Electricity in Brazil in a social history perspective
Verônica Pimenta Velloso
Historiadora do Departamento de Pesquisa da
Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz
A vida cotidiana no Brasil moderno: a energia elétrica e a sociedade brasileira (1880-1930)
Rio de Janeiro, Centro de Memória da Eletricidade no Brasil, 2001, 273p.
O Centro de Memória da Eletricidade no Brasil, criado em 1986 com o objetivo de promover a preservação do patrimônio histórico da energia elétrica no Brasil, dedica-se, entre outras atividades, à produção de uma historiografia voltada para a compreensão do processo de implantação da energia elétrica e de seu desenvolvimento no país. Essa produção tem chamado a atenção pela qualidade em termos de informações iconográficas e textuais sobre o tema; citando como exemplos mais recentes: Cidade em movimento: energia elétrica e meios de transporte na cidade do Rio de Janeiro (2001); Energia elétrica no Brasil ¾ 500 anos (2000); e Reflexos da cidade: a iluminação pública na cidade do Rio de Janeiro (1565-1930) (1999).
Em outubro de 2001, comemorando o seu 15º aniversário, a instituição lançou A vida cotidiana no Brasil moderno: a energia elétrica e a sociedade brasileira (1880-1930). Esse último lançamento realizado "no apagar das luzes", num momento em que a ordem do dia era o racionamento de energia elétrica como conseqüência da crise no setor, explicita a atualidade do tema. Vale ressaltar a formação da equipe de autores da obra, constituída em grande parte por historiadores e museólogos.
A divisão da obra em três capítulos, intitulados 'Modernidade e progresso', 'A cidade', e 'A casa', foi orientada pela preocupação em construir o contexto histórico-social do período em que os efeitos da utilização da energia elétrica se fizeram sentir no cotidiano dos principais centros urbanos da sociedade brasileira. Dentro dessa perspectiva, são analisados os aspectos do cotidiano que abrangem os espaços público e privado, os hábitos e práticas sociais relacionados à vida material, e a relação entre a produção e o consumo de objetos.
O primeiro capítulo introduz o leitor no cenário da modernidade que se anuncia mundialmente a partir de finais do século XIX, com as transformações científico-tecnológicas promovidas em decorrência da chamada segunda revolução industrial, quando foram criadas novas formas e fontes de produção de energia. A eletricidade aí, como nova tecnologia, seria uma das formas de manifestação dessa modernidade, sendo compreendida no contexto de transformações sociais do período, entre as quais se situa o avanço da ciência na Europa, como desdobramento das descobertas científicas, que vinham sendo realizadas desde o século XVIII, especialmente na área da física. Sob esta ótica, no limiar do século XX, o desenvolvimento da indústria de energia elétrica é visto como fruto de investigações científicas neste campo do conhecimento. Ou seja, tecnologia e ciência, descoberta e pesquisa científicas são apresentadas inter-relacionadas com as questões sociais nesse estudo.
Diante dos dois ramos distintos seguidos pela indústria do setor elétrico um voltado para a produção e distribuição de energia, e outro, dedicado à produção de equipamentos e aparelhos elétricos , considera-se que a capacidade geradora de energia elétrica passou a ser um indicador do grau de desenvolvimento econômico de uma sociedade, do seu crescimento urbano e industrial. Por outro lado, através do consumo dos produtos dessa indústria de eletrotécnicos, que se firmavam como um dos compositores do cenário da vida moderna, compreende-se que os setores médios urbanos tinham a oportunidade de vivenciar o avanço da ciência. As exposições nacionais e internacionais, realizadas entre os séculos XIX e XX, são apontadas aqui também como divulgadoras das conquistas científicas do período, explorando o fetiche das mercadorias e traduzindo o surgimento de novos bens de consumo e padrões de conforto, onde a eletricidade ocupou lugar de destaque.
Na construção do pano de fundo sobre o qual se inseriu o setor de energia elétrica no Brasil, situando-o no contexto mundial, é apresentado um histórico sobre a instalação das primeiras usinas geradoras de energia elétrica de origem térmica e hidráulica no país. Nesse panorama, a criação do sistema de concessões a empresas particulares para explorar o setor elétrico no país é explicado pela falta de recursos por parte das autoridades públicas para suprir as necessidades de energia elétrica advindas da expansão do setor industrial e de serviços, incluindo a modernização dos principais centros urbanos. Com a injeção de capitais estrangeiros, através da fundação da The São Paulo Tramway, Light and Power Company Ltd. (1899) e da The Rio de Janeiro Tramway, Light and Power Company Ltd. (1904), o parque de usinas geradoras de energia elétrica foi ampliado, promovendo a eletrificação do sistema de transportes coletivos e da iluminação pública nessas capitais brasileiras. O texto segue relacionando e indicando o ano da implantação do sistema de iluminação elétrica das ruas em algumas cidades do interior dos estados e em outras capitais.
1Essa crônica, intitulada 'A rua', integra a obra A alma encantadora das ruas, editada pela Garnier em 1908, que reuniu uma série de reportagens de autoria de João do Rio publicadas inicialmente no jornal Gazeta de Notícias e na revista Kosmos, entre os anos de 1903 e 1906, tratando sobre a vida urbana, a fisionomia das ruas e as profissões citadinas na cidade do Rio de Janeiro. Depois disso, houve outras edições da obra. Ver João do Rio (Paulo Barreto), A alma encantadora das ruas, Rio de Janeiro, Organizações Simões, 1951, p. 9. Na década de 1990, foi reeditada pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.

