Open-access DEBRAY, Régis. Vida e morte da imagem: uma história do olhar no Ocidente. Petrópolis: Vozes, 1994. 374 p.

DEBRAY, Régis. Vida e morte da imagem. : uma história do olhar no Ocidente. Petrópolis: Vozes, 1994. 374

O mais profundo é a pele.

Paul Valéry

A Editora Vozes está colocando à disposição dos estudiosos dos fenômenos da modernidade mais um livro de Régis Debray. Estamos falando de Vida e morte da imagem em que o pensador francês propõe uma nova periodização da história ocidental, e, mais especificamente, lança importantes elementos para a construção da história do olhar. Este é o segundo livro editado pela Vozes desse autor. No ano passado chamou a atenção de um pequeno círculo o livro Curso de midiologia geral. Nenhuma relação com mídia.

Apenas para situar: Régis Debray é o jornalista que acompanhava Che Guevara na selva boliviana e que foi preso antes da morte do líder guerrilheiro. Influenciou toda uma geração de militantes, na década de 70, com o livro Revolução na revolução. Mas não é só isso. Debray já tinha participação em muitas das polêmicas teóricas travadas na França. Foi aluno de Louis Althusser, na Escola Normal Superior. Participou de atividades com Félix Guattari, Derrida, Gilles Deleuze, Foucault e outros pensadores franceses. O livro Vida e morte da imagem tem uma epígrafe de Michel Serres, autor dos importantes livros O contrato natural e Filosofia mestiça, estes editados pela Nova Fronteira.

Tanto no Curso de midiologia geral como em Vida e morte da imagem, Debray propõe uma nova periodização: logoesfera, grafoesfera e videoesfera. Para alguns estudiosos, ele, de alguma forma, (re)atualiza Marshall McLuhan, autor de Os meios de comunicação como extensões do homem, que, por sinal, é um livro que está completando trinta anos de sua primeira edição. Mas um aspecto, igualmente interessante, é o resgate que Debray também faz de Auguste Comte. Sem nenhum trauma, ele cita Comte: “a generalidade mais imperfeita supera teoricamente a pura especialidade.”

O livro Vida e morte da imagem é uma instigante reflexão sobre a história do olhar no Ocidente. Uma curiosa (re)descoberta sobre questões da máxima atualidade: “somos a primeira civilização que pode julgar-se autorizada por seus aparelhos a acreditar em seus olhos.” “Em língua corrente estou vendo substituiu eu compreendo.” O primeiro capítulo do livro, denominado “Gênese das imagens”, é um detalhado levantamento histórico sobre o “olhar ocidental”.

E, para marcar radicalmente algumas das diferenças do “olhar ocidental” com outras civilizações, Régis Debray abre seu livro com uma curiosa e deliciosa história:

Certo dia, um imperador chinês pediu ao principal pintor da corte para apagar a cascata que tinha pintado a fresco na parede do palácio porque o ruído da água impedia-o de dormir. A anedota tem um certo encanto para nós que acreditamos no silêncio dos afrescos.

O livro de Régis Debray é da mais absoluta atualidade quando verificamos que grande parte dos debates sobre a modernidade, com suas noções de tempo e espaço, se abrem (pelo menos no Ocidente) para um tempo não mais cronológico passado-presente-futuro, mas, segundo Paul Virilio, a um tempo cronoscópio: subexposto-exposto-superexposto. É uma importante contribuição aos debates sobre as “superestradas interativas”; sobre o fato de que cada vez mais transferimos nossos julgamentos de valor, nossa medida dos acontecimentos, do objeto para sua figura, da forma para sua imagem. Na “videoesfera” vivemos um mundo de “telecidades” e de absoluta poluição “dromosférica”.

Gaste um pouco seu olhar. Vida e morte da imagem é o mais puro prazer-do-saber-acerca-de-um-tudo. Até a vista.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    04 Ago 2025
  • Data do Fascículo
    1995
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