Open-access EDUCAÇÃO FEMININA EM INTERNATOS DE ELITE EM OS SUAVES ANOS DO CASTIGO

FEMALE EDUCATION IN ELITE BOARDING SCHOOLS IN THE GENTLE YEARS OF PUNISHMENT

LA EDUCACIÓN FEMENINA EN LOS INTERNADOS DE ÉLITE EN LOS DULCES AÑOS DEL CASTIGO

Fleur Jaeggy (1940) nasceu em Zurique, na Suíça, e após concluir seus estudos, atuou em Roma como tradutora e editora, onde conheceu vários escritores. Em 1968, mudou-se para Milão, trabalhando na Adelphi Edizioni. Casou-se com Roberto Calasso (1941) editor, escritor e um dos fundadores da Adelphi, a qual dirigiu até a sua morte em 2021. A primeira obra-prima de Fleur foi o I beati anni del castigo (1989), romance que lhe rendeu o prêmio Times Literary Supplement e a tradução em várias línguas. Depois, escreveu cerca de uma dezena de livros bem avaliados pela crítica e aceitos pelo mercado editorial. É tradutora para o italiano de autores franceses e ingleses como Marcel Schwob (1867-1905) e Thomas de Quincey (1785-1859).

Cristina Campo diz nas orelhas que a palavra de Jaeggy “é uma coisa terrível [...] maravilhosa, transparente, gélida e repleta de reflexos”: suas “anotações são cirúrgicas de perfeição milimétrica”.

Joseph Brodsky, na contracapa, destaca que a caneta de Jaeggy é “molhada na tinta azul da adolescência” e que o seu cinzel “desenha as raízes, os ramos e os galhos da árvore da loucura que cresce na esplêndida solidão do pequeno jardim suíço do conhecimento”.

O romancese passa nos anos de 1950, no Appenzell, cantão situado ao nordeste da Suíça, cuja língua principal é o alemão. A voz que narra não tem nome, mas pode ser considerada o alter ego da autora seguindo seu percurso escolar em colégios internos privados laicos e religiosos, que acolhiam meninas cujas famílias valorizavam e financiavam uma educação internacional distintiva, ministrada segundo o currículo clássico europeu.

O livro pode ser analisado em três eixos: a dinâmica de trabalho em internatos femininos de elite, em particular o Bausler Institut; as relações entre pessoas e entorno; e os sentimentos provocados pelo trinômio disciplina, controle e desejo de perfeição.

Os Internatos Femininos

O romance inicia-se pontuando:

Aos quatorze anos era educada num internato [...] no Appezell não se pode deixar de passear. Se olhamos as pequenas janelas listradas de branco e as diligentes e incandescentes flores nas sacadas, percebemos um remanso tropical, uma exuberância mantida sob controle, e temos a impressão de que dentro acontece algo serenamente sombrio e um pouco doentio. Uma Arcádia da doença. Lá dentro parece haver paz e idílio de morte, na pureza. Uma profusão de cal e flores. Do lado das janelas, a paisagem chama, não é miragem, é um Zwang, dizia-se no colégio, uma imposição

(Jaeggy, 2024, p. 7-8).

No Bausler, ensinava-se em francês e alemão, e ela disse várias vezes que não gostava de estudar e que das aulas de literatura francesa lembrava-se apenas de Baudelaire.

Havia uma casa que acomodava as meninas menores e outra as maiores. Os quartos eram individuais ou em duplas com armários, caixas de correspondências e banheiros privados.

É justamente nos dormitórios onde se conhecem as companheiras, diante dos lavabos, nas horas de recreio. Minha primeira cama do colégio era cercada por cortinas brancas, por cima dela havia uma coberta branca de piquê. A mesa de cabeceira também era branca. Um quarto falso [...]. Uma espécie de casta promiscuidade

(Op. Cit., p. 14).

Sentia repugnância dessa aproximação acidental que acontecia nos dormitórios e, por isso, acordava cedo para caminhar, o que resultava em sono nas aulas do final da manhã.

As internas eram vigiadas e o contato com meninos e homens, interditado. Apenas os velhos, os loucos, os coxos e os guardiões trabalhavam no internato e no comércio ao redor. Os costumes à mesa eram milimetricamente ensinados e as ações desviantes, reprimidas. No café da manhã, proibia-se molhar o pão cheiroso na xícara de café quente. A diretora poderia bater na mão e solicitar que a interna se levantasse da mesa. Os cotovelos tinham que ficar junto ao busto, jamais apoiados na mesa, e a comida deveria ser servida com moderação e não com gula.

Permaneceu nesse internato por quase sete anos, descrevendo assim sua rotina: “Toca o sinal, nos levantamos. Toca outra vez o sinal, dormimos. Nos recolhemos em nossos quartos, vimos a vida passar pelas janelas, pelos livros, na alternância das estações, nos passeios. Sempre refletida, um reflexo que parece congelado nas sacadas” (Op. Cit., p. 19).

Todo ano chegavam ao Bausler Institut novas garotas, que sonhavam com as magnificências que a vida lhes daria a partir da boa educação com que contavam. Frau Hofstetter e seu marido, diretora e tesoureiro, alimentavam essas promessas de futuro.

Do Brasil chegavam cartas de sua mãe endereçadas à filha e à direção do internato. As missivas portavam ordens, recomendações, informações, questionamentos, vestidos de festa e sapatos de verniz preto. Tudo era processado pela diretora. Dizia: “ela manda, eu obedeço, os trimestres são conduzidos por ela, tudo está escrito nas cartas e nos selos, sinos sem som. Despachos” (Op. Cit., p. 56).

Sua mãe não comparece fisicamente em nenhum momento do livro, exceto por meio das cartas, mas seu pai se faz presente em reuniões, recitais, festas, feriados e formaturas. Ela descreve uma convivência afetiva com ele, companheira e delicada, que se constitui por meio de eventos; viagens; férias e moradia após sua formatura aos 17 anos, quando foi enviada para estudar pela última vez em uma escola interna de formação doméstica, seguindo as ordens vindas do Brasil. Era um colégio religioso perto do lago Zug, nos arredores dos Alpes suíços, que formava meninas para “aprender a arrumar uma casa, cozinhar e preparar doces” (Op. Cit., p. 97).

Essas instituições não se preocupavam com notas, provas ou exames, pois a seleção já estava feita pela origem de classe e pelo meio social. Assim, elas se dedicavam a compreender a personalidade de cada interna, os desejos, as potencialidades e a simplesmente ajudar a desenvolver capacidades e competências.

O Relacionamento com as Pessoas e o Entorno

Relata que acordava toda manhã às 5h para passear, comia uma maçã, subia na montanha e vislumbrava o lago de Constança do outro lado do cantão, que se situa na fronteira sul da Alemanha, a oeste da Áustria e ao norte da Suíça. “Buscava a solidão e talvez o absoluto” (Op. Cit., p. 8)

No colégio, cada uma das meninas, com um pouco de vaidade, construía sua própria imagem como “uma espécie de dupla vida”, por meio da qual se inventava para si e para as outras “um modo de falar, de caminhar, de olhar” (Op. Cit., p. 9). Fala que não tinha vontade de estudar, mas representava, dando a entender que apreciava os expressionistas alemães e as crônicas de crimes. Assim, recortava reproduções desses temas e as colava em um caderno.

Esclarece que as meninas internas vinham do mundo todo; muitas eram americanas e holandesas. Havia ruivas da Bélgica; loiras da Suécia; alemãs; italianas e uma garota negra, de cabelos cacheados, muito admirada no Appenzell. Seu pai era cortejado com pompa pela diretora, pois era presidente de um Estado africano. Na hierarquia do internato, a garota negra era a mais importante e protegida.

Aponta que em alguns internatos havia preceptoras mais sensíveis que permitiam que as internas, após a leitura em voz alta do texto religioso durante as refeições, pudessem falar, rir, repetir duas vezes a sobremesa, pegar a bola, brincar, correr. Assim, “retornava-se ao paganismo”. Quando chovia, as meninas ficavam no quarto, escutando rádio, lendo, costurando. “Outras ficavam olhando, perdidas, confusas” (Op. Cit., p. 55-56). Era uma liberdade vigiada que autorizava as meninas a caminharem pelo entorno do colégio, porém nunca sozinhas, pelo menos em duplas.

No Appenzell, os quartos, os espelhos, as escrivaninhas eram decorados de modo a transmitir a ideia de que reinava a paz, e a senhora diretora tinha respeito por cada uma das internas e por suas famílias.

Conta que uma única vez aceitou um encontro breve com um garoto de um colégio vizinho, foi vista por alguém, e a senhora Hofstetter a chamou na sala e a ameaçou. Ela garantiu que se tratava de um parente e disse: “Fingi chorar. Ela se comoveu” (Op. Cit., p. 16). Era uma forma particular de cuidar, educar e vigiar.

As cartas eram um elo entre a administração do internato, as internas e as famílias. Narra que algumas meninas guardavam as cartas em caixas marchetadas de madeira e que as reliam deitadas na cama. Ela rasgava as raras cartas que recebia da mãe e do pai e, em certo momento, sentiu que não era agradável ter pouca correspondência.

Comecei a escrever para meu pai cartas insignificantes, nas quais não dizia nada. Esperava que ele estivesse bem, assim como eu estava bem. Me respondia logo [...] Me perguntava por que lhe escrevia tanto. Nossas cartas eram breves [...] Escrevia para ele pois sabia que era a única pessoa que fazia o que eu queria, apesar de minha vida estar necessariamente sujeita à determinação legal de minha mãe. [...]. Eu tinha que dormir com uma alemã porque precisava falar alemão

(Op. Cit., p. 31).

Logo entendeu que as imagens das meninas internas perdidas na sua memória eram ninguém para ela, que as pessoas mais ou menos insignificantes ressurgiam como “por um jogo maligno” de nossos “ninguéns” presentes na multidão de rostos retidos nas nossas cavidades cerebrais.

A Educação dos Sentimentos

A contratação de novos funcionários e novas preceptoras causava rearranjos funcionais e emocionais. Os afetos construídos eram facilmente disputados, destruídos e realinhados. Ela registra:

[...] quando tinha oito anos [...] brincava de futebol com os garotos e me fizeram entrar em um colégio sombrio [...] uma madre superiora, diáfana, delicada [...] tomou conta de mim. Me acariciava com suas mãos sutis e doces, eu me sentava do seu lado como se fosse uma amiga. Um dia ela sumiu. Em seu lugar veio uma suíça [...] Você sabe, o novo poder odeia as favoritas de antes. Um colégio é como um harém

(Op. Cit., p. 16).

A chegada das meninas novatas também causava comentários, estranhamentos e reorganização de quartos, parcerias, amizades e inimizades.

Aconteceu um dia durante o almoço. Estávamos todas sentadas. Chegou uma garota, uma novata. Tinha quinze anos, os cabelos lisos como lâminas, e reluzentes, os olhos severos e fixos, sombreados. O nariz aquilino, os dentes, quando ria, e ria pouco, eram pontiagudos. Uma bela fronte alta, onde era possível tocar os pensamentos, e onde gerações passadas legaram-lhe talento, inteligência e fascínio. Não falava com ninguém. A aparência era de um ídolo, desdenhoso. Talvez por isso eu tenha querido conquistá-la

(Op. Cit., p. 8-9).

Seu nome era Frédérique e, por trás da atitude de obediência, disciplina e respeito, escondia um desprezo e um fingimento. Aos olhos da narradora, ela era impecável, e ambas iniciam uma amizade diferenciada, talvez uma relação de ternura e intimidade recheada de caminhadas nos parques, idas à confeitaria e ao cinema de Teufen e conversas reservadas. Diz que ela era gentil com todos e não se deixava levar pelos humores e aborrecimentos cotidianos.

Desde o primeiro dia quis ficar com ela [...] queria tomar sua alma, viramos cúmplices, desdenhando de todas as outras. Uma espécie de pacto de sangue, uma irmandade [...] então tinha que me submeter a um ritual que ela dirigia. Um dia me disse que tinha reparado em mim [...] Com certeza eu não tinha sua elegância. Ela vestia saias cinza, camisas largas, pulôveres azuis, azul-claros, largos. Eu tinha uma série de pulôveres justos e saias amplas, apertadíssimas na cintura [...] Isso não é elegante. Seus pulôveres largos desciam por seu corpo, escondendo-o, deixando entrever uma silhueta adolescente, o quadril estreito, o ventre afundado

(Op. Cit., p. 24).

Frédérique tinha algo de perigoso, tensionado, e conquistá-la era uma espécie de batalha. Era preciso medir palavras, tom, jeito e gestos, fazer um exercício mental de sedução sem contato físico. “Nunca nos demos a mão. E teríamos achado o gesto ridículo. Nas caminhadas havia garotinhas [...] ‘brincando de amigas’, ‘brincando de amantes’. No nosso caso havia uma espécie de fanatismo que nos proibia qualquer forma de contato físico” (Op. Cit., p. 21).

A contenção e a perfeição de Frédérique resvalava uma certa loucura:

Ocorreu o concerto de Natal. Foi em 17 de dezembro [...] tocou o piano. Beethoven, Sonata Op. 49, n. 2. Foi aplaudida. Na sala houve silêncio sepulcral, retido. [...] entrou como um autômato, tocou com certa paixão, agradeceu como um autômato e os aplausos não pareciam tocar suas orelhas [...] Sua maneira de aparecer chamava a atenção. Era sem emoção, sem vaidade, sem modéstia, como se acompanhasse os próprios despojos. Segurou seus pulsos, e suas mãos tocaram. Impassível, mas nos olhos e na boca algo pairou, algo de fugitivo. Uma violência da alma por uma rara vez transfigurou o seu rosto, ainda que imóvel. [...] voltou para seu lugar. [...] Havia algo de absoluto e de impenetrável em certos seres, parece um distanciamento do mundo, dos vivos, mas parece também o sinal de quem enfrenta o poder que desconhecemos. Fiquei abalada

(Op. Cit., p. 40-41).

Depois de Frédérique, vieram outras companheiras, algumas alemãs que presenciaram os soldados de Hitler marchando em fila indiana; mas não se falava da guerra e nem da destruição das cidades, e sim dos gerânios na janela. Assim, essas meninas internas cresciam sobre as ruínas. Micheline, outra novata bela, tropical, espontânea, simples, que abraçava e beijava as colegas “sem pecado, sem vício”, conquistou a personagem principal do livro: “O que Micheline queria da vida era a pura diversão, e não era isso o que eu também queria?” (Op. Cit., p. 71-73)

A relação com os professores se pautava na discreta aproximação e no severo afastamento.

A professora de francês parecia um homem triste, principalmente diante da luz [...] Me interrogava. Eu não respondia. Seu cabelo era ondulado, grisalho, curto [...]. Em seu olhar austero quase havia uma tentativa de implorar, uma súplica jamais atendida, ousaria afirmar que havia ali uma pureza, a pureza dos derrotados, que é uma mistura de leve desespero com teimosia. Eles aguentam. Lecionam até o fim, já no leito de morte. Leem um último poema

(Op. Cit., p. 22).

O aprendizado da contenção, a busca da perfeição, o distanciamento do mundo, a fuga para o mundo interior talvez traduzam o título paradoxal do livro, ou seja, a exaltação dos suaves anos do castigo vividos em colégios internos de elite. Enfim, a experiência precoce da solidão.

O Começo e o Fim

A narradora assevera que passou “dos oito aos dezessete anos” em colégios internos e que antes disso sua mãe e seu pai lhe deixaram com a avó, que em determinado momento não suportou mais sua companhia, pois a considerava uma criança selvagem. Dessa forma, iniciou seu percurso em vários internatos nos quais conheceu diretoras, madres reverendas, superioras, méres préfetes; na Itália, na França e na Suíça, mas que nenhuma tinha sobre ela “...a autoridade da avó. Sempre percebi que poderia enganá-las, que o poder delas era temporário, mesmo que beijasse a mão delas” (Op. Cit., p.33).

Inicia o livro relatando que Robert Walser (1878-1956), escritor suíço de língua alemã admirado por autores como Kafka, Musil, Sebald, Jelinek, Coetzee, Vila-Matas, dentre outros, autor de romances, contos e poemas traduzidos em muitas línguas, morava e lecionava no manicômio em Herisau, próximo ao internato do Appenzell, e que “morreu quando caminhava na neve, não muito longe do nosso instituto” (Op. Cit., p. 7). Fotografias revelam seus rastros e a postura do corpo na neve. “Nós não conhecíamos o escritor. Nem a nossa professora de literatura o conhecia. Às vezes penso que é bonito morrer assim, depois de dar um passeio, deixar-se cair num sepulcro natural, na neve do Appenzell, depois de quase trinta anos de manicômio”. E engata um gesto generoso dizendo que “é uma pena que não soubéssemos da existência de Walser, teríamos colhido uma flor para ele. O próprio Kant, antes de morrer, se comoveu quando uma desconhecida lhe ofereceu uma rosa” (Op. Cit., p. 7).

No final do livro, esmiúça uma sucessão de ocorrências trágicas envolvendo pessoas próximas. Descreve que Frédérique, depois de abandonar o colégio em decorrência da morte de seu pai, um banqueiro, foi morar com a mãe e tentou matá-la incendiando as cortinas e os quadros em sua casa em Genebra. A narradora foi visitá-la e encontrou-a muda, sem vida, alheia,

[...] com uma opacidade no olhar como se estivesse perdida em uma névoa. Lembrou-se de sua obstinação pela disciplina e obediência. Décadas depois recebeu uma carta da amiga que dizia estar “farta de ser hóspede do manicômio, se continuasse desse jeito teria escolhido o caminho do cemitério

(Op. Cit., p. 115).

Refere-se ainda ao suicídio da filha mais nova de um casal alemão com três filhas que passava férias no mesmo hotel que ela e seu pai. Foi durante um verão em que,

[...] um sol sombrio perfurava o crepúsculo, a luz das florestas, dos pântanos [...] que se irradia dos cogumelos e das bagas venenosas, do solo úmido. Passeávamos rumo àquele raio escuro, um oásis de paz murada. Pai e filha se davam as mãos, como um velho casal. Ele me disse os nomes das montanhas.

(Op. Cit., p. 112).

A família alemã chamava atenção, pois “mostravam uma felicidade quase teimosa, uma demoníaca fisionomia serena” (Op. Cit., p. 113). No dia seguinte, o hotel não conseguiu manter secreta a notícia de que a menina mais nova havia se enforcado na cortina de flores e folhas do seu quarto.

Passaram-se vinte anos, e a personagem volta ao Appenzell para visitar o colégio, vai até o prédio, e encontra duas mulheres sentadas – uma num banco e outra à mesa. Cumprimenta-lhes e pergunta sobre o Bausler Institut. Ninguém nunca ouviu falar dele. Ali agora é uma clínica para cegos.

É possível inferir que a clínica para cegos pode ser tomada como uma linguagem figurada para referir-se a uma instituição fechada em si, distante da realidade local e baseada em regras próprias e chantagens (Op. Cit., p. 65), como são os internatos descritos no livro? Como compreender o fato daquelas mulheres nunca terem ouvido falar na existência do internato? Ela responde sob o olhar questionador e malévolo das moradoras: “Tenho certeza. Morei nesse colégio” (Op. Cit., p. 116).

Nesse certame, como que num jogo de imagens caleidoscópicas, temos a sensação de que “Os suaves anos do castigo” fala de internatos femininos de elite; não obstante, nas entrelinhas, desenrola o tema da solidão, do distanciamento familiar, da contenção das relações, do controle dos corpos, da disciplina rígida, dos ambientes super protegidos, da loucura e do sentimento de morte que ronda esses territórios que vão esvaziando a vida que pulsa na natureza selvagem e biológica da humanidade e criando territórios blindados, artificiais e asfixiantes.

Como a narradora sobreviveu a esses fatos? Talvez se agarrando a vínculos afetivos significativos e mantendo um contato físico, duradouro e saudável com o pai.

Ela descreve a loucura de Frédérique como alguém que falava sozinha e mexia os lábios, fixando algo semelhante ao vazio e se perguntando: “Como representar o vazio? Seria a falsificação de cada lugar originário?” (Op. Cit., p. 44).

Fleur Jaeggy indica que esses internatos não atenuavam as diferenças de classe. Cita a existência de alunas pobres ou órfãs que não pagavam mensalidades, que eram “mantidas ali por caridade”, na expectativa de que se submetessem a pequenos favores, tais como espionar as internas e dar excessiva atenção às ordens superiores. Sugere que, talvez por necessidade, eram humildes; não lhes era permitido ser insolentes e desenvolviam “uma propensão à subordinação ao poder”, praticando “o ofício de pobre”, o que gerava atritos nos relacionamentos com as demais (Op. Cit., p. 35-36).

Penso que este relato, real ou ficcional, que se ambientou em meados do século XX, nos oferece elementos para questionar a função de diferentes instituições que atuam no mercado educacional, bem como compreender e comparar seus efeitos na sociabilidade de ciclos etários, estrutura de classe, expectativa entre os iguais e os diferentes e na construção das distinções sociais. Pode também nos ajudar a lançar luz em casos trágicos como o de Frédérique ou Paulo Henrique Oliveira dos Santos, ex-aluno bolsista do Colégio Bandeirantes de São Paulo, que se suicidou em agosto de 2024.

Agradecimentos

Agradecemos à Barbara Catani a recomendação de leitura do livro.

  • Financiamento CNPq (Processos n.º 307411/2023-0 e n.º 307631/2023-0) e FAPESP (Processo n.º 2024/02377-9).

Referências

  • JAEGGY, F. Os suaves anos do castigo Trad. Prisca Agustoni. Belo Horizonte: Âyiné, 2024.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    22 Nov 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    11 Out 2024
  • Aceito
    15 Out 2024
location_on
Centro de Estudos Educação e Sociedade - Cedes Av. Berttrand Russel, 801 - Fac. de Educação - Anexo II - 1 andar - sala 2, CEP: 13083-865, +55 12 99162 5609, Fone / Fax: + 55 19 3521-6710 / 6708 - Campinas - SP - Brazil
E-mail: revistas.cedes@linceu.com.br
rss_feed Acompañe los números de esta revista en su lector de RSS
Ir para arriba Notificar error