Open-access Natural ou laboratorial? Ciência, saúde e política no debate sobre a origem do SARS-CoV-2

Resumo

Este artigo analisa a discussão científica e sociopolítica acerca das origens do SARS-CoV-2, concentrando-se nas obras Viral, de Alina Chan e Matt Ridley, e Sem fôlego, de David Quammen. Esses livros apresentam versões contrastantes, salientando conflitos de interesse e competição dentro da comunidade científica. O Mercado Atacadista de Frutos do Mar de Huanan e o Instituto de Virologia de Wuhan estão no centro do debate, gerando discussões que envolvem transbordamento zoonótico e pesquisas em laboratórios de alta contenção. Ambas as fontes ressaltam a necessidade de identificar as origens do novo coronavírus para evitar futuras pandemias, mas divergem em aspectos-chave, sobretudo quanto à importância e aos riscos associados à pesquisa laboratorial de patógenos com potencial pandêmico.

Palavras-chave
Origem; SARS-CoV-2; Vazamento de laboratório; Transbordamento natural; Política

Abstract

This paper examines the current scientific and sociopolitical discourse on the origins of SARS-CoV-2, focusing on Viral by Alina Chan and Matt Ridley and Breathless by David Quammen. These books present contrasting narratives, highlighting competition within the scientific community and conflicts of interest. Central to the debate are the Huanan Seafood Market and Wuhan Institute of Virology, with discussions that involve zoonotic spillover and high-containment lab research. Both sources stress the need to identify the origins of the novel coronavirus to prevent future pandemics, but they diverge on key aspects, particularly regarding the importance and risks associated with laboratory research on potentially pandemic pathogens.

Keywords
Origin; SARS-CoV-2; Lab leak; Natural spillover; Politics

É uma ideia que talvez faça rir, mas a única maneira de lutar contra a peste é a honestidade (Camus, 1947, p.151).

Eu ficava observando o céu – disse ele. – Pensava nos países do outro lado do oceano, imaginava se algum deles não teria sido poupado, de algum modo. Se um dia eu visse um avião, seria sinal de que em algum lugar os aviões ainda decolavam. Durante uma década inteira, depois da pandemia, fiquei olhando atento para o céu (Mandel, 2014, p.128).

Quando a notícia sobre a pandemia de covid-19 foi comunicada pela primeira vez, em janeiro de 2020, imediatamente se desencadearam duas hipóteses antagônicas sobre a origem do vírus responsável, o SARS-CoV-2. Essas teorias, levantadas basicamente em artigos científicos e redes sociais, sugeriam que a pandemia seria resultante de um transbordamento1 natural em um mercado de animais vivos na região central da China ou um vazamento ocorrido durante um experimento em um laboratório de virologia na China. Não tardou para que o debate alcançasse a arena geopolítica. As acusações se intensificaram (sobretudo entre EUA e China) à medida que o tempo transcorria sem respostas claras acerca da origem do vírus, girando em torno de problemas de transparência relacionados aos mercados de animais vivos e laboratórios de virologia.

Em novembro de 2021, Alina Chan e Matt Ridley publicaram Viral: the search for the origin of covid-19 [Viral: a busca pela origem da covid-19]. Chan, bióloga molecular sino-canadense especializada em terapia genética e engenharia celular, publicou inúmeros trabalhos em periódicos renomados; à época do lançamento do livro, era pós-doutoranda com pouca experiência em virologia. A despeito da razoabilidade de seus argumentos, houve quem a considerasse não ortodoxa e falha em evidências robustas (Honigsbaum, 15 Nov. 2021). Ridley é um escritor britânico com doutorado em biologia, jornalista e empresário, mais conhecido por seu trabalho em biologia, meio ambiente e economia. Viral apresenta vastas referências científicas de uma perspectiva não convencional, sugerindo – algo controverso para parte dos leitores – que a covid-19 teria se originado de um vazamento de laboratório de um coronavírus do tipo SARS. Chan e Ridley indicam o Instituto de Virologia de Wuhan (doravante citado pela sigla em inglês, WIV), liderado pela virologista Zhengli Shi, como a provável fonte do vazamento. O WIV, localizado em Wuhan, cidade com cerca de 11 milhões de habitantes, epicentro da pandemia, mantém colaborações com outros pesquisadores, incluindo o virologista Peter Daszak, presidente da EcoHealth Alliance, organização sem fins lucrativos sediada nos EUA. A missão da EcoHealth Alliance é proteger seres humanos, animais e meio ambiente de novas doenças infecciosas e, segundo consta em seu site, colaborar com pesquisadores chineses no sentido de compreender por que essa região é um ponto crítico de doenças como SARS, gripe aviária H5N1 e covid-19. A organização, que exerce um papel fundamental no movimento One Health, promove uma abordagem interdisciplinar que estabelece uma ligação entre saúde humana, animal e ambiental. Esse modelo é fundamental na condução de respostas globais a doenças zoonóticas.2

Viral discute a importância, a relevância, as limitações e os riscos de pesquisas de patógenos com potencial pandêmico. Em mais de quatrocentas páginas, Chan e Ridley compilam um conjunto substancial de informações (científicas, econômicas e políticas) para apresentar eventos históricos que consideram relevantes para a covid-19 e explicar os métodos moleculares e genéticos das pesquisas em coronavírus e outros vírus. Enfatizam o papel de não especialistas que levantaram dúvidas sobre as origens da pandemia em plataformas como Twitter, WeChat e Weibo. Empregando a Lei de Liberdade de Informação (Foia) dos EUA, Viral divulga e-mails públicos e privados entre cientistas, gestores e políticos, oferecendo informações reveladoras sobre as incertezas que permeiam a origem da pandemia. Em alguns casos, foram divulgados e-mails de pesquisadores do National Institutes of Health e Centers for Disease Control and Prevention, provocando debates sobre transparência e interferência política na ciência.

Cerca de um ano depois, em outubro de 2022, David Quammen publicou o livro Breathless: the scientific race to defeat a deadly virus [Sem fôlego: a corrida científica para derrotar um vírus mortal, tradução de Laura Teixeira Motta e Pedro Maia Soares, publicada pela Editora Companhia das Letras em 2023]. Quammen, célebre jornalista e escritor estadunidense das áreas de biologia e saúde, registra a potente resposta da ciência e da saúde pública à pandemia de covid-19. O livro contextualiza o novo coronavírus usando o conhecimento de pandemias anteriores, enfatizando as pesquisas em morcegos e coronavírus do tipo SARS. A obra também elucida como o complexo impacto do comércio legal e ilegal de animais silvestres (responsável pelos mercados de animais vivos) contribui para o transbordamento zoonótico, ressaltando as conexões entre perda de biodiversidade, a invasão humana em hábitats de fauna selvagem e o surgimento de doenças infecciosas. Embora o título sugira maior abrangência, Sem fôlego se aprofunda nas origens do SARS-CoV-2, chegando inclusive a apresentar uma perspectiva crítica em relação às ideias de Chan e Ridley.

Os autores de Viral salientam que, nos primeiros meses da pandemia de covid-19, o material genético do vírus SARS-CoV-2 não passou por mutações significativas e não manifestou um acúmulo de alterações que sugeririam adaptação ao hospedeiro humano. Aqui, o conceito de adaptação se refere ao processo evolutivo envolvendo mutações aleatórias e seleção natural pelas quais variações na estrutura, em capacidades fisiológicas ou de comportamento podem conferir vantagem em um ambiente específico (Caponi, 2014a). Em outras palavras, ainda que o “novo coronavírus” tenha mudado, ele não evoluiu no sentido evolutivo esperado. Em maio de 2020, em uma versão prévia de um artigo científico (preprint) amplamente discutido, Shing Hei Zhan, Benjamin Deverman e a própria Alina Chan argumentavam que, desde o início da pandemia, o SARS-CoV-2 surgira “pré-adaptado” aos seres humanos, uma vez que já era capaz de adentrar células humanas, replicando-se e sendo transmitido para novos hospedeiros. Zhan e colaboradores compararam o SARS-CoV-2 ao vírus SARS que, entre 2002 e 2003, infectou cerca de oito mil pessoas e provocou oitocentos óbitos, observando que o SARS-CoV-2 apresentava maior estabilidade genética no início da pandemia. Isso os levou a propor que o SARS-CoV-2 possa ter passado por experimentos de passagem em série, uma técnica comum em virologia na qual repetidas infecções são realizadas a fim de acumular mutações que levem a adaptações fundamentais. A bióloga molecular Rosana Segreto (citada em Viral) defendeu essa teoria, sustentando que a estabilidade genética do SARS-CoV-2, apesar de sua disseminação global, asseguraria a séria consideração da hipótese do vazamento laboratorial (Segreto, Deigin, 2020; Segreto et al., 2021). Viral apresenta essa análise como parte de seu apelo maior por uma investigação mais aberta sobre todos os cenários possíveis para o surgimento da covid-19.

Antes de abordar a origem do SARS-CoV-2, Sem fôlego traça um panorama sobre as pandemias de modo geral, os vírus zoonóticos e a complexa relação entre a humanidade e o mundo natural. Nos capítulos iniciais, Quammen examina o contexto dos coronavírus, como circulam entre as espécies e a dinâmica dos surtos de doenças infecciosas que revelam padrões repetitivos e riscos associados, ainda que aparentem ser eventos isolados. Quammen também dedica considerável atenção à apresentação dos cientistas, suas pesquisas e hipóteses, criando um modelo explicativo que esclarece como e por que um vírus com características do SARS-CoV-2 foi previsto por diversos especialistas. Ele esmiúça surtos anteriores relacionados ao SARS de 2002-2003 e ao MERS de 2012, ilustrando como esses eventos contribuíram para compreender a natureza dos coronavírus e o modo como essas lições foram aplicadas (ou negligenciadas) quando do surgimento do SARS-CoV-2. Essa introdução detalhada enfatiza que o problema da origem não se limita a apenas tentar descobrir de onde vem o vírus, mas também como está relacionado ao contexto social e ecológico que facilita tais transmissões. Na obra Sem fôlego, o surgimento da pandemia em Wuhan, onde se realizam pesquisas sobre SARS, é considerado uma coincidência, ao passo que Viral sustenta que o vazamento laboratorial do WIV encerra um cenário plausível para a origem. Chan e Ridley repelem teorias da conspiração, sugerindo, na verdade, um escape acidental de um coronavírus modificado ou selvagem. Quammen, por sua vez, destaca as contradições da teoria do vazamento de laboratório e se concentra nos esforços científicos para mitigar a pandemia (Frutos, Gavotte, Devaux, 2021; Gavotte, Gaucherel, Frutos, 2023).

Ambos os livros foram escritos e publicados no auge da pandemia, quando as vacinas ainda não estavam disponíveis. Juntos, eles repercutem os debates científicos e outras discussões relevantes expostas em plataformas digitais. Com a ascensão das redes sociais, indivíduos e perfis se tornaram peças fundamentais na disseminação de informações e foram reconhecidos como fontes tanto no debate científico como no social. Chan e Ridley incorporaram as vozes desses atores sociais em seu livro: apesar de não serem cientistas, participaram de rigorosas discussões sobre a origem do vírus, sobretudo no Twitter. De maneira análoga, Sem fôlego reforça o papel da comunicação digital, ressaltando que Quammen realizou entrevistas por meio de plataformas online, inclusive com a própria Alina Chan. A pandemia inviabilizou o usual método de pesquisa de Quammen, ou seja, viajar para outros países para entrevistar pesquisadores pessoalmente (por exemplo, ver Quammen, 2012).

Neste artigo, nosso foco está nos pontos que consideramos os pontos mais relevantes para a controvérsia científica: (1) a variação mínima do vírus no princípio da pandemia, comparada com as expectativas baseadas no surto de SARS de 2002-2003; (2) o caso de 2012, em que trabalhadores envolvidos com a remoção de guano em uma mina de cobre em Mojiang, sudeste da China, desenvolveram uma grave síndrome respiratória; (3) os experimentos de ganho de função, que possibilitam aos virologistas aumentar a virulência e transmissibilidade dos patógenos para pesquisa científica; (4) a evolução do domínio de ligação ao receptor ACE2 na proteína Spike do SARS-CoV-2, que permite ao vírus ligar-se com mais eficácia às células-alvo; e (5) a origem do sítio de clivagem da furina na mesma proteína Spike do SARS-CoV-2, ausente em seus parentes mais próximos. Essa região é clivada pela enzima furina, causando uma mudança conformacional que facilita a entrada do vírus nas células hospedeiras. Claro que, em vista da extensão e do escopo de Viral e Sem fôlego, esses pontos são discutidos com muito mais detalhes por eles, e há outras áreas de discordância que não abordaremos aqui devido à limitação de espaço.

Estudos recentes ressaltam um problema mais amplo: as mudanças ambientais e climáticas no Antropoceno (nova era geológica definida pela influência sem precedentes da humanidade nos ecossistemas da Terra) afetam a evolução viral e o surgimento de pandemias (Holmes, 2024; Domingo, 2024). As características determinantes do Antropoceno – aquecimento global, destruição de hábitats, perda de biodiversidade – abalam os equilíbrios naturais e aproximam os seres humanos de regiões naturais selvagens, facilitando, por sua vez, os transbordamentos zoonóticos. Mudanças provocadas pelo ser humano como desmatamento, urbanização e comércio internacional aceleraram os distúrbios ecológicos, depauperando hábitats naturais e aumentando as interações homem-natureza (Rohr et al., 2019; Worster, 2020). Pandemias como a da covid-19 servem como potentes indicadores do impacto profundo e interligado dos processos evolutivos naturais e os riscos à saúde global, refletindo os papéis diretos e indiretos que as mudanças antropogênicas exercem, influenciando dinâmicas virais e elevando o potencial pandêmico desses agentes biológicos. Tais processos são intensificados pela mudança climática, que altera os hábitats e os padrões migratórios animais e induz as espécies a um contato mais próximo com populações humanas, expandindo as oportunidades de transmissões zoonóticas (Rohr et al., 2019; Bernstein et al., 2022; Gavotte, Gaucherel, Frutos, 2023; Natterson-Horowitz et al., 2023; Silva, 2024; Pfenning-Butterworth et al., 2024; Waizbort, 2024).

O problema científico

Praticamente todos os artigos científicos sobre este tópico são unânimes ao identificarem a origem do SARS-CoV-2 como um desafio científico crucial. Viral e Sem fôlego não são exceções. Segundo Chan e Ridley (2021, p.4):

A origem da pandemia de covid-19 talvez seja o mistério mais devastador de nossos tempos. A saga marcará para sempre a história da humanidade. Ela resultou na morte de milhões de pessoas, contaminou centenas de milhões e modificou drasticamente a vida de quase todas as pessoas no planeta. O impacto desse vírus invisível também pode ser aferido pelo cancelamento de casamentos e reuniões sociais, empregos perdidos e empresas falidas, escolas fechadas e pais equilibrando trabalho e cuidado dos filhos, faltas em consultas médicas de rotina e tratamentos adiados, além de um número impensável de pessoas vivendo de maneira mais isolada do que anteriormente. Se não descobrirmos como essa pandemia começou, estaremos mal preparados para saber quando, onde e como a próxima pandemia poderá começar.

Acrescentaríamos que, se não conseguirmos compreender como essa pandemia começou, estaremos ainda menos preparados para compreender por que futuras pandemias nos ameaçam. No campo da filosofia das ciências biológicas, perguntas sobre o “porquê” de um fenômeno ou processo, em geral, dizem respeito às suas causas evolutivas (Caponi, 2014b). Viral e Sem fôlego não pretendem oferecer ao leitor narrativas referentes às causas evolutivas do vírus e da pandemia (Waizbort, 2024), mas apresentar uma discussão integral sobre a origem proximal do SARS-CoV-2, como observa Quammen (2022, p.231):

Quando um novo vírus aparece de repente como uma infecção em humanos, uma das primeiras perguntas que surgem sempre é: de onde veio? Tudo vem de algum lugar, inclusive os vírus. A origem de um vírus desconhecido e perigoso é um problema urgente por diversas razões, entre elas a prevenção contra outras surpresas desse tipo e a compreensão da biologia da coisa. Entender a biologia da coisa e sua história evolutiva pode ser crucial para o desenvolvimento de remédios e vacinas. Mas identicar essa origem costuma ser difícil e demorado.3

Até o momento, a espécie animal responsável pela transmissão inicial do SARS-CoV-2 para seres humanos não foi identificada em grau que permita à comunidade científica confirmar consensualmente a origem do vírus (Alwine et al., 2023, 2024; Domingo, 2024; Holmes, 2024). Os vírus filogeneticamente mais próximos divergiram há cerca de quarenta anos e foram descobertos em morcegos de minas de cobre em Yunnan (RaTG13, identidade genética de 96,3%) e Laos (BANAL-52, identidade genética de 96,8%) (Garry, 2022; Teemmam et al., 2023). Ambos os locais estão a centenas de quilômetros de Wuhan, onde a covid-19 surgiu pela primeira vez. Em parceria com outros laboratórios chineses, o laboratório de Shi Zhengli no WIV realiza pesquisas com coronavírus em colaboração com grupos científicos internacionais, sobretudo dos EUA (Chan, Ridley, 2021, p.19; Chan, June 2024). Viral enfatiza a relação entre o WIV e a EcoHealth Alliance, com foco em alegações de que Peter Daszak financiou pesquisas de ganho de função em coronavírus do tipo SARS (Chan, Ridley, 2021, p.117-118).

A EcoHealth Alliance, consórcio multidisciplinar que reúne cientistas, veterinários, epidemiologistas, biólogos e especialistas em saúde pública, mantém parcerias institucionais que apoiam iniciativas em saúde global.4 Suas atividades de pesquisa, sobretudo colaborações internacionais, tornaram-se centrais no debate sobre as origens do SARS-CoV-2, em especial quanto ao financiamento de pesquisas em laboratórios chineses. Promovendo investigações sobre doenças zoonóticas, a EcoHealth Alliance coopera com laboratórios em diversos países para compreender os riscos de transbordamento patogênico – colaboração que tem sido alvo de intenso escrutínio público e acadêmico, sobretudo por envolver estudos de coronavírus em animais silvestres, incluindo morcegos. Nesse contexto, a doutora Shi Zhengli recebeu apoio da EcoHealth Alliance, em parceria com diferentes organizações e agências de fomento, para aprofundar o estudo desses vírus. A EcoHealth Alliance também lidera o Project Predict, iniciativa financiada pela Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) voltada à identificação de vírus emergentes na natureza antes de sua possível transmissão para humanos.

Quammen alerta sobre os riscos de uma pandemia de vírus respiratório desde pelo menos 2012, em seu best-seller Contágio: infecções de origem animal e a evolução das pandemias. Nessa obra, o autor investigou os caminhos da transmissão de doenças com potencial pandêmico, enfatizando o comércio legal e ilegal de animais exóticos, além do aumento de pontos de contato entre seres humanos e animais provocado por desmatamento, urbanização e criação intensiva de animais. Contágio salientou a importância da vigilância epidemiológica e o controle de doenças como estratégias-chave para a mitigação de riscos zoonóticos (Quammen, 2012). Em Sem fôlego, Quammen reafirma o papel considerável exercido pelo comércio de animais (selvagens e domesticados) para alimentação e medicina tradicional chinesa. Segundo ele, a título de exemplo, entre 1975 e 2000, mais de 170 mil pangolins foram comercializados de maneira legal (Quammen, 2022, p.96). Os autores de um importante artigo publicado em 2021 descrevem a presença de cobras, galinhas, patos, texugos e guaxinins entre as espécies comercializadas nos mercados de Wuhan, alguns vendidos vivos em condições precárias (Xiao et al., 2021). Embora morcegos e pangolins não tenham sido citados explicitamente, espécies como guaxinins e civetas, encontrados nesses mercados, são conhecidas por sua suscetibilidade aos coronavírus do tipo SARS (Xiao et al., 2021; Holmes, 2024). Não causa surpresa, portanto, que a pandemia de covid-19 tenha surgido em Wuhan, cidade na qual meros 24 quilômetros separam o Instituto de Virologia do Mercado de Frutos do Mar de Huanan. Muitos outros mercados em Wuhan e por toda a Ásia praticam o comércio de mamíferos silvestres, intensificando as preocupações sobre a transmissão de vírus. Pesquisas sobre vírus do tipo SARS realizadas em laboratórios na cidade realçam a importância epidemiológica da região.

Viral apresenta o problema da origem do SARS-CoV-2 como um “mistério” e já no prólogo menciona o episódio de 2012, quando seis homens dedicados à remoção de guano em uma mina de cobre acabaram por contrair uma grave doença respiratória. O guano (excremento acumulado de aves marinhas, morcegos ou focas) é usado como fertilizante graças ao alto teor de nitrogênio, fosfato e potássio; os trabalhadores, em geral, retiram o guano de cavernas, minas ou áreas onde esses animais se empoleiram, às vezes em ambientes perigosos ou de difícil acesso. Historicamente, o guano foi extremamente valorizado pelos benefícios à agricultura, figurando como importante item de exportação de algumas regiões. As informações sobre os seis trabalhadores que adoeceram após o trabalho na mina de Mojiang foram reveladas por um usuário anônimo do Twitter, como relatam Chan e Ridley (2021, p.7):

Uma das peças mais fascinantes do quebra-cabeça foi uma tese médica descoberta em maio de 2020 por um usuário anônimo do Twitter apelidado de Seeker (Explorador), um ex-professor de ciências da Índia. Diante dessa outrora desconhecida tese, inúmeros investigadores, jornalistas e cientistas passaram a se unir para rastrear a origem da covid-19. A tese relatava meticulosamente a história de mineiros na província de Yunnan que haviam adoecido, em 2012, com uma misteriosa pneumonia após trabalharem em uma mina infestada por morcegos. Nos anos que se seguiram, cientistas de renomados laboratórios, incluindo o Instituto de Virologia de Wuhan (WIV), onde se encontra o laboratório de maior segurança viral da China, percorreram reiteradas vezes o longo caminho até a mina a fim de encontrarem o vírus que poderia ter infectado os mineiros. Segundo seus relatos, eles não tiveram êxito, mas em 2013 a equipe do WIV coletou um vírus que, mais tarde, seria comprovadamente a correspondência genética mais próxima do SARS-CoV-2. Talvez a pista sobre a origem da covid-19 esteja em uma mina distante no sudoeste da China.

A tese médica descoberta pelo “Seeker”, defendida em 2013, foi escrita por um estudante de medicina chinês chamado Li Xu, que realizou um estudo completo sobre a doença surgida entre os mineiros como parte de sua formação médica na Kunming Medical University. Os mineiros foram internados em um hospital de Kunming, capital da província de Yunnan, no sudoeste da China, e três faleceram (Chan, Ridley, 2021; Quammen, 2022). Há um volume considerável de literatura sobre esse episódio (Rahalkar, Bahulikar, 2020; Frutos, Gavotte, Devaux, 2021). Chan e Ridley demonstram que a mina de cobre foi alvo de incontáveis restrições, e diversas equipes de imprensa foram alertadas a não adentrar o local. Em 2020, Rahalkar e Bahulikar buscaram estabelecer uma relação entre os sintomas manifestados pelos coletores de guano e a covid-19. Com o apoio de especialistas em doenças respiratórias, eles argumentaram que os sintomas eram consistentes com os da covid-19, e sugeriram que a doença poderia ter se originado de amostras coletadas nas minas onde aqueles homens trabalhavam. No entanto, outros autores sustentam que as manifestações clínicas desses trabalhadores eram incompatíveis com os sintomas da infecção por SARS-CoV-2 (Frutos et al., 2022a; Domingo, 2024). Em outro artigo publicado em 2022, Rahalkar e Bahulikar esclareceram que seu artigo anterior não propunha que os mineiros de Mojiang estivessem infectados com SARS-CoV-2. Na verdade, eles ressaltaram as semelhanças entre os sintomas da doença pandêmica e aqueles que acometeram os seis mineiros coletores de guano, enfatizando a importância de uma investigação transnacional com acesso ao material biológico coletado pelo WIV, como amostras de soro e culturas de swab de garganta (Rahalkar, Bahulikar, 2022). Tanto Viral quanto Sem fôlego abordam esse caso; o primeiro sugerindo uma ligação entre a pandemia e a doença de 2012, e o segundo refutando a correlação.

O grupo do WIV, liderado por Zhengli Shi, teve acesso à mina de cobre em questão para coletar material biológico. Com base nessas amostras, Shi e sua equipe obtiveram o coronavírus RaTG13, que, segundo o livro Viral, foi parte de uma polêmica troca de nomenclatura (ele foi nomeado inicialmente como BtCoV/4991) e do intrigante silêncio do grupo do WIV nos primeiros meses da pandemia quanto à semelhança genética entre o RaTG13 e o SARS-CoV-2 (Chan, Ridley, 2021; Quammen, 2022; Chan, 2024; para uma análise recente, ver Domingo, 2024). Chan e Ridley também descrevem incidentes anteriores de escape de patógenos de laboratórios, causando doenças e mortes, ainda que nenhum tenha atingido, nem de perto, níveis pandêmicos. Essas informações, apresentadas detalhadamente pelos autores, são citadas como provas ratificadoras da plausibilidade da teoria da origem em laboratório. Tais evidências, contudo, são circunstanciais e não convenceram outros tantos cientistas que estudaram também aprofundadamente o SARS-CoV-2 e a pandemia de covid-19 (Frutos et al., 2022b; Garry, 2022; Quammen, 2022; Holmes, 2024; Domingo, 2024).

Um dos métodos usados para estudar os vírus com potencial pandêmico envolve a alteração dos genomas a fim de melhorar suas características em termos de virulência e transmissão, em experimentos conhecidos como pesquisas de ganho de função (Berche, 2023; Sharpless et al., 2015). A locução “ganho de função”, em geral, refere-se a experimentos que resultam em um patógeno com uma habilidade nova ou aprimorada, como por exemplo a capacidade de infectar um novo tipo de célula ou espécie hospedeira (Chan, Ridley, 2021, p.176; Quammen, 2022, p.263). Os motivos que justificariam uma pesquisa com tamanho risco incluem a prevenção de novas doenças, o desenvolvimento de medicamentos (incluindo vacinas) e a ampliação do conhecimento científico sobre a virulência, transmissão e evolução do patógeno. O interesse por esse tipo de experimentos remonta à pandemia de SARS de 2002-2003 e se expandiu durante a pandemia de MERS de 2012; logo os coronavírus (mais especificamente os originários de morcegos) foram reconhecidos como representantes de significativa ameaça pandêmica. Outros vírus respiratórios como os associados às gripes aviária e suína, juntamente com suas diversas variantes, também são estudados nesse contexto (Berche, 2023; Gaviria, Martin, 2023). Os experimentos de ganho de função com coronavírus do tipo SARS foram realizados no WIV e outros centros de pesquisa localizados em um perímetro de poucos quilômetros do Mercado de Frutos do Mar de Huanan. O processo de passagem em série de vírus por células de laboratório, como mencionado anteriormente, é considerado um experimento de ganho de função. Viral defende que tais experimentos podem ter introduzido material genético no genoma de um coronavírus do tipo SARS, o qual então teria escapado acidentalmente do laboratório e iniciado a pandemia, potencialmente infectando indivíduos no Mercado de Huanan. O livro sugere ainda que os laboratórios de Wuhan estariam trabalhando com amostras de SARS-CoV-2 coletadas diretamente de morcegos que habitavam cavernas do sudoeste da China ou do Laos, ou até da caverna onde os coletores de guano foram contaminados. Contudo, Quammen se contrapõe, afirmando não haver evidências concretas de que esses vírus estavam presentes no laboratório, embora ele reconheça a importância de discutir a relevância de tais experimentos e os níveis de segurança dos laboratórios que lidam com esses patógenos. Frutos e colaboradores alegam que as conjecturas acerca do vazamento de laboratório dos coronavírus coletados na mina de Mojiang (fosse ele modificado em laboratório ou não) contradizem-se entre si: se o vírus foi fabricado, não pode ser um vazamento acidental de um vírus natural, e vice-versa (Frutos et al., 2022a).

Há duas mutações estruturais fundamentais no envelope do SARS-CoV-2, codificadas em seu genoma, que o distinguem do SARS e de outros sarbecovírus (um subgênero dos betacoronavírus): o domínio de ligação ao receptor ACE2 e o sítio de clivagem da furina. O domínio de ligação ao receptor (RBD, na sigla em inglês) é um componente crítico da proteína Spike do vírus (também conhecida como proteína S), possibilitando que ele se ligue à célula alvo. Essa ligação é essencial para a entrada do patógeno, permitindo aos vírus se fixarem à superfície da célula hospedeira. A grande afinidade do RBD do SARS-CoV-2 com os receptores ACE2 do ser humano aumentam significativamente sua eficiência na infecção de células humanas.

Pesquisas identificaram coronavírus em pangolins contendo RBDs com notável semelhança aos do SARS-CoV-2 (Lam et al., 2020; Xiao et al., 2020; Andersen et al., 2020). A alta identidade de sequência genética entre essas regiões sugere que coronavírus de pangolins podem apresentar uma afinidade de ligação ao receptor ACE2 comparável ao que possui entre pessoas humanas, salientando seu potencial papel no caminho evolutivo do vírus. Essa semelhança indica que a recombinação genética entre diferentes coronavírus em hospedeiros intermediários como os pangolins pode ter ocorrido antes do surgimento do SARS-CoV-2. Os pangolins podem ter servido como ponte entre os morcegos (provavelmente os hospedeiros originais do sarbecovírus) e os seres humanos, facilitando o intercâmbio de material genético e contribuindo para a origem do SARS-CoV-2. No entanto, embora alguns coronavírus de pangolins apresentem alta similaridade com o SARS-CoV-2 em regiões específicas do genoma, sua semelhança genética como um todo não é tão próxima. Isso significa que, embora partes do genoma possam ter passado por uma recombinação, o coronavírus completo do pangolim não deve ser o ancestral direto do SARS-CoV-2. A recombinação genética é comum em coronavírus, dificultando a identificação de uma origem clara (Boni et al., 2020). É possível que coronavírus de pangolins tenham adquirido partes de seu genoma por meio da recombinação com coronavírus de morcegos ou outros animais, o que explicaria as semelhanças no RBD. Todavia, não há evidências diretas de que pangolins infectados tenham transmitido o vírus para humanos: o salto zoonótico do SARS-CoV-2 de pangolins para humanos não foi demonstrado, e outras espécies podem estar envolvidas. Outros animais, em particular os morcegos, permanecem como candidatos com maior probabilidade de serem reservatórios naturais do SARS-CoV-2, com os pangolins possivelmente atuando como hospedeiros secundários ou incidentais. Ainda que Viral e Sem fôlego abordem a potencial transmissão dos coronavírus de pangolins para humanos, para ambos os livros essa rota de transmissão é improvável.

O sítio de clivagem da furina é considerada a mutação mais significativa na proteína Spike do SARS-CoV-2 (Andersen et al., 2020; Holmes et al., 2021; Garry, 2022). A furina, enzima presente em todos os mamíferos, inclusive humanos, corta proteínas em locais específicos, exercendo uma função crucial na regulação e processamento de diversas proteínas celulares. Na proteína Spike do SARS-CoV-2 há uma região codificada no RNA do vírus que é clivada pela furina. Esse local induz a uma mudança conformacional da proteína Spike que facilita a entrada viral na célula hospedeira, etapa crítica da infecção. Mesmo os coronavírus com relação filogenética mais próxima com o SARS-CoV-2, incluindo o RaTG13, o BANAL-52 e o vírus responsável pela pandemia de SARS de 2002-2003, não possuem esse sítio de clivagem de furina (Andersen et al., 2020; Segreto et al., 2021; Garry, 2022; Teemman et al., 2023). Em paralelo, os coronavírus do pangolim também não possuem esse sítio genético, o que reduz significativamente a probabilidade de esses animais estarem diretamente envolvidos na transmissão do SARS-CoV-2 para seres humanos. O sítio de clivagem da furina no SARS-CoV-2 pode ter se desenvolvido independentemente por meio de mutações genéticas ou recombinação em um hospedeiro desconhecido, assinalando que, embora os coronavírus do pangolim possam ter contribuído para a formação do vírus, eles não são a sua fonte direta. O local de clivagem da furina também está presente em outros vírus, como os coronavírus relacionados ao MERS, à gripe aviária H5N1 e ao vírus do Ebola. Desde o início da pandemia, a origem dessa região genômica foi o principal ponto de controvérsias.

Em artigo de correspondência à revista Nature publicado em março de 2020, Andersen e colaboradores compararam o genoma da proteína Spike do SARS-CoV-2 com o genoma de outros coronavírus evolutivamente relacionados (Andersen et al., 2020). Esse trabalho se tornou um ponto nevrálgico da controvérsia sobre a origem do SARS-CoV-2 em decorrência de afirmações categóricas dos autores: “Nossa análise demonstra claramente que o SARS-CoV-2 não é um vírus criado em laboratório ou manipulado intencionalmente” (Andersen et al., 2020, p.450), e “Não cremos que seja plausível qualquer tipo de cenário baseado em laboratório” (p.452). Eles argumentaram que não faria sentido do ponto de vista científico ou biológico que duas das características mais proeminentes do genoma do vírus – o domínio de ligação ao receptor ACE2 e o sítio de clivagem da furina – tivessem sido artificialmente inseridas na estrutura genética de um coronavírus semelhante ao SARS, mas que jamais havia sido identificado e que permanece desconhecido. Além disso, eles explicaram que estudos sobre vírus baseados em laboratório, como os experimentos de ganho de função, em geral, focam na manipulação de vírus conhecidos, alterando o genoma para estudar e controlar melhor o comportamento viral e desenvolver vacinas e outros tratamentos.

Conforme mencionado, uma enorme quantidade de leigos em ciência se engajou na questão sobre as origens do SARS-CoV-2, possivelmente devido à grande influência das redes sociais. Nicholas Wade, escritor anglo-americano especializado em ciência e ex-editor de veículos como New York Times, Science e Nature, tornou-se protagonista nesse debate em 2021 com um artigo que atingiu ampla gama de leitores publicado na plataforma web Medium. Em “Origin of covid: following the clues” [A origem da covid-19: seguindo as pistas] o autor analisa de maneira crítica as origens do SARS-CoV-2, considerando tanto a hipótese natural quanto a laboratorial. Wade defendia que seria possível que o SARS-CoV-2 tivesse se originado de um incidente laboratorial no WIV, na China, argumentando que determinadas características virais (sobretudo o sítio de clivagem da furina na proteína Spike) poderiam indicar manipulação em laboratório, em vez de evolução zoonótica natural. A partir de estudos e relatórios científicos, Wade apontou falhas de transparência nos laboratórios chineses e questionou a resposta da comunidade científica como um todo à investigação sobre as origens do vírus. Seu envolvimento ilustra as complexidades enfrentadas por jornalistas e cientistas no debate de questões científicas delicadas com implicações globais à saúde pública.

Em artigo publicado em 2024, Edward Holmes, virologista australiano e coautor de “Proximal origin of SARS-CoV-2” [A origem proximal do SARS-CoV-2], reitera os argumentos do estudo de 2020: “Seria intrigante realizar a engenharia genética de um vírus de morcego utilizando um sítio de clivagem da furina sem precedentes e que não é encontrado em nenhum coronavírus humano” (Holmes, 2024, p.11). Holmes afirma que o SARS-CoV-2 é um vírus generalista, capaz de infectar qualquer mamífero com receptores ACE2 nas células do trato respiratório. Após cruzar a barreira de espécies de morcegos para humanos, o vírus foi transmitido de seres humanos para, pelo menos, vinte outras espécies animais em diversas regiões geográficas, havendo mais de 3.400 casos reportados de infecção ou exposição. A lista inclui leões, tigres, cães, gatos, hamsters, vários tipos de roedores, primatas e, notadamente, martas e cervos de cauda branca (Holmes, 2024, p.15). Seria crucial identificar se o vírus passou por alguma variação significativa após transbordar de seres humanos para outras espécies (fundamentando a hipótese de vazamento de laboratório) ou se permaneceu relativamente inalterado (corroborando a hipótese de transbordamento natural); contudo, até onde se pôde aferir, nenhum estudo nesses moldes foi realizado. Holmes também retoma a premissa referente à pouca variação do SARS-CoV-2 no início da pandemia, ampliando-a:

Outro pressuposto considerado como evidência da teoria da manipulação experimental em laboratório como origem do SARS-CoV-2 é o de que o vírus não passou por uma extensa evolução adaptativa durante a disseminação inicial, como seria de se esperar em se tratando de um vírus que acabara de surgir em seres humanos … Assim sendo, a ausência de adaptação parece indicar que o vírus foi adaptado em laboratório aos humanos, talvez após a inserção do sítio de clivagem da furina … e a subsequente passagem em camundongos humanizados (Holmes, 2024, p.10).

Em Viral, Chan e Ridley dedicam considerável atenção à documentação de uma evidente mudança de postura por parte de Kristian Andersen e muitos outros cientistas entre janeiro e fevereiro de 2020. Se no início esses cientistas estavam inclinados a considerar a possibilidade de origem laboratorial para o SARS-CoV-2, posteriormente passaram a apoiar a teoria de transbordamento natural. Chan e Ridley (2021, p.152) ressaltam que, em um e-mail para Anthony Fauci em 31 de janeiro de 2020, Andersen manifestou que “algumas características parecem (potencialmente) como se fossem criadas”. Essa mudança foi alvo de análises mais profundas e foco de discussões sobre os fatores que influenciaram o consenso científico inicial quanto às origens do SARS-CoV-2. Os autores de Viral esmiuçaram inúmeros e-mails trocados entre cientistas, gestores e políticos obtidos graças à Foia e por intermédio da US Right to Know. Os autores relatam que Andersen inverteu completamente sua posição em 4 de fevereiro de 2020, afirmando que “as principais teorias insensatas que circulam no momento dizem respeito a este vírus ter sido, de algum modo, intencionalmente modificado, o que, comprovadamente, não é o caso”, e que “os dados demonstram de maneira conclusiva que nenhuma das possibilidades [nem desenvolvimento para pesquisa básica nem motivos nefastos] foi realizada” (Chan, Ridley, 2021, p.152). Chan e Ridley também analisam outras contradições entre os cientistas, incluindo Edward Holmes, quem inicialmente considerou a possibilidade de vazamento de laboratório antes de passar a apoiar a hipótese de transbordamento natural. Quammen interpreta essas mudanças como algo típico do enfrentamento de uma nova doença provocada por um vírus desconhecido , mortal e de rápida disseminação, enfatizando que o progresso científico muitas vezes segue caminhos não lineares. Epistemologicamente, Quammen está correto; historicamente, a busca pela verdade científica é marcada por idas e vindas, mudanças de posições e, até mesmo, reviravoltas completas.

O artigo “A origem proximal do SARS-CoV-2” previa que, “considerando o nível de variação genética na proteína Spike, é provável que um vírus do tipo SARS-CoV-2, com sítios de clivagem polibásicos parciais ou completos [furina], seja descoberto em outras espécies” (Andersen et al., 2020, p.450). Essa previsão, baseada na alta variação e recombinação do genoma do sarbecovírus e em processos evolutivos comuns como seleção natural e evolução convergente, até hoje não foi confirmada. É importante reiterar que até o momento nenhum vírus foi encontrado em morcegos ou outros mamíferos com suficiente similaridade genética ao SARS-CoV-2 para que se solucione de maneira definitiva o mistério de sua origem. Além disso, não há nenhuma evidência direta de que o SARS-CoV-2 tenha vazado do laboratório de Shi ou de qualquer outro laboratório de Wuhan.

Fios emaranhados entre geopolítica e ciência

Como observou Alex de Waal, citando o ilustre médico e ativista político alemão Rudolph Virchow (1821-1902): “‘A medicina é uma ciência social, e a política nada mais é do que medicina em escala’” (Waal, 2021, p.50). Compreendendo a medicina como algo inerentemente interligado às estruturas sociais e às forças políticas, essa perspectiva destaca que as crises sanitárias como a pandemia de covid-19 não são eventos exclusivamente biológicos, mas são profundamente influenciados por determinantes sociais e escolhas políticas. A perspectiva de Virchow indica que essas dimensões sociais e políticas não são secundárias, mas intrínsecas à compreensão da origem da pandemia e o seu subsequente impacto na administração da saúde global.

Em Viral, Chan e Ridley assumem uma posição direta e assertiva sobre como a pandemia norteou e intensificou as tensões geopolíticas, sobretudo entre EUA e China. Um dos principais pressupostos do livro é o de que o gerenciamento dos primeiros estágios da pandemia por parte da China, em particular o sigilo sobre as pesquisas realizadas no WIV, exacerbaram o sentimento geral de desconfiança. Chan e Ridley ressaltam como a recusa do governo chinês em fornecer acesso total aos dados e o seu controle sobre as versões científicas prejudicaram a cooperação internacional e acirraram conflitos geopolíticos. Segundo os autores, a falta de transparência da China propiciou que a teoria do vazamento de laboratório se tornasse um ponto focal nas relações internacionais, com os EUA encabeçando as exigências por mais investigações. Nesse contexto, a hipótese do vazamento de laboratório se torna não só uma questão científica, mas uma ferramenta geopolítica. Viral apresenta a controvérsia sobre a origem como um dos principais campos de batalha em um combate mais amplo por influência, no qual a percepção é de que a China manipulou as narrativas científicas e políticas a fim de evitar ser responsabilizada (ver também Liu, Fakhruddin, 2023). As implicações são evidentes: se o vírus, de fato, originou-se em um laboratório, as ações da China seriam vistas como uma ameaça direta à saúde e à estabilidade global. Chan e Ridley usaram como evidência os e-mails entre cientistas como Kristian Andersen, Edward Holmes e Anthony Fauci, para insinuar que houve uma relutância inicial em considerar a teoria do vazamento de laboratório devido a pressões políticas. O foco na comunicação científica interna revela como, até mesmo dentro da comunidade científica, o debate acerca das origens do vírus ficou entrelaçado com hostilidades geopolíticas. Os autores sinalizam que essa relutância em defender a hipótese do vazamento de laboratório serviu apenas para inflar a divisão entre as potências globais, pois tornou-se um símbolo de questões de maior dimensão sobre responsabilidade, transparência e o papel de organizações internacionais como a OMS, que, para alguns, ficou excessivamente dependente da cooperação chinesa.

Por outro lado, Sem fôlego adota uma perspectiva mais sutil e global. Quammen está menos preocupado em atribuir culpas ou apontar fissuras geopolíticas, e mais interessado em compreender como a pandemia se insere em padrões mais abrangentes de doenças zoonóticas e saúde planetária. Embora não descarte por completo a teoria do vazamento de laboratório, Quammen mostra-se propenso à hipótese do transbordamento natural, identificando a pandemia no contexto de outras doenças zoonóticas como Ebola, MERS e SARS. Quammen aponta que a incerteza e as reviravoltas no consenso científico – como mudanças de opinião por parte de cientistas como Kristian Andersen e Edward Holmes – fazem parte do processo científico; em geral, caótico e não linear. Há nesse ponto uma divergência com Viral, que tende a qualificar essas mudanças como parte de uma estratégia geopolítica mais ampla. Quammen salienta que o foco deveria estar em aprimorar a cooperação internacional e compreender os fatores ambientais, ecológicos e evolutivos que resultam em pandemias, em vez de olhar apenas para os elementos políticos e nacionalistas da polêmica sobre a origem. Sem fôlego investiga como a pandemia expôs as fraquezas dos sistemas globais de saúde e as limitações de organizações internacionais como a OMS (Delardas et al., 2022). Quammen observa que a pandemia revelou a vulnerabilidade das infraestruturas de saúde global e as desigualdades na distribuição de vacinas, determinadas tanto por fatores geopolíticos quanto por problemas mais amplos de desigualdade em âmbito global. Para Quammen, isso é sintomático de problemas sistêmicos mais profundos: a pandemia evidenciou as disparidades entre as nações ricas e as nações em desenvolvimento e os desafios para assegurar a cooperação global em saúde pública (ver também Naseer et al., 2023).

A controvérsia científica sobre a origem do SARS-CoV-2 permanece em aberto. Alwine et al. (2023), em um editorial publicado no renomado Journal of Virology, resumem os tipos de evidências que seriam necessários para refutar em definitivo tanto a hipótese do vazamento de laboratório quanto a do transbordamento natural, frisando que essas formas de evidência são de natureza fundamentalmente diferentes:

Reconhecer a hipótese do vazamento de laboratório exigiria evidências de que o WIV estava trabalhando em um CoV [coronavírus] estreitamente relacionado à cepa original de Wuhan, e tais evidências teriam de advir de registros do laboratório. Se o WIV estivesse trabalhando em um vírus assim, evidências de um acidente no laboratório e/ou de que alguns dos casos iniciais tivessem se originado de indivíduos no WIV embasariam veementemente a possibilidade de vazamento de laboratório. Embora o governo chinês tenha negado que o WIV estivesse realizando esse trabalho, falta transparência. Enquanto essas evidências não se apresentarem, a hipótese do vazamento de laboratório não pode ser confirmada. Reconhecer de maneira conclusiva a hipótese zoonótica implica encontrar evidências dos eventos originais de infecção animal-para-humano. Isso é difícil, porque esses eventos provavelmente passaram despercebidos, e talvez não haja registros de seu acontecimento. Contudo, a recuperação de um CoV que está intimamente relacionado ao SARS-CoV-2 de morcegos e/ou hospedeiros intermediários corroboraria a hipótese de que a pandemia de coronavírus de 2019 (covid-19) foi iniciada por um evento zoonótico. Conforme discutido, entretanto, a necessária investigação de múltiplas espécies pela preponderância e diversidade do CoV será um processo vagaroso (Alwine et al., 2023, p.2).

Embora nenhuma evidência conclusiva tenha surgido até o momento, as publicações de textos reforçando a hipótese de vazamento de laboratório não cessaram, muitos deles motivados por teorias da conspiração (Butter, Knight, 2023). Chan e Ridley deixam claro que refutam as teorias da conspiração: apesar de analisarem a possibilidade da origem do SARS-CoV-2 por vazamento de laboratório, os autores fazem uma distinção entre a análise deles e as alegações infundadas desprovidas de base científica. Os autores se concentram em argumentos baseados em evidências e demandam transparência e investigações exaustivas, distanciando-se de narrativas baseadas em especulação em detrimento de dados confiáveis. Muitos outros cientistas respeitados dentro da comunidade de especialistas como Richard Ebright, David Relman, Michael Worobey e Jesse Bloom sustentam a plausibilidade da hipótese de vazamento de laboratório. No entanto, Alina Chan é, sem dúvida, a mais franca defensora da conjectura do vazamento acidental. Em seu artigo publicado em junho de 2024 no New York Times, “Why the pandemic probably started in a lab, in five key points” [Por que a pandemia provavelmente começou em um laboratório, em cinco pontos], Chan apresenta um raciocínio persuasivo em defesa da hipótese do vazamento de laboratório como origem do SARS-CoV-2. Em primeiro lugar, Chan ressalta as características genéticas exclusivas do vírus, como o sítio de clivagem da furina que, segundo ela, poderia ter sido inserido durante a pesquisa de ganho de função em laboratórios. Em seguida, ela cita o WIV, que realizava experimentos em coronavírus intimamente relacionados ao SARS-CoV-2. Esses experimentos, na opinião da autora, levantam a possibilidade de um vazamento acidental. Em terceiro lugar, ela critica o governo chinês por não fornecer dados e amostras cruciais dos primeiros dias da pandemia, prejudicando a realização de uma investigação mais minuciosa. Em quarto lugar, ela aponta as comunicações internas entre os cientistas, revelando que as incertezas iniciais sobre a origem natural do vírus foram descartadas devido a pressões ligadas a política e reputação. Por fim, Chan convoca uma investigação aberta e transparente sobre as origens do vírus, insistindo que todas as hipóteses (incluindo a conjectura do vazamento de laboratório) devem ser examinadas a fundo.

O artigo de Chan não tardou a provocar reações. Em setembro de 2024, Alwine e mais de quarenta colaboradores publicaram um comentário crítico no Journal of Virology. Eles iniciam chamando atenção para o fato de que o artigo de Chan publicado no New York Times veio a público no mesmo dia em que Anthony Fauci testemunhou voluntariamente perante o subcomitê da Câmara, responsável pela investigação sobre a pandemia de covid-19. Durante a sessão, Fauci abordou as origens do SARS-CoV-2, afirmando que, após rigorosa análise científica, a maioria dos especialistas concluiu que a maior probabilidade seria de que o vírus tivesse surgido como uma zoonose (Alwine et al., 2024, p.1). O comentário de Alwine et al. (2024), intitulado “The harms of promoting the lab leak hypothesis for SARS-CoV-2 origins without evidence” [Os malefícios de propagar a hipótese do vazamento de laboratório como origem do SARS-CoV-2 sem provas], salienta: “Embora os padrões de biossegurança sejam de importância fundamental para a pesquisa, a ansiedade causada pela hipótese do vazamento de laboratório resultou em propostas de políticas que, se adotadas, restringiriam desnecessariamente pesquisas essenciais para o desenvolvimento de vacinas e antivirais nos EUA” (Alwine et al., 2024, p.3). As críticas dos autores ao posicionamento de Alina Chan são contundentes, afirmando que, apesar de vastas investigações, não há nenhuma evidência conclusiva embasando a hipótese de vazamento de laboratório. Para eles, fomentar essa hipótese sem comprovação impõe o risco de prejudicar gravemente o progresso da ciência e da saúde pública, potencialmente minando a confiança da população nas autoridades sanitárias e científicas. A percepção da opinião pública de que cientistas ou governos possam estar ocultando as verdadeiras origens do vírus poderia estimular a descrença com relação às diretrizes em saúde pública que incluem vacinação e medidas preventivas, por sua vez diminuindo o cumprimento e, possivelmente, exacerbando o impacto da pandemia. Além disso, a versão do vazamento de laboratório ameaça tensionar as relações internacionais, desviando a atenção e os recursos de pesquisas fundamentais sobre transbordamentos zoonóticos, cruciais para evitar futuras ameaças pandêmicas. Os autores também advertem que a politização da teoria do vazamento de laboratório ameaça reprimir a pesquisa científica aberta e objetiva; o perigo é de que pesquisadores passem a evitar tópicos politicamente sensíveis devido ao temor de represálias, o que pode acabar prejudicando os avanços na prevenção e prontidão para pandemias (Alwine et al., 2024).

Considerações finais

Até o momento não há nenhuma conclusão científica definitiva acerca da origem do SARS-CoV-2. Alguns pesquisadores chegaram a sugerir que talvez nunca consigamos especificar categoricamente a sua origem em termos científicos devido à intensa recombinação genética entre vírus de morcegos, considerando a possibilidade de que o ancestral direto desse coronavírus desapareceu em meio a inúmeras mutações e trocas de material genético (Boni et al., 2020; Mallapaty, May 2022; Teemman et al., 2023; Alwine et al., 2024). O consenso científico é propenso à hipótese de transbordamento natural (Alwine et al., 2024; Holmes, 2024; Domingo, 2024). Desde a eclosão da pandemia houve vasta pesquisa (experimental e teórica) sobre o SARS-CoV-2, incluindo simulações computacionais. Contudo, permanecem incertas as origens da pandemia e ainda desconhecidos os mecanismos exatos por meio dos quais as populações de vírus se desenvolvem para se tornarem prevalentes e transmissíveis entre seres humanos.

Embora o modelo de transbordamento natural subentenda um evento de transmissão único, recentes debates frisam a necessidade de uma compreensão mais refinada de “transbordamento” e o desenvolvimento de modelos sofisticados que elucidem as origens da pandemia. A equipe de pesquisa liderada pelo cientista francês Roger Frutos afirma que a ideia de transbordamento patogênico para humanos, amplamente citada na literatura sobre novas doenças infecciosas, não raro é tratada como se fosse cientificamente comprovada. No entanto, sua análise sistemática revela uma profunda polissemia intrínseca ao conceito, abrangendo dez definições distintas. Ademais, a maioria dos estudos não oferece uma definição clara, e nenhum apresenta um mecanismo específico de transbordamento. Somente dez artigos propõem modelos hipotéticos de eventos de transbordamento, os quais continuam altamente conceituais (Gavotte, Gaucherel, Frutos, 2023). Frutos e colaboradores desenvolveram o “modelo de circulação”, postulando que o surgimento da pandemia advém da convergência de dois acidentes: uma mutação genética que melhora a transmissibilidade patogênica entre mamíferos e condições sociais que amplificam essa transmissibilidade. Juntos, esses fatores permitem que o patógeno alcance um patamar crítico de infecção, afete um número substancial de hospedeiros e alcance o status de pandemia (Frutos, Gavotte, Devaux, 2021; Quammen, 2022; Gavotte, Gaucherel, Frutos, 2023). Tal modelo diverge da visão simplista de transmissão direta do vírus de animal para populações humanas. Quammen elucida essa complexidade no resumo a seguir:

Vírus com taxas de mutação relativamente altas e exibilidade evolutiva não costumam se alojar em apenas um hospedeiro reservatório. Se forem vírus de animais, não se limitam a um tipo de animal. Geram, por mutação, uma miscelânea de diversidade genética entre suas populações virais, e assim enxames de cepas virais vagamente aparentadas podem aparecer de vários modos, explorando diversos nichos e estratégias. Esses vírus circulam amplamente no reino animal, transpondo limites entre as espécies, infectando uma variedade de hospedeiros, chegando a um beco sem saída em um animal, tendo êxito temporário em outro animal e seus contatos, sondando possibilidades, evoluindo, prontos para as oportunidades. São vírus multi-hospedeiros. Em áreas do planeta onde humanos vivem em contato próximo com animais silvestres – áreas rurais, áreas de periferia, lugares onde pessoas fazem incursões em paisagens naturais causando grande perturbação em ecossistemas –, eles estarão entre os vários hospedeiros em que um vírus como esse circula. O que leva a uma epidemia ou pandemia, escreveu o grupo de Frutos, não é um incidente isolado de um vírus de animal que salta para um humano, adapta-se bem e passa a infectar desenfreadamente milhões de outros humanos, e sim ‘a ocorrência de um duplo acidente’. Eles se referiam a algo muito diferente de um acidente em laboratório: uma mutação genética ou um grupo de mutações ou um evento de recombinação conducente a uma vantagem potencial, seguido por uma circunstância social na qual a vantagem é bem recompensada. Uma vez ocorrido esse duplo acidente, as cadeias de infecção não chegam a becos sem saída – nem todas elas, pelo menos. A prevalência do vírus aumenta até um limiar crítico em alguma agregação de pessoas. A circulação de um vírus buliçoso em vários hospedeiros, entre os quais humanos, mais um acidente, mais um segundo acidente produzem um novo vírus humano – uma nova emergência de saúde. Talvez seja um surto. Talvez seja uma epidemia. Talvez se torne uma pandemia (Quammen, 2022, p.291; destaque no original).

Não há uma origem única para o SARS-CoV-2. Segundo Frutos et al. (2022b), vírus (como todos os organismos vivos) nascem de forças interligadas de evolução e acaso e são formados pelos ambientes em que habitam. No caso dos vírus, o ambiente definitivamente não é uma paisagem estática. No modelo de dupla circulação de Frutos, os vírus não meramente habitam hospedeiros; eles circulam entre diferentes espécies e contextos ecológicos, desenvolvendo-se e adaptando-se por meio de pressões seletivas exclusivas de cada ambiente. A interação entre vírus e hospedeiro, dessa forma, cria um ecossistema dinâmico de adaptação e mutação, em que mudanças pequenas e frequentemente imperceptíveis podem ter consequências profundas. As pandemias surgem quando há dois acidentes: uma mutação genética que melhora a transmissibilidade do patógeno e as condições sociais que amplificam sua disseminação. No caso do SARS-CoV-2, o primeiro salto de animais para humanos representou apenas o início de um caminho evolutivo mais longo. Sua rápida adaptação a hospedeiros humanos – comprovada pela alta transmissibilidade e a disseminação global – reflete padrões observados em pandemias anteriores. Por exemplo, o vírus da influenza de 1918 circulou entre populações locais antes de sua mutação para uma cepa capaz de provocar uma crise sanitária global, ao passo que o vírus da imunodeficiência humana (HIV) transbordou de primatas para humanos e se manteve latente durante décadas até que as condições favoreceram o surto da pandemia de síndrome da imunodeficiência adquirida.

A jornada do SARS-CoV-2 está longe de chegar ao fim; ele continua evoluindo, dando origem a novas variantes que estão ainda mais ajustadas aos seus hospedeiros. Assim como outros vírus, como da influenza ou do HIV, a trajetória evolutiva do SARS-CoV-2 é moldada por suas interações com populações humanas diversificadas, com suas respectivas respostas imunológicas e pressões ambientais e sociais. Cada nova variante representa um experimento evolutivo, um teste do grau de aptidão do vírus no sentido de controlar e explorar seu hospedeiro. A capacidade do vírus de se adaptar tão depressa a diferentes ambientes humanos (em termos geográficos, imunológicos e sociais) é um lembrete da natureza ininterrupta da evolução viral.

A pergunta perturbadora não é meramente sobre como o SARS-CoV-2 teria surgido, mas porque evoluiu para uma pandemia de proporções mundiais. Para compreender as pandemias, é preciso ir além da biologia isoladamente. A globalização, a urbanização, o desmatamento e o maior número de interações entre humanos e natureza impulsionaram as condições em que vírus zoonóticos como o SARS-CoV-2 têm maiores chances de transbordarem para populações humanas. Nesse contexto, a pandemia pode ser entendida não só como produto de mutação viral, mas também como “acidentes sociais”, circunstâncias em que comportamentos e ambientes humanos criam caminhos para a rápida transmissão. Fatores como frequentes viagens internacionais e o adensamento urbano magnificam o potencial reprodutivo de certos vírus, transformando surtos isolados em ameaças globais. A mudança climática também exerce pressões, à medida que ecossistemas em transformação aproximam os animais (e os patógenos que abrigam) das populações humanas, criando novas oportunidades de transmissão. Em conjunto, essas condições socioambientais servem como catalisadores, possibilitando que um vírus com potencial pandêmico evolua e se dissemine. O impacto da covid-19, portanto, reflete um turbilhão perfeito de elementos biológicos e sociais, revelando que as pandemias são produtos tanto de nossas estruturas sociais quanto de processos evolutivos.

Que ações a sociedade pode adotar para prevenir o surgimento futuro de tais vírus? As soluções vão além de medidas reativas ou das chamadas “balas de prata”, como o desenvolvimento de vacinas e tratamentos apenas após a deflagração de uma pandemia. Embora tais estratégias de enfrentamento sejam essenciais, isoladamente não são suficientes para enfrentar os determinantes ambientais e socioecológicos mais amplos das pandemias.

Estratégias proativas e interdisciplinares são, portanto, imperativas. Entre elas, destacam-se o fortalecimento dos sistemas globais de vigilância para a detecção precoce de ameaças virais, o aumento dos investimentos em infraestrutura de saúde pública e o fomento a uma cooperação internacional robusta. Além disso, torna-se crucial enfrentar as causas fundamentais das pandemias. Pressões antrópicas, tais como a destruição de habitats, o tráfico de animais silvestres e a intensificação das práticas agrícolas, aumentam as interações entre humanos e fauna, criando mais oportunidades para o transbordamento zoonótico.

No contexto da evolução biológica, essas condições aceleram o potencial de adaptação e de estabelecimento de vírus em novos hospedeiros, incluindo os seres humanos, o que reforça a necessidade de intervenções que reconheçam a interconexão entre fatores ecológicos, biológicos e sociais. Ao enfrentar esses determinantes estruturais, a sociedade poderá mitigar a emergência de futuros patógenos zoonóticos, contribuindo para um cenário de saúde pública mais resiliente e sustentável.

Agradecimentos

Financiamento pela Fiotec (Paef III/projeto IOC-008-FIO-22).

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NOTAS

  • 1
    No contexto das doenças infecciosas, spillover não tem uma tradução boa nem consensual para o português. Embora “transbordamento” seja semanticamente correto, essa opção soa pouco natural no jargão epidemiológico em português e pode gerar ambiguidades. “Transbordamento” transmite a imagem de algo que excede limites físicos (como líquidos), mas não traduz adequadamente a ideia de “ruptura de barreira biológica entre espécies”. Spillover, obra de David Quammen de 2012, foi traduzida em 2020 como Contágio.
  • 2
    Esses detalhes foram obtidos diretamente do site da EcoHealth Alliance (EcoHealth..., 3 June 2024).
  • 3
    [Nota da tradutora] Citações em português de Quammen (2022) foram extraídas de David Quammen, Sem fôlego: a corrida científica para derrotar um vírus mortal, São Paulo, Companhia das Letras, 2023.
  • 4
    Esses detalhes foram obtidos diretamente do site da EcoHealth Alliance (EcoHealth..., 3 June 2024).
  • Preprint:
    Não foi publicado em repositório de preprint.
  • Dados da pesquisa:
    Não estão em repositório.
  • Avaliação por pares:
    Avaliação duplo-cega, fechada.

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    09 Jan 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    13 Ago 2024
  • Aceito
    14 Jan 2025
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