Open-access Ecossocialismo brasileiro: vozes plurais, caminhos de transformação

Brazilian Ecosocialism: Plural Voices, Paths of Transformation

RODRIGUES, Arlindo; SILVA, Suelma Ribeiro. Ecossocialismo brasileiro: avanços e desafios. São Paulo: Expressão Popular, 2024

O pensamento político brasileiro contemporâneo traz consigo uma tensão irredutível: de um lado, a urgência da crise ambiental; de outro, a persistência de estruturas sociais incapazes de lidar com o colapso que se avizinha. O livro Ecossocialismo brasileiro: avanços e desafios, organizado por Arlindo Rodrigues e Suelma Ribeiro Silva e publicado pela Expressão Popular em 2024, surge como um esforço coletivo de compreensão e crítica, reunindo vozes que buscam não apenas mapear as raízes da crise, mas também apontam alternativas possíveis para sua superação. A obra configura-se como um mosaico de vozes que dialogam a partir de trajetórias acadêmicas, políticas e sociais diversas. Pesquisadores, militantes e intelectuais apresentados com capítulos independentes, mas articulados entre si, que exploram sob diferentes perspectivas o desenvolvimento e os desafios do ecossocialismo no Brasil, refletindo as distintas formas de engajamento e pensamento crítico presentes nas múltiplas experiências de seus autores.

O livro se inscreve em um terreno instável, no qual as tradições das lutas sociais se entrelaçam com a necessidade de reinventar paradigmas. Essa reinvenção se torna urgente diante da constatação de que o modelo hegemônico de desenvolvimento, ao tratar a natureza como mero recurso, depende da humanidade a um impasse civilizatório, marcado por eventos climáticos extremos e pela manipulação acelerada dos ecossistemas. Os capítulos refletem percursos políticos e intelectuais plurais, cuja confluência enriquecedora, analisa as críticas e o debate sobre alternativas ao modelo de desenvolvimento dominante. Entre as discussões centrais, sobressaem as abordagens que questionam o produtivismo e o extrativismo como pilares do capitalismo contemporâneo, examinando de forma articulada os impasses entre crescimento econômico, justiça social e equilíbrio ecológico.

A leitura dos capítulos revela uma preocupação central: a denúncia da natureza estrutural da crise socioambiental, que não se reduz a mero fenômeno técnico ou à ineficiência de políticas públicas, mas que radica no próprio modelo de sociedade fundado na exploração do trabalho e da natureza. Os autores analisam a realidade brasileira ressaltando que a crise ambiental é, antes de tudo, uma crise civilizacional, exigindo uma revisão profunda das bases das relações sociais, econômicas e culturais. O ecossocialismo, então, surge como alternativa sistêmica, capaz de articular justiça social com preservação ambiental, colocando a questão socioambiental no centro do projeto emancipatório1.

A obra se estrutura a partir de uma diversidade de perspectivas, reunindo contribuições de pesquisadores, militantes e intelectuais que, a partir de distintas experiências e tradições políticas, convergem na defesa de um novo paradigma de desenvolvimento. A centralidade da crise ambiental é destacada como elemento fundante do pensamento ecossocialista, que, ao contrário das experiências socialistas do século XX, não ignora a gravidade da degradação dos ecossistemas, mas a coloca como ponto de partida para a reflexão e a ação. O pessimismo diante da realidade não se traduz em resignação, mas em um otimismo da práxis, alimentado pela convicção de que é possível construir uma sociedade justa e ecológica, desde que se rompa com os modelos produtivistas e extrativistas que ainda dominam o imaginário político.

A crítica ao capitalismo, presente em quase todos os capítulos, não se limita à denúncia de seus efeitos perversos, mas busca compreender os mecanismos pelos quais ele perpetua a exploração e a desigualdade, tanto entre seres humanos quanto em relação à natureza. O livro evidencia que a crise climática é, antes de tudo, uma crise de civilização, que coloca em xeque a própria possibilidade de sobrevivência da espécie humana, caso não sejam adotadas medidas radicais de transformação. A análise histórica apresentada por alguns autores situa o leitor diante da gravidade do momento, salientando que o tempo para a ação é cada vez mais curto e que soluções moderadas já não são suficientes para enfrentar a dimensão da crise.

A dimensão cultural do ecossocialismo é explorada de maneira instigante, sobretudo quando se discute a necessidade de uma mudança de mentalidade que ultrapasse o mero âmbito das políticas públicas. O conceito de três ecologias, inspirado em Liszt Vieira, aponta para a necessidade de articular a ecologia do meio ambiente, a ecologia das relações sociais e a ecologia das ideias, propondo uma revolução que seja, ao mesmo tempo, política, social e cultural. Essa perspectiva amplia o horizonte do debate ao sugerir que a superação da crise exige não apenas novas tecnologias ou políticas ambientais, mas uma transformação profunda das formas de pensar, sentir e agir coletivamente.

A defesa da natureza como sujeito de direitos, apresentada por Suelma Ribeiro Silva e Mariá Silva Brilhante, constitui um dos pontos altos do livro. Ao propor que a existência e a prosperidade da natureza sejam reconhecidas juridicamente, as autoras abrem caminho para políticas públicas inovadoras, que possam garantir a proteção e a restauração dos ecossistemas. Essa abordagem, já refletida em iniciativas legislativas em diversas cidades brasileiras, aponta para uma ampliação do conceito de justiça, que passa a incluir não apenas seres humanos, mas todos os entes que compõem a vida na Terra. A ecologia política, nesse contexto, se revela como campo de disputa e de construção de alternativas, em que as lutas ambientais se entrelaçam com as lutas por direitos sociais.

O livro também discute as contradições internas ao campo progressista, destacando que muitos governos de esquerda, embora defendam a transição energética, continuam a investir em políticas extrativistas e em projetos que reforçam o modelo de desenvolvimento hegemônico. A crítica a essas contradições é fundamental para evitar que o debate ambiental seja apropriado pelo capital, transformando-se em mera retórica ou em estratégias de marketing político. O ecossocialismo, nesse sentido, se apresenta como uma proposta radical, que exige uma ruptura com as práticas políticas tradicionais e a construção de novas formas de organização e mobilização social.

A articulação entre teoria e prática é outro tema recorrente na obra. Os autores, ao mesmo tempo em que apresentam diagnósticos rigorosos sobre a crise, oferecem pistas para a ação, sugerindo caminhos concretos para a construção de uma sociedade ecossocialista. O decálogo apresentado por Michael Löwy, por exemplo, responde à pergunta “o que fazer?”, indicando ações prioritárias para enfrentar a crise climática e promover a transição ecológica. A ênfase na auto-organização popular, na solidariedade internacional e na cidadania universal reforça a ideia de que a transformação social depende da mobilização coletiva e da construção de alternativas que ultrapassem os limites do Estado e do mercado.

Apesar da riqueza das contribuições, o livro apresenta algumas lacunas, sobretudo no que diz respeito à historicização do movimento ecossocialista no Brasil. Embora os autores discutam as experiências internacionais e as contradições do socialismo do século XX, pouco se fala sobre as iniciativas pioneiras da esquerda brasileira, como o Manifesto Ecossocialista de 1991, que representou um marco importante na articulação entre ambientalismo e socialismo no país. Essa ausência, no entanto, não diminui o valor do livro, que já se configura como referência fundamental para o debate político contemporâneo, ao oferecer um diagnóstico rigoroso da crise e apontar caminhos para sua superação.

A leitura da obra provoca o leitor a repensar o lugar da natureza nas lutas sociais e a questionar os limites dos modelos de desenvolvimento vigentes. O livro, ao mesmo tempo em que denuncia a gravidade da crise ambiental, aposta na capacidade de mobilização e de invenção coletiva, sugerindo que é possível construir um futuro diferente, desde que se assuma a centralidade da questão socioambiental no projeto de emancipação social. A obra, portanto, não se limita a apresentar um diagnóstico, mas convida à ação, colocando-se como um instrumento fundamental para a formação política e para a construção de alternativas radicais diante do colapso civilizacional.

A densidade dos textos, a pluralidade de perspectivas e a articulação entre teoria e prática fazem de Ecossocialismo brasileiro: avanços e desafios uma leitura indispensável para todos aqueles que buscam compreender os desafios do nosso tempo e contribuir para a construção de uma sociedade justa, democrática e ecológica. O livro, ao dialogar com as tradições das lutas sociais e com as experiências contemporâneas de resistência, aponta para a necessidade de reinventar a política, de forma a enfrentar a crise climática e garantir a sobrevivência da vida no planeta. A reflexão proposta pelos organizadores e autores, portanto, não se encerra nas páginas do volume, mas se projeta para além delas, convocando todos à ação e à reinvenção coletiva.

A linguagem empregada nos capítulos oscila entre o rigor acadêmico e o engajamento militante, refletindo a dupla filiação dos autores, que transitam entre universidade e movimentos sociais, alternando entre um tom contundente ao denunciar as contradições do capitalismo e a inércia dos governos diante da crise ambiental, e um tom propositivo ao indicar caminhos para a ação e a construção de alternativas. Essa alternância entre crítica e proposição, aliada à preocupação em situar o debate no contexto brasileiro e considerar as especificidades históricas, sociais e culturais do país, confere ao livro uma vitalidade singular, diferenciando-o de outras obras do gênero, muitas vezes marcadas pelo pessimismo ou pela abstração teórica. Além disso, os autores ressaltam a importância de soluções que acolham a diversidade de experiências e sujeitos envolvidos na luta ambiental, ao mesmo tempo em que a perspectiva internacionalista presente em alguns textos amplia o horizonte do debate, sugerindo que a crise climática exige respostas articuladas em escala planetária.

Ecossocialismo brasileiro: avanços e desafios, longe de se restringir a um diagnóstico da crise, aponta para a construção de alternativas radicais capazes de enfrentar a magnitude dos desafios atuais, apresentando o ecossocialismo como uma proposta de síntese que articula justiça social e defesa do meio ambiente em um novo modelo de desenvolvimento baseado na solidariedade, na democracia e no respeito aos limites da natureza. Embora a ausência de uma historicização mais detalhada das experiências ecossocialistas no Brasil represente uma lacuna, isso não diminui o caráter inovador e necessário do livro, que reúne vozes plurais e promove a reflexão crítica sobre a crise ambiental, tornando-se referência fundamental para o debate político contemporâneo e abrindo caminhos para novas pesquisas e alternativas concretas diante do colapso civilizacional. A diversidade de autores, temas e abordagens que compõem a obra reforçam sua relevância intelectual e política, ampliando o horizonte do debate ecossocialista e consolidando caminhos para futuras pesquisas e mobilizações sociais. Assim, a leitura não apenas informa e mobiliza, mas também convida o leitor a compensar o presente e a imaginar um futuro em que a justiça social e a preservação ambiental caminhem juntas, inseparáveis em qualquer projeto emancipatório.

Referências

  • LÖWY, Michael. Ecossocialismo: o que é, por que precisamos dele, como chegar lá.Germinal: Marxismo e Educação em Debate, v. 13, n. 2, p. 471-482, 2021.
  • MARQUES, Luiz. Capitalismo e colapso ambiental 3. ed. rev. e ampl. Campinas: Editora da Unicamp, 2019.
  • RODRIGUES, Arlindo; SILVA, Suelma Ribeiro (org.). Ecossocialismo brasileiro: avanços e desafios. São Paulo: Expressão Popular, 2024.
  • 1
    O ecossocialismo aqui formulado dialoga diretamente com a definição teórico-programática de Michael Löwy em Ecossocialismo: o que é, por que precisamos dele, como chegar lá (2021) e com o diagnóstico estrutural de Luiz Marques em Capitalismo e colapso ambiental (2019). Löwy oferece o arcabouço conceitual que subordina o valor de troca ao valor de uso, enquanto Marques demonstra a inviabilidade do “capitalismo verde”, convergindo ambos para a necessidade de ruptura sistêmica que Ecossocialismo brasileiro (2024) traduz em propostas concretas para o contexto nacional.
  • Declaração de disponibilidade de dados:
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Editado por

  • Editoras-chefe:
    Ana Carolina de Carvalho Viotti
    Karina Anhezini de Araujo.
  • Editor Associado:
    Karina Anhezini de Araujo.

Disponibilidade de dados

Não se aplica

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    23 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    02 Set 2025
  • Aceito
    11 Nov 2025
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