Open-access VÍDEO - Tereza. Direção: Kiko Golfman e Caco P. de Souza

VÍDEO. Tereza. Direção: Kiko Golfman e Caco P. de Souza

Na era dos multimeios, da comunicação interativa e da geração MTV, assistimos ao vídeo de Kiko Golfman e Caco P. de Souza com prazer, enquanto meros videoespectadores; mas, com cautela, como antropólogos ou estudantes de antropologia.

Premiadíssimo em diversos circuitos de vídeo por todo o país, Tereza nos “arremessa” para dentro do universo da vida no cárcere. Através de depoimentos dos presidiários, da Penitenciária I e do 5o Distrito Policial de Campinas, e de citações de livros como A prisão, de P. Souza; Memórias de Madame Satã, de S. Paezzo; Diário de um ladrão e Nossa Senhora das Flores, ambos de J. Genet, são apresentados conceitos tais como a moral, a ética, a liberdade, o poder, enfim, uma série de valores sociais recriados sob a condição de confinamento coletivo vivida pelos detentos.

As informações, centenas delas, para a apresentação desses conceitos, nos chegam em “vagalhões” no decorrer da fita. Fato este que certamente não causa nenhum dissabor aos videomaníacos, leia-se estudantes de comunicação social ou aficionados por videoclipe, porém contrasta seriamente (ou ludicamente, de forma intencional) com os vídeos etnográficos tradicionais. Essa é provavelmente a causa das polêmicas geradas quando Tereza é apresentado a um público composto por antropólogos, não raro, simpatizantes ao estilo da velha guarda, como aconteceu recentemente na II Jornada de Antropologia Visual, em outubro de 1994, em Porto Alegre.

Com uma linguagem “pós-moderna” somos bombardeados durante 15 minutos com depoimentos, muito espontâneos inclusive, o que demonstra o cuidadoso trabalho de campo que deve ter precedido a realização do vídeo. Durante esses depoimentos, permanece na tela uma constante manipulação caleidoscópica de efeitos especiais de imagem e texto que, ora contribuem para enriquecer as informações e conceitos abordados, ora disputam espaço com o que está sendo dito, prejudicando uma compreensão mais ampla da cena, ou pelo menos mais próxima do ponto de vista dos detentos. Sob uma ótica antropológica, o “filtro” utilizado na concepção do vídeo parece ofuscado e conseqüentemente embaçado pelo talento, indiscutível, do diretor.

Este, talvez, seja considerado o ponto crítico principal pela maioria dos antropólogos/espectadores: a característica predominantemente autoral do vídeo. A “visão artística” do diretor/autor tende a sobrepor-se ao tema, prejudicando a “transparência” necessária para abordá-lo de forma a permitir uma larga margem de interpretação aos espectadores. A montagem, os efeitos, a seleção dos diálogos, o timing, os ângulos de enquadramento e outros elementos de linguagem utilizados na realização do vídeo demonstram a concepção estética preestabelecida pelo autor, que chama para si, mais do que para os protagonistas, a atenção do espectador.

A questão coloca-se da seguinte forma: será que com a pretensão de tornar mais dinâmica (e menos “chata”) uma estética já tradicional ao vídeo etnográfico não corremos o risco de priorizar a forma e o estilo da abordagem em detrimento do conteúdo e da profundidade do tema?

Críticas à parte, é inegável que Tereza tem momentos valiosíssimos para a análise antropológica. O próprio significado do termo “tereza” onde, em uma seqüência, um detento exemplifica o seu uso para finalidades que vão desde uma “escada” improvisada para uma fuga até um truque para despistar o cheiro da maconha, quando utilizada dentro da cela.

Em outro momento, é abordado o papel da “bicha” dentro da prisão e as expectativas que se criam em torno dela. Um detento homossexual, ao relatar uma situação vivida com um colega de cela, comenta a semelhança entre o seu comportamento e o das “mulheres do tempo antigo”, identificando as limitações impostas a essa condição. Há uma passagem em que aparecem as trocas de mercadorias dentro da cadeia, uma verdadeira tabela de escambo cuja moeda-base são maços de cigarro. Cinqüenta e três maços de cigarro valem: um travesti, um pudim, duas camisinhas, um papel de pó e três pedaços de frango. Não compram, entretanto, o bem mais cobiçado pelos detentos: “Acho que a rua é praticamente tudo, a liberdade não tem preço, não tem dinheiro, não tem nada que compre a liberdade”, comenta um dos detentos.

A dimensão do tempo, intermináveis horas vagas dentro do presídio, aparece em outra seqüência onde os detentos ora se dedicam a passatempos culturais, como o rapaz que produz esculturas em sabão; ora a atividades “ilícitas” (e não menos culturais), como outro que relata a construção de túneis para a fuga, e completa dizendo: “Ladrão, quando não tem o que fazer morde até o dedo só pra ver o sangue cair, pra passar a hora de cadeia!” Nessa parte, o ritmo de montagem não traduz ao espectador a noção de temporalidade percebida através dos depoimentos dos protagonistas. O timing permanece o mesmo do princípio ao fim do vídeo, acelerado e constante, contrastando naturalmente com a idéia que se faz a respeito de como as pessoas que vivem reclusas por anos a fio percebem a questão da passagem do tempo.

Outro elemento importantíssimo a se ressaltar ainda, é a trilha sonora impecável desse vídeo, composta e produzida pelo grupo Cuidado que Mancha. Sem dúvida um dos pontos fortes do trabalho e responsável pela perfeita ambientação do clima de “malandragem” característico aos nossos estereótipos sobre a vida carcerária.

Vale a pena assistir a Tereza não só pelo impacto visual incomum em filmes do gênero, o que nos conduz a um questionamento saudável sobre a linguagem e a “forma” dos vídeos etnográficos e a interdisciplinaridade imprescindível entre antropologia e comunicação, mas também, e cabe aqui repetir, pela riqueza e espontaneidade dos depoimentos que, embora excessivamente recortados em alguns momentos, mostram-nos a importância da interação entre cineasta e protagonista, para que obtenhamos um resultado convincente e revelador. Interação esta só atingida mediante um exaustivo trabalho prévio de pesquisa de campo, onde o pesquisador conquista a confiança e o respeito dos seus pesquisados. Esse é provavelmente o maior mérito do trabalho de Kiko Golfman e Caco P. de Souza e, sem dúvida, o que o torna imperdível.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    1995
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