RESUMO
O implante coclear é um dispositivo eletrônico utilizado por pessoas com surdez inata ou adquirida, do tipo neurossensorial profundo, que possibilita o acesso ao som. Frequentemente, é concebido como um recurso tecnológico capaz de integrar os surdos à sociedade majoritariamente ouvinte, sendo comum que seus defensores se posicionem contrariamente ao uso da língua de sinais. Considerando esse discurso em circulação sobre os sujeitos implantados, esta pesquisa analisa a experiência de um surdo implantado, usuário de Libras, em sua relação com a comunidade ouvinte, buscando compreender como ele percebe sua participação e formas de interação em um meio social majoritariamente ouvinte. Para tanto, articulamos aportes dos estudos surdos e da análise de discurso materialista. Do ponto de vista metodológico, realizamos uma entrevista semiestruturada, que possibilitou a expressão genuína de percepções e vivências. Os resultados indicam que a Libras permanece essencial na vida dos surdos, inclusive daqueles com implante coclear, visto que, em situações nas quais o dispositivo não pode ser utilizado (banho, praia, piscina, prática esportiva etc.), a língua de sinais constitui o principal recurso de comunicação.
Palavras-chave:
implante coclear; surdez; libras
ABSTRACT
The cochlear implant is an electronic device used by people with congenital or acquired profound sensorineural hearing loss, which enables access to sound. It is often conceived as a technological resource that integrates deaf individuals into a predominantly hearing society, with many of its advocates opposing the use of sign language. Considering this discourse circulating about implanted subjects, this study analyzes the experience of a deaf person who is both a cochlear implant user and a Brazilian Sign Language (Libras) user, focusing on his relationship with the hearing community. The objective is to understand how he perceives his participation and forms of interaction within a predominantly hearing social environment. The theoretical framework combines Deaf Studies and materialist discourse analysis. Methodologically, a semi-structured interview was conducted, which allowed the genuine expression of perceptions and experiences. The results indicate that Libras remains essential in the lives of deaf people, including those with cochlear implants, since in contexts where the device cannot be used (such as bathing, swimming, or sports), sign language emerges as the primary tool for communication.
Keywords:
cochlear implant; deafness; libras
1. Introdução
A medicina utiliza o transplante como meio de substituir órgãos que apresentam mau funcionamento por outro saudável; contudo, tal procedimento apresenta riscos como rejeições, infecções e falta de doadores; para sanar tal problema, a medicina moderna em conjunto com a engenharia, com a decorrência dos avanços tecnológicos, descobriram meios de substituir órgãos que até pouco tempo não tinham como ser transplantados, utilizando meios artificiais. No caso da deficiência auditiva quando a cóclea apresenta mau funcionamento é indicado o implante coclear - IC, também conhecido como ouvido biônico. O implante coclear não deve ser confundido como um transplante, pois enquanto este envolve a substituição de um órgão ou tecido do corpo, o implante coclear é um dispositivo eletrônico cirurgicamente inserido na orelha interna, destinado a proporcionar a percepção de sons a pessoas com perda auditiva severa ou profunda.
Mesmo se tratando de um procedimento com inúmeros exemplos de casos exitosos, é importante salientar que o implante coclear não é recomendado a todos os sujeitos surdos, pois, como salientam Lima e Queiroz (2021, p. 63), trata-se de uma cirurgia recomendada apenas aos surdos que “apresentam perda auditiva bilateral do tipo neurossensorial de grau severo-profundo e que não se beneficiem significativamente de um aparelho de amplificação sonora convencional”. Além disso, como salientam os autores, outros fatores precisam ser observados, tais como: “a idade em que recebe o implante; o tempo que ficou sem ouvir; o número de eletrodos inseridos na cóclea; o grau de comprometimento do implantado com os tratamentos de reabilitação com o fonoaudiólogo; as condições socioeconômicas da família etc.” (Lima; Queiroz, 2021, p. 64). Salientamos, outrossim, que mesmo àqueles surdos implantados, o IC não pode ser utilizado durante a prática de atividades físicas pesadas e não permite entrada em locais com água.
Para além dessas questões, do ponto de vista da comunidade surda usuária de língua de sinais, seus indivíduos acreditam que o IC se converte num impedimento à luta pelo reconhecimento da Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS, uma vez que, segundo estes sujeitos, a Libras deverá ser considerada a primeira língua para aqueles que nascem com perda auditiva e, portanto, um meio de inseri-lo em seu grupo social que é a comunidade surda, fomentando assim sua identidade enquanto um sujeito surdo. Nessa esteira, Rezende (2012, p. 70) afirma que o povo surdo se constitui de sujeitos com senso de pertencimento, com uma identidade enraizada na formação do ser surdo com experiências, anseios e embates e que utiliza a língua de sinais, a língua visual, com signos e sentidos linguísticos que lhe são naturais. Não é apenas a língua o fator determinante para a constituição da comunidade surda, há outros pontos relevantes, como compartilhar artefatos culturais, piadas, histórias surdas e sentimentos de pertencimento a um povo que constrói a sua história cultural.
Os surdos implantados, em geral não usuários de língua de sinais, têm, no entanto, opinião diferente acerca do IC. Eles entendem que este é um recurso tecnológico capaz de “curar’’ ou, pelo menos, possibilizar às pessoas surdas uma efetiva integração com a sociedade majoritariamente ouvinte, melhorando sua qualidade de vida. Em contrapartida, os surdos que não defendem o uso do IC - em geral utentes de Libras - encaram essa ferramenta como um instrumento de controle e normatização, como um recurso nocivo à comunidade surda e uma tentativa de erradicação do surdo, de sua cultura e de sua língua, ou seja, da língua de sinais.
Isto posto, entendemos que pesquisar sobre o modo como um usuário de implante coclear se adapta ao uso de duas línguas bem como a maneira como ele se utiliza destas buscando uma melhor interação em seu meio social nos permitirá uma maior compreensão de como ele convive socialmente nos ambientes familiar, de estudo e profissional. Outrossim, o fato de que são poucos os trabalhos dedicados à questão que ora propomos torna esta pesquisa ainda mais relevante, uma vez que ela poderá ajudar de forma profícua no aprofundamento, seja na comunidade surda ou no meio acadêmico, acerca do uso da oralização e/ou da sinalização por um surdo usuário de implante coclear. Para tanto, utilizaremos o aporte teórico-metodológico da Análise de Discurso Materialista, numa articulação com a área de Estudos Surdos.
2. A surdez e o implante coclear: algumas considerações
Em uma sociedade na qual a maioria das pessoas tem por comunicação a fala oral, os sujeitos surdos usuários de língua de sinais que se comunicam a partir de uma perspectiva visual espacial, enfrentam situações que, na maioria das vezes, fazem com que surjam estereótipos e preconceitos, estes muitas vezes vindos dos próprios pais, uma vez que esperam um filho sem deficiências e ao descobrirem nele a surdez, por exemplo, sentem-se decepcionados. No que concerne especificamente aos familiares de surdos, muitos pais veem no implante coclear uma forma de corrigir ou amenizar a surdez e quando consideramos que grande parte das crianças surdas são filhos de pais ouvintes, o implante coclear torna-se um dos principais instrumentos atualmente utilizados pelos surdos para a aquisição da língua oral, uma forma de se inserir o surdo no mundo ouvinte, ou ouvintista como ressalta Strobel (2015).
O Implante Coclear (IC) é um aparelho eletrônico que funciona como uma prótese auditiva, na medida em que desempenha a função das células ciliares ao fornecer a estimulação elétrica às células ganglionares espirais remanescentes no nervo auditivo da cóclea. Não objetiva amplificar o som para poder chegar a estimular as células ciliares eventualmente remanescentes. Em vez disso, cria uma via alternativa, um atalho, para contornar as células ciliares danificadas, e estimular diretamente as células ganglionares espirais do nervo auditivo, produzindo a experiência de som e melhorando o desempenho auditivo (Capovilla, 1998). O implante funciona da seguinte forma (Figura 1):
Um microfone retroauricular recebe o som e repassa ao processador de fala por meio de um cabo, o processador da fala converte o som em códigos eletrônicos e estes são enviados para o transmissor. A antena transmissora envia os códigos pela pele para o receptor-estimulador, este contém um circuito integrado que converte os códigos em impulsos elétricos, que são enviados pelo filamento de eletrodos, por sua vez, estes estimulam as fibras nervosas que enviam mensagens ao cérebro, que por sua vez, recebe as mensagens e as decodifica formando assim a sensação de audição. Trata-se de uma experiência auditiva mediada tecnologicamente, que não corresponde à audição natural, mas a uma reconstrução sonora artificial.
Dito de uma maneira menos técnica, o IC tem como objetivo principal substituir a função do órgão sensorial da audição por meio da estimulação direta das fibras do nervo auditivo. É considerado como tratamento de escolha para pessoas com deficiência auditiva neurossensorial de grau severo ou profundo, adultos ou crianças, que não conseguem uma amplificação desejada com uso dos Aparelhos de Amplificação Sonora Individual (AASI), para acesso aos sons de da fala.
Lima e Queiroz (2021) explicam que os AASI são os recursos tecnológicos mais difundidos e utilizados pelas pessoas com deficiência auditiva. Contudo, uma vez que estes atuam ampliando o som a partir da audição residual, eles acabam não sendo recomendados a todos os casos de surdez, mas apenas àqueles indivíduos que possuem resquícios auditivos. Diferente do AASI, como dissemos, o Implante Coclear não utiliza a audição residual, mas cria a audição por impulsos elétricos. Para tanto, esse dispositivo é composto por dois componentes, um interno (colocado de forma cirúrgica, abaixo do couro cabeludo) e outro externo (composto por um processador de fala, uma antena transmissora e um microfone). Sobre esse implante, Capovilla (1998, p. 81) faz uma citação das afirmações de Chasco e Lau (2019) que afirmam:
O implante coclear tem se mostrado como a melhor opção para aqueles que nasceram surdos ou tiveram perdas que não pode ser suavizada com aparelhos normais, permitindo que o implantando ouça sons. A recuperação depende de alguns fatores, quanto tempo a pessoa conviveu com a falta de audição, da estimulação realizada, da idade da criança.
Nessa mesma direção, Yamada e Valle (2014) salientam que embora o IC não cure a surdez, provê aos implantados uma experiência auditiva mediada tecnologicamente com a qualidade necessária para a percepção dos sons da fala, o que acarreta melhorias não apenas nos aspectos linguísticos, mas em questões comportamentais e afetivas que oportunizam um ajuste mais adequado desses indivíduos à vida cotidiana. Nessa mesma direção, Pfeiffer (2015, p. 114) argumenta que o IC proporciona não apenas uma melhora na autoestima da pessoa surda como quebra barreiras e abre o potencial desses sujeitos em todos os níveis libertando-os “das limitações impostas pela deficiência auditiva”. Lobato (2014) é uma outra autora que compreende o IC como uma espécie de libertador da surdez. Para ela, (Lobato, 2014, p. 09), a surdez “prende as pessoas numa bolha de solidão e silêncio [...] e derruba o ânimo e a alegria de viver daqueles que convivem com ela”.
Sobre isso, Lima e Queiroz (2021) afirmam que os discursos enunciados pelos defensores do IC entendem que a surdez dificulta e/ou impede o aprendizado da língua portuguesa, tanto na modalidade oral quanto escrita. Para esses sujeitos, o IC é um auxílio necessário para garantir às pessoas surdas uma melhor qualidade de vida e inclusão social por meio da oralização.
Na contramão de Pfeiffer (2015), Lobato (2014) e Yamada e Valle (2014), Lima e Queiroz (2021) apresentam outros autores que se posicionam de forma contrária ao uso do IC pelos sujeitos surdos. Entre os principais nomes desse movimento contra o implante coclear destaca-se Rezende (2012). Para ela, o IC é imposição, opressão de uma sociedade majoritariamente ouvinte, que sob o discurso da medicalização cria no imaginário social a ideia de que os surdos são deficientes e necessitam cura, negando a identidade cultural desses indivíduos. Rezende (2012, p. 35) afirma que foi nesse campo da medicina que se inventou a surdez como deficiência, que se produziram discursos e saberes sobre os surdos como deficientes e necessitados e que se inventaram técnicas de correção. Para essa autora, essas chamadas ‘técnicas de correçãousar’ não devem ser entendidas como descobertas neutras, mas como práticas discursivas historicamente situadas, inventadas e reiteradas no/pelo campo da medicina. Discursos científicos inventados. Saberes e práticas discursivas inventadas. Discursos fabricados sobre a normalização surda.
Trata-se, ainda segundo Rezende (2012), de uma normalidade padronizada pelo ouvinte, que subestima o ser surdo em suas peculiaridades linguísticas e culturais com as propostas de correção dos corpos surdos. Lopes (2007, p. 07), também compreende a surdez como uma grande invenção. Segundo essa autora, a surdez não é uma “materialidade inscrita em um corpo”, mas a “construção de um olhar sobre aquele que não ouve’’.
Ainda nessa direção, Rezende (2012, p. 47) afirma que tomar a surdez no sentido patológico, como algo a ser corrigido, é tomar os sujeitos surdos como como objetos de investimento clínico, obrigados a uma vida regrada pelas práticas sociais e culturais dos que ouvem, até mesmo para serem os espelhos dos pais. É nessa perspectiva, continua a autora, que surgem variadas técnicas de correção dos corpos surdos, como as técnicas de oralização, por exemplo, o que implica desde o uso de próteses auditivas até a cirurgia do implante coclear. Para Rezende (2012), esses instrumentos nada mais são do que descobertas e discursos científicos que veem os surdos como um desvio da a normalidade. Sobre a cirurgia, Martins (2008, p. 32) acrescenta: o “implante coclear é a forma mais radical e inovadora que traz para alguns familiares e surdos a expectativas de se normalizar, ou seja, de recuperar a falta de audição.’’
Importa ainda salientar que os aspectos psicológicos e linguísticos dos indivíduos candidatos ao implante também são levados em conta na triagem envidada pela equipe multidisciplinar aos candidatos ao implante. Pfeifer (2015, p. 137) afirma que é preciso que tanto a pessoa com surdez, candidata à cirurgia, quanto seus familiares tenham expectativas realistas sobre o IC, “sobre o que se pode esperar dele e sobre todo o empenho necessário para que se chegue a um resultado satisfatório”. No caso de pacientes adultos, é fundamental que estes já tenham feito uso de aparelhos auditivos e de terapias auditivas “com um bom desempenho em leitura labial” (Kozlowski, 1997, p. 22).
Feito esse breve empreendimento sobre o implante coclear, passemos à análise do nosso material, começando por explicitar os procedimentos metodológicos que regem o presente trabalho.
3. Procedimentos Metodológicos
O presente trabalho foi realizado como um estudo de caso que, segundo Yin (2001), é um método útil para explorar fenômenos complexos e contextuais. Esse método permite a coleta de dados qualitativos e quantitativos de várias fontes como entrevistas, observações diretas, documentos e artefatos físicos. A partir do objetivo geral traçado, a saber: analisar a percepção sobre a participação e interação de um surdo implantado e usuário da Língua de Sinais dentro do meio social ouvinte, os procedimentos metodológicos foram executados e desenvolvidos com a realização de uma entrevista focalizada no tema, na observação de como o sujeito surdo implantado se identifica com o uso da língua (portuguesa e/ou de sinais) para a comunicação.
Sendo assim, realizamos uma entrevista semiestruturada com questionários através de diálogos, coletando informações visando compreender e mostrar como acontece dentro dessa realidade a vivência e interação de um surdo implantado, oralizado e usuário de língua de sinais, em suas relações interpessoais. A entrevista, aprovada pelo Comité de Ética em Pesquisa (CEP), foi realizada na residência do interlocutor. Esta abordagem foi escolhida para proporcionar um ambiente confortável e familiar ao participante, facilitando assim a expressão genuína de suas percepções e experiências.
O foco principal da conversação foi analisar a percepção do entrevistado sobre sua participação e interação no meio social ouvinte. Buscou-se entender como o uso do implante coclear, aliado ao conhecimento e uso da Língua de Sinais, influencia a inserção e integração do sujeito na comunidade ouvinte, bem como identificar os desafios e facilidade encontrados nesse processo. A entrevista, como já dissemos, foi conduzida de maneira semiestruturada, permitindo flexibilidade nas perguntas e possibilitando uma exploração aprofundada dos tópicos relevantes ao tema do estudo. A análise dos dados foi conduzida à luz do aporte teórico-metodológico da Análise de Discurso materialista (Pêcheux, 2014; Orlandi, 2015). Deste modo, procuramos compreender a fala do entrevistado não apenas como um relato individual, mas como enunciados atravessados por ideologias e produzidos em um determinado lugar e sob determinadas condições de produção.
4. Análise e discussão dos resultados
A análise dessas respostas foi conduzida de forma a correlacionar as percepções individuais do entrevistado com as teorias existentes na área de Estudos Surdos, sobre a participação e interação de surdos implantados no meio social. Os quadros 1, 2, 3 e 4 foram elaborados para organizar e sintetizar as respostas, facilitando a visualização e compreensão dos dados coletados. Durante a análise, foram feitas comparações entre as respostas do entrevistado e os pressupostos teóricos dos Estudos Surdos permitindo identificar convergências e divergências, bem como enriquecer a discussão sobre a integração de surdos usuários de implante coclear e da Língua de Sinais na comunidade ouvinte.
4.1. Dados sobre o entrevistado
Foi diagnosticado com perda auditiva sensorioneural de grau profundo quando tinha 1 ano e dois meses. Aos 4 anos, passou a usar o implante coclear da marca Freedom, com a cirurgia tendo sido realizada em Ribeirão Preto, SP, o que lhe permitiu desenvolver habilidades auditivas e de fala, possibilitando sua inserção na comunidade ouvinte. Como sabemos, mediante a literatura acerca do IC, para que seja considerado candidato à cirurgia de IC é preciso que a pessoa tenha, como é o caso do sujeito de nossa pesquisa, uma perda auditiva bilateral do tipo neurossensorial de grau severo-profundo. Além disso, a idade em que o procedimento é realizado também é muito importante, pois quanto mais cedo for feito o procedimento, maiores são as chances de ganho com o uso do IC.
4.2. Histórico linguístico
Como vimos, no quadro anterior, o sujeito de nossa pesquisa foi submetido à cirurgia de IC na idade de 4 anos e somente aos 6 anos começou adquirir a aquisição da língua oral. O que corrobora com a afirmação de Lobato (2014, p. 89) quando esta afirma que “o implante coclear é um processo gradual e lento, leva anos para se ter uma audição razoavelmente próxima da audição de um ouvinte [e exige deste] força de vontade para (re)aprender os sons, sendo obrigatório uma reabilitação fonoaudiologia constante”.
Quando perguntado sobre com qual língua ele possui mais identificação para se comunicar e o porquê, o entrevistado afirma que prefere fazer uso da língua de sinais por considerá-la “mais fácil, muito fácil”, em contrapartida ao uso da língua oral. Mesmo sendo um surdo implantado há mais de 10 anos, o entrevistado afirma que ainda possui dificuldades em estabelecer e manter uma conversa utilizando-se da língua oral, pois em suas palavras, “fala não consigo comunicar, difícil conversa”. Ainda segundo o entrevistado, o uso da língua oral é ainda mais complicado quando ele se depara com palavras que desconhece.
É, em contrapartida, pelo uso da Libras que ele busca a compreensão dessas palavras que desconhece (“Melhor mais fácil libras, melhor pra entender.”). Strobel (2015, p. 53) afirma que “a língua de sinais é uma das principais marcas da identidade de um povo surdo, pois [...] capta as experiências visuais dos sujeitos surdos e [...] proporciona-lhe a aquisição do conhecimento”. Nessa mesma direção muitos outros teóricos da área da surdez, entre eles Rezende (2012), em sua crítica ao uso do IC, defenderão o uso da língua de sinais como língua natural da pessoa surda e como suficiente para o desenvolvimento cognitivo e sociocultural das pessoas surda, não havendo necessidade, nesse sentido, para o aprendizado da língua oral.
Numa perspectiva discursiva, Orlandi (2013) ao tratar sobre o processo de ensino e aprendizagem de língua, ressalta que a aprendizagem só é possível quando há a inscrição do sujeito no processo histórico. Para a autora, “aquilo que não faz sentido na história do sujeito ou na história da língua para o sujeito não ‘cola’, não ‘adere’. [...] Aquilo que não faz sentido para ele, não faz sentido em sua história. Logo está fora de seu discurso” (Orlandi, 2013, p. 29). E fora, não significa no exterior, mas excluído, apagado, silenciado.
Por essa compreensão, e a partir do enunciado produzido pelo entrevistado, é possível afirmar que o fato de um surdo ter sido submetido à cirurgia de implante coclear e à oralização desde jovem não garante que a língua oral se integre, de forma natural, à sua trajetória histórica e identitária. Em outras palavras, o sentido e a compreensão desses sujeitos podem permanecer vinculados a dimensões visuespaciais, e a Libras continuar a ser a língua que reflete suas experiências, sua visão de mundo e sua participação na sociedade. Dessa forma, o aprendizado da língua oral não se configura como um elemento natural ou essencial para seu desenvolvimento cognitivo e sociocultural, mesmo após a cirurgia de implante coclear.
4.3. Uso e experiência com o implante coclear
No que concerne ao uso e experiência com o implante coclear pelo sujeito entrevistado, iniciamos questionando-o sobre como foi a decisão de optar pelo uso do implante. Considerando que quando da cirurgia o entrevistado tinha a idade de 4 anos, esperávamos que ele relatasse alguma história contada por sua família sobre essa questão. Embora a resposta obtida não tenha seguido por essa direção, ela é muito rica à nossa pesquisa. Em sua resposta, o candidato salienta que o IC é muito bom, pois lhe permite compreender as pessoas. Ressalta ainda sua diferença em relação àqueles surdos não usuários de IC: “Pessoas não tem aparelho, fica calado é ruim, então colocar aparelho fica mais alegre e bom, mas tira aparelho ruim na hora de chamar e não ouvir, bom não. Agora colocar aparelho é bom, conversar com família, amigos e algumas pessoas é bom.”.
Para analisarmos essa afirmação, faz-se necessário, ainda que brevemente, discutir sobre a ideologia. Althusser (1985) entende a ideologia como a representação do imaginário que os indivíduos assumem em relação às suas reais condições de existência. Para ele, “uma ideologia existe sempre em um aparelho [ideológico de Estado] e em sua prática ou práticas.” (Althusser, 1985, p.89). Sobre essa questão, Orlandi (2015) afirma que enquanto sujeitos, estamos condicionados a uma determinada ideologia que determina as escolhas que fazemos, tenhamos nós consciência ou não disso. É por esse entendimento que a referida autora nos esclarece que há em todo discurso que produzimos, outros discursos, enunciados antes, em outro momento, que preexiste ao sujeito.
Ainda sobre essa questão da ideologia, Pêcheux (2014) dirá que é pela instalação dos aparelhos ideológicos de Estado que a ideologia se realiza e se torna dominante. Retornando agora à análise da afirmação do entrevistado, entendemos que há nesse enunciado a presença do que Skliar (2010) chamou de política do ouvintismo. Trata-se, segundo esse autor, de representações dos ouvintes sobre a surdez e sobre os surdos que se caracteriza principalmente pela imposição do uso do método oral como único viável às pessoas com surdez. Nessa mesma linha, Rezende (2012), afirma que a escola, a família e a igreja, enquanto Aparelhos Ideológicos de Estado (AIE), se posicionam e enunciam a partir desse entendimento discursivo, isto é, da oralização como superior à sinalização.
Vimos na análise do quadro anterior, o entrevistado afirmar preferir à sinalização em detrimento da oralização por considerá-la mais fácil tanto para falar quanto para compreender. No entanto, no quadro que ora analisamos, o entrevistado reproduz um discurso inerente aos defensores do IC, como Pfeifer (2015) e Lobato (2014), autoras que já explicitamos em nosso referencial teórico.
Se no quadro anterior o entrevistado afirma “fala não consigo comunicar, difícil conversa. [...]Melhor mais fácil Libras, melhor pra entender.”, agora sua afirmação é “Pessoas não tem aparelho, fica calado é ruim, então colocar aparelho fica mais alegre e bom, [...] conversar com família, amigos e algumas pessoas é bom.”. A nosso ver, há nessa contradição (que poderíamos, numa perspectiva discursiva, chamar de equívoco), a explicitação de um discurso que vem de outro lugar (da família? da escola? dos amigos?) e que compreende o implante coclear como um elemento superior e garantidor da inclusão da pessoa surda. O trabalho de Lima (2018) dá robustez a esse movimento de análise que empreendemos. De acordo com esse autor,
há no discurso sobre o implante [...] uma retomada dos discursos de normalidade, da oralização, que, ao tempo em que desqualifica discursos contrários ao uso de tecnologias para a instituição de um sujeito semanticamente normal, coloca o uso do IC como única possibilidade do surdo se constituir como cidadão (Lima, 2018, p. 105).
Esse modo de significação do IC é também perceptível nas duas outras respostas, dada pelo entrevistado. Quando questionado sobre o modo como o IC afetou sua vida, ele afirma: Afetou nada, nenhum problema. Normal’’. Acreditamos que o entrevistado associou esse questionamento à aspectos negativos de uso do IC e, por isso, não se dedicou muito mais à questão. Como último questionamento desse tópico, perguntamos sobre as experiências positivas e os desafios encontrados no uso do implante coclear e obtivemos a seguinte resposta: “Tive muita experiência na minha vida lá fora, amigos, muitas conversas, comunicação sobre, experiência boa na vida, muito bom. Tive dificuldades quando uma pessoa começa falar rápido, oralizar rápido, não conseguia explicar e eu falava calma e as pessoas falavam rápidos e eu não entendia”.
Para Pêcheux (2014), os indivíduos são interpelados em sujeitos falantes de “seu” discurso pelas formações discursivas “que representam ‘na linguagem’ as formações ideológicas que lhes são correspondentes”. Dito de outro modo, o discurso materializa a ideologia e se constitui o lugar teórico em que se pode observar a relação da língua com a ideologia (Orlandi, 2015). No que concerne ao enunciado supracitado do entrevistado, vemos que mais uma vez a questão da socialização se sobrepõe. No modo como formula, parece que apenas utilizando-se do IC ele conseguirá conversar com os amigos e compartilhar experiências de sua vida. Fica apagado a possibilidade de uso da língua de sinais. Quanto às dificuldades, este cita apenas a questão da oralização mais rápida por parte dos ouvintes.
Não é mencionado pelo entrevistado a questão da necessidade de retirada do aparelho em diversas situações. De acordo com Capovilla (1998) as pessoas com IC devem evitar esportes de contato físico (futebol, basquete, voleibol etc.) já que uma pancada na cabeça pode fazer com que o implante deixe de funcionar. Além disso, ela deve remover todos os componentes externos antes do banho ou natação, e deve carregar sempre um conjunto extra de baterias, já que a autonomia das recarregáveis é de apenas de 10 a 12 horas de operação contínua.
4.4. Interação social
Como já mencionamos anteriormente, o IC não é a cura para a surdez e sua colocação não significa acesso imediato às habilidades da fala e do ouvir, já que, como salienta Rezende (2012), o implantado necessita de constantes e intensos tratamentos com fonoaudiólogos. É nessa esteira que se situa a resposta do entrevistado ao questionamento: como as pessoas reagem ao seu IC e a sua escolha pela comunicação bilíngue? Como se observa, a partir da resposta fornecida, o sujeito de nossa pesquisa é confundido com um estrangeiro, pois assim como eles que, de maneira geral, por não dominarem a língua portuguesa, apresentam uma fala arrastada e um pouco confusa de se compreender. Como bem salientou, não se trata de um estrangeiro, mas de um brasileiro que nasceu surdo. O entrevistado não se aprofundou na questão de ser usuário tanto da língua oral quanto da língua de sinais reforçando apenas que faz uso da fala (oral) e da Libras.
Quando questionado se já sofreu algum tipo de preconceito dos surdos ou dos ouvintes por ser uma pessoa implantada e como lida com diferentes atitudes e percepções em relação a sua surdez e ao uso do implante, o entrevistado não afirma categoricamente se sofreu ou não, mas evidencia que sentia vergonha em usar o aparelho, pois era constantemente questionado sobre o que ele era. Afirma ainda que muitos achavam o aparelho feio e estranho, ao que discorda: “isso é nada a ver, o aparelho é bonito, o aparelho precisa escutar”. Um ponto interessante a se observar acerca dessa afirmação é: o aparelho é esteticamente bonito ou o aparelho é bonito por possibilitar o acesso ao som? A que tipo de beleza ele está se referindo?
Inicialmente, a pesquisa foi planejada para incluir uma entrevista com um indivíduo surdo usuário de implante coclear, visando compreender sua perspectiva sobre a inserção na comunidade ouvinte. Contudo, durante a realização da entrevista, a mãe do participante decidiu tecer alguns comentários que se mostraram relevantes à essa pesquisa. As observações dela proporcionaram uma visão mais ampla e enriquecedora sobre as experiências e desafios enfrentados pelo sujeito, complementando e aprofundando as informações obtidas na entrevista original. Diante das respostas obtidas, a mãe do entrevistado afirma que quando o entrevistado começou a usar o implante coclear, foi porque ela queria que ele falasse e escutasse como ouvinte, e após a cirurgia de colocação da parte interna do dispositivo, foram surgindo desafios e dificuldades em questão da comunicação, da fala, da compreensão e outros.
Quando ela conheceu a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), pesquisou sobre a língua e decidiu que seu filho deveria aprendê-la e adquiri-la. Com isso, buscou acompanhamento especializado no CAS que é o Centro de Capacitação de Profissionais da Educação e Atendimento a Pessoas Com Surdez, para garantir que ele tivesse um desenvolvimento adequado na Libras. Durante todo o acompanhamento, ela percebeu que a Libras ajudou muito na vida do filho, pois o ajudou muito na sua oralização e na compreensão durante a comunicação e vivência com as pessoas. Ela afirma que o filho quando trabalhava somente com a oralização, era muito difícil as pessoas entenderem a forma que ele se comunicava, pois quem entendia de fato era a mãe e ela falava que no começo, o filho não gostava de sinalizar porque ele ainda era novo e não conhecia muito bem a Libras, então ela afirma que com o tempo ele foi se adaptando melhor com a Libras e foi através do acompanhamento e do aprendizado que ele passou a se aceitar e se encontrar como indivíduo.
5. Considerações Finais
O presente estudo teve como objetivo analisar a percepção de um surdo implantado, usuário tanto da Língua Portuguesa oral quanto da Língua Brasileira de Sinais (Libras), acerca de sua participação e interação no meio social. A partir da entrevista realizada, articulada com o suporte teórico dos Estudos Surdos e da Análise de Discurso Materialista, observou-se que o uso do implante coclear não implica, de forma automática, na integração plena do sujeito à comunidade ouvinte.
Os resultados indicaram que a Libras mantém papel central na trajetória identitária e sociocultural do entrevistado, funcionando como língua de referência para a construção de sentidos, ainda que a oralização também seja utilizada em determinados contextos. Dessa forma, o implante coclear e a oralização se apresentam como recursos complementares, mas não substituem a língua de sinais no processo de comunicação e desenvolvimento cognitivo do sujeito.
Também foi possível identificar tensões discursivas no relato do entrevistado, que alterna entre a valorização do implante e o reconhecimento das limitações da oralização, apontando para a complexidade da experiência de surdos implantados. Essa dualidade evidencia que a relação entre IC, oralização e Libras não se configura de maneira linear, mas resulta de múltiplos atravessamentos históricos, sociais e culturais.
Conclui-se, portanto, que a Libras constitui elemento fundamental na experiência linguística e social do sujeito pesquisado, inclusive em situações em que há o uso do implante coclear. Os achados contribuem para a compreensão das práticas de interação de surdos usuários de IC, oferecendo subsídios para discussões no campo da educação, da saúde e dos estudos da linguagem, ao evidenciar a necessidade de considerar a diversidade das experiências comunicativas e identitárias de pessoas surdas.
Referências
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Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo


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