Open-access Qual teste tem melhor acurácia para rastrear quedas em idosos comunitários: força de preensão manual ou o teste de sentar e levantar da cadeira?

RESUMO

Diversos instrumentos podem ser utilizados para o rastreio de quedas em idosos, dentre os quais destacam-se a força de preensão manual (FPM) e o teste de sentar e levantar da cadeira de 5 repetições (TSLC5rep). No entanto, não se sabe qual dos dois testes teria maior capacidade preditiva para identificar associação com o histórico de quedas. Esse conhecimento poderá identificar idosos com maior risco de cair e permitir a proposição e o estabelecimento de estratégias de prevenção e reabilitação precoce. Busca-se, portanto, determinar qual teste de força tem melhor acurácia para rastrear quedas em idosos comunitários: a FPM ou o TSLC5rep. Tratou-se de um estudo transversal, com amostra probabilística de 308 idosos comunitários. A variável dependente foi o histórico de quedas relatadas nos últimos 12 meses, e as variáveis analisadas foram o desempenho nos testes FPM e TSLC5rep. A análise estatística foi realizada por meio da receiver operating characteristic curves (ROC). A FPM obteve melhor acurácia para rastrear quedas em idosas comunitárias do sexo feminino. Idosas com FPM16,05kgF [AUC: 0,69 (95%IC:0,54-0,81)] têm maiores chances de apresentarem histórico de quedas. Não foram encontrados valores preditos para a FPM em homens, nem para o TSLC5rep em homens e mulheres.

Descritores:
Acidentes por Quedas; Força da Mão

ABSTRACT

Various instruments can be used to screen for falls in older adults, notably the five-times sit-to-stand test (5XSST) and handgrip strength (HGS). However, knowledge on which of the two presents greater predictive ability to identify an association with fall history is missing. This knowledge may help identify older adults at higher risk of falling and enable the proposal and implementation of early prevention and rehabilitation strategies. Hence, this study sought to determine which strength test presents better accuracy for screening for falls in community-dwelling older adults: HGS or 5XSST. A cross-sectional study was conducted with a probabilistic sample of 308 community-dwelling older adults. Dependent variable consisted of self-reported fall history in the past 12 months; predictive variables included the performance on the 5XSST and HGS tests. Statistical analysis used Receiver Operating Characteristic (ROC) curve. HGS showed better accuracy for screening for falls in community-dwelling older women. Older women with HGS ≤ 16.05 kgf [AUC: 0.69 (95%CI: 0.54-0.81)] are more likely to have a history of falls. No predictive values were found for HGS in men, nor for 5XSST in either men or women. HGS is an important screening tool for falls in community-dwelling older women.

Keywords:
Accidental Falls; Hand Strength.

RESUMEN

Varios instrumentos pueden utilizarse para realizar un seguimiento de las caídas en los adultos mayores, entre los cuales se destacan la fuerza de agarre manual (FAM) y la prueba de sentarse y levantarse en la silla de 5 repeticiones (PSLS5rep). Sin embargo, no se sabe cuál de las dos pruebas tendría la mayor capacidad predictiva para identificar una asociación con el historial de caídas. Este conocimiento puede identificar a los adultos mayores con mayor riesgo de caídas y permitir la propuesta y la elaboración de estrategias de prevención y rehabilitación temprana. Así, se pretende determinar qué prueba de resistencia tiene mejor precisión para rastrear caídas en adultos mayores que viven en comunidad: la FAM o la PSLS5rep. Se trata de un estudio transversal, con una muestra probabilística de 308 adultos mayores que viven en comunidad. La variable dependiente fue el historial de caídas reportado en los últimos 12 meses, y las variables evaluadas fueron el desempeño en las pruebas FAM y PSLS5rep. El análisis estadístico se realizó mediante el uso de receiver operating characteristic curves (Roc). La FAM obtuvo una mejor precisión para rastrear las caídas en mujeres mayores que viven en comunidad. Las mujeres mayores con FAM≤16,05 kgF [AUC: 0,69 (IC 95%:0,54-0,81)] tienen más probabilidades de haber sufrido caídas anteriormente. No se encontraron los valores pronosticados para FAM en hombres ni para la PSLS5rep en hombres y mujeres.

Palabras clave:
Accidentes por Caídas; Fuerza de Mano.

INTRODUÇÃO

As quedas são descritas como um deslocamento não intencional do corpo para um nível inferior à sua posição inicial incapaz de ser corrigido em tempo hábil, determinado por circunstâncias multifatoriais que comprometem a estabilidade1. São consideradas um problema de saúde pública, devido à sua alta prevalência e incidência na população idosa, pois estima-se que 27% dos idosos comunitários brasileiros caem a cada ano2. Causam consequências físicas3, psicológicas4) e sociais5, sendo responsáveis pelo aumento das taxas de morbidade e mortalidade6, fraturas e hospitalizações7.

As quedas são multifatoriais8, sendo associadas a alterações proprioceptivas9, comprometimento visual10 e disfunções no equilíbrio e na marcha11. Além disso, uma das causas pode ser a redução da força muscular12. O Grupo Europeu de Trabalho sobre Sarcopenia em Idosos 2 (EWGSOP2)13) propõe que a avaliação da redução em força muscular possa ser realizada pela força de preensão manual (FPM)14) ou pelo teste de sentar e levantar da cadeira de 5 repetições (TSLC5rep)15, pois são testes rápidos e de fácil aplicabilidade, além de serem preditores de desfechos negativos em saúde16.

Evidências sugerem o uso do TSLC5rep16-19) e FPM16),(19),(20 para avaliar a predisposição a queda. Buatois et al.18 demonstraram que indivíduos que despenderam 15 segundos ou mais para completar o TSLC5rep tiveram maior risco de quedas recorrentes. Gafner et al.21 recomendam a FPM para a avaliação do risco de cair em idosos hospitalizados e comunitários. Contudo, não se conhece qual desses dois testes seria mais indicado para rastrear quedas em idosos de forma a favorecer a identificação daqueles mais suscetíveis a cair. Assim sendo, o objetivo deste estudo foi determinar qual teste de força tem melhor acurácia para rastrear quedas em idosos comunitários: o teste de FPM ou o TSLC5rep.

METODOLOGIA

Desenho do estudo

Tratou-se de um estudo de corte transversal, com amostra probabilística, realizado com 308 idosos comunitários residentes no município Balneário Arroio do Silva (SC), Brasil.

Seleção da amostra

O cálculo amostral levou em consideração o total da população idosa cadastrada no sistema de saúde do município (n=2883). Foi estimada a prevalência de 50% para desfechos desconhecidos, adotando-se um nível de confiança de 95% e erro amostral de seis pontos percentuais, estimando-se, assim, a necessidade de 302 voluntários para o estudo. Foram excluídos os idosos com quadro sugestivo de comprometimento cognitivo, sendo adotado o ponto de corte para classificação do declínio cognitivo proposto por Bertolluci et al.22, que considera: analfabetos (13 pontos), baixa e média escolaridade (18 pontos) e alta escolaridade (26 pontos), acamados, dependentes nas atividades diárias, portadores de doenças neurológicas e ortopédicas, com alterações graves de equilíbrio, da visão e audição que impedissem a realização dos testes avaliativos do estudo, e idosos residentes em instituições de longa permanência ou que mudaram seu endereço residencial.

Instrumentos de medidas

A variável dependente foi o autorrelato de histórico de quedas nos últimos 12 meses1. As variáveis preditoras foram o desempenho no TSLC5rep e na FPM. O TSLC5rep foi realizado com o movimento de se sentar e levantar de uma cadeira com altura padrão de 43cm, repetido cinco vezes, o mais rápido possível, com os braços cruzados diante do tórax15. O desempenho foi avaliado por meio da medida do tempo despendido pelo indivíduo para a realização do teste, mensurado em segundos.

Para a realização do teste de FPM utilizou-se um dinamômetro manual hidráulico da marca Saehan (Modelo SH5001, Saehan Corporation, Changwon, 630-803, Korea). O teste foi realizado com o idoso sentado, com angulação de flexão de joelho em 90°, ombro em adução e rotação neutra, flexão de cotovelo em 90°, antebraço e punho em posição neutra23. Foi solicitada a contração isométrica durante seis segundos, em duas tentativas, na qual foi analisado o valor médio entre as duas tentativas. Os valores brutos e normalizados para massa corporal (kg), estatura (m) e índice de massa corporal (IMC) (kg/m2) do TSLC5rep e da FPM apresentados nos resultados estão separados por sexo.

Análise estatística

Os dados foram inseridos no programa estatístico SPSS (IBM®, Chicago, IL, USA), versão 23.0. O nível de significância adotado foi de 5%. Foram realizadas análises descritivas e apresentados os valores das proporções (%) e respectivos intervalos de confiança de 95% (IC95%).

Foi realizada a análise Receiver Operating Characteristic Curves (ROC) para avaliação da sensibilidade, especificidade, razão de probabilidade para teste positivo (+LR) e negativo (-LR) para a variável de desfecho.

RESULTADOS

Dentre os 540 idosos elegíveis, 64 foram excluídos por mudanças de endereço, 31 por registros incompletos, 29 por recusa, 84 por perdas e 24 por óbito, totalizando 308 idosos avaliados (Figura 1). A amostra foi composta em sua maioria por mulheres (57,8%), com faixa etária predominante de 60-69 anos (57,3%). Além disso, 32,7% da amostra apresentou histórico de quedas nos últimos 12 meses. Os dados de caracterização da amostra estão descritos na Tabela 1.

Figura 1
Fluxograma de representação da elegibilidade da amostra

A variável com melhor acurácia para rastrear quedas em idosos comunitários foi o teste de FPM para o sexo feminino. O ponto de corte com melhores valores de sensibilidade e especificidade foi de ≤16,05kgF, com AUC de 0,69 (95%IC:0,54-0,81). Além disso, foi demonstrada a capacidade de rastrear quedas do teste de FPM ajustado para IMC com AUC de 0,71 (95%IC:0,55-0,84) e massa corporal com AUC de 0,72 (95%IC:0,56-0,84) em idosas. Não foi observado resultado significativo no rastreio de quedas para a variável FPM ajustada para estatura em idosas.

Ao considerar o sexo masculino, o teste de FPM e de FPM ajustado para massa corporal, estatura e IMC também não obtiveram valores significativos. Com relação ao TSLC5rep, não foram obtidos resultados significativos no rastreio de quedas em idosas e idosos comunitários. Além disso, em ambos os sexos o desempenho obtido no TSLC5rep normalizado para massa corporal, estatura e IMC não foi capaz de predizer quedas.

Tabela 1
Caracterização da amostra e desempenhos nos testes de FPM e TSLC5rep em idosos comunitários residentes no município de Balneário Arroio do Silva (SC) Brasil
Tabela 2
Análise da área sob a curva ROC e valores preditivos gerais e específicos do teste de FPM
Tabela 3
Análise da área sob a curva ROC das variáveis em idosos e idosas comunitárias.

DISCUSSÃO

Este estudo teve como objetivo determinar qual teste tem melhor acurácia para rastrear quedas em idosos comunitários: a FPM ou o TSLC5rep. Como principais achados observou-se que idosas com FPM≤16,05kgF tiveram melhores valores de acurácia para histórico de quedas. Não foram encontrados valores preditos para a FPM em homens, nem para TSLC5rep em homens e mulheres.

Wang et al.24 demonstraram que valores inferiores a 18,65kg em idosas e 28,35kg em idosos com diabetes estiveram associados a histórico de quedas. Shimada et al.25 observaram que idosos comunitários com FPM≤17kg são mais suscetíveis a quedas. Em idosos hospitalizados e residentes na comunidade, a FPM≤70kPa está associada a ocorrência de quedas21. Além disso, o estudo de Pijnappels et al.26 demonstra que a FPM obteve sensibilidade e especificidade para discriminar idosos caidores e não caidores. Os dados deste estudo foram diferentes dos supracitados. No entanto, destaca-se que foram obtidos maiores valores de especificidade e menores de sensibilidade.

Os mecanismos envolvidos na associação entre baixa FPM e quedas ainda não são totalmente compreendidos. No entanto, a FPM correlaciona-se com a força global em idosos residentes na comunidade27. Yang et al.19 sugerem que idosos caidores apresentam uma força isométrica prejudicada em comparação com os não caidores. Além disso, a força muscular de membros superiores é necessária para a realização da maioria das atividades básicas e instrumentais diárias. Sendo assim, espera-se que idosos comunitários obtenham melhor desempenho na realização do teste16. Apesar de este estudo não ter avaliado a sarcopenia, nosso ponto de corte para predizer risco de histórico de quedas utilizando a FPM foi similar ao obtido pelo EWGSOP2 para o diagnóstico de sarcopenia.

Embora com o avançar da idade a perda da função muscular verificada pela FPM seja maior que o declínio da massa muscular nos membros superiores, principalmente em homens28, estudos anteriores também demonstraram a associação da menor FPM com quedas em idosas, mas não em idosos24),(29),(30. Tavares et al.29 observaram que idosas caidoras têm menor FPM quando comparadas às não caidoras, o que pode estar relacionado com o desenvolvimento de sarcopenia, do envelhecimento e da inatividade física. A baixa FPM está independentemente associada a um risco significativamente maior de quedas, particularmente em mulheres com equilíbrio prejudicado30. Além disso, a FPM está associada ao risco de quedas em idosas com diabetes. No entanto, não foi observada associação do risco de quedas e FPM em idosos diabéticos24.

A redução da força muscular de membros inferiores é considerada um fator de risco para ocorrência de quedas26, e seu declínio com o envelhecimento é maior quando comparado aos membros superiores31. Zhang et al.17 observaram que a incapacidade de completar o TSLC5rep foi associada a quedas incidentes de idosos italianos acompanhados por três anos. Estudos anteriores evidenciaram a utilização do TSLC5rep para predizer quedas em idosos institucionalizados acima de 80 anos16 e em idosas12. No entanto, neste estudo o TSLC5rep não obteve valores significativos para rastrear quedas em idosos comunitários de ambos os sexos. Todavia, cabe ressalvar que essa diferença pode se dever às características sociodemográficas da amostra, neste estudo constituída de idosos comunitários, com faixa etária predominante de 60-69 anos. Além disso, foi avaliado o histórico de quedas nos últimos 12 meses, e não as quedas recorrentes. Os achados deste estudo corroboram os de Porto et al.32, nos quais foi demonstrado que o pico de torque de membros inferiores não está associado com quedas futuras em idosos comunitários independentes e autônomos. Dessa forma, os autores sugerem a utilização de testes para avaliação da força de membros inferiores para idosos comprometidos funcionalmente que apresentam problemas de mobilidade, são institucionalizados ou sofrem de quedas recorrentes.

Este estudo fornece contribuições para a prática clínica, pois permite a identificação de idosas suscetíveis a quedas por meio da utilização de um teste recomendado, rápido e de fácil aplicabilidade, além de demonstrar melhor eficácia quando comparado aos testes de mobilidade33.

CONCLUSÃO

A FPM é um instrumento de medida acurado para o rastreio de quedas em idosas comunitárias que pode ser utilizado na prática clínica e em pesquisas científicas.

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Editado por

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    Sônia LP Pacheco de Toledo

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    22 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    14 Jun 2022
  • Aceito
    11 Mar 2023
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