Open-access Myrtaceae no Parque Natural Municipal das Dunas da Lagoa da Conceição, Florianópolis, Estado de Santa Catarina, Brasil1

Myrtaceae in the Parque Natural Municipal das Dunas da Lagoa da Conceição, Florianópolis, Santa Catarina State, Brazil

RESUMO

Myrtaceae está entre as famílias de angiospermas mais ricas da Floresta Atlântica. O presente trabalho teve como objetivo realizar o tratamento taxonômico das espécies de Myrtaceae ocorrentes no Parque Natural Municipal das Dunas da Lagoa da Conceição (Estado de Santa Catarina, sul do Brasil), uma unidade de conservação constituída por restinga. Amostras da família provenientes do herbário FLOR e coletadas em expedições de campo foram estudadas. Foram registradas 10 espécies distribuídas em quatro gêneros, sendo nove espécies nativas, e Psidium guajava, que é naturalizada. Myrcia e Eugenia são os gêneros mais ricos (4 e 3 spp., respectivamente), seguido por Psidium (2 spp.) e Campomanesia (1 sp.). Myrcia brasiliensis e M. multiflora foram registradas pela primeira vez no Parque. Além das descrições morfológicas das espécies, estão disponíveis fotos em campo e de espécimes herborizados, notas taxonômicas e uma chave de identificação.

Palavras-chave:
Floresta Atlântica; levantamento florístico; Myrteae; restinga; Taxonomia

ABSTRACT

Myrtaceae is one of the richest families of angiosperms in the Atlantic Forest. The aim of this study was to carry out a taxonomic treatment of the species of Myrtaceae that occur at the Municipal Natural Park of Dunas da Lagoa da Conceição (State of Santa Catarina, southern Brazil), a protected area covered by restinga vegetation. Specimens deposited at FLOR herbarium and samples collected in the field were studied. Ten species were recorded, belonging to four genera, nine of which are native, plus Psidium guajava, which is naturalized. Myrcia and Eugenia are the richest genera (4 and 3 spp., respectively), followed by Psidium (2 spp.) and Campomanesia (1 sp.). Myrcia brasiliensis and M. multiflora were registered for the first time in the Park. In addition to the species morphological descriptions, we present field and herbarium specimen photos, taxonomic notes, and identification keys.

Keywords:
Atlantic Forest; floristic survey; Myrteae; restinga; Taxonomy

Introdução

Myrtaceae é a oitava família mais rica de angiospermas do mundo, com 130 gêneros e aproximadamente 6.235 espécies (Wilson 2011, POWO 2025). Possui distribuição Pantropical com predominância no hemisfério sul e centros de diversidade na América do Sul, Austrália e Sudeste da Ásia (Thornhill et al. 2015, Wilson et al. 2001). De acordo com a classificação mais recente, Myrtaceae está dividida em duas subfamílias: Psiloxyloideae (duas tribos, com dois gêneros) e Myrtoideae (18 tribos, todos os demais gêneros) (Wilson 2011, Wilson et al. 2022). Todas as mirtáceas nativas das Américas pertencem à tribo Myrteae (subfamília Myrtoideae), com exceção de Metrosideros stipularis (Hook. & Arn.) Hook.f., incluída na tribo Metrosidereae.

Myrteae é a tribo mais rica de Myrtaceae, com cerca de 2.500 espécies em 51 gêneros (Vasconcelos et al. 2017). Algumas características de Myrteae são: hábito arbóreo ou arbustivo, com folhas opostas e tricomas simples (podendo ser dibraquiados), ovário ínfero, principalmente bi ou trilocular, frutos indeiscentes, carnosos e com sementes variando de uma a numerosas (Wilson 2011). Atualmente, a classificação de Myrteae é baseada tanto em evidências moleculares como morfológicas (Lucas et al. 2007, Vasconcelos et al. 2017), sendo reconhecidas nove subtribos que representam grupos monofiléticos (NMWG 2024).

No Brasil, Myrtaceae está representada por 1.213 espécies em 29 gêneros (incluindo alguns exóticos, como Eucalyptus L’Hér.), segundo Proença et al. (2025). Mais da metade da riqueza específica ocorre no domínio da Floresta Atlântica, correspondente a 710 espécies em 18 gêneros (Proença et al. 2025). Este domínio é altamente ameaçado principalmente devido à ação antrópica, restando hoje apenas 24% da sua cobertura vegetal original sendo que apenas 12,4% correspondem a florestas maduras (SOS Mata Atlântica 2025). Notavelmente, a Floresta Atlântica é reconhecida como um hotspot de biodiversidade mundial devido à sua elevada concentração de espécies endêmicas e às diversas ameaças que enfrenta (Myers et al. 2000, Mittermeier et al. 2011). Na região costeira, o desmatamento se torna ainda mais evidente, uma vez que, historicamente, é altamente afetada pela ocupação, pelo extrativismo e pela especulação imobiliária no Brasil (Araújo & Henriques 1984).

Estudos taxonômicos de Myrtaceae no Estado de Santa Catarina (SC) tiveram início com as publicações de Legrand (1961) e da Flora Ilustrada Catarinense (Legrand & Klein 1967, 1969a, 1969b, 1970, 1971a, 1971b, 1972, 1977a, 1977b, 1978), mas boa parte destes trabalhos encontra-se desatualizada. Nesse contexto, o Estado de Santa Catarina conta com poucos estudos taxonômicos atualizados de Myrtaceae, como os tratamentos de Vieira (2010), na Serra do Quiriri (nordeste do Estado), de Wagner & Fiaschi (2020), nas terras altas do Parque Nacional de São Joaquim (na região da Serra Catarinense), e de Pellis et al. (2021), no Monumento Natural Municipal da Lagoa do Peri (Ilha de Santa Catarina). Estes trabalhos encontraram, respectivamente, 26, 16 e 25 espécies da família, destacando-se os gêneros Myrceugenia O. Berg, Myrcia DC. e Eugenia L. (não necessariamente nessa ordem) como os mais ricos. Além disso, alguns trabalhos florísticos em áreas de restingas catarinenses, isto é, nas comunidades vegetacionais que ocorrem sobre solos predominantemente arenosos da região costeira do Estado (Falkenberg 1999), apontam a expressiva presença de espécies de Myrtaceae nestes locais (Bresolin 1979, Guimarães 2006, Oliveira 2020).

Abrigando uma grande área de restinga, o Parque Natural Municipal das Dunas da Lagoa da Conceição (PDLC; Figura 1), situado na porção leste a Ilha de Santa Catarina, carece de informações sobre sua flora, fato ainda mais importante se considerada a ampliação de sua área em 2018 (Florianópolis 2018), bem como sua importância para conservação de áreas de vegetação original na Ilha de Santa Catarina. Um levantamento florístico realizado na região antes da ampliação do Parque listou dez espécies de Myrtaceae (duas dessas exóticas), mas não indicou materiais testemunhos (Guimarães 2006).

Considerando a presença marcante de Myrtaceae na Floresta Atlântica e em áreas de restinga (Proença et al. 2025), e sendo o levantamento florístico um estudo base para o conhecimento da composição da comunidade vegetal de uma determinada área, o presente trabalho teve como objetivo inventariar a diversidade desta família no PDLC de forma a contribuir com a identificação taxonômica das espécies e a conservação de restingas em Santa Catarina.

Material e métodos

Área de estudo - O Parque Natural Municipal das Dunas da Lagoa da Conceição (Figura 1) é uma unidade de conservação situada no litoral leste do município de Florianópolis, Santa Catarina, entre as latitudes 27º36’24” - 27º38’39” S e as longitudes 48º26’49” - 48º28’05” W (Florianópolis 2018). O clima da região é do tipo Cfa (temperado subtropical) segundo a classificação de Köppen-Geiger (Peel et al. 2007). A temperatura média anual é de 20,4 °C, com verões que não ultrapassam 40 °C e invernos com temperaturas superiores a 0 °C. A média anual de precipitações é de 1.521 mm, distribuídas ao longo de todo o ano (Santos et al. 1997).

O Parque foi criado através do Decreto Municipal n° 231, de 16 de setembro de 1988, com o objetivo de proteger as restingas da Lagoa da Conceição e da praia da Joaquina, totalizando uma área de 500 hectares (Florianópolis 1988). Entretanto, teve sua área ampliada em 2018 com a inclusão das áreas de restinga adjacentes e da Lagoa Pequena e da Lagoa da Chica por meio da Lei Municipal n° 10.388, de 5 de junho de 2018, possuindo atualmente 706,76 hectares (Florianópolis 2018).

A área possui notável riqueza natural, tanto no sentido paisagístico como biótico, com fauna e flora diversificadas. Esta última está representada por 326 espécies, incluindo Calophyllum brasiliense Cambess., classificada como Criticamente em Perigo na Lista da flora ameaçada de extinção de Santa Catarina, Resolução 051/2014 (CASAN 2021). No entanto, esta unidade de conservação vem sofrendo impactos negativos pelo avanço da urbanização no entorno da Lagoa da Conceição (Aimi 2023, CASAN 2021), pela invasão de Pinus elliottii Engelm. (Dechoum et al. 2019), pelo despejo de efluentes e o rompimento de uma das lagoas da evapoinfiltração da ETE da Lagoa da Conceição, situada dentro dos limites do PDLC (Aimi 2023, CASAN 2021).

Figura 1
Mapa do Parque Natural Municipal das Dunas da Lagoa da Conceição, Florianópolis, Estado de Santa Catarina, Brasil [adaptado de Aimi 2023].
Figure 1
Map of the Parque Natural Municipal das Dunas da Lagoa da Conceição, Florianópolis, Santa Catarina State, Brasil [adapted from Aimi 2023].

Caracterização dos ambientes do Parque - De forma geral, a vegetação de restinga apresenta diferentes fisionomias, desde herbácea até arbórea, podendo ocorrer em mosaico ou em gradiente no sentido oceano-continente, onde a riqueza de espécies, lenhosidade e a altura da vegetação aumentam conforme se distancia do mar (Falkenberg 1999). No PDLC, Guimarães (2006) reconheceu oito habitats distintos, levando em consideração características físicas e o tipo de vegetação: praia, duna frontal, dunas internas (móveis, semifixas e fixas) e baixadas (secas, úmidas e alagadas) (Figura 2). A praia possui vegetação predominantemente herbácea e com riqueza de espécies muito reduzida, enquanto as dunas frontais possuem maior riqueza, com vegetação esparsa que vai de herbácea-subarbustiva até arbustos isolados. As dunas internas são móveis, semifixas ou fixas, dependendo da cobertura vegetal que varia de ausente/escassa até superior a 4/5 da superfície do solo, com vegetação herbáceo-subarbustiva a arbustiva de maior porte (até 2,5 m de altura). As baixadas são subdivididas em secas, úmidas e alagadas, de acordo com o período em que permanecem inundadas (dias, semanas/meses ou permanente, respectivamente); nesse caso, a vegetação está intimamente relacionada com as inundações, sendo principalmente herbáceo-subarbustiva, mas podendo haver arbustos e moitas arbustivas isoladas.

Figura 2
Ambientes do Parque Natural Municipal das Dunas da Lagoa da Conceição. a. Praia e duna frontal. b. Dunas internas móveis e semifixas. c. Vegetação herbácea em dunas internas fixas e semifixas, baixadas secas, úmidas e alagadas; ao fundo, dunas com vegetação arbustiva. Fotos: Marcelo Yutaro.
Figure 2
Environments of the Municipal Natural Park of Dunas da Lagoa da Conceição. a. Beach and frontal dune. b. Mobile and semi-fixed internal dunes. c. Herbaceous vegetation on fixed and semi-fixed internal dunes, dry, wet and flooded lowlands; in the background, dunes with shrub vegetation. Photos: Marcelo Yutaro.

Tratamento taxonômico - Apenas as espécies nativas e naturalizadas do Brasil foram consideradas neste trabalho, excluindo, portanto, árvores de Eucalyptus que são encontradas na área do PDLC. O material botânico foi coletado em cinco saídas a campo, de dezembro de 2022 a fevereiro de 2023. Foram priorizados locais com pouca ou nenhuma coleta de Myrtaceae, sendo elas: trilha a partir da Servidão da Lua (região conhecida como Beco da Lua), Lagoa Pequena e Lagoa da Chica, incluindo nesta última o trecho de praia em frente a lagoa. Foram coletados todos os exemplares de Myrtaceae encontrados em fase reprodutiva. Os materiais foram fotografados e georreferenciados em campo. Informações sobre altura, hábito, fenologia, coloração e estágio de maturação de frutos foram anotadas.

As coletas foram depositadas no herbário FLOR (acrônimo segundo Thiers 2025). Os espécimes, bem como outros previamente coletados no Parque e depositados no herbário FLOR, foram analisados e morfologicamente descritos. Também foram feitas consultas a banco de dados digitais, como o SpeciesLink (https://specieslink.net/) e o Herbário Virtual Reflora (https://reflora.jbrj.gov.br/reflora/herbarioVirtual/), em busca de materiais extras e duplicatas. As medidas de partes florais foram tomadas a partir de material reidratado. Para complementar a descrição de espécies com poucos registros, foram analisados também espécimes oriundos de outras localidades do litoral do Estado de Santa Catarina, Brasil, os quais estão identificados como material adicional. A terminologia morfológica geral utilizada seguiu Gonçalves e Lorenzi (2007). Dados de floração e frutificação foram descritos com base nas informações contidas nas etiquetas de coleta. A descrição taxonômica da família apresentada neste trabalho contempla apenas a variedade de formas das espécies nativas (ou naturalizadas, no caso de Psidium guajava) no Brasil.

Resultados e Discussão

Foram registradas 10 espécies de Myrtaceae no PDLC, distribuídas em quatro gêneros (Campomanesia Ruiz & Pav., Eugenia L., Myrcia DC. e Psidium L.), sendo nove espécies nativas e Psidium guajava L., que é naturalizada no Brasil (Tuler et al. 2025). O número de espécies por gênero foi: quatro em Myrcia, três em Eugenia, duas em Psidium, e uma em Campomanesia. Duas espécies foram registradas no Parque pela primeira vez: Myrcia brasiliensis e M. multiflora (Lam.) DC. Todas as outras espécies foram listadas em um estudo florístico realizado no Parque há mais de 15 anos (Guimarães 2006); este mesmo trabalho também reportou a presença de espécies de Eucalyputs e Syzygium, as quais não foram consideradas no presente tratamento taxonômico. Psidium guajava, apesar de ter sido registrada por Guimarães (2006), não contava com coletas do Parque depositadas em herbário.

Até o momento, não existem outros estudos que tratem da família Myrtaceae exclusivamente em áreas de restinga na Região Sul do Brasil. Os poucos trabalhos que existem em áreas litorâneas desta Região abrangem áreas de floresta ombrófila densa, além de resingas, e, portanto, a diversidade de espécies da família é maior do que a encontrada aqui (Lima et al. 2015 [33 spp.], Vieira & Quadros 2006 [17 spp.]). Por outro lado, tratamentos taxonômicos de Myrtaceae já foram realizados em áreas de restinga das Regiões Sudeste e Nordeste do país. Em todos os casos, a diversidade de espécies foi maior do que a encontrada aqui, mas vale ressaltar que as áreas geográficas estudadas são também maiores do que o PDLC (e.g. Giaretta & Peixoto 2015 [52 spp.], Lourenço & Barbosa 2012 [23 spp.], Melo et al. 2023 [85 spp.], Souza et al. 2007, Souza & Morim 2008 [os dois últimos totalizando 30 spp.]).

A riqueza de espécies registrada no Parque para Myrcia e Eugenia está em consonância com os dados de Proença et al. (2025), que apontam estes gêneros como os mais ricos de Myrtaceae no Brasil. Esses gêneros possuem 410 e 420 espécies respectivamente, a maioria encontrada na Floresta Atlântica (Mazine et al. 2025; Santos et al. 2025). Em Santa Catarina, Myrcia está representada por 53 espécies (Santos et al., 2025) e Eugenia por 65 (Mazine et al. 2025), sendo estes também bastante expressivos em ambientes de restinga do Estado (Bresolin 1979, Danilevicz et al. 1990, Melo & Boeger 2015, Oliveira 2020).

O gênero Campomanesia está representado por 35 espécies no Brasil, de um total de 42 espécies conhecidas (Oliveira et al. 2025, POWO 2025). Das espécies brasileiras, 29 ocorrem no domínio da Floresta Atlântica, e nove em Santa Catarina (Oliveira et al. 2025). Psidium apresenta 60 espécies no Brasil, também com riqueza concentrada no domínio da Floresta Atlântica, onde são registradas 35 espécies. Em Santa Catarina ocorrem nove espécies deste gênero (Tuler et al. 2025). Psidium cattleyanum é uma espécie comum no PDLC, tipicamente encontrada em matas de restinga no sul do país (Scherer et al. 2005, Lima et al. 2015, Oliveira 2020).

Myrtaceae Juss., Gen. Pl.: 322. 1789.

Árvores, arvoretas ou arbustos. Plantas glabras ou com tricomas simples ou dibraquiados. Folhas opostas, simples, inteiras, com venação peninérvea e nervuras secundárias formando nervura marginal, e com glândulas translúcidas evidentes; estípulas ausentes. Inflorescências axilares ou terminais, em racemos, glomérulos, panículas, fascículos, dicásios ou flores solitárias. Flores predominantemente bissexuadas e actinomorfas; cálice 4-5-mero, aberto ou fechado nos botões florais (nesse caso, abrindo-se em forma de caliptra ou irregularmente); corola 4-5-mera com pétalas geralmente brancas; hipanto prolongado ou não acima do ovário; estames quase sempre numerosos, livres; ovário ínfero, 2-5(-18)-locular, placentação axial. Frutos carnosos do tipo baga. Sementes 1-numerosas. (Adaptado de Kawasaki 1989, Landrum & Kawasaki 1997 e Wilson 2011, para contemplar apenas características das espécies nativas do Brasil).

Chave de identificação para as espécies ocorrentes no PDLC

  • 1. Inflorescências paniculadas
    • 2. Folhas lanceoladas, raramente estreito-elípticas .................................................................... 8. Myrcia splendens

    • 2. Folhas obovadas a elípticas
      • 3. Folhas com ápice acuminado ou cuspidado, raramente agudo; flores com hipanto glabro exteriormente ........ .......................................................................................................................................... 6. Myrcia multiflora

      • 3. Folhas com ápice obtuso ou arredondado, às vezes agudo; flores com hipanto contendo tricomas exteriormente
        • 4. Folhas com lâminas de 2,7-4,2 cm compr.; nervura marginal 0,6-1,5 mm da borda.......... 7. Myrcia palustris

        • 4. Folhas com lâminas de 4,3-8,6 cm compr.; nervura marginal 0,3-0,8 mm da borda..... 5. Myrcia brasiliensis

  • 1. Inflorescências fasciculadas, auxotélicas (eixo racemiforme com crescimento continuado dando origem a folhas normais após o desenvolvimento da inflorescência, aparentando flores solitárias e laterais) ou flores isoladas
    • 5. Flores com cálice 4-mero
      • 6. Arvoretas ou árvores; folhas com pecíolos de 5,4-10,7 mm compr.; frutos elipsoides ............................ ................................................................................................................................ 2. Eugenia astringens

      • 6. Arbustos, raramente pequenas árvores; folhas com pecíolos de 1,1-4 mm compr.; frutos globosos
        • 7. Folhas obovadas, raramente elípticas ou orbiculares; hipanto das flores e frutos lisos..................... ..................................................................................................................... 3. Eugenia catharinae

        • 7. Folhas elípticas ou ovadas; hipanto das flores e frutos costados........................ 4. Eugenia uniflora

    • 5. Flores com cálice 5-mero
      • 8. Folhas com margem repanda ou raramente ondulada, lâminas de 2,4-4,6 cm compr. .............. ....................................................................................................... 1. Campomanesia littoralis

      • 8’. Folhas com margem lisa, lâminas de 5,6-10,2 cm compr.
        • 9. Folhas obovadas, com base aguda e 7-12 nervuras laterais de cada lado da nervura central.... ........................................................................................................ 9. Psidium cattleyanum

        • 9’. Folhas elípticas, com base obtusa, às vezes arredondada, e 17-19 nervuras laterais de cada lado da nervura central 10. Psidium guajava

1.Campomanesia littoralis D. Legrand, Sellowia 13: 335. 1961 . Figuras 3 a, 5 a

Subarbustos a arvoretas até 2 m alt. Ramos, pecíolos e folhas em ambas as faces (sobre a nervura central e eventualmente nas secundárias) e pedúnculos com tricomas esparsos ou glabros. Folhas com pecíolos 5,9-12,6 mm compr.; lâmina 2,4-4,6 × 2-3,2 cm, elíptica, orbicular ou ovada, ápice acuminado, raro cuspidado ou obtuso, base obtusa ou arredondada, raro subcordada, margem repanda, raro ondulada, nervura central sulcada na face adaxial, raramente plana próximo do ápice, nervuras secundárias 5-8 de cada lado, nervura marginal 0,9-2,1 mm da borda. Pedúnculos unifloros 22,9-32,8 mm compr.; bractéolas 3,7-5,8 × 0,7-1,4 mm. Flores com hipanto não elevado acima do ovário, exteriormente com tricomas esparsos ou glabro, não costado; cálice aberto no botão floral, 5-mero; ovário 7-10-locular. Frutos globosos, 5,9-13,2 × 7,5-12,5 mm, lisos, alaranjados quando maduros.

Material examinado: BRASIL. Santa Catarina: Florianópolis, Lagoa da Conceição, 12-XII-1968, R.M. Klein 8053 (FLOR, HBR, HUEFS); Parque Municipal das Dunas da Lagoa da Conceição, 30-I-2004, T.B. Guimarães 456 (FLOR); idem, 23-X-2004, T.B. Guimarães 721 (CRI, FLOR, HUEFS); idem, Trilha do Beco da Lua, 05-XII-2022, B.R. Severgnini 08 (FLOR); idem, 27-I-2023, B.R. Severgnini 28 (FLOR); idem, 27-I-2023, B.R. Severgnini 32 (FLOR); idem, Praia Lomba do Sabão, 14-II-2023, B.R. Severgnini 40 (FLOR).

Distribuição e comentários: Endêmica do Brasil, a espécie ocorre exclusivamente no domínio da Floresta Atlântica, nos Estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul (Oliveira et al. 2025). As folhas com margem repanda, os pecíolos longos e o elevado número de lóculos nos ovários são características diagnósticas desta espécie. No PDLC foi observada em áreas de vegetação de restinga arbustiva de dunas internas fixas e vegetação herbácea-subarbustiva na transição entre a praia e a duna frontal. Até recentemente, C. littoralis era considerada como variedade de C. xanthocarpa Mart. ex O. Berg, mas características moleculares e morfológicas claramente diferenciam esses táxons, fazendo com que sejam consideradas espécies distintas (Oliveira et al. 2024). Coletada no Parque com flores em outubro, dezembro e fevereiro, e com frutos em dezembro e janeiro.

Figura 3
a. Campomanesia littoralis D. Legrand, folhas e frutos maduros. b-c. Eugenia astringens Cambess.; b. frutos imaturos; c. ramo com folhas e botões. d-e. Eugenia catharinae O. Berg; d. flor; e. ramo com folhas e frutos em diferentes estágios de maturação. f-g. Eugenia uniflora L.; f. ramo com folhas, flores e botões; g. frutos em diferentes estágios de maturação. h. Myrcia brasiliensis Kiaersk., ramo com folhas e fruto imaturo.
Figure 3
a. Campomanesia littoralis D. Legrand, leaves and mature fruits. b-c. Eugenia astringens Cambess.; b. immature fruits; c. branch with leaves and flower buds. d-e. Eugenia catharinae O. Berg; d. flower; e. branch with leaves and fruits in different stages of maturity. f-g. Eugenia uniflora L.; f. Branch with leaves, flowers and flower buds; g. fruits in different stages of maturity. h. Myrcia brasiliensis Kiaersk., branch with leaves and an immature fruit.

Figura 5
a. Campomanesia littoralis D. Legrand; b. Eugenia astringens Cambess.; c. Eugenia catharinae O. Berg; d. Eugenia uniflora L.
Figure 5
a. Campomanesia littoralis D. Legrand; b. Eugenia astringens Cambess.; c. Eugenia catharinae O. Berg; d. Eugenia uniflora L.

2.Eugenia astringens Cambess., Fl. Bras. Merid. 2(20): 361. 1833. Figuras 3 b, 3 c, 5 b

Arvoretas a árvores até 4 m alt. Plantas glabras. Folhas com pecíolos 5,4-10,7 mm compr.; lâmina 3,4-9 × 1,8-5,3 cm, elíptica ou amplamente elíptica, ápice acuminado, base aguda ou obtusa, raro arredondada, margem inteira, nervura central sulcada na face adaxial, nervuras secundárias 5-10 de cada lado, nervura marginal 1,5-4 mm da borda. Inflorescências fascículos, pedicelos 1,6-13,1 mm compr.; bractéolas 0,1-1,3 × 1,2-1,3 mm. Flores com hipanto não elevado acima do ovário; exteriormente glabro, não costado; cálice aberto no botão floral, 4-mero; ovário não observado. Frutos elipsoides, 5,3-13 × 4-8 mm, lisos, roxo-escuros quando maduros.

Material examinado: BRASIL. Santa Catarina: Florianópolis, Parque Municipal das Dunas da Lagoa da Conceição, 26-V-2005, T.B. Guimarães 1078 (FLOR); idem, 22-V-2004; T.B. Guimarães 568 (FLOR); idem, Lagoa da Chica, 14-II-2023, B.R. Severgnini 39 (FLOR).

Distribuição e comentários: Espécie endêmica do Brasil, ocorre exclusivamente no domínio da Floresta Atlântica, do Sergipe a Santa Catarina (Mazine et al. 2025). Eugenia astringens é frequentemente encontrada nas coleções de herbários identificada como E. umbelliflora O. Berg, atualmente considerado como um sinônimo heterotípico de E. astringens (Mazine et al. 2025). Caracteriza-se pelas folhas largas com ápice acuminado e pelas inflorescências fasciculadas. Apesar de não ter sido observada com flores abertas no presente trabalho, Lima et al. (2015) e Pellis et al. (2021) destacam a diferença de tamanho entre as pétalas e sépalas como uma característica importante desta espécie, sendo as pétalas consideravelmente maiores que as sépalas. Estas, por sua vez, costumam ser bastante rudimentares e pouco visíveis. Na área do PDLC, foi observada apenas na Lagoa da Chica, local com vegetação antropizada. Coletada no Parque com flores em fevereiro, e com frutos em fevereiro e maio.

3.Eugenia catharinae O. Berg, Fl. Bras. 14(1): 259. 1857. Figuras 3 d, 3 e, 5 c

Arbustos até 1,7 m alt. Plantas glabras. Folhas com pecíolos 1,1-4 mm compr.; lâmina 2,6-4,8 × 1,6-4,2 cm, obovada, raro elíptica ou orbicular, ápice arredondado ou obtuso, base obtusa ou aguda, raro arredondada, margem inteira, nervura central sulcada na face adaxial ou plana próximo do ápice, nervuras secundárias 5-8 de cada lado, nervura marginal 1-2,5 mm da borda. Inflorescências fascículos, pedicelos 1,4-6 mm compr.; bractéolas 0,7-1,7 × 0,7-1,4 mm. Flores com hipanto não elevado acima do ovário; exteriormente glabro, não costado; cálice aberto no botão floral, 4-mero; ovário 2-locular. Frutos globosos, 3,8-6,2 × 3,9-7,3 mm, lisos, roxo-escuros quando maduros.

Material examinado: BRASIL. Santa Catarina: Florianópolis, Parque Municipal das Dunas da Lagoa da Conceição, 30-I-2004, T.B. Guimarães 459 (FLOR); idem, 20-XII-2004, T.B. Guimarães 883 (FLOR); idem, Trilha do Beco da Lua, 15-XII-2022, B.R. Severgnini 11 (FLOR); idem, 05-I-2023, B.R. Severgnini 20 (FLOR); idem, Praia Lomba do Sabão, 14-II-2023, B.R. Severgnini 41 (FLOR).

Distribuição e comentários: Espécie endêmica do Brasil, ocorre exclusivamente no domínio da Floresta Atlântica, nos Estados do Espírito Santo, Rio de Janeiro, Paraná e Santa Catarina (Mazine et al. 2025). Esta espécie possui folhas lisas, brilhantes, com comprimento e largura semelhantes, podendo ser arredondadas e, às vezes, com margem revoluta. São também bastante aromáticas quando maceradas e as glândulas translúcidas são de fácil observação a olho nu. As inflorescências são ramifloras, as bractéolas são ovadas, e as sépalas possuem ápice arredondado. No PDLC, a espécie foi encontrada em áreas de restinga com vegetação arbustiva e herbácea-subarbustiva, em dunas internas fixas e entre a praia e duna frontal. Foi encontrada também próxima à Lagoa Pequena, apresentando somente ramos estéreis e, portanto, não foi coletada. No Parque, foi coletada com flores em janeiro, fevereiro e dezembro, e com frutos em janeiro e dezembro.

4.Eugenia uniflora L., Sp. Pl. 1: 470. 1753. Figuras 3 f, 3 g, 5 d

Arbustos a árvores até 4 m alt. Plantas glabras, exceto por tricomas esparsos nos ramos jovens. Folhas com pecíolos 1,9-3,9 mm compr.; lâmina 2,5-5,4 × 1,2-2,4 cm, elíptica ou ovada, ápice acuminado a agudo ou obtuso, base arredondada a obtusa, margem inteira, nervura central sulcada na face adaxial, nervuras secundárias 7-11 de cada lado, nervura marginal 1,1-2,1 mm da borda. Inflorescências auxotélicas, pedicelos 18,5-34,1 mm compr.; bractéolas 1,2-3,4 × 0,3-1,5 mm. Flores com hipanto não elevado acima do ovário; exteriormente glabro, costado; cálice aberto no botão floral, 4-mero; ovário 2-locular. Frutos globosos, 3,1-9,7 × 3,6-11,6 mm, costados longitudinalmente, vermelhos quando maduros.

Material examinado: BRASIL. Santa Catarina: Florianópolis, Parque Municipal das Dunas da Lagoa da Conceição, 23-X-2004, T.B. Guimarães 700 (FLOR); idem, Lagoa Pequena, 27-I-2023, B.R. Severgnini 25 (FLOR); idem, 27-I-2023, B.R. Severgnini 26 (FLOR); idem, Lagoa da Chica, 14-II-2023, B.R. Severgnini 43 (FLOR).

Distribuição e comentários: A espécie tem distribuição nativa no Brasil, Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai (POWO 2025). No Brasil, ocorre nos domínios da Caatinga, Cerrado, Floresta Atlântica e Pampa, no Mato Grosso do Sul e de Alagoas ao Rio Grande do Sul (Mazine et al. 2025). Pode ser distinguida pelas inflorescências denominadas “auxotélicas”, na qual o eixo racemiforme tem seu crescimento continuado dando origem a folhas normais após o desenvolvimento da inflorescência (Briggs & Jonhson 1979), aparentando pedúnculos florais solitários e laterais, e pelo hipanto floral e frutos costados longitudinalmente. Na área do PDLC, foi encontrada somente em locais antropizados, próximo a uma estrada na Lagoa Pequena ou compondo o paisagismo na Lagoa da Chica. Coletada no Parque com flores em janeiro e fevereiro, e com frutos em janeiro, fevereiro e outubro.

5.Myrcia brasiliensis Kiaersk., Enum. Myrt. Bras.: 102. 1893. Figuras 3 h, 6 a

Arvoretas a árvores até 5 m alt. Ramos com tricomas esparsos a moderados, podendo ser densos nos mais jovens; pecíolos e folhas em ambas as faces (sobre a nervura central e eventualmente nas secundárias) com tricomas moderados a densos, esparsos nas lâminas; inflorescências com tricomas esparsos a moderados. Folhas com pecíolos 2,5-5,7 mm compr.; lâmina 4,3-8,6 × 2,2-3,9 cm, elíptica ou obovada, ápice obtuso ou arredondado, base obtusa ou aguda, margem inteira, nervura central sulcada na face adaxial tornando-se plana próximo do ápice, nervuras secundárias 8-12 de cada lado, nervura marginal 0,3-0,8 mm da borda. Inflorescências panículas 35,5-106,7 mm compr.; pedicelos até 2 mm compr.; bractéolas 2-3 × 0,8-1,1 mm. Flores com hipanto elevado acima do ovário, exteriormente com tricomas densos, não costado; cálice aberto no botão floral, 5-mero; ovário 3-4-locular. Frutos globosos, 4,5-6,8 × 5,3-8,5 mm, lisos, amarelados quando maduros.

Material examinado: BRASIL. Santa Catarina: Florianópolis, Parque Municipal das Dunas da Lagoa da Conceição, Trilha do Beco da Lua, ao lado da passarela de madeira sobre área alagada, 23-V-23, D.F. Lima 624 (FLOR).

Material adicional: BRASIL. Santa Catarina: Camboriú, estrada que liga SC 486-Camboriú (entroncamento para salto) a 6 km do asfalto, 28-IV-81, J.M. Campos 36 (FLOR, HBR); Florianópolis, Parque Estadual do Rio Vermelho, perto da estrada, 7-XII-2012, A. Nuernberg 896 (FLOR); idem, Parque Municipal da Lagoa do Peri, Trilha da Gurita, 18-III-2018, V.F. Pellis 4 (FLOR).

Distribuição e comentários: Espécie endêmica do Brasil, ocorre exclusivamente no domínio da Floresta Atlântica, da Bahia ao Rio Grande do Sul (Santos et al. 2025). As folhas são quase sempre elípticas com margem revoluta. Os tricomas moderados a densos, principalmente em ramos jovens, pecíolos, nervuras das folhas, sépalas e hipanto são também características marcantes desta espécie. Myrcia brasiliensis pode ser similar à M. palutris, mas em geral apresenta folhas maiores. Este trabalho apresenta o primeiro registro de M. brasiliensis no PDLC. A espécie não parece ser comum no Parque, foi observada apenas em uma área alagada de baixada úmida com menos de cinco indivíduos de troncos parcialmente submersos. Coletada no Parque com flores em dezembro, e com frutos de março a maio.

6.Myrcia multiflora (Lam.) DC., Prodr. 3: 244. 1828. Figuras 4 a, 4 b, 6 b

Árvores até 3,6 m alt. Ramos, pecíolos, face abaxial das folhas (sobre a nervura central) e inflorescências com tricomas esparsos, eventualmente glabros. Folhas com pecíolos 0,7-2,9 mm compr.; lâmina 2,6-4,4 × 1,7-2,6 cm, obovada a elíptica, ápice acuminado a cuspidado, raro agudo, base aguda, raro obtusa, margem inteira, nervura central plana ou sulcada apenas próximo a base, nervuras secundárias 9-13 de cada lado, nervura marginal 0,4-1,5 mm da borda. Inflorescências panículas 21,9-83 mm compr.; pedicelos 0,6-2,9 mm compr.; bractéolas 0,4-0,8 × 0,2-0,3 mm. Flores com hipanto elevado acima do ovário, glabro exteriormente, não costado; cálice aberto no botão floral, 5-mero; ovário 2-locular. Frutos globosos, 2,4-4,5 × 2,9-5,2 mm, lisos, avermelhados quando maduros.

Material examinado: BRASIL. Santa Catarina: Florianópolis, Parque Natural Municipal das Dunas da Lagoa da Conceição, Trilha do Beco da Lua, 05-XII-2022, B.R. Severgnini 01 (FLOR); idem, 05-XII-2022, B.R. Severgnini 02 (FLOR); idem, 15-XII-2022, B.R. Severgnini 13 (FLOR); idem, 05-I-2023, B.R. Severgnini 24 (FLOR); idem, Lagoa Pequena, 27-I-2023, B.R. Severgnini 33 (FLOR); idem, Lagoa da Chica, 14-II-2023, B.R. Severgnini 38 (FLOR).

Distribuição e comentários: A espécie tem distribuição ampla na América do Sul, não tendo registros apenas na Colômbia e Argentina (POWO 2025). No Brasil, ocorre nos domínios da Amazônia, Caatinga, Cerrado, Floresta Atlântica e Pampa, em toda a Região Sul, Sudeste e Centro-Oeste. No Nordeste ocorre nos Estados da Bahia e Rio Grande do Norte. No Norte ocorre no Acre, Amazonas, Pará e Tocantins (Santos et al. 2025). Pode ser reconhecida pelas folhas quase sempre elípticas com ápice acuminado e base da folha geralmente revoluta. Em ramos jovens, as folhas frequentemente apresentam coloração avermelhada. As panículas apresentam grande quantidade de flores que são pequenas assim como os frutos. As bractéolas são bem estreitas e podem apresentar coloração alaranjada em material herborizado. Apesar de ser uma espécie comum, não havia registros de M. multiflora no PDLC até os esforços de coleta do presente trabalho. No PDLC, a espécie foi encontrada em vegetação de restinga arbustiva/arbórea, frequentemente em locais com solo úmido nas proximidades de áreas alagadas, ou em regiões alagadas de baixadas úmidas, estando com o tronco parcialmente submerso na água. Foi encontrada também em dunas internas fixas. Coletada no Parque com flores em janeiro e dezembro, e com frutos em janeiro e fevereiro.

Figura 4
a-b. Myrcia multiflora (Lam.) DC.; a. ramo com folhas e frutos em diferentes estágios de maturação; b. ramo com folhas e botões. c. Myrcia palustris DC., ramo com folhas e flores. d. Myrcia splendens (Sw.) DC., ramo com folhas e frutos maduros. e-f. Psidium cattleyanum Sabine; e. ramo com folhas e frutos imaturos; f. ramo com folhas, botões e flores. g. Psidium guajava L., ramo com folhas e frutos imaturos.
Figure 4
a-b. Myrcia multiflora (Lam.) DC.; a. Branch with leaves and fruits in different stages of maturity; b. branch with leaves and flower buds. c. Myrcia palustris DC., branch with leaves and flowers. d. Myrcia splendens (Sw.) DC., branch with leaves and mature fruits. e-f. Psidium cattleyanum Sabine; e. branch with leaves and immature fruits; f. branch with leaves and flower buds and open flowers. g. Psidium guajava L., branch with leaves and immature fruits.

Figura 6
a. Myrcia brasiliensis Kiaersk.; b. Myrcia multiflora (Lam.) DC.; c. Myrcia palustres DC.; d. Myrcia splendens (Sw.) DC.
Figure 6
a. Myrcia brasiliensis Kiaersk.; b. Myrcia multiflora (Lam.) DC.; c. Myrcia palustres DC.; d. Myrcia splendens (Sw.) DC.

7.Myrcia palustris DC., Prodr. 3: 246. 1828. Figuras 4 c, 6 c

Arbustos até 2 m de alt. Ramos, pecíolos e inflorescências com tricomas moderados a densos, raro esparsos ou glabrescentes; face adaxial das folhas, eventualmente apenas sobre a nervura central, com tricomas esparsos; face abaxial das folhas com tricomas esparsos a moderados. Folhas com pecíolos 1,9-3,5 mm compr.; lâmina 2,7-4,2 × 1,1-2,4 cm, elípticas ou obovadas, ápice obtuso ou arredondado, raro agudo, base aguda ou obtusa, raro arredondada, margem inteira, nervura central sulcada na face adaxial ou plana próximo do ápice, nervuras secundárias 9-15 de cada lado, nervura marginal 0,6-1,5 mm da borda. Inflorescências panículas 27-71,4 mm compr.; pedicelos 0,9-2 mm compr.; bractéolas 1,5-4,1 × 1-1,3 mm. Flores com hipanto elevado acima do ovário, exteriormente com tricomas moderados a densos, não costado; cálice aberto no botão floral, 5-mero; ovário 2-(3)-locular. Frutos globosos, 3,5-5,7 × 4-5,8 mm, lisos, roxos quando maduros.

Material examinado: BRASIL. Santa Catarina: Florianópolis, Parque Municipal das Dunas da Lagoa da Conceição, 22-XII-2004, T.B. Guimarães 1077 (FLOR); idem, 18-III-2005, T.B. Guimarães 1076 (FLOR); idem, 21-III-2005, T.B. Guimarães 956 (FLOR); idem, 26-III-2004, T.B. Guimarães 505 (FLOR); idem, 30-I-2004, T.B. Guimarães 461 (FLOR); idem, Trilha do Beco da Lua, 12-XII-2019, D.F. Lima 564 (FLOR); idem, Lagoa Pequena, 27-I-2023, B.R. Severgnini 30 (FLOR); idem, 27-I-2023, B.R. Severgnini 31 (FLOR); idem, Praia Lomba do Sabão, 14-II-2023, B.R. Severgnini 42 (FLOR).

Distribuição e comentários: A espécie ocorre no Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai (POWO 2025). No Brasil, é distribuída nos domínios da Caatinga e Floresta Atlântica, em todos os Estados das Regiões Sul e Sudeste (Santos et al. 2025). As flores possuem coloração branca, podendo se tornar alaranjadas quando secas (tanto no campo quanto nos espécimes herborizados). Myrcia palustris assemelha-se a M. brasiliensis em todas as características avaliadas, diferenciando-se apenas no tamanho das folhas, que tendem a ser maiores em M. brasiliensis. No PDLC, a espécie é comum e foi observada em áreas de restinga com vegetação herbácea-subarbustiva entre a praia e duna frontal, e vegetação subarbustiva a arbustiva/arbórea de dunas internas fixas. Ocorre também na transição entre dunas internas semifixas e móveis, formando agrupamentos densos que cobrem parcialmente a superfície da duna. Coletada no Parque com flores em janeiro e dezembro, e com frutos em fevereiro e março.

8.Myrcia splendens (Sw.) DC., Prodr. 3: 244. 1828. Figuras 4 d, 6 d

Arbustos a arvoretas até 2 m de alt. Ramos, pecíolos e inflorescências com tricomas esparsos a densos; face adaxial das folhas, eventualmente apenas sobre a nervura central, e face abaxial com tricomas moderados a densos, raro esparsos ou glabro. Folhas com pecíolos 1,3-3 mm compr.; lâmina 2,9-6,8 × 0,6-1,8 cm, lanceolada, raro estreito-elíptica, ápice caudado ou acuminado, base obtusa, arredondada ou aguda, margem inteira, nervura central sulcada na face adaxial ou plana próximo do ápice, nervuras secundárias 14-18 de cada lado, nervura marginal 0,2-0,5 mm da borda. Inflorescências panículas 10-37,7 mm compr.; pedicelos até 3 mm compr.; bractéolas 2,7-4,8 × 0,3-2,1 mm. Flores com hipanto não elevado acima do ovário, exteriormente com tricomas moderados a densos, raro esparsos, não costado; cálice aberto no botão floral, 5-mero; ovário 2-locular. Frutos elipsoides, 5,4-11,1 × 5,7-7,4 mm, lisos, roxos quando maduros.

Material examinado: BRASIL. Santa Catarina: Florianópolis, Parque Municipal das Dunas da Lagoa da Conceição, 30-I-2004, T.B. Guimarães 460 (FLOR, CRI); idem, 30-I-2004, T.B. Guimarães 1075 (FLOR); idem, 29-XI-2004. T.B. Guimarães 784 (FLOR); idem, Trilha do Beco da Lua, 05-XII-2022, B.R. Severgnini 04 (FLOR); idem, 05-XII-2022, B.R. Severgnini 05 (FLOR); idem, 05-I-2023, B.R. Severgnini 18 (FLOR); idem, Lagoa Pequena, 27-I-2023, B.R. Severgnini 29 (FLOR).

Distribuição e comentários: É amplamente distribuída desde o México e Caribe até a Argentina, com exceção de El Salvador e Uruguai (POWO 2025). No Brasil, a espécie ocorre nos domínios da Amazônia, Caatinga, Cerrado, Floresta Atlântica e Pantanal, em todos os Estados do país (Santos et al. 2025). Myrcia splendens é frequentemente encontrada em herbário identificada como o seu sinônimo M. rostrata DC. Diferencia-se das demais espécies do Parque pelas folhas lanceoladas com ápice acuminado a caudado, além das numerosas nervuras secundárias de difícil visualização. Na área do PDLC, foi observada em áreas de restinga com vegetação subarbustiva e arbustiva/arbórea de dunas internas fixas. Coletada no Parque com flores em novembro e dezembro, e com frutos em janeiro e dezembro.

9.Psidium cattleyanum Sabine, Trans. Hort. Soc. London 4: 317. 1821. Figuras 4 e, 4 f, 7 a

Figura 7
a. Psidium cattleyanum Sabine; b. Psidium guajava L.
Figure 7
a. Psidium cattleyanum Sabine; b. Psidium guajava L.

Arbustos a árvores até 7 m de alt. Plantas glabras, raramente com tricomas esparsos nos ramos, pecíolos, nervura central da face abaxial foliar, pedúnculos e flores. Folhas com pecíolos 4,7-16,8 mm compr.; lâmina 5,6-10,2 × 2,2-6 cm, obovada, ápice arredondado a cuspidado, as vezes obtuso, base aguda, margem inteira, nervura central sulcada na face adaxial ou plana próximo do ápice, nervuras secundárias 7-12 de cada lado, nervura marginal 1,1-2,1 mm da borda. Pedúnculos unifloros 3,7-9,2 mm compr.; bractéolas 1,1-2,6 × 0,3-0,9 mm. Flores com hipanto levemente elevado acima do ovário, não costado; cálice com uma pequena abertura apical, 5-mero; ovário 4-5-locular. Frutos globosos, 11,1-22,1 × 10,2-20,6 mm, lisos, avermelhados quando maduros.

Material examinado: BRASIL. Santa Catarina: Florianópolis, Parque Municipal das Dunas da Lagoa da Conceição, 20-XII-2004, T.B. Guimarães 833 (FLOR, CRI); idem, 25-I-2005, T.B. Guimarães 1079 (FLOR); idem, Trilha do Beco da Lua, 15-XII-2022, B.R. Severgnini 10 (FLOR); idem, 05-I-2023, B.R. Severgnini 19 (FLOR); idem, 05-I-2023, B.R. Severgnini 23 (FLOR); idem, Lagoa Pequena, 27-I-2023, B.R. Severgnini 27 (FLOR); idem, Lagoa da Chica, 14-II-2023, B.R. Severgnini 34 (FLOR).

Distribuição e comentários: Ocorre de forma nativa no Brasil e Uruguai (POWO 2025). No Brasil, a espécie ocorre nos domínios da Caatinga, Cerrado e Floresta Atlântica, em toda a Região Sul e Sudeste e Nordeste, com exceção dos Estados do Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte e Paraíba (Tuler et al. 2025). Pode ser identificada pelas folhas lisas e obovadas. O tronco é liso e descamante em placas, com coloração castanho claro. Nos frutos, as sépalas são alongadas, tortuosas e irregulares, evidenciando a ruptura das mesmas durante a antese. No PDLC, a espécie foi observada em áreas de restinga com vegetação arbustiva/arbórea de dunas internas fixas. Algumas vezes foi encontrada em solo úmido próximo de locais alagados como baixadas úmidas e em torno da Lagoa da Chica. Coletada no Parque com flores em janeiro e dezembro, e com frutos em janeiro e fevereiro.

10. Psidium guajava L., Sp. Pl. 1: 470. 1753. Figuras 4 g, 7 b

Árvores até 3,6 m alt. Plantas glabras, exceto pelos ramos e pedúnculos frequentemente com tricomas esparsos, e face abaxial das folhas sempre com tricomas esparsos. Folhas com pecíolos 5,8-6,4 mm compr.; lâmina 8-10,1 × 3,8-4,1 cm, elíptica, ápice agudo, às vezes obtuso, base obtusa, às vezes arredondada, margem inteira, nervura central sulcada na face adaxial, nervuras secundárias 17-19 de cada lado, formando arcos a 0,5-0,9 mm da borda da folha, sem nervura marginal verdadeira. Pedúnculos unifloros 10,8-14 mm compr.; bractéolas 1,3-2,3 × 1,6-3,2 mm. Flores com hipanto não elevado acima do ovário, não costado; cálice fechado no botão floral, abrindo em 5 lobos irregulares; ovário 4-5-locular. Frutos globosos, 22-27 × 20-23 mm, lisos, verdes quando imaturos.

Material examinado: BRASIL. Santa Catarina: Florianópolis, Parque Natural Municipal das Dunas da Lagoa da Conceição, Lagoa da Chica, 14-II-2023, B.R. Severgnini 44 (FLOR).

Material adicional: BRASIL. Santa Catarina: Blumenau, Salto Weissbach, 27-XI-1972, R.M. Klein 10394 (HBR, FLOR, MO, US); Florianópolis, Horto Botânico da UFSC, 5-XII-1972, A. Bresolin 645 (HBR, FLOR, ICN, MBM).

Distribuição e comentários: Espécie com ocorrência ampla em regiões tropicais e subtropicais do globo, seja como nativa ou introduzida (POWO 2025). A espécie é naturalizada no Brasil e tem distribuição nos domínios da Amazônia, Caatinga, Cerrado, Floresta Atlântica e Pampa, nos Estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, Amazonas, Acre e em toda a Região Sul, Sudeste e Nordeste com exceção do Rio Grande do Norte e da Paraíba (Tuler et al. 2025). Psidium guajava assemelha-se a P. cattleyanum, diferenciando-se principalmente pelas folhas, que neste caso são elípticas e com nervuras laterais bem marcadas no limbo, e pelos frutos que são maiores do que os observados em P. cattleyanum. Este trabalho representa o primeiro registro da espécie na área do Parque. Foi encontrada somente na Lagoa da Chica, onde provavelmente se estabeleceu por meio de ação antrópica. Coletada no Parque com frutos em fevereiro.

Agradecimentos

Agradecemos a Universidade Federal de Santa Catarina, pela estrutura cedida; aos Curadores do Herbário FLOR, pela permissão para consulta ao acervo e disponibilização de imagens de exsicatas em alta qualidade; à Fundação Municipal do Meio Ambiente, Florianópolis, SC, pela autorização de coleta; ao Marcelo Yutaro, pela permissão do uso de suas fotografias neste trabalho; ao Marcos Sobral e dois outros revisores anônimos, ao Editor Associado de Hoehnea Pedro Henrique Cardoso, por sugestões que ajudaram a melhorar a qualidade deste manuscrito.

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  • 1
    Parte do Trabalho de Conclusão de Curso do primeiro Autor
  • Declaração de disponibilidade de dados
    O conjunto de dados está contido no próprio manuscrito.
  • Como citar:
    Severgnini, B. R., Lima, D. F. 2026. Myrtaceae no Parque Natural Municipal das Dunas da Lagoa da Conceição, Florianópolis, Estado de Santa Catarina, Brasil. Hoehnea 53: e152025, 2026. https://doi.org/10.1590/2236-8906e152025.

Editado por

  • Editor Associado:
    Pedro Henrique Cardoso

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    31 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    13 Fev 2025
  • Aceito
    04 Jul 2025
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