Open-access Entre a tradição e a inovação: a prática educativa nos grupos escolares do Piauí (1927-1961) à luz da História Transnacional dos Saberes e Práticas Educacionais

RESUMO

Este artigo analisa a constituição da cultura escolar nos grupos escolares do Piauí entre 1927 e 1961, com base na perspectiva da História Transnacional dos Saberes e Práticas Educacionais. Inspirado nos aportes teóricos de autores como Nóvoa (2009), Rogers (2019), Vidal (2011; 2020) e Vera e Fuchs (2021), o estudo considera que modelos pedagógicos circularam internacionalmente, sendo apropriados e ressignificados em contextos locais. A análise tem como foco o ensino primário, a formação de professoras normalistas e a prática docente, com ênfase nas prescrições curriculares e metodológicas voltadas para o ensino de Geografia. Do ponto de vista metodológico, apoia-se em Escolano Benito (2017), ao conceber a práxis escolar como expressão de uma cultura que se constrói por meio da memória e da experiência. Utiliza-se análise documental e interpretação hermenêutica de fontes normativas, memoriais, relatos e programas de ensino. Os resultados apontam para uma pedagogia em trânsito, marcada pela coexistência entre tradição e inovação, revelando um campo escolar híbrido e situado. A atuação do INEP, os programas de ensino de 1928, 1949 e 1960 e a mediação de agentes reformadores indicam processos de tradução local de saberes pedagógicos globais. Conclui-se que a cultura escolar piauiense se constituiu a partir de negociações entre o prescrito e o vivido, reforçando a potência da abordagem transnacional.

Palavras-chave:
Cultura escolar; História da educação; Saberes pedagógicos; Ensino primário; História transnacional

ABSTRACT

This article analyzes the formation of school culture in the public school system of Piauí, Brazil, between 1927 and 1961, from the perspective of the Transnational History of Educational Knowledge and Practices. Drawing on the theoretical contributions of António Nóvoa (2009), Rebecca Rogers (2019), Diana Gonçalves Vidal (2011, 2020), and Rodán Vera (2021), the study argues that pedagogical models circulated internationally and were appropriated and re-signified in local contexts. The analysis focuses on primary education, the training of female teachers in normal schools, and teaching practices, with an emphasis on curricular and methodological guidelines related to the teaching of Geography. Methodologically, it is informed by Escolano Benito (2017), who conceives school praxis as an expression of culture shaped by memory and experience. The research employs documentary analysis and a hermeneutic interpretation of normative texts, memoirs, testimonies, and curricular programs. The findings reveal a pedagogy in transit, marked by the coexistence of tradition and innovation, and point to a hybrid and situated school culture. The role of INEP, the educational programs of 1928, 1949, and 1960, and the mediation of reforming agents indicate processes of local translation of pedagogical knowledge circulating globally. The article concludes that the school culture of Piauí was constructed through negotiations between prescribed models and lived practices, reinforcing the analytical strength of the transnational approach.

Keywords:
School culture; History of education; Pedagogical knowledge; Primary education; Transnational history

Introdução

Ao longo do século XX, a educação pública brasileira foi atravessada por transformações significativas, impulsionadas por reformas curriculares, expansão institucional e novos ideais pedagógicos. No contexto piauiense, essas mudanças se expressaram de forma particular, em um processo marcado pela articulação entre tradições locais e influências externas - provenientes de outras regiões do Brasil e de centros pedagógicos internacionais. Nesse cenário, a História Transnacional dos Saberes e Práticas Educacionais emerge como uma perspectiva teórica profícua para analisar a constituição do ensino primário no Piauí, entre 1927 e 1961, ao lançar luz sobre a circulação de saberes e práticas pedagógicas e seus modos singulares de apropriação em contextos específicos.

Este artigo tem como objetivo revisitar a análise da prática educativa nos grupos escolares piauienses, com foco no ensino, na formação de professores e nas metodologias empregadas1, sob a ótica da História Transnacional dos Saberes e Práticas Educacionais. Parte-se do entendimento de que modelos e métodos de ensino circularam por diferentes contextos, sendo apropriados e ressignificados de maneira particular em regiões como o Piauí. Como afirma Nóvoa (2009, p. 76), “entre 1870 e 1920 assiste-se a um avanço, sem precedentes, no desenvolvimento de ideias pedagógicas, que mobilizam os mais variados conhecimentos (psicológicos, sociológicos, médicos, filosóficos, etc.) no estudo da criança e na produção de uma ‘ciência da educação’”. Assim, buscamos compreender como a dinâmica entre inovação e tradição moldou a cultura escolar local, revelando uma educação permeada por influências estrangeiras e reelaborações internas.

A leitura que se propõe neste estudo compreende a cultura escolar como espaço de práxis, onde experiências e memórias se entrelaçam à construção de sentidos no fazer docente. Seguindo a perspectiva de Benito (2017), atenta-se para a dimensão simbólica e linguística das fontes - narrativas autobiográficas, relatórios, documentos oficiais - interpretadas sob uma orientação hermenêutica. Nessa abordagem, a memória é entendida como morada da cultura escolar, e sua decodificação possibilita acessar sentidos compartilhados, práticas naturalizadas e saberes tácitos que moldaram o cotidiano das instituições educativas.

A constituição do ensino primário no Piauí, nesse período, só pode ser plenamente compreendida mediante a articulação entre fatores locais e dinâmicas mais amplas de circulação de saberes pedagógicos. O modelo dos grupos escolares, a formação de professores nas Escolas Normais e os métodos de ensino adotados foram elaborados em permanente diálogo com ideias transnacionais que atravessaram o Ocidente desde o final do século XIX. A análise histórica das práticas educativas revela uma pedagogia em trânsito, permeada por influências como o método intuitivo de Pestalozzi, as “Lições de Coisas”, de Calkins, a pedagogia de Rui Barbosa e os princípios da Escola Nova. No Piauí, agentes como o educador paulista Luís Galhanone desempenharam papel central na mediação dessas propostas, adaptando-as aos programas de ensino locais e às condições socioculturais da região.

A apropriação desses saberes educacionais ilustra um processo típico da história transnacional: conhecimentos considerados “inovadores” são incorporados, reinterpretados e combinados a práticas tradicionais, num movimento de hibridização. Como apontam estudos recentes (Bontempi Júnior, 2025; Roldán Vera, 2021; Polachini, 2025), diferentes agentes e artefatos educativos atuaram como vetores na circulação de ideias, práticas e discursos pedagógicos em escala global. No caso piauiense, métodos sintéticos, práticas de memorização e instrução simultânea coexistiram com tentativas de inovação, compondo um campo escolar tensionado, em que tradição e modernidade dialogavam cotidianamente.

A formação das normalistas, entendida como parte de um projeto de modernização do magistério, também se insere nesse movimento. A Escola Normal de Teresina funcionava como “viveiro de professoras”, segundo os discursos oficiais da época, com a missão de difundir os princípios da pedagogia moderna. Contudo, como revelam as memórias de ex-normalistas, muitas dessas professoras reapropriaram práticas tradicionais em suas aulas, reforçando a importância do “tato pedagógico” (Benito, 2017) e da sabedoria prática como elementos fundamentais na condução do ensino.

Por fim, compreende-se que os grupos escolares piauienses, concebidos como instituições-modelo, não apenas reproduziram programas de outras regiões, como também se constituíram como espaços de reinvenção cultural. O estudo do ensino de Geografia, a partir das prescrições curriculares e metodológicas, permite compreender como as escolas do Piauí se inseriram em um fluxo mais amplo de ideias pedagógicas transnacionais e como contribuíram para a construção de uma cultura escolar própria, na qual tradição e inovação se entrelaçam continuamente.

Como subsídio teórico, a abordagem da História Transnacional dos Saberes e Práticas Educacionais oferece uma perspectiva renovada para a compreensão dos processos educativos, ao privilegiar a análise da circulação de ideias, modelos e agentes, além das fronteiras nacionais. Diferentemente de uma história comparada ou estritamente nacional, a perspectiva transnacional considera os fluxos, as conexões e as interações entre contextos distintos, enfatizando como os saberes pedagógicos são apropriados e ressignificados localmente.

Segundo Rebecca Rogers (2019) citada por Eugênia Roldán Vera e Fuchs (2021), a História Transnacional da Educação não constitui uma metodologia única, mas sim uma postura investigativa que desloca o olhar da historiografia para além das delimitações territoriais, concentrando-se nas redes, movimentos e intercâmbios de saberes. Para a autora, é imprescindível atentar para os “circuitos de saberes” e os modos pelos quais práticas educativas ganham novos significados em contextos distintos.

António Nóvoa (2009, p. 76) reforça essa perspectiva ao destacar que, entre o final do século XIX e o início do século XX, houve um “avanço sem precedentes no desenvolvimento de ideias pedagógicas”, com a constituição de uma “ciência da educação” ancorada em conhecimentos oriundos da psicologia, da sociologia, da medicina e da filosofia. Esse avanço impulsionou a formação de redes internacionais de especialistas e a elaboração de reformas educacionais em diversos países, as quais alcançaram, ainda que de forma indireta ou mediada, regiões periféricas como o Piauí.

Roldán Vera e Fuchs (2021), ao discutir a emergência de pesquisas educacionais com enfoque transnacional, enfatiza que tal perspectiva se manifesta sobretudo na análise da difusão de saberes pedagógicos, das trajetórias de agentes educacionais e dos usos locais das reformas escolares internacionais. Para a autora, “nem todos os autores utilizam explicitamente o termo ‘transnacional’, mas suas análises revelam um interesse comum pelas trocas, deslocamentos e reapropriações que desafiam uma leitura isolada das experiências educativas” (Vera; Fuchs (2021, p. 9).

No contexto brasileiro, estudos como os de Vidal (2020; 2021), Polachini (2025) e Valdemarin (2022) têm contribuído para o entendimento de como modelos pedagógicos estrangeiros foram assimilados e transformados nas diferentes regiões do país, muitas vezes, por meio da atuação de professores, diretores, formadores e inspetores que atuavam como mediadores culturais.

A história da educação no Piauí, nesse sentido, deve ser compreendida como parte de um processo mais amplo de circulação de ideias, metodologias e práticas, que articulou dinâmicas globais e locais. O modelo de grupos escolares, por exemplo, foi inspirado em experiências internacionais, mas adquiriu feições particulares na realidade piauiense, em diálogo com práticas tradicionais de ensino e com os desafios concretos da formação docente na região.

Do ponto de vista metodológico, trata-se de uma pesquisa qualitativa de cunho histórico, que se apoia na análise documental e na utilização de fontes narrativas. O corpus documental é composto por legislações educacionais, programas escolares, relatórios de governo, pareceres da inspeção escolar e publicações oficiais produzidas no período compreendido entre 1927 e 1961. Esses documentos foram levantados em acervos institucionais do estado do Piauí, especialmente no Arquivo Público do Estado, no Instituto de Educação Antonino Freire e em fundos escolares municipais.

Além das fontes oficiais, foram consultadas memórias de ex-normalistas formadas pela Escola Normal de Teresina, obtidas por meio de entrevistas semiestruturadas e/ou de registros memorialísticos já publicados. Essas narrativas pessoais contribuem para a compreensão da experiência docente e dos modos de apropriação das práticas pedagógicas no cotidiano escolar, permitindo entrever aspectos subjetivos, afetivos e não institucionalizados do fazer educativo.

A análise se ancorou na proposta de Benito (2017), ao sugerir a leitura da práxis escolar como expressão de uma cultura, destacando a memória tal como se constrói no âmbito educacional, mas sob uma orientação mais ampla. Partindo da constatação da existência de três culturas que incidem sobre o campo educativo - a empírica, a científica e a política - e das relações interativas entre elas, o autor recorre aos aportes da Nova História Cultural para evidenciar o valor da prática e o papel dos estudos etnográficos e hermenêuticos na renovação dos enfoques sobre a cultura escolar.

Sob essa perspectiva, as experiências narradas em mensagens e relatórios oficiais, autobiografias, fontes orais e outros registros de memória foram interpretadas em sua dimensão linguística e processadas por meio da hermenêutica. Sendo a narrativa o lugar da memória, a leitura e decodificação dos conteúdos e linguagens nela presentes constituem a via de acesso ao conhecimento da cultura escolar que se buscou compreender. A lógica da investigação, portanto, foi de natureza interpretativa, pautada em uma hermenêutica aberta, que, à maneira fenomenológica, procurou produzir sentido sem partir de ideias pré-concebidas, permitindo que os deslocamentos do texto e das narrativas oferecessem pistas, indícios e signos reveladores da cultura escolar em que se desenvolveu o ensino de Geografia no Piauí.

A prática educativa nos grupos escolares no Piauí: ensino, formação de professores e práticas pedagógicas (1927-1961)

A compreensão da constituição do ensino primário no Piauí, entre os anos de 1927 e 1961, requer o exame das múltiplas dimensões que conformaram a cultura escolar naquele contexto: das políticas educacionais à cultura acadêmica que influenciou a organização pedagógica e curricular das escolas, passando pela constituição do corpo docente e pelas práticas efetivamente desenvolvidas no interior das salas de aula. Mais do que uma análise linear ou normativa, este estudo busca interpretar os discursos, as experiências e os sentidos atribuídos pelos sujeitos envolvidos nesse processo educativo, assumindo a cultura escolar como um campo de práticas e significados historicamente construídos.

Sob essa perspectiva, recorremos a uma diversidade de fontes - documentação oficial, memoriais de intelectuais ligados à educação, narrativas orais, autobiografias e registros escolares -, compreendidas como manifestações simbólicas que expressam visões de mundo, representações sociais e formas de ação docente. Tais fontes foram analisadas segundo uma abordagem hermenêutica, em consonância com Escolano Benito (2017), que concebe a narrativa como lugar da memória e a memória como expressão da cultura escolar. Assim, os relatos, os programas de ensino e os regulamentos não são apenas documentos prescritivos, mas também testemunhos de um ethos escolar, nos quais se manifestam tensões, continuidades e transformações.

A historiografia da educação oferece suporte para a leitura contextualizada dessas práticas e discursos, permitindo articular a escala local com os movimentos mais amplos da História da Educação no Brasil. Ao tomarmos o ensino de Geografia como eixo de análise, buscamos compreender de que modo essa disciplina foi configurada curricularmente, quais métodos foram valorizados, como os professores os incorporaram - ou resistiram a eles - e de que forma esses elementos dialogaram com os modelos pedagógicos em circulação no período.

No final do século XIX e início do XX, conforme aponta Queiroz (2008), o magistério piauiense enfrentava condições precárias, com professores sem formação adequada, remuneração insuficiente e ausência de infraestrutura escolar. Embora esse contexto anteceda o recorte temporal deste estudo, sua menção é importante para compreender a transição que se operou a partir da década de 1920, quando se intensificaram os esforços de institucionalização da instrução pública primária no estado.

A criação da Escola Normal (1910) e a difusão dos grupos escolares a partir da década de 1920 marcaram o início de um projeto de modernização do ensino primário, com destaque para a presença crescente de mulheres na docência. A incorporação das normalistas à rede oficial, tanto em Teresina quanto no interior do estado, produziu um movimento de feminilização do magistério (Sousa, 2009), no qual o ensino passou a ser visto como campo profissional legítimo para as mulheres e como meio de ascensão social.

Nesse contexto, as reformas educacionais de 1910, 1933 e 1947 delinearam novos parâmetros para a organização pedagógica da escola primária piauiense. Tais reformas introduziram prescrições curriculares, reorganizaram os conteúdos por disciplinas e ciclos, e propuseram métodos alinhados aos princípios da Pedagogia Moderna. O Programa de Ensino de 1928, por exemplo, permaneceu como referência por quase duas décadas, orientando o trabalho pedagógico mesmo diante das mudanças posteriores.

A análise dessas reformas e de suas prescrições revela a coexistência entre inovação e permanência. Apesar da introdução de métodos intuitivos e da ênfase na observação e na experiência, práticas tradicionais como o ensino simultâneo, a memorização e o uso do livro-texto continuaram presentes. Isso demonstra que a implementação das reformas não se deu de forma uniforme, mas foi mediada por um processo de apropriação (Chartier, 1990) que dependia da formação dos professores, dos recursos disponíveis e das crenças pedagógicas dos sujeitos envolvidos.

Ao interpretarmos os programas, os relatos docentes e as práticas efetivadas no ensino de Geografia, torna-se visível uma pedagogia em trânsito, atravessada por modelos vindos de centros pedagógicos nacionais e internacionais, mas filtrada pelas realidades locais. Nesse entrecruzamento, os professores não apenas aplicaram métodos, mas os ressignificaram, combinando saberes empíricos, científicos e normativos. Essa práxis docente, permeada pelo chamado “tato pedagógico” (Escolano Benito, 2017), constitui a chave para compreender a “cultura escolar” (Julia, 2001) piauiense nesse período, evidenciando como a tensão entre tradição e inovação moldou a experiência educacional nas escolas primárias do estado.

A transformação das escolas públicas: a Escola Normal, os grupos escolares e o programa de ensino (1927-1931)

A consolidação da rede pública de ensino primário no Piauí, entre os anos de 1927 e 1931, deve ser analisada sob a ótica das circulações pedagógicas que atravessaram fronteiras nacionais, regionais e locais, e que foram apropriadas, traduzidas e ressignificadas de forma singular no contexto piauiense. A perspectiva da História Transnacional dos Saberes e Práticas Educacionais permite observar esse processo como parte de uma dinâmica mais ampla de difusão de modelos escolares e propostas pedagógicas de origem europeia e norte-americana, mediadas por agentes reformadores nacionais e locais.

A criação da Escola Normal Oficial em 1910 e a posterior disseminação dos grupos escolares no Estado fizeram parte de um projeto de modernização da instrução pública, ancorado na crença na ciência, na pedagogia e na racionalização do ensino. Esse modelo, inspirado na organização escolar francesa e nos ideais positivistas, circulou amplamente pelo Brasil, sendo apropriado de maneira específica nos diferentes estados, como observa Vidal (2020), em virtude das condições políticas, sociais e culturais de cada localidade.

No caso piauiense, a Escola Normal foi concebida como núcleo irradiador de práticas modernas de ensino e responsável por formar um novo perfil de professoras, capacitadas para atuar no ensino primário de acordo com os princípios da Pedagogia Moderna. A presença de professoras normalistas formadas com base em currículos inspirados em modelos paulistas e cariocas, por sua vez conectados às discussões pedagógicas transnacionais - como o Método Intuitivo, as “Lições de Coisas” e os princípios da Escola Nova - revela a incorporação de saberes em trânsito.

Contudo, conforme apontam fontes documentais e memórias de ex-alunas e professores, essas inovações foram assimiladas em diálogo com práticas tradicionais que já estavam enraizadas no cotidiano escolar. Elementos como o ensino simultâneo, a valorização da memorização e o uso intensivo do livro didático coexistiam com atividades que estimulavam a observação e a experimentação, conforme propunham as reformas pedagógicas da época. Essa convivência entre o novo e o tradicional configura o que se pode chamar de um campo híbrido, em que saberes empíricos e acadêmicos se entrelaçam na constituição da cultura escolar local.

A circulação de agentes como o educador paulista Luís Galhanone, responsável por implementar reformas no ensino da cidade de Parnaíba, evidencia a presença de mediadores pedagógicos no processo de difusão de ideias. Galhanone trouxe consigo um repertório de propostas didáticas baseadas em experiências desenvolvidas em São Paulo, as quais, por sua vez, se conectavam com tendências internacionais de renovação da escola primária. Sua atuação mostra como as ideias pedagógicas não circulavam de forma abstrata, mas por meio de sujeitos concretos, com trajetórias e estratégias de atuação adaptadas aos contextos locais.

O Programa de Ensino de 1928, implementado no Piauí como marco dessa tentativa de modernização, incorporava elementos da pedagogia intuitiva e propunha a distribuição racionalizada das disciplinas. A disciplina de Geografia, por exemplo, era pensada como instrumento de formação cívica e moral, em consonância com os projetos nacionais de construção da identidade e da unidade territorial, ao mesmo tempo em que traduzia preocupações pedagógicas de alcance internacional quanto ao ensino por observação, experimentação e contato com o ambiente imediato.

Assim, a transformação da escola pública piauiense no final da década de 1920 deve ser compreendida como parte de um processo de apropriação seletiva de modelos transnacionais, mediado por contextos regionais e pelas experiências dos sujeitos locais. A História Transnacional dos Saberes e Práticas Educacionais permite evidenciar essas conexões e destacar o papel dos professores, formadores e gestores como agentes de tradução e adaptação dos discursos reformistas. Longe de se restringirem à reprodução de modelos externos, esses sujeitos reconfiguraram, em seus cotidianos escolares, um modo próprio de fazer escola, no qual a tradição e a inovação se entrelaçam de forma dinâmica.

A Instrução Pública Primária do Piauí a partir da Reforma de 1933: continuidades e rupturas para uma Escola Nova (1933-1947)

A Reforma de 1933 representa, no contexto piauiense, um ponto de inflexão no processo de construção de uma nova cultura escolar, fortemente atravessada pela circulação de ideias pedagógicas transnacionais e por um discurso modernizador ancorado nos princípios da Escola Nova. No entanto, essa transformação não deve ser compreendida como uma simples importação de modelos, mas como um processo de apropriação ativa e seletiva, mediado por agentes locais, e reconfigurado pelas condições políticas, econômicas e culturais do estado.

A perspectiva da História Transnacional dos Saberes e Práticas Educacionais oferece uma chave analítica potente para compreender esse momento histórico, permitindo visualizar os fluxos de saberes pedagógicos que, oriundos de contextos europeus e norte-americanos, chegaram ao Brasil e se disseminaram por meio de reformas institucionais, redes de intelectuais e organismos como o Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP). No Piauí, essas ideias foram filtradas, reinterpretadas e adaptadas à luz de experiências e valores locais, gerando um campo educativo marcado por continuidades e rupturas.

A manutenção, até 1947, do Programa de Ensino de 1928, baseado no Método Intuitivo, coexistiu com a incorporação progressiva dos pressupostos da Escola Nova, em especial após o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932. Essa convivência revela um campo pedagógico híbrido, no qual o ensino por observação, os “centros de interesse” e a centralidade do aluno no processo educativo conviviam com práticas tradicionais de ensino simultâneo, memorização e uso de livros-texto. Como observa Teive (2008), a pedagogia do olhar, herdada do Método Intuitivo, foi sendo acrescida da pedagogia do experimentar, típica da Escola Nova, configurando uma pedagogia em trânsito.

A atuação de sujeitos como Felismino de Freitas Weser, diretor da Instrução Pública entre 1932 e 1937, evidencia o papel dos mediadores culturais na adaptação local dos projetos reformistas. Ao lado de outros educadores e administradores, Weser operou a tradução das ideias escolanovistas para a realidade piauiense, promovendo a ampliação da rede escolar, a diversificação dos tipos de escola e a adoção de práticas que visavam a formação do “homem socializado” - como propunha o Regulamento de 1933. Sua concepção de educação cívica, moral e produtiva também ecoava ideais europeus nacionalistas, evidenciando a complexidade das influências transnacionais que moldaram o ideário educacional local.

A regulamentação de 1933, ao propor uma escola pública, leiga, gratuita e voltada para a formação integral do cidadão, buscava atender a novas demandas da sociedade brasileira em processo de urbanização e industrialização. As prescrições do Decreto estadual n. 1.438 de 1933, com forte ênfase na integração da criança ao meio físico e social, no desenvolvimento de atividades práticas e no protagonismo do aluno, aproximam-se da linguagem internacional da pedagogia ativa, mesmo quando formuladas em termos locais.

Contudo, a análise das matérias escolares e das práticas efetivas de ensino revela que as prescrições oficiais foram apropriadas com diferentes níveis de adesão nas escolas piauienses. A Geografia, por exemplo, ocupava um lugar relevante no currículo, vinculada à formação do sentimento patriótico e à construção da identidade nacional, objetivo também presente em projetos educacionais europeus e latino-americanos do mesmo período. A sua presença nos diversos tipos de escola (singulares, agrupadas, de adaptação) ilustra como um saber escolar circulou, foi adaptado e passou a compor um repertório didático que articulava o local e o global.

Os grupos escolares, os prédios escolares construídos em diferentes municípios e a ampliação das matrículas primárias entre 1933 e 1937, conforme reconhecido por estatísticas do INEP, evidenciam o esforço do governo piauiense em se inserir no movimento de modernização educacional que ganhava força no país e no mundo. No entanto, como alerta Benito (2017), as reformas expressam não apenas inovação técnica, mas também disputas simbólicas. A linguagem das reformas é carregada de valores, conceitos e finalidades que revelam as tensões entre a cultura política da escola e a cultura empírica do cotidiano escolar.

Assim, a Reforma de 1933 no Piauí deve ser compreendida como parte de um projeto mais amplo de modernização educacional ancorado em redes de circulação de saberes e práticas pedagógicas. Trata-se de uma experiência local de apropriação da Escola Nova, marcada por negociações entre as finalidades prescritas e as finalidades efetivamente realizadas nas práticas docentes, evidenciando a criatividade e a agência dos professores na produção da cultura escolar.

A análise desse processo nos permite vislumbrar a emergência de uma cultura escolar piauiense constituída pela tensão entre os modelos idealizados pelos reformadores e as práticas vividas nas salas de aula, entre a tradição preservada e a inovação reconfigurada. Nessa perspectiva, o estudo da Instrução Primária entre 1933 e 1947 revela como a história da educação se constrói no entrecruzamento de escalas locais, nacionais e transnacionais e como a escola, mais do que espaço de aplicação de métodos, é um território de invenção cultural.

A Instrução Pública Primária do Piauí a partir da Reforma de 1947: a influência do INEP nas orientações da prática pedagógica (1947-1961)

A Reforma Educacional de 1947, implementada no Piauí em consonância com a Lei Orgânica do Ensino Primário (Decreto-Lei n.º 8.529/1946), integra-se a um processo mais amplo de reformas educacionais que, no Brasil, visaram atualizar a escola pública frente às transformações sociopolíticas do pós-guerra e às novas demandas da sociedade urbana e industrial em formação. Sob a lente da História Transnacional dos Saberes e Práticas Educacionais, esse momento pode ser compreendido como uma etapa da circulação e da reconfiguração de ideias pedagógicas com origem em contextos europeus e norte-americanos, as quais chegaram ao Piauí mediadas por órgãos federais como o INEP e por agentes formados nos centros de irradiação dessas propostas.

A presença do INEP, criado por Anísio Teixeira e dirigido por Murilo Braga durante o período em análise, foi fundamental para a institucionalização de princípios pedagógicos vinculados à Escola Nova. Essa influência se deu, sobretudo, por meio da formação de professores e técnicos piauienses nos cursos promovidos pelo Instituto, bem como pela difusão de programas de ensino inspirados em experiências internacionais, como as de John Dewey, Decroly e Montessori. Assim, o INEP atuou como um mediador transnacional, promovendo a apropriação, por parte dos estados, de metodologias e concepções pedagógicas alinhadas à pedagogia ativa, centrada no aluno e em sua experiência.

O Piauí, apesar de enfrentar profundas dificuldades socioeconômicas e políticas no imediato pós-guerra, adaptou-se rapidamente à nova legislação, implementando a reforma por meio do Decreto-Lei Estadual nº 1.306/1946. Esse movimento revela não apenas a capacidade local de se inserir nas diretrizes nacionais, mas também a ação de sujeitos comprometidos com a modernização do sistema educacional. A organização do novo ensino primário envolveu a criação de cursos elementares, complementares e supletivos, além da reestruturação curricular, que passou a privilegiar o desenvolvimento integral do aluno, sua formação moral e cívica, bem como a iniciação ao trabalho.

A introdução da disciplina “Conhecimentos Gerais Aplicados à Vida Social, à Educação para a Saúde e ao Trabalho” representa uma inovação significativa nesse contexto. Inspirada nos princípios da Escola Nova e no Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova (1932), essa disciplina expressava uma tentativa concreta de articular os saberes escolares às realidades sociais e às necessidades do meio. No entanto, como frequentemente ocorre nos processos de circulação de ideias pedagógicas, sua apropriação no contexto piauiense foi limitada por fatores como a fragilidade da formação docente e a persistência de práticas tradicionais de ensino.

A formação de professores no INEP, por meio de bolsas de estudo e cursos de especialização, foi uma estratégia de capilarização das propostas escolanovistas. Os professores retornados ao estado trouxeram consigo não apenas novos conteúdos e métodos, mas uma nova forma de pensar a escola, contribuindo para a elaboração do Programa de Ensino de 1949. Esse programa - ainda que não localizado na íntegra - é citado como produto direto da influência do INEP, com foco no Método Analítico e na valorização da experiência do aluno. Todavia, a ausência de orientações específicas para disciplinas como a Geografia e a concentração dos esforços em Leitura, Linguagem e Matemática revelam uma hierarquização curricular que refletia disputas por legitimidade no campo dos saberes escolares, como observa Viñao-Frago (2008).

Essa hierarquia se manifesta, também, na recepção desigual das disciplinas por parte do magistério local. Enquanto algumas matérias eram mais diretamente instrumentalizadas como ferramentas de alfabetização e cálculo - e, por isso, consideradas mais “fundamentais” -, disciplinas como Geografia e História eram relegadas a um plano secundário. Ainda assim, os programas elaborados na década de 1960, como continuidade dos trabalhos iniciados em 1949, revelam a tentativa de integrar conteúdos dessas áreas ao ensino globalizado, com orientações metodológicas que dialogavam tanto com o Método Intuitivo quanto com os princípios da Escola Nova.

Dessa forma, a reforma educacional de 1947 no Piauí não pode ser compreendida como uma simples replicação de diretrizes federais. Ao contrário, revela-se como um processo de tradução e adaptação de ideias pedagógicas transnacionais, operado por agentes locais e condicionado pelas especificidades do campo educacional piauiense. A atuação do INEP, os programas de ensino elaborados, as práticas formativas e as estratégias didáticas mobilizadas demonstram como a cultura escolar foi sendo moldada no entrecruzamento entre inovação e tradição, entre o prescrito e o vivido, entre o global e o local.

Essa leitura transnacional permite, portanto, compreender o Ensino Primário piauiense como parte de uma rede de circulação de saberes que ultrapassa fronteiras geográficas, políticas e disciplinares. A história da escola nesse período se revela, assim, como história de apropriações seletivas, de resistências produtivas e de reinvenções pedagógicas, configurando uma cultura escolar própria (Julia, 2001), marcada por tensões, negociações e traduções.

A elaboração de um novo programa de ensino para a Escola Primária do Piauí (1949): entre prescrições técnicas e traduções locais

A elaboração de um novo programa de ensino para a Escola Primária do Piauí em 1949 se insere em um contexto de consolidação da Reforma Educacional de 1947 e de fortalecimento das ações do INEP como principal articulador das políticas educacionais no país. Sob a influência direta das orientações pedagógicas de inspiração escolanovista e pragmatista, difundidas nacionalmente por meio de publicações, cursos e seminários organizados pelo Instituto, esse momento representa uma etapa fundamental do processo de circulação e apropriação de saberes pedagógicos transnacionais no estado.

A proposta de elaboração de um programa próprio para o ensino primário estadual deve ser lida como parte de um esforço de regionalização das diretrizes pedagógicas nacionais, as quais, por sua vez, estavam em sintonia com debates internacionais sobre a educação popular, a função social da escola e a pedagogia ativa. A partir da formação de quadros técnicos no INEP - por meio de cursos intensivos e especializações -, professores e diretores piauienses passaram a desempenhar o papel de mediadores entre as prescrições normativas e as práticas escolares locais, atuando na tradução das propostas modernas de ensino à realidade das escolas primárias do estado.

Embora a íntegra do Programa de 1949 não tenha sido localizada, sua concepção, segundo fontes documentais, teria privilegiado os princípios do Método Analítico para o ensino da leitura, a valorização da experiência do aluno, o uso de atividades integradas e a adaptação dos conteúdos às realidades sociais e culturais do educando. Tais elementos evidenciam o alinhamento com o ideário da Escola Nova, fundado na centralidade do aluno, na aprendizagem significativa e na articulação entre escola e vida.

Entretanto, a análise dos relatórios, ofícios e documentos complementares revela que essa proposta reformista enfrentou limites concretos de implementação, tanto no plano material quanto no simbólico. A escassez de infraestrutura escolar, a formação precária do magistério e a força da tradição pedagógica centrada na memorização e na transmissão verbal dificultaram a adesão efetiva às inovações metodológicas. Além disso, a ausência de um detalhamento curricular mais amplo, especialmente em disciplinas como Geografia e História, aponta para a existência de assimetrias no tratamento das diferentes áreas do saber no interior do currículo.

A Geografia, por exemplo, não aparece como disciplina com diretrizes específicas no material disponível sobre o Programa de 1949, o que sugere uma condição periférica em relação às chamadas “disciplinas instrumentais”, como Leitura e Matemática. Essa hierarquização curricular reflete uma tendência mais ampla das reformas educacionais da época, fortemente influenciadas por concepções tecnicistas de rendimento e eficiência escolar, que acabaram por privilegiar conteúdos quantificáveis e de aplicação imediata. Ainda assim, é possível inferir que, em muitas escolas, os conteúdos geográficos continuaram sendo ministrados, embora de forma subordinada, muitas vezes, integrados a áreas mais amplas, como “Conhecimentos Gerais” ou “Iniciação à Vida Social”.

O processo de elaboração do programa também envolveu a escuta, ainda que limitada, de professores em exercício, por meio de questionários e consultas enviados às escolas. Essa tentativa de dar voz aos docentes representa uma inflexão metodológica nas formas de formulação curricular, embora marcada por tensões entre a padronização técnica e a autonomia profissional. A participação dos professores, nesse sentido, deve ser vista como uma forma de negociação entre o saber oficial e o saber da experiência, no qual o “tato pedagógico” assume um papel central na reconfiguração das orientações prescritas.

O caso piauiense mostra, portanto, que a elaboração do Programa de 1949 não foi um gesto isolado, mas um episódio inserido em um fluxo transnacional de circulação de ideias pedagógicas, mediado por políticas nacionais e reelaborado localmente. A ausência de uma ruptura radical com o programa anterior e a permanência de práticas tradicionais revelam que as reformas curriculares, longe de se concretizarem de forma linear, assumem a forma de processos híbridos, marcados por múltiplas camadas de temporalidade e sentidos.

Sob a ótica da História Transnacional dos Saberes e Práticas Educacionais, a elaboração desse programa deve ser interpretada como um momento de tradução pedagógica: uma operação por meio da qual ideias em trânsito foram ressignificadas, selecionadas e ajustadas aos contextos escolares específicos. Essa leitura permite compreender o currículo não como imposição, mas como território de disputa simbólica (Lopes; Macedo, 2011), onde o global encontra o local, e os professores desempenham um papel ativo na construção da cultura escolar.

O Programa Experimental de 1960: continuidades e tensões no campo pedagógico piauiense

A elaboração do Programa Experimental de 1960 pela Inspetoria Geral do Ensino Primário do Piauí, com a colaboração da direção do Instituto de Educação Antonino Freire, insere-se em uma trajetória de continuidade das reformas curriculares iniciadas com a Reforma de 1947 e aprofundadas com o Programa de Ensino de 1949. Sob a influência persistente do INEP e dos referenciais teóricos da Escola Nova, esse novo programa reforça a presença de saberes pedagógicos em trânsito, mediada por redes de formação e circulação de ideias que conectavam o Piauí ao restante do país e, indiretamente, a debates pedagógicos internacionais.

A proposta de 1960 reafirma a centralidade do aluno no processo de ensino-aprendizagem, a valorização da experiência concreta como ponto de partida para o conhecimento e a articulação entre o conteúdo escolar e o meio social do educando. Tais princípios, herdados da pedagogia ativa, refletem a permanência dos ideais escolanovistas como horizonte formativo e indicam o esforço contínuo dos técnicos e educadores piauienses em consolidar uma escola pública moderna, ainda que permeada por desafios históricos de infraestrutura, formação docente e desigualdade social.

A leitura desse programa sob a ótica da História Transnacional dos Saberes e Práticas Educacionais permite compreender que, mais do que um documento técnico, ele expressa uma operação de tradução pedagógica: a tentativa de reelaborar saberes oriundos de centros hegemônicos do debate educacional, como os Estados Unidos e países da Europa Ocidental, para o contexto específico da escola piauiense. Esse processo de apropriação não foi passivo, mas implicou escolhas, adaptações e reinvenções, conduzidas por professores, diretores e inspetores que atuaram como mediadores culturais.

O caráter “experimental” atribuído ao programa revela sua natureza transitória e inacabada, reconhecendo a escola como espaço de ensaio e erro, de articulação entre teoria e prática. A proposta curricular enfatiza a interdisciplinaridade, a integração entre áreas do conhecimento e a flexibilidade na seleção de conteúdos, sugerindo uma ruptura - ainda que parcial - com a rigidez dos programas anteriores. No entanto, a escassez de registros sobre sua aplicação efetiva nas escolas, associada à ausência de avaliações sistemáticas, indica os limites da capacidade do sistema educacional piauiense em institucionalizar, de modo sustentado, as propostas de renovação didática.

A análise da presença da Geografia no Programa Experimental de 1960 reforça as tensões internas do campo curricular. Ainda que a disciplina esteja prevista nos conteúdos e associada ao desenvolvimento de competências relacionadas à observação e à localização espacial, ela continua subordinada às áreas consideradas “básicas”, como Leitura e Matemática, perpetuando uma hierarquia curricular que já vinha se desenhando nas propostas anteriores. Tal assimetria revela não apenas as preferências das reformas nacionais, mas também as dificuldades históricas de valorização das Ciências Humanas no ensino primário.

Por outro lado, o fato de o programa ter sido desenvolvido com a colaboração de professores em exercício e especialistas da rede estadual representa um avanço em relação à elaboração curricular centralizada. Essa participação, ainda que limitada, aponta para um movimento de construção coletiva da cultura escolar, no qual o saber técnico e o saber da experiência dialogam, muitas vezes em tensão, na definição dos rumos da escola pública.

O Programa Experimental de 1960, dessa forma, pode ser interpretado como síntese das continuidades e das tensões que marcaram o campo educacional piauiense no pós-Reforma de 1947. Ele expressa a persistência do ideário escolanovista e da pedagogia ativa como referência normativa, ao mesmo tempo em que revela os impasses estruturais que limitavam sua aplicação plena. Lido à luz da História Transnacional dos Saberes e Práticas Educacionais, esse documento mostra como a escola primária no Piauí foi atravessada por fluxos pedagógicos de escala internacional, mas os traduziu a partir de sua realidade concreta, produzindo, assim, uma cultura escolar própria, híbrida, situada e em constante negociação entre tradição e inovação.

Considerações finais

A análise da prática educativa nos grupos escolares do Piauí, entre 1927 e 1961, permitiu compreender que a constituição da escola primária local esteve profundamente inserida em uma dinâmica transnacional de circulação de saberes, práticas e modelos pedagógicos. Longe de se tratar de um sistema isolado ou puramente local, a cultura escolar piauiense se formou em diálogo com projetos reformistas de larga escala, ancorados em experiências europeias, norte-americanas e latino-americanas, que chegaram ao Brasil mediados por políticas federais, por instituições como o INEP e por agentes reformadores com trajetórias inter-regionais.

O percurso histórico analisado evidencia que a apropriação dessas ideias não se deu de forma linear nem homogênea. Ao contrário, o que se observa é um processo de tradução pedagógica, no qual os saberes considerados “inovadores” foram incorporados, reinterpretados e mesclados a práticas tradicionais já consolidadas no cotidiano das escolas piauienses. Essa convivência entre o novo e o antigo, entre o prescrito e o vivido, revela o caráter híbrido da cultura escolar, forjada nas tensões entre diferentes tempos pedagógicos e entre escalas distintas de influência.

As reformas educacionais de 1933 e 1947, os programas de ensino elaborados em 1928, 1949 e 1960, bem como a atuação da Escola Normal e dos grupos escolares constituíram marcos institucionais que materializaram, com diferentes intensidades, a tentativa de modernização da escola primária. A presença de metodologias inspiradas na Pedagogia Moderna, como o Método Intuitivo, as Lições de Coisas, o Método Analítico e os princípios da Escola Nova, demonstram a inserção do Piauí em redes pedagógicas mais amplas, que ultrapassaram os limites nacionais e mobilizaram conceitos como “centralidade do aluno”, “valorização da experiência”, “interdisciplinaridade” e “educação para a cidadania”.

No entanto, a análise das fontes - memoriais, documentos oficiais, programas escolares e relatos de professores - mostra que essas propostas foram constantemente ajustadas às condições materiais, culturais e formativas da realidade local. A escassez de recursos, as limitações na formação docente e o peso de uma tradição pedagógica centrada na oralidade e na memorização produziram uma cultura escolar marcada por permanências e adaptações, em que o “tato pedagógico” e o saber da experiência desempenharam papéis decisivos na organização da prática docente.

A abordagem da História Transnacional dos Saberes e Práticas Educacionais se mostrou, nesse sentido, frutífera para compreender a constituição da escola pública piauiense como resultado de um processo de circulação, apropriação e reinvenção de modelos escolares. Essa perspectiva permite superar explicações linearmente difusionistas ou excessivamente localistas, favorecendo uma leitura que reconhece os professores e gestores como agentes ativos na construção de sentidos pedagógicos e na mediação entre o global e o local.

Em suma, o estudo da instrução pública primária no Piauí, à luz da História Transnacional, contribui para reposicionar o Estado em um mapa mais complexo e relacional da história da educação brasileira. Revela, também, que mesmo em contextos considerados periféricos, como o Piauí, as práticas escolares foram atravessadas por debates pedagógicos de dimensão internacional, e que a escola pública primária se constituiu como espaço de disputas, adaptações e produção de saberes próprios, revelando, com isso, uma cultura escolar viva, plural e historicamente situada.

Referências

  • BENITO, Agustín Escolano. A escola como cultura: experiência, memória e arqueologia. Campinas-SP: Alínea, 2017.
  • BONTEMPI JÚNIOR, Bruno. Prefácio. In: POLACHINI, Bruna Soares; SILVA, Carolina Mostaro Neves; MACEDO, Renata Guedes Mourão. Saberes em circulação: histórias transnacionais da educação. Universidade de São Paulo. Faculdade de Educação, 2025. https://doi.org/10.11606/9786587047850 Disponível em: www.livrosabertos.abcd.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/book/1542 Acesso em: 22 out. 2025.
    » https://doi.org/10.11606/9786587047850» www.livrosabertos.abcd.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/book/1542
  • CHARTIER, R. A história cultural: entre práticas e representações. Trad. Maria Manuela Galhardo. Lisboa: Difel, 1990.
  • JULIA, D. A cultura escolar como objeto histórico. Revista Brasileira de História da Educação, Campinas, n. 1, p. 9-43, jan./jun. 2001. Disponível em: http://repositorio.unifesp.br/handle/11600/39195 Acesso em: 22 out. 2025.
    » http://repositorio.unifesp.br/handle/11600/39195
  • LOPES, Alice Casimiro; MACEDO, Elizabeth. Teorias de Currículo. São Paulo: Cortez, 2011.
  • NÓVOA, Antonio. Professores: imagens do futuro presente. Lisboa: Educa, 2009.
  • PIAUÍ. Diretoria da Instrução Pública. Programa do ensino primário. Teresina: Typ. do Piauhy, 1927
  • PIAUÍ. Mensagem governamental: à Câmara Legislativa do Estado do Piauí pelo governador Mathias Olympio de Melo em 1º de junho de 1928. Teresina: Imprensa Oficial, 1928.
  • PIAUÍ. Decreto n. 1.338, de 02 de março de 1932. Aprova os planos de programa e orientações metodológicas da Escola Normal Oficial. Teresina: Imprensa oficial, 1932.
  • PIAUÍ. Decreto n. 1.438, de 31 de janeiro de 1933. Dá nova organização à Diretoria Geral da Instrução e regulamenta o ensino público. Instituindo o regulamento geral de ensino. Teresina: Imprensa Oficial, 1933.
  • PIAUÍ. Decreto nº 1.306, de 02 de setembro de 1947. Dispõe sobre a organização do ensino primário. Diário Oficial, Teresina, ano XVI, p. 1-4, 06. 09. 1946.
  • PIAUÍ. Curso Primário: Programa Experimental - 1ª série. Teresina: Imprensa Oficial, 1960.
  • POLACHINI, Bruna Soares; SILVA, Carolina Mostaro Neves; MACEDO, Renata Guedes Mourão. Saberes em circulação: histórias transnacionais da educação. Universidade de São Paulo. Faculdade de Educação, 2025. https://doi.org/10.11606/9786587047850 Disponível em: www.livrosabertos.abcd.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/book/1542 Acesso em: 22 out. 2025.
    » https://doi.org/10.11606/9786587047850» www.livrosabertos.abcd.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/book/1542
  • QUEIROZ, T. A educação no Piauí (1880-1930). Imperatriz, MA: Ética, 2008
  • ROGERS, Rebecca. Conversations about the transnational: reading and writing the empire in the history of education. In: FUCHS, Eckhardt; ROLDÁN VERA, Eugenia (ed.). The transnational in the history of education: concepts and perspectives. London: Palgrave Macmillan, 2019. p. 101-124.
  • ROLDÁN Eugenia Roldán; FUCHS, Eckhardt. O transnacional na história da educação. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 47, p. 1-29, 2021. https://doi.org/10.1590/S1517-97022021470100301trad
    » https://doi.org/10.1590/S1517-97022021470100301trad
  • SOUSA, Jane. Bezerra. Ser e fazer-se professora no Piauí no século XX: a história de vida de Nevinha Santos. 2009. Tese (Doutorado em Educação) - Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira da Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2009. Disponível em: Microsoft Word - Tese Final_formatado biblioteca_baixa_resol_08dez.doc. Acesso em: 22 out. 2025.
  • TEIVE, Gladys Mary Ghizoni. Uma vez normalista, sempre normalista: cultura escolar e produção de um habitus pedagógico (Escola Normal Catarinense - 1911/1935). Florianópolis: Insular, 2008.
  • VALDEMARIN, Vera Teresa. Uma biblioteca para os professores. A pedagogia prática e científica de origem norte-americana na Escola Normal de São Paulo, na década de 1880. Educar em Revista, [S. l.], v. 38, 2022. http://dx.doi.org/10.1590/0104-4060
    » http://dx.doi.org/10.1590/0104-4060
  • VIDAL, Diana Gonçalves. História das Culturas Escolares no Brasil. Vitória: Edufes, 2011. (Coleção: Horizontes da Pesquisa em História da Educação no Brasil, 1).
  • VIDAL, Diana Gonçalves. Sujeitos e artefatos: territórios de uma história transnacional da educação. Belo Horizonte: Fino Traço, 2020.
  • VIÑAO-FRAGO, Antonio. História das disciplinas escolares. Revista Brasileira de História da Educação, n. 18, p.174-216, 2008. https://doi.org/10.1590/S1517-97022005000300005
    » https://doi.org/10.1590/S1517-97022005000300005
  • Apoio ou financiamento:
    A autora.
  • 1
    A Geografia Nos Grupos Escolares no Piauí: Currículo, Prática Educativa e Cultura Escolar (1927-1961). Tese (Doutorado em Educação) - Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGED), UFPI, 2019.
  • Disponibilidade de dados de pesquisa:
    Página virtual do Programa de Pós-graduação em educação - PPGED - Universidade Federal do Piauí. URL: https://ufpi.br/teses-ppged
  • Como citar este artigo:
    ANDRADE, Maria do Socorro Pereira de Sousa. Entre a tradição e a inovação: a prática educativa nos grupos escolares do Piauí (1927-1961) à luz da História Transnacional dos Saberes e Práticas Educacionais. Educar em Revista, Curitiba, v.42, e99274, 2026. https://doi.org/10.1590/1984-0411.99274
  • Editor(es)/a(s) responsáveis - Editora chefe:
    Angela Scalabrin Coutinho

Disponibilidade de dados

Página virtual do Programa de Pós-graduação em educação - PPGED - Universidade Federal do Piauí. URL: https://ufpi.br/teses-ppged

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    23 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    25 Mar 2025
  • Aceito
    26 Maio 2025
location_on
Setor de Educação da Universidade Federal do Paraná Educar em Revista, Setor de Educação - Campus Rebouças - UFPR, Rua Rockefeller, nº 57, 2.º andar - Sala 202 , Rebouças - Curitiba - Paraná - Brasil, CEP 80230-130 - Curitiba - PR - Brazil
E-mail: educar@ufpr.br
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro