RESUMO
Dialogando com uma circunstância específica de enunciação, o texto aborda a relação de Derrida com a literatura e, em especial, com a poesia. Derrida se distancia das divisões e hierarquias internas ao pensamento sobre os gêneros. Por outro lado, há diferenças perceptíveis no tratamento que o autor dá a esses discursos, o que permite concluir que a divisão de gêneros é negada e reafirmada, ao mesmo tempo. Derrida valoriza o diálogo com obras poéticas, mas evita o conteúdo mundano e “disciplinar” associado à poesia - elementos paratextuais que abririam a possibilidade de pensar algo como uma passagem ao sentido.
Palavras-chave:
Jacques Derrida; Literatura e filosofia; Poesia
ABSTRACT
From a specific circumstance of enunciation, the article explores Derrida’s relationship with literature and with poetry, in particular. Derrida distances himself from the internal divisions and hierarchies of thought about genres. On the other hand, we can see differences in the treatment of these discourses, which allows us to conclude that the division of genres is both denied and reaffirmed at the same time. Derrida values the dialogue with poetic works, but avoids the mundane and “disciplinary” content associated with poetry - the para-textual elements that would open the possibility of thinking a passage to meaning.
Keywords:
Jacques Derrida; Literature and philosophy; Poetry
Quem, entre os participantes do colóquio do Rio de Janeiro, pode se colocar como responsável da memória absoluta daquilo que aconteceu, quem de nós carrega em si como ato absoluto de memória a autenticidade de todos os gestos, dos discursos preferidos? (Tradução nossa)
Evando Nascimento, La solidarité des vivants et le pardon1
Pedir perdão, a propósito de Derrida
Teria preferido começar como Derrida, perguntando-me “O que ainda poderei inventar?” (DERRIDA, 1987a, p. 11), remetendo ao impossível pela via do começo e da fábula do começo. Mas como, de fato, as coisas não se separam, permitirei que me guiem novamente a economia da memória e o ditado do coração. Uma vez mais às voltas com a data e seu segredo, dos quais não se exclui o golpe da história.
Em minha participação no “Colóquio Internacional Jacques Derrida - Pensar a desconstrução”, de 2004, realizado no Rio de Janeiro, o texto que apresentei fazia uma espécie de homenagem a Derrida, a propósito da questão do coração e das vísceras.2 Antes de iniciar minha fala, ocorreu-me explicar informalmente que eu não era um especialista em Derrida, mas sobretudo alguém interessado em poesia. A declaração era curiosa, porque contradizia abertamente o fato de eu haver defendido uma tese e publicado um livro sobre a obra do autor;3 contradizia, ainda, o fato de eu ter publicado outros textos sobre o mesmo assunto (dois deles apresentados diante de Derrida, em Cerisy-la-Salle), além da própria realização de um pós-doutorado sob sua supervisão, em 2003. Mais do que curiosa, a declaração improvisada talvez soasse despropositada, no mínimo inoportuna, em especial diante de um público brasileiro, diante do qual a princípio eu teria alguma responsabilidade em relação a meus trabalhos anteriores. Comparada ao reencontro com Derrida naquele evento, ocasião em que ele se mostrara tão acolhedor e mesmo afetuoso, minha declaração - apesar de elíptica e até certo ponto desmentida pelo texto que apresentei - caía mal.
Para além do deslize diplomático, por assim dizer, ela envolvia outras razões que não podiam nem deveriam estar em pauta naquele momento. Seria provavelmente um pouco leviano, em contexto tão pessoal, remeter à questão do perdão - ou à impossibilidade do perdão, que a morte de Derrida viria selar, em seguida -, não só levando-se em consideração a pouca importância do fato que acabo de relatar (provavelmente insignificante e desprovido de interesse para Derrida), mas também o descompasso entre esse desconforto pessoal e as problemáticas amplas tratadas naquela ocasião: o apartheid sul-africano ou ainda (como sublinha Evando Nascimento na Introdução de La solidarité des vivants et le pardon; 2016), a questão dos negros no Brasil, a herança da ditadura militar, a situação dos índios etc. Ou seja, situações que envolvem também questões históricas e políticas, questões de direito com grande impacto social. Acresce, para aumentar o sentimento de desproporção que sinto agora, que tais feridas históricas não estavam tão abertas, em 2004, no Brasil, como estão hoje. Pareceria, em suma, indecente remeter à questão do perdão pessoal quando um mal-estar de tão amplas dimensões, advindo de um golpe parlamentar e jurídico, apoiado numa suposta “crise”, justifica os piores retrocessos políticos e sociais, colocando em risco a própria integridade da lei, a integridade dos direitos de populações inteiras, cuja cidadania e mesmo a sobrevida dependem em grande parte da existência dessas leis e (é importante que se diga, no Brasil) de sua aplicação.
Cheguei a pensar que, nas circunstâncias atuais, talvez fosse mais apropriado abordar diretamente a questão do golpe, imaginando um lugar possível entre o coup de dés e o coup d’état. Seria uma forma de acusar o golpe, no sentido tanto ativo quanto passivo dessa expressão: “acusar o golpe” consiste tanto em uma denúncia do colapso da lei (um j’accuse!), quanto na confissão do sentimento de ter sido atingido (um touché!). Falar sobre o imperdoável, hoje, envolve necessariamente uma reflexão sobre o golpe. Se há um ambiente hostil, politicamente, em muitos contextos, inclusive dentro da universidade, aqui e agora, um aqui e agora dos quais a Uerj é o lugar sensível, não seria necessário pensar sobre a questão do golpe associada à questão do perdão? Como chegar à questão do perdão? Ou antes, em que momento exatamente deve ser colocada a questão do perdão? Precisamente em que circunstâncias devemos considerar que as feridas estão em processo de cicatrização? Um golpe é algo que fere, é quando as feridas se abrem. Então, de que maneira se poderia entender o perdão, a cicatrização das feridas, quando a questão é colocada em momento de golpe? O perdão parece pressupor uma avaliação preliminar, uma análise, um esforço de elucidação do mal cometido. Parece requerer um sentido histórico minimamente compartilhado, no qual haja clareza sobre a ideia desse mal. Qual a natureza e a abrangência do mal, no nosso caso presente? Estaria concluído? A quem concerne, em primeiro plano? Quem são as principais vítimas? Quem poderia nomeá-lo? Quem poderia falar em seu nome?
Colocar a questão do perdão, nesse contexto, não é tão simples quanto, à primeira vista, me pareceu que seria. Por isso, cheguei a pensar que, ao invés de explorar essas grandes vias, deveria retomar primeiramente o sentido de histórias pessoais - como o caso daquele pai goiano que perseguiu e matou o filho por estar descontente com sua participação em movimentos sociais4 - as quais soam também como tragédias míticas, culturais, políticas. Um caso lamentável, infelizmente, entre muitos outros, que tendem a se misturar com nossa experiência cotidiana da violência rural e urbana. Coisas dessa ordem nos levam a pensar que, antes da reconciliação (uma reconciliação democrática, por exemplo), o que está em jogo num contexto como o do Brasil de hoje é a compreensão da natureza do pacto que foi rompido - a democracia - ou da fragilidade desse pacto, a tal ponto que se pode perguntar se de fato ele chegou a existir plenamente.
Em que condições, em suma, colocar a questão da reconciliação?
Eu me fazia essas perguntas. Mas eram perguntas ao mesmo tempo muito localizadas e muito genéricas, tão preliminares quanto intuitivas. A fim de me colocar mais próximo deste evento, ou deste acontecimento, que remete simultaneamente a um outro, que comemora esse outro, preferi o tom que tomo agora e que se assemelha mais a um depoimento ou a uma autoexplicação - uma confissão, se quisermos.
A propósito da obra de Derrida, cujo nome próprio está no título do nosso encontro, hoje, devo dizer que meu interesse por ela não enfraqueceu, mas relevou-se, revezado. Depois de 2004, cheguei a publicar outro livro sobre o assunto contendo, é verdade, muitos textos anteriores ao evento do Rio de Janeiro (SISCAR, 2013), mas o fato é que me tenho dedicado a outros objetos de reflexão, que se agregam mais facilmente em torno da palavra “poesia”. É fato também que eu não poderia voltar a falar sobre Derrida em um colóquio abertamente derridiano, sem me referir a essa dimensão pessoal, sobretudo quando nos reunimos a pretexto do pensamento e da atuação sempre coerente e consistente de Evando Nascimento e, por que não dizer, com o beneplácito de sua cumplicidade, quando solicita amigavelmente minha participação em iniciativas dessa natureza.
Perdoar Derrida, a propósito da poesia
Então, ainda no mesmo tom, perguntaria: de que é preciso me perdoar, a propósito de Derrida? E, para completar, acrescentaria: de que Derrida precisa ser perdoado, a propósito da poesia? No fundo, tal como as coloco aqui, as questões não se separam.
A primeira interrogação (“de que é preciso me perdoar?”) envolveria o problema da infidelidade, da ingratidão, ou seja, da “paixão ingrata”; a ingratidão do leitor que se nutriu da obra alheia e que precisa liberar-se dela, confirmando-a, de certo modo, ao tentar fazer isso; aquele leitor cujo desejo de contradição e cuja situação contraditória nunca excluem um certo páthos, um lugar relacionado com o coração, que explicita eventualmente sua condição transtornada (“coração transtornado”). Algumas dessas expressões intitulam textos que publiquei no passado, mas não deixam de soar como formulações ou tópicos derridianos.
Num certo momento (não exatamente um momento biográfico, mas sobretudo um momento do pensamento), a escrita e o pensamento de Derrida assumem para mim uma condição comparável à de um “poema”. Soam ao meu coração como se fosse pela primeira vez, sem memória, elipticamente, e eu os retomo por assim dizer “de cor”, prestes a repeti-los, ainda que involuntariamente.5 Em seguida, num outro momento, essa exigência relacionada com a poesia me diz respeito também de uma outra maneira, menos imediatamente compreensível. Há algo em Derrida que não me permite fazer uma passagem tão simples com aquilo que me mobiliza na direção da poesia. Por isso, a segunda pergunta me interessa de modo mais imediato hoje.
De que é preciso perdoar a Derrida, a propósito da poesia?
A propósito de poesia - se formos olhar de perto, sem contexto, a questão não faz muito sentido, por mais de uma razão. O que exatamente teríamos a objetar nas leituras intensas e rigorosas que Derrida faz de Jabès, de Mallarmé, de Ponge, de Baudelaire, de Celan? Como, contrariamente, não agradecer ao autor, não saudar a própria frequência com que falou sobre literatura em textos que deram novo empenho e novo rigor aos estudos literários em nível mundial?
Começando pelo óbvio, é possível dizer que Derrida é um filósofo para quem a poesia é um lugar importante da constituição do pensamento. Não apenas a poesia, mas a literatura de modo geral. Como se sabe, Derrida evita criteriosamente estabelecer uma diferença de gêneros (literatura e filosofia), recusando-se a reproduzir a velha estratégia filosófica de justificar seu sentido como gênero por meio do rebaixamento da ideia de literatura, considerada como ilegítima, enganosa, marginal; essa velha estratégia de oposição garante a ilusão de propriedade e resulta na hierarquização dos gêneros de escrita. Toda a obra de Derrida opera nos limites entre filosofia e literatura, e pode-se dizer que essa operação a constitui do modo mais íntimo. A produção “conceitual” da escrita de Derrida, que, em determinado momento, ele preferiu chamar de “capacidade trópica”, toma forma em suas leituras tanto de filosofemas quanto de po-emas (se pudermos ouvir esta palavra como Michel Deguy, no paralelo com a outra, no sentido da unidade mínima de uma proposição poética).6
Por outro lado (e aí acrescento uma razão de dúvida), com base no acontecimento retórico-metodológico de Derrida, dos textos de Derrida como escrita e pensamento indissociáveis, algo me leva a perguntar se não haveria diferenças significativas entre o tratamento que ele dá às obras de filósofos e às obras de prosadores e poetas. Uma hipótese de leitura sobre esse assunto, proposta em outra oportunidade,7 é que a literatura ocuparia o lugar de um “indesconstrutível”, pelo qual uma desconstrução se determina como modo característico de seu ter lugar, traço de sua “assinatura”. Como se, diante da literatura, a desconstrução derridiana se mostrasse mais claramente atenta à demanda ética que vem do texto, mais explicitamente mobilizada pelo excitante do outro. Ao passo que, no diálogo com filósofos, se poderia flagrar uma relação mais próxima da estratégia, na qual nomes e conceitos são mantidos sob lente mais analítica, num jogo mais calculado entre aproximação e distanciamento.
Do ponto de vista teórico, é uma hipótese temerária e tem aspecto um tanto grosseiro, uma vez que parece simplesmente inverter uma proposição de base. Mas tem sua necessidade. E creio que poderia ser colocada como parte da própria força de autoexplicação do texto de Derrida. A verificação dessa hipótese deveria envolver, é claro, o exercício muito preciso de uma espécie de close reading retórico-metodológico, mas isso não é suficiente. Faz parte de seus pressupostos toda a formulação que Derrida empreende da noção de forma, de retórica, de estilo, isto é, daquilo que chama de tom - modalidade de relação que não deixa de evocar questões de ética, de alteridade, de hospitalidade. Apesar de tudo, acredito que uma distinção preliminar dessa ordem é necessária, por precária que seja do ponto de vista da elaboração derridiana desses problemas (inadequada, desse ponto de vista, para além de ingrata), a fim de entender o tipo de presença que a literatura e a poética da modernidade têm em Derrida, inclusive em termos daquilo que ele dispensa para poder pensá-las.
Ainda na perspectiva da determinação retórica do trabalho com a indeterminação, diria que, em relação à poesia (em relação a Francis Ponge e Paul Celan, por exemplo), há por vezes em Derrida um tipo especial de atenção, uma atitude que parece mais estudada e mesmo relativamente mais tradicional, a despeito da maneira teoricamente nada convencional com que retoma esses textos. Há algo como uma admiração, um reconhecimento do sucesso da performatividade encenada pelo texto dos poetas, que vem a dar um perfil característico à leitura Derrida sobre poesia.
Mas não é exatamente por aí que gostaria de retomar o assunto. Até porque me parece que essa constatação deveria ser matizada. Derrida não deixa de mobilizar estratégias na leitura de poesia, o que configura um modo bem definido de atenção crítica. As precauções metodológicas chegam a ser explícitas e didáticas em textos como Schibboleth (DERRIDA, 1986). Já nas primeiras páginas, o autor expõe critérios como a necessidade de ouvir/olhar o poeta, de deixá-lo falar, de não separar seus poemas e sua prosa crítica, de ir além da história literária, de levar em conta o risco da tradução, e daí por diante. São proposições críticas relacionadas à poesia como algo a ser observado de perto, e formuladas em termos de estratégia. Em conjunto, essas estratégias não deixam de constituir um protocolo possível, digamos “derridiano”, de leitura de poesia.
Estratégias menos parcimoniosas se destacam em estudos sobre objetos mais canônicos, do ponto de vista da literatura francesa. Uma ambivalência retórica, ou trópica, faz com que uma mulher assine o início de um trabalho a propósito de Baudelaire (DERRIDA, 1991), por exemplo, poeta em que chamam a atenção afirmações normalmente consideradas misóginas. A solução de diálogo com o poeta, neste caso, ao dar destaque a um tipo de resistência que gera exclusões, é simétrica àquela usada, por exemplo, num estudo sobre Nietzsche (DERRIDA, 1978).
Expansão e restrição do campo da poesia
Em relação à poesia, creio que é possível falar de dois gestos derridianos, que não são exatamente “metodológicos”, mas reconhecíveis. Esses gestos de pensamento estão em continuidade, mas também oferecem resistência um ao outro.
O primeiro é o de expansão do campo. Trata-se, aqui, do procedimento de generalização, que não deixa de estar presente na própria compreensão que o autor tem da relação entre os gêneros de escrita. Generalizar responde à necessidade de não restringir a leitura de poesia ao poema, de considerar, por exemplo, determinados textos em prosa do poeta, seus escritos reflexivos, suas cartas, suas tomadas de posição, elementos de sua recepção crítica. Trata-se, portanto, de uma expansão do âmbito tradicional da leitura de poesia, geralmente limitada ao texto poético ele mesmo. Há nesta decisão uma preocupação em problematizar a aura de verdade do texto poético, o idealismo da revelação, a mística contida na ideia de poema. Isso é feito em benefício da coerência intelectual do pensamento contido na obra e em sua tradição de leitura. Trata-se de substituir a mera noção da verdade formal ou temática do texto por uma espécie de cena discursiva que seria preciso levar em conta toda vez que se lê um autor. Creio que esta é uma das mais básicas e mais relevantes práticas derridianas de leitura de texto, baseada na mobilização inclusive de elementos textuais considerados secundários, excluídos da reflexão mais tradicional sobre a produção literária.
Segundo uma epígrafe de Montaigne, oriunda de um dos primeiros textos de Derrida (1967, p. 409), “Mais vale interpretar as interpretações do que interpretar as coisas”. No fundo, acrescento, não há as coisas propriamente ditas, apenas interpretações de coisas. Consequentemente, não há por que excluir da análise os sentidos que seu “objeto” já pressupõe, os sentidos que lhe são habitualmente atribuídos, quer seja pelos próprios autores, quer seja por comentários de outra ordem, supostamente “parasitários”, por pertencerem a outros gêneros (o gênero crítico, o gênero epistolar, o gênero jornalístico etc.).
Pois bem, a este gesto de expansão da leitura derridiana, poderíamos acrescentar um outro, que é de mesma natureza, mas que caminha em sentido inverso. Ao segundo procedimento do pensamento relacionado com a poesia eu chamaria de restrição. Ele se refere à necessidade de não confundir aquilo que há de fundamental na leitura do poeta com aspectos “regionais” de sua discussão, ou seja, com aquilo que é filosoficamente considerado como marginal.
Em Schibboleth, por exemplo, Derrida faz a seguinte distinção:
essa observação do hoje [relacionada à questão da data, da datação, na obra de Celan] talvez nos diga algo sobre a essência do poema hoje, para nós, agora. Não a essência da modernidade ou da pós-modernidade poética, não de uma época ou de um período em alguma história da poesia, mas aquilo que acontece “hoje” de “novo” com a poesia, com os poemas, aquilo que acontece nesta data. (DERRIDA, 1986, p. 19. Grifos meus).
A precaução formulada por esse “não” (“Não a essência da modernidade...”) vem da tradição fenomenológica, no caso mais especificamente heideggeriana, e é frequente em Derrida: trata-se de pensar em uma historicidade mais fundamental, a fim de destacar o acontecimento, o ter lugar do poema como sentido do contemporâneo. Devem permanecer em segundo plano categorias filosoficamente precárias, ingênuas, nomeadamente as da disciplina histórica, tratamento que se estende também às discussões características da teoria literária.
De fato, Derrida raramente dá espaço em seus escritos às questões da história da literatura, às convenções poéticas, à lógica e à historicidade da fortuna crítica do autor, às controvérsias da vida literária, às particularidades da poética e da teoria da literatura ou, ainda, àquilo que está em jogo nas discussões sobre a situação cultural da poesia. Quando questões dessa ordem são evocadas (por exemplo, no caso de escritores como Jean Genet ou de James Joyce8), trata-se justamente de valorizar os gestos de afastamento e de ironia. Constato que maior atenção é dada às informações laterais que concernem à obra de filósofos, isto é, à sua marginália, à situação de determinado autor na história da filosofia, às polêmicas acadêmicas ou jornalísticas em torno dessas obras. O tratamento da cena discursiva, nesses casos, é mais cuidadoso, inclusive no tocante a elementos biográficos, não apenas aqueles de conhecimento comum: detalhes da vida familiar dos autores e questões da esfera da intimidade (como no caso característico da vida pessoal de Hegel, em Glas) são requisitados via psicanálise e reinterpretados filosoficamente. Conhecemos, também, trabalhos de Derrida que poderíamos chamar “textos de intervenção”, como Mémoires: pour Paul de Man (1988). Entretanto, salvo engano, nada dessa ordem ocorre quando se trata das circunstâncias da vida literária.
Tudo parece sugerir que esse conjunto de informações marginais - precárias do ponto de vista do tratamento filosófico, ruídos que a análise mobiliza como forma de tecer uma teia interpretativa reveladora de cumplicidades mais amplas - constituísse de fato uma cena discursiva relevante quando relacionada com o texto e com os autores próximos da filosofia, mas que não fosse significativa no caso da poesia, isto é, da precariedade filosófica ainda mais marcada da poética e dos estudos literários, da miséria ou da trivialidade da vida literária, do destino da poesia como prática de escrita e como perspectiva discursiva associada ao comum.
Derrida e a vida literária
Justamente porque não se trata, para Derrida, de aprofundar as divisões e as hierarquias internas do pensamento sobre os gêneros, sobre determinadas disciplinaridades, não caberia esperar uma formulação que atribuísse estatuto privilegiado a um campo da escrita associado à fachada mais geral da “literatura”. Por outro lado, no tratamento dado a esses discursos, não deixa de haver diferenças perceptíveis, que oferecem razões legítimas para voltarmos à questão de base. Seria possível dizer que, em Derrida, a divisão de gêneros é negada e reafirmada ao mesmo tempo.
Lembremos que não é incomum que a filosofia se aproxime da poesia. Se determinados filósofos passam, no final de sua carreira de pensadores, a uma escrita elíptica e figurativa, remetendo, por vezes explicitamente, à poesia (ou, antes, a determinada ambição poética relativamente à verdade), não é sem que se coloquem ao mesmo tempo fora e dentro da poesia. O que um filósofo faz ao escrever poeticamente só pode ser considerado como “poesia” em sentido amplo; não integra (não pretende integrar) efetivamente o campo da “poesia”, no sentido da tradição de escrita que leva esse nome. O processo funciona como conservação da poesia e igualmente como superação da poesia, gênero filosoficamente marginal que seria redimido pelo gesto do pensamento. O filósofo convertido em poeta não é apenas mais um poeta: ele pretende ser de alguma forma um arquipoeta, o poeta do poeta, aquele que o retoma e o suplanta de modo mais fundamental. E, para isso, evita cuidadosamente situar seu discurso como perspectiva de poesia. Estaríamos aí, provavelmente, mais próximos de uma forma da superação dialética (“Aufhebung”) hegeliana do que da negatividade da “relève” derridiana (“tradução” do termo de Hegel, que aprofunda a “différance” e desdobra suas aporias, ao invés de supor a dissolução dos antagonismos).
Está claro que, no caso de Derrida, a questão é bem mais complexa que o uso instrumental que a filosofia costuma fazer da retórica da poesia. Ainda assim, creio que é possível distinguir em seus textos a recusa de uma visão mundana, disciplinar ou regional da poesia. A miséria da vida literária parece muito rala, muito derivada, sem interesses ou razões suficientes para chegar a compor uma cena discursiva. A vida literária não vale como indício, como motivo, como referência para a interpretação de questões mais fundamentais. Ela não constitui por si só um lugar no qual se dá o acesso ao sentido. E é justamente essa impossibilidade de uma passagem ao sentido por meio do campo marginal da vida literária que me traria hoje de volta à questão do perdão, a propósito de Derrida.
Sem minimizar aquilo tudo que seria necessário pensar a respeito do retorno à poesia, dessa “volta” que Derrida destaca justamente em seu estudo sobre a “comemoração” em Celan, sinto hoje a necessidade de manter unidas minha leitura de Derrida e minha mais antiga relação com o pensamento e com a arte, que vem da poesia e da escrita de poesia - esse corpo e esse corpus. É provavelmente essa ambivalência relacionada com as fronteiras que me vem movendo, fazendo com que sofra o conflito da volta, entre o relance e a reiteração, a necessária abertura do pensamento e o risco do fechamento da disciplinaridade.
Para mim, a cena da poesia é um acesso ao sentido como qualquer outro. Ou melhor, pelas razões que menciono neste texto, e também por outras que tenho explorado no meu trabalho de pesquisa, a poesia não é um acesso como qualquer outro. Ela me solicita especialmente. Oferece historicidade e discursividade que precisam ser descritas, exploradas, deslocadas, radicalizadas, até mostrarem seus impasses. Há um ter lugar do discurso poético como fenômeno moderno não apenas na condição de fim de uma história que começa em Platão, mas na condição de acontecimento a partir do qual está em jogo a passagem ao sentido, não apenas o sentido da nossa experiência, mas as modalidades do fazer sentido, e até a possibilidade mesma do fazer sentido. Na confluência entre estética e ética - em suma, na condição de uma po-ética -, a poesia tem lugar, e esse lugar não deixa de incluir suas ilusões e suas ambições de abertura, suas ilusões e ambições de perspectiva.
Uma dupla injunção se coloca: a cena da poesia é um acesso como qualquer outro; a cena da poesia não é um acesso como qualquer outro. Uma questão de história ou de crítica literária, a obra de um poeta secundário, determinada convenção, uma questão biográfica, uma discussão jornalística, um acontecimento associado ao mercado da poesia, tudo isso me parece constituir matéria pertinente para se pensar a diferença, a passagem ao sentido e suas potências históricas. Não me parece necessário excluir de antemão, em nome da recusa à lógica de gênero ou em nome da suspensão filosófica, a necessidade crítica de um poema. Prefiro ver “poesia” como nome possível dessa passagem ao sentido, um nome, é verdade, bastante pesado, na sua gravidade ou na sua leviandade, a ser pego com a pinça das aspas, sempre na forma de citação; um nome, com efeito, pesado historicamente, mas ao mesmo tempo expropriado, esvaziado, continuamente colocado à margem pela cultura da novidade, um nome que se falta a si mesmo, redefinindo-se à medida que procura um nome, nomes, outros nomes (“prosa”, por exemplo),9 pela própria necessidade de colocar em questão suas fronteiras, em plena metamorfose.
Creio que a cena da escrita em Derrida poderia ser pensada inclusive como uma passagem ao sentido relacionada com a poesia. Algo aí se torna pensável, juntamente com Derrida, mas não necessariamente por ele. E, nesse sentido, talvez fosse interessante dialogar mais de perto, não apenas com Derrida, mas igualmente com a apropriação da questão por parte de outros pensadores que, quanto mais se aproximam daquilo que chamam “poesia”, mais decisivamente se separam da trivialidade que a ilustra e a alimenta, ou seja, de sua prática de sentido, de suas convenções, de sua política. Trata-se, é claro, de um programa amplo, que envolve não apenas a questão do “estilo da filosofia”, mas a política disciplinar relacionada com diferentes gêneros de escrita e com os lugares institucionais que eles ocupam, incluindo aí situações peculiares de seu modo de inserção na mídia e na escola.
Por ocasião do lançamento de La solidarité des vivants et le pardon e, portanto, de alguma forma, em memória do Colóquio Jacques Derrida de 2004, pergunto-me o que a poética deve à filosofia, se de fato a reflexão sobre a literatura nasce do modo de fazer sentido que é o da filosofia. Cito uma última vez Derrida:
Se o poema deve à data, se ele deve à sua data como à sua coisa (Sache), sua causa ou sua assinatura mais própria, se ele deve a seu segredo, ele somente fala ao se dar por quite, por assim dizer, em relação a tal data - a essa data que também foi um dom -, por desligar-se dela sem denegá-la, sem sobretudo renegá-la. (DERRIDA, 1986, p. 22).
Pensar com Derrida, mas não exatamente em seu lugar. Pensar com Derrida, hoje, teria algo a ver com, diante de vocês, perdoar-me a propósito de Derrida, liberar-me dessa data sem renegá-la. E para isso, igualmente, perdoar Derrida a propósito do poema - aquilo que continuamos devendo a nós mesmos.
Referências
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ALVES, Martha. Após discussão, pai mata filho de 20 anos e comete suicídio em Goiás. Folha de São Paulo, São Paulo, 16 nov. 2016. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/11/1832566-apos-discussao-pai-mata-filho-de-20-anos-e-comete-suicidio-em-goias.shtml Acesso em: 2 abr. 2017.
» http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/11/1832566-apos-discussao-pai-mata-filho-de-20-anos-e-comete-suicidio-em-goias.shtml - DEGUY, Michel. Reabertura após obras Tradução de Marcos Siscar e Paula Glenadel. Campinas: Editora da Unicamp, 2010.
- DERRIDA, Jacques. L’écriture et la différance Paris: Seuil, 1967.
- DERRIDA, Jacques. Glas Paris: Galilée, 1974.
- DERRIDA, Jacques. Éperons - les styles de Nietzsche Paris: Flammarion, 1978.
- DERRIDA, Jacques. Schibboleth. Pour Paul Celan. Paris: Galilée , 1986.
- DERRIDA, Jacques. Psychè. Inventions de l’autre. Paris: Galilée , 1987a.
- DERRIDA, Jacques. Ulysse gramophone : deux mots pour Joyce. Paris: Galilée , 1987b.
- DERRIDA, Jacques. Mémoires - pour Paul de Man. Paris: Galilée , 1988.
- DERRIDA, Jacques. Donner le temps, I, La fausse monnaie. Paris: Galilée , 1991.
- DERRIDA, Jacques. Che cos’è la poesia. Points de suspension: Entretiens. Paris: Galilée , 1992.
- DERRIDA, Jacques; NASCIMENTO, Evando. La solidarité des vivants et le pardon Paris: Hermann, 2016.
- NASCIMENTO, Evando (org.). Jacques Derrida: Pensar a Desconstrução. São Paulo: Estação Liberdade, 2005.
- SISCAR, Marcos. Jacques Derrida: rhétorique et philosophie. Paris: L’Harmattan, 1998.
- SISCAR, Marcos. Jacques Derrida. Literatura, política e tradução. Campinas: Autores Associados, 2013.
- SISCAR, Marcos. De volta ao fim O fim das vanguardas como questão da poesia contemporânea. Rio de Janeiro: 7Letras, 2016.
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Este texto foi apresentado no Colóquio Internacional “A solidariedade dos viventes e o perdão: Jacques Derrida - Evando Nascimento: questões de ética, política e estética”, realizado na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, em abril de 2017. Organizado por Nabil Araújo, o evento tomava como pretexto o lançamento do livro La Solidariété des vivants et le pardon (2016), por Evando Nascimento.
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1
Qui parmi les participants du colloque de Rio de Janeiro peut être garant de la mémoire absolue de ce qui s’est passé, qui de nous porte en lui comme acte absolu de mémoire l’authenticité de tous les gestes, des discours proférés ?
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2
“O coração transtornado”, publicado posteriormente em Jacques Derrida: Pensar a Desconstrução (NASCIMENTO, 2005) e em Jacques Derrida. Literatura, política, tradução (SISCAR, 2013).
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3
Refiro-me a Jacques Derrida: rhétorique et philosophie (1998). Derrida conhecia bem o trabalho, tanto na forma de tese quanto na forma do livro.
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4
A notícia foi publicada na Folha de São Paulo (ALVES, 2016), no final de 2016, ano do “impeachment” de Dilma Roussef.
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5
Retomo aqui os termos usados por Derrida para “definir” a poesia em “Che cos’è la poesia” (DERRIDA, 1992).
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6
“As ciências humanas manipulam de bom grado os termos mitema, filosofema, teologema. Trata-se, em cada caso, para cada campo de referências, da unidade mínima, do elemento inteligível em composição, nos dois sentidos: o da componente diferencial e o do meio, dia-lético, interessado. Ocorre-me procurar auscultar “po-ema” nesse tipo de entendimento” (DEGUY, 2010, p. 118).
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7
No texto “O indesconstrutível da desconstrução” (SISCAR, 2013).
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8
Em Glas (DERRIDA, 1974) e Ulysse gramophone: deux mots pour Joyce (DERRIDA, 1987b), respectivamente.
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9
Como ocorre, a meu ver, na discussão francesa empreendida por autores como Jean-Marie Gleize e Pierre Alféri (cf. SISCAR, 2016).
