Open-access SILVA, Hélio R. S. Travesti, a invenção do feminino. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1993. 176 p.

SILVA, Hélio R. S.. Travesti, a invenção do feminino. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1993. 176

Silva tem chamado a atenção de leitores sedentos por leituras fluídas e envolventes em antropologia. O autor apresenta-nos uma etnografia que tem a Lapa no Rio de Janeiro como universo de pesquisa tomado como um espaço social, um território boêmio. Neste território encontra e delimita o grupo investigado, os travestis. Exatamente na perplexidade produzida nos leitores que é necessário e importante deter-nos.

A delimitação deste estudo envolve diferentes reflexões úteis ao trabalho etnográfico. Somos alertados para preocupações, que não dizem somente respeito a princípios humanitários, mas que expressam reflexões teórico-metodológicas produtoras do trabalho de campo e do texto etnográfico. Questões pertinentes como a relação constantemente evocada entre travestis e sociedade abrangente e a indicação dos perigos de exotização ou folclorização dos pesquisados.

As relações entre travestis e sociedade abrangente não são simplesmente anunciadas. Os jornais, personalidades famosas na mídia (Rogéria, Roberta Close), filmes produzidos nos últimos anos (Traídos pelo desejo, Vitor ou Vitória) poderiam ser suficientes para dar a “moldura” de onde estão os travestis e como são referidos. Os travestis da Lapa, no entanto, são trazidos ao texto em suas redes de relações, os donos de bares, depiladoras, policiais, os “curiosos”, o pesquisador. A descrição etnográfica recupera o fato de que os travestis estão no cotidiano da Lapa, do Rio, na mídia, e não à parte.

O autor inicia mostrando a sobreposição entre a Lapa e a boemia. Versões que indicam uma malandrização da Lapa em diferentes momentos históricos. Não por acaso estas referências delimitam o universo, pois tem por hipótese que “O malandro, como se viu, é sobretudo definido pelo vestuário agramatical, como o travesti. […] isto é, o travesti, socialmente, é uma transformação do malandro”.

Organiza o livro em três partes: tarde, noite e manhã. Cada turno tem um investimento, uma especificidade, um ciclo natural cosmológico. Pela “tarde” situa o reconhecimento do universo dos travestis, de suas redes de relações e preocupações, formas de apresentação corporais, aspirações. “Noite” descreve o ritmo da “batalha”, as estratégias de abordagens, os clientes, os imponderáveis no trabalho na calçada. Pela “manhã” esmera-se na tentativa de revelação, onde despidos de sua maquiagem, de sua produção o autor busca situar o travesti, recoloca a questão: produzidos e produtores de si em diferentes momentos históricos, quem são eles? Parece ser somente pela manhã que pesquisador e pesquisados saem de sua embriaguez. Para os travestis passou-se o imprevisível da noite, do contato com a calçada, a rua, os carros, as artimanhas em lidar com “outros” tão diversos. Para o pesquisador é um momento onde pode tentar ver o que há por trás das máscaras e o susto de encontrar tão somente máscaras.

Adquirem em texto a imprevisibilidade dos acontecimentos cotidianos em suas paixões, obsessões e estratégias. Um trabalho que é tão obsessivo quanto o dos próprios travestis em produzir sua feminilidade. Preocupado com o tratamento possível e justo aos pesquisados, há uma pergunta que sai de foco e retorna constantemente, afinal “quem são eles?”. Definição por vezes inviabilizada por tantas ponderações, diferenças de gerações, de questões que entrecruzam as vidas dos travestis, os desejos e mentiras diversas. Conclui com a definição do fenômeno do transvestitismo como uma transcondição. Soa ao leitor uma última fuga da definição para em seguida parecer absolutamente plausível.

Se, somente pela “manhã”, o autor consegue emergir de tantos relatos, autodefinições momentâneas e artimanhas é porque critica a estigmatização cunhada em considerações psicossexuais ou patológicas. De fato, “o principal trabalho do travesti é a correção de sua própria natureza”, ou seja, a fabricação de seu corpo. Fica-nos a evidência de que o corpo está sendo sempre modificado, em definição. Se esta transcondição não os situa em lugar algum, os situa diante de um gosto pela negociação ou condenação a viver “pelo truque”. Vive-se a dupla (ou tripla) condição, o masculino e feminino. Negocia-se insistentemente a condição, vive-se o jogo de espelhos. Negociações de papéis? Nem todos os papéis são possíveis quando a condição requer modificações corporais, silicone, cirurgias.

Este livro tem um duplo mérito e talvez resida aí parte da perplexidade provocada. É um texto produzido pelo autor imerso em explicações êmicas, sem entrar em rota de colisão com os pesquisados. Não perca de vista, por outro lado, os rodapés. Chamo a atenção aos pesquisadores de que neste livro tomamos contato com um produto altamente revelador do processo de trabalho de campo. As discussões em seminários, os insights de outros pesquisadores, estão presentes e nomeados no texto. Lendo os rodapés, pode-se aprender um pouco da dinâmica da criação sócio-antropológica necessária para levá-la ao bom termo. Rompe-se com, o que tem vigorado no texto etnográfico, a ilusão do “pesquisador solitário”.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    04 Ago 2025
  • Data do Fascículo
    1995
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