Aparecida em São Paulo e Juazeiro no Ceará são algumas das cidades que, em nosso país, se tornaram conhecidas como santuários católicos e centros de atração de um grande número romeiros e peregrinos. As imagens mais comuns que se teceram em torno deles nutrem-se de uma dupla e contraditória referência: se, por um lado, mostram o enorme e atual poder de mobilização do catolicismo, por outro, incomodam pela forma particular com que expressam esse comprometimento religioso. Assim, costuma-se caricaturar os romeiros como “ignorantes”, “crédulos”, até mesmo “fanáticos”, como se devessem viver em algum passado remoto de nossa história. O livro de Carlos Steil - professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - oferece-nos exatamente a possibilidade de perceber a articulação entre dimensões que parecem se opor, mostrando como formas profundamente tradicionais de devoção católica estão amplamente perpassadas pela modernidade.
O sertão das romarias resulta de uma tese de doutorado em Antropologia Social apresentada à Universidade Federal do Rio de Janeiro que, antes mesmo de ser publicada, foi agraciada com o prêmio Silvio Romero, concedido em 1995 pelo Museu do Folclore/FUNARTE. Trata-se de um estudo do santuário do Bom Jesus da Lapa, localizado no sertão baiano, às margens do São Francisco. O santuário, que existe desde fins do século XVII, é visitado todos os anos por milhares de romeiros, na sua maior parte pessoas de condições sociais modestas provindas da Bahia e de Minas Gerais. Bom Jesus da Lapa é um dos mais importantes santuários do Nordeste, ao lado de Juazeiro e Canindé, e tem demonstrado, nas últimas décadas, índices crescentes de participação.
Entre 1991 e 1993, Steil esteve diversas vezes na Lapa e em algumas comunidades de romeiros. Seu trabalho é fruto da convivência e das conversas que teve com esses romeiros, acompanhando-os em suas peregrinações, devoções e narrativas. A isso se somaram as entrevistas e observações realizadas junto ao clero e a moradores da cidade, além da análise de vários documentos históricos. Embora focalize um fenômeno religioso e social localizado e específico, os resultados a que chega possuem implicações bem mais amplas, dialogando com toda a longa discussão sobre “catolicismo popular” e sobre a sua inserção na sociedade brasileira. Além disso, sua linguagem, clara e agradável, torna-o útil não apenas aos cientistas sociais, mas a qualquer leitor interessado nessas questões.
Três pontos resumem os principais argumentos e conclusões do livro. Primeiro, contrapondo-se à caracterização da devoção dos romeiros como formas espúrias de catolicismo, o autor mostra, através da análise das “estórias” contadas pelos devotos (sobre a origem do santuário, milagres, aparições, etc.), que elas estão ancoradas em uma “tradição bíblico-católica”. Ou seja, essas narrativas orais revelam, adaptado e fundido aos lugares em que vivem e por que passam os romeiros, um saber que remete e reafirma alguns dos mitos fundantes do catolicismo letrado, em especial o nascimento/encarnação de Cristo, sua paixão/morte/ressurreição e o juízo final.
Segundo, o autor demonstra quão enganadora pode ser a ideia de que entre a vida das instituições católicas e as devoções do catolicismo popular haveria uma descontinuidade radical. Sem negar que essa fronteira exista, sugere que as relações entre os dois campos sejam consideradas através da perspectiva de uma circularidade de práticas e discursos. A história do santuário da Lapa é rica de situações em que se pode perceber tanto o impacto que tiveram nas devoções populares os grandes momentos de reforma no catolicismo (Concílios de Trento, Vaticano I e Vaticano II), quanto a absorção, pelo clero, de elementos cultivados pelos romeiros (orações, símbolos, milagres). Portanto, “catolicismo oficial” e “catolicismo popular” relacionam-se e vinculam-se através de tensões e negociações, num “processo contínuo de ajustamentos mútuos”, aberto tanto à troca quanto à polarização.
Finalmente, o autor explora a perspectiva de que o santuário extrapola em muito seus sentidos católicos e até mesmo suas dimensões religiosas. A romaria, nesse sentido, seria o palco onde se cruzam não apenas os romeiros e o clero, mas ainda os moradores da Lapa, os turistas, os comerciantes, os políticos e outros personagens (não excluindo mães-de-santo, “crentes” e prostitutas). As diversas formas do sagrado e do profano convivem lado a lado, disputando e negociando espaços, rituais e versões da história, tornando o santuário um espaço inerentemente polifônico. É também isso que faz com que tais formas de devoção jamais constituam “sobrevivências” de qualquer passado, mas, através de cada uma de suas partes e de seus personagens, estejam permanentemente inundadas de atualidade. Daí que a romaria deva ser vista “como um fenômeno que é reinventado em diferentes momentos por seus diversos agentes”, garantindo ao mesmo tempo a ligação com a tradição e o diálogo com a modernidade em suas várias facetas.
Evidentemente, o trabalho não se esgota na análise dessas três perspectivas, mas abre caminhos para projetar novas investigações e repensar a literatura já existente. Seu significado foi bem captado pelos apresentadores do livro, dois dos mais importantes antropólogos no Brasil. Enquanto para Otávio Velho, o autor foi capaz de discutir “algumas questões cruciais dos debates contemporâneos, em geral postos em forma de antinomias: oralidade e escrita; instituição eclesiástica e religiosidade; tradição e modernidade”, segundo Pierre Sanchis soube analisar o fenômeno da romaria “tomando distância sem perder uma familiaridade lúcida”.
