Entrevista com Regina Benevides:1 20 anos da Revista do Departamento de Psicologia - UFF
Entrevistadoras: Marcia Moraes; Maria Lívia do Nascimento
Entrevistadoras: O que fez surgir no Departamento de Psicologia da UFF o movimento de criação de uma Revista?
Regina: A vontade de compartilhar o que o departamento vinha produzindo, a vontade de chamar outros parceiros para a conversa, a certeza de que o debate acadêmico se faz na riqueza do encontro com a diferença, a vontade de contribuir para o debate democrático que crescia no país.
Mas, também, a necessidade de lançar o Departamento de Psicologia da UFF no cenário nacional com mais força, visibilidade mostrando o que de modo singular vinha fazendo.
Entrevistadoras: Qual era o contexto político, acadêmico, afetivo daquela época no Departamento de Psicologia da UFF?
O Departamento vivia um momento muito rico, de muita integração entre as áreas e um forte e crescente trabalho junto aos alunos. No período de 1987 a 1989 fazíamos debates entre professores com a participação dos alunos a que chamávamos de "Encontros e Confrontos", estimulando a apresentação das pesquisas, dos trabalhos de extensão que os professores e alunos realizavam. Estes debates além de criar um ambiente acadêmico de troca e produtiva provocação, geravam textos que precisavam ganhar espaço público ampliado. Entendíamos que esta era a função primordial da Universidade em seu tripé indissociável da pesquisa, extensão e ensino publicizar sua produção comprometendo-se com a transformação da sociedade. A revista poderia ser um meio para esta função de publicização.
Nunca é demais lembrar que estávamos em fins dos anos 80, década que se caracterizou pela luta pela redemocratização do país onde constantemente tínhamos que defender um projecto para a Universidade que era constantemente atacado pelas perspectivas privatizantes do ensino.
O Departamento crescia e se alegrava com este compromisso. Era uma época de muito trabalho, bons encontros, reuniões animadas, debates intensos, festas... encontros e confrontos.
Entrevistadoras: O que esperavam da Revista? Quais eram os planos para a Revista?
Regina: A Revista era um meio para toda esta explosão de produção. Queríamos que ela atravessasse fronteiras, que ela compusesse o cenário nacional da Psicologia com suas contribuições críticas.
Entrevistadoras: Como foi o processo de implantar a Revista? Quais as dificuldades?
Quais as forças, os apoios que vocês tiveram neste processo? Quem eram os parceiros?
Regina: A implantação da revista foi, como se pode imaginar, difícil. Não havia verba específica para este tipo de projeto. Nós ainda não tínhamos pós-graduação stricto sensu onde se poderia conseguir algum outro tipo de recurso. Contamos com o apoio do ICHF. Palharini e Novaes2 foram parceiros fundamentais para que o primeiro número saísse. Os professores se mobilizaram. Fizemos um sistema de quotas para este número, cada um contribuindo com certa quantia.
Entrevistadoras: Como você avalia estes 20 anos da Revista - o que mudou?
Regina: Levei um susto quando Marcia e Livia convidaram-me para participar do número comemorativo dos 20 anos da Revista! Não havia me dado conta deste tempo! Fiquei muito feliz porque foi a chance de "revisitar o percurso da Revista" que diria foi de resistência, qualificação e, sobretudo, de compromisso com a Universidade Pública e gratuita para todos. A revista foi, por um lado, aquilo que queríamos em 1989: meio, medium para passar, expressar, difundir, publicizar idéias, textos, produções de professores e alunos da UFF e de outras Universidades. Por outro lado, foi muito mais. Foi analisador das crises pelas quais a Universidade vem passando, seja quando não se consegue até hoje uma política clara de sustentabilidade para a publicação da produção acadêmica, seja quando se vê enquadrada em normas que lhe são sistematicamente impostas verticalmente por instâncias que se tornam meramente reguladoras e avaliadoras da produção por critérios quase sempre pouco debatidos e partilhados.
Lendo a apresentação que havia escrito em 1989, quando tive a honra de ser chefe do Departamento, alegro-me em ver que a Revista, mais do que uma reunião de artigos, afirmou-se enquanto proposta de trabalho, como um caminho que pudesse expressar as diferenças que sempre animaram o GSI.
Lendo a apresentação,3 continuo desejando que os próximos 20 anos da Revista sejam oportunidade de intervir no socius, no campo da Psicologia, no modo como nos comprometemos com a produção acadêmica voltada para um pensamento crítico, libertador. E não temamos esta que, mais do que uma palavra, vem-nos como inspiração dos anos em que a Universidade brasileira tinha este como seu princípio fundamental a libertação.
