Resumo
A temática acerca da psicanálise fora dos consultórios não é propriamente uma novidade: podemos destacar uma série de experiências a partir desse campo de atuação. Contudo, nem por isso se pode dizer que essa seja uma temática fechada e já resolvida, uma vez que ganha ou perde espaço na história da psicanálise de acordo com suas relações com o contexto da época e da própria psicanálise. Além disso, se faz necessário refletir sobre quais são os fundamentos que dão sustentação a essa proposta. Nesse sentido, este artigo propõe discutir as condições de possibilidade de uma experiência psicanalítica na rua, ou seja, de uma clínica pautada na psicanálise, constituída fora do consultório privado tradicional. Para isso, realizamos uma pesquisa teórica, utilizando-nos da obra de Sigmund Freud, do ensino de Jacques Lacan e de outros pesquisadores e psicanalistas que têm produzido sobre o tema. Esse percurso passou por uma análise sobre a história das clínicas públicas psicanalíticas e pela discussão sobre alguns dos elementos tradicionais da psicanálise, como o dinheiro e o divã. Em seguida, trouxemos reflexões sobre aquilo que caracteriza uma clínica psicanalítica, a partir das noções de tática, estratégia e política, tal como proposto por Lacan. A partir disso, foi possível concluir que uma clínica psicanalítica se faz possível nas ruas desde que seus princípios fundamentais sejam preservados, ou seja, desde que se centre na fala, na escuta e na transferência.
Palavras-chave:
psicanálise; clínicas de rua; clínicas públicas; dinheiro; divã
Abstract
The theme surrounding psychoanalysis outside of consulting rooms is not exactly new: we can highlight a series of experiences from this field of activity. However, this does not mean that this is a closed and already resolved theme, since it gains or loses space in the history of psychoanalysis according to its relations with the context of the time and psychoanalysis itself. Furthermore, it is necessary to reflect on the foundations that support this proposal. In this sense, this article proposes to discuss the conditions of possibility of a psychoanalytic experience on the street, that is, of a clinic based on psychoanalysis, established outside the traditional private practice. To do this, we carried out theoretical research, using the work of Sigmund Freud, the teaching of Jacques Lacan and other researchers and psychoanalysts who have produced articles on the subject. This path included an analysis of the history of public psychoanalytic clinics and a discussion of some of the traditional elements of psychoanalysis, such as money and the couch. Next, we brought reflections on what characterizes a psychoanalytic clinic, based on the notions of tactics, strategy and politics, as proposed by Lacan. From this, it was possible to conclude that a psychoanalytic clinic is possible on the streets as long as its fundamental principles are preserved, that is, as long as it focuses on speaking, listening and transference.
Keywords:
psychoanalysis; street clinics; public clinics; money; couch
Resumen
El tema que rodea al psicoanálisis fuera de las consultas no es precisamente nuevo: podemos destacar una serie de experiencias en este campo de actividad. Sin embargo, esto no significa que se trate de un tema cerrado y ya resuelto, pues gana o pierde espacio en la historia del psicoanálisis según sus relaciones con el contexto de la época y el propio psicoanálisis. Además, es necesario reflexionar sobre los fundamentos que sustentan esta propuesta. En este sentido, este artículo se propone discutir las condiciones de posibilidad de una experiencia psicoanalítica en la calle, es decir, de una clínica basada en el psicoanálisis, establecida fuera de la práctica privada tradicional. Para ello, llevamos a cabo una investigación teórica, utilizando la obra de Sigmund Freud, la enseñanza de Jacques Lacan y otros investigadores y psicoanalistas que han producido artículos sobre el tema. Este camino incluyó un análisis de la historia de las clínicas psicoanalíticas públicas y una discusión de algunos de los elementos tradicionales del psicoanálisis, como el dinero y el diván. A continuación, trajimos reflexiones sobre lo que caracteriza a una clínica psicoanalítica, a partir de las nociones de táctica, estrategia y política, propuestas por Lacan. De esto se pudo concluir que una clínica psicoanalítica es posible en la calle siempre y cuando se preserven sus principios fundamentales, es decir, siempre y cuando se centre en el habla, la escucha y la transferencia.
Palabras-clave:
psicoanálisis; clínicas callejeras; clínicas públicas; dinero; diva
Introdução
A psicanálise, ainda hoje, é alvo de uma série de críticas por supostamente possuir uma tradição elitizada, vinculada estritamente ao âmbito das clínicas privadas e a uma prática feita por burgueses para burgueses (Yamamoto, 2012). Gageiro e Torossian (2016) apontam que tais críticas acompanham certo movimento no qual, ao longo da história, as práticas ocorridas fora do consultório tradicional foram sendo consideradas como práticas menores, enquanto o lugar da psicanálise pura pertencia ao setting como se convencionou a imaginar: entre quatro paredes e restrito ao âmbito privado.
A entrada de alguns psicólogos e psicanalistas nas instituições públicas certamente contribuiu para a disseminação da clínica psicanalítica em contextos diferentes do tradicional (Yamamoto, 2012). Contudo, ainda hoje, esses serviços, como as instituições que compõem o Sistema Único de Saúde (SUS) e o Sistema Único de Assistência Social (SUAS) apresentam entraves quanto à circulação de populações marginalizadas, seja pelo desconhecimento das políticas, seja pelo estigma que tais populações representam para a sociedade. A esse respeito, o Portal Determinantes Sociais da Saúde (DSS) da Ensp-Fiocruz (2020) define populações marginalizadas como “grupos e comunidades que sofrem discriminação e exclusão (social, política e econômica) devido a relações de poder desiguais nas dimensões econômica, política, social e cultural”,1 os quais são exemplificados na literatura por usuários de crack e outras drogas (Dutra; Arenari, 2017), pessoas com AIDS, populações rurais e isoladas, profissionais do sexo e populações de zonas residenciais com poucos recursos econômicos (Laperriére, 2007), sendo o caso, também, da população em situação de rua.
No entanto, as tentativas de se ampliar o alcance da psicanálise e buscar realizar uma experiência analítica fora dos consultórios privados não é recente. Freud já havia defendido a necessidade de que, no futuro, fossem criados mecanismos para a difusão da prática psicanalítica, apontando para isso a possibilidade de que a técnica fosse adaptada diante de sua expansão para as classes mais pobres (Freud, 1919/2010a). Sobretudo em anos recentes, tem sido possível encontrar exemplos de experiências criadas em diferentes cidades brasileiras, propondo-se uma prática psicanalítica nas ruas. Estas experiências têm em comum o fato de compreenderem o exercício da clínica como prescindindo do consultório enquanto espaço físico, se estabelecendo nas ruas, e de não utilizarem o pagamento em dinheiro como condição para que ocorra uma análise. Um exemplo é o trabalho do coletivo Psicanálise na Praça Roosevelt, criado em 2017, e que desde então vem ocupando a praça de mesmo nome na cidade de São Paulo (Marino; Neto, 2019). Ainda em São Paulo, existe a iniciativa da Clínica Aberta de Psicanálise, que funciona na Casa do Povo (Torres; Lopes, 2020). Seguindo um propósito semelhante, o coletivo Psicanálise de Rua se situa em Brasília, elegendo espaços públicos na cidade que apresentem grande circulação de pessoas (Guimarães; Jardim, 2019). Em Campinas, o coletivo Estação Psicanálise tem se colocado nas ruas durante as manhãs de sábado, também tendo como proposta oferecer uma escuta psicanalítica aberta aos passantes (Torres; Lopes, 2020).
Diante dessas diferentes práticas e experiências, realizadas nos mais diversos locais, pode-se questionar: como podemos caracterizar, então, uma experiência analítica? Abaixo discutiremos mais detidamente aquilo de que, segundo acreditamos, a psicanálise não pode abrir mão sem se descaracterizar. No entanto, pode-se adiantar que essas experiências pautam sua escuta e suas intervenções na dimensão inconsciente, tal como proposto por Freud, operando a partir da transferência.
No que se refere às experiências analíticas com populações marginalizadas, podemos citar como exemplos o trabalho com migrantes e refugiados na Casa do Migrante, discutido por Rosa (2018), os atendimentos clínicos da psicanalista paulistana Maria Rita Kehl no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) (Kehl, 2009), o trabalho com grupos operativos de base psicanalítica na periferia de São Paulo, realizado por Jorge Broide (2006), e o Projeto Digaí Maré, no Rio de Janeiro (Holck et al., 2008). Com a População em Situação de Rua, destacamos, também, o trabalho de Martins (2016) na cidade de São Paulo.
Cabe lembrar que o que caracteriza a clínica psicanalítica, a saber, a fala, a escuta e a transferência (Birman, 1994) pode se dar em diferentes espaços. No entanto, podemos também questionar o que acontece quando somos obrigados, pelas circunstâncias sociais, a prescindir de dispositivos como o divã e de elementos como o pagamento em dinheiro e o consultório. Com que função esses aspectos se inserem na clínica e de que maneira podemos operar nas ruas sem que haja prejuízo à análise? Além disso, podemos questionar as consequências ético-políticas das possíveis leituras extraídas sobre as condições de operação da psicanálise.
Palumbo, Moreira e Haritçalde (2018) apontam uma relação entre o posicionamento político dos psicanalistas, os conceitos elaborados por eles e os modos de institucionalização da psicanálise. Cabe ressaltar que esses posicionamentos, conceitos e modos de institucionalização estão fortemente relacionados à questão da clínica de rua, uma vez que, na história da psicanálise, parece haver um movimento em que a relação entre a psicanálise e a política ora é vista como intrínseca, ora é rechaçada - o tem grandes implicações a respeito de onde e como se insere a psicanálise no campo social. Diante disso, é válido deslocar a questão: “é possível uma psicanálise de rua?” para a questão “qual psicanálise torna possível uma atuação na rua?”. Isso porque, segundo argumentamos, existem diferentes compreensões sobre a psicanálise e sobre os conceitos psicanalíticos, que sustentam ou não possibilidades de atuação fora do consultório privado.
Diante dessa questão, o presente artigo tem o objetivo de discutir e investigar as condições de possibilidade de uma prática psicanalítica nas ruas. Para isso, busca debruçar-se sobre suas bases históricas e, em seguida, discutir conceitualmente a função dos dispositivos clínicos tradicionais e as controvérsias em torno destes. Por fim, sem a pretensão de esgotar a temática, o artigo pretende esboçar alguns elementos dos quais uma experiência psicanalítica não pode prescindir.
Clínicas de rua: política e história
Como já apresentado, a ideia de que a clínica psicanalítica possa se constituir de modo diferente do que é concebido como tradicional, ou seja, dentro de um consultório particular e vinculada a um pagamento em dinheiro, não é novidade. Apesar disso, esta é uma ideia sobre a qual Freud expôs diferentes posicionamentos, com a capacidade de se retificar que caracteriza sua obra.
No artigo “O início do tratamento”, Freud (1913/2010b) é enfático ao afirmar que o analista deve se recusar a realizar um tratamento sem honorários. Os motivos apontados seriam de duas ordens: o prejuízo que isso acarretaria ao profissional, que, afinal, dispõe de um tempo consideravelmente maior para o tratamento de um paciente do que os médicos em geral, e os prejuízos que isso acarretaria ao tratamento em si. Isso porque, em sua própria experiência com o tratamento gratuito, ao qual afirmava dedicar algumas horas de seu tempo, o psicanalista percebia um aumento das resistências do neurótico e uma diminuição de seu empenho em encerrar o tratamento. Além disso, afirma que há fatores sexuais envolvidos na apreciação do dinheiro.
Freud demonstra que não está inadvertido em relação à problemática da inacessibilidade da psicanálise às classes mais pobres, mas, naquele momento, se resigna: “Quanto a isso não há muito a fazer” (1913/2010b, p. 133). Essa impotência da psicanálise, ou seja, o fato de que esta nada poderia fazer diante da impossibilidade de seu acesso, é atenuada pelo psicanalista, que apresenta, em seguida, a concepção popular de que a neurose seria menos comum em pessoas mais pobres, e que representaria para elas um ganho secundário, por permitir a comiseração dos outros. Esta concepção, contudo, é radicalmente diferente da que Freud manifesta apenas alguns anos depois, na Conferência de Budapeste (Freud, 1919/2010a). Nessa ocasião, Freud sinaliza a necessidade de ampliar o alcance da psicanálise para as classes mais baixas, diante do grande sofrimento causado pelas neuroses. Isso fica evidente na seguinte passagem:
Pode-se prever que em algum momento a consciência da sociedade despertará, advertindo-a de que o pobre tem tanto direito a auxílio psíquico quanto hoje em dia já tem a cirurgias vitais. E que as neuroses não afetam menos a saúde do povo do que a tuberculose, e assim como esta não podem ser deixadas ao impotente cuidado do indivíduo. Então serão construídos sanatórios ou consultórios que empregarão médicos de formação psicanalítica, para que, mediante a análise, sejam mantidos capazes de resistência e de realização homens que de outro modo se entregariam à bebida, mulheres que ameaçam sucumbir sob a carga de privações, crianças que só têm diante de si a escolha entre a neurose e o embrutecimento. Esses tratamentos serão gratuitos. Talvez demore muito até que o Estado sinta como urgentes esses deveres. As circunstâncias presentes podem adiar mais ainda esse momento. Talvez a beneficência privada venha a criar institutos assim; mas um dia isso terá de ocorrer (Freud, 1919/2010a, p. 217).
Segundo Danto (2019), essa fala de Freud se inseriu em um momento de profunda transformação na Viena que se seguiu à Primeira Guerra Mundial. No contexto pós-guerra, visava-se reconstruir a região através da criação de políticas de bem-estar social. Nesse momento, acreditava-se que a psicanálise se juntaria a esse movimento, com os psicanalistas “doando” parte de seu tempo aos tratamentos gratuitos. Danto (2019) afirma, ainda, que o discurso de Freud teve um grande efeito sobre os psicanalistas da época, tendo dado o pontapé para a construção de diversas clínicas gratuitas. O primeiro centro psicanalítico nesses moldes foi aberto em 1920, em Berlim, e foi chamado de Policlínica de Berlim para Tratamento Psicanalítico de Doenças Nervosas. No primeiro ano, trezentos e cinquenta pacientes se inscreveram para tratamento. Palumbo, Moreira e Haritçalde (2018) afirmam que nesse período de transformação da sociedade europeia pós-guerra, as clínicas se tornaram o centro da psicanálise, permitindo a prática necessária aos analistas em formação. A institucionalização da psicanálise, nesse contexto, impulsionava sua relação com a política, caminhando ao encontro do momento histórico. No entanto, este movimento não é permanente na história da psicanálise. Ao contrário, após a morte de Freud e diante das circunstâncias históricas que culminaram na Segunda Guerra Mundial, a psicanálise foi se distanciando de uma perspectiva mais crítica, sensível às problemáticas sociais, que foi, inclusive, sendo apagada e rapidamente esquecida (Palumbo; Moreira; Haritçalde, 2018). Danto (2019) chama atenção para o fato de que a Conferência de Budapeste, na qual Freud tratou da necessidade de futura ampliação da oferta de psicanálise, também foi sede de outra resolução: o modelo de formação tripartite, composta por estudo teórico, supervisão de casos clínicos em atendimento pelo candidato a analista e análise pessoal.
Enquanto essa proposição tem efeito até os dias de hoje na formação dos analistas, as clínicas propostas no mesmo momento, que se dissolveram com a ascensão do nazismo na Segunda Guerra Mundial, pouco são faladas. Quando lembradas, o são somente do ponto de vista de seu aproveitamento para a formação dos analistas da época. Nesse sentido, cabe nos questionar sobre o porquê desse apagamento, entendendo que a história da psicanálise é marcada por atravessamentos dos campos social e político.
Pode-se apontar um processo semelhante ao ocorrido na Europa em relação à América do Sul, a partir da década de 1970. Broide (2019) destaca, por exemplo, o movimento ocorrido na Argentina. Tendo alguns expoentes como Marie Langer e Pichon Riviére, constituiu-se no país uma psicanálise de tendência progressista. Os psicanalistas se propunham a trabalhar em circunstâncias sociais diversas, criando centros de saúde mental e ocupando diferentes instituições. Contudo, assim como na Europa, na Argentina também ocorreu uma desarticulação dessa tendência frente ao golpe militar, ocorrido em 1976.
Em torno dos anos 1970, esse processo começa a despontar no Brasil, tendo início um trabalho com a psicanálise fora dos consultórios, nas ruas e instituições, e que se estendia ao que Broide (2019) chama de situações sociais mais críticas. Apesar de persistirem, estas iniciativas não eram, contudo, hegemônicas, muito ao contrário. Moreira, Bulamah e Kupperman (2014) demonstram como as instituições de formação em psicanálise vinculadas à IPA, durante a ditadura militar no Brasil, não somente se abstinham de se posicionar contra o regime ditatorial vigente, como reproduziam nas próprias instituições uma tendência à adaptação dos candidatos a analistas a determinado ideal de normalidade. Medeiros e Calazans (2021) comentam o emblemático caso de Almícar Lobo, médico que participou de sessões de tortura ao mesmo tempo que fazia sua formação na Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro. Os autores destacam, ainda, o acobertamento realizado pelas instituições psicanalíticas da época, que buscavam deslegitimar as denúncias realizadas por outros psicanalistas - instituições essas que eram, também, atravessadas pela forte influência do militarismo.
Por outro lado, Ab’Saber (2021) identifica, no Brasil, um movimento de aproximação de trabalhos e coletivos de psicanalistas com o espaço público, sobretudo por volta de 2014. Neste sentido, podemos apontar que, embora a possibilidade de uma clínica psicanalítica diferente das condições tradicionais de um consultório particular tenha tido um longo caminho, este caminho não é linear, e precisa ser compreendido considerando-se as instituições de psicanálise, a maneira como ela é transmitida e o contexto histórico e cultural.
As controvérsias em torno do dinheiro na análise
Uma das premissas da clínica de rua, aqui entendida como a prática da psicanálise no espaço público, é a ideia de que seu funcionamento não esteja condicionado ao pagamento em dinheiro. Esta ideia, contudo, não é sem controvérsias para a psicanálise, de modo que se faz necessário discutir alguns dos entendimentos sobre o pagamento, que fundamentam os diferentes posicionamentos propostos no campo psicanalítico.
Ao longo da obra de Freud, como já apontado, podemos demarcar duas diferentes posições sobre a questão do pagamento para a psicanálise. Em seu artigo sobre o início do tratamento, o psicanalista afirma que: “O analista não contesta que o dinheiro deve ser visto em primeiro lugar como meio de autopreservação e obtenção de poder, mas afirma que poderosos fatores sexuais estão envolvidos na apreciação do dinheiro” (Freud, 1913/2010b, p. 132). Disso podemos compreender que, embora Freud não ignore a importância do dinheiro para a manutenção da vida e seu significado social como um símbolo de poder, inclui, ainda, os aspectos sexuais. Portanto, como prossegue o texto, o dinheiro deve ser tratado pelo analista com a mesma franqueza com a qual pretende educar o paciente em questões sexuais. No mesmo artigo, Freud recomenda que se recusem tratamentos gratuitos, porque aumentariam as resistências do neurótico. Embora reconheça a inacessibilidade do tratamento analítico às classes mais pobres, afirma que a despesa com o tratamento analítico para a classe média é excessiva apenas na aparência, afinal, “não há nada mais caro na vida que a doença - e a estupidez” (Freud, 1913/2010b, p. 134).
Apesar dessas proposições, na passagem, também já apresentada, em que Freud aponta para a necessidade de se ampliar o alcance da psicanálise, ele afirma claramente que esses tratamentos serão gratuitos (Freud, 1919/2010a). Danto (2019) afirma que esses apontamentos de Freud foram, de certa maneira, uma reação ao risco que a psicanálise corria de se tornar irrelevante, uma vez que sua independência em relação à comunidade médica e acadêmica, que impulsionou seu desenvolvimento, também ameaçava sua estabilidade. Deste modo, a sobrevivência econômica da própria psicanálise dependia de que o Estado assumisse a responsabilidade pela saúde mental. Além disso, a experiência do próprio Freud e daquela geração de psicanalistas se inseria nas transformações sociais que se seguiram à Primeira Guerra Mundial e no contexto que culminaria na ascensão do nazismo como política de extermínio das minorias. Danto (2019) afirma, ainda, que esta perspectiva não foi uma mudança súbita, já estando presente na correspondência de Freud com outros psicanalistas.
Mesmo após a criação das clínicas públicas que tiveram como pontapé inicial este apontamento de Freud, as controvérsias sobre o pagamento não foram sanadas. A posição dos analistas sobre o tratamento gratuito era motivo de polêmicas na Policlínica de Berlim. Como apresenta Danto (2019), a policlínica não possuía uma diretriz específica sobre os pagamentos: análises gratuitas eram conduzidas ao lado de análises pagas, e a tabela de honorários variava conforme as possibilidades do paciente. Esperava-se que os pacientes pagassem o quanto pudessem, mas, no geral, os honorários pagos pelos pacientes representavam apenas 10% do orçamento da policlínica, que sobrevivia principalmente de doações.
Ainda segundo Danto (2019), Max Eitingon, responsável pelo financiamento da policlínica, defendia que os pacientes deixarem de pagar não teria importância no curso da análise. No entanto, os baixos honorários, frequentemente, preocupavam os psicanalistas que atendiam na policlínica. Alguns deles argumentavam, e a autora questiona se não seria por interesse próprio, que havia um risco de que os pacientes não se sentissem suficientemente “pressionados” a lidar com suas questões devido à ausência do pagamento, ideia que reflete o primeiro posicionamento de Freud sobre os tratamentos gratuitos. Entretanto, cabe questionar se a ideia de pressionar ou convencer o paciente - sustentada nesses argumentos de alguns dos analistas da policlínica - é coerente com os conceitos psicanalíticos. Afinal, se entendemos que os sintomas de que se queixam o paciente respondem a uma lógica inconsciente, que escapa ao Eu, será que é “pressionando” os pacientes a abandonarem os sintomas que o processo analítico pode se encaminhar?
No campo psicanalítico contemporâneo, muito se tem dito sobre a função do dinheiro na análise. O fato de que as argumentações partem de premissas teóricas bastante diferentes já indica que não há propriamente uma coerência teórica sobre este ponto entre os diferentes psicanalistas, ainda que, dessas perspectivas, possamos extrair elementos em comum. Batista (2007), por exemplo, argumenta que o analista deve saber cobrar o que custe caro ao analisando, uma vez que o dinheiro teria a função de apontar o caminho do desejo do sujeito. Segundo o autor, o pagamento deveria ser, necessariamente, pela via do dinheiro, uma vez que a psicanálise está inserida nos parâmetros culturais. Assim, abrir mão do pagamento seria correr o risco de o analista ocupar, para o analisando, o papel de pai da horda, como alguém que não se submete ao pacto social. Podemos, no entanto, questionar se não há uma incoerência entre essas duas vias de argumentação apontadas no texto: a primeira, a de que o dinheiro aponta o caminho do desejo do sujeito - e, portanto, é condicionado pelos aspectos subjetivos -, e a segunda, a de que o dinheiro é regulado socialmente - de modo tal que, sem ele, o analista se colocaria na posição de estar fora do pacto social. Embora não se possa dizer que estes dois aspectos sejam necessariamente excludentes, podemos afirmar que, se o dinheiro marca uma inserção social da parte do analista, tais atravessamentos sociais também não podem ser ignorados do lado do analisando.
O artigo de Viviani (2014), por outro lado, recorre ao argumento de que o dinheiro na análise paga por uma escuta a partir da posição de objeto a, que seria incalculável do ponto de vista da quantia. Afirma que o cálculo é sempre com base na singularidade, mas aponta que a diferença entre o que o analisando quer/pode pagar e o que efetivamente paga deve estar do lado do analista - ou seja, deve estar sempre para mais, pois, se o analista dá um “desconto”, é ele quem paga.2 A partir destes pontos, podemos levantar, também, algumas questões: se a posição do analista é incalculável, como se pode realizar este cálculo? Como é possível fazer equivaler o que há de singular para cada analisando a uma quantia em dinheiro? É possível fazer este cálculo singular a partir de uma operação a priori - uma quantia que representa um valor a mais do lado do analista?
Esses artigos exemplificam algumas das perspectivas que coexistem no campo psicanalítico sobre o dinheiro e o pagamento. Curioso notar que, embora argumentem por vias diferentes, os artigos convergem para alguns entendimentos em comum: o de que o dinheiro possui um valor para além do material, de que é necessário à análise e de que seu custo deve ser caro - embora se possa apontar que aquilo que configura caro é diferente para cada um. Como pensar este tensionamento entre o dinheiro enquanto um elemento da economia política e o dinheiro em seu manejo subjetivo na análise? Se, como argumenta Freud, há fatores sexuais e elementos subjetivos relacionados ao dinheiro, as consequências clínicas - seja do pagamento em dinheiro, seja da ausência do pagamento, precisam ser pensadas e manejadas dentro de cada caso.
Ainda que não seja uma resposta definitiva, pensamos que alguns elementos não podem ficar fora da discussão. O primeiro deles requer uma breve consideração sobre a noção de significante no ensino de Lacan. Ao retomar o algoritmo do signo linguístico proposto por Ferdinand de Saussure, Lacan propõe uma primazia do significante:
Uma coisa é certa: é que esse acesso, pelo menos, não deve comportar nenhuma significação, se o algoritmo S/s, com sua barra, lhe convém. Pois o algoritmo, na medida em que ele mesmo é apenas pura função do significante, só pode revelar uma estrutura de significante nessa transferência (Lacan, 1966/1998a, p. 504).
A partir de tais considerações, podemos pensar que, uma vez que tratamos de significantes, e não de signos, um elemento não pode ser pensado fixado a um significado cristalizado. Assim, o dinheiro, apontado como por Lacan como o significante mais aniquilador possível de toda significação (Lacan, 1966/1998b) também não pode se dar a partir de um significado específico para todos os analisandos, e sim pensado em articulação com outros significantes do caso, para que, só assim, se entenda se, para aquele analisando, o dinheiro aparece articulado a uma lógica sintomática e de que maneira pode ser manejado, seja para mais ou para menos.
Consideramos importantes também as indicações de Dantas e Tupinambá (2015) de que a psicanálise muito tem pensado as questões relativas ao pagamento a partir de seus conceitos internos, e pouco se propõe a pensar a si mesma a partir da economia política. Entendemos que este é um movimento necessário, uma vez que, por mais particular que seja a situação analítica, ela não está descolada da realidade e não deixa de produzir efeitos políticos. Embora esta seja uma discussão extensa, que foge ao escopo deste artigo, podemos trazer como apontamentos a argumentação de Goldenberg (2006) de que a análise se trata de uma subversão da política do sintoma, o que pode ter efeitos, por exemplo, na maneira como o sujeito lida com os ideais no plano político. De maneira inversa, as determinações políticas e econômicas têm seus efeitos, sobretudo no que se refere ao dinheiro. Como argumentam os autores:
Uma recomposição da base salarial afetará o ponto de equilíbrio mínimo entre o quanto um consumidor quer e pode pagar, independentemente de se esse analisando específico goza de oferecer mais do que poderá se comprometer a pagar ao curso da análise. Ele terá que se virar com essa variação no valor e custo das coisas, introduzindo a realidade econômica na realidade libidinal da maneira que puder - sonhar com uma “caixa de jóias” nem sempre tem o mesmo valor psíquico, e isso depende também do preço de uma caixa de jóias (Dantas; Tupinambá, 2015, n.p).
A partir dessa citação, podemos extrair que as alterações no campo da economia política não deixam de afetar a maneira como os analisandos lidam com o dinheiro e com o pagamento no curso da análise. Concordamos em parte com o posicionamento de Dantas e Tupinambá (2015). Afinal, a psicanálise trabalhar a partir de seus conceitos internos não deve significar que ela esteja fechada ao que se passa no mundo. Todo psicanalista lacaniano é advertido de que deve renunciar à psicanálise aquele que ignora a subjetividade da época, não se atentando para as ocorrências do campo político e social da contemporaneidade. Assim, é na dialética entre princípios psicanalíticos e devir histórico que a psicanálise se posiciona. Dito isso, é importante também não restringirmos a argumentação apenas para um lado, correndo o risco de nos esquecermos que é justamente a questão libidinal que também permite abrir caminhos outros no campo social, não sendo apenas condicionada por esse campo social.
Quando se trata do atendimento a populações em situação de vulnerabilidade econômica, entendemos que o risco de analisar as questões de pagamento puramente do ponto de vista subjetivo é ainda maior, pois, além de inviabilizar o tratamento, pode-se acabar tomando por uma não implicação na análise algo que perpassa o campo de uma realidade constituída por condições econômicas. A respeito da possibilidade de existência de clínicas psicanalíticas gratuitas, Ab’saber (2021) propõe que, nestes casos, na ausência de dinheiro, socialmente regulado e politicamente controlado, abre-se espaço para novas práticas de ocupação da vida e da cidade. Não se trata de defender que toda análise deve ser conduzida de maneira gratuita ou de negar que o manejo com o dinheiro possa exercer efeitos em alguns casos, mas de apontar que, com a presença do dinheiro, está presente um elemento que é desigualmente distribuído, e que campos de possibilidades de atuação também se abrem na ausência do pagamento em dinheiro.
Dantas e Tupinambá (2015) pontuam, ainda, que muitos analistas trabalham a questão do pagamento solicitando que o analisando proponha determinado preço, e cobram, a partir do proposto, um valor a mais, um excedente, com base na ideia de que a análise não pode se dar como uma relação de custo-benefício equilibrada, mas deve envolver uma perda irrecuperável. Neste caso, esta perda no campo das trocas simbólicas teria um equivalente pré-determinado no campo das trocas econômicas, e, portanto, em um campo pautado pelo mercado. Ainda neste sentido, retomamos as considerações de Ab’saber (2021, p. 510), que aponta que a reprodução de sistemas simbólicos neoliberais é contingente, e não necessária à psicanálise, que, afinal, “[...] é uma experiência ético-teórica de transformação, que movimenta settings históricos imaginados para ela existir, e não algo fixada a uma forma de setting específico”.
Nesse sentido, se assumíssemos a posição de que os conceitos psicanalíticos possuem equivalentes fixados em elementos necessários à manutenção do capitalismo, teríamos, em suma, que entender que a psicanálise estaria limitada em sua própria possibilidade de existência a este sistema. Explicitar isso é necessário para que possamos evidenciar que o campo psicanalítico é atravessado pelos interesses políticos e sociais que condicionam o trabalho, uma vez que o analista é, também, um trabalhador. Desse modo, a psicanálise não se constitui como uma experiência à parte em que, necessariamente, o dinheiro passaria a assumir um valor puramente libidinal para o analisando, a partir do qual o analista deveria extrair um excedente, em um movimento completamente desinteressado, também, de seu valor material. Se um charuto às vezes é só um charuto, uma moeda nunca será apenas uma moeda, mas o que ela significa nem sempre é interpretável somente do ponto de vista analítico - esteja ela no bolso do analisando ou do analista.
A função do divã na análise
O divã é utilizado por Freud desde a criação da psicanálise e, desde então, vem ocupando função importante nos tratamentos analíticos. No entanto, ao tratarmos de uma psicanálise nas ruas, estamos pressupondo o desprendimento em relação aos dispositivos concretos do consultório, e, nesse sentido, se faz importante entender como e com quais funções este elemento se insere na dinâmica da análise para, por fim, questionar se é possível pensar uma análise sem ele.
O início do tratamento, Freud (2010b) propõe sobre a indicação de que o paciente deve se deitar no divã, com o analista fora de seu campo de visão. Esta prática, afirma o fundador da psicanálise, representa um vestígio histórico, remanescente dos tempos de prática da hipnose. As razões históricas não são, contudo, as únicas. Freud segue justificando a utilização do divã com base no incômodo sentido ao ser olhado durante todo o dia de trabalho, mas também com base em seus possíveis efeitos sobre o processo analítico - enquanto também se entrega a seus pensamentos inconscientes, o psicanalista receia que suas expressões faciais possam afetar o fluxo de associações do analisando. Busca, assim, “isolar a transferência e fazer que no devido tempo ela se destaque nitidamente como resistência” (Freud, 1913/2010b, p. 134). Para além desta recomendação técnica clara, o divã aparece de passagem em alguns dos relatos de caso de Freud, demonstrando a continuidade de sua utilização ao longo do tempo. A título de exemplo, a menção de que a paciente se encontrava deitada no divã aparece no relato de caso da Srta. Emmy von N..., nos “Estudos sobre a Histeria” (Freud, 1893-1895/2016) e na “História de uma Neurose Infantil”, caso conhecido como o “Homem dos Lobos” (Freud, 1918/2010c).
Lacan (1966/1998c) menciona o uso do divã ao criticar um estudo experimental de perspectiva comportamental sobre a linguagem. Na ocasião, o psicanalista comenta, acidamente, que seria preferível colocar na poltrona do analista o rato-lavador, objeto do estudo, do que o pesquisador em questão. Ao se referir à poltrona na qual se posiciona o analista, Lacan atribui à timidez de Freud o ato de posicioná-la atrás do divã, fora das vistas do analisando. A possibilidade do uso ou não do divã é também mencionada de passagem em O Seminário: Livro 4: a relação de objeto (1956-1957), quando Lacan (1994-1995, p. 77) afirma que “A tensão da situação analítica é concebida sobre a seguinte base: entre um sujeito, deitado ou não num divã, e o objeto exterior que é o analista, não é possível estabelecer-se e manifestar-se aquilo a que se chama a relação pulsional primitiva”. O que podemos extrair desta citação para a presente discussão é que o psicanalista, mais uma vez, marca a presença do divã na situação analítica, mas como uma possibilidade, deixando sua utilização ou não em aberto.
Assim como Freud, Lacan também menciona o divã em alguns de seus relatos, embora seu uso não seja o foco da discussão nestes trechos em questão. É o caso, por exemplo, de um trecho de O Seminário: Livro 5: as formações do inconsciente (1957-1958), no qual se refere às associações do paciente em seu divã (Lacan, 1998-1999). Em O Seminário: Livro 10: a angústia (1962-1963), o psicanalista cita a angústia do analista em sua relação com o analisando no divã (Lacan, 2004-2005). Já em O Seminário: Livro 11: os quatro conceitos fundamentais (1964), Lacan (1973/1988, p. 1988) aponta que não é por acaso que a análise não se faz no olho no olho, uma vez que “[...] o plano da reciprocidade do olhar e do olhado é, mais que nenhum outro, propício, para o sujeito, ao álibi. Conviria então, para nossas intervenções na sessão, não fazê-lo (sic) estabelecer-se neste plano”, situando uma importante função do divã.
A respeito dos apontamentos de Freud sobre o divã, Quinet (2009) afirma que seu objetivo seria dissolver a predominância do registro imaginário na transferência, para que esta possa ser distinguida na fala, campo, por excelência, da análise. O autor utiliza o esquema L, apresentado por Lacan (1978/2010), para propor que a passagem ao divã contribui para atacar o muro narcísico, representado no esquema pelo trecho a - a’, e permitir a passagem da transferência para o eixo de S a A, no campo simbólico.
Lacan (1978/2010, p. 330) aponta S como sendo o “sujeito analítico”, aquele que não sabe o que diz. Este sujeito se vê, porém, em a, como um eu, o qual se encontra em estreita relação com seu semelhante, o outro especular, assinalado no esquema pelo a’. Deste plano da relação entre outros homogêneos é preciso distinguir, contudo, a ordem instituída pelo que Lacan chama de muro da linguagem. Com isso, o psicanalista critica o caminho que a técnica analítica da época vinha tomando, ao se guiar pelo imaginário e pelo intermédio da imagem do outro, e que fundamenta sua direção com base na identificação ao eu do analista. A análise deve, ao contrário, seguir no caminho oposto:
Durante toda a duração da análise, mas unicamente com a condição de o eu do analista aceitar não estar aí, unicamente com a condição de o analista não ser um espelho vivo, porém espelho vazio, o que se passa, passa-se entre o eu do sujeito [...] e os outros. [...] A análise consiste em fazê-lo tomar consciência de suas relações não para com o eu do analista, mas para com estes Outros, que são seus verdadeiros fiadores, que respondem por ele, e que ele não reconheceu (Lacan, 1978/2010, p. 334).
Quinet (2009) comenta, ainda, que, ao apontar que o analista não deve ceder às recusas do analisando quanto à privação do olhar, Freud estaria sustentando que o processo analítico não deve ceder à satisfação da pulsão escópica. Além disso, a passagem para o divã permitiria um convite à auto-observação, não no sentido de uma visão interna, mas do movimento, proposto por Freud, de descrever para o analista os pensamentos que ocorrem, como um viajante que descreve a paisagem a alguém.
Ao tratar da função do divã em favorecer a emergência do discurso do Outro, Quinet (2009) aponta, contudo, que este não é suficiente, tampouco indispensável, sendo a associação livre a regra fundamental. O autor lembra, ainda, que Lacan rompe com a ideia de que o setting analítico estaria ligado a regras como o número, a regularidade e duração das sessões, mas mantém, como mencionado, o uso do divã. Cabe argumentar, portanto, que a manutenção do uso do divã não deve se justificar a partir de um apego à tradição ou apenas pela continuidade de uma regra, caso em que perderíamos a novidade introduzida pela ética lacaniana, que descentra o setting analítico de tais regras fixas, mantendo a regra fundamental da associação livre e centrando a análise na fala do analisando - o que também não significa que sua função precisa ser abolida. Nossa proposta é extrair do divã sua função, para interrogar sobre as possibilidades de sua reprodução em diferentes espaços.
Nesse sentido, entendemos que o uso do divã não está relacionado ao móvel em si, mas à função que ele exerce no manejo do caso. Cabe lembrar que seu uso não é proposto de maneira imediata: a passagem ao divã é utilizada como um marcador para o fim das entrevistas preliminares nos casos de neurose (Quinet, 2009), não como um fim em si mesmo - afinal, o início de uma análise é um movimento, sobretudo, discursivo. Sua não utilização nos casos de psicose - em que o apoio na imagem do analista se faz importante, uma vez que o imaginário pode ter um efeito organizador sobre o real (Faria, 2011) - nos demonstra que o setting analítico é adaptável às necessidades clínicas. Portanto, propomos que, de maneira análoga, sua função possa ser adaptada nas experiências das clínicas de rua, desde que levemos em conta esse movimento discursivo que é o que, de fato, dá início a uma análise.
Garimpar nas ruas o ouro: do que a psicanálise não pode prescindir?
Que estejamos propondo que os dispositivos clínicos não devem se manter apenas pela tradição não significa que o setting analítico pode se constituir de qualquer maneira. Assim, para concluir este argumento sobre as possibilidades de constituição de clínicas de rua, procuramos nos questionar quais são as condições das quais uma análise não pode prescindir. Não pretendemos esgotar essa questão que, afinal, diz respeito a décadas de produções psicanalíticas, mas discutir alguns dos apontamentos feitos por Lacan (1966/1998d), utilizando as noções de estratégia, tática e política. Ele propõe que o analista é livre no que se refere ao momento, ao número e à escolha de suas intervenções, embora afirme que a interpretação não pode ser desvinculada da noção de sujeito como subordinado ao significante. Por outro lado, ao discutir sobre a transferência, afirma que a liberdade do analista neste aspecto é alienada pelos desdobramentos que sua pessoa sofre na transferência. Nesse sentido, afirma ele, todo analista experimenta a transferência, na qual, contudo, seus sentimentos só têm como lugar possível o lugar do morto, uma vez que não é a partir de seus sentimentos que o analista opera. É nesse contexto que se situa a afirmação de que “[...] o analista é menos livre em sua estratégia do que em sua tática” (Lacan, 1966/1998d, p. 595), uma vez que não pode se posicionar de qualquer maneira na transferência. Adiante, Lacan aponta que, no curso da análise, o analista lida com todas as articulações da demanda do sujeito, mas só deve responder a partir da posição da transferência.
Há, no entanto, algo que domina tanto a estratégia quanto a tática: a política. Assim, Lacan (1966/1998d, p. 596) afirma que “O analista é ainda menos livre naquilo que domina a estratégia e a tática, ou seja, em sua política, onde ele estaria melhor situando-se em sua falta-a-ser do que em seu ser”. Essa política vai na contramão do que a psicanálise da época havia introduzido como medida da realidade, o chamado ego autônomo. Não deve, portanto, estar centrada no ser ou no eu do analista. Pensar em uma política da falta-a-ser leva à questão do desejo, já que Lacan (1966/1998d, p. 629) afirma que “o desejo é a metonímia da falta-a-ser”. O desejo se manifesta no intervalo cavado pela demanda, pois o sujeito, na articulação significante, traz à tona a falta-a-ser, na esperança de ser complementado pelo Outro, que é lugar de fala, mas também de falta.
Dessas proposições de Lacan, gostaríamos de extrair para a discussão a ideia de que há aspectos em que o analista é mais ou menos livre em sua atuação. Pensamos poder incluir na tática as particularidades do setting, já discutidas nas seções anteriores, uma vez que não implicam modificações naquilo que Lacan propõe como mais importante, a saber, a transferência e a política da psicanálise. Assim, as particularidades do setting, em seu valor de intervenção, podem ser manejadas pelo analista com maior flexibilidade, ainda que não com menos rigor em seu aspecto conceitual, uma vez que “não há limite para os desgastes da técnica por sua desconceituação” (Lacan, 1966/1998d, p. 615). A partir desta ideia, entendemos que a flexibilidade tática nos permite projetar um campo de atuação na rua, mobilizando as intervenções pertinentes ao contexto, bem como a presença ou a ausência de dispositivos como dinheiro e o divã.
A flexibilidade do analista em relação à tática não se estende, contudo, ao seu lugar na transferência. Lacan é enfático ao afirmar que ela não deve se estabelecer em termos de uma reeducação, na qual o eu do analisando deveria ser moldado a partir do eu do analista. Este, portanto, não deve responder a partir do seu eu ou se voltar para o campo da rua a partir da imposição de sua moral, ou seja, trabalhar a partir de seus próprios valores e concepções.
Para além disso, a política é o ponto em que, como Lacan propõe, o analista tem menos liberdade. Podemos concluir, portanto, que é esta política da falta-a-ser que define uma experiência propriamente analítica. Sobre este aspecto, gostaríamos de lembrar a clássica citação em que Freud (1919/2010a, p. 218) postula a necessidade de ampliação do alcance da psicanálise. “É também muito provável que na aplicação em massa de nossa terapia sejamos obrigados a fundir o puro ouro da análise com o cobre da sugestão direta, e mesmo a influência hipnótica poderia ter aí seu lugar, como teve no tratamento dos neuróticos de guerra”.
Já destacamos anteriormente que o exercício das clínicas públicas adquiriu grande relevância na sociedade psicanalítica da época. No entanto, julgamos pertinente enfatizar, ainda, outro aspecto, levantado por Palumbo, Moreira e Haritçalde (2018). É notável que Freud tenha defendido que, para ampliar o seu escopo, a psicanálise renunciaria à sua “pureza”, ou seja, afirma que, nos tratamentos analíticos gratuitos, o “ouro puro” da análise se juntaria ao “cobre da sugestão”. Cabe destacar que a metáfora utilizada, de substituir o ouro pelo cobre, pode estar de alguma forma implicando uma valorização de um tratamento em detrimento do outro, o que nos levaria a questionar: a quem se dirige esse “ouro puro”?
Em contraposição, pensamos que o diálogo da psicanálise com outros campos se faz pertinente em diferentes contextos, e, de maneira ainda mais pronunciada, nas ruas. Isso porque nos exige dialogar com a cidade, com as políticas públicas, e refletir sobre o laço social, em relação ao qual a psicanálise tem importantes contribuições, mas que não se esgota nela. Isso não deve significar, contudo, uma “impureza” para o método.
Assim sendo, defendemos que seguir a indicação freudiana que aponta como necessária à expansão da psicanálise também não implica abrir mão disso que a torna “ouro”. Trata-se, ao contrário, de defender que a existência da psicanálise nas ruas é possível sem abrir mão daquilo do qual ela não pode prescindir - garimpar nas ruas o ouro, que talvez não se encontre em uma falsa ideia de pureza, mas no rigor ético, teórico, metodológico e político com que a encaramos.
Conclusão
A partir do exposto, foi possível concluir que a psicanálise possui uma importante tradição vinculada à atuação fora dos consultórios; no entanto, esse movimento não é constante em sua história. As rupturas e continuidades dos modos de atuação envolvendo a ampliação de seu alcance implicam pensarmos na psicanálise como um campo atravessado por posicionamentos políticos e teóricos diversos, que se encontram em constante tensionamento com o laço social.
A atuação da psicanálise fora do consultório também exige reflexão sobre os aspectos clínicos, como o dinheiro e o divã. Embora essencial para uma prática psicanalítica de rua, esta é uma discussão rica, também, para o contexto das clínicas privadas, em consultório, uma vez que nos leva a questionar sobre as bases que fundamentam a utilização destes dispositivos. Nesse sentido, foi possível elaborar que, embora possam ser facilitadores do manejo, sua função pode ser sustentada a partir da fala.
Esta reflexão nos levou, ainda, a buscar no ensino de Jacques Lacan alguns apontamentos sobre a direção do tratamento analítico. Assim, associando-se a tática ao manejo, foi possível pensar que, no contexto da rua, este pode ser adaptado de acordo com as circunstâncias. Contudo, não se pode prescindir da estratégia e da política que regem a psicanálise. Com base nessas noções, pudemos concluir que a experiência analítica pode existir onde quer que haja um analista e um ser falante que desejem constituí-la a partir da fala, da escuta e da transferência.
Declaração de Disponibilidade de Dados:
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
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Sintetizamos alguns dos argumentos tal como apresentados no artigo citado, sem a preocupação de explicá-los ou torná-los mais claros, precisamente para que possamos questionar as possíveis imprecisões conceituais.
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Como citar este artigo:
ABNT BARBOSA, Geovana Teodoro; CALAZANS, Roberto. Clínicas psicanalíticas de rua: uma discussão sobre sua história e seus fundamentos. Fractal, Rev. Psicol., Niterói, v. 38, e57650, 2026. https://doi.org/10.22409/xrbj4238. APA Barbosa, G. T., & Calazans, R. (2026). Clínicas psicanalíticas de rua: uma discussão sobre sua história e seus fundamentos. Fractal, Rev. Psicol., 38, e57650. https://doi.org/10.22409/xrbj4238


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