RESUMO
O nascimento da bioética, segundo Van Rensselaer Potter, ocorre nos limites de uma tradição ética centrada nos interesses humanos imediatos, desatenta à interdependência entre humanidade e natureza. Ampliar essa dimensão ética para garantir a continuidade da vida e da saúde da biosfera futuras constitui, nesse contexto, um dos principais desafios contemporâneos. Este trabalho objetiva compreender como a concepção de bioética global de Potter, enquanto uma nova ética fundamentada na biologia, pode orientar a formulação de políticas públicas sustentáveis voltadas à saúde planetária. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica, de caráter analítico-reflexivo. Em um primeiro momento, examinam-se as principais características da ética proposta por Potter; em seguida, analisa-se como seus fundamentos podem subsidiar a elaboração de políticas públicas ambientalmente responsáveis. Conclui-se que a bioética global oferece bases conceituais relevantes para a construção de políticas públicas voltadas à sustentabilidade planetária. Entre essas bases, destacam-se: a preocupação com as consequências de longo prazo das ações humanas; a redefinição do lugar do humano na biosfera como membro de uma comunidade biótica e não mais como dominador da natureza; a responsabilidade intergeracional em relação à qualidade de vida das futuras gerações; e a articulação entre ciência, ética e sustentabilidade, voltada à preservação da vida no planeta.
Palavras-chaves:
Bioética global; Van Rensselaer Potter; políticas públicas sustentáveis; saúde planetária; responsabilidade intergeracional.
ABSTRACT
According to Van Rensselaer Potter, the birth of bioethics occurred within the limits of a moral tradition centered on immediate human interests, neglecting the interdependence between humanity and nature. Expanding this ethical dimension to ensure the continuity of life and the health of the future biosphere thus becomes one of the central challenges of our time. This study aims to understand how Potter’s conception of global bioethics, understood as a new ethics grounded in biology, can guide the formulation of sustainable public policies aimed at planetary health. The research adopts a bibliographic and analytical-reflective approach. First, the main characteristics of Potter’s proposed ethics are examined; then, the study analyzes how its foundations may contribute to the development of environmentally responsible public policies. It is concluded that global bioethics provides relevant conceptual foundations for building public policies focused on planetary sustainability. Among these foundations are: concern with the long-term consequences of human actions; the redefinition of the human being’s place in the biosphere as a member of a biotic community in a relationship of interdependence - rather than as a conqueror of nature; the intergenerational responsibility regarding the quality of life of future generations; and the integration of science, ethics, and sustainability aimed at preserving life on the planet.
Keywords:
Global bioethics; Van Rensselaer Potter; sustainable public policies; planetary health; intergenerational responsibility.
1 Introdução
A bioética, concebida por Van Rensselaer Potter (1911-2001) como uma nova ética, constitui-se inicialmente a partir de dois propósitos fundamentais. O primeiro consiste em uma crítica incisiva ao modelo dominante de progresso, desenvolvimento, ciência e de relação da humanidade com a natureza, isto é, um discurso contra hegemônico em face dos interesses econômicos imediatistas de sua época. O segundo propõe-se como esperança e horizonte utópico, uma sabedoria renovada capaz de confrontar e superar os padrões predatórios de desenvolvimento e progresso que ameaçavam, e continuam a ameaçar, o futuro da vida na biosfera.
Essa “bioética como sabedoria”, como a nomeia Potter, não se restringe à mera acumulação ou posse de conhecimento, mas se configura, sobretudo, como “uma guia para a ação” (Potter, 2016, p. 206), “uma política de ação para fazer ou deixar de fazer” (Potter, 2016, p. 199). Trata-se, portanto, de uma ética que orienta escolhas e decisões concretas, assumindo uma dimensão prática e prudencial análoga à antiga máxima: “o temor do Senhor é o começo da sabedoria” (Potter, 2016, p. 198). Nesse sentido, a prática da sabedoria exige, segundo Potter, uma postura de profunda humildade diante da natureza, isto é, um reconhecimento da finitude humana e da necessidade de agir com responsabilidade perante a complexidade e fragilidade da vida.
As críticas formuladas por Potter dirigem-se, sobretudo, à mentalidade produtivista e consumista de sua época, que tendia a conceber a natureza como um mero instrumento a serviço das necessidades humanas, em nome dos ideais de progresso e desenvolvimento científico e econômico. Para Potter, esses ideais, quando desvinculados de parâmetros éticos, acarretam riscos profundos e consequências de longo prazo. Nesse sentido, é possível afirmar que, já na década de 1970, Potter antecipava questões que se tornariam centrais em nosso tempo, como o aquecimento global, a emergência climática, a escassez hídrica, a degradação dos solos e a perda acelerada da biodiversidade.
A ausência de orientação ética no avanço da tecnociência levou Potter a reconsiderar criticamente sua própria prática científica, processo esse que se reflete na elaboração progressiva de sua compreensão da bioética. Inicialmente, na década de 1970, Potter definiu a bioética como uma “ciência da sobrevivência” (Potter, 2016, p. 27), isto é, como um saber orientado para garantir as condições futuras de sustentabilidade da biosfera. Entretanto, posteriormente, ele reconhece que a bioética deve ser compreendida de forma mais abrangente, não apenas como ciência, mas, sobretudo, como uma ética orientadora de decisões: uma “moralidade da sobrevivência” (Potter, 2018g, p. 261).
Com isso, Potter sublinha que as possíveis soluções para os desafios por ele diagnosticados dependem menos de conquistas científicas futuras e mais das escolhas morais feitas no presente. Em outras palavras, embora a ciência desempenhe papel fundamental ao fornecer informações sobre saúde, ecossistemas e tecnologias, seus avanços, quando não regulados por princípios éticos, podem tornar-se prejudiciais, uma condição que Potter denomina “conhecimento perigoso” (Potter, 2016, p. 89). Por essa razão, ele conclui que, na ausência de um compromisso moral robusto, o conhecimento científico corre o risco de ser mal utilizado ou mesmo de se mostrar insuficiente diante dos problemas emergentes de seu tempo.
Embora o cenário delineado por Potter seja marcado por elevada complexidade e não permita soluções de curto prazo, a bioética por ele proposta emerge como uma tentativa de oferecer uma “nova sabedoria que forneça o conhecimento de como usar o conhecimento” (Potter, 2016, p. 27). Em outras palavras, trata-se de pensar um novo modelo de desenvolvimento, econômico, político e cultural, que seja capaz de avaliar criticamente em que medida os ideais de progresso, bem como os avanços da tecnociência, têm efetivamente contribuído para atender às necessidades humanas autênticas e para assegurar a continuidade da biosfera.
Outro aspecto relevante na reflexão de Potter diz respeito ao debate sobre a evolução, tema em que ele se posiciona criticamente diante de determinadas leituras, como a de Teilhard de Chardin (1881-1955), filósofo e teólogo por quem Potter, apesar disso, demonstra admiração. Chardin concebia a evolução como um processo ordenado e progressivo, capaz de integrar ciência e espiritualidade e conduzir a humanidade a um nível superior de consciência e unidade, o qual garantiria, por si só, a sobrevivência da biosfera. Em sua visão, o futuro da humanidade pareceria assegurado como decorrência inevitável da própria dinâmica evolutiva, independentemente das ações humanas no presente.
Potter, no entanto, diverge dessa concepção ao afirmar que Chardin “não distinguiu claramente entre evolução biológica e cultural” (Potter, 2016, p. 53). Para Potter, Chardin incorre no equívoco de tratar esses dois tipos de evolução como um processo contínuo e único, sem considerar suas especificidades e mecanismos próprios. A evolução biológica, sustenta Potter, opera por meio da seleção natural e da adaptação ao ambiente, sendo um processo natural sem direção predeterminada. Já a evolução cultural se realiza através da transmissão de conhecimento, da construção de sistemas éticos e da aprendizagem social, dimensões que dependem da ação consciente, da deliberação moral e da organização coletiva, e não da biologia.
Desse modo, Potter argumenta que o futuro da humanidade dependerá não de um determinismo biológico, mas das decisões éticas que formos capazes de tomar no presente. Se para Chardin o progresso humano era certo e inevitável, para Potter ele é contingente: não há garantias de sobrevivência se continuarmos a desrespeitar os limites ecológicos que sustentam a vida.
Diante desse panorama, a presente pesquisa busca compreender de que maneira a concepção de bioética global, proposta por Potter como uma nova ética fundamentada na biologia, pode contribuir para orientar a formulação de políticas públicas voltadas à defesa da saúde planetária. Entendida aqui como a saúde tanto da vida humana quanto da totalidade da biosfera, a expressão “saúde planetária” alinha-se à perspectiva de Potter, segundo a qual o ser humano deve reconhecer-se como membro da comunidade biótica, e não como seu proprietário ou administrador.
Para alcançar esse objetivo, será realizada uma pesquisa bibliográfica de caráter analítico-reflexivo, com ênfase na reconstrução conceitual da bioética de Potter e sua articulação com os desafios ético-políticos da atualidade.
2 Em busca de uma nova ética
A nova sabedoria almejada por Potter representa, em sua perspectiva, uma esperança concreta e uma utopia viva voltada à preservação da existência humana e da biosfera no futuro. Para que tal sabedoria pudesse se realizar, Potter reconheceu a necessidade de instituir uma nova ética, por ele denominada bioética, fundamentada nos conhecimentos da biologia e orientada para a proteção não apenas da espécie humana, mas da totalidade da vida terrestre, tanto presente quanto futura.
Nas palavras do autor:
precisamos ir além da ética Ser Humano/Ser Humano, que assume que a Terra cuidará de si mesma. Precisamos desenvolver a bioética como um conjunto de princípios para cobrir a ética do Ser Humano/Terra, usando a sobrevivência idealista como um dos referentes, e com a ética do Ser Humano/Terra como base, estendendo a bioética para as éticas Ser Humano/Ser Humano, Ser Humano/Sociedade e Nação/Nação (Potter, 2018b, p. 47).
Importante destacar que, em seus primeiros escritos sobre bioética, elaborados na década de 1970, Potter ainda não conhecia a proposta da Ética da Terra, formulada por Aldo Leopold (1887-1948) em 1948. Nessa obra seminal, o engenheiro florestal e filósofo propunha uma ampliação do campo ético, de modo a incluir a totalidade da vida planetária como objeto de consideração moral. Quando veio a conhecer o pensamento de Leopold, Potter imediatamente se identificou com suas ideias, a ponto de dedicar-lhe suas duas obras fundamentais: Bioética: Ponte para o Futuro e Bioética Global: construindo a partir do legado de Leopold.
Acerca dessa filiação intelectual, Potter afirma que “este livro [Bioética Global] é, em parte, uma tentativa de reafirmar e promover preceitos e valores como esses que foram a essência da Ética da terra de Leopold” (Potter, 2018a, p. 47). Ainda em relação a Leopold, Potter afirma que:
Leopold foi inquestionavelmente o primeiro bioeticista; o primeiro a imaginar uma nova base ética para a conduta humana, o primeiro a desenvolver uma ética ecológica (que ele chamou de Ética da terra) e o primeiro a explicar com clareza por que ela é necessária (Potter, 2018a, p. 33).
A admiração de Potter por Aldo Leopold torna-se particularmente evidente nas numerosas referências que faz ao autor, especialmente em sua obra Bioética Global. Nela, Potter declara explicitamente: “enfatizei que as raízes do que chamo de Bioética global residem na Ética da terra de Aldo Leopold” (Potter, 2018c, p. 63). Tal afirmação não apenas reconhece a influência direta de Leopold em sua concepção de bioética, mas também insere essa nova ética em uma tradição ampliada de responsabilidade ambiental.
Nesse sentido, pode-se afirmar que a bioética, como nova ética fundada na articulação entre bios e ethos, surge nos limites da tradição ético-filosófica ocidental. Potter identifica que, até então, a filosofia havia se mostrado insuficiente para reconhecer a urgência de uma ética que contemplasse a totalidade da vida da biosfera. Esse vazio normativo começa a ser enfrentado, quase uma década após as primeiras formulações de Potter, pelo filósofo Hans Jonas (1903-1993), cuja obra O princípio responsabilidade: ensaios de uma ética para a civilização tecnológica, publicada em 1979, propõe uma ampliação da ética para abarcar todos os seres vivos e considerar as implicações do avanço tecnológico. Potter toma conhecimento dessa proposta, reconhecendo nela preocupações convergentes com as suas, como a atenção à biosfera e ao impacto do progresso técnico, mas entende que a abordagem de Jonas permanece excessivamente abstrata, ainda enraizada em categorias conceituais da tradição filosófica, com limitada aplicabilidade concreta.
Entre as principais características da nova ética proposta por Potter, por ele denominada bioética, destacam-se os seguintes aspectos:
Uma ética pragmática, não especulativa ou meditativa: trata-se de um pragmatismo de longo alcance, segundo o qual “ideias e ações devem visar assegurar o objetivo de longo prazo da sobrevivência da humanidade” (Ten Have, 2018, p. 83). Tal ética não se funda nos pressupostos da filosofia tradicional, muitas vezes afastada da experiência concreta, mas parte de “uma imagem ou modelo de objetivo final ou meta a alcançar” (Potter, 2018e, p. 217). Essa meta, segundo Potter, é a continuidade da vida e da saúde planetária. Nessa perspectiva, a ética deixa de ser concebida como um exercício teórico isolado e passa a ser compreendida como prática voltada a responder às reais necessidades humanas. Torna-se, assim, comprometida com a realidade vivida e sensível às vulnerabilidades que afetam a vida em todas as suas formas. Trata-se de uma ética formulada à semelhança do credo bioético proposto por Potter: diante de determinadas realidades, o autor se engaja em um compromisso moral de enfrentamento e superação da vulnerabilidade presente. Esse pragmatismo ético se dirige ao futuro da humanidade, postulando que as decisões tomadas no presente devem assumir a responsabilidade de assegurar a qualidade de vida das gerações futuras. Com isso, a bioética proposta por Potter coloca-se a serviço da ciência e da política, oferecendo fundamentos éticos para decisões sustentáveis e socialmente responsáveis. O próprio Potter enfatiza que “o comportamento ético da humanidade deve ser coerente com as realidades ecológicas” (Potter, 2018a, p. 44), e complementa: “não é possível defender valores humanos que ignorem ou desafiem as leis naturais” (Potter, 2018a, p. 182).
Uma ética de longo alcance: diferentemente da ética tradicional, muitas vezes restrita ao “aqui e agora”, a nova ética formulada por Potter exige uma perspectiva ampliada, global, intergeracional e prospectiva, dado que as decisões tomadas no presente podem comprometer não apenas as gerações futuras, mas também a continuidade da vida na biosfera. Em outras palavras, trata-se de uma ética que impõe a consideração das consequências futuras e de longo prazo de toda decisão humana. Nas palavras de Potter: “a bioética [...] tem claramente uma visão de longo prazo que se preocupa com o que devemos fazer para preservar o ecossistema em uma forma que seja compatível com a existência contínua da espécie humana” (Potter, 2018a, p. 97).
Uma ética voltada às gerações futuras: essa ética parte do reconhecimento de que o futuro não está garantido e tampouco pode cuidar de si mesmo. Potter afirma que a “sobrevivência global sustentável exige uma ética apropriada” (Potter, 2018e, p. 218), ou seja, uma ética comprometida com a “qualidade de vida futura” (Schramm, 2018, p. 167) e com a continuidade do ecossistema. Nesse sentido, como afirmam Sganzerla e Zanella, “somente em uma verdadeira renovação de nossa relação global com o mundo natural é que haverá uma chave para o nosso futuro” (Sganzerla; Zanella, 2018, p. 37). Potter acrescenta, em entrevista concedida a Sandro Spinsanti, que é necessário “uma atitude interior de indivíduos que sabem olhar para um objetivo distante e que são capazes de realizar ações em tal direção” (Spinsanti; Potter, 2018, p. 56). Ele reforça essa ideia ao afirmar que “a sobrevivência da civilização mundial será impossível se não houver algum acordo sobre um sistema de valores comuns, especialmente sobre o conceito de uma obrigação para com as gerações futuras” (Potter, 2016, p. 205). Trata-se, portanto, de uma proposta ética centrada na responsabilidade intergeracional.
Uma ética interdisciplinar: Para Potter, é necessário conceber a “interdisciplinaridade de modo especial para incluir tanto as ciências como as humanidades” (Potter, 2016, p. 30). O distanciamento histórico entre essas duas áreas resultou na dissociação entre progresso científico e avaliação ética, o que contribuiu para transformar o conhecimento em algo potencialmente perigoso, sobretudo quando o ideal de desenvolvimento tecnocientífico se impõe como um fim em si mesmo. A interdisciplinaridade, portanto, não deve ser limitada às ciências biomédicas, pois os aspectos sociais, políticos, econômicos e culturais também são constitutivos dos problemas éticos contemporâneos. Nesse sentido, a bioética como “ponte” entre as ciências biológicas e as humanidades, conforme proposta por Potter, exige que se problematizem os próprios fins da medicina, da ciência, da tecnologia e das estruturas sociais. A vida, o meio ambiente e os avanços tecnológicos devem ser analisados sob múltiplos olhares. Por isso, a ética não pode prescindir da ciência, assim como a ciência não pode se desenvolver sem considerar suas implicações éticas.
Uma ética fundada no imperativo da sobrevivência: O “imperativo da sobrevivência” constitui o princípio central da bioética global. Nele se expressa a convicção de que a maior e mais urgente obrigação moral da humanidade é garantir a continuidade da vida no planeta. Todas as decisões, éticas, políticas, científicas, devem estar subordinadas a essa finalidade. Potter argumenta que, embora vivamos crises de diferentes ordens (ambientais, econômicas, religiosas etc.), todas elas convergem na ameaça à sobrevivência humana. Assim, a nova ética propõe como mandamento fundamental o compromisso com a preservação do ecossistema. Ele recorre às palavras de Jonathan Schell para ilustrar esse princípio: “nem sequer pedimos necessariamente pela nossa sobrevivência pessoal; apenas pedimos que sobrevivamos. Pedimos pela garantia de que, quando morrermos como indivíduos […] a humanidade viverá” (Schell, 1982 apud Potter, 2018b, p. 66). O imperativo da sobrevivência funciona, portanto, como uma ética da antecipação ou da precaução: exige que se considerem previamente as consequências das ações humanas. Isso significa que avanços em campos como a ciência, a biotecnologia ou a medicina devem ser avaliados à luz da sustentabilidade. Afinal, nem tudo o que é tecnicamente possível é eticamente aceitável ou ecologicamente viável. Ao alertar para esse risco, Potter busca equilibrar o ideal de progresso com a manutenção da vida na biosfera. Como já advertia Aldo Leopold: “o progresso não é uma justificativa para a destruição dos animais nativos e dos pássaros, mas ao contrário, implica não só uma obrigação, mas uma oportunidade para a sua perpetuação” (Leopold, 1991, p. 52).
Uma ética que integre ciência e moralidade: Potter dirige sua crítica à concepção dominante em sua época, segundo a qual a ciência seria neutra e destituída de valores. “Sou filho do movimento dos anos 1960 que visava reativar a discussão da pretensão de que a ciência deveria ser livre de valores” (Spinsanti; Potter, 2018, p. 53). Para ele, os abusos cometidos em nome da ciência muitas vezes se justificavam pela promessa de benefícios futuros à sociedade. No entanto, essa visão reducionista, que dissocia ciência de ética, é perigosa, pois desconsidera os impactos sociais e ambientais de suas aplicações concretas. Potter enfatiza que a ciência sempre opera dentro de contextos sociais, econômicos e políticos, os quais influenciam suas prioridades, aplicações e até mesmo os critérios de financiamento. Além disso, Potter propõe uma mudança radical no entendimento da liberdade científica. Segundo ele, é preciso reavaliar os rumos da pesquisa e estabelecer critérios éticos e sociais para orientar suas finalidades. Afirma: “estava na hora de decidir qual é a proporção [de cientistas] que deve ser livre para buscar a ciência pura e qual é a proporção que deve ser paga para procurar soluções para os problemas da sociedade” (Potter, 2016, p. 197). Em outras palavras, Potter defende que a sociedade participe diretamente das decisões sobre o que deve ser investigado, reafirmando a função pública e moral da ciência.
se tanto esforço fosse direcionado para a sobrevivência global quanto é direcionado à exploração do espaço, os cientistas poderiam ser mobilizados em uma busca por sabedoria que poderia promover a sobrevivência e manter em aberto a possibilidade do melhoramento da qualidade de vida (Potter, 2016, p. 198).
A perspectiva ética e científica proposta por Potter conduz a uma reorientação profunda da atividade científica: suas pesquisas deveriam ser direcionadas às questões mais urgentes e essenciais para a humanidade, evitando o desperdício de esforços e recursos em investigações secundárias, excêntricas ou desnecessárias. Em consonância com as teses do economista e filósofo britânico Kenneth Ewart Boulding (1910-1993), conhecido por suas críticas ao modelo tradicional de crescimento econômico e por sua visão integradora entre economia e meio ambiente, Potter enfatiza a necessidade de ampliar o horizonte moral e temporal da ação humana. Segundo ele, “nosso próprio interesse depende da nossa capacidade de nos identificarmos com uma comunidade humana, não somente no espaço, mas no passado e no futuro” (Potter, 2016, p. 199). E reforça: “a crise ambiental é uma extensão da falha da humanidade em se ver como parte integrante do ecossistema global” (Potter, 2018a, p. 180).
Uma ética fundada na “nova biologia holística” (Potter, 2016, p. 33): Potter propõe uma ética que reconheça a estreita interdependência entre o ser humano e a natureza, superando visões dualistas que separam sujeito e ambiente, cultura e natureza, humanidade e biosfera. Para ele, toda a evolução dessa nova ética repousa sobre uma premissa fundamental: “que o indivíduo é um membro de uma comunidade de partes interdependentes” (Potter, 2018a, p. 184). Esse princípio ecoa a formulação de Aldo Leopold, para quem o ser humano é “apenas um membro de um grupo biótico” (Leopold, 2019, p. 227) e, como tal, deve aprender a coexistir respeitosamente com o mundo natural.
Leopold amplia ainda mais essa visão ao afirmar que “a terra, então, não é apenas solo; é uma fonte de energia que flui através de um circuito de solos, plantas e animais” (Leopold, 2019, p. 237). Ou seja, a Ética da terra não se limita à proteção do solo, mas compreende a totalidade dos elementos naturais, a água, os vegetais, os animais, integrados num sistema vivo. Nesse mesmo sentido, Potter acrescenta que “o conceito básico de ecologia é que a terra é uma comunidade” (Potter, 2018a, p. 52), o que exige da ética uma reformulação radical de seus fundamentos antropocêntricos.
Ao propor essa nova biologia holística, Potter busca integrar ciência, ecologia e valores humanos, enfatizando a interdependência estrutural entre todos os seres vivos e o meio ambiente. Isso implica rejeitar a abordagem tradicional que entende a vida de forma fragmentada, isolada em compartimentos disciplinares e conceituais. A nova ética não pode mais se fundar na ilusão de separação entre humanidade e natureza: a espécie humana pertence a um sistema vivo maior, e suas ações afetam diretamente o equilíbrio ecológico e a continuidade da vida na biosfera.
Como observa Giacobello, de modo sintético e preciso: “Potter entende que o mal do homem é o mal da terra” (2020, p. 37). Em outras palavras, a destruição infligida ao ambiente é, em última instância, autodestruição, e a ética, enquanto saber orientador da ação, deve ser capaz de reconhecer e enfrentar essa realidade.
Ao buscar na nova biologia os fundamentos de uma nova ética, Potter desenvolve uma proposta ética “fundamentada no conhecimento biológico” (Potter, 2016, p. 27), isto é, “um sistema de moralidade fundamentada na natureza” (Potter, 2018b, p. 261), na medida em que reconhece na própria natureza uma “sabedoria biológica” (Spinsanti; Potter, 2018, p. 57). Com isso, pretende extrair da observação dos sistemas naturais um conjunto de máximas éticas capazes de orientar o agir humano. Como observa o próprio Potter: “Leopold propôs uma biologização da ética em uma estrutura ecológica que enfatizasse as conexões entre todas as formas de vida” (Potter, 2018a, p. 108). Diante disso, emergem perguntas fundamentais: que lições a natureza pode ensinar aos seres humanos? É possível derivar uma moralidade da observação do mundo natural?
Essa abordagem levanta uma conhecida objeção da filosofia moderna: a chamada Lei de Hume, também conhecida como Guilhotina de Hume, segundo a qual não se pode deduzir imperativos (o que se deve fazer) a partir de enunciados descritivos (o que é). Segundo David Hume (1711-1776), não é logicamente válido derivar obrigações morais a partir de descrições factuais (Sautter, 2006). A essa crítica se soma a formulação de George Edward Moore (1873-1958), que denominou de falácia naturalista toda tentativa de fundar juízos de valor a partir de fatos naturais. Assim, ao sustentar que a bioética deve ser uma “moralidade fundamentada na natureza”, ou ainda, uma “sabedoria biológica”, Potter estaria, segundo essa tradição, incorrendo na referida falácia? Embora a objeção pertença ao campo da metaética, e não da ética normativa, ela possui implicações relevantes para a reflexão proposta por Potter.
Potter, no entanto, reinterpreta criticamente essa objeção. Em consonância com Leopold, afirma que “uma coisa é correta quando tende a preservar a integridade, a estabilidade e a beleza da comunidade biótica. É errada quando sua tendência é o contrário” (Leopold, 2019, p. 245). Com isso, desloca o fundamento da moralidade para o equilíbrio ecológico, aproximando-se de posições ecocêntricas, segundo as quais o valor moral de uma ação depende de sua contribuição à manutenção do sistema como um todo, e não da simples preservação da vida individual. Nesse horizonte, a preservação do equilíbrio biótico se torna mais importante do que a proteção isolada de indivíduos, e o valor de cada ser passa a ser mensurado por sua função dentro do ecossistema (Potter, 2018b, p. 219). Embora essa concepção possa ser objeto de crítica, tanto Potter quanto Leopold a defendem como fundamento de uma ética voltada à sobrevivência da coletividade (Sganzerla; Zanella; Graeser, 2021).
Com base nessa concepção, Potter formula o que chama de “holismo ecológico e ético” (Potter, 2016, p. 35). O holismo ecológico diz respeito à compreensão da natureza como uma rede de relações interdependentes, em que cada ser vivo, mesmo predador, participa de um equilíbrio dinâmico que mantém o sistema. Essa visão permite reconhecer que o ser humano não está separado da natureza, mas é parte integrante e constituída por ela, devendo abandonar a posição de conquistador para assumir o lugar de membro da comunidade biótica. O holismo ético, por sua vez, sustenta que esse equilíbrio natural pode e deve servir de referência normativa para a ação humana. Nesse sentido, é fundamental que a humanidade reavalie criticamente seus modelos de desenvolvimento econômico, seu papel no interior da biosfera e os próprios fins da existência. Como afirma Potter: “deveríamos olhar a Terra, o ser humano, as plantas e os animais, o mar e a atmosfera como um sistema ecológico equilibrado” (Potter, 2016, p. 194). Assim, as ações humanas devem se orientar por princípios que assegurem a sustentabilidade ecológica, articulando progresso científico, justiça social e preservação ambiental. De modo sintético, pode-se dizer que, para Potter, a comunidade ecológica (biótica) deve constituir a base da comunidade ética.
Essa perspectiva é aprofundada por Peter Whitehouse, seguidor de Potter, que amplia a noção de equilíbrio para o campo das organizações e da saúde humana. Para ele, “a doença em indivíduos e organizações vem do desequilíbrio interno e em relação ao mundo externo” (Whitehouse, 2018, p. 190). O desequilíbrio interno diz respeito a disfunções dentro do próprio corpo ou da subjetividade, como estresse, má alimentação, conflitos psíquicos, enquanto o desequilíbrio externo refere-se a problemas nas relações com o meio ambiente, como degradação ecológica, desigualdade social ou culturas institucionais tóxicas. Assim, tanto o indivíduo quanto as organizações podem “adoecer” em razão da perda de sintonia com seu contexto vital. Entre os fatores identificados por Potter como centrais nesse desequilíbrio global estão: “população, paz, poluição, pobreza, política e progresso” (Potter, 2016, p. 167).
Potter reconhece na natureza não apenas um valor intrínseco, mas também um valor moral, em contraste com a tradição filosófica ocidental, geralmente antropocêntrica. Ainda que não se pretenda dirimir se a posição de Potter é superior à tradição filosófica, importa perguntar: seria a falácia naturalista uma objeção universal? Seria ilegítimo extrair qualquer lição moral da natureza? Teria a natureza realmente nada a ensinar à humanidade? Potter responde a essas indagações de forma incisiva: “[a] ‘falácia naturalista’ torna-se o princípio naturalista: em vez de dizer que não se pode passar do é para o deve, a bioética global argumenta que a determinação do que devemos fazer deve ser determinada pelo que é” (Potter, 2018b, p. 218). E complementa: “precisamos saber como nossos corpos funcionam, como nossos cérebros funcionam, como os ecossistemas funcionam e o que devemos fazer para a sobrevivência de longo prazo” (Potter, 2018b, p. 218). Em outras palavras, ao invés de aceitar a separação radical entre fatos e valores, Potter propõe que a realidade, enquanto totalidade biológica e ecológica, possa ser fonte legítima de normatividade. Seu objetivo não é apenas inverter a tradição filosófica, mas reencontrar na própria vida natural os critérios éticos que assegurem sua preservação.
A nova ética proposta por Potter parte do diagnóstico de que a “evolução cultural não conseguiu refletir sobre as lições da evolução biológica e desenvolver uma civilização que possa retardar sua própria extinção” (Potter; Whitehouse, 2018d, p. 202). Em sua visão, confiar na evolução como sinônimo de progresso é um equívoco: a seleção natural não garante perfeição, e pode levar igualmente à extinção. Embora a adaptação ambiental tenha permitido a sobrevivência de diversas espécies, essa adaptação é insuficiente diante das rápidas transformações impostas pela própria atividade humana. Potter denomina essa limitação de “falha fatal na maquinaria vital da evolução” (Potter, 2016, p. 127), e é precisamente essa falha que a bioética global procura enfrentar com ações orientadas ao longo prazo.
Por fim, Potter reconhece que apenas uma nova ética será capaz de enfrentar as vulnerabilidades humanas, ambientais e estruturais de sua época, vulnerabilidades agravadas por um modelo econômico que ignora os limites ecológicos. Diante do crescente poder humano de intervenção sobre si mesmo e sobre a biosfera, a bioética global se apresenta, mais do que nunca, como um imperativo: ela deve funcionar como um limite normativo à ação humana, capaz de garantir não apenas a continuidade da vida, mas também a dignidade de sua existência.
3 Bioética, políticas públicas e saúde planetária
No contexto da bioética global formulada por Potter, a saúde humana ocupa uma posição central e inegociável. Conforme o autor afirma, a saúde é “um fim admirável em si” (Potter, 2018a, p. 162). Essa afirmação implica que qualquer decisão ética, seja no campo da medicina, da ciência ou das políticas públicas, deve priorizar, de modo sustentável, a promoção da saúde humana, sempre em articulação com o equilíbrio ecológico e a justiça social. Em outras palavras, a saúde não pode ser subordinada a interesses econômicos, tecnológicos ou políticos que desconsiderem seus efeitos sobre a vida humana e o planeta.
Ao reconhecer a centralidade da saúde humana em sua proposta de bioética global, Potter enfatiza sua interdependência com a saúde da Terra. Para ele, essa correlação impõe a necessidade de que “os profissionais da medicina e do meio ambiente [trabalhem] juntos para combater a ‘ameaça à sobrevivência humana’ representadas por mudanças no meio ambiente global” (Potter, 2018b, p. 219). Degradação ambiental, mudanças climáticas, poluição atmosférica, perda de biodiversidade, escassez de água e insegurança alimentar constituem ameaças diretas à saúde pública, manifestando-se em doenças respiratórias, pandemias e crises sanitárias amplas. Essa compreensão amplia significativamente o campo da bioética, afastando-se da concepção restrita que, nas duas primeiras décadas de sua institucionalização, limitou-a predominantemente ao âmbito da ética médica e hospitalar.
Reconhecendo que a saúde humana depende diretamente da integridade dos ecossistemas, Potter denuncia a “violência exercida pela espécie humana no curso da exploração econômica” (Potter, 2018a, p. 51), que compromete tanto a saúde atual quanto as condições de sobrevivência das futuras gerações, humanas e não humanas. Nesse sentido, a bioética global se apresenta como um alerta ético e político: “o futuro do ser humano não é algo que podemos ter por garantido [...] nem é mesmo uma consequência natural da evolução darwiniana” (Potter, 2016, p. 51). Em outras palavras, a ideia, outrora dominante, de que a continuidade da vida humana com qualidade estaria assegurada por um suposto automatismo da evolução, sem necessidade de ação deliberada no presente, é rejeitada por Potter.
Ao contrário, ele insiste que essa continuidade exige a formulação de novos parâmetros éticos capazes de orientar os rumos da ciência, dos ideais de progresso e da ação política. Sem tais diretrizes, não apenas o desenvolvimento sustentável estará comprometido, mas também o próprio futuro da espécie humana na Terra. Assim, a bioética global se configura como uma ética da responsabilidade e da antecipação, cuja principal missão é assegurar, por meio de escolhas conscientes no presente, a integridade da vida e da saúde no futuro.
A bioética global, conforme formulada por Potter, propõe que políticas públicas sejam orientadas por princípios éticos capazes de frear a lógica predatória do capitalismo globalizado. Como afirmam Potter e Whitehouse, é necessário “[encontrar] caminhos para impedir o impulso capitalista de explorar o sistema livre de mercado com a globalização das forças econômicas que não possuem responsabilidade global” (Potter; Whitehouse, 2018b, p. 204). Um dos caminhos indicados por Potter situa-se no campo da educação, por meio da criação de disciplinas voltadas à formação ética e ecológica de estudantes. Tais disciplinas deveriam oferecer “modelos de estilos de vida para os povos que possam se comunicar uns com os outros, propor e explicar as novas políticas públicas que poderiam fornecer uma ‘ponte para o futuro’” (Potter, 2018a, p. 68).
Importa destacar que a proposta de Potter não visa uniformizar culturas nem impor modelos universais de desenvolvimento. Seu objetivo é incentivar a construção de estilos de vida que promovam a saúde humana e a integridade da biosfera, respeitando a diversidade sociocultural e os limites ecológicos. Um dos elementos centrais da bioética global é seu caráter interdisciplinar, que visa integrar ciência, ética e sustentabilidade. Essa integração é fundamental para a formulação de políticas públicas que evitem decisões imediatistas e desarticuladas, frequentemente alheias às consequências de longo prazo. Em tal perspectiva, políticas voltadas à saúde pública e ao meio ambiente devem estar fundamentadas na compreensão da interdependência entre os ecossistemas, a biodiversidade e a saúde humana.
A interdisciplinaridade, nesse contexto, assume um papel estratégico na promoção de uma responsabilidade coletiva, exigindo a colaboração entre diferentes áreas do saber, instituições sociais e tradições culturais. Até mesmo as religiões, conforme observa Potter, devem reconhecer que “qualidade de vida e qualidade do meio ambiente são metas que eles podem apoiar” (Potter, 2018a, p. 161). Tal afirmação evidencia o compromisso plural da bioética global, que não se restringe ao domínio científico, mas propõe um diálogo amplo com todos os agentes formadores de valores sociais.
Com base nessa concepção, a bioética global demanda políticas públicas sustentadas por fundamentos éticos e científicos que respeitem os limites da natureza. Isso inclui o uso sustentável dos recursos naturais, a prevenção de riscos ecológicos, a proteção da biodiversidade e dos ecossistemas, e uma educação ambiental comprometida com as consequências futuras das ações humanas. As recorrentes pandemias do mundo globalizado demonstram de modo contundente como as questões de saúde humana estão intrinsecamente ligadas ao meio ambiente e aos fatores socioeconômicos. Tais eventos reforçam a urgência de políticas públicas que reconheçam a degradação ecológica como fator de amplificação dos riscos sanitários.
Nessa perspectiva, pode-se afirmar que a bioética global está em consonância com o princípio da responsabilidade intergeracional e com os fundamentos do desenvolvimento sustentável. Seu objetivo é assegurar que o progresso, a inovação e o crescimento econômico não comprometam os recursos naturais nem a saúde das populações futuras.
Para que os ideais da bioética global sejam efetivamente incorporados às políticas públicas, é necessário: criar legislações que articulem ética e ciência, com o intuito de prevenir abusos ambientais e sanitários; fomentar o diálogo entre cientistas, formuladores de políticas públicas e a sociedade civil, a fim de garantir decisões mais informadas, participativas e democráticas; investir em educação interdisciplinar, formando lideranças e cidadãos com visão holística e sensível aos desafios globais contemporâneos; implementar estratégias de governança global, promovendo a cooperação entre diferentes países e sociedades para o enfrentamento conjunto das crises ambientais e sanitárias. Em suma, a bioética global propõe uma transformação estrutural dos fundamentos normativos que orientam as políticas públicas, articulando saúde, sustentabilidade e justiça global como dimensões inseparáveis do futuro da vida na Terra.
Em seus escritos mais recentes, Potter amplia significativamente o escopo da bioética, propondo sua evolução em direção a uma bioética ambiental, uma ética politicamente engajada e atenta às dimensões sociais. Nesse horizonte ampliado, Potter afirma que “a bioética global para o século XXI convoca aos cuidados da Terra em sintonia com o cuidado dos animais” (Potter, 2018f, p. 256). A bioética global, portanto, assume um papel ativo na transformação da sociedade, devendo, conforme sintetiza Ten Have, “promover a saúde pública e o direito das mulheres, prevenir a superpopulação, proteger o meio ambiente e a biodiversidade e transformar a sociedade de maneira a alcançar o bem comum” (Ten Have, 2018, p. 80).
Como ética orientadora das políticas públicas em tempos de globalização e crise ecológica, a bioética global propõe-se como uma resposta prática aos desafios contemporâneos que afetam a saúde planetária. Potter é enfático ao afirmar que essa nova ética “não pode mais ser elaborada ou justificada no contexto da filosofia tradicional sem ter em mente a experiência” (Potter, 2018b, p. 217). Ou seja, a ética não pode se restringir a construções teóricas abstratas; deve, ao contrário, enraizar-se na experiência concreta, tornando-se instrumento eficaz para guiar ações responsáveis e sustentáveis no presente.
Essa concepção implica que a ética, para ser significativa, deve estar vinculada a finalidades claras e orientadoras. Como afirma Potter: “a ética como disciplina e a moralidade como guia de comportamento requerem uma imagem ou modelo de objetivo final ou meta a alcançar” (Potter, 2018b, p. 217). Em outras palavras, decisões morais e formulações éticas exigem uma visão de futuro capaz de nortear as escolhas humanas. Essa meta, no contexto da bioética global, pode ser sintetizada como a busca pela sobrevivência da humanidade em equilíbrio com os sistemas naturais, garantindo saúde, justiça e qualidade de vida para as gerações presentes e futuras.
Conforme conclui o próprio Potter, “a sobrevivência global sustentável exige uma ética apropriada. Somente uma ética que inclui conhecimento biológico pode ser chamada de apropriada. A bioética global se esforça para ser essa ética” (Potter, 2018b, p. 218). Trata-se, portanto, de uma proposta ética fundada na articulação entre ciência e responsabilidade moral, concebida como um novo paradigma para orientar o destino comum da humanidade em um planeta em risco.
4 Considerações finais
Ao concluir esta reflexão, cujo objetivo foi compreender de que modo a bioética global pode contribuir para a formulação de políticas públicas sustentáveis voltadas à saúde planetária, constata-se que a proposta de Potter oferece fundamentos sólidos para tal empreendimento. Sua concepção de bioética expande os limites da ética biomédica tradicional, ao incorporar de forma articulada preocupações ecológicas, sociais, políticas e morais, enfatizando a profunda interdependência entre a saúde humana e a saúde do planeta.
Entre os princípios centrais da bioética global destacam-se a responsabilidade intergeracional, a integração entre ciência e valores éticos, a sustentabilidade, o imperativo da sobrevivência e a necessidade de uma ética orientada por horizontes de longo prazo. Esses fundamentos oferecem subsídios consistentes para a construção de uma governança ambiental e sanitária mais consciente, eficaz e comprometida com a justiça ecológica. Potter alerta que as ações humanas devem considerar suas consequências futuras, evitando a exploração desenfreada dos recursos naturais e promovendo modelos de desenvolvimento que respeitem os limites da biosfera.
A interdisciplinaridade, outro elemento fundamental da bioética global, se apresenta como um caminho indispensável para enfrentar os desafios contemporâneos. A colaboração entre os saberes das ciências biológicas, humanas, sociais, ambientais e políticas permite uma abordagem mais abrangente e realista das crises ambientais e sanitárias, favorecendo soluções que conciliem inovação tecnológica com responsabilidade ecológica. Trata-se, portanto, de um chamado à superação de visões fragmentadas, rumo a uma ética integral e sistêmica.
Nesse horizonte, Potter também destaca a urgência de uma educação voltada à consciência ética e ecológica, capaz de formar cidadãos e lideranças comprometidos com decisões responsáveis frente às ameaças ambientais. Para ele, é imprescindível que a sociedade participe ativamente das decisões sobre o direcionamento da ciência e da tecnologia, de modo que os avanços não estejam dissociados da preservação da vida e da justiça social.
Nos seus escritos finais, Potter reforça que a bioética global deve evoluir para uma bioética ambiental, caracterizada por seu engajamento político e sua sensibilidade social. Essa nova etapa implica influenciar ativamente as decisões públicas e reconhecer que os problemas ambientais estão intrinsecamente conectados às desigualdades econômicas e sociais. Trata-se, portanto, de uma ética que não se limita à reflexão teórica, mas que se propõe como projeto transformador, comprometido com a construção de um modelo civilizatório mais justo, sustentável e solidário.
A bioética global de Potter, assim, é mais do que uma teoria ética, é um apelo à ação. Suas ideias continuam sendo uma referência imprescindível para a formulação de políticas públicas eficazes, capazes de responder aos desafios ambientais e sanitários do século XXI e assegurar que as futuras gerações herdem um planeta habitável, saudável e justo.
Mais de meio século após o surgimento da bioética, é relevante refletir sobre seu percurso e impactos. Desde sua origem, a bioética representou uma inflexão decisiva na reflexão ética sobre a vida, a saúde, a ciência e a tecnologia, promovendo uma abordagem que busca equilibrar os avanços científicos com valores como a dignidade humana, a equidade e a responsabilidade. No entanto, mais do que rememorar suas conquistas, torna-se fundamental indagar sobre o que a bioética ainda está chamada a ser.
Em um mundo cada vez mais interdependente, atravessado por crises ecológicas globais, desigualdades estruturais e inovações tecnológicas disruptivas, a bioética precisa ultrapassar os limites dos dilemas biomédicos tradicionais. Como indicou Potter em seus últimos escritos, ela deve se transformar em uma bioética global e ambientalmente comprometida, dotada de uma dimensão política e social capaz de enfrentar os grandes desafios contemporâneos.
Isso implica incorporar de forma mais vigorosa temas como as mudanças climáticas, os impactos das novas tecnologias sobre a vida social, os riscos éticos associados à inteligência artificial, e o imperativo de uma justiça intergeracional. O futuro da bioética exige, portanto, um compromisso efetivo com a sustentabilidade e com a construção de condições que assegurem o bem-estar das gerações presentes sem comprometer a sobrevivência das gerações futuras.
Assim, a bioética do futuro deve se posicionar no centro dos debates políticos e contribuir ativamente para a elaboração de políticas públicas, assumindo o papel de força normativa em favor de um mundo mais ético, sustentável e inclusivo. Esse é o imperativo que se impõe à bioética contemporânea: não apenas pensar os dilemas da vida, mas agir concretamente para transformar as estruturas que sustentam, ou ameaçam, a própria continuidade da vida humana e não humana na Terra.
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