessas expressões artísticas.
Ao propor as produções culturais como tecnologia social, desloca-se a compreensão da cultura como mero produto para entendê-la como processo participativo, que envolve criação, corresponsabilidade e transformação de realidades locais. Trata-se de inovação social, pois mobiliza repertórios simbólicos, amplia laços comunitários e fortalece vínculos intergeracionais, respondendo a problemas sociais complexos de maneira criativa.
Com base na escolha do tipo de produção cultural a ser realizada –
por exemplo: peça teatral, desfile de modas, ensaios fotográficos, produções audiovisuais ou outras similares, que demandem tempo, organização coletiva, documentação de suas etapas e a culminância com um evento em sua realização –, segue-se o percurso metodológico11.
O primeiro é planejamento participativo, que se constitui como uma etapa essencial com início no mapeamento dos recursos disponíveis na comunidade e dos possíveis parceiros para o desenvolvimento do projeto, tais como grupos e coletivos de pessoas idosas, unidades de saúde que oferecem atendimento em grupo, centros de artes e Centros de Convivência. Por meio desse levantamento, procede-se à programação das atividades socioculturais em toda a sua complexidade, o que envolve tanto a definição das ações quanto a construção coletiva de uma produção sociocultural adaptada às condições locais. Nessa perspectiva, torna-se fundamental a utilização de materiais acessíveis e de baixo custo, como cenários e indumentárias simples, a fim de garantir a replicabilidade da proposta. Essa etapa também abrange a elaboração detalhada da atividade cultural escolhida, a criação de comissões, a delegação de tarefas e a organização do evento de culminância, que demanda atenção ao espaço, aos convites e parcerias, ao registro audiovisual e à definição dos recursos financeiros necessários.
O monitoramento e a avaliação integram o processo de maneira contínua, permitindo acompanhar o desenvolvimento da proposta e seus efeitos entre o público envolvido. Esse acompanhamento ocorre, sobretudo, ao término de cada encontro, quando se realizam rodas de conversa nas quais os participantes compartilham suas percepções e experiências. Além desse momento de reflexão coletiva, observa-se a frequência dos participantes às atividades, a ampliação das oportunidades de estabelecer novas parcerias e o impacto social do projeto na vida dos sujeitos, mensurado por seus depoimentos. Dessa forma, o monitoramento e a avaliação não apenas verificam a execução das etapas previstas, mas também qualificam a prática ao trazer à tona os significados atribuídos pelos próprios envolvidos.
Todas as etapas são documentadas e analisadas em conjunto. O registro fotográfico de todos os encontros e as anotações em caderno de campo são garantias para a replicabilidade da proposta. Como Tecnologia Social, a metodologia pode ser replicada em diferentes contextos, promovendo a inovação social por meio da articulação de saberes locais e científicos advindos da experiência com a pesquisa e a extensão.
No desenvolvimento da tecnologia social, a fotografia foi considerada uma das etapas do processo, pois atua como ferramenta educativa e de registro coletivo. Ao capturar um momento objetivo, tornam-se visíveis sinais de comportamentos subjetivos, hábitos e costumes dos sujeitos em seus contextos privados ou públicos. Inserida nesse percurso, a fotografia favorece o exercício da observação sistemática, amplia o olhar investigativo sobre os fatos e seus contextos e possibilita aproximações e interpretações sucessivas da realidade14. Além disso, ao compor a memória visual do grupo, contribui para a compreensão das formas de organização social e cultural, configurando-se como documento socioeducativo que fortalece a construção coletiva e os sentidos atribuídos à experiência.
Ver-se fotografada, especialmente em situações de ação e de construção de algo positivo, pode fortalecer a agência, a autoimagem e o senso de pertencimento da pessoa idosa. Nas metodologias participativas, quando as próprias pessoas idosas produzem imagens e as interpretam, a fotografia atua como ferramenta de reflexão crítica e de empoderamento, favorecendo a expressão de experiências, capacidades e prioridades cotidianas15. Esse tipo de autorrepresentação ajuda a relativizar estereótipos e a construir narrativas de envelhecimento ativo e com significado, aspecto importante para enfrentar o idadismo, cuja magnitude e os efeitos negativos sobre saúde, bem-estar e direitos são amplamente documentados16. Evidências indicam ainda que imagens positivas de velhice influenciam atitudes sociais: revisões e estudos experimentais mostram que representações midiáticas mais equilibradas e não paternalistas estão associadas a percepções menos idadistas17, e análises recentes do ecossistema digital da Associação Americana de Aposentados apontam um aumento de retratos de pessoas 50+ como ativas, autônomas e usuárias de tecnologia18. Produzir e discutir fotografias próprias sustenta identidades em transição, dignidade e sentimento de competência, sobretudo em contextos de vulnerabilidade19. Fotografar e ser fotografado “em ação” e na construção de algo positivo é dispositivo de reconhecimento para a pessoa idosa.
A última etapa da Tecnologia Social é a apresentação da produção cultural em um evento de culminância aberto à comunidade. Esse é o momento de resolução e complexidade, pois é o resultado de todo o processo anterior que durou meses.
Verificada a culminância de um processo de construção coletiva protagonizado por pessoas idosas em um evento aberto à comunidade, observamos que esse momento simbólico materializa os princípios freirianos de diálogo, a problematização e a práxis emancipatória. Paulo Freire reforça que a educação verdadeira não é um depósito unilateral de saber, mas um encontro dialógico de sujeitos que juntos significam o mundo, transformando-o20. No contexto de práticas participativas com idosos, metodologias baseadas em Educação Popular e círculos de cultura, alicerçadas na pedagogia freiriana, favorecem a construção coletiva de conhecimento, fortalecendo a autonomia, a identidade cidadã e a consciência crítica dos participantes21. Além disso, eventos finais pelos próprios sujeitos assumem um papel de extensão e democratização do saber ao revelar o protagonismo das pessoas idosas, permitir a problematização conjunta e promover o diálogo entre pares e com a comunidade acadêmica e social22.
No âmbito público institucional, eventos voltados à pessoa idosa que concluem processos participativos frequentemente se encerram com compromissos coletivos e símbolos visuais (como mosaicos de palavras), reforçando o protagonismo, a responsabilidade compartilhada e a continuidade das ações depois do encontro23.
A convergência dessas práticas demonstra que a culminância em evento coletivo atua como confirmação e impulso do processo de empoderamento, emancipação e enfrentamento dos desafios contemporâneos do envelhecer.
Resultados preliminares
O engajamento cultural tem sido apontado como um elemento fundamental para promover transformações significativas no processo de envelhecimento. A tecnologia social aqui analisada se baseia na valorização das experiências e narrativas das pessoas idosas, promovendo sua participação social ativa e assegurando o protagonismo desse grupo. Nesse sentido, reconhecer a diversidade cultural e proporcionar experiências coletivas de alto valor social emergiram como uma estratégia potente para o fortalecimento da autonomia, da autoestima e da cidadania. A literatura científica evidencia que a participação cultural está associada à redução da incidência de doenças neuropsiquiátricas, como depressão e demência, à diminuição de episódios de violência, à preservação das funções cognitivas e à redução da dor crônica, além de favorecer a percepção de qualidade de vida, bem-estar e felicidade24-28.
A experiência do projeto de extensão exemplifica como essas evidências se materializam no cotidiano. Ao longo das atividades, que envolveram a produção de um documentário sobre dança, um desfile de moda, uma peça teatral, uma fotonovela, ensaios fotográficos e eventos comemorativos, observou-se que as pessoas idosas assumiram efetivamente o papel de protagonistas, não apenas como espectadoras, mas como criadoras. Esse protagonismo reforça resultados de estudos longitudinais que associam a participação em eventos artísticos e culturais à manutenção da cognição e à redução do risco de declínio cognitivo em idosos29,30.
As oficinas preparatórias para o desfile, que incluíram atividades de relaxamento, autocuidado e planejamento estético do evento, revelaram-se espaços de socialização, criação e fortalecimento de vínculos, o que está em consonância com pesquisas que apontam o engajamento cultural como fator protetor para a saúde mental e emocional de pessoas idosas25. Durante o evento culminante, quando as participantes se descreveram como “maravilhosa”, “forte”, “rainha”, “empoderada” e “bem”, constatou-se não apenas a elevação da autoestima, mas também o sentimento de pertencimento e de empoderamento coletivo.
A experiência com o teatro e a fotonovela reforçou ainda mais essa perspectiva. Os roteiros foram elaborados pelas próprias pessoas idosas com base em vivências de preconceito e discriminação, transformando memórias em arte e promovendo novas formas de expressão corporal, linguística e simbólica. Esse processo é coerente com estudos demonstrando que a participação criativa em atividades artísticas pode reduzir sintomas depressivos, estimular a comunicação e ampliar a sensação de bem-estar25. As intensas discussões durante a construção coletiva dos roteiros e cenários evidenciam, ainda, o potencial dessas atividades para estimular processos cognitivos complexos, corroborando achados que apontam a relação entre práticas culturais criativas e menor risco de comprometimento cognitivo.
Além disso, a vivência dessas atividades coletivas promoveu trocas intergeracionais e aprendizagens mútuas que se expandiram para a produção de conteúdos digitais (vídeos, textos e áudios) compartilhados em redes sociais, ampliando o alcance da ação educativa. Essa prática encontra ressonância em pesquisas recentes que destacam o engajamento cultural como capaz de reduzir dor, sofrimento e sentimentos de solidão em pessoas idosas26.
Assim, observa-se que a articulação entre cultura, arte e envelhecimento possibilita a ressignificação de histórias individuais como também a construção de novos sentidos coletivos, afirmando o direito à cultura como dimensão central do envelhecimento ativo e saudável.
Considerações finais
Por meio das atividades socioculturais apresentadas, seguindo a metodologia proposta, seu sequenciamento e o registro de suas etapas culminando em eventos, conclui-se que ela constitui um conjunto de metodologias participativas inovadoras distinto das práticas habitualmente ofertadas em oficinas e grupos de pessoas idosas, que por vezes podem ser repetitivas, monótonas e, em alguns casos, até infantilizantes. A Tecnologia Social aqui proposta se fundamenta na valorização das experiências e narrativas das pessoas idosas, promovendo sua participação social efetiva e assegurando o protagonismo do grupo. Com base em metodologias participativas e na utilização de tecnologias acessíveis, a proposta configura-se como uma solução estratégica para enfrentar preconceitos e desafios que frequentemente limitam a participação das pessoas idosas em dinâmicas sociais e culturais.
A replicação dessa iniciativa em diferentes contextos pode favorecer a implementação de políticas públicas sensíveis às problemáticas específicas da população idosa. Ao articular saberes locais e científicos, resultantes da experiência acumulada em pesquisa e extensão, a Tecnologia Social apresenta-se como um modelo passível de replicação, com potencial interesse para diversos segmentos da gerontologia preocupados em aprimorar a oferta de atividades e serviços, bem como para a academia, que pode implementá-la em ações de extensão voltadas a esse público-alvo.
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Financiamento
Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), processo SEI n. E-26/204.399/2025.
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Disponibilidade de dados
Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.
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Editado por
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Editora
Elizabeth Maria Freire de Araujo Lima https://orcid.org/0000-0003-0590-620X
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Editora associada
Flavia Liberman https://orcid.org/0000-0001-8563-5993
