Open-access Raimundo Llull (1232-1316) e os intelectuais do llullismo: reflexões sobre o uso de fontes na história da educação

Ramon Llull (1232-1316) y los intelectuales del llullismo: reflexiones sobre el uso de fuentes en la historia de la educación

Ramon Llull (1232-1316) and the intellectuals of llullism: on the use of sources on the history of education

Ramon Llull (1232-1316) et les intellectuels du llullisme: réflexion sur l’usage des sources dans l’histoire de l’éducation

Resumo

Neste texto exploramos duas biografias que têm como objeto a vida e obra de Raimundo Llull (1232-1316). Procuramos identificar as especificidades de cada uma, mapeando como caracterizam o biografado e o seu projeto intelectual e religioso. Estes elementos informam sobre os projetos políticos e intelectuais de cada um dos autores e idealizadores das obras selecionadas. Inicialmente abordamos a biografia produzida em miniaturas e texto, projetada e encomendada por Thomas Le Myésier (?-1336), discípulo direto de Llull. Por fim, discute-se a Vita Beati Raimundi, escrita em 1511 pelo intelectual francês Chales de Bovelles (1479-1553), que a redige no quadro de revitalização do pensamento lluliano em Paris. Nosso propósito é evidenciar que a cada revisitação de uma fonte, novas abordagens são construídas e elaboradas, em decorrência do momento político e do ator que a recupera.

Palavras-chave:
história das ideias; História da educação; Fontes; Idade Média

Resumen

En este texto exploramos dos biografías que se centran en la vida y obra de Ramón Llull. Buscamos identificar las especificidades de cada una de ellas, describiendo cómo caracterizan al sujeto, su proyecto intelectual y religioso. Sostenemos que estos elementos informan de los proyectos políticos e intelectuales de los autores y creadores de las obras seleccionadas. Inicialmente, abordamos la biografía realizada en miniaturas y texto, planeada y encargada por Thomas Le Myésier (?-1336), discípulo directo de Llull. Finalmente, analizamos la Vita Beati Raimundi, escrita en 1511 por el intelectual francés Charles de Bovelles (1479-1553), quien la escribió en el marco de la revitalización del pensamiento luliano en París. Nuestro propósito es de evidenciar que a toda reanudación de una fuente, nuevos enfoques son construidos y desarrollados, según el momento político y el sujeto quien la reanuda.

Palabras clave:
Historia de las ideas; Historia de la educación; Fuentes; Edad Media

Abstract:

In this work, we discuss two biographies that have presented the life of Ramon Llull. We try to identify each one’s particularities on their describing and characterizing their subject. The way these elements are taken and reorganized, we argue, tell us about the political and intellectual projects of each one of the selected works’s authors and masterminds. First we analyze the biography composed on behalf of Llull’s disciple Thomas Le Myésier (?-1336). Finally, we discuss the Vita Beati Raimundi, written in 1511 by the french intellectual Charles de Bovelles (1479-1553) aiming to defend and revitalize Llull’s thinking in Paris. Our aim is to show that at each time a source is taken up, it implies news ways of interpretation which are developed in accordance to the political context and individual that retake it.

Keywords:
history of the ideas; History of education; Sources; Middle Ages

Résumé

Dans cet article nous essayons de discuter deux biographies qui traitent d’un même sujet, c’est à dire, de la vie de Ramon Llull. Nous avons cherché à mettre en évidence les particularités de chacune de ces biographies, en montrant comment elles caractérisent leur personnage, son projet intellectuel et religieux. La façon selon laquelle ces données sont considérées et organisées - c’est ce que nous essayons de montrer - nous apprend sur les projets intellectuels et politiques des auteurs et sponsors de ces œuvres présentées. D’abord nous examinons la biographie conçue en miniatures et texte, commandée par Thomas Le Miésier ( ?-1336), disciple direct de Ramon Llull. Finalement, nous examinons la biographie écrite en 1511 par l’intellectuel français Charles de Bouvelles (1479-1553). Notre but est de mettre en évidence que à chaque reprise d’une source, des nouvelles interprétations sont développées en accordance avec le moment politique et le sujet qui la reprend.

Mots-clés:
Histoire des idées; Histoire de l' éducation; Sources; Moyen Âge

Introdução

Raimundo Llull1 é uma das mais ilustres figuras da Idade Média peninsular, sobretudo quanto aos aspectos literários. Conhecido por suas obras redigidas em catalão, é considerado um dos fundadores da tradição em escrita romance (Dominguez Reboeiras, 1987). Considerado um intelectual, pregador e nobre proveniente da região da Catalunha, seu trabalho, porém, teve repercussão internacional, tanto na Europa quanto nas regiões do norte da África.

Suas obras compõem-se de aproximadamente 300 escritos, as quais estão divididas em gêneros e temas diversos. Além de discussões teológicas, escreveu sobre lógica, trabalhos acerca da pregação e conversão, e obras de ficção. Ao que se sabe2, mesmo antes de sua conversão religiosa, a escrita já ocupava um lugar central em sua vida, tendo se dedicado à cultura trovadoresca. Poesias, sermões, obras científicas e diálogos são os principais modelos de produção literárias pelos quais Llull comunicou suas ideias ao longo de sua extensa vida, que teria durado cerca de 84 anos, pois nasceu em 1232 e faleceu em 1316 (Dominguez Reboeiras, 1987; Bonner, 1993).

Em 1311, Llull idealizou e coordenou os trabalhos de uma primeira autobiografia que tratou de sua experiência de conversão. A chamada Vita coaetanea apresenta o biografado em um quadro de acontecimentos e virtudes específicas do universo cultural cristão. Apresentando um personagem que se assemelha ao modelo de santidade que se gesta nos espaços de convivência e na ação de defesa do cristianismo, a biografia de Llull compartilha tópicos característicos às vidas de santos, comumente veiculadas a partir do século XII (Dosse, 2009). Estes aspectos, para além de dar um valor literário à obra, tinham uma finalidade política de realçar a plausibilidade do projeto intelectual e religioso do mestre catalão, cujos objetivos estavam apresentados no final dela e eram explicitados como o arremate coerente de uma vida dedicada à defesa intelectual do cristianismo.

Segundo o relato da Vita coaetanea, após uma conversão ocorrida por volta de seus 32 anos, Llull dedicou-se ao trabalho de pregação e trabalho missionário, com ênfase nos grupos que rivalizavam teológica e politicamente com os cristãos, principalmente judeus e muçulmanos. Parte de suas obras buscavam divulgar o seu projeto político e religioso às figuras intelectuais e políticas importantes do período, como seria o caso da Vita coaetanea, que tinha como destinatários os participantes do concílio de Vienne em 1311 (Ruffini, 1961; Johnston, 1990).

Ao cumprir esta função publicitária, a Vita coaetanea, nos termos de François Dosse (2009), organizou os sentidos de representações sobre Llull e deu o núcleo de sentido entorno do qual as ideias sobre ele deveriam circular.

Assim, após a morte de Llull, uma série de discípulos retomaram a defesa de sua obra intelectual e religiosa. Ocorridas em contextos diferentes daqueles previstos por Llull, estas retomadas da doutrina defendida pelo escritor catalão enfrentaram seus próprios desafios de produção e divulgação, o que demandou adaptações significativas por parte de seus empreendedores, afinal, as finalidades não eram mais aquelas do próprio biografado.

Assim, o Llullismo passou a possuir uma historicidade própria, diferente daquela da pessoa que a gerou. Intelectuais franceses, espanhóis e italianos trataram de traduzir, editar e publicar os textos de Llull, gerando um movimento de leitura, acolhimento ou repulsa por seus métodos e linguagem.

Ao refletirem sobre aspectos das obras de Llull, os seus discípulos tiveram de remeter à sua emblemática figura, ou até mesmo recriá-la e moldá-la de acordo com suas perspectivas. Exatamente por isso, recriavam um personagem e um cenário histórico novo. Este fenômeno deu razão não apenas ao desenvolvimento de obras que tratavam da sua ars3, mas também a retomada de sua biografia, reelaborada com vista a manter sua funcionalidade e coerência. Os exercícios de biografagem sobre o autor catalão cumpriam, portanto, funcionalidades específicas, em consonância com as intenções de cada um dos sujeitos que se propuseram a retomar e defender a sua obra.

Mais do que identificar o quanto as descrições se aproximam da real ocorrência dos eventos, como observa François Dosse (2009), importa captar as variações das funcionalidades exercidas por diferentes representações do personagem biografado, identificando as formas dos registros, sua utilização e os sentidos que veicularam, interconectados aos projetos políticos e intelectuais de cada um dos biógrafos.

Como fontes para observar esse processo, elegemos duas das biografias que trataram da vida de Raimundo Llull e que, como fontes históricas, expressam um duplo comprometimento de seus autores. Por um lado, buscam sinalizar sua reverência e vinculação ao projeto intelectual lluliano; por outro, tratam de temáticas contemporâneas de seus idealizadores e, assim, fazem seleções e reelaborações de elementos do projeto do intelectual catalão, permitindo-o continuar vivo, mas com novas roupagens. A personagem biografada sofre alterações, tem características enfatizadas, passa por eventos diferentes e tem atos que lhe são atribuídos em função dos objetivos intelectuais e de formação humana de cada um dos autores que retomam a sua memória.

Destacamos, por primeiro, a biografia em textos e imagens, composta pelo discípulo direto de Llull, Thomas de Le Myésier4, por volta de 1322, seis anos após a morte do biografado. As representações da vida de Lull constituem uma introdução ao trabalho de compilação e abreviação das ideias contidas em suas obras e, como procuramos demonstrar, por meio dos diálogos e descrições apresentadas nos fólios, demarcam uma leitura particular do discípulo sobre seu mestre. A visão de Le Myésier acerca da importância do método criado por Llull, constitui chave importante para compreensão da construção narrativa do opúsculo.

Em um segundo momento, abordamos a biografia epistolar produzida pelo intelectual francês Charles de Bovelles (1479-1553), a qual foi publicada em 1511, junto de outras obras do intelectual llullista.

A figura intelectual e religiosa de Llull foi objeto de acirradas disputas no século XV. Sua volumosa obra foi compreendida em diferentes facetas e, concomitante a isso, os elementos de sua biografia também sofreram alterações. Nesse quadro, integrando um grupo de intelectuais empenhados em revitalizar a imagem de Llull frente a uma série de ataques sofridos, Bovelles compôs sua versão biográfica da vida do mestre catalão, recorrendo a alguns elementos retóricos que se apresentavam como instrumentos para esta disputa intelectual.

Le Myésier e a biografia de Llull no Breviculum

Dentre os apoiadores e difusores da obra de Llull, destaca-se Thomas Le Myésier, que desenvolveu o primeiro grande esforço de compilação das obras e síntese da doutrina do escritor catalão. Membro da universidade de Paris, cônego em Arras e posteriormente médico a serviço da condessa de Artois, Mahaut (1270-1330), transitou pela corte da alta nobreza francesa, tendo redigido um opúsculo com a síntese do pensamento llulliano, contendo uma biografia de Llull como introdução, direcionado à própria rainha da França (Hillgarth, 1971).

Le Myésier foi discípulo direto de Llull ainda quando este realizou visitas à Paris, no final do século XIII. Desde os primeiros contatos com a obra do mestre, tornou-se estudioso e defensor da base doutrinária nela encontrada e um difusor da arte luliana até a sua morte.

Procurando reunir as ideias de Llull e as tornar compreensíveis, Le Myésier produziu quatro obras. Cada uma deles retomava os conceitos apresentados na anterior e as apresentava de modo mais simplificado. Pretendia-se, assim, que cada uma delas fosse mais clara e inteligível que a anterior. Aquela que contém as miniaturas iluminadas com a biografia de Llull seria a última, produto máximo do refinamento e simplificação das ideias do mentor de Le Myésier, e a mais adaptada para que os leitores tivessem o entendimento facilitado (Hilgarth, 1971).

Apenas manuscritos do Electorium magnum e do Electorium parvum, este último também conhecido como Breviculum, permanecem hodiernamente. Dentre eles, a segunda compilação é amplamente conhecida, sobretudo pelas miniaturas iluminadas que apresentam alguns dos pontos principais da vida de Raimundo Llull, antes que o leitor acesse o texto contendo os elementos da ars.

A visão que Le Miésier construiu sobre Llull é a de um intelectual santo, cujo grande trabalho havia resultado na descoberta de um sistema capaz de conduzir os homens a encontrar a verdade. Esta é a imagem que ele pretendia deixar impressa em seus leitores, por meio do conjunto de informações apresentadas nas miniaturas do Breviculum5.

A biografia de Llull que se desvela na sequência das páginas iniciais do manuscrito, segue de perto alguns dos pontos fundamentais da biografia produzida sob encomenda do próprio Llull em 1311. A conversão para a vida apostólica, a entrada para a ordem terceira dos franciscanos, os momentos de iluminação intelectual, os debates universitários e religiosos para implementação de seu projeto pastoral são elementos comuns à Vita coaetanea e à biografia do Breviculum.

Não obstante, a releitura da obra biográfica que Llull ordenara ser produzida sobre sua vida, a que vemos apresentada no Breviculum é a própria leitura que Le Myésier realiza acerca do projeto luliano. São identificáveis as estratégias de narração, empenhadas em enfatizar uma certa imagem de Llull, a qual parece não estar substancialmente distante daquela que o próprio mestre catalão fazia de si, mas, que evidencia problemas enfrentados por Le Myésier para divulgar a doutrina filosófica que ele considerou como correta e capaz de promover o entendimento entre os homens. As formas de prever e superar estes problemas constituem um objeto importante acerca desta biografia, pois, tal como o próprio intelectual francês indica, um papel fundamental para a exposição da arte luliana:

A intenção pela qual ordenei que fossem feitas as pinturas que se seguem foi dupla: a primeira intenção foi para que seja conhecida a origem a partir da qual e o modo pelo qual nasceram esta e outras artes e livros de Raimundo. A outra causa é pela inspiração, pois observar tais imagens muitas vezes inspiram as almas ao bem agir e às boas coisas (Rubió, 1916, p. 82, tradução nossa) 6.

Com efeito, além do aspecto intelectual, os elementos de inspiração emocional às boas obras deveriam ser suscitados em quem acessasse a obra em questão. Mas para além das intenções explícitas, manifestadas nessa passagem, observamos recursos menos evidentes que atestam as intenções de Le Myésier quanto à produção do Breviculum.

Produzido por volta de 1325, ou seja, posterior à vida de Llull, o Breviculum não pode ser considerado representação desinteressada dos elementos biográficos que Le Miésier havia consultado na Vita coaetanea. A biografia que é ali apresentada introduz e orienta a leitura sobre as reflexões teológicas e filosóficas da ars llulliana, expostas nos fólios posteriores do manuscrito.

Concomitante aos marcos da vida de Llull, por exemplo, observamos a imagem de Le Miésier que, apesar de ter tido contato com seu mestre apenas tardiamente, é introduzido desde os episódios iniciais da biografia representada, sendo colocado junto de seu mentor, assistindo à pregação episcopal que lhe inspiraria seguir o caminho de Francisco de Assis, algo que teria acontecido por volta de 25 anos antes do primeiro encontro entre os dois (Hilgart, 1971).

A figura do discípulo é ainda apresentada em outros momentos da obra, atendendo às conferências de Llull, na França, e num possível diálogo entre os dois. No último caso, mestre e discípulo debatem acerca das razões de produção do Breviculum e a figura de Llull é vista indicando como Le Miésier deveria proceder para realizar o processo de compilação de seus trabalhos, orientando-o e confortando-o quanto aos caminhos que pretendia tomar para seu empreendimento.

Representado no fólio 11v7, o diálogo apresenta um tom de justificação ou de explicação do porquê da obra que chegava às mãos do leitor. Isso fica explicitado ao lermos a enunciação - indicada pela letra a na miniatura - emitida pela imagem que representaria Le Miésier:

Senhor, os modernos louvam mais consideravelmente a brevidade, por isso então me foi ordenado - conforme é possível em boa forma - abreviar as ideias dos teus livros feitos, preservando o sentido delas e, dessa forma, aliviando o esforço e o cansaço dos olhos, a confusão dos significados dos alfabetos da Arte demonstrativa e das suas 16 figuras, que confundem o intelecto (Hilgarth, 1971, p. 179, n. 125, tradução nossa)8 9.

Temos aqui elementos que indicam considerações sobre a obra de Llull e a sua apropriação por leitores e discípulos. A ars já havia sido criticada por sua amplitude e complexidade, mesmo durante a vida de seu autor. Este problema foi persistente e motivador de esforço e cansaço daqueles que a ela se dedicavam, o que tornava necessário que se realizasse alguma adaptação, tornando-a mais acessível aos leitores.

A continuidade do diálogo fornece aspectos mais diretos acerca das intenções do discípulo de Llull, detalhando os procedimentos para ele alcançar a boa forma que almejava manter quanto ao modelo original da Ars.

Por isso, senhor, sem presunção, pretendo recolher uma primeira seleção, escolhendo e reduzindo à tua intenção final; e a partir desta [primeira seleção], fazer uma segunda mais breve; e a partir desta segunda, pretendo fazer uma terceira mais breve, a qual espero presentear como tributo à minha senhora, Rainha da França e de Navarra (Hilgarth, 1971, p. 180, n. 131, tradução nossa) 10.

Um refinamento em sequência, para facilitar a compreensão das ideias de Raimundo Llull, retiradas de suas obras e depuradas com vista à simplificação, mas sem que se perdesse o sentido final atribuído pelo mestre catalão, esse é o projeto de Le Myésier, apresentado.

O texto enunciado pela miniatura de Llull cumpre, também, a função de organização na narrativa de Le Myésier. Ele indica a intenção de articular a produção do Breviculum às pretensões e expectativas que Llull havia estabelecido quanto ao seu próprio trabalho. Além disso, apresenta as correspondências entre o projeto de Le Myésier e aquele desenvolvido pelo próprio mestre, que já havia realizado adaptações em seus trabalhos para alcançar o intelecto do público. No mesmo fólio, Llull é representado afirmando:

Eis 16 figuras e os significados das letras deste alfabeto da Arte demonstrativa que deixei de lado e, como algo novo, [escrevi] A arte para encontrar a verdade, reduzindo a quatro as figuras manifestadas nesta Arte e reduzindo ao presente alfabeto, muito breve e leve, como podes observar neste alfabeto mais acima [refere-se ao alfabeto grafado na parte superior do fólio] (Hilgarth, 1971, p. 179, n. 127, tradução nossa)11.

A narrativa faz referência a uma das passagens da Vita coaetanea, segundo a qual Llull, após ter tido uma má recepção do público ao apresentar sua arte em Paris, decidiu reorganizar como esta seria exposta12. A figura do próprio mestre, indicando ao discípulo que ele havia realizado adaptações com vista à comunicação de seu projeto, parece fornecer um argumento de autoridade para que Le Myésier se adiantasse aos possíveis questionamentos acerca da importância e da proveniência do projeto que originara o Breviculum.

A imagem de Llull ainda representa outras afirmações relacionadas ao quadro de composição. Após ser informado por Le Myésier acerca dos passos a serem seguidos para realização de sua obra, ele indica sob quais condições o texto de seu discípulo poderia ser considerado razoável: “contanto que não prejudiques o texto, [mas que] eleja aquilo que é mais útil, mais inteligível, mais estimável e memorável a partir de todos, para que o que tenha sido negligenciado em um livro seja recuperado em outro, assim fazes muito bem” (Hilgarth, 1971, p. 180, n. 132, tradução nossa)13.

O teor das afirmações indica a intenção de fidelidade do opúsculo de Le Miésier à obra de Llull. Ao pôr essas palavras na boca do mestre catalão, o autor do Breviculum apresenta quais parâmetros julgou razoáveis respeitar para produção do opúsculo. A última miniatura da obra, com efeito, parece confirmar que Le Myésier considerava ter cumprido com os objetivos que estabelecera para si, ideia afirmada nas palavras do próprio Llull, que é representado expressando sua aprovação: “Porque observou a principal finalidade e não modificou o texto, fez bem ou otimamente e assim aliviou o esforço de outros” (Hilgarth, 1971, p. 181, n. 134)14.

Não apenas estes dois últimos fólios mencionados, que tratam diretamente da relação entre a obra de Le Myésier e a de Llull, mas nas demais miniaturas é possível identificarmos o modo como o discípulo pretendia que a vida do mestre fosse lida e compreendida. Le Myésier compreendia a função de sua obra da mesma forma com que Llull parece compreender a das suas, como destaca Domínguez Reboeiras:

La importancia de este opúsculo [a vida coetânea] dentro del opus luliano en ningún sitio queda mejor expresado que en el Electorium de Thomas Le Myésier. En este primer intento de hacer un compendio de la obra luliana y buscar un principio ordenador a su inmensa obra, aclarando el canónigo de Arras sus criterios de selección y distribución, justifica la inserción de la Vita coetanea «ut videatur eius intentio». El discípulo de Ramón comprendió perfectamente la idea central de la Vita: comunicar y defender el objetivo fundamental del Ars lulliana (Domínguez Reboeiras, 1987, p. 18).

Assim, Le Miésier orienta seus leitores por meio das imagens e legendas que expressam sua leitura sobre a vida de Llull. Elas têm a função de atribuir um sentido ao projeto lluliano de desenvolvimento de uma ciência capaz de aproximar os homens da verdade.

Ao passo que na Vita coaetanea a narrativa dá ênfase ao projeto de atuação de Llull pela conversão, empenhado em ações diplomáticas, intelectuais e pastorais, no Breviculum, a biografia enfatiza o conjunto de ações e atividades realizadas com vista ao desenvolvimento de um projeto intelectual empenhado em revelar a verdade filosófica cristã do autor.

A atividade intelectual, que é pano de fundo na Vita coaetanea, passa a ocupar o papel central da narrativa apresentada por Le Miésier. Assim, as miniaturas centram-se nos elementos biográficos que indicam a construção de uma militância pela verdade na trajetória de Llull, como indicado na sua prece à Virgem Maria, apresentada no fólio 1r.:

Ó santa virgem Maria […], Intercede por meus votos […] que, por meio deles, seja realizado neste mundo o que falta ao clero cristão, isto é, que seja feita uma Ars pela generosidade da tua magna sabedoria, por meio da qual seja possível serem demonstradas aos infiéis as razões necessárias, a verdade da divindade de teu filho e da sua santa lei e doutrina. Além disso, que sejam encontrados devotos letrados, bem conhecedores da predita arte que propus fazer, agindo principalmente pela tua graça; terceiro, que o papa, imperadores, reis, príncipes e barões dos preditos letrados provejam que estes aprendam a língua árabe e hebraica, para que sua voz percorra toda a terra, e que saiam por todo o mundo para pregar a verdade da tua lei; que sejam feitas expedições de pregadores em todo canto, munidas pelos citados letrados, para que tanto com as armas espirituais, quanto com o temor das armas corporais, faça-se concórdia entre cristãos e sarracenos naquilo que o clero houver de concordar sobre a verdade, pois são muito próximos15 (Hilgarth, 1971, p. 449, tradução nossa).

Neste ponto, a obra de Le Miésier remete-se à biografia redigida às ordens de Llull, sobretudo quando ela explicita os objetivos do seu projeto16. É particularmente notável o caráter piedoso atribuído à devoção do mestre, apresentada nas miniaturas, bem como na exposição dos objetivos que Llull estabelecera para si. Esta piedade, com efeito, é submetida ao esforço de veiculação da verdade da fé cristã, tal como Le Myésier havia entendido ter sido compreendida pelas obras de seu mestre. O esforço em convencer imperadores, papas, reis e barões está subordinada a uma intensa convicção de que a ars permitiria a exposição da verdade. O treinamento de intelectuais para o convencimento dos demais povos constitui a pedra angular sobre a qual estão sustentadas as motivações de todos os elementos do projeto de Llull.

A vinculação dos objetivos intelectuais à defesa da fé cristã constitui-se em algo bastante próximo à imagem que o próprio Llull procurou atribuir a si. A formação do clero para dialogar com os defensores do islamismo, ou melhor, na concepção de Llull, comunicar-lhes a verdade da fé cristã, seria resultado de uma prévia iluminação divina, motivadora da criação de uma Ars para compreender a própria verdade revelada.

Ainda no fólio 1r, observamos outra estratégia narrativa empregada por Le Myésier para justificar o projeto de seu mentor. Operando com os elementos temporais da biografia, ele constrói uma visão teleológica da vida do autor. Em algumas das miniaturas, personagens são apresentados realizando preces e exprimindo juízos acerca do esforço de Llull por realizar sua obra. Elas indicam, numa visão que retorna do passado para o presente, quais elementos caracterizavam a santidade da obra luliana e sua concordância com os desígnios divinos. Estes elementos já são observáveis nas preces que realiza à Virgem Maria, mencionadas anteriormente, mas é nas realizadas a São Tiago, após o episódio de sua conversão, também representadas no fólio 1, que se pode ver um exemplo mais direto:

Ó São Tiago e todos os santos de Deus, venho como vosso peregrino para lhes rogar. Conduzi-me, ensinai-me e intercedei junto ao nosso senhor Jesus Cristo, com a sua santíssima mãe, mas de acordo com sua vontade, que possa me fazer, completa ou parcialmente, seu instrumento, ele mesmo agindo principalmente, pela graça de sua infinita sabedoria, para sua honra e alabança. Que meu desejo, se é bom, seja realizado por Ele mesmo, de quem emana todo o bem; e que a intenção, se for boa, não seja frustrada de sua finalidade, a qual consiste em que o seu mérito seja estimado e rememorado, bendito, regraciado e louvado íntima e publicamente por todos os homens racionais na sua verdade, do ser e das suas obras17 (Hilgarth, 1971, p. 449-450, tradução nossa).

As condições de cumprimento dos votos e de desenvolvimento da arte de Llull são condicionadas à sua conformidade com a vontade da divindade cristã, de sua anuência sobre a bondade de seus votos e intenções. Considerando a predileção de Le Myésier sobre os ensinamentos de Llull, podemos pensar que ele considerava terem sido cumpridos os requisitos necessários. A mesma forma de exposição teleológica é apresentada na segunda miniatura, localizada no fólio nº 2r. Nela, temos uma condução feita por Le Myésier acerca da interpretação das palavras do bispo que investe Llull com o hábito franciscano que caracteriza sua figura durante o restante da obra. Esta narrativa indica uma leitura do presente que atribui sentido ao passado da vida de Llull:

Raimundo, de acordo com a tua boa intenção que conheci e porque requisitaste com humildade e perseverança que eu te vestisse humildemente com os panos da humildade, convertido, progridas pelo exemplo do Beato Francisco e que Deus te abençoe e, se for a vontade Dele, que te faça avançar e perseverar em teu bom esforço18 (Hilgarth, 1971, p. 450, tradução nossa).

As observações feitas pelo bispo atribuíram significado à continuidade da narrativa sobre a vida do mestre catalão. Este atributo é observável ao considerarmos a condição indicada de que a continuidade do trabalho de Llull só ocorreria mediante a vontade divina. Ao observarmos as considerações de Le Myésier, ponderamos que ele via como diretamente relacionados os projetos de Deus com os atos de Llull e, por conseguinte, com os dos discípulos que trabalhavam para a divulgação da ars.

Ainda que os recursos narrativos observados possam parecer pouco impactantes, devemos considerar a distância temporal que nos separa desta obra e a frequência do consumo de narrativas a que temos acesso, comparadas àquelas que estavam disponíveis ao público de uma obra como o Breviculum no baixo medievo. Isso nos permite argumentar que esses recursos teriam um efeito maior sobre o público do que podemos perceber se nos colocarmos na mesma posição dos consumidores dessas informações no século XIV, mas com uma percepção forjada no século XXI e não na de historiadores que visitam outra temporalidade que possuiu sua própria forma de comunicar e projetar o impacto de seus meios de comunicação.

Depreende-se da leitura que Le Myésier compreendia a obra de Llull como uma ação ‘divinamente inspirada’. Sua vida, pelos dados que permanecem à nossa disposição, foi em grande medida dedicada ao trabalho de compreensão e divulgação da arte luliana. A figura intelectual do mestre catalão foi objeto de intensa reverência e suas formulações não foram objeto de revisões e correções fundamentais da parte de Le Myésier.

Charles Bovelles e a biografia de Llull no início do século XVI

A vida de Raimundo Llull ainda foi objeto de reflexões no século XVI, por parte de outros seguidores de sua doutrina e de intelectuais interessados por seus trabalhos. Dentre eles, destaca-se Charles Bovelles (1479-1553), intelectual francês cuja apropriação da obra e da vida de Llull são diferentes daquela realizada por Le Myésier.

Como primeiro ponto, devemos compreender que o Llulismo passou por uma espécie de desmembramento no quadro de sua divulgação e circulação pelos espaços intelectuais europeus do século XV e XVI. A sua arte perdeu, em grande medida, o caráter centralizado e passou a ser utilizada de diversas formas.

Línda Baez Rubí (2018) destaca ao menos dois grandes polos em que ocorreu a apropriação e circulação do pensamento llulliano no continente europeu. De um lado, um grupo de intelectuais franceses, liderados por Jacques Lefèvre d’Étaples (1455-1536) e seu discípulo, Charles de Bovelles; por outro, o grupo vinculado ao cardeal Francisco Jiménez de Cisneros (1436-1517). Cada um dos grupos teria buscado, no projeto llulliano, elementos para fortalecer as suas atuações com relação a suas próprias causas. Lefèvre d’Étaples demonstrou interesse sobre as características devocionais e morais do intelectual catalão, enfatizando a luta de Llull contra os averroístas, no século XIII, no quadro das discussões universitárias acerca da herança do pensamento aristotélico associado à doutrina cristã (Victor, 1975). No caso dos intelectuais vinculados ao cardeal Cisneros, o contexto de descobertas no Novo Mundo, além dos movimentos apostólicos que se manifestavam na Espanha do início do século XVI, ressaltam-se os interesses sobre aspectos pastorais, didáticos e morais da obra luliana, embora os elementos filosóficos também tenham sido objeto de atenção (Baez Rubi, 2018)19.

A biografia de Llull destacada neste contexto foi empreendida por um dos discípulos de Lefèvre, Charles de Bovelles, cujo esforço por divulgar e desenvolver a obra luliana também são objetos de constante menção na literatura sobre o lulismo.

Joseph M. Victor indica que a influência de Llull sobre Bovelles ocorreu em dois aspectos. Por um lado, o trabalho intelectual do matemático francês foi tributário da ars do autor catalão, a qual esboçava um método de compreensão da metafísica do cosmos, identificando as formas de relação entre o mundo material e espiritual; por outro, o modelo de vida eremítica de Llull, dedicada ao trabalho acadêmico, à especulação teológica e à contemplação religiosa exerceu fortes impressões sobre Bovelles (Victor, 1976).

Isto é particularmente observável na forma com que representou o mestre catalão na biografia que redigiu inicialmente como carta a um amigo, Raimundo Boucherius (Victor, 1976; Gayà, 1980).

A carta foi impressa, posteriormente, em 1511 por Jodocus Ascensius Badius (1462-1535), que então possuía uma loja de impressões em Paris. No volume, ela precede textos filosóficos de Bovelles e é antecedida de uma análise sobre a primeira parte do evangelho de João20.

Se na narrativa elaborada por Le Myésier observávamos uma biografia que partia da conversão do mestre catalão, protagonizada por um Llull dedicado aos embates intelectuais, para extirpação do averroísmo e defesa da verdade da fé cristã, na que Bovelles desenvolve, há uma ênfase diferente. De início, destaca-se a insistência sobre os primeiros anos de vida de Llull, antes que ocorresse a conversão.

Bovelles apresenta um Llull cortesão, vivendo e compondo poemas para as damas da corte do rei de Maiorca durante a maior parte de sua vida, tal como a Vita coaetanea registra em suas linhas iniciais21.

Apesar da consonância inicial, logo relata-se o amor que Raimundo teria cultivado neste período, por uma mulher nobre e casada. Este sentimento teria feito com que Raimundo perdesse a razão, envolvendo-se em alguns acontecimentos que lhe afetavam a dignidade:

Pois, tal como me contou aquele que narrou [a história de Llull], como Raimundo um certo dia passeasse a cavalo no mercado e tivesse visto entrar em um templo vizinho, para as preces divinas, a mulher a quem devotava um amor insensato, logo a seguiu e entrou no templo - mesmo estando montado -, e por tal fato - feito tal como um insano e sem controle próprio - mereceu ser imediatamente expulso com grande escárnio de todos (Bovelles, 1511, f. 34v, tradução nossa)22.

Esse evento é narrado de maneira inovadora por Bovelles23. Nenhuma das biografias anteriores representou um Llull próximo de tal comportamento. Reais ou não, seria bastante improvável que elas, dado os aspectos que buscavam reforçar, dessem ênfase a essas informações.

A dama por quem Llull se apaixonara ainda desempenha um papel mais importante diante da imprudência e da irracionalidade do amor que ele cultivava. Após chamá-lo a um encontro privado, revelou-lhe que tinha uma doença mortal que tornava seu aspecto repulsivo, chamando-lhe a atenção de como seria mais racional que esse sentimento fosse devotado a Deus:

Raimundo foi convidado para uma conversa - o que [ela] conseguiu por meio de seu marido - e foi introduzido em um quarto, [onde] imediatamente não se envergonhou absolutamente de desnudar-lhe seu peito - que estava corroído pelo câncer e enegrecia com terrível odor -. Simultaneamente, inculcou estas palavras nos ouvidos dele: Veja, Raimundo, o que amas! Conhece o fétido cadáver que tanto amas! O zelo que até agora dedicaste a mim com tão louco amor, mais cautelosamente deveria ser dedicado por ti a Cristo. Poderias, com efeito, já merecer dele o reino dos céus (Bovelles, 1511, f. 34v, tradução nossa)24.

Podemos perceber, por meio desta passagem, a diferença que se desenvolve na construção narrativa de Bovelles. A ênfase em uma crise que levara Llull à conversão é um tema ainda mais elaborado na sequência do texto, destacando-se o tom emocional, que já fora bastante acentuado pela cena descrita, seguida das palavras anteriores da dama:

Inundado de dor na alma, Raimundo - vendo-se prudentemente ser refutado pela mulher, ademais que havia se enganado tanto tempo pela beleza apenas do rosto, não tendo percebido as coisas que se escondiam embaixo das vestimentas - imediatamente voltou para casa e, dando-se à oração, consagrou todo seu esforço futuro em sumos votos a Cristo (Bovelles, 1511, f. 34v, tradução nossa)25.

Somente após este evento amoroso dramático é que Raimundo desperta para a conversão, orientado pelas palavras da sua ex amada. Na sequência da narrativa, ainda no mesmo parágrafo, Bovelles insere a cena da conversão que é comum entre a Vita coaetanea e o Breviculum, nas quais são relatadas as sequenciais aparições da imagem de Cristo. Esta cena, porém, dado o conjunto mais amplo de informações sobre a vida de Llull - sejam reais ou imaginários - oferecem outra leitura acerca das motivações que o conduziram à vida eremítica. A conversão não teria sido motivada apenas pela inspiração e terror das imagens de Cristo que surgem inesperadamente no quarto do senescal. Elementos mundanos, como uma desilusão amorosa, teriam influenciado a sua escolha. Por certo, esta se constitui em uma visão mais humanizada sobre Llull.

Bovelles também descreve o sistema lógico desenvolvido por Llull como uma arte inspirada por Deus e cuja validade seria incontestável. Todavia, nesse aspecto, destaca-se outro atributo característico da compreensão que se desenvolvera sobre o autor catalão no início da modernidade, sobretudo no quadro dos seguidores de Lefèvre d’Etaples. Enquanto Le Myésier expõe Llull como um grande sábio, sem aludir em nenhum momento às dificuldades intelectuais do mestre, na carta de 1511, temos elementos que ressaltam o estado de ignorância em que Llull vivia antes de receber as iluminações que lhe permitiriam elaborar sua ars:

Perseverando vários dias em oração, não obteve iluminação para a publicação de apenas um livro, mas subitamente ilustrado pelo senhor em toda a mente (pois o senhor dá a quem muito deseja e não se apressa) se admirou que tivesse sido preenchido pelo céu com todos os princípios das ciências, tanto humanas quanto divinas (embora fosse antes um ignorante) e tivesse aprendido de uma vez toda a verdade pelo espírito santo26 (Bovelles, 1511, f. 35R, tradução nossa).

Este aspecto fica ainda mais evidente ao final da carta, quando Bovelles exprime alguns de seus juízos sobre Llull e sua obra, fora da narrativa biográfica, mas baseando-se nela:

A grandeza das sentenças, mais do que a clareza do estilo faz valer os livros de Raimundo. Pois, tanto superam os demais em doutrina, quanto são superados por eles pela escrita, sendo admitidamente mais humildes, como é natural da parte de alguém que recebera a iluminação da ciência por Deus e não pelos homens e, em seguida - já quase quadragenário -, aprendeu as normas dos homens de expor e escrever. Deus ilustrou, portanto, sua mente; o homem, porém, instruiu a sua boca ou língua27.

Esta caracterização foi mote comum no final do século XIV e início do XVI. Johnston (1981) indica que este ponto crítico da obra luliana foi enfatizado pelo intelectual espanhol Fernando de Córdoba, que apresentou juízos severos sobre a capacidade retórica de Llull na introdução a seu livro De artificio omnis et investigandi et inveniendi natura scibilis. A postura que Bovelles assume em sua narrativa, com efeito, foi a resposta geral encontrada ao criticismo iniciado por Fernando. Esta separação entre as qualidades de estilo e as de conteúdo, foi formulada por seu mestre, Lefèvre d’Etaples, a tal ponto que a falta de treinamento formal de Llull não expressou mais um demérito, mas uma qualidade, dado que sua simplicidade permitia atingir a sabedoria divina:

Há mais uma dimensão na imagem que Lefèvre formou de Raimundo Llull. Sem dúvida, ele via Llull como um idiota medieval. Em seu prefácio às Contemplationes Idiotae de Raymundus Jordanus, Lefèvre definiu um idiota como alguém que não tinha instrução e, portanto, falava diretamente a palavra de Deus; neste contexto, o estilo tornou-se irrelevante, na verdade quase um impedimento à compreensão da sabedoria divina, que era melhor transmitida pela santa rusticidade do estilo do idiota. No prefácio da edição de 1499, Lefèvre diz-nos que não devemos ser dissuadidos de ler as obras de Llull ‘porque aquele homem havia sido um idiota e um iletrado’; e ‘nem a simplicidade do seu sermão vos afaste’28 (Victor, 1975, p. 514, tradução nossa).

Estes elementos indicam que uma das funções da Vita Raimundi Lulli eremitae foi dialogar com estas proposições e veicular a tese formulada em resposta aos críticos do autor catalão.

O aspecto devocional e místico da personalidade de Llull e o significado desta para Bovelles é particularmente enfatizada pela maneira com que ele descreve a morte do sábio. Ao retomar uma narrativa que se expressara literariamente pela primeira vez no início do século XVI29, ele corrobora o discurso de santificação que se desenvolvera em relação a Llull:

Conta-se que Raimundo no final de sua vida, embora com o corpo já velho, mas sempre com ânimo vigoroso, de dia em dia mais robusto, atravessou novamente de Maiorca a Tunes para fazer pregações. Logo que ali chegou, foi reconhecido e em seguida expulso da cidade e morto por apedrejamento no porto, com concurso de todo o povo. Na noite seguinte, quando alguns navegadores maiorquinos navegavam próximos ao porto de Tunes (como a Deus aprouve), viram ao longe uma grande pirâmide de luz que vinha do monte de pedras (pelo qual o corpo de Raimundo havia sido coberto), e admirados pelo fato inesperado encaminharam-se para lá sem demora, escavado o monte de pedras, encontraram o corpo morto. Assim que reconheceram que pertencia a Raimundo - visto que era cidadão de Maiorca -, colocado no navio, levaram-no consigo para Maiorca. Diz-se que até hoje o corpo dele está conservado neste lugar e que o iluminou com muitos milagres30.

A temática do martírio não é encontrada nas obras biográficas anteriores ao século XV, mas é característica da continuidade literária que a vida de Llull teve neste século, quando a sua figura foi gradativamente moldada nos termos de um mártir que havia defendido a verdade, mas sobretudo, morrido em defesa da fé cristã.

Esta percepção martirológica é percebida já na versão catalã da Vita coaetanea. Segundo Garcías Palou (1984), mais do que uma tradução ao catalão, produzida no século XV, o texto pode ser considerado uma edição comentada da vita redigida em Paris sob ordens de Llull. Esta versão biográfica apresenta um tom apologético ressaltado e sinaliza um movimento em sentido de santificação da figura do biografado, embora nela não se encontrasse a ideia de um martírio padecido pelo santo:

A la luz de estos textos, introducidos por el traductor mallorquín, se descubre una pluma de tal intención martirial, que se esfuerza por mostrar a Ramon Llull como mártir o poco menos. Por cuyo motivo, la Vida coeania, muy probablemente, ya en el siglo XV, contribuyó poderosamente en la figuración de la tradición o leyenda relativa a su martirio (Garcías Palou, 1984, p. 322).

Não obstante a ausência do martírio, a biografia catalã sinalizaria a existência de uma série de pré-condições para a interpretação martirológica que se apresenta em Jaume Janer31 e em Bovelles. Além disso, considerando as frequentes experiências de pregação conduzidas por Llull em territórios islâmicos, descritas pelo menos em dois trechos da Vita coaetanea de 1311, não parece absurdo considerar que a própria martirização fazia parte do horizonte de expectativas apresentado pelo próprio biografado32.

Imerso nessa interpretação, Bovelles compartilha os pontos apresentados por Jaume Janer acerca do local e forma da morte de Llull, além de destacar os milagres concedidos no local de sepultura do santo. Estes dados, entretanto, servem para o arremate da visão mística atribuída por Bovelles à vida e obra do autor biografado e ressaltam a santidade com que aquele considerava o sistema de pensamento luliano, que assim se apresentava como derivado da iluminação divina sobre um sujeito cujas dificuldades intelectuais apenas sinalizavam a maior qualidade espiritual de seus escritos e cuja vida, coroada pelo martírio em defesa da fé considerada verdadeira, deveriam servir de exemplo aos intelectuais do século XVI.

Considerações finais

Ao analisarmos a historicidade da biografia de Raimundo Llull, não foi nossa intenção identificar o que ele efetivamente teria feito ou não, durante o período de sua vida, ou indicar qual das fontes citadas melhor apresentou seus feitos. O objetivo deste estudo foi explorar a reformulação dos elementos biográficos de Llull, integrados ao projeto político e intelectual do llullismo, tal como entendido por cada um dos dois biógrafos destacados.

Estes processos são observáveis ao identificarmos os procedimentos adaptativos empregados pelos autores. Le Myésier desenvolve a biografia como introdução a sua exposição da ars llulliana. Representado os eventos por meio de imagens iluminadas33, ele empregou recursos narrativos que, para além de um efeito de embelezamento, orientaram a interpretação dos leitores. Sobretudo por meio da representação de suas interações com Llull, Le Myesier faz o próprio biografado ser apresentado como autorizador e justificador de seu trabalho, que poderia então ser tomado como continuador do esforço doutrinal e piedoso iniciado pelo mestre.

É característico da forma com que Le Myésiér apresenta a obra de seu mentor - sobretudo se a pensarmos de maneira comparada ao llullismo do século XVI -, indicar que a ars llulliana seria absolutamente incorrupta e correta. Llull é identificado não apenas como um beato, cuja sabedoria se manifestava apesar de erros ou imprecisões de estilo, mas sim, como um grande sábio que, para além do trabalho pela conversão, havia desenvolvido um instrumento lógico de comprovação das verdades da fé cristã.

Bovelles, por sua vez, acrescenta ênfases e atributos à biografia de Llull que são característicos dos debates intelectuais de seu contexto. Em seu texto, observamos um conjunto de informações não constantes nas biografias anteriores. O tema da entrada na igreja montado em um cavalo, o da amada que lhe revela o seio afetado por uma doença, além do narrado a respeito da sua morte por apedrejamento e da recuperação de seu corpo, indicam a vivacidade da biografia do autor catalão no curso dos séculos XIV e XV.

Estes temas, com efeito, são retomados por Bovelles com a intenção de manifestar a exemplaridade do processo de conversão vivenciado pelo sábio catalão e de sua vida santa, que teriam permitido a Llull acessar intelectualmente os fundamentos lógicos da doutrina cristã, mesmo que fossem evidentes o seu despreparo quanto ao conhecimento formal. Assentindo aos críticos das obras de Llull acerca das deficiências estilísticas, Bovelles, todavia, enuncia esta característica como atributo positivo, designador da orientação divina sobre as formulações contidas na obra llulliana.

De acordo com esses dois olhares apresentados, nossa ideia mestra foi evidenciar que as releituras históricas do autor do estudo, evidenciam, muito mais as interpretações de cada tempo de histórico sobre Lull do que, especificamente, as ações do autor. Esse seria o caminho próprio da história da educação.

Referências

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  • VICTOR, Joseph M. The Revival of Lullism at Paris, 1499-1516. In. Renaissance Quarterly, Vol. 28, Nº. 4, Studies in the Renaissance Issue (Winter, 1975), pp. 504-534.
  • 1
    Optamos pela grafia Raimundo Llull, comumente empregada pela literatura a respeito do autor catalão. Não obstante, outras grafias são encontradas na literatura, tanto em Português, quanto em outras línguas. Tais são os casos de Ramon Llull, Raimundo Lúlio, Raimundo Lulo.
  • 2
    Llull descreve-se como dedicado à escrita de canções e poemas na corte do rei de Maiorca, antes de passar pelo processo de conversão (ROL., Vol.8, p. 272).
  • 3
    Nos referiremos dessa forma à Ars Magna Universalis, pedra angular do pensamento luliano. Esta foi apresentada por Llull em diferentes obras nas quais procurou aprimorar aquilo que ele mesmo considerou como uma nova forma de conhecimento que lhe havia sido revelada por Deus (Rubio Albarracin, 2018, p. 81-82).
  • 4
    Segundo Hilgarth (1971), os primeiros dados a que temos acesso sobre a vida de Le Myésier referem-se à sua presença como jovem socius da Universidade de Paris por volta de 1284, mas não indicam sua data de nascimento. O obituário do capítulo da catedral de Arras indica que sua morte teria ocorrido em 1336.
  • 5
    Mais elementos sobre o manuscrito, sua historicidade, condições de preservação e materialidade podem ser encontradas no texto de Santiago Sebastián López, La iconografía de Ramón Llull en los siglos XIV y XV. In Mayurqa: revista del Departament de Ciències Històriques i Teoria de les Arts, nº 1, 1968, págs. 25-62.
  • 6
    Intentio quare feci fieri picturam subsequentem fuit duplex: prima intentio fuit ut sciretur origo a quo et quomodo orta est ars ista et alie Remondi artes et libri. Alia causa est propter solatium. quia talia inspicere multociens excitant animam ad beneagendum et bona.
  • 7
    Por tratar-se de um manuscrito, ao citarmos o Breviculum designamos a numeração de seus fólios e, logo em seguida, indicamos com r ou v se se trata do rosto ou verso.
  • 8
    Domine, moderni gaudent brevitate considerabilium, ideo iam preceptum est mihi, prout est possibile bono modo, actuum librorum vestrorum abreviare sententias, intellectu tamen integras, atque alleviare studium et fatigationem oculorum, confusionem significatorum alfabeti Demonstrativae Artis et sexdecim eiusdem artis figuras, que confundunt intellectum.
  • 9
    Utilizamos a transcrição das legendas das miniaturas do Breviculum apresentada por Hilgarth (1971) e por Rubió (1916).
  • 10
    Ideo, Magister, sine presumptione, ex omnibus intendo in unum colligere eligendo et ad vestram intentionem finalem deducendo et primam electionem, et ex eadem eligere secundam breviorem et ex secunda intendo terciam eligere breviorem, quam Domine mee Regine Francie et Navarre intendo ut debitum presentare.
  • 11
    Ecce quod iam postergavi 16 figuras et significata litterarum alfabeti huius Artis demonstrativa… et de novo Artem inventivam veritatis sub quatuor figuris in arte manifestis et sub praesenti alfabeto multum brevi et levi, ut patere potes in hoc superiori alfabeto.
  • 12
    Vita coaetanea, ROL 8, p. 283.
  • 13
    Dum tamen textum non ledas, ex omnibus eligas quod est utilius et magis inteligibile, diligibile et recordabile, quare quod pretermisi in uno libro recuperavi in alio, ideo optime facis.
  • 14
    ‘Quia finem principalem observavit et textum non mutavit bene vel optime fecit, quare studium aliorum alleviavit’.
  • 15
    O Sancta Maria, […] vota mea quas intendo prosequi […] inpetra piissima advocata nostra, ut placeat sibi id quod in Christiano clero deficit in hoc mundo perveniat ad votum, scilicet quod fiat Ars ex largitate tue magne sapientie per quam possit infidelibus ostendi necessariis rationibus veritas deitatis filii tui et sue sancte legis et doctrine; secundo, quod inveniantur litterati devoti, bene scientes Artem predictam quam facere proposui, sui gratia principaliter agente; tercio, quod papa, imperatores, reges, principes et barones de predictis litteratis sic provideant in locis suis ut discant linguam arabicam et ebream, ut in omnem terram exeat sonus eorum, et vadant per universum orbem predicaturi veritatem tue legis, et ut fiat passagium predictorum universale munitum ex predictis litteratis, ut tam cum armis spiritualibus quam cum timore armorum corporalium fiat inter Christianos et Saracenos concordia ubi clerus in veritate concordabit, quia sunt valde propinqui.
  • 16
    Vita coaetanea, ROL 8, p. 303.
  • 17
    O Sancte Iacobe et vos omnes sancti Dei, ad vos rogandum hic vester peregrinus venio. Avertite et docete me et apud Dominum Nostrum lesum Christum cum sanctissima matre sua impetrate, tamen ad velle suum, ut ad honorem et eius laudem, gratia largitatis sue sapientie infinite, me ut suo instrumento ipsoque principaliter agente posse facere in toto vel in parte, ut ipse a quo emanat omne bonum, desiderium meum si bonum est impleatur, ut dictum est, et si bona est intentio a fine non f[r]ustretur. Qui finis est ut ab omnibus ration[al]ibus hominibus in veritate sua existentie et operis eius intrinsece et extrinsece diligatur et meritum recolatur, benedicatur, regratietur et laudetur.
  • 18
    Remonde, secundum bonam intentionem tuam quam novi et quia cum humilitate me te induere pannis humilitatis humiliter cum instantia requisivisti, exemplo Beati Francisci conversus proficias et Deus te benedicat et in tuam intentionem bonam si placet proficere et perseverare te faciat.
  • 19
    Sobre esta questão, o primeiro capítulo da obra de Marcel Bataillon (1950), oferece um panorama completo.
  • 20
    de Bovelles, C., & Badius, J. In hoc opere contenta: Co[m]mentarius in primordiale euangelium diui Ioannis; Vita Remundi eremitę; Philosophicę aliquot epistolæ. [Paris]: venundantur in edibus Ascensianis (1511).
  • 21
    RAIMVNDVS senescallus mensae regis Maioricarum, dum iuuenis adhuc in uanis cantilenis seu carminibus componendis et aliis lasciuiis saeculi deditus esset nimis, sedebat nocte quadam iuxta lectum suum, paratus ad dictandum et scribendum in suo uulgari unam cantilenam de quadam domina, quam tunc amore fatuo diligebat (ROL, T. VIII, p. 272).
  • 22
    Nam ut mihi retulit qui historiam ipsam denarrabat quum quadam die Raemundus equo conscenso in foro spaciaretur videretque earn quam fatuo amore diligebat, in vicinum templum divinae precis causa profectam mox (tametsi eques) illam in templum prosecutus est, ex quo confestim (velut amens et incompos sui factus) cum ingenti omnium risu explodi meruit (Bovelles, 1511, f. 34v).
  • 23
    Edgar Alisson Peers (1929) indica que Llull descreve um evento semelhante no Felix, ou o Livro das Maravilhas, Livro. VIII, Capítulo 27.
  • 24
    Advocato ergo semel (ut a marito impetrarat) in colloquium Raemundo eoque in cubiculum introducto illi ex templo pectus (ut cancrino erat exesum morbo utque teterrimo odore squalebat) nudare haud quaquam erubuit, simulque verba haec illius auribus inculcavit: Vide quid, o Raemunde, diligas! Agnosce quam olidum cadaver ipse tantopere ames. Studium quod hactenus erga me tarn stulto amore impendisti Christo cautius fuit abs te dicandum. Potuisses equidem iam ab illo regna promeruisse caelestia (Bovelles, 1511, f. 34v).
  • 25
    Tanto enim perfusus animi dolore, Raemundus, videns seipsum sapienter a foemina coargui, insuper quod et tanto tempore solius faciei nitore deceptus ea minime cognovisset quae sub vestibus latebant, illico domum repetiit seque orationi subdens, omnem suam operam summis votis Christo in posterum dicavit (Bovelles, 1511, f. 34v).
  • 26
    Perseverans ergo plurimis diebus in oratione, non modo in editionem libri unius lumen obtinuit, sed repente tota mente illustratus a domino (dat enim dominus quibus vult affluenter et non improperat) admiratus est se (quippe prius idiotam) momento omnium scientiarum cum humanarum tum divinarum principiis superne fuisse imbutum et (iuxta sacra eloquia) omnem simul a spiritu sancto edidicisse veritatem.
  • 27
    Libros autem Raemundi magis sententiae altitudo quam stili claritas commendat. Nam quantum caeteros doctrina transiliunt intantum ab iisdem sermone superantur humilioresque esse dignoscuntur, utpote qui non ab hominibus sed a Deo scientiae lumen in primis acceperat et deinceps ab hominibus iam paene quadragenarius dictandi scribendique normam didicerat. Mentem enim eius illustravit Deus, os vero sive linguam eius erudivit homo.
  • 28
    There is one more dimension to the image Lefèvre formedof Ramón Lull. Without question he viewed Lull as a medieval idiota. In his preface to the Contemplationes Idiotae of Raymundus Jordanus, Lefèvre defined an idiota as one who was uneducated and therefore spoke the word of God directly; in this context style became irrelevant, indeed almost an impediment to the understanding of divine wisdom which was conveyed best by the holy rusticity of the idiota's style. In the preface to the 1499 edition Lefèvre tells us that we should not be deterred from reading the works of Lull 'quod vir ille idiota fuerit et illiteratus'; and 'neque item sermonis eius simplicitas vos averta’.
  • 29
    Especificamente, seugundo Rovira i Valls (2016, p. 87), por Jaume Janer, intelectual lulista que publicou em 1506 a obra Ars metphisicalis, na qual consta o ofício a Raimundo Llull que indica o martírio do mestre catalão: ‘Officium glriosissimi et beatissimi martyris magistri Raymundi Lulli qui passus est pro christi nomine in Tunici civitate; et lapidibus corruit; et sic lapidatus est a sarracenis; et translatus post mortem maioricis et ibi quiescit in pace ecclesie in monasterio fratrum minorum in quaedam tumba marmorea honorabiliter et ibi multa miracula fecit (Ars Metaphisicalis, 1506, f. CCCVIII).
  • 30
    Fertur ad extremum Raemundus corpore quidem iam senex animo vero semper virens ac in dies robustior rursum ex Maiorica traiecisse Thunitium praedicationis causa. Quo quum pervenisset agnitus statim ab incolis mox concursu populi fuisse e civitate eiectus et lapidibus in portu obrutus. Sequenti vero nocte quum forte (ut Deo placuit) Maioricenses quidam negociatores Thunitiensium portum praeternavigarent, viderunt a longe immensam luminis pyramidem e cumulo lapidum (quo obrutum Raemundi corpus erat) procedentem, admiratique rei novitatem illuc sine mora divertentes, subruta lapidum congerie, defuncti corpus invenerunt. Quod quum statim Raemundi (quippe qui Maioricensis civis erat) esse cognovissent, impositum navibus Maioricas secum retulerunt. Diciturque in eo loco usque hodie asservari corpus eius et plurimis claruisse miraculis.
  • 31
    Jaume Jener foi um importante intelectual llullista e religioso que recebeu autorização do rei Fernando II de Espanha para fundar uma cátedra dedicada ao estudo da ars llulliana em Valência no ano de 1500. Os dados referentes à sua vida são exíguos e permitem apenas uma estimativa aproximada da década de seu nascimento, definida como posterior à 1450. Sua obra Ars Metaphisicalis (1506)foi a primeira a registrar o martírio de Llull, em termos muito semelhantes aos empregados por Bovelles (Rovira i Valls, 2016; Andersen, 2022).
  • 32
    Duas experiências de pregação em cidades do norte da África são narradas na vita. A primeira teria ocorrido em 1293 na cidade de Tunes, da qual resultou sua prisão e, posteriormente, espancamento em mãos dos cidadãos (ROL, T. VIII, p. 289-293). A segunda dera-se em 1307 na cidade de Bugia, onde teria ficado preso por cerca de 6 meses por causa de suas pregações e confrontações com fiéis islâmicos. Também nesta segunda experiência, Llull teria sido violentamente agredido pelos cidadãos e apenas com muita dificuldade escapou da pena capital (Ibid., p. 297 - 300). A existência de uma terceira viagem ao norte da África para realização de pregações é registrada apenas nas obras do século XVI.
  • 33
    O recurso à iluminação de manuscritos é atestado em diversas produções do século XIV, criadas em oficinas especializadas nos procedimentos de confecção destas obras, geralmente encomendadas por membros da aristocracia. O termo remete ao efeito causado pelo emprego de tintas metálicas que davam ao leitor a sensação de luz nas imagens (Alves, 2022).
  • Declaração de Disponibilidade de Dados
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Editado por

  • Editora responsável:
    Patricia Weiduschadt

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    13 Jan 2025
  • Aceito
    11 Ago 2025
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