Open-access A Cultura como consumo no âmbito da Libras e da formação docente

RESUMO

Este artigo explora a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como objeto de consumo e a formação profissional de docentes surdos para o ensino de Libras, a partir de contribuições advindas dos Estudos Culturais em Educação e dos Estudos Surdos. A pesquisa, de cunho qualitativo, deu-se por meio de entrevistas realizadas com seis surdos egressos do curso de Licenciatura em Letras-Libras, que o tiveram como segunda graduação e que, ademais, cursaram a Pós-graduação stricto sensu. Os resultados apontaram que a formação em Letras-Libras não apenas capacita os professores para atuarem de forma eficiente em contextos educacionais, mas também valoriza e legitima a língua de sinais no Ensino Superior. Além disso, a pesquisa indicou que o surdo vem a se tornar docente, processo ao qual precisa adaptar-se, principalmente pelo uso e consumo que se vinculam à língua de sinais e pelo imperativo social do desempenho.

Palavras-chave:
Letras-Libras; Consumo; Estudos Surdos; Formação docente

ABSTRACT

This article examines Brazilian Sign Language (LIBRAS) as both an object of consumption and a focus of professional training for deaf educators, drawing on insights from Cultural Studies in Education and Deaf Studies. The qualitative research involved interviews with six deaf graduates of Bachelor’s Degree in Brazilian Sign Language (LIBRAS), who pursued it as a second degree and also completed stricto sensu graduate courses. Findings reveal that training in Libras not only equips teachers to work effectively in educational settings, but also enhances the recognition and legitimacy of Sign Language in Higher Education. Furthermore, the study highlights the challenges that deaf individuals face when transitioning to teaching roles, particularly due to the societal expectations surrounding the use and consumption of Sign Language, as well as the performance pressures associated with their roles.

Keywords:
Sign Language; Consumption; Deaf Studies; Teacher Training

Contextualização da investigação

Durante as últimas duas décadas, os sujeitos surdos têm investido em sua formação, em produções acadêmicas e em sua qualificação profissional docente, devido às mudanças na legislação, o que viabilizou o acesso à universidade por meio do reconhecimento da Língua Brasileira de Sinais (Libras). Entretanto, o acesso de surdos, tanto ao Ensino Superior quanto a cursos de Pós-graduação stricto sensu, ainda é uma conquista recente e com fragilidades, pois, antes da Lei 10.436 (Brasil, 2002), não se compreendia a academia como um local cabível para estudantes surdos.

As mudanças na legislação, a defesa da língua de sinais e da educação bilíngue decorrem de um processo de luta do movimento surdo pelo direito à cidadania. A pesquisadora surda, Flaviane Reis (2015), destaca que a seção 3, do documento A Educação que nós Surdos Queremos (Feneis, 1999), apresentava um manifesto da comunidade surda por uma nova oportunidade profissional para professores surdos e reivindicava a abertura de espaços nas universidades para a formação de professores surdos.

A luta do movimento surdo desencadeou mudanças significativas na legislação, tais como o reconhecimento da Língua Brasileira de Sinais, em nível nacional, por meio da Lei 10.436 (Brasil, 2002), e das disposições presentes no Decreto 5.626 (Brasil, 2005), que regulamenta a referida lei. Tais mudanças significaram uma conquista dos surdos por seus direitos, além de serem consideradas úteis para a política de inclusão, uma vez que, a partir de 2005, ocorreu a criação de cursos de graduação para a formação de professores e intérpretes, bem como a inserção da disciplina de Libras nos cursos superiores de Licenciatura e Fonoaudiologia.

Nas universidades brasileiras, os estudantes de graduação passaram a ter Libras como disciplina obrigatória ou optativa em seu currículo, o que aumentou a necessidade de profissionais para atuação na área. Por outro lado, percebemos a procura pela formação em Letras-Libras (LL) de estudantes que haviam concluído o Ensino Médio, bem como de surdos já graduados em outros cursos, cujo interesse estava na busca por uma formação compatível para ingressar em concursos públicos e no ensino de Libras em universidades. Com isso, profissionais surdos, já formados em áreas diversas, mas sem formação específica na área de Libras, passaram a ingressar no curso de Licenciatura em Letras-Libras, com o propósito de complementar sua formação ou redirecionar sua atuação profissional e, ainda, obter titulação e conhecimento acerca de sua língua e do ensino da língua de sinais.

Com base nessa contextualização, perguntamo-nos sobre outras motivações para a procura de uma segunda formação acadêmica de profissionais surdos no curso de graduação em Letras-Libras. Desse modo, o objetivo deste artigo é analisar a experiência de professores surdos, em relação à dupla formação acadêmica, sendo uma delas especificamente a Licenciatura em Letras-Libras. O presente artigo deriva de uma investigação desenvolvida durante o Mestrado em Educação - realizada pela primeira autora (Branco, 2019), com orientação da segunda -, tendo como fundamentação teórica contribuições advindas dos Estudos Culturais em Educação e dos Estudos Surdos, com ênfase na temática da cultura como consumo.

A pesquisa é de cunho qualitativo e foram realizadas entrevistas com seis surdos egressos do curso de Licenciatura em Letras-Libras como segunda graduação e que realizaram um curso de Pós-graduação stricto sensu. As entrevistas foram realizadas em Libras, língua da pesquisadora e dos entrevistados, de modo presencial. Posteriormente, foram traduzidas para o português e transcritas para o desenvolvimento das análises. Na sequência, desenvolveremos a articulação teórico-metodológica da investigação e focalizaremos no conceito de consumo para contextualizar os procedimentos analíticos e indicar alguns resultados.

Libras como objeto de consumo

O conceito de consumo é aqui desenvolvido a partir da leitura de obras que inspiram as discussões aqui apresentadas, tais como Vida para Consumo, de Zygmunt Bauman (2008); Consumidores e Cidadãos, de Néstor García Canclini (2008), e, por último, A conveniência da cultura: usos da cultura na era global, de George Yúdice (2013).

Se o consumo é considerado um dos aspectos envolvidos no circuito da cultura (Hall, 1997), uma língua, a partir de suas tecnologias, dos dicionários, das gramáticas, das aulas e de outras produções, também se torna objeto de uso e de consumo. Podemos, então, dizer que a Libras se torna objeto de uso e de consumo, em ambientes nos quais os surdos estão envolvidos. O processo de consumo é construído e modificado na relação com os espaços que influenciam a comunidade surda. Sendo assim, Branco (2019) compreende que o consumo envolve processos em que o sujeito surdo se torna consumidor e, ao mesmo tempo, a língua de sinais se torna objeto de consumo.

No curso de Letras-Libras, a Libras possui status de língua, e o uso de recursos presentes no espaço virtual traz mudanças para a comunidade acadêmica e no modo de interagir uns com os outros. Uma das mudanças é o uso de tecnologias de registro visual, tais como a produção de vídeos em Libras, o uso da escrita de sinais (signwriting) e o uso do português escrito como língua adicional. Desse modo, as aulas são realizadas por meio de videoconferências que atendem a uma proposta bilíngue; os materiais, atividades e trabalhos são filmados em Libras e/ou escritos em português e há produção de conhecimento linguístico sobre a língua de sinais.

Para melhor abordar, então, a realidade do curso, como já mencionado, apresentaremos alguns relatos de docentes que o empreenderam como segunda graduação. As narrativas dos entrevistados expõem sua bagagem cultural, suas experiências como estudantes de graduação, do curso de Letras-Libras e de pós-graduação stricto sensu. Destacam-se as percepções de cada um sobre a influência do Letras-Libras, seu entrelaçamento com a cultura surda, sobretudo depois de reconhecerem que, sem a Libras, seriam inexistentes as construções e a absorção das experiências que constituem o conhecimento profissional do docente surdo.

Nesse contexto, podemos indicar que o curso de Letras-Libras desencadeia uma construção e uma transformação relacionada aos processos educacionais e formativos dos estudantes. Mais especificamente, os surdos entrevistados se propuseram então a uma nova caminhada, buscando uma formação profissional para encontrar novas possibilidades e oportunidades em suas vidas. Assim, à medida que os surdos vão consumindo e participando de diferentes formações, deparam-se com conteúdos, com tecnologias e recursos a ela inerentes. Diante dessas mudanças, com base nessas novas influências, segundo os entrevistados, fazem-se consistentes as implicações trazidas pela formação em Letras-Libras e as significâncias dos ambientes virtuais.

Acerca dos aspectos problemáticos do consumo, Bauman (2008) promove uma análise sociológica e sugere uma transformação das pessoas em mercadorias. O termo consumo se expande, começa a sair do âmbito estritamente econômico e passa a ser discutido filosoficamente quando as pessoas se convertem em objeto na relação de compra e venda. O argumento central é que a sociedade valoriza as pessoas pelo que elas podem consumir e que essa cultura do consumo se caracteriza pela construção, via bens de consumo, de estilos de vida. Nesse viés, há uma necessidade de mudanças rápidas e de constante mobilidade dos sujeitos em direção ao consumo.

Nesse sentido, argumentamos que o sujeito surdo passa por processos de consumo, que se intensificam ao se deparar com textos legais e com possibilidades de expandir sua atuação profissional, ao participar de discussões propostas nos movimentos surdos e ao adentrar o ambiente universitário, em busca de formação qualificada para o ensino da Libras. Isso significa que o surdo, ao se tornar docente, modifica-se nesse processo, principalmente pelo uso e consumo que se vinculam à língua de sinais e pelo imperativo social do desempenho. Esse imperativo estabelece que não basta usar a língua de sinais, é preciso saber ensiná-la, e, para cumprir essa exigência, torna-se necessário obter titulação em nível de graduação e pós-graduação stricto sensu.

A concepção de “cultura como recurso” é tomada por Yúdice (2013) no sentido de indicar a gestão e administração da cultura, aliada a uma educação crítica. Sendo a língua de sinais o mais destacado marcador cultural das comunidades surdas, tomá-la como objeto de investigação e ensino é uma das formas de promover o desenvolvimento de políticas educacionais e linguísticas. É importante destacar que:

[...] essa política situa as questões relativas à cidadania dentro dos meios de representação, perguntando nem tanto quem conta como cidadão, mas como ele é construído; não quais são seus direitos e deveres, mas como eles são interpretados; não quais são os canais de participação na formação de opinião e na tomada de decisão, mas quais as táticas que permitem que se intervenha nesses canais e processos decisórios em prol dos interesses dos subordinados (Yúdice, 2013, p. 246-247).

Um outro aspecto a destacar são as formações de professores surdos, que passaram a impulsionar a atuação de tais profissionais em ambientes universitários, promovendo conquistas pessoais e coletivas. Reforça-se, desse modo, o direito social de estar em igualdade de oportunidade com os demais, envolvendo conhecimento profissional docente. O ensino, no caso da Libras, quando envolve o sujeito surdo, marcado por uma história de intolerância linguística e opressão, empodera e fortalece o sujeito não somente enquanto indivíduo, mas enquanto comunidade, grupo social.

A segunda característica do conhecimento profissional docente é a sua natureza coletiva, o fato de se constituir no interior de uma profissão ou, melhor dizendo, de um coletivo profissional. Não se trata de diminuir a relação de cada um, individualmente, com o conhecimento, mas de projetar essa relação pessoal numa produção coletiva. [...] A passagem de uma identidade individual a uma constituição coletiva é essencial para a emergência de um conhecimento profissional docente (Nóvoa, 2022, p. 10).

Nóvoa destaca os processos coletivos e colaborativos entre colegas e docentes mais experientes com os recém-chegados, reforçando as dimensões coletivas da profissão. Tais aspectos são construídos também de modo articulado entre a experiência de ser surdo e de ser docente, na construção de um conhecimento profissional para atuação na área de ensino de Libras.

Rotas e encruzilhadas: articulações teórico-metodológicas

As primeiras turmas que obtiveram titulação no curso de Letras-Libras, em 2010 e 2012, totalizaram 767 licenciados e 312 bacharéis, distribuídos em 16 estados brasileiros (Quadros; Stumpf, 2014). Um destaque importante é que 90% dos estudantes eram surdos, no curso de Licenciatura, dado que corrobora o valor do curso no fortalecimento de uma comunidade surda acadêmica.

A proposta que o curso apresentava e ainda propõe, para os estudantes surdos, corrobora a afirmação de Pokorski e Karnopp (2023, p. 5) de que “o currículo do curso de graduação em Letras-Libras se constitui em um eixo centralizador das políticas linguísticas de proteção e divulgação da Libras”, pois “[...] possibilitou o contato de surdos e ouvintes de diferentes lugares do Brasil e potencializou discussões sobre o papel e o espaço da Libras dentro dos currículos escolares e acadêmicos”.

Conforme indicado na parte introdutória, o objetivo deste artigo é analisar a experiência de professores surdos, em relação à dupla formação acadêmica, sendo uma delas especificamente a Licenciatura em Letras-Libras. A delimitação da abrangência da investigação considerou a proximidade geográfica da pesquisadora em relação aos sujeitos da pesquisa, para fins de realização das entrevistas presenciais. Nesse sentido, foram selecionados seis surdos egressos da primeira turma de graduação em Letras-Libras, de 2006, curso coordenado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), vinculados ao polo da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), do Rio Grande do Sul. Deve-se salientar que a implementação no Brasil do primeiro curso de graduação em Letras-Libras, pela UFSC, tornou-se referência para a comunidade surda.

Quanto aos procedimentos metodológicos, inicialmente a pesquisadora (Branco, 2019) realizou o levantamento da quantidade de surdos egressos, do Letras-Libras, que apresentavam dupla formação acadêmica. Foram identificados quarenta e seis surdos egressos (46) do polo da UFSM, sendo que mais da metade desse total - vinte e quatro (24) - já haviam concluído outro curso no Ensino Superior. Desse total, foram selecionados seis (6) surdos para a realização das entrevistas, considerando a disponibilidade de participação na pesquisa e o critério adicional de que tivessem continuado seus estudos em cursos de Pós-graduação stricto sensu. Esse critério se deu por dois motivos: primeiramente, os egressos selecionados, em suas dissertações de mestrado ou em suas teses de doutorado, produziram conhecimento em áreas relacionadas às duas graduações realizadas; em segundo lugar, utilizaram conceitos vinculados aos Estudos Surdos, em suas publicações, o que contribui para o aprofundamento desse campo de investigação e para o detalhamento da questão sobre a experiência de formação.

A realização da pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética da instituição da pesquisadora e os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Os surdos optaram por ter seus nomes próprios utilizados na divulgação da pesquisa, pois se consideram protagonistas de suas histórias. Nesse sentido, todos os entrevistados serão aqui identificados pelos seus próprios nomes. Para a realização das entrevistas, foram adotados os seguintes procedimentos: a pesquisadora explicou o tema, os objetivos da pesquisa, o registro em vídeo e o processo de análise. Em seguida, explicou o TCLE e solicitou sua assinatura. As questões direcionadas aos entrevistados vincularam-se aos motivos pelos quais os surdos resolveram realizar uma segunda graduação, especificamente o curso de Letras-Libras, e quais as mudanças dessa formação nas suas vidas pessoal e coletiva. O Quadro 1 apresenta um resumo sobre a formação e atuação profissional dos entrevistados, a partir de informações disponibilizadas em seus currículos Lattes, na época das entrevistas e atualizadas para o presente artigo (Branco, 2019, p. 31-32).

Quadro 1:
Informações sobre os entrevistados

Diante do referencial teórico, procedemos à análise das entrevistas dos seis sujeitos surdos identificados, por meio daquilo que contaram sobre as mudanças ocorridas depois da conclusão de sua graduação em Letras-Libras. A proposta não é descrever o Curriculum Vitae de cada um, traçando o perfil profissional desses sujeitos ou contar sobre as conquistas pessoais, o interesse envolveu questões abrangentes, tais como a constituição de suas experiências nas universidades e o conceito de consumo. Da mesma forma, buscamos enfatizar as influências sugeridas às associações de surdos, encontros entre surdos adultos, as experiências linguísticas, todas as possibilidades relacionadas ao consumo, não como critério de compra, de mercadoria, mas de mudança nos processos comunitários a partir da apropriação de algo novo. Na sequência, desenvolveremos as análises e os resultados da investigação.

Experiências de surdos no Ensino Superior

Jorge Larrosa Bondía (2015, p. 18) desenvolve o conceito de experiência e afirma que “A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca”. O autor considera que experiência não é excesso de informação, tampouco excesso de opinião ou falta de tempo ou excesso de trabalho. Esse conceito, em diálogo com a temática desenvolvida neste artigo, é analisado no contexto da educação, referenciando experiências de professores surdos com a Libras, entendendo aqui o par - experiência/sentido.

E isto a partir da convicção de que as palavras produzem sentido, criam realidades e, às vezes, funcionam como potentes mecanismos de subjetivação. Eu creio no poder das palavras, na força das palavras, creio que fazemos coisas com as palavras e, também, que as palavras fazem coisas conosco. As palavras determinam nosso pensamento porque não pensamos com pensamentos, mas com palavras, não pensamos a partir de uma suposta genialidade ou inteligência, mas a partir de nossas palavras. E pensar não é somente ‘raciocinar’ ou ‘calcular’ ou ‘argumentar’, como nos tem sido ensinado algumas vezes, mas é sobretudo dar sentido ao que somos e ao que nos acontece (Larrosa Bondía, 2002, p. 20-21).

Sobre a primeira graduação realizada, uma das experiências que os surdos narram vincula-se ao modo como são estigmatizados socialmente, o que determina algumas escolhas profissionais. Francielle Martins, uma das entrevistadas, narra o processo de escolha do curso.

[...] meu desejo desde pequena era fazer medicina e atuar em clínica. Sempre quis. Mas sabe, a comunidade surda sempre teve um rótulo, que marcava a impossibilidade de o surdo estudar medicina, que não conseguiria emprego nesta área médica. Era o que eu via sempre, que não teria como. Por isso, eu ficava imaginando, quando realizei a inscrição do vestibular para a área da saúde, algo que combinava comigo, escolhi o curso de psicologia, só por isso, mas queria realmente ser médica. Então fui para curso de Psicologia, também mais próximo da área de saúde (Francielle Martins)1.

Muitas representações, atreladas ao sujeito surdo, como incapaz, sem poder de escolhas e com dificuldades de comunicação, ainda circulam socialmente. Vimos, na entrevista com a professora Francielle, o seu desejo de estudar Medicina, mas essas representações influenciaram suas escolhas e seu percurso profissional. Pessoas surdas enfrentam preconceito linguístico, pois são representadas como aquelas que escrevem com falhas, com omissão de palavras, que não dominam o português.

A professora Bruna Alberton narrou, por sua vez, que não teve contato com surdos adultos na sua infância, ao mesmo tempo que não possuía acesso às informações e trazia muitas dúvidas sobre ser surda e sobre sua escolha profissional. Em sua entrevista, ela nos contou como escolheu o curso de Matemática:

Fiquei pensando, por que não poderia ser professora de Matemática? Morava numa cidade muito pequena, em Uruguaiana, observava, na cidade, que a faculdade e o curso de Matemática era para trabalhar como professora. Fiz essa reflexão por um tempo, até descobrir a comunidade surda e entender que poderia e queria ser professora de Matemática (Bruna Alberton).

Bruna Alberton observava a faculdade, mas não tinha acesso às informações e não sabia se poderia ingressar e realizar o curso de graduação. Queria ser professora de Matemática, mas suas dúvidas a impediam de realizar uma ação concreta na direção da universidade, até o momento que encontrou a comunidade surda, que lhe ofereceu informações sobre o funcionamento dos cursos, incentivo e uma sensação de segurança. Esse compartilhamento de informações foi determinante em suas reflexões e escolhas profissionais. Holcomb (2011), professor surdo estadunidense, afirma que o compartilhamento de informações entre os surdos se torna um meio de sobrevivência em que buscam enfrentar situações de intolerância e preconceito, para permanecerem na escola mesmo sob condições adversas.

A professora Bruna Alberton contou que optou pelo curso de Ciências Contábeis, em uma universidade localizada em Uruguaiana, porém não houve a presença de intérpretes de Libras, o que lhe causou desconforto linguístico e impossibilidade de acesso aos conteúdos ministrados pelos professores. Além disso, a professora indicou o motivo de sua desistência: “Então, quando pude optar por uma graduação, eu escolhi Ciências Contábeis. De início, sem intérprete, muita teoria, questões sobre juros, política, logo acabei desistindo” (Bruna Alberton).

Tanto os relatos de Francielle Martins quanto de Bruna Alberton indicam as condições de possibilidade ofertadas no momento em que ingressaram na universidade para a realização do primeiro curso de graduação. Percebem-se representações desabonadoras e um ambiente hostil, sem o reconhecimento da língua de sinais e com aulas que não disponibilizavam o trabalho de tradutoras-intérpretes de Libras que as pudessem auxiliar naquele momento.

Quanto ao professor Diogo Madeira, seu desejo era trabalhar na área jornalística, porém a oportunidade que lhe apareceu foi na área de Libras, e ele a aceitou. Contudo, a sua sensação era de que seu diploma de jornalista foi sendo perdido. Ele gostaria de continuar usando esses conhecimentos para sua vida, mas seriam outros tempos. Segue recorte da narrativa:

Organizei-me e prestei concurso, fui aprovado para trabalhar, a vaga era para área de Libras, mas pensei no Jornalismo, enfim a primeira oportunidade era na área de Libras e comecei a atuar então como professor. Já no Jornalismo, posso dizer que a minha carreira foi aos poucos ‘desaparecendo’, mas continuo escrevendo, publicando, sim, eu continuo escrevendo! (Diogo Madeira).

Uma experiência semelhante foi relatada pelo professor Nelson Goettert, que tinha o interesse em trabalhar na área de informática ou como professor em escola, lecionando Informática para surdos, mas não foi chamado. Entretanto, com a formação no Letras-Libras e a pós-graduação, haveria a possibilidade de realizar concurso público, pois a maioria das vagas estava concentrada no Ensino Superior. As chances de conquistar uma vaga nesse espaço eram maiores, e foi o que aconteceu.

Eu realmente achei que poderia ser chamado para alguma vaga, mas nada. Diferente do Letras, que fui chamado, comprovando através do diploma minha qualificação. Claro, posso reafirmar minha aprendizagem efetiva no curso de Letras, mas guardo também o curso de Informática, afinal é um diploma… (Nelson Goettert).

Na entrevista com a professora Carolina Sperb, houve um detalhamento sobre os dois cursos de graduação realizados, com enfoque na acessibilidade comunicacional. Ela expôs sua satisfação pessoal com o curso de Letras-Libras, pelo fato de que lhe proporcionou uma participação efetiva e a possibilidade de se expressar. A experiência se configurou diferentemente do que acontecia no curso de Letras-Português, que realizou de modo concomitante, em outra universidade. Essa experiência indica que a acessibilidade no curso de Letras-Libras proporcionou um espaço de participação e construção de conhecimentos, por meio de trocas diretamente em Libras, sem barreiras ou impedimentos de comunicação. Ela, assim, relatou-nos:

Vejo que o que eu aprendia da Língua Portuguesa se insere no Letras-Libras como L2, e entendo o Letras-Libras como mais acessível. O curso de Letras Português, por conta da língua, tem sua gramática e regras. Eu poderia convalidar essas disciplinas com conteúdos iguais aos presentes no Letras-Libras, para não ver tudo de novo, mas não, eu preferi obter mais conhecimentos e também porque o objetivo ali era a Libras. Não como algo básico, mas sim algo a ser visto como uma Língua, como minha primeira língua (Carolina Sperb).

Além disso, a experiência de realizar concomitantemente dois cursos de graduação, em Letras-Português e em Letras-Libras, narrada por Carolina Sperb, indica um movimento constante de diálogo intercultural, da compreensão das culturas envolvidas, da percepção da diferença entre os objetivos e abordagens, bem como do arcabouço teórico construído no Letras-Libras, para responder às demandas da comunidade surda.

Há uma outra situação, sobre a coragem de participação, o aumento da produção de registros em vídeo da Libras e a difusão dessa experiência, inclusive para o formato da experiência presente. Carolina Sperb pontuou o quanto é importante que sejam disseminadas as informações através de vídeos, que são acessíveis aos surdos.

No Letras-Libras, eu me expressava, exigia coragem, eu precisava me expor. Antes eles falaram que os vídeos eram importantes, assistir e tal, mas eram poucos os vídeos, e o Letras-Libras ajudou e muito nessa difusão. Hoje temos variedade, um exemplo é o que temos aqui, uma entrevista filmada, muito chique (Carolina Sperb).

As entrevistas indicam a Libras como marca cultural dos professores surdos. Desse modo, a ênfase do curso de Letras-Libras está em conexão com essa marca cultural, em que a formação se direciona ao ensino da Libras, considerando as questões históricas, culturais, sociolinguísticas, psicolinguísticas, de aquisição e aprendizagem pelo sujeito e o estudo como língua viva, dentre outros aspectos.

Experiências de surdos com línguas e suas tecnologias de registro

Nesta seção analisaremos alguns desdobramentos da formação em Letras-Libras a partir das entrevistas realizadas com os docentes surdos. As investigações, desenvolvidas por Renata Heinzelmann Bosse (2014), pesquisadora surda, indicam que novas temáticas de investigação começaram a se expandir, a partir do curso de Letras-Libras, tais como a Literatura Surda. A autora argumenta que o acervo de vídeos em Libras lhe parecia um baú fechado, pois as produções literárias da comunidade surda não circulavam nos debates acadêmicos, por exemplo. Em suas produções acadêmicas, ela fez questão de apresentar os materiais contidos nesse baú, reiterando que a Libras, como patrimônio imaterial da comunidade surda, precisa ser preservada.

A Literatura Surda, como área de pesquisa que vem se fortalecendo a partir dos cursos de Letras-Libras, vem possibilitando que muitos registros e estudos sejam realizados. Antigamente os poemas em língua de sinais se perdiam, com a falta de registro e efetiva troca entre as comunidades surdas. Esse movimento de registro dos poemas (impresso ou digital) vem favorecendo a criação poética, sendo que as produções de novos textos em língua de sinais vêm ganhando força em quantidade e, também, força estética e temática, servindo como fortaleza, um local seguro para a comunidade surda, onde a cultura e a língua são preservadas (Bosse, 2014, p. 88).

A preservação e a divulgação da literatura surda são aspectos destacados pela comunidade surda. As formas de registro visuais, bem como as filmagens do patrimônio literário são fortalecidas pelos recursos disponibilizados no curso de Letras-Libras. São potencializados os espaços virtuais, por meio da tecnologia disponibilizada pelo curso e pelo mundo contemporâneo. O uso da tecnologia influencia o modo como o surdo transita nesses âmbitos, como acessa informações, como interage com surdos e ouvintes, como recorre a uma língua ou outra. Pinheiro (2011, p. 34), sobre a produção e consumo da cultura, indica que:

A internet toma agora um lugar além das trocas ou encontros virtuais, sendo mais que isso é um lugar de produção de conhecimentos, culturais, identidades e resistência. É possível afirmar que o ambiente virtual Youtube, nesse contexto midiático, é uma rede social onde se estabelecem relações produtivas. Os surdos, ao fazerem uso desse espaço como consumidores e produtores de sua cultura, estão fazendo circular representações e dando visibilidade à língua de sinais, promovendo um espaço de ensino, comunicação e relação com outros surdos ou ouvintes.

Podemos relacionar essa questão da internet como lugar/ponto de encontro entre surdos e ouvintes no ambiente virtual do Letras-Libras, ao compreendermos que o curso empreendido por nossos entrevistados ocorreu em alguns polos espalhados pelo Brasil. A interação, as trocas, os conhecimentos e informações sobre os espaços, sobre a língua, aconteciam por meio dessa tecnologia da internet. Diogo Madeira destacou a integração com colegas de diferentes regiões do Brasil, pelo acesso e uso da tecnologia.

o Letras-Libras me possibilitou mais encontros e contatos, considerando a diversidade de polos espalhados pelo Brasil. Eu estudava no polo de Santa Maria, mas como tínhamos vários polos, o contato e as interações aconteciam entre nós, nos fóruns, nas discussões, isso realmente me marcou. Esse contato com outros sujeitos semelhantes a mim, bilíngues, esses encontros, toda essa interação foi o que mais me marcou, principalmente isso, porque foram quatro anos assim (Diogo Madeira).

Esse relato destaca que o curso de Letras-Libras foi importante pelo formato na modalidade bilíngue, bem como pelos contatos proporcionados pelo uso da tecnologia, via videoconferências, encontros quinzenais e possibilidades de bate-papos com pessoas de todas as regiões do Brasil.

Para finalizar, destacamos que as discussões apresentadas neste artigo envolvem o conceito de consumo, que se vincula às tecnologias, redes sociais, educação, línguas. A Libras constitui a língua dos sujeitos surdos e as experiências que são relatadas nas entrevistas a evidenciam como marcador cultural da comunidade surda. Consideramos que estes apontamentos contribuem para pensar as experiências de surdos nas universidades e a constituição desse cidadão, sem estarmos limitados à Lei ou ao curso de Letras-Libras, mas, de maneira geral, perceber que a potência de todos esses aspectos são também decorrentes dos encontros das comunidades ou associações de surdos e do período de suas vidas, quando tiveram contato com esse contexto. É importante, sobretudo, atentarmo-nos ao fato de que, nesse processo, a língua de sinais e o valor a ela conferido culturalmente, e na educação, torna-se o meio de constituição dos professores surdos no Ensino Superior.

Considerações finais

Ao retomarmos à pergunta que motivou a escrita deste texto, sobre as motivações para a procura de uma segunda formação acadêmica de profissionais surdos no curso de graduação em Letras-Libras, cabe-nos algumas considerações finais. Nesse sentido, destacamos a inovação e a potência da formação no curso de Letras-Libras, bem como as condições de possibilidade construídas que favoreceram a produção de conhecimento profissional docente.

Salientamos que o curso de Letras-Libras possibilitou a formação de uma quantidade expressiva de pessoas surdas no Ensino Superior. Devem-se observar as condições de acesso, permanência e participação ofertadas pelo curso, especialmente pelo investimento em práticas de ensino direcionadas à construção de novos conhecimentos, em que se priorizou a acessibilidade do material, em versão bilíngue - língua de sinais e língua portuguesa. Além disso, a Libras adquiriu o status de língua de instrução, possibilitando, tanto a construção de conhecimentos linguísticos e pedagógicos sobre o ensino de Libras, quanto a formação profissional.

Muitas questões foram indicadas nas entrevistas empreendidas, mas salientamos que todos os pesquisadores realizaram uma constante busca por formação e investimento no conhecimento profissional docente, vinculados à experiência de surdos com ambientes educacionais, por meio dos quais foram relatadas as formações, tanto na academia quanto em suas comunidades. A questão não é somente a obtenção de um título, de uma conquista individual, mas também de promover uma luta coletiva, de acesso ao Ensino Superior e como docentes em universidades. O ensino, no caso da Libras, quando envolve o sujeito surdo, empodera e fortalece o sujeito não somente enquanto indivíduo, mas toda sua comunidade, grupo social.

Nessas entrevistas, os docentes surdos sublinham a Libras como marca cultural da comunidade surda e como patrimônio imaterial, sobre as mudanças na legislação e nos espaços educacionais, sobre suas experiências em direção à construção de conhecimento profissional docente.

Para finalizar, utilizamos duas citações que contribuem com as discussões até aqui apresentadas. No trecho do prefácio do livro Estudos Surdos II, Gládis Perlin (2010, p. 11) adverte que: “Hoje, saídos dos esconderijos, das sepulturas, liberados para a cidadania do nós, estamos em movimento. Certas facetas do mundo contemporâneo nos remetem a olhares diferentes em diferentes sentidos”. E, pelas análises desenvolvidas, Yúdice (2013, p. 243) nos inspira a pensar no jogo de representações que nos cerca “[...] penso que eles acreditam ser possível fazer o jogo da cidadania através do meio consumidor, não somente de mercadorias, mas principalmente, de representações”.

A cultura como consumo, no âmbito da Libras e da formação docente, está relacionada ao circuito da cultura, em que a língua de sinais assume uma centralidade, a partir de suas tecnologias, dos dicionários, das gramáticas, das aulas e de outras produções, dos cursos de graduação e pós-graduação. Podemos, então, dizer que a Libras se torna objeto de uso e de consumo, em ambientes acadêmicos, sendo um processo que é construído e modificado na relação entre a comunidade surda e a comunidade acadêmica.

Nesse artigo, argumentamos que o sujeito surdo passa por processos de consumo, que se intensificaram a partir de mudanças legais, as quais criaram condições de possibilidade para a expansão da formação docente e da atuação profissional no Ensino Superior. Tais mudanças legais foram fomentadas pelos movimentos surdos e pela presença de surdos no Ensino Superior. Ao adentrar no curso de Letras-Libras, o estudante surdo se depara com processos coletivos e colaborativos entre colegas e docentes mais experientes com os recém-chegados, reforçando as dimensões coletivas da profissão. Tais processos são construídos a partir da experiência de ser surdo, acadêmico e docente, na construção de um conhecimento profissional para atuação na área de ensino de Libras.

Referências

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  • 1
    Todas as citações em itálico foram produzidas pelos entrevistados, em Libras, e posteriormente traduzidas e transcritas pela pesquisadora.
  • Disponibilidade de dados de pesquisa:
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  • Como citar este artigo:
    BRANCO, Bruna da Silva; KARNOPP, Lodenir Becker. A Cultura como Consumo no Âmbito da Libras e da Formação Docente. Educar em Revista, Curitiba, v. 42, e98171, 2026. https://doi.org/10.1590/1984-0411.98171
  • Editor(es)/a(s) responsáveis
    Angela Scalabrin Coutinho.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    20 Jan 2025
  • Aceito
    31 Mar 2025
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