A aldeia kaingang replica, em suas transformações históricas, a cosmologia, a organização social e política, residindo aí a própria fundação da socialidade. A etnografia demonstra que a casa conecta a esfera doméstica e a esfera pública, daí sua centralidade na configuração socioespacial, dos grupos locais aos aglomerados político-cerimoniais interaldeães, mas também na relação com os brancos. A narrativa mítica da construção da casa primeva evidencia uma tensão implícita, como consequência das incorporações de poderes exteriores, ora pela onça, ora pelo veado e, depois, pelo macaco, contrastando com a importância das mediações realizadas pelas metades exogâmicas kamë e kanhrukrë e pela perspectiva xamânica na vida social. Em diversos contextos históricos, verifica-se que essas relações, diametrais e concêntricas, envolvem a casa, o espaço limpo e a floresta, traduzindo as transformações na paisagem, como o incremento da infraestrutura da aldeia (igrejas, postos de saúde, escolas), seja nas Terras Indígenas demarcadas, seja nas “retomadas”.
Palavras-chave:
Kaingang; casa; paisagem; território