Open-access AUTORIDADE E AUTONOMIA NO CONTEXTO DA VIOLÊNCIA ESCOLAR

AUTHORITY AND AUTONOMY IN THE CONTEXT OF SCHOOL VIOLENCE

AUTORIDAD Y AUTONOMÍA EN EL CONTEXTO DE LA VIOLENCIA ESCOLAR

RESUMO

Com base na obra “A personalidade autoritária”, de Adorno et al. (1950), sobre a relação entre indivíduos predispostos ao preconceito e à defesa de regimes sociais autoritários, este artigo analisa resultados de pesquisa realizada em três escolas do ensino público paulistano, para verificar, em estudantes, a existência de dois tipos de heteronomia em relação à autoridade escolar: adesão rígida à autoridade ou sua negação, e se a primeira tem relação com a defesa rígida de valores morais e a outra, com uma forma mais ampla de violência. Aplicou-se a 89 alunos do 7º ano duas escalas: a Escala F, criada por Adorno e colaboradores, para avaliar o grau de predisposição à violência moral e formas de violência mais genéricas, e outra para saber da autonomia dos alunos frente à autoridade do professor. Constatou-se haver as duas formas de heteronomia previstas: uma delas se relaciona com a defesa rígida de valores morais, a outra se associa com essa defesa, mas também com uma forma mais ampla de violência, o que indica uma preocupante formação de indivíduos que possam defender um sistema antidemocrático.

Palavras-chave
Autonomia; Autoritarismo; Heteronomia; Autoridade

ABSTRACT

Based on the work “Authoritarian Personality” by Adorno et al. (1950), which explores the relationship between individuals predisposed to prejudice and the support of authoritarian social regimes, this article analyzes the results of a study conducted in public education in São Paulo. The study aimed to verify, among students, the existence of two types of heteronomy in relation to school authority: rigid adherence to authority or its rejection, and whether the former is related to a strict defense of moral values and the latter to a broader form of violence. Two scales were applied to 89 seventh-grade students: created by Adorno et al. – the F Scale, to assess the degree of predisposition to moral violence and more general forms of violence, and another to measure the students’ autonomy in relation to the teacher’s authority. It was found that both forms of heteronomy predicted exist: one is related to the strict defense of moral values, while the other is associated not only with this defense but also with a broader form of violence, indicating a concerning formation of individuals who may support an anti-democratic system.

Keywords
Autonomy; Authoritarianism; Heteronomy; Authority

RESUMEN

A partir del trabajo ‘Personalidad Autoritaria’, de Adorno et al. (1950), sobre la relación entre individuos predispuestos al prejuicio y la defensa de regímenes sociales autoritarios, este artículo analiza resultados de investigaciones realizadas en tres escuelas públicas de São Paulo, para verificar, en los estudiantes, la existencia de dos tipos de heteronomía en relación con la autoridad escolar: la rígida adhesión a la autoridad o su negación, y si la primera se relaciona con la rígida defensa de los valores morales y la otra, con una forma más amplia de violencia. Se aplicaron dos escalas a 89 estudiantes de séptimo año: la Escala de Fascismo, desarrollada por Adorno et al., para evaluar el grado de predisposición a la violencia moral y formas más generales de violencia, y otra para determinar la autonomía de los estudiantes frente a autoridad del maestro. Se encontró que existen dos formas previstas de heteronomía: una de ellas está relacionada con la rígida defensa de los valores morales, la otra está asociada a esta defensa, pero también a una forma más amplia de violencia, lo que indica una preocupante formación de individuos que puede defender un sistema antidemocrático.

Palabras clave
Autonomía; Autoritarismo; Heteronomía; Autoridad

Introdução

Serão apresentados, neste texto, resultados de pesquisa desenvolvida em três escolas do ensino público paulistano, cujos objetivos foram os de verificar, em estudantes, a existência de dois tipos de heteronomia em relação à autoridade escolar – um tipo caracterizado por uma adesão rígida à autoridade, e outro tipo caracterizado pela negação da necessidade de autoridade. No caso da ocorrência da distinção mencionada, objetiva-se verificar se a adesão rígida à autoridade se relaciona com a defesa arraigada de valores morais, associada a um tipo de personalidade nomeada por Theodor W. Adorno, Else Frenkel-Brunswik, Daniel Levinson e Nevitt Sanford – no livro “A personalidade autoritária”, publicado originalmente em 1950 – de sadomasoquista (Adorno et al., 1950; Adorno, 2019), e se a negação da autoridade tem associação com uma forma mais genérica de violência, relacionada a uma personalidade, descrita por esses autores, com uma formação frágil do Ego. Essas formas de se relacionar com a autoridade têm, como o estudo citado mostra, uma forte relação com a defesa de regimes sociais antidemocráticos. Essa relação é mediada por instituições sociais, tais como a família e a escola, nas quais a autoridade tem uma função primordial no que se refere à formação do indivíduo.

Em relação à família, Barbosa e Wagner (2013) conceituaram autonomia dos jovens de duas formas: a que se contrapõe a ser dependente dos pais; e a que indica oposição à heteronomia. Indicam, por meio de algumas pesquisas, que uma adequada sustentação familiar seja fundamental para a autonomia. Boa parte dos estudos que analisaram se refere a ter autonomia nos comportamentos, nas decisões e no autocontrole; a autonomia emocional é outra forma de autonomia apresentada; implica na diferenciação dos pais e percepção dos limites humanos. Há também estudos acerca da autonomia cognitiva, do pensar independente. Esses tipos de autonomia estão relacionados com o processo de diferenciação individual, principalmente das autoridades educacionais. Como a autonomia não significa necessariamente contraposição às autoridades, ela não implica individualismo, independência dos outros.

Neste sentido, a internalização de valores pró-sociais é fundamental, conforme mostra pesquisa de Roth, Kanat-Maymon e Bibi (2011). O estudo desenvolvido com jovens estudantes revela que se há essa internalização, a violência escolar pode ser evitada; por outro lado, alunos com uma frágil internalização ou não internalização desses valores são mais propícios à violência. Segundo esses pesquisadores, a percepção pelos alunos de ações consideradas como justas e dotadas de racionalidade pelo professor e o respeito aos outros são fundamentais para tal integração desses valores. Assim, o respeito pelos outros, inspirado pela autoridade educacional, assim como a percepção de que suas ações são justas e racionais, pode favorecer a formação dos alunos autônomos e não violentos. Com os dados obtidos, afirmam, ainda, que a autonomia se contrapõe mais à violência do que se o controle é realizado externamente, que apenas em casos extremos é necessário.

Roth, Kanat-Maymon e Bibi (2011), tal como Adorno (1995), no que se refere à autonomia, enfatizam a necessidade da reflexão relativa às normas a serem internalizadas; e isso é importante, pois há aquelas que podem não ser racionais, tais como as provenientes de Estados fascistas: as que não prescindem da força para submeter a população.

Conforme Adorno (1995), no entanto, a formação tem se dirigido, sobretudo, para a adaptação, e menos para a reflexão e para a experiência; o pensamento voltado à solução de problemas incentivado pelas escolas é importante para a ação técnica, mas não para a autorreflexão e para a reflexão social. Assim, o que se desenvolve é externo aos estudantes, como mostra o estudo de Roth, Kanat-Maymon e Bibi (2011), o que seria pouco propício à autonomia – e cabe destacar que essa não deve se restringir ao âmbito individual.

A relação entre tendências autoritárias de personalidade e heteronomia, entendida como adesão rígida à autoridade ou negação da autoridade – tal como pode ser depreendida do estudo sobre a personalidade autoritária (Adorno, 2019) –, tem mobilizado uma série de pesquisas que procuram em diferentes frentes indicar a relação entre mediação psíquica e social, lançando explicações sobre essas tendências autoritárias de personalidade na formação das ideologias antidemocráticas no Brasil.

Para Carone (2023), os estudos de Adorno (2019) promoveram a desconstrução da perspectiva de que os ódios raciais e religiosos pudessem ser revertidos pela propaganda da tolerância ou por refutação discursiva, já que se compreende que o preconceito tem importância nas defesas psíquicas do sujeito. Dessa perspectiva, essa abordagem adverte que a adesão à tendência política de extrema-direita não decorre de um processo de despolitização, mas sim pela “atração exercida pelo discurso fascista sobre algo que poderia se chamar de estrutura psicológica ou caráter determinado societariamente” (Carone, 2023, p. 16).

Costa (2021) discute a utilização da psicanálise por Adorno para refletir as formas predominantes da socialização dos sujeitos. A autora destaca a relação entre as diferentes tipologias autoritárias com contextos socioeconômicos distintos. Observa a permanência do autoritarismo na vigência do sistema capitalista, bem como as diferentes características a serem elaboradas nas fases socioeconômicas engendradas no âmbito desse sistema. Por meio de uma análise bibliográfica, a autora salienta os diferentes traços do tipo antropológico autoritário em relação às determinações sociais. Se na década de 1940 esse tipo antropológico foi caracterizado como dotado de um Eu fragilizado, um “Supereu” externo e desenfreado, estudos posteriores, na década de 1960, identificam com característica hegemônica o desejo de destruição; e já na égide do neoliberalismo, estudos ressaltam como característica do tipo autoritário um “Supereu” internalizado e super-rígido.

Contrário à análise de Costa, neste artigo, defende-se que a Escala do Fascismo, construída na década de 1940, contém essas tendências destacadas por essa autora nas décadas seguintes: a Escala F, e o que ela mensura – atitudes fascistas – permanece atual, pois como Adorno (1995) afirma, as condições objetivas para o fascismo não têm se alterado, e, portanto, não há de se supor que as necessidades psíquicas que suscitam foram modificadas.

Carreira e Dias (2021) estudaram relações entre violência escolar, autoridade do professor e autonomia dos alunos, com base na obra de autores da Teoria Crítica da Sociedade. Pesquisaram, em quatro escolas paulistanas, as relações entre colegas e entre docentes e estudantes. Nas escolas, nas quais os professores estavam mais presentes, encontraram menor ocorrência de violência, o que sugeriu uma tendência a fortalecer a autonomia discente. Nas escolas em que isso não ocorria, a violência entre colegas e entre esses e os professores foi mais visível, e a constituição de autonomia provavelmente foi menor.

Daud e Lastória (2023) e Daud et al. (2023) destacaram a heteronomia presente no projeto educativo proposto pelo governo federal (2019-2022) próprio ao Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares (Pecim). Para justificar a implementação desse Programa, os governantes de então defenderam princípios atinentes ao desenvolvimento e à manutenção da heteronomia, contrapondo-se aos esforços anteriores da democratização das relações nas escolas, que propicia a autonomia moral. Pela análise de documentação, esses autores indicaram os esforços desse governo federal em estabelecer um princípio educacional propício à heteronomia moral para as Escolas Cívico-Militares (Ecim), e que tais esforços desqualificaram a autonomia moral, possibilitada pela democratização das relações escolares.

Cezário (2018) aponta que os estudos de Adorno e Benjamin, no campo da educação, são necessários para que a sociedade atual seja criticamente refletida, uma vez que cada vez mais tem sido caracterizada pela violência, insensibilidade individual, heteronomia e também pelo dito mercado. Destaca as contribuições desses autores para a defesa de uma educação que possibilite pensar uma formação comprometida com a autonomia e com a humanização, indo, assim, além da racionalidade própria à alienação – pela qual a educação escolar, com alguma frequência, tem se baseado na sociedade capitalista.

Na concepção de Pereira (2018), fundamentada também em alguns autores da Teoria Crítica, como Adorno (1995), a formação para a sensibilidade e para a autonomia deve ocorrer já na primeira infância, pois despontaria como possibilidade de resistência perante a dominação. De acordo com a autora, com essa formação seria possível elaborar um projeto educacional contra a insensibilidade, constituindo um projeto emancipatório.

Neste artigo, a violência, entendida como socialmente determinada, considerando que pode direcionar desejos e impulsos individuais para os objetivos da dominação social, sobretudo pelo fascismo (Horkheimer; Adorno, 1985), será abordada a partir das pesquisas desenvolvidas por Adorno (2019), que identificou tendências antidemocráticas subjacentes à personalidade afeita e afetada por movimentos sociais autoritários, também existentes em sociedades formalmente democráticas. Tais movimentos sociais a tornam propensa a praticar violência, especificamente o preconceito. Segundo esse estudo, o preconceito, estimulado socialmente, se desenvolve para dar vazão a necessidades psíquicas, o que indica a heteronomia, por desconhecimento da motivação de seus atos por parte do preconceituoso; neste sentido, o preconceito é compreendido como uma forma de violência social que se expressa também nos indivíduos, ao se apropriar de seus desejos inconscientes, tal como a Psicanálise freudiana os delimita. Assim, o esclarecimento em relação a essa apropriação, indicando que o alvo da violência não se relaciona com a frustração individual, pode obstar essa forma de violência.

Para abordar a violência, que expressa tendências profundas da personalidade, Adorno (2019) e o presente artigo lançam mão da psicanálise como constructo teórico que mergulhou na psicodinâmica individual até o descentramento do indivíduo, voltando dialeticamente ao social, ao outro, para situar seu saber. A psicanálise se torna um conhecimento relevante para Adorno por ser a compreensão dos desejos inconscientes e irracionais, que a atual sociedade do capitalismo de monopólios tenta manipular.

No presente trabalho, como hipótese, a personalidade propensa ao preconceito foi relacionada à adesão irrefletida à Autoridade, especialmente no que diz respeito à autonomia e à heteronomia do indivíduo em relação a essa autoridade. Autonomia é entendida aqui como a capacidade do indivíduo de se responsabilizar pelos seus atos, a partir de uma análise das condições delimitadas pela sociedade, e a heteronomia quer pela adesão irrefletida ao que propõe a autoridade, quer pela desconsideração de qualquer autoridade. Considerando a importância do inconsciente, tal como concebido pela psicanálise, como parte essencial que determina as ações humanas, a possibilidade da autonomia deve considerar também a autorreflexão que não se separa da reflexão; para Horkheimer e Adorno (1985), a constituição do indivíduo se dá pela incorporação, pela percepção ativa do mundo externo e a sua diferenciação deste. Segundo esses autores, para conhecer, é necessário a projeção sobre o objeto a ser conhecido e sua limitação; desta forma o Eu se constitui. A heteronomia, neste sentido, se configura de duas formas: o não controle da projeção dos desejos individuais sobre o objeto de conhecimento ou pela anulação dessa projeção, sem a qual o objeto não é refletido, mas só reposto.

Em relação à constituição do Eu, conforme Horkheimer e Adorno (1985), dado o progresso organizacional e técnico da sociedade, o indivíduo tende a se constituir mais fragilmente, com sua consciência moral tendendo a ser substituída por referências externas. Houve um declínio da autoridade, que não dispensou sua necessidade; um Eu mais frágil se estabelece também pela falta de referenciais de adultos que possam constituí-lo, por meio da identificação; a autoridade passa a se apresentar de forma mais abstrata e geral, dificultando a formação de uma consciência moral.

Adorno (2019) estabeleceu uma série de variáveis ou características da personalidade propensa ao preconceito. Do ponto de vista psicodinâmico, o conjunto dessas características formam uma síndrome, “[...] uma estrutura mais ou menos duradoura [...]” (Adorno, 2019, p. 135), própria de um indivíduo predisposto ao fascismo: que tem uma dificuldade de autorreflexão; uma tendência a seguir valores convencionais, a se submeter à autoridade, de punir quem não segue a autoridade, a ter um pensamento supersticioso e estereotipado, a valorizar o poder e a força, a ter desejos destrutivos e a agir cinicamente, a projetar sobre outros seus próprios desejos, e a um moralismo quanto à sexualidade. As três primeiras tendências, conforme esses autores, configuram uma tendência a defender rigidamente os costumes e a moralidade vigentes e a se contrapor a quem não os segue; essas características se referem ao caráter sadomasoquista; as demais, correspondentes também a um Eu fragilmente constituído, expressam formas de violência mais genéricas.

As características “convencionalismo”, “submissão autoritária” e “agressão autoritária” se relacionam diretamente com a noção de autoridade, como aponta Crochík (2023), devido à má integração entre ego e superego, no qual a ambivalência em relação à autoridade introjetada pode conduzir a uma certa “cisão de afetos”, mantendo na consciência o respeito e o amor por ela, e projetando em outros grupos o que desaprovam na autoridade. Assim, esse conflito é mantido em duas direções: de um lado, o indivíduo se submete de forma exagerada à autoridade de seu grupo, refutando-a inconscientemente; de outro, quanto mais esses desejos destrutivos inconscientes aparecem frente à autoridade, mais são reprimidos e direcionados violentamente contra o que representa o exogrupo. O indivíduo se submete exageradamente à autoridade externa por não ter sido capaz de dar forma à autoridade interna, isto é, à consciência moral.

Essa consciência moral precarizada não conseguiu controlar com sucesso os impulsos provenientes do isso, e quanto mais esses impulsos aparecem, mais esse indivíduo sente a necessidade de fortalecer a autoridade externa e se submeter a seus valores. Porém essa dificuldade de integração entre o Eu e o “Supereu” gera uma incapacidade de mediação do Eu, impedindo a autonomia de reflexão e fortalecendo, portanto, uma adesão rígida aos valores estabelecidos pela autoridade do grupo.

Outra forma da debilidade do Eu, talvez até mais grave e mais regredida psiquicamente, é a não introjeção dos valores e princípios da autoridade. Nesse contexto, a psicodinâmica não é influenciada pela autoridade externa que indica para qual alvo os impulsos irracionais violentos devem ser dirigidos, assim, a violência tende a não ser dirigida a alvos específicos – pode ser qualquer um. Essa característica de indiferenciação de objeto da violência pode ser mais comum no bullying.

O primeiro tipo, que faz a defesa rígida de valores morais, seria mais propício ao sadomasoquismo, e o outro, que não faz introjeção dos valores e princípios da autoridade, seria mais propenso a uma violência menos delimitada.

Porém, seja num caso ou em outro, predominam os impulsos do isso sobre um Eu frágil e incapaz de mediar os ditames da sociedade utilizando-se da reflexão baseada na consciência moral. Se a consciência moral tem cada vez mais dificuldades de se constituir, a autonomia também. Desse modo, o controle, pelo próprio indivíduo, de suas ações destrutivas – direcionadas a todos os alunos e, entre eles, aos alunos considerados em situação de inclusão – é cada vez mais difícil. Além disso, deve-se enfatizar que a preocupação deve se voltar também para a atuação social que esses alunos terão quando adultos.

Adorno (2019), depois de identificar as características psicodinâmicas de uma personalidade propensa ao preconceito – que se combinam de diversas formas – e de analisar os resultados de suas pesquisas empíricas de aplicação de diferentes escalas (Escala do Fascismo, do Antissemitismo e do Etnocentrismo), identificou diversos tipos de síndromes psicodinâmicas subjacentes ao indivíduo autoritário. Esses tipos foram divididos em dois grupos: os altos pontuadores, que a princípio teriam maior propensão ao preconceito; e os baixos pontuadores, que mesmo apresentando problemas na formação de seu Eu, não são propensos a serem preconceituosos.

Segundo Crochick (2023), um desses tipos – o “Autoritário” – tem preconceitos, conforme indicado antes, como uma forma de dirigir a seus alvos os impulsos hostis que gostaria de direcionar à autoridade. Ou seja, o indivíduo tem uma relação ambivalente com a figura de autoridade: ele ama a proteção prometida pelo poder da autoridade, ao mesmo tempo que a odeia por esta ter o poder de reprimir seus desejos pulsionais. Para superar esse conflito, reprime-se o ódio, que passa a se voltar para a vítima do preconceito. Ainda segundo Crochick, (2023, p. 88), “uma parte dessa agressividade liberada pelo ódio converte-se em masoquismo e outra parte em sadismo. Disso decorre a hierarquia do poder: submeter os mais frágeis a si e submeter-se ao mais forte”.

Os tipos “Rebelde” e “Psicopata”, ao contrário do tipo “Autoritário”, dirigem sua agressão contra a autoridade, dificultando ou obstando a identificação com essa autoridade. Nesses casos, voltar-se contra a autoridade não significa que não haja uma aceitação dela, porém, é possível que a identificação ocorra apenas no nível inconsciente. Essa relação inconsciente de identificação com a autoridade pode gerar um desejo de autopunição quando o indivíduo a ataca, porém, essa culpa não pode ser elaborada, visto que esse é um indivíduo extremamente infantil. Como esses tipos não seguem diretamente a autoridade, o alvo de sua agressão é difuso, tende a não ter objeto fixo. Neste caso, a agressividade tende a ser voltada às figuras que esse indivíduo reconhece como frágeis, como se fosse uma aliança inconsciente dele com a autoridade manifestamente odiada. Essa relação inconsciente com a autoridade diz menos respeito à admiração pelo líder numa possível posição de ideal de Eu, e mais sobre a identificação com aquele que expressa seus desejos de forma narcísica.

No que se refere ao contexto escolar, considerando a importância de os alunos se tornarem autônomos face à autoridade – e que quando isso não ocorre, a heteronomia pode se apresentar de duas formas: adesão rígida à autoridade ou sua negação –, são objetivos desta pesquisa: 1) verificar se há, em estudantes do ensino fundamental II, essas duas formas de heteronomia; e 2) caso haja essa distinção, verificar se a adesão rígida à autoridade se associa com o tipo de personalidade nomeado sadomasoquista, e se a que se caracteriza pela ausência de autoridade se relaciona com uma maior fragilidade da formação do Eu.

Método

Participantes

Participaram desta pesquisa 89 alunos do ensino fundamental de 3 escolas públicas paulistanas, que estavam cursando o 7º ano; 47 alunas e 42 alunos, com idade média de 12,42 anos e desvio-padrão de 0,60 ano.

Material

- Escala do Fascismo (Escala F), criada por Adorno et al. (1950); Crochík (2005) a traduziu e a adaptou a nosso meio.

Na tradução, a Escala F possui 27 itens de forma Likert, com 6 alternativas de resposta e pontuação de 1 a 6 pontos para cada item. Quanto maior o escore, maior o grau de autoritarismo. A Escala F utilizada nesta pesquisa foi adaptada à linguagem dos participantes e estabeleceu a pontuação para cada item de um a quatro pontos: da discordância plena (um ponto) à concordância plena (quatro pontos).

Com base no que expõe Adorno (2019), essa escala foi dividida em duas: uma delas com o objetivo de avaliar traços de personalidade sadomasoquista (SM), associados à defesa rígida de valores convencionalmente aceitos, que precisam de um objeto externo para submeter e serem submetidos; e outra que tem um Eu mais fragilmente constituído (Fr), que ainda não possui objetos externos, mesmo imaginários, sobre os quais possa projetar seus impulsos agressivos. Obteve-se um Alpha de Cronbach, nesta pesquisa, para a Subescala SM igual a 0,76, e para a subescala Fr igual a 0,58.

Os itens das duas subescalas foram apresentados conjuntamente. Os que compuseram a subescala SM foram apresentados pelos autores nas dimensões que descreveram como “convencionalismo”, “submissão autoritária” e “agressão autoritária”. Os itens pertencentes à subescala Fr são os das outras dimensões apresentadas pelos autores. Quando um mesmo item estava presente em dimensões das duas subescalas, só fez parte da primeira subescala.

- Escala de autonomia frente à autoridade.

A partir dos textos de Adorno et al. (1950), de Adorno (1995; 2004) e de Lasch (1983), esta escala foi elaborada por Crochík (2017); possui 10 itens do tipo Likert. Os itens dessa escala serão expostos na análise dos resultados. Teve o Alpha de Cronbach igual a 0,54. Para cada item, havia o mesmo contínuo de alternativas de respostas apresentado para os itens da Escala F.

Procedimento de coleta de dados

Os participantes responderam às escalas em grupos de dez alunos, em microcomputadores individuais, aos quais era inserido um pen drive com os itens das escalas. Havia dois pesquisadores presentes, que responderam às dúvidas formuladas pelos alunos. A duração da aplicação foi de aproximadamente 20 minutos. Os pais dos estudantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, e os alunos assinaram o Termo de Assentimento. O projeto teve a aprovação do Comitê de Ética da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com o número 5.860.987.

Procedimento de análise dos dados

Para se verificar o primeiro objetivo – a presença de duas formas de heteronomia (adesão rígida à autoridade ou sua negação) nos estudantes –, foram calculadas análises fatoriais com os itens da Escala de autonomia frente à autoridade escolar, com o método do principal componente e rotação Varimax. Considerou-se uma carga fatorial significante com o valor igual ou superior a 0,50.

Em relação ao segundo objetivo, calculou-se correlações de Pearson entre as duas subescalas da Escala F e os fatores obtidos nas análises fatoriais feitas para cumprir o objetivo anterior. Utilizou-se o nível de significância de 0,05.

Para as estatísticas descritivas, utilizou-se médias e desvios-padrões.

Análise e Discussão dos Resultados

Conforme mencionado, para cumprir o primeiro objetivo, calculou-se uma análise fatorial com os itens da Escala autonomia frente à autoridade escolar, pelo método do principal componente e rotação Varimax. Na Tabela 1, encontram-se os principais dados obtidos.

Tabela 1
Itens e cargas fatoriais da Escala de autonomia frente à autoridade.

Conforme pode-se observar pelos dados da Tabela 1, foram obtidos quatro fatores, que representam 63,6% da variação total. Calculados quatro novos escores para cada participante, referentes a cada um desses fatores, foi feita outra análise fatorial para confirmar o número de fatores. Foram obtidos dois deles: um que uniu os fatores nomeados de “respeito” e “punição” e o outro, os fatores “não autoridade” e “não punição”. A partir desse resultado, foram calculados dois novos escores para cada participante: um dos fatores foi nomeado de “Respeito e Punição”, com itens que expressam um respeito pleno à autoridade e a necessidade de punir quem não a obedece; e outro intitulado de “Ausência de Autoridade”, com itens que expressam a não necessidade da autoridade do professor ou de punição. As cargas fatoriais desta análise estão na Tabela 2.

Tabela 2
Fatores da Escala de autonomia frente à autoridade, seus itens e cargas fatoriais.

Estes dados indicam, conforme suposto, haver duas formas de heteronomia em relação à autoridade do professor: uma adesão rígida à autoridade (respeito e punição) e negação da autoridade.

Dessa forma, em relação ao primeiro objetivo, os fatores indicados expressam as duas formas de heteronomia previstas: a defesa rígida da autoridade “Respeito e Punição”, cujos itens obtiveram um Coeficiente de Alfa de Cronbach de 0,60; e a negação de toda autoridade – “Ausência de autoridade” –, com um Coeficiente de Alfa de Cronbach igual a 0,50. Esse resultado concorda com os estudos realizados por Roth, Kanat-Maymon e Bibi (2011); por Carreira e Dias (2021) e por Cezário (2018), na importância que seus estudos mostram ter a autoridade para favorecer a autonomia dos estudantes – pois quando não há uma identificação adequada com ela, surge ou uma consciência moral “extrojetada”, que se expressa pelo respeito exagerado ao professor e pela exigência de punição a quem não respeita, ou pela ausência de uma consciência moral, presente naqueles que não respeitam a autoridade escolar e nem entendem sua importância como transmissor da cultura.

Conforme Adorno (2019), deve-se destacar que a crítica à autoridade pode ser também indicativa de autonomia, quando a contestação ocorre por motivos racionais; o mesmo se pode pensar sobre seguir não necessariamente a autoridade, mas os conhecimentos e valores que transmite, desde que também sejam racionais. Se o professor é o mediador entre a sociedade e os alunos, ainda que não seja possível, nem desejável, descartar as relações imediatas, a autonomia deve se constituir também em superar os afetos em relação ao professor e priorizar a autorreflexão, possível na distinção que os alunos possam fazer entre esse professor e o que transmite. A identificação deve se dar com o que é transmitido a partir daquele que transmite, mas que não se limite a este.

Para cumprir o segundo objetivo, esses fatores foram correlacionados com as subescalas da Escala F.

Na Tabela 3, são apresentados os desvios-padrões e as médias dos escores dos estudantes nas escalas e subescalas utilizadas.

Tabela 3
Médias e desvios-padrões das escalas e subescalas.

Como as escalas variam de 1 a 4 pontos e o ponto médio é 2,5, todas as médias estão próximas desse valor, indicando um valor médio das duas formas de heteronomia, e dos dois tipos de personalidade. Certamente, os alunos estão em formação de sua personalidade, estão iniciando sua adolescência, mas o fato de haver indicativos de uma fragilidade do eu e de traços sadomasoquistas é preocupante, considerando que poderão defender no futuro ideologias autoritárias associadas às suas necessidades psíquicas e não serem formados para criticá-las.

Para todas essas escalas, não houve diferença entre escolas, gênero, e entre ter ou não religião.

A Tabela 4, na sequência, apresenta as correlações de Pearson entre as subescalas.

Tabela 4
Correlações entre as subescalas da Escala F e os fatores da Escala de autonomia frente à autoridade.

Conforme os dados da tabela acima, os traços de uma personalidade sadomasoquista estão relacionados com a necessidade de punição e respeito à autoridade; quem defende mais rigidamente os valores (SM), tende a querer mais respeito e punição a quem não a segue – o que está em consonância com a pesquisa de Adorno (2019), em sua análise dos componentes sadomasoquistas da personalidade autoritária. Isso indica que respeitar a autoridade pode ocorrer por submissão hierárquica, o que significa que a hierarquia de meio se tornou um fim, e não pela importância do que essa autoridade tem a transmitir. A necessidade de punir quem não segue a autoridade parece revelar o que Freud (2011) argumentou, de alguém se julgar melhor do que os outros pelos sacrifícios que consegue fazer, e assim: o prazer de se submeter e de se submeter ao outro.

Os dados obtidos indicam também que uma fragilidade do Eu ora se assemelha ao sadomasoquismo, ora dispensa qualquer forma de autoridade, o que implica que expressa as duas formas de heteronomia. Isso talvez ocorra pela pouca diferenciação de um Eu, que tem suas ações pouco delimitadas: ora obedece rigidamente à autoridade, outras vezes a nega também de forma rígida.

Como essas correlações indicam duas formas de personalidade – sadomasoquista e maior fragilidade do Eu – apresentando relações diversas com a heteronomia, indica que, ao contrário do que propõe Costa (2021), a Escala do Fascismo já continha as tendências de personalidade que ela julga pertencentes a períodos distintos.

Como as correlações obtidas são de baixa magnitude, podem expressar que a autonomia é um fenômeno multideterminado, e que o tipo de personalidade é uma dessas determinações; talvez, a constituição da amostra por alunos jovens ainda não permita uma maior relação entre essas variáveis.

O indivíduo autônomo, por sua vez, seria o que tivesse baixo escore nesses dois fatores, e consequentemente superado a rigidez da defesa de valores morais estabelecidos, não porque não sejam importantes, mas porque devem ser refletidos. Teria uma consciência moral bem estabelecida, o que lhe permitiria não ter de voltar sua agressividade contra ninguém, pois se permite à autorreflexão e não precisaria da ação externa – que fortalece a heteronomia – para, quando fosse o caso, ser punido. Esses dados também estão de acordo com a pesquisa de Roth, Kanat-Maymon e Bibi (2011), quando ressaltam a importância do respeito à autoridade que tem regras justas e racionais, que podem servir aos alunos como referência para identificação.

Se, como defende Adorno (1995), a educação contra a barbárie deve se iniciar desde cedo na vida das pessoas, a relação com a autoridade não deve ser negligenciada, opondo-se quer a uma obediência plena ou à sua plena contestação.

Considerações Finais

A autonomia, como a possibilidade de reflexão e ação que promova a possibilidade de considerar os próprios valores e respeitar os dos demais, se associa com a liberdade e com a não manipulação dos desejos próprios e alheios, ou por regimes sociais autoritários. Essa autonomia é possível por meio da identificação das crianças e de jovens com uma autoridade esclarecida sobre seus objetivos e a subsequente superação dessa autoridade: valores e princípios da autoridade devem ser internalizados e depois refletidos em conformidade com a experiência obtida na relação com as pessoas e com as instituições.

Na escola, essa autoridade é representada pelos educadores – professores, coordenadores, diretores. Para que esses favoreçam o desenvolvimento da autonomia em seus alunos, é necessário que sejam uma referência que esses respeitem, mas não idealizem ou temam. A utilização de mecanismos escolares associados à punição, sem que haja o entendimento e a concordância com essa punição, seguem a direção oposta do desenvolvimento da autonomia, podendo levar a sentimentos hostis em relação à autoridade ou à adesão rígida por medo e tornar os indivíduos propícios a aderirem a sistemas autoritários.

A autodeterminação do comportamento deve ser fruto da autorreflexão do aluno sobre suas ações e suas consequências para si e para os outros.

Os dados da pesquisa relatada neste artigo indicam que a personalidade, em parte, se desenvolve em conformidade com a relação que os alunos têm com a autoridade dos educadores e, por isso, pode-se pensar que essa é fundamental para a formação de uma consciência moral autônoma em seus alunos. Se essa autoridade não for reconhecida pelos alunos como representante do conhecimento que quer transmitir, e, assim, com a dedicação que tem a esse conhecimento, a identificação não será com esse conhecimento, mas com o professor ou, então, não haverá identificação. Dessa forma, a autonomia não é independente da incorporação pelo aluno do que é transmitido, pois pode depender do que nota como relevante para o professor; assim os alunos podem inferir que esse conhecimento transmitido seria importante também para eles. Isso possibilita ir além das relações interpessoais para que a própria sociedade seja refletida em sua estrutura e no que determina as vidas de seus membros.

Os educadores escolares podem oferecer aos alunos esse conhecimento como algo importante com o qual possam se relacionar; como esse conhecimento representa o mundo, a cultura, a sociedade, sua internalização é a possibilidade que esses sejam não somente preservados, como também desenvolvidos.

Com os dados obtidos nesta pesquisa, pode-se defender que o papel do educador é fundamental para o estabelecimento ou não da autonomia em seus alunos, o que indica que sejam valorizados pelo seu conhecimento, e que as regras e os princípios que representam, que são também os da sociedade, devem ser meios para a felicidade e liberdade humanas – e não ditames a serem seguidos rigidamente, como os que são proporcionados por regimes antidemocráticos.

O que se pode destacar de novo nesta pesquisa é a distinção entre dois tipos de personalidade, avaliados pela Escala F – o que se contrapõe ao que seus autores afirmam ser uma só –, e suas diferentes relações com a autoridade: há a personalidade autoritária, nomeada de sadomasoquista, e a personalidade antidemocrática, mais difusa que a outra, e cada uma delas parece se diferenciar em relação à defesa de uma sociedade democrática. Logo, não deve ser indiferente tal diferenciação para quem considera que a escola deve formar indivíduos democratas e resistentes a ideários autoritários.

Novas pesquisas devem ser feitas para corroborar os resultados desta, cujos limites podem ser expressados pelos coeficientes Alfas de Cronbach das escalas, considerados médios, e por haver uma amostra de conveniência. Além disso, deve-se ressaltar que as correlações obtidas entre as escalas são de baixa magnitude, apesar de serem significantes ao nível estabelecido – o que indica se tratar de um fenômeno multideterminado –, e que a relação encontrada indica um desses fatores fundamentais para que a autonomia seja desenvolvida.

  • Artigo resultado da pesquisa intitulada “Ações de enfrentamento ao bullying e à discriminação na escola pública” financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, sob o número 2019/13579-3.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Jan 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    15 Maio 2024
  • Aceito
    31 Out 2024
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