Resumo
O setor farmacêutico atingiu receitas globais de US$ 1,6 trilhão em 2023, evidenciando seu vasto poder econômico e sua influência estratégica na economia e política contemporâneas. Este artigo, baseado em uma ampla coleta, sistematização e análise de dados, examina as dinâmicas desse poder e influência. São discutidos o valor econômico (e político) das empresas do setor, as disputas entre corporações e nações atuantes, o papel geopolítico desempenhado durante a pandemia de covid-19 e a capacidade do setor de influenciar políticas internas por meio da intensa interação e financiamento de legisladores, bem como de órgãos de fiscalização e regulamentação.
Palavras-chave:
indústria farmacêutica; influência; economia; embates; política
Abstract
The pharmaceutical sector reached global revenues of USD 1.6 trillion in 2023, highlighting its vast economic power and strategic influence on contemporary economics and politics. This article, based on extensive data collection, systematization, and analysis, examines the dynamics of this power and influence. It discusses the economic (and political) value of companies in the sector, the disputes among corporations and nations involved, the geopolitical role played during the COVID-19 pandemic, and the sector's ability to influence domestic policies through intense interaction and financing of legislators, as well as regulatory and oversight agencies.
Keywords:
pharmaceutical industry; influence; economy; conflicts; politics
Resumen
El sector farmacéutico alcanzó ingresos globales de 1,6 billones de dólares en 2023, evidenciando su vasto poder económico y su influencia estratégica en la economía y la política contemporáneas. Este artículo, basado en una amplia recolección, sistematización y análisis de datos, examina las dinámicas de dicho poder e influencia. Se discuten el valor económico (y político) de las empresas del sector, las disputas entre corporaciones y naciones involucradas, el papel geopolítico desempeñado durante la pandemia de covid-19 y la capacidad del sector para influir en políticas internas mediante la intensa interacción y el financiamiento de legisladores, así como de órganos de fiscalización y regulación.
Palabras clave:
industria farmacéutica; influencia; economía; enfrentamientos; política
Introdução
Desde a descoberta da penicilina por Alexander Fleming em 1928, marco que introduziu o primeiro antibiótico da humanidade, a indústria farmacêutica experimentou uma expansão expressiva, consolidando-se como um dos setores mais relevantes e influentes da economia global (Stacciarini, 2024). Ao longo de quase um século, as empresas do setor transformaram-se profundamente, passando de pequenas organizações, frequentemente administradas por famílias e com atuação local (ACS, 2005), para conglomerados multinacionais avaliados em centenas de bilhões de dólares (Forbes, 2023), exercendo impacto e influência em escala global.
Esta transformação é resultado tanto de avanços científicos, que ampliaram nossa compreensão sobre a fisiologia humana, a patogênese das doenças e o desenvolvimento de novos fármacos (Pina, 2009), quanto de mudanças socioeconômicas que fomentaram a procura por medicamentos (OECD, 2021). Dinâmicas como a urbanização rápida, o crescimento industrial, o aumento da renda per capita, a expansão do acesso a sistemas de saúde eficientes, a melhoria nos níveis de educação e o envelhecimento populacional têm intensificado a dependência da sociedade por medicamentos (Tannoury; Attieh, 2017). Atualmente, a indústria farmacêutica engloba uma cadeia de valor complexa e abrangente, que vai da pesquisa e desenvolvimento à comercialização e regulamentação de produtos (Citeline, 2022). Essa gama inclui desde antibióticos tradicionais e baratos, cujas composições quase não se alteraram ao longo do século XX, até terapias genéticas inovadoras e estratégias de tratamento personalizado, que são realizadas a custos significativamente altos.
Ancorado nesta significativa expansão, o setor farmacêutico atualmente movimenta US$ 1,48 trilhões, posicionando-o como um dos maiores da economia mundial (Statista, 2023a). As principais empresas do segmento, avaliadas em centenas de bilhões de dólares e operando em uma escala global (Forbes, 2023), transformaram-se em importantes ativos econômicos para seus países de origem, com a capacidade de gerar capital em uma escala planetária. Além do seu robusto impacto econômico, a importância estratégica do setor - afinal, promoção da saúde está intrinsecamente ligada ao desenvolvimento econômico e social - eleva estas companhias a atores geopolíticos influentes (Kapczynski, 2022), capazes de moldar dinâmicas internacionais, movimento que ficou particularmente evidente durante a crise da Covid-19 (Mello-Théry; Théry, 2020; Damas, 2021).
Dada a sua proeminência no panorama econômico e político global, o setor farmacêutico tem sido palco de intensas disputas entre empresas e nações, como será apresentado neste trabalho. Historicamente companhias dos Estados Unidos e da Europa têm dominado este campo, seguidas por corporações do Japão (Forbes, 2023). No entanto, em uma tendência emergente e ascendente (Jakovljevic et al., 2021), empresas asiáticas, particularmente da China, têm ampliado sua participação. Essa dinâmica, reflete, em parte, a atual distribuição do poder econômico global, em que as três principais economias - Estados Unidos (24,2%), China (18,4%) e União Europeia (17,8%) - concentram aproximadamente 60,4% dos US$ 96,5 trilhões do PIB global anual (WB, 2023), evidenciando que o setor farmacêutico é estratégico as nações mais ricas do planeta.
Assim, este trabalho investigará o tamanho, poder, disputas e geopolítica no setor farmacêutico. Será discutido o expressivo crescimento do setor nas últimas décadas, abordando a distribuição, regionalização e concentração das principais empresas, suas nacionalidades, valores de mercado, ativos, vendas e lucros. A competição entre diferentes empresas e nações no campo de pesquisa e desenvolvimento (P&D) farmacêutico será analisada, enfatizando a distribuição por nacionalidade das empresas engajadas em P&D e a regionalização das aprovações de novas entidades químicas e biológicas. Também será realizada uma análise geopolítica do setor, levando em conta o contexto da pandemia de covid-19. E por fim, pautado no exemplo dos Estados Unidos, será apresentada uma análise de como grandes companhias do setor farmacêutico podem exercer influência na política interna de determinada nação.
Metodologia
Esta investigação científica adota uma abordagem metodológica abrangente, integrando coleta, tabulação e análise de dados e informações com o propósito de investigar "Poder, disputas e geopolítica no setor farmacêutico". Inicialmente, o estudo concentrou-se na quantificação do tamanho, complexidade e influência deste setor, recorrendo a dados da Statista (2023a), uma respeitada instituição alemã especializada em estatísticas, para demonstrar o crescimento do setor nas últimas décadas. Paralelamente, informações do relatório "World's Largest Public Companies" da Forbes (2023) contribuíram para delinear o perfil econômico das empresas farmacêuticas, cobrindo aspectos como valor de mercado, ativos, receitas e lucros. Dados do Banco Mundial (WB, 2023) foram utilizados para comparar o Produto Interno Bruto (PIB) de países e blocos econômicos com os indicadores financeiros dessas companhias.
Além das fontes mencionadas, a análise sobre as competições internas no setor também incluiu informações do relatório "Pharma R&D: annual review 2022" da Pharma Intelligence (Citeline, 2022), que detalha aspectos da Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) de produtos farmacêuticos, como os investimentos globais e a distribuição geográfica das empresas líderes. De forma complementar, o relatório “The Pharmaceutical Industry in Figures” da EFPIA (2022) ofereceu dados e insights sobre a evolução e regionalização das aprovações de “novas entidades químicas e biológicas”.
A pesquisa também se baseou em informações da “Global Commission for Post Pandemic Policy” (GCPPP, 2021) para abordar a geopolítica e o poder do setor durante a pandemia de Covid-19. Esta fonte multidisciplinar forneceu dados importantes sobre a produção de vacinas, destacando a distribuição por empresas e países no ápice da pandemia.
A investigação sobre o montante destinado a atividades de lobby e doações eleitorais nos Estados Unidos foi realizada utilizando-se o banco de dados do OpenSecrets (2023), principal organização de pesquisa que monitora o fluxo de dinheiro na política do país, possibilitando uma análise crítica da influência do setor farmacêutico nas políticas internas dos países.
A metodologia também se beneficiou do diálogo constante com um leque diversificado de fontes bibliográficas científicas, desde periódicos de renome internacional, como o JAMA e o BMJ, até publicações regionais, essenciais para sustentar discussões sobre "Poder, Disputas e Geopolítica no Setor Farmacêutico".
Tamanho, complexidades e poder no setor farmacêutico
Nas últimas décadas, o setor farmacêutico vem crescendo expressivamente. Uma consulta ao banco de dados da consultoria Statista (2023a) revela que as receitas do setor quase quadruplicaram, saltando de US$ 390 bilhões em 2001 para US$ 1,48 trilhões em 2022. Para se ter uma ideia, apenas treze dos 207 países e territórios avaliados pelo Banco Mundial (WB, 2023) possuem um Produto Interno Bruto (PIB) - soma de todos os bens e serviços finais produzidos dentro das fronteiras desse país durante um determinado período, geralmente um ano - superior ao montante arrecadado em receitas pelo mercado farmacêutico em escala global.
O setor é historicamente caracterizado por uma estrutura oligopolista, onde um pequeno grupo de empresas líderes detém um controle significativo. Esse domínio pode ser atribuído a diversos fatores, incluindo o alto custo necessário para pesquisa, desenvolvimento, produção e marketing de novos produtos farmacêuticos (DiMasi et al., 2016). Estes custos elevados criam barreiras significativas à entrada de empresas com menor capitalização. Adicionalmente, as patentes concedem às companhias detentoras um período de proteção contra a concorrência, possibilitando a manutenção de preços mais altos sem o risco de perder participação de mercado para novos entrantes (Kesselheim et al., 2017). Além disso, as empresas pioneiras no setor se beneficiaram de um ambiente regulatório menos desenvolvido, facilitando a obtenção de lucros significativos e uma rápida expansão global (Malerba; Orsenigo, 2015).
O setor farmacêutico é também caracterizado por uma série contínua de fusões e aquisições, resultando em um aumento constante do capital e da influência das principais companhias. Em 2022, por exemplo, foram registradas 784 fusões e aquisições no setor em escala global, alcançando um valor total de US$ 126 bilhões. Cerca de metade desse montante foi atribuída às dez maiores transações (GlobalData, 2023).
Assim, embora existam milhares de empresas atuando no ramo farmacêutico, um grupo muito seleto domina uma parcela significativa do mercado (Statista, 2022a; Statista, 2023b) e mantém um certo grau de controle, como evidenciado na tabulação das informações financeiras das quarenta e quatro maiores companhias farmacêuticas do mundo, realizada por meio da coleta de dados do relatório "World's Largest Public Companies", organizado pela Forbes (2023).
Os números tabulados revelam que as quarenta e quatro maiores empresas do setor farmacêutico acumulam um valor de mercado de US$ 3,9 trilhões, evidenciando sua significativa influência na econômia mundial. Através de análises comparativas com os dados econômicos fornecidos pelo Banco Mundial (WB, 2023), observa-se que o valor de mercado combinado dessas corporações supera o Produto Interno Bruto (PIB) anual da maioria dos países, com exceção dos Estados Unidos, China, Japão e Alemanha. Adicionalmente, seus US$ 2,3 trilhões em ativos ultrapassam o PIB somado dos quarenta e oito países da África Subsaariana (WB, 2023). No cenário individual, a Johnson & Johnson, a companhia mais valiosa com uma capitalização de mercado de US$ 477,4 bilhões, supera sozinha o PIB de 184 nações.
A análise dos dados também destaca a predominância dos Estados Unidos no cenário global das grandes farmacêuticas. Com 15 companhias (listadas no Quadro 1), o setor farmacêutico norte-americano lidera com um valor de mercado combinado de aproximadamente US$ 2,16 trilhões. A União Europeia ocupa a segunda posição, com nove empresas avaliadas em cerca de US$ 1,3 trilhões. O Japão, com cinco empresas totalizando US$ 152,6 bilhões em valor de mercado e a China, com nove farmacêuticas avaliadas em US$ 144,4 bilhões, seguem em terceiro e quarto lugar, todavia a uma diferença significativa em relação aos líderes.
Nacionalidade, valor de mercado, ativos, vendas e lucro das 44 maiores farmacêuticas do planeta em 2022.
Os números refletem que, mais do que serem apenas indústrias valiosas, essas grandes corporações do setor farmacêutico são ativos econômicos poderosos para seus países de origem (Lakdawalla, 2018), capazes de (re)produzir capitais em escala global e gerar grandes dividendos. Ademais, devido à sua natureza estratégica - uma vez que a produção e o acesso a medicamentos estão diretamente ligados ao desenvolvimento econômico e social (OECD, 2021) -, estas empresas elevam-se à condição de atores geopolíticos influentes (Kapczynski, 2022).
Como, em nossa estrutura de governança global, economia e política frequentemente caminham juntas (Salamon; Siegfried, 1977; Wilks, 2013), não é exagero pensar que os trilhões de dólares dessas companhias e a importância vital de seus produtos na vida dos seres humanos lhes conferem poder por meio de diferentes formas de pressão e decisão em todo o planeta (Abraham, 2002; Kapczynski, 2022). Essa combinação de fatores torna o setor permeado por disputas, como será explorado no tópico seguinte.
Disputas no setor farmacêutico
Dada sua importância no panorama econômico, social e político global, o setor farmacêutico tem sido palco de intensas disputas entre empresas e nações. Além da competição por valor de mercado, ativos, receitas e lucros, como já apresentado no tópico anterior (ver Quadro 1), as companhias farmacêuticas também competem na área de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), pleiteando a liderança na descoberta e introdução de novas drogas no mercado.
Devido à sua natureza dinâmica e à constante demanda por inovação, o setor farmacêutico sempre esteve entre os maiores investidores em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). Segundo dados da Statista (2022b), esse cenário intensificou-se ainda mais com a pandemia da Covid-19 em 2021, período no qual o investimento global em P&D farmacêutico alcançou aproximadamente 238 bilhões de dólares. Esse valor representa um aumento de 74% em relação a 2012, posicionando o setor farmacêutico como o segundo maior investidor em P&D, atrás somente da indústria de software.
Desenvolver um novo medicamento é um processo complexo e oneroso, podendo levar anos e exigir investimentos de milhões ou até bilhões de dólares (Dimasi et al., 2016). Por outro lado, as drogas que alcançam sucesso comercial, conhecidas como "blockbuster drugs", podem gerar receitas superiores a um bilhão de dólares anuais para as empresas que as desenvolvem. Assim, a exemplo dos rankings das maiores empresas farmacêuticas apresentados no Quadro 1, Estados Unidos, Europa, Japão e China também competem em termos de número de indústrias dedicadas à pesquisa e ao desenvolvimento de novos medicamentos, conforme ilustrado no gráfico 1.
Distribuição por nacionalidade das empresas engajadas em pesquisa e desenvolvimento (P&D) farmacêutico em 2022.
A análise dos dados coletados no relatório “Pharma R&D: annual review 2022” da plataforma britânica Pharma Intelligence, revela que aproximadamente 5,4 mil empresas farmacêuticas estavam engajadas em atividades de P&D ao redor do mundo em 2022. O número é 4,5 vezes maior do que em 2001 (Citeline, 2022). Deste total, 44% das empresas eram dos Estados Unidos, 23% da Europa, 12% da China e 3% do Japão.
Apesar do contínuo avanço da China no segmento de pesquisa e desenvolvimento (P&D) farmacêutico - com um aumento na participação crescendo de 7% em 2019, para 8% em 2020, 9% em 2021 e 12% em 2022 -, os países com o maior número de empresas investido em P&D ainda são as tradicionais potências farmacêuticas globais, especialmente Estados Unidos e Europa.
Outra maneira importante de avaliar esta disputa é observar as empresas com o maior número de produtos farmacêuticos em pesquisa e desenvolvimento (P&D). Entre as vinte e cinco principais empresas, destacadas no Quadro 2, dez são dos Estados Unidos, totalizando 1.203 produtos farmacêuticos em P&D. Apesar de ocuparem as duas primeiras colocações do ranking, as empresas europeias seguem em segundo lugar, com sete representantes somando 1.069 produtos farmacêuticos. O Japão ocupa a terceira colocação, com seis empresas responsáveis por 573 produtos em P&D farmacêutico. Enquanto isso, a China apresenta duas companhias com um total de 157 produtos em estágio de P&D.
Principais companhias e o número de produtos farmacêuticos em fase de pesquisa e desenvolvimento (P&D), por nacionalidade
Esta competição entre os quatro principais atores do setor farmacêutico também se manifesta no número de aprovações de "novas entidades químicas e biológicas" - compostos farmacêuticos que apresentam propriedades inéditas em comparação com as moléculas já disponíveis no mercado (Branch; Agranat, 2014).
A análise dos dados, recolhidos através da "The European Federation of Pharmaceutical Industries and Associations" (EFPIA, 2022), revela que os Estados Unidos e a Europa continuam na vanguarda nesse aspecto (gráfico 2). Embora a categoria "outros" tenha ultrapassado o Japão nos últimos dois levantamentos, o país ainda apresenta um volume significativo e crescente de inovações. Já este aumento na categoria "outros" é principalmente impulsionado pela China, que em 2021 aprovou 18 novas entidades químicas e biológicas, apenas uma a menos que o total aprovado na Europa. Os Estados Unidos, por sua vez, mantêm uma liderança considerável, com 35 novas entidades aprovadas no mesmo período.
Crescimento e regionalização das aprovações de novas entidades químicas e biológicas entre 2002 e 2021.
Os números apresentados em torno das disputas por espaço e protagonismo no setor farmacêutico é reflexo de uma longa história de domínio por parte dos Estados Unidos, Europa e Japão no setor farmacêutico mundial (Malerba; Orsenigo, 2015; Stacciarini, 2023), que agora conta também com a China como importante competidor. Em busca de fatias deste mercado e competividade, empresas de países emergentes, principalmente da Ásia, começam a buscar espaço no cenário internacional (Jakovljevic et al., 2021), como fica evidenciado na presença de três farmacêuticas de Hong Kong e uma da Índia listadas no Quadro 1 (além das nove instituições chinesas já apresentadas nos tópicos anteriores).
No caso da China, seu expressivo crescimento deve-se, em parte, ao consistente apoio governamental e ao significativo investimento em infraestrutura, matéria-prima, tecnologia, pesquisa e desenvolvimento (P&D) (Yu, 2019; Xu et al., 2020; DCB, 2022), além de uma demanda interna extremamente robusta, impulsionada por uma população de 1,46 bilhões de habitantes - mais que todos os habitantes dos países do continente americano e da União Europeia combinados (WB, 2023).
Esses fatores contribuíram para que o país atingisse atualmente cerca de 5 mil indústrias farmacêuticas (Statista, 2022c). Ainda que muitas dessas indústrias se concentrem na produção de medicamentos genéricos de baixo custo, algumas farmacêuticas chinesas ampliaram seus portfólios em escala e qualidade nas últimas décadas, ganhando destaque internacional, inclusive com a inovação de medicamentos de alto valor agregado (DCB, 2022). Esta transformação é marcada pelo aumento expressivo no número de novas drogas em desenvolvimento no país, que cresceu de 95 em 2007 para 3.111 em 2021 (Parexel, 2022). Além disso, a China se estabeleceu como a maior produtora mundial de Ingredientes Farmacêuticos Ativos (IFAs), substâncias essenciais para os efeitos terapêuticos dos medicamentos (Nishino et al., 2022).
Apesar de ter apenas uma empresa farmacêutica listada no Quadro 1, a Índia também vem sendo reconhecida por sua expansão no setor farmacêutico (Akhtar, 2013). O país já abriga mais de 3 mil empresas farmacêuticas e aproximadamente 10,5 mil unidades de produção (IBEF, 2023). Com mais de 60 mil marcas abrangendo mais de sessenta categorias terapêuticas (Invest India, 2020), a Índia se posiciona como o terceiro maior produtor mundial de medicamentos em volume, ocupando a 14ª posição em valor de mercado. Essa distinção enfatiza o papel da Índia como fornecedor principal de medicamentos genéricos de baixo custo em larga escala (IBEF, 2023), especialmente para nações de baixa renda, o que lhe conferiu a alcunha de "farmácia do mundo".
Além do crescimento das indústrias nacionais (Dorocki, 2014), países emergentes - especialmente China e Índia - emergiram como territórios propícios para a terceirização farmacêutica (Mohiuddin et al., 2017), diante do aumento dos custos de produção, pesquisa e desenvolvimento farmacológico em nações desenvolvidas. Essa tendência deve-se à oferta de mão de obra acessível, à expansão da força de trabalho qualificada e aos mercados consumidores em ascensão, além do empenho de seus governos em (re)estruturar políticas e regulações que beneficiam as empresas farmacêuticas multinacionais (Kamiike, 2019).
Poder, disputa e geopolítica no setor farmacêutico em meio a pandemia de covid19
Impulsionado significativamente pela crise sanitária global desencadeada pela pandemia de Covid-19 em 2020, que "abalou" infraestruturas produtivas, econômicas e sociais (Castilho, 2020; Chaveiro; Gonçalves, 2020; Stacciarini, 2023), o setor farmacêutico experimentou um acirramento da competição por destaque, poder e influência. As companhias farmacêuticas emergiram como atores de crescente valor, estando no centro das estratégias geopolíticas e governamentais de seus países de origem (Mello-Théry e Théry, 2020; Damas, 2021; Souza; Guimarães, 2021).
Embora a China tenha enfrentado severas críticas no início por sua gestão da Covid-19, especialmente por ser o epicentro da pandemia, a nação soube capitalizar sua robusta indústria farmacêutica, força de trabalho de baixo custo e capacidade produtiva significativa para intensificar uma tática conhecida como "diplomacia da saúde" (Fazal, 2020). Com o objetivo de cultivar uma percepção positiva e criar oportunidades para ampliar sua influência geopolítica (Lee, 2021), a China empenhou-se em fornecer assistência médica internacional, distribuindo milhões de máscaras, kits de teste, equipamentos de proteção individual, medicamentos e diversos outros insumos para várias regiões, em especial para a Ásia Central, África, América Latina e Leste Europeu (Gauttam et al., 2020).
No final de 2020 e início de 2021, diversas corporações anunciaram o lançamento das primeiras vacinas contra a Covid-19, tornando-se recursos altamente disputados por líderes mundiais. Essas vacinas foram desenvolvidas em prazos notavelmente curtos, e as empresas farmacêuticas dos países líderes no setor - como Pfizer e Moderna, dos Estados Unidos; AstraZeneca e BioNTech, da Europa; além de Sinovac e Sinopharm, da China - emergiram à frente (gráfico 3), desempenhando papéis fundamentais na produção e distribuição de vacinas em massa e acirrando a competição por mercados, receitas e influência global.
Empresas farmacêuticas líderes em volume de produção de vacinas contra a Covid-19 até agosto de 2021.
Como é típico em cenários geopolíticos, a competição pela inovação e fabricação de vacinas em larga escala foi marcada por tensões e debates sobre sua qualidade e eficácia (Damas, 2021). As vacinas desenvolvidas pela China, em particular, foram consideradas por muitos, especialmente em nações desenvolvidas, como menos eficazes. No entanto, destacaram-se em termos de volume, com mais de 2 bilhões de doses produzidas até agosto de 2021 (gráfico 2).
Com a mediação do governo, fabricantes chineses destinaram uma parcela desses imunizantes aos mercados de países em desenvolvimento (Lee, 2021), especialmente na Ásia, África e América Latina. Esta iniciativa não apenas reforçou as tendências geopolíticas e geoeconômicas já observadas em outras formas de parcerias estratégicas do país asiático - como comércio, finanças e infraestrutura (Senhoras, 2021) - mas também se notabilizou pela sua magnitude e agilidade. Conforme Liu et al. (2022) destacam, embora a "diplomacia da vacina" não seja um fenômeno novo, a escala e a velocidade de implementação dessa estratégia pela China representaram um marco sem precedentes em termos de quantidade e tempo.
No contexto de acirradas competições e conflitos narrativos, a influência geopolítica do governo dos Estados Unidos e de suas corporações sofreu limitações. Essa redução de influência pode ser atribuída a vários fatores, como o modelo de mercado mais liberal e a menor intervenção governamental em comparação com a estratégia adotada pela China. Além disso, dilemas ideológicos internos, destacados pela postura negacionista do então presidente Donald Trump e sua política populista de "America First", que priorizava demandas nacionais em detrimento de uma cooperação mais extensa durante a crise sanitária global e buscava beneficiar primordialmente os Estados Unidos e seus aliados imediatos, restringiram a capacidade de distribuir vacinas e outros recursos essenciais (Mccarthy, 2020; Hornsey et al., 2020).
A pandemia de COVID-19 também revelou uma vulnerabilidade crítica na atuação geopolítica dos Estados Unidos e das principais nações europeias no que tange à diplomacia da saúde: a acentuada dependência de insumos e da capacidade produtiva na indústria farmacêutica, especialmente em relação à China e à Índia. Um exemplo notável foi a vacina Oxford/AstraZeneca, cujo desenvolvimento ocorreu no Reino Unido, mas sua produção foi distribuída por nove países diferentes. Destes, Índia (responsável por 58,8% da produção) e China (com 9,3%) juntas concentraram mais de dois terços do volume total de produção (GCPPP, 2021).
Como consequência, até o fim do primeiro semestre de 2021, um período ainda crítico da pandemia, a China havia produzido 2,5 vezes mais doses de vacinas que a União Europeia e 4,6 vezes mais que os Estados Unidos (gráfico 4). A Índia, seguindo essa tendência, também superou a produção dos Estados Unidos, destacando a centralidade desses países na produção e fornecimento global de vacinas.
Investimentos anuais em lobby empreendidos pela “indústria farmacêutica e de produtos de saúde nos Estados Unidos (1998-2022).
Para Girón (2022), a pandemia destacou o aumento da rentabilidade no setor farmacêutico, intensificou a financeirização de suas indústrias e exacerbou as disparidades entre nações ricas e pobres em relação ao acesso a medicamentos vitais. Nesse cenário de falta de solidariedade global e acesso desigual a vacinas, o que acentuou a divisão entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, China e Índia aproveitaram sua extensa capacidade de produção para fortalecer laços geopolíticos, com um destaque especial para as cooperações Sul-Sul (Apolinário-Júnior et al., 2022).
Enquanto a China tomou a dianteira em termos do volume de doses fornecidas e de interações diplomáticas (Liu et al., 2022), a Índia procurou equilibrar esta dinâmica, ainda que em um espectro mais regional (Ásia), por meio da iniciativa "Vaccine Maitri" (Iniciativa de Amizade da Vacina), visando reforçar laços com países vizinhos e parceiros estratégicos (Bharti; Bharti, 2021; Mol et al., 2021).
A Influência política do setor farmacêutico
Além da dinâmica na geopolítica internacional, as indústrias farmacêuticas também têm forte influência na política interna de alguns países, influenciando legisladores e governos (OpenSecrets, 2023), órgãos de fiscalização e regulamentação (Hayes; Prasad, 2018) e até mesmo o sistema judiciário (Kapczynski, 2022).
Nos Estados Unidos, por exemplo, onde a prática de lobby - profissionais especializados em debater e influenciar os legisladores - é regulamentada e existem dados disponíveis para análise, a "indústria farmacêutica e de produtos de saúde" é o setor que mais investe em despesas com lobby, com um investimento 60% maior que o segundo colocado, a "indústria de seguros" (OpenSecrets, 2023). A tabulação e análise de dados do repositório OpenSecrets (2023), principal grupo de pesquisa que rastreia o dinheiro na política dos Estados Unidos, revela que entre 1998 e 2022, os investimentos na atividade aumentaram 436%, passando de US$ 69,6 milhões, para alcançar US$ 373,7 milhões, com o montante total atingindo US$ 5,45 bilhões no período.
Além do lobby, a indústria farmacêutica utiliza seu poder econômico para financiar campanhas eleitorais. Congressistas dos Estados Unidos receberam US$ 292,5 milhões em doações destas companhias entre 1990 e 2020 (OpenSecrets, 2023). Já para o Executivo Federal (candidatos que disputam a presidência do país), foram repassados US$ 51 milhões nos últimos quatro ciclos eleitorais (OpenSecrets, 2023).
Em um estudo semelhante, Wouters (2020) observou que as doações do setor para candidatos e comitês estaduais foram ainda mais expressivas, somando um total de US$ 877 milhões de 1999 a 2018. Segundo o autor, os repasses cresceram em períodos de debates e referendos sobre a regulamentação e custos de medicamentos. No ciclo eleitoral de 2020, ao menos 2.467 legisladores estaduais, representando mais de um terço do total nos Estados Unidos, receberam apoio financeiro da indústria farmacêutica para suas campanhas (Facher, 2021).
Ademais, legisladores atuantes em comitês com interesse direto nas pautas farmacêuticas tendiam a receber somas mais significativas de financiamento através de doações (Knight et al., 2021). Por outro lado, aqueles que defenderam a redução nos preços dos medicamentos enfrentaram campanhas de descredibilização por parte de entidades do setor. Estas estratégias abrangeram desde a difusão de publicidade em escala nacional que falsamente vinculava a diminuição dos preços ao socialismo, escassez de remédios e perda de empregos em massa, até o envio de correspondências aos eleitores desses políticos com acusações infundadas e informações distorcidas (Torbati; O’Connell, 2021).
A indústria também possui uma influência significativa sobre os órgãos reguladores e de fiscalização, que desempenham o papel de garantir a segurança e eficiência de produtos farmacêuticos e de saúde globalmente. Nos Estados Unidos, estudos (Higham; Bernstein, 2017; Hayes; Prasad, 2018) revelaram que os Comitês Consultivos da Food and Drug Administration (FDA) - que são grupos de especialistas externos encarregados de oferecer orientações e recomendações independentes sobre diversos aspectos, incluindo segurança, eficácia e qualidade de produtos sob a regulamentação deste órgão do Departamento de Saúde - enfrentam uma ampla gama de conflitos de interesses.
Buscando entender a natureza e a magnitude destes conflitos financeiros entre os membros destes comitês, Peter Lurie, ex-especialista da FDA em acesso a medicamentos experimentais, liderou um estudo transversal (Lurie et al., 2006) examinando as atas e transcrições de reuniões do Comitê Consultivo de Medicamentos de 2001 a 2004. Como resultado, descobriu-se que em 73% das sessões, pelo menos um integrante admitiu conflitos de interesse, alguns dos quais envolviam somas substanciais, ultrapassando milhares de dólares. Contudo, apesar da frequência e do volume significativo dessas interações financeiras, menos de 1% dos membros foram impedidos de participar das deliberações (Lurie et al., 2006).
Anos mais tarde, um estudo semelhante conduzido por Pham-Kanter (2014) - que analisou os votos e interesses financeiros de cerca de 1,3 mil membros em 379 reuniões realizadas entre 1997 e 2011 - observou uma tendência de os membros com interesses financeiros nas empresas avaliadas votarem de maneira mais favorável aos produtos dessas empresas. Este achado foi reforçado por uma revisão sistemática empreendida por Nejstgaard et al. (2020), que examinou 86 diretrizes clínicas e 629 relatórios de comitê, evidenciando um padrão similar.
Dado o potencial lucro bilionário que a aprovação de novos medicamentos pode proporcionar as companhias farmacêuticas e seus investidores, não é surpresa imaginar que essas entidades possam tentar influenciar as decisões de governos, legisladores, conselhos e órgãos reguladores.
Considerações Finais
O presente trabalho buscou evidenciar aspectos que envolvem poder, disputas e geopolítica no setor farmacêutico. A análise iniciou-se com o mapeamento do crescimento substancial das receitas do setor, aumentando de US$ 390 bilhões em 2001 para aproximadamente US$ 1,5 trilhão em 2022. Destacou-se, ainda, que as 44 maiores empresas farmacêuticas possuem um valor de mercado combinado de US$ 3,9 trilhões, um montante superior ao Produto Interno Bruto (PIB) anual da maioria dos países do mundo. Estes números refletem não apenas a grande inserção do setor na economia global, mas também seu poder e influência crescentes.
A pesquisa também demonstrou que o setor farmacêutico representa um campo de intensa concorrência entre nações e empresas, envolvendo os Estados Unidos, Europa, Japão e, mais recentemente, a China, que competem em diversos aspectos. Essa competição abrange desde posições de liderança em valor de mercado e receitas até esforços em pesquisa e desenvolvimento para a introdução de novos medicamentos. Apesar do domínio imponente de empresas dos Estados Unidos e da Europa em diversos campos do setor farmacêutico global, a ascensão de companhias asiáticas, especialmente chinesas, vem provocando algumas mudanças no setor, como o fato de a China se tornar o maior produtor global de Ingredientes Farmacêuticos Ativos (IFAs).
Apresentou-se também que a pandemia de Covid-19 intensificou a competição no setor, reforçando a luta por prestígio, poder e influência entre as principais potências e empresas. A emergência sanitária global catalisou uma corrida sem precedentes pela descoberta e distribuição de vacinas, reforçando o parorama de concorrência e domínio de gigantes farmacêuticas dos Estados Unidos (Pfizer e Moderna), da Europa (AstraZeneca e BioNTech) e da China (Sinovac e Sinopharm) - as primeiras companhias a desenvolverem imunizantes. Como é comum em disputas geopolíticas, a corrida pela produção e disponibilização de imunizantes também foi marcada por tensões e debates sobre qualidade e eficácia, além de disputas no âmbito da diplomacia da saúde.
Por fim, a investigação também apresentou a profunda influência do setor farmacêutico sobre a política interna de alguns países, especialmente nos Estados Unidos, onde os dados para análise são mais abundantes. No país, o setor lidera os investimentos em lobby, destinando aproximadamente US$ 5,4 bilhões a essa prática entre 1998 e 2022. As doações para campanhas políticas, realizadas pelo setor como instrumento de influência e poder, também atingem valores expressivos, totalizando US$ 51 milhões para campanhas do executivo federal nos últimos quatro ciclos eleitorais, US$ 292,5 milhões para campanhas do congresso federal entre 1990 e 2020, e US$ 877 milhões para campanhas estaduais entre 1999 e 2018.
A influência do setor farmacêutico estende-se ainda aos órgãos reguladores, como demonstrado pelos Comitês Consultivos da Food and Drug Administration (FDA) nos Estados Unidos. Embora encarregados de fornecer orientações e recomendações independentes, foram identificados como afetados por uma ampla gama de conflitos de interesse, envolvendo montantes significativos e afetando a maioria de seus membros.
Números, informações e análises que revelam o poder, as disputas e a geopolítica intrínsecos ao setor farmacêutico.
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Editor:
Altemar A. Rocha






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