Resumo
Propõe-se uma trama textual e têxtil como expressão cartográfica de um processo de doutoramento em Terapia Ocupacional atravessado por poderes implicados na temática pesquisada – atividade humana, um conceito central para a Terapia Ocupacional brasileira. Narrativas e bordados acompanharam o desnudamento do corpo-pesquisadora na experiência de pesquisar, compondo novas cartografias dessa atividade humana – conceito que se revela em prática; afinal, pesquisar é uma atividade humana. A reflexão e a criação se potencializam e ressignificam sentidos existenciais, reconfigurando compreensões sobre a vida e o pesquisar em Terapia Ocupacional. Assim, entre experimentação e cartografia, teceram formas e dimensões que exprimem um pesquisar singular, sensível e crítico em busca de coerência entre o que se é, faz, pensa e sente.
Palavras-chave
Pesquisa; Terapia ocupacional; Cartografia; Atividades humanas
Abstract
We propose a textual and textile weave as a cartographic expression of an occupational therapy doctoral process permeated by the powers involved in the researched theme – human activity, a central concept for Brazilian occupational therapy. Narratives and patterns accompanied the stripping bare of the researcher's body in the research experience, composing new cartographies of this human activity – a concept that is revealed in practice, since research is, after all, a human activity. Reflection and creation are heightened and resignify existential senses, reconfiguring understandings about life and research in occupational therapy. Thus, between experimentation and cartography, forms and dimensions were woven that express a singular, sensitive, and critical research, in search of coherence between what one is, does, thinks, and feels.
Keywords
Research; Occupational therapy; Cartography; Human activities
Resumen
Se propone una trama textual y textil como expresión cartográfica de un proceso de doctorado en terapia ocupacional atravesado por poderes implicados en la temática investigada: actividad humana, un concepto central para la terapia ocupacional brasileña. Narrativas y bordados acompañaron el desnudamiento del cuerpo-investigadora en la experiencia de investigar, componiendo nuevas cartografías de esa actividad, concepto que se revela en práctica, porque, finalmente, investigar es una actividad humana. La reflexión y la creación se potencializan y resignifican sentidos existenciales, reconfigurando comprensiones sobre la vida y el investigar en terapia ocupacional. De esa forma, entre experimentación y cartografía, tejieron formas y dimensiones que muestran un investigar singular, sensible y crítico a la búsqueda de la coherencia entre lo que se es, se hace, se piensa y se siente.
Palabras clave
Investigación; Terapia ocupacional; Cartografía; Actividades humanas
É o avesso
É o avesso
O mais importante em mim
É o que eu não conheço O que eu não conheço
(O Que Eu Não Conheço - Maria Bethânia)
Narrativa 10
Nos encontros do grupo PESQUIZAS, nós – orientandas de Mestrado e Doutorado em Terapia Ocupacional – nos encontramos virtualmente com nossa orientadora. Seguíamos com a proposta de pensar coletivamente a construção de conhecimento que cada uma desenvolvia, quando nos organizamos para revezar a condução de experiências de cuidado entre nós. A experimentação de hoje foi conduzida por nossa orientadora. Ao final do encontro, sempre muito atenta aos processos de todas, ela faz uma sugestão de atividade específica para cada uma de nós nos implicarmos futuramente, o pedido para mim foi: bordar-dores.
Narrativa 9
Acho que consegui dormir um pouco. Acordo com uma música na lembrança. Há quanto tempo isso não acontecia? Há quanto tempo não escuto uma canção? Acho que alguma coisa aconteceu. Então começo a pensar nessas últimas semanas e na minha pesquisa de Doutorado. Foi a segunda vez que parte dela foi apresentada para o mundo e eu me sinto atacada, ferida. Mas não desisto do que ela é e do que eu sou. Não quero contaminar meu processo com aquilo que não me faz sonhar. E essa música... “Dos cegos do castelo me despeço e vou. A pé até encontrar. Um caminho, o lugar. Pro que eu sou” (Os Cegos do Castelo – Nando Reis). Aquieto. Reencontro-me. Sinto que posso voltar a escrever.
Narrativa 8
Viver em pandemia escancarou muita coisa que estava camuflada, despercebida. Lendo “Sociedade do cansaço” de Byung-Chul Han1, pensei em toda a produtividade e a meritocracia que nos consomem. Quem verdadeiramente está ganhando com isso? A Terapia Ocupacional, essa profissão que visa tanto o desempenho, está a serviço de quem? Fazendo mais e “melhor” estamos provando o que a quem? Com o isolamento social, quem conseguiu trazer o trabalho para casa teve de reaprender a olhar e a lidar com o lado de dentro: sua vida privada, isolada.
Fazer mais e “melhor” para quem? E quem não pode se isolar, desprovido em direitos de existir, de se proteger, de recursos para manter uma vida digna, segura. Fazer mais e “melhor” para quem? Como buscar reconhecimento por melhor desempenho em meio ao desamparo socioambiental crescente? A desinformação nas mensagens instantâneas disputando o lugar do “saber”; a necropolítica do “não pode parar”; o governo brasileiro sabotando medidas de segurança sanitária e contenção das transmissões da Covid-19... Han traz Agamben para falar das vidas completamente passíveis de serem mortas, vidas que não valem absolutamente nada, o que assegura a seus assassinos a impunidade. Não há responsabilização. E essa fixação pelo desempenho.
Acompanho Ailton Krenak em busca de esperanças sobre como sobreviver a esse (e outros tantos) fim de mundo.
Aprendi a bordar. Reuni tecidos, linhas, agulhas, bastidores. A condução e a incisão da agulha conduzindo a linha pela trama do tecido. Perder e achar o fio da meada. Experimentar as espessuras das linhas, as texturas dos pontos, a combinação entre cores e desenhos, riscar ou não riscar, manter ou remover o bastidor, admirar o verso do bordado, os fios, os nós e as pontas soltas. Aprender a técnica e experimentar a fuga, o desvio dela. O bastidor me revela histórias familiares, marcas das minhas avós, mãe e tias que hoje estão em mim. Fui fazendo uma pesquisa em mim. Escrevo, bordo e teço fluxos de sentidos. Sinto que abri uma lacuna no tempo-espaço onde é possível existir e criar.
Narrativa 7
A proposta para a etapa da produção de dados da pesquisa era solicitar cartas escritas às participantes. Porém, logo que enviei os convites por e-mail,comecei a receber devolutivas receosas com as condições concretas de dedicação ao meu pedido. Estabeleci uma relação de muito cuidado e atenção com cada pessoa, revendo os combinados quanto fosse necessário para que melhorassem as possibilidades de participação. Os prazos para recebimento foram alterados e refeitos caso a caso. Também firmei um combinado de enviar lembretes quinzenais para que não nos perdêssemos no tempo.
Essa etapa acabou se desenrolando em mais tempo do que o esperado, mas também tudo na vida passou a se desenrolar em outros tempos ou, talvez, em outras percepções do tempo. Estávamos lidando com um grande impacto em nossos ritmos, tempos, atividades, cotidianos… um prato cheio para a perspectiva da Terapia Ocupacional, tão cheio que transbordava de tudo. A vida tornou-se mais frágil e mais importante do que nunca. Já a morte se sentou ao nosso lado e não veio para uma visita breve.
E agora, como vou analisar tudo isso? Como criar bordas e cuidar do que ficar dentro?
Preciso começar pelo que eu sei: ser Terapeuta Ocupacional. Então, voltei-me para mim e percebi que precisava assentar a minha experiência. Uns dias depois acordei com três pequenas lembranças que brotaram feito histórias. Escrevi os primeiros fragmentos desse corpo que se desnuda. Dali senti que reunia partes de mim que estavam há muito tempo me conduzindo ao que propus para minha pesquisa de Doutorado.
Narrativa 6
Escavo os incômodos.
Quando olho os dados das 81 respostas no formulário, sinto uma inquietação. Se eu fosse uma participante, o que eu teria respondido?
Fecho o formulário e penso: como vou seguir daqui para a etapa narrativa?
O que é importante para o caminhar dessa pesquisa-intervenção?
Será que eu não quero acolher o que diverge da minha opinião?
O que está me incomodando? Reconheço o sentimento pulsando junto àquilo que se relaciona com uma visão meramente tecnicista da proposição profissional.
Será que a técnica é o problema? Por que estou tão tomada por essa questão?
O desconforto, parece-me, está em compreender a Terapia Ocupacional limitada a técnicas ou a uma única perspectiva, a qual me parece restrita.
Narrativa 5
Todas as obrigações parecem ter sido cumpridas, créditos obrigatórios e optativos, fechar a metodologia, submeter projeto ao comitê de ética em pesquisa (CEP). Sou a próxima da lista de espera para a bolsa. Uma coisa por vez. Plataforma Brasil. Minha pesquisa tem hipóteses? Resultados esperados? Tantas coisas a saber... Já se foi um ano como doutoranda e eu ainda aprendendo a fazer negociações no projeto. É um trabalho científico e será avaliado como tal, preciso me lançar aos desafios institucionais. Vamos torcer que seja aceito. Saiu o parecer: com pendências. Medo. Ah, tudo bem! Sei como corrigir. Pesquisa aprovada no CEP. Segue Doutorado.
Recebi ajudas importantes das estudantes do Laboratório de Pesquisa Atividades Humanas e Terapia Ocupacional para realizar a revisão de literatura – isso me alegra. Lembro-me da pesquisa do Mestrado, foi tão solitária e cheia de dúvidas. Agora conheço a afetividade da pesquisa compartilhada.
Narrativa 4
Conheci o curso de Terapia Ocupacional nas vésperas do vestibular, por sugestão da minha irmã, e foi a única opção que prestei. Entrei na primeira turma de um projeto pedagógico novo, com metodologia ativa. No início, foi desesperador encarar a desconstrução do modelo escolar passivo centrado no saber verticalizado do professor. Mas também foi revolucionário. Aprendi a me colocar para colaborar com o grupo e também aprendi a me calar para ouvir e respeitar o espaço dos outros. Aprendi o que era processo. E que a pergunta era mais importante do que a resposta. O cultivo da curiosidade ativando a eminente construção.
Com as atividades, aprendi a olhar e a cuidar de mim para olhar e investir no acompanhamento e no cuidado com o outro. Depois, com a docência, nesse mesmo lugar, me abri para o encontro e o aprendizado mútuo com as/os estudantes. Aprender, apostar, mostrar minhas dúvidas, formar e deformar na experiência compartilhada. Foi o que acabou me levando para o Doutorado e para o tema da atividade humana em Terapia Ocupacional.
Narrativa 3
O batom vermelho da minha mãe, o esmalte vermelho da minha tia, o penhoar da minha avó, o sapato e o toc toc do salto da minha tia-avó, entre outros objetos e imagens, fazem parte do meu relicário da infância. Lembro-me das brincadeiras com penteados, acessórios e roupas montadas diretamente no corpo, feitas de tecidos ou roupas maiores, sustentados por alfinetes e presilhas... assim se criou um mundo feminino para mim.
Quando mudei de escola, aos 11 anos, aprendi que tesouros se guardam em baús, trancados e enterrados. A ordem era a competição e a esterilização das diferenças. Mas, ainda que eu vestisse as mesmas roupas e fizesse o mesmo corte de cabelo, me calasse e não questionasse os julgamentos, nunca seria suficiente para estar adequada. O melhor que consegui foi me afastar de quem parecia mais cruel e me tornar o mais invisível possível.
O batom vermelho só reapareceu publicamente quando apresentei meu projeto final do Mestrado, depois de sofrer com muitas negativas, questionamentos e desqualificações de outros professores e colegas, senti que precisava me armar para a batalha, e busquei algo entre as referências das mulheres fortes que me formaram.
Narrativa 2
Durante minha educação primária, passava as tardes brincando com uma lousinha na lavanderia de casa. Enquanto estava na sala de aula, eu sentava nas primeiras carteiras, sempre atenta e disponível. Eu fui uma estudante disciplinada porque entendi cedo o que era um comportamento esperado e como corresponder a isso. Mas quando eu estava sozinha, a lousinha me ajudava nas dificuldades que eu não mostrava na frente dos outros. De tanto me ver ali, minha mãe dizia que eu seria professora. Imagina?! Logo eu, tão insegura, envergonhada e insuficiente.
Escolhi ser Terapeuta Ocupacional. Porém, depois que desejei encarar o Mestrado, também me deparei com a docência. E, quando me vi professora, me constrangi com a lousa grande – não pelo seu tamanho, mas pelo peso da responsabilidade de escrever “verdades a serem reproduzidas” –, isso me assustou. Acho que foi assim que tudo mudou e também começou a fazer sentido para mim.
Narrativa 1
Entre as minhas primeiras memórias estão as brincadeiras com as bonecas Barbie e suas roupinhas costuradas pela minha mãe. Meu universo foi sempre alimentado pelas criações da minha mãe. Com o tempo, reuni grandes sacolas de roupinhas e acessórios das bonecas, a maioria criados por nós. Eu abria todas no chão do meu quarto e passava o dia inventando uma casa para elas, criando móveis, objetos e utensílios necessários. No final do dia, minha mãe entrava no quarto pedindo para guardar tudo que já tomara a dimensão do quarto inteiro, mas eu insistia que ainda não tinha dado tempo para brincar. Depois de a convencer a não guardar, eu passava dias convivendo com aquele outro mundo que habitava meu quarto, em sua arquitetura, que eu melhorava a cada dia.
Hoje vejo que o “não deu tempo de brincar” era a própria brincadeira em si. Uma brincadeira solitária, mas repleta de invenção, perfeccionismo e acompanhamento minucioso de detalhes.
Tecendo tramas: cartografia 2
Texto (sm.), do latim textum, ‘entrelaçamento, tecido’
Têxtil (adj.) ‘que se pode tecer’
Textura (sf.) ‘ato ou efeito de tecer’, ‘tecido, trama’
(Cunha2, p. 634)
Minha pesquisa de Doutorado3 se dedicou a uma escavação do enunciado atividade humana entre discursos de terapeutas ocupacionais brasileiras(os), em uma pesquisa-intervenção cartográfica4,5 amparada pela arquegenealogia de Michel Foucault6,7. Em um caminho permeado por disputas entre termos considerados centrais para terapeutas ocupacionais, entendi que precisaria me posicionar na contramão de correntes teóricas essencialistas e universalizantes.
Com o atravessamento da pandemia de Covid-19, novas formas de sentir, fazer e cuidar foram despertadas em meu corpo-pesquisadora. Percebi os paradoxos na atividade8: sentia muitas dores, angústias e dúvidas, mas também pude encontrar lugares de segurança e criação de novos sentidos para a existência: minha própria, dessa pesquisa e da Terapia Ocupacional. Aprender a bordar e desbordar, assim como acolher a escrita narrativa dos afetos, constituíram dispositivos de potência e (r)existência inerentes à pesquisa9. Assim, experimentei e cartografei diferentes formas do pesquisar.
Eu quis abrir uma fenda. O “estímulo ocupacional” me parecia exaltar o histórico colonial no Brasil, que apagou modos de fazer e explorou o agir dos povos originários e de diáspora forçada. A lógica institucional histórica no Brasil, sobretudo dessa população, incorporou a ocupação como função terapêutica e possibilidade (remota) de inserção social, associando ao trabalho um valor moral com recorte racial. Assim, foi condenado o “desocupado” e foi estabelecida qual ocupação é significativa. A colonização se justificou pelo desprovimento dos povos não brancos (considerados sem alma, cultura e civilidade) e o estímulo à ocupação serviu ao poder hegemônico como regulação e controle social.
Em referência às obras da artista plástica Adriana Varejão, “o que eu faço é a construção de uma desconstrução”10. É preciso fazer sangrar, abrir e remover as entranhas do que está por trás da criação de uma bela imagem ou narrativa. Antes de bordar precisei rasgar, revirar, olhar, sentir. Faço “Incisões nas paisagens” (Figura 1), em tecido de algodão, com bastidor de madeira e restos de linhas que sobraram de outros bordados.
A proximidade de experiências com a morte, o abuso e a repressão reconduzem a percepção sobre a vida. Olhar para a vulnerabilidade da vida é um desnudar da existência, mostra que a liberdade de agir é finita1; assim, experiências, pessoas e saberes considerados do Sul global – inclusive a escrita acadêmico-científica divergente – estão sob condição de sacrifício. A vida daquele que é passível de ser morto é desnuda e transitória1. Em oposição, os postulados da soberania se expressam em teorias e conceitos genéricos e universalizantes.
Lima11 considera que a condição de terapeutas ocupacionais se assemelha à dos públicos com os quais atua, já que habitam juntos o lugar da diferença e da exclusão. Na realidade de países considerados abaixo do desenvolvimento global, nos conectamos nessa percepção da nudez da vida perante a morte. Ao percebermos a falta de proteção da vida, o que emerge é a resistência à ordem social estabelecida e a emergência pela criação do novo. O valor sobre o sentido da vida se ressignifica ao criarmos novos sentidos e esperanças.
Furtado12 aponta que a Terapia Ocupacional precisa superar a reprodutividade para se aventurar no desconhecido, pois esse caminho incerto seria a única forma de alcançar a libertação: “Sendo que ela só vem se o viajante primeiro ousar revelar as coisas terríveis que viu”10 (p. 48) e, somente depois, será possível “cuidar do que se é”10 (p. 48).
A esperança busca uma coerência entre o ser-fazer-pensar-sentir-viver, que possa criar, gestar, cultivar, parir e cuidar em Terapia Ocupacional, cuidando da própria Terapia Ocupacional que está cindida e, muitas vezes, ressentida por falta de reconhecimento, por falta de condições, pelo cansaço das disputas e de atuação realmente transformadora. Os enunciados ressoam afetos, memórias, territórios, culturas e poderes que precisam ser revelados. Enquanto não nos reconhecermos em nossa pluralidade, como poderemos cuidar do que somos?
“Estou viva” (Figura 2) e à deriva da vida, como mostra o bordado livre em tecido de algodão, com linha para bordado. Lygia Clark em sua obra “Caminhando” (1963) mostra que o ato de (se) fazer expressa o tempo. “O tempo acontece em mim” diz a canção de Flaira Ferro (2015). A vida é a percepção do tempo em nós e nos outros seres, mas na lógica neoliberal acelera a atividade que é tomada em condição de utilidade: como usar o tempo e obter melhor desempenho.
Han1 adverte sobre o estímulo à produtividade na sociedade do desempenho, considerando o conceito de potência, que Lima13 também apresenta por meio de Agamben. A potência envolve não apenas a possibilidade de fazer, mas também a possibilidade de não fazer, de dizer não, de permitir-se a reflexão e a contemplação – esse que não seria um estado de passividade, mas de resistência ou atividade livre1. A ordenação da vida pelo trabalho, como única atividade humana valorada, e a impossibilidade de parar teriam separado o ser humano de sua potência, sua diferença de ritmo, suas pausas, silêncios e “suas incapacidades, tudo aquilo que não pode fazer, ou pode não fazer”11 (p. 119).
Num tal contexto, é urgente a relação de cada um com sua impotência, a atenção à sua própria vulnerabilidade, o cuidar-se que só pode se dar com a possibilidade da pausa e da lentificação. É a compreensão daquilo que nós não podemos, ou do que podemos não fazer, que dá consistência à nossa ação11. (p. 119)
O estímulo ocupacional e a hiperatividade são, paradoxalmente, “uma forma extremamente passiva de fazer, que não admite mais nenhuma ação livre”1 (p. 58). O cansaço, a solidão e a individualização do fazer são violências que destroem o sentimento comunitário, os elementos comuns e a possibilidade de proximidade1. A centralidade no trabalho condiciona a reprodução da existência gerando isolamento social e desenraizamento cultural, destruindo as possibilidades de sentir, pensar, agir e investir na produção do mundo comum14.
Por outro lado, o demorar-se contemplativo está ligado ao cultivo do ninho da experiência, onde mora o processo criativo, onde o belo é imperecível, onde se acessam as formas e os estados de duração da vida, uma atenção profunda, um repouso1. O que impacta a possibilidade de experiência também impacta a de existência15. A criação de mais vida está ligada à resistência aos estímulos opressivos, é um entregar-se à crise, pois somente interrompendo um estado é possível iniciar outro.
Nessa vulnerabilização do conhecer (produzir conhecimento), vivencio um “Rasgar-se e remendar-se” (Figura 3), como Louise Bourgeois mostrou com a “destruição do pai e reconstrução do pai”16, por meio de uma performance, com tecido de algodão, faca de cozinha, bastidor de madeira e linha para bordado.
Algumas marcas não se apagam: uma profissão majoritariamente composta por mulheres sob métricas de uma ciência machista e heterocispatriarcal17, que mantém julgamentos de que a Terapia Ocupacional seja frágil, seus conceitos confusos e suas histórias orais não representativas – para depois oferecer suas estratégias de um determinado fortalecimento. Seria possível rever o lugar da falta e impedir uma resposta dominadora? Escapar à produtividade?
Esse é um reflexo das concepções de humanidade, progresso e desenvolvimento separados da natureza e focados na hegemonia antropocêntrica do homem branco. Ailton Krenak nos alerta que agora é o momento em que o cuidado deveria estar acontecendo18.
Tomara que estes encontros criativos que ainda estamos tendo a oportunidade de manter animem a nossa prática, a nossa ação, e nos deem coragem para sair de uma atitude de negação da vida para um compromisso com a vida, em qualquer lugar, superando as nossas incapacidades de estender a visão a lugares para além daqueles a que estamos apegados e onde vivemos19. (p. 50)
Terapeutas ocupacionais brasileiras, no final dos anos 1990, consideraram que a profissão deveria ser vista de forma flexível, processual, complexa, feita de diferenças20, plural, multirreferencial, transdisciplinar21 e positiva, o que requer olhar e “cuidar do que se é”12 (p. 47).
Desejo que o ocupar seja convertido em “Ocupar-se de si” (Figura 4). Inspiro-me em Sophie Calle que provocou tantas mulheres com a exposição “Cuide de você” (2007), para sugerir “ocupe-se de você” (Bordado livre, com tecido de algodão, tule e linha para bordado) em vez de ocuparmos o outro ou sermos ocupados pela visão hegemônica.
Isso retoma o dispositivo cuidado de si apresentado por Foucault22 junto das tecnologias de si, estética da existência, práticas de liberdade, política e ética, que implicam uma verdade de si. A palavra e a escrita seriam formas de dedicação consigo e para comunicação com outros. A liberdade dependeria de dedicar, cultivar, cuidar e conhecer a si mesmo, desde que o sujeito não se sinta dominado por outros ou por si mesmo. “Autorar, em última medida, poderia ser entendido como um procedimento de dessubjetivação e de resistência e, nessa esteira, de construção de deslocamentos dos próprios dispositivos”23 (p. 508).
Narrar, contar e ouvir histórias, para Walter Benjamin24 seria “faculdade de intercambiar experiências” (p. 213). Experiência que também tem sido empobrecida pela falta de tempo e pelo excesso de trabalho, o que retoma a reflexão do autor25 sobre os soldados que voltaram dos campos de batalha mudos devido a uma pobreza de experiência partilhável. Para Benjamin, é a artesania da experiência que se liga à narrativa, é algo que mergulha na vida de quem narra, imprimindo, “na narrativa, a marca do narrador”24 (p. 221), trata-se de “um ofício manual”24 (p. 222).
Em contraste, Paulo Freire26 observou que uma das heranças coloniais brasileiras foi a cultura do silêncio. Isso porque o controle das relações e a ausência de diálogo prejudicaram a formação de uma vida comunitária, configurando um mutismo social mantido estrategicamente pela dominação cultural. O que se percebe como falta de consciência e criticidade histórica e social foi dada como condição natural, enfraquecendo a construção solidária e democrática da sociedade brasileira.
Os povos da floresta, contudo, mostram que as alianças afetivas são uma possibilidade de cuidado de si e da floresta, não porque a natureza lhes garante subsistência, mas por compreenderem a interdependência da vida de todos os seres. Assim como a sobrevivência da América Latina não depende dos países que se intitulam desenvolvidos, ao contrário, com a colonização eles que se alimentaram e se enriqueceram às custas de nossos territórios. É uma revisão de valores, pois nossa existência só depende de nós, ainda que vejamos apenas os conflitos que nos distanciam19,18.
Assim, “cuidar do que se é” convoca coletividade, consciência histórico-social e política contra-hegemônica. O “cuidar de si” não é individualizado como na fantasia moderna em que cada um é responsável apenas por si. Nesse sentido, devemos promover um cuidado com as gerações passadas e futuras, com comunidades e seres não humanos, com a constituição da vida comum, em interdependência, corresponsabilização e recuperação das cisões.
A tecitura de alianças e redes afetivas são possibilidades de reconhecer intrinsecamente a sustentação da vida comum. O que sustenta os fios de uma rede não são apenas os nós, eles podem ser desfeitos, refeitos, movimentados, apertados ou alargados, assim como os conceitos ou técnicas profissionais, são apenas pontos de referência transitórios, pois o que nos conecta verdadeiramente são o conjunto e o cuidado dessas relações.
Dos traçados, alinhavos e artesanias, nasce um “ninho e nós” (Figura 5), que conversa com a instalação de Karen Dolorez “Parindo novos nós” (2020). Cada um de nós vem marcando seu ponto e compondo essa rede, alguns pontos se aproximam mais de outros, mas estão todos lá. Quando as linhas se embaralham e geram um ‘nó’, ele também compõe a rede, não significa que precisa ser desfeito, pois nem tudo é compreensível. Entre ‘nós’, vê-se um ninho no bordado livre em tecido de algodão e linha para bordado.
Para Tim Ingold27, a malha mostra o “modo como os movimentos e ritmos da atividade humana e não humana são registrados no espaço vivido” (p. 39). A malha é a condição da vida, como uma aranha que tece seus fluxos no espaço sem a função de conectar pontos; afinal, “são as linhas ao longo das quais a aranha vive, e conduzem sua percepção e ação no mundo”27 (p. 40).
Alinhavos e entrelaçamentos sem acabamentos
Um outro lugar que a gente pode habitar além dessa terra dura: o lugar do sonho18. (p. 25)
Bordar uma superfície é gerar uma imagem no lado que se olha e, ao mesmo tempo, uma outra imagem em seu avesso. O “ponto atrás” e o “ponto haste”, no bordado, guardam uma relação em que o resultado de um é o verso do outro. A pesquisa produz um corpo pesquisador, ao passo que a pesquisa caminha, o corpo se desfaz e refaz. E esse corpo que se modifica também reconhece, solicita e impulsiona a pesquisa a novas direções mediante seus interesses, suas curiosidades e suas descobertas. Mesclar as narrativas, os bordados e o texto científico revelou camadas de implicação da pesquisadora nessa atividade que é o pesquisar, reconduzindo a construção conceitual sobre o que é pesquisa e o que é atividade humana.
São afetações entre construir, desconstruir e reconstruir, territorializar, desterritorializar e reterritorializar, uma contemplação da vida em seu “rasgar-se e remendar-se”, como disse Guimarães Rosa28. O lugar da artesania não aparente no verso de um bordado revela versos com sua poética própria, conduzindo novos sentidos para sustentação daquilo que aparece.
Essa desconstrução tensionou a trama até que rompeu com a formatação da racionalidade neutra e estéril. Nessa convocação se formou o plano de uma pesquisa-intervenção, com autopercepção e reativação de um corpo em atividade. Corpo-mulher in-munda do que já viveu e está vivendo. Isso que não fica fora dos bastidores, pois a produção do conhecimento é a produção da vida. O caminho da crítica é assumir a crítica de/em si e uma produção sensível é o que se apreende das relações com o mundo. Embrica-se em uma experiência sensível e crítica, de forma inseparável9.
Fragmentos de um corpo desnudo. 2021. Bordado livre. Tecido de algodão e linha para bordado. Obra de Isadora Cardinalli.
Afirmamos uma postura ético-estético-política ao inverter a crença sobre ser preciso conhecer para transformar, contemplando a ação transformadora que gera conhecimento29, nos amparando no método da cartografia, em que conhecer e fazer são inseparáveis, pois o fazer mobiliza o saber30.
A atividade de pesquisa gera pensamentos, reflexões, afetos, mundos, sensibilidades e devires, sendo, portanto, uma ação criadora. Compreender a pesquisa como atividade humana criadora implica reconhecer as reformulações em seu campo problemático. Essa atividade, adensada em seu território de sentidos, traz consigo patrimônios históricos e culturais dos modos de fazer, pensar, sentir e ser que se implicam no pesquisar, revendo normas que antecipam o agir para acompanhar a experiência singular em acontecimento31.
O bastidor que ampara o bordado pode ser móvel, caminhar junto com a linha, a agulha e as mãos, pode se ampliar e reduzir, se necessário. O gesto de bordar cada ponto, mais solto ou apertado, é único para cada mão-corpo, tal como para cada momento do bordar, já que o ponto realizado hoje difere do que foi acabado ontem. Texturas, tamanhos, cores, tensões, dureza e forças: as materialidades expressam o fazer de cada pessoa pelas possibilidades que cada material e ferramenta oferecem. E, a cada pausa, exibe-se uma obra, gera um efeito no mundo, um processo de criação que mostra acumulação cultural sobre o processo de conhecer-se e conhecer o além de si.
Há que se buscar o fio da meada e alinhavar essa manipulação do conhecimento in-mundo, pois não há neutralidade ou esterilidade possíveis. “Manipular é trazer para a mão [...] todo o “achado” cartográfico é, antes de tudo, pura manipulação”31 (p. 74). É preciso virar e revirar o bastidor, seu território de atuação, para acompanhar frente e verso, acolher a poesia do avesso, com seus acabamentos e fios soltos.
Assim, a atividade de pesquisar, contemplada em um processo de acompanhamento experiencial, o que aproxima cartografia e Terapia Ocupacional9, convoca as marcas do corpo a aparecerem à sua maneira, o que requisita metodologias sensíveis para sua apreciação singular. Essa composição mostra uma busca por coerência, nesse caso, terapeuta ocupacional-cartógrafa.
Agradecimentos
À Carolina da Silva Shiramizo pela leitura atenta das narrativas, à Fernanda de Cássia Ribeiro pelo convite à criação, e à Ivy Ota Calejon pelo despertar do desbordar. E ao registro fotográfico de Romerito Vieira Pontes das obras têxteis realizadas entre 2021 e 2022 pela primeira autora.
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Cardinalli I, Silva CR. Cartografias das tramas do texto ao têxtil: pesquisar como um realinhamento da atividade humana. Interface (Botucatu). 2026; 30: e250156 https://doi.org/10.1590/interface.250156
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Financiamento
A pesquisa foi aprovada por Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos da Universidade Federal de São Carlos, cujo número do parecer é 3.402.197. E recebeu financiamento de bolsa de estudo da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Capes.
Disponibilidade de dados
Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.
Referências
- 1 Han B-C. Sociedade do Cansaço. 2a ed. Petrópolis: Vozes; 2017.
- 2 Cunha AG. Dicionário etimológico da língua portuguesa. 4a ed. Rio de Janeiro: Lexikon; 2010.
- 3 Cardinalli I. Ninho de Nós: sentidos da atividade humana em terapia ocupacional [tese]. São Carlos (SP): Universidade Federal de São Carlos; 2022.
- 4 Passos E, Kastrup V, Escóssia L, organizadores. Pistas do método da cartografia: pesquisa-intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina; 2012.
- 5 Passos E, Kastrup V, Tedesco S, organizadores. Pistas do método da cartografia: a experiência da pesquisa e o plano comum. Porto Alegre: Sulina; 2014.
- 6 Foucault M. A arqueologia do saber. 8a ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária; 2016.
- 7 Foucault M. Microfísica do poder. 8a ed. São Paulo: Paz e Terra; 2018.
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8 Quarentei MS, Paolillo AR, Silva CR, Freitas HI, Cardinalli I, Ambrosio L, et al. NÓS-EM-PANDEMIA: um ANTImanual do fazer em tempos de paradoxos na atividade. Rev Interinst Bras Ter Ocup (Rio de Janeiro). 2020; 4(3):302-17. doi: 10.47222/2526-3544.rbto34476.
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Editado por
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Editora
Elizabeth Maria Freire de Araujo Lima https://orcid.org/0000-0003-0590-620X
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Editora de criação
Juliana Araujo Silva https://orcid.org/0000-0002-2028-9417














