RESUMO
O objetivo deste trabalho é investigar, na base de dados Science Direct, informações científicas sobre atividade física, covid-19 e câncer infantojuvenil, através de uma revisão integrativa, utilizando três combinações de palavras-chave. Cinquenta publicações mais relevantes de cada combinação de palavras-chave foram selecionadas, e chegou-se a 26 artigos elegíveis no período compreendido entre agosto de 2019 e julho de 2021, dos quais nove eram textos duplicados. Aplicando-se os critérios de exclusão, foram selecionados 11 estudos completos. Constatou-se que o nível de atividade física (AF) de crianças com câncer ou sobreviventes do câncer é baixo e que entre as mudanças causadas pela pandemia de covid-19 estão a diminuição do nível de AF e o aumento do uso de dispositivos tecnológicos. As recomendações mínimas de AF para essa população variam, entretanto há evidências que sustentam sua importância e seus benefícios ao minimizar os efeitos adversos oriundos do próprio câncer e do tratamento médico realizado. As intervenções baseadas em exercícios, para as quais já há evidência de eficácia, devem ser escolhidas e realizadas a partir do tipo de câncer e na fase do tratamento em que a criança está.
Descritores|
Covid-19; Atividade Física; Câncer; Crianças; Crianças Sobreviventes ao Câncer
ABSTRACT
This study aims to investigate up-to-date scientific information about physical activity, COVID-19, and childhood cancer. This study is an integrative review. Research was conducted in the Science Direct database, using keywords in three different combinations. In total, 50 publications classified as the most relevant of each keyword combination were selected, 26 eligible publications were reached from August 2019 to July 2021, of which nine were duplicates. When exclusion criteria were applied, 11 complete studies were selected. The level of physical activity (PA) of children diagnosed with cancer or those who survived cancer is low. Changes due to the COVID-19 pandemic include the decrease in the level of PA and the increase in the use of technological devices. The minimum PA recommendations for this population vary but some evidence supports its importance and benefits in minimizing the adverse effects arising from cancer and from the performed medical treatment. Exercise-based interventions should be chosen and carried out considering the type of cancer and the stage of treatment the child is in due to the evidence of its effectiveness.
Keywords|
COVID-19; Physical Activity; Cancer; Children; Childhood Cancer survivor(s)
RESUMEN
Este estudio tiene como objetivo investigar, en la base de datos ScienceDirect, la información científica actualizada sobre actividad física, COVID-19 y cáncer infantil, mediante una revisión integradora, en la cual se utilizaron las palabras clave en tres combinaciones diferentes. Se seleccionaron cincuenta publicaciones clasificadas como las más relevantes de cada combinación, y se alcanzaron 26 publicaciones elegibles en el periodo entre agosto de 2019 y julio de 2021, de las cuales nueve fueron textos duplicados. Al aplicar los criterios de exclusión, se seleccionaron 11 artículos completos. El nivel de actividad física (AF) de los niños diagnosticados de cáncer o supervivientes de cáncer es bajo, y entre los cambios provocados por la pandemia de la COVID-19 se encuentran la disminución del nivel de AF y el aumento en el uso de dispositivos tecnológicos. Las recomendaciones mínimas de AF para esta población varían entre sí, sin embargo, existe evidencia que respalda su importancia y los beneficios en la minimización de los efectos adversos derivados del propio cáncer y del tratamiento médico realizado. Las intervenciones basadas en ejercicios, para la cual ya existe evidencia de efectividad, deben elegirse y llevarse a cabo teniendo en cuenta el tipo de cáncer y la etapa de tratamiento en la que se encuentra el niño.
Palabras clave|
COVID-19; Actividad física; Cáncer; Niños; Sobrevivientes de cáncer infantil
INTRODUÇÃO
De todas as doenças que acometem crianças, o câncer (CA) é a principal causa de mortalidade1. Apesar disso, a taxa de sobrevivência relativa de cinco anos para todas as crianças com CA é de aproximadamente 80% nos países desenvolvidos2), (3), (4), (5, o que vem colocando em foco os efeitos de longo prazo do tratamento, com os efeitos tardios do câncer infantil (CI) representando uma carga emocional e física contínua sobre as crianças e famílias6.
Pesquisas mostram que mais de dois terços dos sobreviventes do CI relataram pelo menos um efeito adverso tardio, físico ou psicológico, incorrido por tratamentos de CA anteriores7), (8. Esses efeitos incluem obesidade9, fadiga relacionada ao CA10, complicações musculoesqueléticas e pulmonares11), (12, distúrbios do sono13, disfunções cardiopulmonares14 e sofrimento psicológico15. Além disso, a maioria das crianças com CA são fisicamente inativas6), (16), (17, apesar de haver um grande conjunto de evidências de que a atividade física (AF) melhora os sintomas relacionados ao CA, particularmente a fadiga18), (19, e de que a inatividade física é um problema de saúde pública, bem como um dos principais fatores de risco que aumentam a mortalidade global20. No entanto, são necessários mais estudos para entender melhor os benefícios do exercício físico em pacientes com CA21, já que as diretrizes sobre recomendações mínimas de AF ainda divergem tanto entre si22), (23.
Ademais, em janeiro de 2020, mais de 100 milhões de indivíduos foram diagnosticados com covid-19, com mais de 2 milhões de mortes relatadas em todo o mundo24. Como uma das medidas protetivas adotadas para populações de risco, consultas médicas não urgentes de indivíduos com câncer foram postergadas e transicionadas para consultas via telefone/telemedicina nos meses iniciais da pandemia25), (26), (27. Em abril do mesmo ano, o fechamento de escolas afetou 1,6 bilhão de alunos, em 190 países28, acarretando números alarmantes sobre o período do primeiro lockdown de 2020: crianças e adolescentes (10 a 17 anos) aumentaram o tempo diário de tela, de cerca de quatro para sete horas29. Como já está descrito na literatura, o uso excessivo de smartphones, tablets, computadores e videogames está positivamente relacionado à falta de AF30. Assim, este trabalho tem como objetivo investigar informações científicas atualizadas sobre AF, covid-19 e CI.
Exercícios físicos regulares, conjuntamente ao tratamento do câncer, necessitam de atenção especial, mesmo antes da pandemia do novo coronavírus. Em estudo realizado por meio de anúncios de mídia social, nos quais os participantes, entrevistados através de gravações, completaram as medidas de resiliência (item 2 da Connor-Davidson Resilience Scale, que avalia “a tendência a se recuperar após doenças ou dificuldades”) e distress (The National Comprehensive Cancer Network Distress Thermometer), os resultados destacaram as complexidades e dualidades de conviver durante, depois ou cuidar de alguém com câncer no período da pandemia de covid-19. O maior desafio causado pela covid foi manter as crianças dentro de casa, pois elas queriam sair e brincar com as demais crianças40.
A gravidade do câncer e o tratamento afetaram o sistema imunológico, fazendo com que cada hospital necessitasse se organizar para atender às necessidades reais e executar os tratamentos necessários conforme cada caso, em tempos de covid-1939. A problemática que motivou nosso grupo de pesquisa a realizar esta investigação foi a necessidade de não perder o seguimento da pesquisa por nós realizada em unidade hospitalar e preparar a retomada das atividades de pesquisa presenciais em 2021, entendendo como estavam sendo realizados os estudos em outras instituições e a atividade física na vida cotidiana dos pacientes durante a pandemia.
METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão integrativa, que sintetiza resultados de pesquisas anteriores31. Utilizando-se os acrônimos PICO, desejou-se investigar qual o efeito da atividade física no tratamento de crianças e adolescentes com câncer durante a pandemia de covid-19 e o que foi publicado de mais relevante entre agosto de 2019 e julho 2021. Os dados foram coletados no período supramencionado na base de dados Science Direct, classificados pela relevância, revisados por pares, no inglês. Utilizou-se como critério de inclusão pesquisas que investigassem atividade física relacionada a câncer e covid-19, e, como critérios de exclusão, estudos focados nos aspectos nutricionais e psicológicos e outros temas não focados na atividade ou exercício físico. Os estudos foram selecionados com base no título e resumo, usando os critérios de inclusão e exclusão, e, em seguida, revisados independentemente, e as discrepâncias foram resolvidas por meio de discussão. Cinco avaliadores realizaram a triagem por títulos, leram os resumos e, por fim, selecionaram os documentos finais para leitura na íntegra. A estratégia de busca e seleção dos artigos estão detalhadas na Figura 1.
Fluxograma de itens de relatório preferidos para revisões sistemáticas e metanálises (PRISMA).
RESULTADOS
Os detalhes sobre a estratégia de busca e sobre a seleção dos estudos estão na Figura 1. Foram encontradas 65.325 publicações científicas. Inicialmente, selecionaram-se por tema as 50 publicações mais relevantes de cada combinação de MeSH termos, sendo que atenderam aos critérios de inclusão, de cada uma das três combinações, 26 publicações, das quais nove eram textos duplicados. Aplicando-se os critérios de exclusão, foram selecionados 11 artigos, dos quais: duas pesquisas qualitativas, duas revisões sistemáticas, dois estudos transversais prospectivos, duas revisões de literatura, um estudo quasi-experimental, uma diretriz de prática clínica (guideline) e um estudo exploratório. Seus respectivos detalhamentos estão no Quadro 1.
DISCUSSÃO
Este trabalho fornece uma revisão integrativa da literatura mais recente sobre AF, covid-19 e CI. E, de modo geral, poucos estudos publicados no período descreveram a relação entre os três tópicos, sendo os principais temas encontrados: a influência e participação dos pais e responsáveis na promoção de AF de seus filhos32), (33), (34, o efeito de determinadas intervenções em um grupo específico22), (23), (35, e a descrição de componentes de saúde de crianças com CA6), (14), (17.
Nos artigos encontrados, a AF é citada como vital para o desenvolvimento saudável de crianças com ou sobreviventes de CA (CSCA), uma vez que pode minimizar não só os efeitos debilitantes advindos da doença, mas também do tratamento médico realizado, e ajudar a prevenir uma vasta gama de complicações na sobrevivência destas6), (14), (17), (22), (23), (36.
Contudo, crianças com ou sobreviventes de câncer mostram baixa participação em AF conforme ratificam três dos estudos incluídos6), (17), (23 neste trabalho. Na pesquisa de Murphy-Alford et al.6, 57 dos 74 sujeitos completaram a AF diária proposta, dentre os quais as meninas tiveram um nível de AF mais baixo quando comparado ao dos meninos, e cuja média do nível de AF da população foi característica de um estilo de vida sedentário ou levemente ativo. O estudo de Rehorst-Kleinlugtenbelt17 encontrou resultados similares, pois sua amostra não atendeu à recomendação mínima de AF, e pontuou abaixo do número recomendado de passos por dia, o que também levou à verificação de que os níveis de AF foram significantemente mais baixos nos pacientes em ambiente hospitalar em comparação com as crianças avaliadas no ambiente doméstico. A revisão sistemática de Ho14 revela também que CSCA são conhecidas por terem baixa participação em AF e baixos níveis de gasto energético.
Os artigos encontrados também abordaram a importância da educação em saúde para responsáveis de CSCA, de forma que sejam abordados os benefícios da AF, além de estimular sua prática17), (33. No trabalho de Lam34, a maioria das crianças descreveu experienciar o acompanhamento de um treinador no programa, o que indica que a presença de um exemplo e companhia é importante para motivar crianças com CA a serem fisicamente ativas. A pesquisa feita por Cheung33 concluiu que a maioria dos responsáveis não compreende os benefícios da AF para crianças sobreviventes ao CA, metade não tinha certeza sobre o nível de AF recomendado para seus filhos e quais são apropriadas ou não para essa população. Portanto, pais/cuidadores e crianças devem ser informados acerca dos benefícios e recomendações da AF para o público com CI, para que, deste modo, possam encorajar e estimular a adesão de tal prática por parte de suas crianças33), (17), (22.
As recomendações mínimas de Atividade Física para CSCA ainda variam bastante entre si22), (23. Enquanto o Children’s Oncology Group recomenda a prática de AF por 60 min/dia, cinco dias por semana, durante a sobrevivência pós-tratamento37, a diretriz clínica sobre o manejo da fadiga recomenda que a AF seja adaptada às necessidades específicas de cada criança e adolescente22), (23. Ao avaliar o efeito de exercícios em crianças com leucemia linfoblástica aguda durante e após a quimioterapia, confirmou-se que houve melhora da fadiga durante a quimioterapia aguda; AF, amplitude de movimento (ADM), força, densidade mineral óssea, capacidade aeróbia e fadiga durante a quimioterapia de manutenção; mobilidade funcional, ADM, força, fadiga e capacidade aeróbia durante a sobrevivência pós-tratamento22. Além disso, a prevalência de efeitos colaterais específicos aparecera em apenas em dois de 19 estudos presentes na revisão sistemática de Coombs22, porém nenhum citou prejuízos ou efeitos adversos associados a intervenções motoras. Tanner23 também ressalta que a reabilitação tem um ótimo potencial de diminuir o impacto do CA e do seu tratamento, e pode ter um papel na redução de morbidade e mortalidade, porém mais pesquisas sobre essa relação são necessárias.
Em relação ao tipo de exercício e seus efeitos, de acordo com Coombs22, as intervenções são inúmeras, e devem ser escolhidas e realizadas com base na fase do tratamento em que a criança se encontra e para as quais já há evidência de eficácia. Exemplo é o exercício AeRop (técnica que combina exercícios aeróbicos com relaxamento muscular progressivo), proposto para melhora da qualidade do sono e fadiga de crianças em quimioterapia, em que se verificou melhora nos escores de problemas de sono estatisticamente significante quando comparada com o grupo controle35.
Mas, além de todas as questões já citadas, há de se levar em consideração a pandemia do covid-19, e como as crianças foram afetadas por ela. De acordo com o estudo realizado por Murphy-Alford6, 64% dos participantes já não estavam dentro das recomendações máximas de duas horas em frente à tela todo dia, e, durante o primeiro lockdown de 2020, crianças e adolescentes (10 a 17 anos de idade) aumentaram o tempo de tela diário gasto com jogos de computador e usando a mídia social, de quatro para cerca de sete horas38, o que, de acordo com Beech32, pode afetar o nível de AF das crianças, já que 60,4% dos pais entrevistados acham que é mais provável seus filhos escolherem utilizar dispositivos tecnológicos a serem fisicamente ativos. E, ainda considerando o cenário de lockdown, vários desafios e desigualdades no transporte público, bem como no acesso a espaços verdes, foram expostos, sendo importante destacar que o transporte ativo, especialmente quando incorporado às rotinas diárias, pode ser uma importante fonte de AF39.
CONCLUSÃO
Conclui-se que, apesar de já existirem evidências demonstrando que a prática de Atividade Física é importante e benéfica para crianças sobreviventes ou com câncer, o nível de AF destas ainda é muito baixo, e as recomendações mínimas de AF para essa população variam bastante. Os efeitos colaterais do tratamento do câncer infantil resultam na redução da AF, diminuição da força muscular e da aptidão cardiorrespiratória, em comparação com pares saudáveis. A atividade física para essas crianças deve ser encorajada e estimulada para minimizar os efeitos colaterais durante e após o tratamento. O exercício e a intervenção motora melhoraram: fadiga durante a quimioterapia aguda; atividade física, amplitude de movimento (ADM), força, densidade mineral óssea, capacidade aeróbia e fadiga durante a quimioterapia de manutenção. Além disso, a maioria dos responsáveis não compreende os benefícios da AF para esta população, apesar de seu apoio e o envolvimento da família serem os principais facilitadores para a adesão à prática de AF regulares entre os sobreviventes do CA pediátrico. Já em relação às intervenções, elas são variadas, e devem ser escolhidas e realizadas com base no tipo de CA e na fase do tratamento em que a criança se encontra, para as quais já há evidência de eficácia. Por fim, é necessário que se compreenda as mudanças causadas pela pandemia do covid-19, as quais incluem a diminuição do nível de AF e o aumento do uso de dispositivos tecnológicos, para que novas pesquisas e trabalhos possam ser realizados a fim de solucionar os pontos aqui levantados.
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Fonte: Elaboração própria.