Resumo
As novas tecnologias digitais têm causado várias consequências e alcançado penetração progressiva na vida humana. Esse avanço constitui parte dos fenômenos da contemporaneidade, que trouxe diversas transformações, dentre elas a flexibilização dos modelos de família, que por sua vez inclui o ganho de importância dos avós no seio familiar. Entretanto, os idosos ainda são pouco integrados ao mundo digital, dado que vem mudando paulatinamente, ao passo que os jovens têm cada vez mais aumentado o uso que fazem dessas tecnologias. Este artigo, inserindo-se no campo da Psicologia e dialogando com outros campos do conhecimento, discute como tal tecnologia tem interferido na relação de avós e netos na atualidade, a partir da percepção dos mesmos. Foi adotado o método clínico-qualitativo e realizadas entrevistas semidirigidas com duas duplas de avós e de netos, as quais foram analisadas sob o método de estudo de caso. A primeira díade se caracterizou por um avô materno de 78 anos e por seu neto de 15 anos, enquanto a segunda por uma avó, também materna, de 60 anos, com sua neta de 12 anos. Verificou-se que para cada dupla a tecnologia tinha diferente influência, mas que em ambos os casos ela não tinha maior peso do que a relação já estabelecida entre eles.
Palavras-chave:
avós; netos; relação; tecnologias da informação e da comunicação; atualidade.
Abstract
The new digital technologies have caused several consequences and achieved progressive penetration in human life. This advance is part of the phenomena of the contemporaneity, which has brought several transformations, among them, the flexibilization of family models, which in turn includes the gain of importance of the grandparents in the family. However, the elderly are still little integrated into the digital world, since it has been gradually changing, while young people have gradually increased their use of these technologies. This article, grounded in Psychology, yet engaging in dialogue with other fields of knowledge, discusses how such technology has interfered in the relationship of grandparents and grandchildren in the present, from the perception of them. The clinical-qualitative method was adopted and semi-structured interviews were conducted with two pairs of grandparents and grandchildren, which were analyzed under the case study method. The first dyad was characterized by a maternal grandfather, 78 years old, and his 15 years old grandson, while the second by a grandmother, also maternal, 60 years old, with her 12 years old granddaughter. It was found that for each pair the technology had different influence, but that in both cases it had no greater weight than the relation already established between them.
Keywords:
grandparents; grandchildren; relationship; information and communication technologies; topicality.
Resumen
Las nuevas tecnologías digitales han provocado diversas consecuencias y han logrado una penetración progresiva en la vida humana. Este avance forma parte de los fenómenos de la contemporaneidad, que ha traído consigo múltiples transformaciones, entre ellas la flexibilización de los modelos familiares, lo que a su vez incluye el aumento de la importancia de los abuelos en el núcleo familiar. Sin embargo, las personas mayores aún están poco integradas al mundo digital, aunque esto está cambiando paulatinamente, mientras que los jóvenes incrementan cada vez más el uso que hacen de estas tecnologías. Este artículo, situado en el ámbito de la Psicología y dialogando con otras áreas del conocimiento, analiza cómo dicha tecnología ha influido en la relación entre abuelos y nietos en la actualidad, a partir de la percepción de ambos. Se adoptó el método clínico-cualitativo y se realizaron entrevistas semidirigidas con dos parejas de abuelos y nietos, las cuales fueron analizadas mediante el método de estudio de caso. La primera díada estuvo conformada por un abuelo materno de 78 años y su nieto de 15 años, mientras que la segunda por una abuela materna de 60 años y su nieta de 12 años. Se comprobó que para cada pareja la tecnología tenía una influencia diferente, pero en ambos casos no tenía más peso que la relación ya establecida entre ellos.
Palabras Clave:
abuelos; nietos; relación; tecnología de la información e de la comunicación; actualidad.
Introdução
Desde os primórdios, o ser humano é marcado pela criação e uso da técnica e da tecnologia, que sempre mediaram sua existência com o meio; na verdade, pode-se mesmo dizer que o ser humano deve sua condição à técnica (Fernandes, 2020). Mais recentemente, a tecnologia alcançou um avanço e aceleração sem precedentes, com a introdução das tecnologias da informação e da comunicação (TICs). Estas trouxeram consequências diversas para a vida humana em diferentes esferas e níveis (Maldonado, 2012) e continuam a avançar e a trazer novos desdobramentos.
Esse avanço é considerado por alguns autores como um advento central da contemporaneidade (Maldonado, 2012), momento sócio-histórico que Bauman (1998), expoente autor da área da Sociologia, definiu nos primórdios de seus estudos sobre o tema como marcado pelo excesso de individualismo e pela quebra de paradigmas tradicionais, o que por sua vez levou a transformações que se fazem sentir nos planos social, familiar, relacional e individual. Dentre os fenômenos atuais, destaca-se o aumento da expectativa de vida e da população idosa, conciliando-as com os novos modos de ser e viver em família, que conferiram ganho de importância aos avós no seio familiar, bem como levaram a transformações no seu papel e função, tendência já apontada por Harper (2006) e reforçada na atualidade por Coelho, Osório e Silva Neto (2023).
Em parte, os idosos ainda são considerados vítimas do processo de tecnologização do mundo, fato que lhes acarretaria diversas consequências negativas (Almeida; Lemos, 2024), enquanto, ao mesmo tempo, cada vez mais essa concepção parece minguar, o que pode ser reflexo da rápida aderência e adaptação dessa população às novas tecnologias, de acordo com Torres e Dias (2017), e que denotaria, ainda segundo as autoras, o protagonismo do idoso no século XXI.
Em contraposição aos “imigrantes digitais”, termo que se referiria ao grupo não habituado às novas tecnologias, em especial a camada mais velha da população (Prensky, 2001), torna-se uma crescente preocupação entre especialistas e leigos o uso cada vez mais precoce e excessivo dos dispositivos digitais pelas crianças e jovens (Bueno; Lucena, 2016), chamados por Prensky (2001) de “nativos digitais”.
Nesse cenário, observa-se então que, enquanto do lado dos mais velhos o problema residiria no ainda pouco uso das tecnologias que é feito por eles, do lado dos mais jovens o problema seria o contrário, ou seja, o excessivo uso que delas é feito. Assim, considerando a centralidade que a TIC tem hoje no cotidiano dos indivíduos e no mundo globalizado, questiona-se se esse descompasso entre as gerações poderia ser um dado interferente sobre a relação de avós e netos na atualidade e, em caso afirmativo, se positivamente ou negativamente e em que medida e de que formas.
Além disso, a crescente digitalização da vida cotidiana tem transformado profundamente as formas de comunicação entre gerações, especialmente no contexto familiar. Com o envelhecimento populacional e o aumento da longevidade, as relações entre avós e netos ganham nova centralidade, tornando-se objeto de interesse acadêmico e social. Estudos recentes apontam que as tecnologias digitais, como redes sociais e aplicativos de mensagens, podem tanto fortalecer quanto fragilizar os vínculos intergeracionais, dependendo da forma como são utilizadas (Santos, 2024; Martins do Rio, 2021). Nesse sentido, compreender como essas tecnologias são percebidas e vivenciadas por diferentes gerações é fundamental para promover um envelhecimento ativo e relações familiares mais integradas.
Do ponto de vista acadêmico, este estudo contribui para o campo da Psicologia ao articular os impactos das TICs com os processos subjetivos e relacionais entre avós e netos. A escassez de pesquisas qualitativas que abordem diretamente essa interface torna este trabalho especialmente relevante, pois oferece uma análise aprofundada das experiências vividas por sujeitos reais em contextos familiares concretos. Além disso, ao utilizar o método clínico-qualitativo, o artigo se insere em uma abordagem que valoriza a singularidade dos relatos e permite compreender nuances que estudos quantitativos muitas vezes não capturam. A investigação também dialoga com produções recentes que discutem o papel das tecnologias na construção de vínculos e na mediação das relações humanas (Santos, 2024).
Este artigo é decorrente de uma pesquisa de mestrado (Daró, 2018) que tinha como objetivo verificar como avós e netos se relacionavam por meio das TICs e como avaliavam essa experiência. A investigação se insere no campo da Psicologia, mas dialoga de forma interdisciplinar com contribuições da Sociologia, da Filosofia e dos estudos da Comunicação, buscando analisar tanto os impactos subjetivos e relacionais quanto os sentidos sociais e culturais atribuídos às tecnologias na contemporaneidade, com enfoque na díade avós-netos.
Método
Foram conduzidas entrevistas semidirigidas (Turato, 2003) com duas duplas de avós e netos de acordo com o método clínico-qualitativo (Turato, 2003), realizadas numa grande capital brasileira. A escolha por esse método se justifica pela sua capacidade de captar a subjetividade dos participantes e compreender os sentidos atribuídos às experiências vividas, especialmente em contextos relacionais e familiares mediados por tecnologias.
Como critérios de seleção, delimitou-se avós idosos, a partir de 60 anos de idade, segundo o Estatuto do Idoso, sendo um de cada gênero. Os netos deveriam ser adolescentes, entre 12 e 18 anos (inclusive), segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente. Além disso, eles deveriam: residir com seus pais ou cuidadores e não com seus avós, não serem pais, não estarem trabalhando e, finalmente, estarem devidamente matriculados na escola. Tais requisitos visaram evitar casos em que houvesse confusão ou sobreposição de papéis que pudessem afetar a análise da relação intergeracional entre a díade (Sá et al., 2020).
A escolha por adolescentes se justifica por representarem uma geração nativamente inserida no universo das tecnologias digitais, com alto grau de familiaridade e autonomia no uso das TICs (Prensky, 2001). Além disso, essa faixa etária já possui capacidade de reflexão, tomada de decisão e expressão subjetiva sobre suas relações familiares, o que permite captar percepções mais elaboradas sobre o vínculo com os avós. Segundo Bueno e Lucena (2016), adolescentes tendem a desenvolver usos próprios e significados singulares para os dispositivos digitais, o que os torna sujeitos privilegiados para investigar os impactos dessas tecnologias nas dinâmicas intergeracionais.
A dupla deveria apresentar contato entre si, bem como um mínimo de familiaridade com as TICs. As entrevistas foram feitas com avô(ó) e neto(a) juntos, priorizando-se investigar a relação da díade mais do que dados individuais de cada um. O tipo de tecnologia aqui incluída se referiu à internet e às redes sociais, pois pressupõem a existência de “comunicação” e/ou “publicação” de conteúdos diversos, não importando qual a espécie de dispositivo digital utilizado.
As entrevistas foram realizadas presencialmente, no ambiente escolhido pelos participantes - suas residências ou locais de convivência - com o objetivo de promover conforto, espontaneidade e autenticidade nas respostas, de acordo com a recomendação de Turato (2003) e de Minayo (2012). A opção por ambientes familiares buscou favorecer a livre expressão dos sujeitos e a observação natural da interação entre avós e netos, elemento central para os objetivos da pesquisa.
Não foi estabelecida uma duração fixa para os encontros, mas sim um roteiro semiestruturado que orientou a condução das entrevistas, permitindo flexibilidade e aprofundamento conforme a dinâmica de cada dupla. O roteiro de entrevista foi elaborado com base em eixos temáticos relacionados à comunicação intergeracional e uso das TICs, e as mesmas foram gravadas com o consentimento dos participantes e posteriormente transcritas integralmente para análise
A forma de análise dos dados seguiu o método de estudo de caso (Yin, 2015), que privilegia a profundidade e a singularidade de cada caso individualmente, donde também a decisão por uma amostra pequena. Dentro dessa perspectiva, foram empregados os princípios da análise de conteúdo, conforme Bardin (2016), com etapas de leitura flutuante e interpretação contextualizada à luz da literatura, em diálogo com os fundamentos da abordagem clínico-qualitativa (Turato, 2003).
Todos os procedimentos éticos foram atendidos, segundo a Resolução nº 466/12 da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa para pesquisas com seres humanos, incluindo a apresentação e a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
Resultados - caracterização das duplas e do uso que faziam das TICs
A seguir é apresentada uma caracterização de cada dupla separadamente a fim de contemplar uma perspectiva particularizada de cada caso; todos os nomes são fictícios.
Dupla 1: Mário e Daniel
O contato inicial foi feito com o neto, Daniel, por meio de um aplicativo de mensagens, tendo sido a entrevista realizada em sua casa. Ele contava com 15 anos de idade e residia com sua mãe, padrasto e irmão menor, de 5 anos, à época, fruto do segundo casamento da genitora.
Mário, avô materno de 78 anos, morava com a esposa e era vizinho de Daniel. Tendo trabalhado ao longo de sua vida em uma empresa na área de finanças, encontrava-se aposentado atualmente. A pesquisadora foi muito bem recebida por toda a família dentro de um clima de intimidade. Enquanto o neto tinha um jeito mais tímido e ao mesmo tempo prestativo, o avô se mostrava espirituoso e denotava certa necessidade de ser ouvido. Mário costumava ir com frequência à casa do neto e disse que este ia quase toda noite à sua casa para “encher o saco da gente”.
Sobre o uso que fazia da tecnologia, o neto relatou que a utilizava predominantemente para estudo, por demanda da escola. Entretanto, utilizava-a também para lazer, tanto para jogos quanto para aplicativos de comunicação social, como Instagram, Snapchat, Facebook e, principalmente, WhatsApp. E, mencionou ainda usar as redes sociais como meio de se comunicar com o pai, que mora em outra cidade, e com amigos. Afirmou também que, mesmo quando ele e sua mãe estão juntos em casa, chegam a se comunicar pelo aplicativo de mensagens, pois acredita que seja mais prático - note-se que a casa era um sobrado. Outro detalhe é que, entre os amigos, os aplicativos do smartphone são usados não só como um canal de comunicação, mas também como um motivo de entretenimento e de interação quando eles estão unidos, ainda que cada um esteja mexendo no seu próprio aparelho individualmente. Caberia aqui, portanto, fazer essa diferenciação sobre o uso da tecnologia, de quando ela é utilizada como canal de interação e de quando ela é um objeto que serve de pretexto para a interação não ocorrer.
Já o avô, em contraposição ao neto, embora não tenha começado a usar a tecnologia tão cedo, principiou a usá-la desde que esta era nova no país. Logo ele se familiarizou com ela por causa do trabalho, no caso, primeiro com o computador e em seguida com a internet. Segundo seu relato, sua introdução foi muito positiva, uma vez que poupou horas de trabalho extra que ele e outros funcionários precisavam cumprir anteriormente à sua implementação. Disse que a aprendizagem da tecnologia não foi difícil, já que foi gradual, e que a empresa para a qual trabalhava ofereceu treinamento com os aparelhos. Da mesma forma, não sentiu dificuldade com a transição para o smartphone, pois já tinha um domínio prévio. Atualmente, o uso que faz se concentra no aplicativo WhatsApp, da mesma forma que o neto, ou seja, para comunicações interpessoais. Até recentemente, comentou que costumava trocar e-mails e fazer buscas na internet, mas há cerca de três meses, à época da entrevista, não utilizava mais o computador, apesar de ter um em sua casa, e nem possuía Wi-Fi, respeitando o desejo da esposa.
Um detalhe que ganhou destaque foi o fato de Mário enviar diariamente mensagens prontas e idênticas via aplicativo para todos os seus contatos. O avô disse em tom de ressentimento que o neto não gostava de receber e de abrir as mensagens que recebia dele. Neste momento, Daniel riu de forma um pouco satírica, oferecendo algumas justificativas. Algo curioso aconteceu após a entrevista, devido a um ato falho do avô, que, ao se esquecer de assinar o Termo de Consentimento pelo neto, obrigou a pesquisadora a retomar o contato, momento a partir do qual ela passou a ser incluída na lista de mensagens diárias dele. O interessante é que, a despeito do conteúdo positivo e afável das mensagens, o sentimento que elas causavam na pesquisadora era de aborrecimento, já que as mesmas pareciam “persegui-la” durante todos os dias. Desta forma, compreende-se o riso irônico do neto, que tentou oferecer desculpas ao fato de não abrir nem responder as mensagens.
Para o avô a tecnologia representava um “encontro de gerações bastante difícil”, pois avaliava que o idoso de hoje fica em desvantagem com relação aos jovens. Ele ainda se referiu a esse encontro como um “choque”, já que sentia que muita coisa errada é transmitida pela mídia, apenas por audiência. Na sua visão espírita, quando “desencarnar” e “reencarnar” de novo, pensa que saberá mexer com as tecnologias de uma forma muito melhor.
Ainda assim, ele falava sobre os novos recursos tecnológicos com muito entusiasmo, como algo muito positivo, pois reconhecia quanto o ajudaram no trabalho, bem como a contribuição que ela poderia trazer para o homem no futuro. Na sua perspectiva, ela proporcionará cada vez mais tempo livre ao homem, o que lhe permitirá aprender mais e evoluir. Para Mário, o maior problema que a tecnologia representaria seria o mau uso que se faz dela, que, a seu ver, estaria carregada atualmente de muitos conteúdos desprezíveis.
Daniel concordou com o avô sobre o mau uso da tecnologia, mas, por outro lado, já percebia outras questões, de forma que seu posicionamento era bastante dividido entre os benefícios e malefícios representados por ela. Ele mencionou, por exemplo, a diminuição de empregos devido à mecanização ou automação de funções e o aumento da exigência por estudo e de constante atualização que a tecnologia está exigindo; o fato de o celular ser uma distração na escola, impedindo que os alunos se concentrem na aula; bem como os prejuízos que ela pode trazer às relações de um modo geral, uma vez que faz com que as pessoas interajam menos, e também para os relacionamentos amorosos, causados pelo excesso de exposição da vida pessoal, provocando seu rompimento por motivo de ciúme; sendo a falta de privacidade, assim, outro problema identificado.
Destaca-se neste ponto que talvez Daniel estivesse falando de forma autorreferenciada, uma vez que os problemas que apontou parecem dizer respeito ao momento de amadurecimento em que se encontrava, às voltas com a pressão de ter que escolher uma profissão e com a questão dos relacionamentos amorosos. Já o avô, por sua vez, apresentou um discurso pautado na moralidade. Outro problema levantado por Daniel dizia respeito à falta de diálogo e de conversa na família, que estariam sendo prejudicados pelos atuais recursos tecnológicos. Porém, no âmbito social ele acreditava que as TICs aproximariam as pessoas, no caso, os amigos. Pessoalmente falando, ele comentou que sentia que quando estava sem celular ficava mais “presente”, brincava mais com seu irmão e interagia mais com a família. Assim, ele mesmo concluiu que deveria usar menos a tecnologia.
Entre a dupla, a tecnologia se apresentava principalmente na troca de mensagens via WhatsApp, bem como na forma de entretenimento, pelo videogame. A família possuía um grupo em comum no WhatsApp que era bastante utilizado e por onde trocavam diversas informações e conteúdos, como fotos. Todos os membros estavam incluídos, menos a avó, esposa de Mário, que não gostava e nem se interessava pelas TICs.
O avô comentou que não tinha Facebook, e que apesar de ter tentado abrir uma conta houve um entrave que ninguém conseguiu resolver. Em tom jocoso, ele disse ser porque os familiares, principalmente o neto, não queriam que ele bisbilhotasse a vida pessoal deles. Aqui, uma ligação a mais que poderia ocorrer em função da tecnologia é evitada, aparentemente, pelo medo do controle ou do uso invasivo de um sobre o outro que a tecnologia pode implicar. Ainda que o tenha afirmado em tom de brincadeira, Mário parece novamente não saber como utilizar o recurso da forma adequada para se conectar com o neto.
Por fim, ainda trataram da função do idoso na sociedade atual: para Daniel, o idoso teria a função de transmitir conhecimento, já que teria mais experiência de vida. Na visão de ambos o idoso hoje não recebe o valor merecido, mas, diferentemente de seu neto, Mário acreditava que a tecnologia tem causado uma inversão de papéis entre jovens e idosos em relação ao saber, e que ao velho cabe ensinar assim como aprender. Ainda para o avô, a tecnologia estaria propiciando a volta da mulher para o lar, que, segundo ele, seria o seu devido lugar.
Dupla 2: Sônia e Eliza
O contato com esta dupla foi obtido por meio de convite virtual, feito em redes sociais. Sônia se manifestou, oferecendo-se ela mesma como voluntária, juntamente com sua neta, Eliza, de 12 anos. A entrevista foi realizada na casa da avó, à sua escolha. Também ficaram presentes a mãe da neta, juntamente com o irmão mais novo desta. A família toda se mostrou bastante receptiva e afetiva para com a pesquisadora.
Sônia, que tinha 60 anos, era viúva e morava sozinha. Ela era ainda bastante ativa profissionalmente. Eliza cursava o ensino fundamental e atualmente morava em uma cidade vizinha da capital, junto com seus pais e o irmão. A relação dessa dupla parecia ser muito forte, caracterizada por afetuosidade, intimidade e um grande cuidado de uma pela outra.
Apesar de morarem em cidades diferentes, neta e avó tinham bastante contato, encontrando-se semanalmente. Quando juntas, afirmaram costumar fazer brincadeiras diversas, assistir à televisão, executar atividades domésticas ou praticar jogos, como “stop”. Percebe-se aqui que, no contato presencial, a tecnologia era pouco presente. Além disso, o que se pode inferir a partir dessa observação é que parece ser possível produzir uma gama maior de expressões e atividades pelo contato real do que pelo virtual. Com efeito, para Dias e Silva (2001), o vínculo entre avós e netos acontece e é reforçado por meio das atividades que “fazem” juntos.
A avó referiu se ressentir pela distância que as separava e que gostaria de poder ver mais a neta. Ao mesmo tempo, disse que pela tecnologia, como Facebook, podia conhecer um pouco mais de Eliza, ter acesso a algumas dimensões que dificilmente conseguiria acompanhar no dia-a-dia, como o jeito de ela se relacionar com seus amigos, por exemplo. Observa-se que a tecnologia parece não ser capaz de suprir a saudade causada pela lonjura espacial, mas pode ao menos servir de conforto, com a avó podendo entrar um pouco no mundo da neta. Ao mesmo tempo, a tecnologia permitia àquela conhecer outras dimensões desta que o contato presencial não proporcionaria.
No que se referia ao uso da tecnologia, Eliza relatou utilizá-la prioritariamente para lazer. WhatsApp e Facebook eram os recursos de que mais se valia, embora contasse com outros também, como Snapchat, Instagram e Pinterest. Já a avó tinha toda uma trajetória bem peculiar com a tecnologia, motivo, aliás, de seu interesse em participar da pesquisa, como ela mesma explicitou. Ela sempre esteve à frente no que dizia respeito a buscar as inovações tecnológicas.
Os equipamentos eletrônicos sempre ajudaram muito Sônia, de sorte que utilizava a tecnologia intensamente no trabalho, bem como em diversas outras atividades, como no lazer, na cozinha, com a contabilidade, para ouvir música, assistir a programas, sem contar nos relacionamentos familiares e sociais. A procura pela tecnologia em seu caso parece constantemente ligada à busca por maior rapidez e praticidade, uma forma de otimizar a rotina: “Acho muito impressionante o quanto ela tem transformado as nossas possibilidades de fazer coisas, né”.
Como interação, a avó usava as redes sociais para trocar conteúdos diversos, como textos, fotos e mensagens entre a família e os amigos. Possuía praticamente todos os aplicativos que a neta tinha, além do Skype e Hangout, que lhe eram bastante úteis. Dentre todos, o que mais utilizava era o WhatsApp, principalmente com a finalidade de se comunicar com os familiares. Uma afirmação de Sônia despertou nossa atenção frente ao estar sozinha em casa à noite - “os aparelhos são meio que meus companheiros, né”. Segundo seu modo de falar, parece que ela confere vida aos aparelhos tecnológicos, quase como se ela criasse um vínculo diretamente com eles - e isso não é tão distante da realidade se se considerar a possibilidade de criação de robôs com inteligência (e emoção) artificial.
Para esta avó, o idoso não teria mais dificuldade em usar a tecnologia do que alguém mais jovem, pois seria meramente uma questão de ele aprender a usá-la. Além disso, pensava que há cada vez mais recursos e que os aparelhos digitais estão ficando, por sua vez, cada vez mais simples de serem operados. Então, se o idoso não se relaciona com a tecnologia seria muito mais por não querer do que por incapacidade.
Sônia mencionou que, por possuir uma família muito extensa, com centenas de parentes, dificilmente conseguiam se reunir. Entretanto, todos participavam do mesmo grupo familiar no Facebook. Desta forma, seria como se pela tecnologia fosse possível unir a família, ou seja, na dimensão virtual, quase como em uma realidade paralela, a família está unida. Já com o aplicativo WhatsApp, ocorria algo um pouco diferente: ela contou que havia diversos grupos de conversa da família, que eram divididos por membros ou por assuntos familiares, de forma que cada grupo incluía determinados membros enquanto excluía outros.
Esta avó não se sentia excluída pela tecnologia, ao contrário, usava da mesma sob várias motivações. Vale a ressalva que, desde o surgimento das TICs, se tornou defensora de suas inúmeras utilidades; indo ao encontro da literatura, que pontua a capacidade de inclusão dessas no sentido de se alcançar públicos que, sem a existência de tais recursos, se veriam em desvantagem (Torres; Dias, 2017).
Na entrevista, a dupla contou que se valia extensamente da tecnologia para interagirem entre si, especialmente via WhatsApp e Pinterest, mas também por e-mail e Facebook. Elas utilizavam esse meio para diversas finalidades, como resolver assuntos de cunho prático, conversar, tomar decisões sobre algo que fariam juntas e estudar. Aqui parece haver um conteúdo que é transmitido e se repete na família, pois, ao evocar esse tema, a avó parecia querer mostrar como a neta também fora arrojada ao ser a primeira a introduzir uma novidade na escola - o uso do PowerPoint - assim como ela, que está sempre à frente na busca por novas tecnologias.
É interessante observar que nessa dupla o maior interesse e valorização pela comunicação no mundo virtual se deu pela avó, novamente ressaltando uma inversão de gerações. Entretanto, isso se justifica pelo longo, e particular, envolvimento dela com as TICs muito antes de sua neta ter nascido. Enquanto esta última está ainda num estágio de descobrimento dos vários usos tecnológicos, alguns inclusive tendo a avó como mentora.
Discussão
Em ambas as entrevistas os avós foram mais participativos do que seus netos e que enquanto os primeiros já vivenciaram as duas realidades, ou seja, um mundo sem e com a tecnologia, estes vivenciaram apenas esta última dimensão. É preciso lembrar, ainda, que há uma diferença significativa de idades entre os dois avós entrevistados - 78 anos de Mário contra 60 anos de Sônia, ou seja, teoricamente, ele poderia ser pai dela -, de forma a, inclusive, pertencerem a gerações diferentes. Acredita-se que isso possa ter levado a algumas disparidades no modo como concebiam e utilizavam a tecnologia e em como se relacionavam por meio dela, consequentemente.
Observa-se que, embora os avós tenham iniciado seu contato com a tecnologia em função de trabalho, este se deu por diferentes processos: no caso de Mário ela foi introduzida na empresa em que já trabalhava, sendo uma condição sobre a qual não teve escolha, enquanto Sônia a buscou por conta própria. Esse dado já parece revelar uma disposição diferente de cada um para com a tecnologia. A ideia sobre a adaptabilidade do idoso aos novos dispositivos também é outra divergência observada e que pode ser efeito da discrepância de idade entre eles, bem como de seus interesses individuais. Enquanto Mário avaliava que essa camada etária teria uma limitação, Sônia entendia que não, que seria apenas uma questão de hábito ou de querer aprender, visão esta que vai ao encontro dos achados de Oliveira, Lima e Barbosa (2022). Esses referem que a dificuldade do idoso em lidar com as novas tecnologias não residiria em uma inabilidade intrínseca, mas sim na insegurança em se inserir no mundo virtual e na ausência de suporte. Estudos recentes, como o de Rebelo dos Santos (2024), corroboram essa perspectiva ao apontar que a motivação para o uso das TICs entre idosos está fortemente associada ao grau de autonomia na adesão e ao valor afetivo atribuído à tecnologia, como observamos fortemente em Sônia.
Ainda assim, nos dois casos verificou-se no discurso dos avós uma atitude bastante favorável, até mesmo de encantamento, com relação aos novos recursos que surgiram. Isso é ainda mais presente por parte de Sônia, que tem grande proximidade com a tecnologia. Segundo ela diz: “eu tenho uma paixão pela tecnologia”. Principalmente aqui, podemos verificar um posicionamento tecnofílico, como apontado por alguns autores, que carrega consigo o risco de uma percepção enviesada da realidade, como se a tecnologia pudesse se oferecer como uma panaceia para todos os males (SILVA, 2013). Desta forma, tanto esta concepção quanto a sua oposta, a tecnofóbica, representariam soluções extremadas.
Em contrapartida, o avô não parecia se sentir totalmente incluído no universo tecnológico e remetia sua preocupação à baixa educação moral humana. Mário apresentava uma visão mais conservadora quanto às novas tecnologias, com um certo temor sobre o rumo a que levaria a humanidade.
O contraste entre os avós entrevistados revela duas formas distintas de lidar com a angústia provocada pelas transformações tecnológicas. Mário, ao se apegar à nostalgia e expressar receios quanto ao rumo da humanidade, parece buscar no passado uma forma de segurança simbólica diante da incerteza do presente. Já Sônia, ao demonstrar entusiasmo e confiança irrestrita nas TICs, projeta no futuro uma promessa de progresso e bem-estar.
Essas posturas, embora opostas, podem compartilhar uma mesma função psíquica: a tentativa de aplacar a inquietação existencial diante da imprevisibilidade. Como aponta Bauman (1998), tanto a idealização do passado quanto a fé no futuro funcionam como estratégias de compensação simbólica em contextos de instabilidade. A tecnologia, nesse cenário, pode ser investida de um papel quase redentor - não por suas funcionalidades em si, mas pelo imaginário que a cerca. Segundo Silva e Costa (2023), o discurso tecnofílico tende a obscurecer os limites e riscos da mediação digital, promovendo uma visão idealizada que nem sempre corresponde à experiência concreta dos sujeitos. Assim, tanto o temor quanto o encantamento com a tecnologia podem ser compreendidos como respostas subjetivas à mesma inquietação: o desejo de sentido, de controle e de pertencimento em um mundo em constante mutação.
Assim, chama a atenção que a despeito do sentido de racionalidade, precisão, controle e progresso que as tecnologias ostentam, elas ainda assim não são capazes de oferecer segurança ou certeza sobre o devir, ao contrário do que seria esperado (Pereira, 2022). Essa busca por controle se estenderia também à forma como os indivíduos se relacionam com sua própria imagem e intimidade nas redes digitais. A crença de que se pode escolher o que mostrar e a quem mostrar - por meio de filtros, configurações de privacidade ou curadoria de conteúdo - revela uma ilusão de autonomia que é constantemente tensionada pela lógica algorítmica e pela vulnerabilidade dos dados. Casos recentes de vazamento de imagens por dispositivos domésticos inteligentes, como aspiradores robôs que capturam cenas íntimas, exemplificam como essa exposição pode escapar ao controle do usuário, mesmo quando este acredita estar protegido (HAO, 2022).
O caso de Sônia ajuda a exemplificar como a intimidade pode se expandir sem que se percebam claramente as fronteiras entre o público e o privado. A avó demonstrava uma abertura ampla e sem receios, visível tanto na forma bastante calorosa com que recebeu a pesquisadora, quanto na receptividade imediata às TICs. Esse traço se refletia ainda em aspectos cotidianos, como o fato de morar no mesmo espaço em que trabalhava, o que sugere limites psíquicos mais flexíveis e permeáveis entre diferentes esferas da vida.
Como aponta Costa (2022), a tecnologia não apenas media, mas redefine os contornos da vigilância familiar, criando zonas de controle simbólico e, ainda, privacidade intergeracional (Marzo, 2024). A entrada ou exclusão de um membro em um grupo familiar virtual, como no caso do Facebook ou WhatsApp, passa a funcionar como um marcador de pertencimento, mas também como um dispositivo de regulação afetiva. Assim, o uso das TICs nas relações familiares não se limita à comunicação, mas envolve disputas sutis sobre visibilidade, autoridade e privacidade. Vemos isso no caso de Sônia e Eliza, quando a avó menciona que têm vários grupos diferentes da família no Whatsapp por exemplo, como se precisassem demarcar territórios virtuais e dividir conteúdos digitais, e sutilmente na vinheta de Mário e Daniel em que o avô não consegue criar uma conta no Facebook: seria o desejo da família de que ele “não conseguisse” para não serem “bisbilhotados” e controlados por ele?
Em diversas situações relatadas por ambas as duplas, a tecnologia tem um sentido de praticidade, ou seja, de economia, seja de tempo, de trabalho ou de esforço físico. Vemos que em algumas delas, como Daniel, que se comunica com sua mãe pelo aplicativo mesmo quando os dois estão em casa, a tecnologia furta a possibilidade de acontecer um encontro presencial, corpo-a-corpo, entre os envolvidos. Ou seja, parece ser preferível economizar os recursos próprios do que ter um encontro com a pessoa real.
Daniel fala reiteradamente sobre como a tecnologia afasta os indivíduos, principalmente na esfera familiar. Esse posicionamento é uma problemática atual e se relaciona com a ideia de que ela impacta negativamente a subjetividade humana. No caso deste neto, apesar de ele comentar que tem uma relação distante com seu pai, de forma que a TIC poderia atuar de modo a aproximá-los, vê-se que isso não acontece. Ou seja, o vínculo, se existe ou não, é o que parece ser ainda o fator determinante para que a convivência aconteça e, por oposição, talvez não seja a tecnologia que provoque o distanciamento entre as pessoas, o que ainda assim não significa que ela não leve a um modo diferente de se relacionar.
Na concepção de Eliza, a tecnologia só afastaria as pessoas se o seu uso for muito intenso. De acordo com essa visão, é possível pensar que se o uso demasiado da tecnologia afasta o indivíduo do contato com os outros, logo, ele ficaria mais voltado para si mesmo. Assim, a tecnologia, pelo menos em excesso, levaria a um ensimesmamento do indivíduo, o que pode reforçar o individualismo observado na contemporaneidade (Bauman, 1998).
Discordando de Daniel e de Eliza, Sônia considerava que antes as pessoas eram mais solitárias e lembrou quanto, independentemente da tecnologia, ficamos muitas vezes imersos no nosso mundo interno. Para ela, a tecnologia, na verdade, faz com que interajamos até mais uns com os outros, pois a todo momento troca-se conteúdos, procura-se por interesses em comum e vê-se pessoas pelas telas dos dispositivos digitais. Ela ainda acreditava que as TICs oferecem maior contato hoje, pois estaríamos constantemente vendo e interagindo uns com os outros. Um detalhe de sua fala faz refletir sobre outra problemática que as novas tecnologias trazem: ao falar que estamos “vendo” mais os outros, somos remetidos para o fato de que as mídias digitais - e isso já desde a televisão - têm aumentado significativamente a importância da imagem, em detrimento de outros sentidos. De acordo com Sadala (2009), vivemos em uma época que prioriza a imagem, a representação e a aparência. É notável a profusão de estampas e fotos que circulam atualmente pelas redes sociais.
Entretanto, primeiramente seria preciso questionar se essa exposição visual, quer dizer, “postar” conteúdos, se afiguraria como uma comunicação, uma vez que neste caso é uma via de mão única. Se se posta um conteúdo em uma mídia virtual, embora ele se torne público a partir desse momento, não necessariamente gerará um contato, pois o receptor poderá simplesmente visualizá-lo, mas não devolver nenhuma reação. Ainda assim, parece haver uma intenção de comunicar algo em quem o publica. Em outras palavras, diferentemente de antes, com a máquina fotográfica, por exemplo, em que o objetivo era apenas congelar e reter, por assim dizer, um dado momento da história, as inúmeras fotos que são compartilhadas hoje parecem querer transmitir uma mensagem. Neste sentido, essa via poderia ser pensada como uma forma de comunicação na medida em que visa atingir vários indivíduos, mesmo que não seja endereçada a alguém em específico. Percebemos aqui a impessoalidade da relação virtual.
Com base em Arendt (1958/2014), sobre o balanço entre vida doméstica e social, reflete-se também que essa exibição excessiva pode levar à confusão entre privado e público, como se houvesse um desejo em explicitar o que é da intimidade e ao mesmo tempo trazer o que é do outro para dentro da tela de seu próprio dispositivo. Em outras palavras, o privado é trazido a público e o público é trazido ao privado, respectivamente, sem a necessidade de sair de casa. A tecnologia, nesse sentido, não apenas media, mas também reconfigura os limites da experiência subjetiva e relacional.
Tomando-se uma das falas de Daniel, refletimos acerca de uma questão interessante sobre como a tecnologia vem afetando a percepção corporal e os limites do sentimento de si mesmo:
[...] quando eu vejo que eu estou com meu celular, que meu “WhatsApp” não vai funcionar por um dia, de repente uma semana, eu sinto muita falta, como se uma parte de mim não tivesse, como se eu quisesse falar com alguém e não pudesse e isso você sente muita falta (grifo nosso).
Nesta afirmação, tem-se a impressão de que o celular hoje, que é apenas um pedaço de plástico/metal, torna-se um prolongamento de si e ao mesmo tempo como se fosse a única via possível de contato com o outro. Desse modo, a tecnologia parece favorecer uma dependência do outro, já que ela, encurtando as distâncias e o tempo, facilita o sentimento de proximidade e o controle sobre o outro. Entretanto, é preciso questionar se a tecnologia de fato cria essa dependência ou apenas permite que ela se manifeste, pois, afinal, o homem é um ser social. A velocidade e instantaneidade dos meios digitais parece provocar um sentimento de urgência na comunicação virtual, como se a resposta ao outro devesse ser imediata (Han, 2017). Neste sentido, a relação intermediada pela TIC teria por característica atender ao desejo do outro prontamente, evitando assim frustrações e desprazeres. Como analisa Barros (2020), a comunicação digital produz a ilusão de um colapso do tempo e do espaço, criando uma experiência de simultaneidade que desafia os limites materiais da presença.
Enquanto Daniel percebia o celular quase como uma extensão de si mesmo, Sônia parecia animar os seus aparelhos tecnológicos, como se a tecnologia fosse uma companhia simbólica, especialmente importante talvez para pessoas que moram sozinhas, como ela. Estudos recentes apontam, entretanto, que, embora os dispositivos digitais possam oferecer a sensação de presença, eles não substituem a reciprocidade emocional das relações humanas (Silva; Costa, 2023).
Durante a entrevista, Daniel comentou que devido à influência da tecnologia, pensa faltar “diálogo”, “conversa” na família. Mas a partir dessa fala, reflete-se que, uma vez que pela tecnologia também é possível se ter um diálogo, então o que o diálogo real tem que o diálogo virtual não pode oferecer ou suprir? Em outras palavras, se é possível se comunicar e interagir por meio da tecnologia, então por que ela distanciaria as pessoas? E, ainda, em que medida um vínculo “real” diferiria de um vínculo “virtual”? Como apontam Casimiro e Neves (2021), o vínculo afetivo construído no ambiente digital pode ser legítimo, mas tende a ser mais fragmentado, menos espontâneo e mais sujeito à impessoalidade. O diálogo presencial envolve linguagem não verbal, sincronicidade emocional e co-presença física - elementos que favorecem a empatia e a construção de sentido compartilhado (Silva; Costa, 2023).
Percebemos que Sônia se vale dos novos recursos para potencializar seu contato com a neta, e demonstra saber usá-los a seu favor de forma a entrar em sintonia com ela. Já no caso de Mario, embora mostre ter uma relação bastante afinada com Daniel no contato presencial, de forma que o próprio neto tem a iniciativa de procurá-lo, pelos meios virtuais não parece ter esse mesmo domínio, ainda que tente. O que podemos verificar a partir disso é um desencontro geracional entre cada parte quanto ao uso da tecnologia. O avô se esforça por comunicar-se com seu neto por meio do universo digital, mas parece não conseguir aderir aos seus códigos de uso, e assim se sente frustrado ao não ser correspondido da forma esperada. Essa assimetria ilustra o que Rebelo dos Santos (2024) chama de “descompasso intergeracional digital”, em que o esforço de aproximação não é suficiente para garantir reciprocidade simbólica.
Isso se relaciona com outro tópico importante demonstrado nos relatos, principalmente nos da segunda dupla, qual seja a possibilidade de a tecnologia inverter a relação entre gerações (Marques, 2012). A função do idoso como detentor de saber, que deve transmitir conhecimento, parece dar lugar ao seu contrário, como se o jovem fosse hoje esse detentor e que passa agora a ensinar as gerações mais velhas. De fato, o sentido de hierarquia e autoridade nas relações familiares tem diminuído e a relação avós-netos tem se tornado mais próxima e afetiva (Coelho; Osório; Silva Neto, 2023). Para Casimiro e Neves (2021), as TICs reconfiguram as relações intergeracionais, promovendo maior horizontalidade e afetividade, mas também gerando tensões quanto à autoridade e à legitimidade do saber.
O avô entrevistado percebe essa inversão e, apesar de sustentar seu lugar como aquele de maior experiência, de fato considera que o idoso deve atualmente não apenas ensinar, como aprender também, havendo uma troca maior. Já a avó não acha que esse seja um fenômeno novo e cita que o que o computador está sendo para os idosos de hoje, a televisão foi para os idosos do passado, como sua avó, que também teve que aprender “como” assisti-la, algo que hoje parece simples e intuitivo.
De fato, a tecnologia, por ser um acontecimento que se atualiza velozmente, divide os indivíduos entre os que a dominam e os que não a dominam. Em outras palavras, estes seriam as gerações mais velhas, que antecedem o surgimento de um determinado recurso, e aqueles as gerações mais novas, que o sucedem. Nesse sentido, a inserção ou não nas redes digitais passa a funcionar como um novo critério de distinção social, que se sobrepõe a outros marcadores tradicionais, como escolaridade ou classe econômica, e que pode até mesmo reforçá-los. Trata-se de uma forma contemporânea de exclusão simbólica, que não se dá apenas pela ausência de acesso, mas também pela dificuldade de apropriação dos códigos culturais e comunicacionais que circulam nesses ambientes. Assim, mais do que uma “nova casta”, a tecnologia pode ser compreendida como um dispositivo de estratificação relacional, que redefine quem está dentro ou fora dos circuitos de pertencimento e visibilidade social (Silva; Costa, 2023; Hirata; Fachin, 2021).
Mas se é verdade, então, que essa inversão de gerações não é um evento novo, ela hoje pode se intensificar pela aceleração das TICs e pela grande mudança que representaram (Maldonado, 2012), o que pode levar a consequências como a desvalorização do idoso que se verifica na atualidade (Almeida; Lemos, 2024). No entanto, indo na contramão dessa hipótese e levando em conta a rápida adaptação da população idosa aos novos recursos virtuais (Torres; Dias, 2017), poderia ser possível pensar também em uma tendência ao estreitamento geracional entre idosos e jovens, bem como em uma tendência a uma igualação entre as duas classes, justamente dada a diminuição das hierarquias.
Finalmente, apesar de se observar que os netos pesquisados ensinam e ajudam seus avós com os elementos tecnológicos, isso não ocorre apenas nesse tocante - pelo menos no caso de Eliza isso fica explícito -, o que faz pensar que talvez o que haja hoje é uma permissão maior para que o jovem exerça esse papel, enquanto anteriormente não havia esse espaço, já que o idoso deveria manter uma posição de autoridade inabalável. Assim, essa inversão ocorreria não apenas na dimensão tecnológica, embora a tecnologia possa, é verdade, ter sido um dos fatores que contribuiu para essa maior abertura. Isso é reforçado pelo fato de ambos os avós referirem que sentiam diferença na relação que eles tinham com seus próprios avós, mais formal, comparada com a que eles têm com seus netos hoje.
Considerações finais
Este estudo teve como objetivo compreender como avós e netos se relacionam por meio das tecnologias da informação e da comunicação (TICs) e como avaliam essa experiência. A tecnologia parece ser um fator de peso nas transformações familiares contemporâneas, incluindo a relação de avós-netos, como, por exemplo, suas implicações na dissolução ou diluição das hierarquias que se observa hoje. Na primeira dupla, a tecnologia tinha pouca importância, talvez até mesmo pelo fato de avô e neto serem vizinhos, o que não justificaria uma das principais funções da TIC, que é poder aproximar as pessoas apesar da distância. Já na segunda, ela tinha maior presença, servindo como meio de interação entre ambas, ainda que não fosse imprescindível para sua relação, mesmo diante do grande apego da avó pelo mundo virtual e a sua desenvoltura para o uso das diversas TICs.
Observou-se que, apesar de a TIC poder estar causando certas transformações relacionais e até sociais, o vínculo em si mesmo seria o fator suficiente e determinante para ditar a qualidade da relação entre avós e netos, pelo menos nas duplas aqui investigadas, e que a tecnologia, apesar de seus efeitos, não teria poder nem de destruir nem de fazer emergir um vínculo onde não há.
Este estudo se destaca por sua relevância social e acadêmica ao abordar as transformações nas relações intergeracionais mediadas pelas tecnologias digitais. A escolha pelo método clínico-qualitativo permitiu uma escuta aprofundada dos sujeitos, valorizando a singularidade dos relatos e revelando nuances que dificilmente seriam captadas por abordagens quantitativas. A originalidade da proposta, aliada à atualização teórica e à sensibilidade analítica, constitui colaboração importante para a área. A investigação também oferece subsídios para políticas públicas voltadas ao envelhecimento ativo e à inclusão digital de idosos, além de contribuir para o campo da Psicologia ao articular os impactos das TICs com os processos subjetivos e relacionais entre avós e netos.
Como toda pesquisa qualitativa de natureza exploratória, este estudo apresenta algumas limitações. O número reduzido de participantes impede generalizações e exige cautela na extrapolação dos achados. A escolha por não utilizar categorias analíticas pré-definidas privilegiou a escuta singular dos sujeitos, mas pode dificultar a replicabilidade metodológica. Além disso, o recorte temporal da coleta de dados, realizada em 2017, delimita o estudo a um contexto tecnológico e social específico, anterior a transformações significativas no uso das TICs. Ainda assim, essas limitações não comprometem a validade da análise, mas indicam a necessidade de investigações complementares que ampliem a amostra, diversifiquem os contextos e atualizem os referenciais empíricos.
Embora os dados deste estudo tenham sido coletados em 2017, é importante reconhecer que o cenário tecnológico e social passou por transformações significativas desde então. A pandemia de COVID-19, por exemplo, intensificou a digitalização das relações familiares, com o uso massivo de redes sociais, videochamadas e plataformas de ensino remoto, o que pode ter alterado a forma como avós e netos se conectam virtualmente (Silva; Oliveira; Lima, 2021).
Mais recentemente, o surgimento das IAs generativas ou LLMs - como ChatGPT, Copilot e outras - levanta questões sobre a delegação de tarefas cognitivas e o possível impacto na criatividade e na autonomia do pensamento humano. Com efeito, estudos indicam que o uso frequente dessas ferramentas pode reduzir a atividade cerebral em áreas ligadas à atenção e à criação, favorecendo o chamado “descarregamento cognitivo” (Gerlich et al., 2025; Kumar et al., 2024). Além disso, medidas restritivas inéditas vêm sendo adotadas por países como Dinamarca e Austrália, que anunciaram a proibição do uso de redes sociais por menores de 15 e 16 anos, respectivamente, pois já consideram o seu uso precoce uma questão de saúde pública (Deutsche Welle, 2025a; Deutsche Welle, 2025b). Nesse mesmo cenário, observa-se também o aumento de fraudes digitais, que atingem especialmente jovens e idosos (Serasa Experian, 2025), reforçando a vulnerabilidade desses grupos no ambiente virtual.
Tais fenômenos não estavam presentes à época da pesquisa, e por isso, antes de serem limitações do estudo, podem ser compreendidos talvez como um dado - senão um sintoma - da própria lógica das TICs, cuja natureza é marcada por transformações rápidas, imprevisíveis e de largo alcance (Santos; Machado, 2024). A aceleração tecnológica, ao mesmo tempo em que amplia possibilidades de conexão, também impõe desafios éticos, subjetivos e relacionais que ainda estão em processo de elaboração social e psíquica.
Vemos, assim, que as TICs passaram de um “boom” de utilização ao longo da pandemia para um momento atual de crescente regulação e crítica. A questão que se impõe é: como esse cenário continuará a se desenvolver, e quais implicações trará para o ser humano - seu criador e, ao mesmo tempo, seu principal impactado?
Declaração de Disponibilidade de Dados:
O conjunto de dados não está publicamente disponível devido a conter informações que podem comprometer a privacidade dos participantes da pesquisa.
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As autoras agradecem à CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior e à FAPESP - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (processo nº: 2016/13849-2), pelo apoio financeiro oferecido ao desenvolvimento da pesquisa que teve como fruto este artigo. Agradecem também ao apoio da ferramenta Microsoft Copilot, utilizada como recurso auxiliar durante a revisão do manuscrito.
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Como citar este artigo:
ABNT DARÓ, Beatriz Rall; GOMES, Isabel Cristina. Percepção de avós e netos sobre a comunicação virtual. Fractal, Rev. Psicol., Niterói, v. 38, e27365, 2026. https://doi.org/10.22409/zx2ewm92APA Daró, B. R., & Gomes, I. C. (2026). Percepção de avós e netos sobre a comunicação virtual. Fractal, Rev. Psicol., 38, e27365. https://doi.org/10.22409/zx2ewm92
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Copyright © 2026 Daró, B. R., & Gomes, I. C. Este é um artigo em acesso aberto distribuído nos termos da Licença Creative Commons Atribuição que permite o uso irrestrito, a distribuição e reprodução em qualquer meio desde que o artigo original seja devidamente citado. Copyright © 2026 Daró, B. R., & Gomes, I. C. This is an Open Access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution License, which permits unrestricted use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original article is properly cited.
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Editora responsável pelo processo de avaliação:
Cláudia Castanheira de Figueiredo
