Open-access Da presença e ausência da pessoa na psicometria: circulação de instrumentos psicométricos na São Paulo dos anos 1920

RESUMO

Neste trabalho, analisamos a circulação de instrumentos, testes e imagens relativos à psicotécnica, na São Paulo dos anos 1920. A partir de uma lista de instrumentos descrita e avaliada pelo engenheiro e professor politécnico brasileiro José Octávio Monteiro de Camargo, identificamos um importante mercado internacional de instrumentos psicotécnicos, produzidos na Alemanha, com ramificações no Brasil. A análise de imagens didáticas e de propaganda retratando tais instrumentos, e a interação gestual humana presente em algumas delas, possibilitou identificar os usos e apropriações que a tecnologia psicométrica demandou em seu processo de legitimação científica ao redor do globo.

Palavras-chave:
Imagens; Instrumentos psicotécnicos; Mercado; São Paulo; Alemanha

ABSTRACT

In this study we examine the circulation of instruments, tests, and images related to psychometrics in 1920s São Paulo. From a list of instruments described and evaluated by the Brazilian engineer and polytechnic professor José Octávio Monteiro de Camargo, we identified a significant international market for German psychometric instruments that have been applied in Brazil. The analysis of advertising and didactic images depicting these instruments, as well as the human gestural interaction found in some of them have enabled us to identify the uses and appropriations of psychometric technology required for scientific legitimization around the globe.

Keywords:
Images; Psychometrics; Instruments Market; São Paulo; Germany

Introdução

A história das ciências, atenta aos processos que propiciam a circulação do conhecimento, tem tratado das negociações linguísticas, políticas, culturais e econômicas imbricadas no deslocamento de cientistas, intelectuais, livros e instrumentos (Latour, 2000; Pratt, 2008; Raj, 2007; Secord, 2004). Nesses estudos, parte-se da hipótese de que as práticas científicas não dependem somente da posse e do controle de definições, teoremas, técnicas, mas também do acesso a instrumentos, periódicos, livros e outros impressos, o que, em geral, demanda uma série de procedimentos bastante mundanos, como a compra, a venda, o transporte e o manuseio de objetos. Além disso, os processos de trânsito e de adaptações podem ser constitutivos das representações e da legitimidade do conhecimento nos espaços em que são lidos e manuseados (Bourdieu, 2002; Latour; Hernandt, 2004).

O caso da psicologia é emblemático dessa questão. Embora a disciplina tenha alcançado sua autonomia da filosofia no começo do século XX, justamente por meio das técnicas psicométricas (Paicheler-Harrous, 2018) - inclusive no Brasil, onde a psicotécnica logra institucionalizar-se antes da própria psicologia (Dadico; Monteiro, 2021) -, pouco se tem falado sobre o papel dos instrumentos psicotécnicos nesse processo de autonomização. No caso brasileiro, a maioria dos estudos sobre a estruturação do campo da psicologia no período tem se dedicado à circulação de personagens, à organização interna do campo e aos seus usos sociais (Antunes, 1999; Jacó-Vilela, 2024; Patto, 2021), ou mesmo a uma evolução estrita e supostamente autônoma das ideias rumo à constituição de um objeto científico próprio (Figueiredo, 1991).

Embora sejam abundantes os documentos que oferecem prova da utilização de máquinas e objetos variados para a aplicação de testes psicométricos (com descrições, desenhos e fotografias presentes em muitos manuais que começavam a vicejar nessa época), diminutas são as referências acerca do modo como esses instrumentos eram concebidos, adaptados e utilizados. Procurando suprir essa lacuna historiográfica, o presente trabalho busca analisar a utilização de instrumentos psicotécnicos no processo de seleção de mecânicos em fins da década de 1920, no Brasil.

Para tanto, voltamo-nos aos instrumentos descritos pelo engenheiro da Escola Politécnica de São Paulo José Octávio Monteiro de Camargo, em um trabalho apresentado no 4o. Congresso Brasileiro de Higiene, de 1928. A apresentação do paper, mais tarde publicado na Revista Polytechnica de São Paulo (1928), foi registrada nos anais do evento, oferecendo testemunho dos esforços que os profissionais da psicotécnica vinham empreendendo no sentido de difundir e legitimar cientificamente seus procedimentos no país.

Além de descrever, no congresso, os instrumentos utilizados e indicar o tipo de teste associado a cada um deles, Camargo descreve a sua origem, se nacional ou importado, e o seu idealizador - dados que nos permitem recuperar aqui a longa cadeia de produção, circulação e uso de instrumentos psicométricos na época. Se os instrumentos devem ser considerados como agentes importantes na constituição da psicologia de então, figurando como “mediadores entre o mundo, nossa percepção e o conhecimento que construímos sobre ele” (Figueirôa, 2014, p. 15), a listagem de Camargo nos leva a questionar o excessivo enfoque que a memória científica outorgou às escolas francesa e americana na constituição do campo nacional (Dadico; Monteiro, 2021, p. 22-25), desde que muitos dos instrumentos que constam no estudo de Camargo foram produzidos e idealizados em contexto alemão, lugar onde se formou também a primeira geração de psicólogos estadunidenses (Paicheler-Harrous, 2018). Nesse sentido, os intelectuais e as instituições franceses e americanos acabam por mediar conhecimentos produzidos na Alemanha, resultando a psicologia gestada no Brasil de uma bricolagem mais complexa que uma simples disputa de duas escolas. E o caso brasileiro não parece ser isolado, uma vez que a presença dos instrumentos psicotécnicos alemães também foi descrita no contexto japonês, antes da Segunda Guerra Mundial (Yoshimura, 2016), indicando que uma fração relevante do mercado internacional de instrumentos médicos e de psicometria era controlada por empresas germânicas.

O presente artigo está organizado em quatro blocos. Enquanto as duas primeiras seções apresentam as contribuições de Camargo, esmiuçando os argumentos e movimentos do professor politécnico no uso e na defesa da psicotécnica, as duas seções seguintes mostram Camargo como um leitor atento às teorias psicotécnicas e ao mercado de instrumentos internacional. Na sequência, analisamos as imagens e as práticas de uso de alguns instrumentos, notadamente do tremômetro, que circularam em São Paulo nos anos 1920, para, ao final, retornar ao problema da presença do corpo e dos gestos humanos como argumento visual nos textos psicotécnicos de então.

O engenheiro Monteiro de Camargo, a psicotécnica e as provas de seleção profissional

Embora alguns dos primeiros registros do uso de instrumentos psicométricos no Brasil estejam associados a seu emprego nas escolas normais e primárias (Centofanti, 2006), foi na área da seleção e da orientação profissional que a psicotécnica alcançou seu primeiro grande sucesso no país, possibilitando não apenas a inauguração de serviços especializados e laboratórios, mas também o avanço na carreira de seus profissionais e a consolidação da disciplina em nível superior.

Um conjunto de fatores contribuiu para essa fortuna teórico prática da psicotécnica no início do processo de institucionalização da psicologia brasileira. Do ponto de vista social, podemos destacar, em um cenário de rápida industrialização, o crescimento das cidades e a mecanização da produção, que vieram acompanhados de largos investimentos no transporte por trilhos, gerando a necessidade de manuseio de maquinários até então desconhecidos da grande maioria da população brasileira. Sob tal demanda, centros ferroviários de ensino e seleção profissional foram sendo criados por diversas companhias férreas nacionais para selecionar e formar jovens aprendizes. No estado de São Paulo, até 1937, já existiam nove centros semelhantes espalhados por cidades do interior como Pindamonhangaba, Bebedouro, Araraquara e outras (Salvadori, 2005). A Estrada de Ferro Sorocabana foi pioneira nesse processo, enviando, desde 1924, alunos para o Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, no qual o suíço Roberto Mange atuava como superintendente do curso de mecânica.

Em perspectiva epistemológica, a incorporação das práticas de medição das aptidões por meio de instrumentos e seu tratamento estatístico propiciou um novo estatuto à disciplina que, então matematizada, galga sua separação da filosofia, no mesmo momento em que se reorganiza o campo científico brasileiro, com a fundação das universidades nos anos 1930. Não apenas a psicologia, mas uma série de disciplinas alcança maior autonomia em relação às chamadas profissões imperiais, como o direito, a medicina e a engenharia (Schwartzman, 2015).

A iniciativa de Roberto Mange, que já atuava como catedrático de Mecânica Aplicada na Escola Politécnica de São Paulo desde 1913, de implantar as provas psicotécnicas na seleção de trabalhadores na Sorocabana tinha sido inspirada por uma visita à Alemanha, em 1923, onde conheceu o serviço de seleção profissional da companhia de bondes berlinenses. Em 1930, com a participação de Mange, a Sorocabana inaugurou seu próprio serviço de ensino e seleção profissional, que logo passaria a receber em suas instalações não apenas profissionais e candidatos a ferroviários da própria companhia, mas também enviados da Secretaria da Viação e Obras Públicas (SVOP), divisão dirigida à época por um colega de docência de Roberto Mange na Escola Politécnica da USP, o engenheiro José Octavio Monteiro de Camargo. Mange e Monteiro de Camargo atuariam juntos também na comissão que fundou o Instituto de Organização Racional do Trabalho (IDORT), em 1929 (Correia; Almeida, 2013).

Engenheiro mecânico-eletricista pela Escola Politécnica de São Paulo, em 1920, Camargo passa a compor o quadro da referida escola como professor assistente, em 1928, após ter estagiado e trabalhado em empresas da área de transportes, antes de entrar na SVOP (Silva, 2006). É justamente no início de sua carreira como professor, com 28 anos, que Camargo apresenta seu trabalho sobre seleção profissional no 4o. Congresso Brasileiro de Higiene, realizado na Bahia. Nele, o jovem professor politécnico tece elogios à atuação de Mange, em particular à iniciativa do colega de providenciar, na sua passagem pelo Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, a organização de um Gabinete de Psicotécnica, “destinado a coadjuvar com os seus métodos a formação de operários mecânicos com o aproveitamento máximo de suas faculdades” (Camargo, 1928, p. 455). Os resultados da iniciativa teriam evidenciado a necessidade de estender a oferta de seus serviços aos maquinistas e condutores de veículos, justificada, por sua vez, pela responsabilidade desses agentes em prevenir acidentes envolvendo vidas humanas.

A participação de um professor de engenharia em um congresso de higiene mostrava-se coerente com discursos tecidos em prol dos usos da psicotécnica para o melhor aproveitamento do trabalho na indústria e no ramo de serviços, com a promessa de evitar desperdícios e adoecimento do pessoal (Mange, 1926) - motivo pelo qual sua aplicação vinha sendo explorada, em princípio, na seleção e na orientação profissional. E estava afinada com a movimentação internacional dos profissionais que buscavam vincular-se à disciplina: no ano seguinte, em 1929, aconteceria o VI Congrès International de Psychotecnique, em Barcelona, Espanha, e, em 1930, o Congrès d’Hygiène Mentale de New York (Lahy, 1929), que também contaram com a participação de professores em atuação no Brasil (Dadico; Monteiro, 2021).

Dos seis temas do 4º Congresso de Higiene, dois tratavam de avaliação por meio de medições corporais: “Verificações biométricas da criança e do adulto no Brasil” e “Orientação profissional, meios práticos de indicá-la, tentativas feitas no Brasil”. Esses temas estavam raramente presentes nos eventos do movimento higienista da época, majoritariamente focado no sanitarismo e no tratamento e erradicação de doenças infecciosas e sexualmente transmissíveis, como a malária e a sífilis. Mas o texto de Camargo desperta interesse à época, sendo republicado, em 1928, tanto na Revista Politécnica quanto no n. 28 do Boletim do Instituto de Higiene de São Paulo, dirigido pelo Engenheiro Paula Souza.

O problema estatístico da seleção e adaptação dos testes e instrumentos psicotécnicos no Brasil

Abrindo a sessão de trabalhos sobre orientação profissional, Monteiro de Camargo coloca logo de início a pergunta sobre os métodos empregados na aplicação de provas psicotécnicas, ressaltando que não havia um método “geral” de provas, passíveis de serem utilizadas em quaisquer ramos da indústria. Lembrava que essas aplicações dependiam de um público ainda por ser alcançado, de modo que parte da apresentação envolvia um trabalho de divulgação: uma campanha para mostrar as vantagens econômicas e sociais do “melhor aproveitamento do homem, facultando-lhe facilidade maior no trabalho” (Camargo, 1928, p. 456). A argumentação de Camargo explora os possíveis ganhos em produtividade, vantagens econômicas da atividade e o seu sucesso no exterior, destacando que os melhores testes seriam aqueles mais simples e mais adequados às funções avaliadas por meio de seus instrumentos.

A ideia, afirma ele, é “ajuizar da habilidade do indivíduo para um determinado ofício das profissões mecânicas” (Camargo, 1928, p. 457). Para tanto, seria preciso escolher e aplicar bons testes, adotando como critério seu sucesso em outros países, ou seja, “consagrados pela prática estrangeira”, e “seu controle pelo cálculo de correlações sobre o maior número possível de casos observados” (Camargo, 1928, p. 460). Um dos problemas centrais no advento da psicometria, além do estabelecimento da confiança de que testes e instrumentos seriam a maneira mais precisa de identificar habilidades psíquicas e motoras, era relacioná-los a certas habilidades esperadas em um determinado trabalhador. É justamente para essa segunda tarefa que Camargo passa a listar e pôr sob análise um conjunto de equipamentos psicométricos disponíveis no mercado. Às voltas com esse problema para a seleção de mecânicos, ele submete 26 estudantes do Liceu de Artes e Ofícios a um conjunto de provas que compreendia vários testes à época. No levantamento de Camargo, seriam sete aptidões gerais a serem consideradas: Inteligência geral; Memória técnica comparativa; Atenção e reação; Cuidado; Acuidade visual; Senso técnico; Habilidade mecânica.

Quadro 1:
Provas e Instrumentos associados às habilidades mecânicas, segundo Camargo (1928). Trata-se de um excerto de uma tabela composta por seis outras habilidades (Inteligência geral; Memória técnica comparativa; Atenção e reação; Cuidado; Acuidade visual; Senso técnico), todas categorizadas seguindo a mesma dinâmica. Em cinza, testes escolhidos por Camargo.

Cada uma delas se compartimenta em outras subclassificações. A habilidade mecânica, por exemplo, pode ser de orientação e manual, sendo esta última subdividida em sensibilidade, firmeza de mão, governo de golpe, confecção e destreza (Quadro 1). Ao todo, Camargo descreve 28 aptidões a serem consideradas. A listagem e o modo de classificar são diversos em comparação com outros textos do período. Na análise do trabalho dos ajustadores, Roberto Mange fala em 50 qualidades e aptidões. Para a seleção de despachadores, ele cita somente nove aptidões (Mange, 1934). Assim, não há, entre especialistas à época, um conjunto único de habilidades a serem testadas. A cada posição social, um conjunto de habilidades ideais é desenhado e, para cada uma delas, provas e instrumentos são desenvolvidos e posteriormente testados.

Organizou-se um plano de provas psicotécnicas - testes - enfeixados no quadro junto, destinadas a pesquisarem sob um caráter inteiramente prático o conjunto de aptidões que queremos selecionar. Cada uma das capacidades indicadas nesse plano é examinada sob o ponto de vista de sua maior importância para um determinado ofício. Precede a essas provas um exame médico de caráter geral. As informações obtidas por meio desse exame, do das provas psicotécnicas e outros dados de caráter geral permitirão ajuizar da habilidade do indivíduo para um determinado ofício das profissões mecânicas (Camargo, 1928, p. 456-457).

Figura 1:
Correlação de Spearman (varia de -1 a 1), entre os 13 testes escolhidos por Camargo. Em negrito, os valores negativos

Dos 52 testes listados por Camargo, somente 13 parecem se revelar estatisticamente adequados para a seleção de estudantes de mecânica. Após coletar todas as notas recebidas pelos estudantes, nos testes, em uma prova prática e em uma avaliação dos mestres das oficinas do Liceu, ele as submete a uma análise de correlações, por meio da fórmula de Spearman, com vistas a encontrar os testes que possuíssem perfil mais parecido. Segundo os resultados (Figura 1), que variam entre -1 (pior correlação) a 1 (melhor correlação), os testes B (prova da manivela) e E (prova dos arames) possuem o melhor valor de Spearman (0,581), enquanto os testes A (prova do peso) e L (prova do optômetro) o pior (-0,354).

São os testes da Manivela (B) e do tremômetro (C) que possuem correlação positiva com quase todos os outros testes. Essa parece ser uma das razões para Camargo escolhê-los. Camargo não nos diz. Ele demonstra que a avaliação dos mestres possui correlação de 0,677 com a médias das correlações dos testes, sugerindo que os testes selecionam de maneira similar aos mestres. Mas não sabemos como os mestres escolhem. Não se encontra no artigo o resultado dos cálculos de correlação entre os outros testes descartados. Tampouco sabemos o corte escolhido por ele para descartá-los. Aparentemente, são aqueles com a menor quantidade de correlações negativas entre si. Se assim for, manter a prova dos pesos (A) com sete correlações negativas seria um exagero. Camargo se esconde na nuvem de cálculos - aliás, segundo nota de rodapé, executados por uma mulher, Madame Pierón (esposa de Henri Piéron) - e não indica o motivo por trás de suas escolhas.

Circulação internacional de instrumentos psicotécnicos: o caso do Tremômetro

Enquanto os resultados quantitativos das provas psicotécnicas realizadas por Monteiro de Camargo e as análises de suas correlações aparecem no corpo da apresentação realizada no 4º. Congresso Brasileiro de Higiene, no anexo do seu trabalho constam algumas amostras dos instrumentos utilizados nas provas psicotécnicas aplicadas na Escola Profissional, com informações sobre as habilidades avaliadas, os instrumentos utilizados nas avaliações e seus métodos de aferição. O texto vem acompanhado de desenhos e diagramas, com trechos das folhas que fizeram parte do plano de aplicação (envolvendo exercícios de cálculo matemático, formas geométricas e de língua portuguesa), e também de imagens de instrumentos utilizados para avaliação sensorial. Por meio desses instrumentos, esperava-se descobrir - esse era o intuito das provas - a capacidade do examinando de discriminar, comparar e ordenar objetos em função de suas características, como grossura e peso, bem como a relação entre alavancas, a firmeza da mão, precisão do gesto e outras habilidades.

Como já dito, Monteiro de Camargo elabora uma tabela (excerto no Quadro 1) contendo o plano geral das provas realizadas, perfilando tanto as técnicas utilizadas, a denominação das provas e habilidades que pretendiam avaliar, quanto - o que nos interessa particularmente aqui - os aparelhos utilizados para realização dessas medidas. Como podemos encontrar nas “Observações”, enquanto alguns instrumentos utilizados nas provas parecem ter sido produzidos pela própria equipe de Monteiro de Camargo - como a “prova das arruelas”, que envolvia o preenchimento de uma lata vazia com arruelas para investigar a capacidade do examinando em comparar o peso entre dois objetos - outros aparelhos industrializados aparecem identificados pelo nome do fabricante, número no catálogo e nome do criador do artefato. É o caso do “tremômetro”, utilizado na prova de mesmo nome, composta por uma prancha, um medidor e um estilete com nanquim na ponta, que o examinando deveria segurar uma primeira vez com a mão apoiada, e uma segunda vez com a mão livre, conduzindo o estilete por uma ranhura, sem tocar nas margens da placa. Os erros eram apontados por um galvanômetro posicionado nas laterais dessa placa (Figura 2).

Figura 2:
Testes de tremor utilizando o tremômetro de Moede

Figura 3:
Ilustrações dos tremômetros de Baumgarten e Moede veiculadas nos catálogos da Zimmermann.

Segundo informações em língua alemã constantes na tabela de Monteiro de Camargo - Tremometer nach Moede - (excerto no Quadro 1), podemos inferir que a autoria desse aparelho seria do psicólogo do trabalho alemão Walther Moede, antigo assistente de Wilhelm Wundt no laboratório de Psicologia Experimental de Leipzig. Há sete aparelhos listados com indicação do sobrenome Moede em todos os 52 testes descritos por Camargo. O fabricante da máquina e seu número de identificação no catálogo da empresa, por sua vez, aparecem informados na sequência, “cat. Zimmermann 5011”, como se o catálogo pudesse ser encontrado e lido em São Paulo, e a numeração do instrumento devesse ser registrada para futuras compras. De fato, nos anos 1920, é possível encontrar catálogos de instrumentos psicotécnicos produzidos por uma fábrica de instrumentos científicos, a “E. Zimmermann: Fabrik wissenschafticher Apparate”, com sedes em Leipzig e Berlim (Zimmermann, 1923, 1928, [s.d.]).

Considerando os números de registro similares, é provável que tenha sido o exemplar de 1923 aquele utilizado como referência por Monteiro de Camargo. Nesse catálogo, encontramos todos os instrumentos (alguns ilustrados por imagens) designados pelo engenheiro com a sigla “cat. Zimmermann”, que comparecem no quadro exposto em sua apresentação: o aparelho para medida da sensibilidade articular (n. 5003) e digito-articular (n. 5006), o teste de força de impacto (“medidor de pancada”, n. 6315), o ajustador de pino cônico (n. 5004), o aparelho de calibre (n. 5007), o teste de toque (“tactômetro”, n. 5008), o tremômetro de Moede (n. 5009), o teste bimanual (n. 5011).

O tremômetro de Moede (n. 5009) aparece no catálogo da Zimmermann em duas versões, “a” e “b”, descrito da seguinte maneira:

  • a) Para determinar a calma e a segurança da mão. Aberturas de diferentes formatos e tamanhos são feitas em uma placa e o corpo de prova tem que operar essas aberturas de uma maneira específica. Por exemplo, ele deve inserir uma haste de metal suavemente nas aberturas ou guiá-la ao longo das ranhuras sem tocar na parede. Se isso acontecer, um sinal soará e o número de tremores também poderá ser registrado.

  • b) Esta versão inclui registro por campainha, luz e balcão (Zimmermann, 1923, p. 5012, tradução livre).

Esta descrição é bastante compatível com aquela feita pelo próprio Monteiro de Camargo na sua apresentação ao 4º Congresso, quando discorre sobre a prova em que utiliza o tremômetro, como mostramos anteriormente, dando indícios de que seu uso corresponde àquele indicado pelo fabricante.

Dos aparelhos “avalizador de centro”, “medidor de atenção” e “medidor de acuidade visual”, com indicação de autoria de Piorkowski, bem como do aparelho de fenda, não pudemos identificar a origem. Outras provas, por sua vez, parecem ter dado ensejo à criação de instrumentos pelos próprios aplicadores locais, como é o caso dos aparelhos da manivela, do tubo, das arruelas, hidráulico, do parafuso e outros, inventados como modo de testar habilidades previamente definidas como relevantes para as funções profissionais mecânicas em seleção (envolvendo, por exemplo, a escolha correta e o manuseio de peças, sua montagem e manutenção).

A existência de um maquinário consolidado industrialmente, e disponível para importação, configura um argumento que contribui para chancelar a atuação dos profissionais da psicotécnica no Brasil e ajudar a convencer um público especializado de que a atuação em psicometria não era uma aventura ou invenção local, mas uma técnica já dotada de tradição, saberes acumulados e objetos associados, abrindo, outrossim, um mercado para a comercialização desses instrumentos no país. Especializando-se na mensuração de aspectos da percepção, por sua vez, de forma positiva e com dados objetivos, os profissionais da psicotécnica demarcavam o campo das sensações como terreno psicológico, em meio às disputas de atuação e de mercado com outros profissionais da área da saúde.

As disputas envolvendo a psicotécnica e a difusão de equipamentos psicométricos alemães pelo mundo não alcançaram apenas o Brasil. Em um contexto no qual os saberes científicos se tornavam transnacionais, circulando não apenas graças à mobilidade de professores e pesquisadores, mas também de seus objetos e técnicas correspondentes, interessa-nos investigar o alcance desses materiais, e como eles participam da história da psicologia no Brasil. No caso dos produtos da Zimmermann, Yoshimura (2016) observa que os mesmos equipamentos psicotécnicos estavam presentes em universidades imperiais japonesas, como as de Tokio e Kyoto, no início do século XX, e passaram a ser replicados por fábricas japonesas para uso das demais universidades do país.

Ainda segundo Yoshimura (2016), a escolha das universidades japonesas em importar equipamentos psicotécnicos da empresa Zimmermann, ao invés de outras empresas alemãs em ascensão, como a G. E. Müller e a F. Schumann, de Göttingen, dão indícios de uma afinidade maior dos acadêmicos japoneses com a escola psicológica de Leipzig, fortemente influenciada por Wilhelm Wundt. Nesse sentido, longe de constituírem meros receptáculos de conhecimentos produzidos em países europeus, pesquisadores de universidades de outros países - inclusive do Brasil - participavam ativamente do processo que poderia conduzir (ou não) certas escolas teóricas, e seus instrumentos, ao sucesso em detrimento de outras nos seus países de origem.

Instrumentos no Psychologia e Psychotechnica de Henri Pierón, de 1927

Embora, nos arquivos históricos, sejam bem menos preservados os documentos de transações comerciais de importação e distribuição de livros e equipamentos - talvez por indicarem uma dimensão mundana e econômica da circulação e adaptação das teorias científicas -, a presença desses aparelhos em serviços de seleção profissional e laboratórios de psicologia experimental foi fartamente registrada em manuais da época. Em Psychologia e Psychotechnica, notas do curso ministrado por Henri Piéron na Escola Normal de São Paulo, em 1926, encontramos também fotografias e descrições de aparelhos similares àqueles utilizados por Monteiro de Camargo (mas de origem e fabricação desconhecida) como o esthesiometro de Weber, o baroesthesioscopio de Eulemberg, o ergografo de Mosso, o dynamografo de Charles Henry e o estereognostico Pizzoli, além de menções a testes de Binet e outros, citados pelo professor Piéron, que seriam provenientes dos Estados Unidos (Pieron, 1927, p. 141).

Interessante notar algumas semelhanças e diferenças entre as instruções de aplicação e testes sugeridos por Piéron e aqueles utilizados por Monteiro de Camargo. As principais diferenças estão relacionadas a seu uso, inicialmente em função do público suposto para as provas, uma vez que o curso da Escola Normal previa o uso da psicotécnica para classificação dos estudantes dentro do sistema de ensino (com a separação daqueles considerados “retardatários” - expressão empregada por Piéron). Com isso, as provas destinadas à avaliação motora ocupavam apenas uma parte do programa de provas de Piéron, sendo consideradas na classificação etária e do desenvolvimento de crianças. Daí a menção também a provas capazes de contribuírem para a avaliação da inteligência - com muitas menções ao método de Binet, seu colega francês -, bem como a separação por Piéron das provas que envolveriam apenas fenômenos sensoriais simples daqueles mais complexos, que implicariam também um “senso kinesthesico” (Pieron, 1927, p. 134). Os aparelhos psicotécnicos elencados anteriormente se enquadram nessa segunda categoria de provas.

Os testes de Piéron eram usualmente aplicados com o acompanhamento de um metrônomo (Figura 4, lado esquerdo), utilizado para medir a frequência e o tempo do esforço de alguns exercícios propostos, voltados, por exemplo, à avaliação da fadiga em provas de pressão muscular. Nesse caso, percebe-se formas de uso diversas para provas similares, usadas por Piéron e Monteiro de Camargo. No caso do tremômetro, por exemplo, que Piéron denomina apenas como “outro test americano” (1926, p. 138), sem especificar exatamente do que se trata, mas cuja descrição coincide em muitos aspectos com aquela de Monteiro de Camargo, o aparelho utilizado aparece empregado não para medir a frequência de tremores apresentada pelo examinando, mas sua variação ao longo do tempo, colocando foco na relação entre atenção e fadiga apresentada durante a prova. Diferentemente de Monteiro de Camargo, que estava interessado na firmeza da mão como habilidade em si, necessária para mecânicos e candidatos a condutores de trem.

Figura 4:
Usos de aparelhos de testagem em laboratório

Da presença e ausência da pessoa nos testes psicotécnicos

Temos, portanto, a cada instrumento, uma multitude de gestos operativos, de testes e habilidades. Mas a mão que manuseia o tremômetro, o estesiômetro ou o martelo raramente aparece nos catálogos das empresas construtoras de instrumentos científicos. Embora elas se dobrem às necessidades de seu público consumidor, oferecendo produtos legendados em alemão, francês, inglês, espanhol e português (Zimmermann, 1928, [s.d.]), é sempre um jogo perigoso localizar nacional e corporalmente um instrumento ao qual se atribui a capacidade de medir a habilidade de qualquer humano, em qualquer lugar (Figura 2). A despeito desse desejo de universalidade a que mercadorias e instrumentos científicos aspiram, será preciso que tradutores façam a tarefa de aclimatar as teorias, instrumentos e conceitos ao gosto local, sob o risco de todo o arsenal construído resultar inútil nas salas de aula e nas indústrias brasileiras. Será preciso, então, descartar objetos irreproduzíveis e incompreensíveis, e, produzir versões domésticas: a lata de ruelas, os bastões de diferentes pesos e tamanhos, os testes ajustados aos estudantes das escolas de mecânica em São Paulo. E, nas contas locais, os corpos precisarão ser reduzidos, uma vez mais, a categorias, gestos e, por fim, a números. “A perda considerável de cada inscrição isolada, em relação com o que ela representa, se paga ao cêntuplo com a mais-valia de informações que lhe proporciona esta compatibilidade com todas as outras inscrições” (Latour; Hernandt, 2004, p. 48).

Reduzido à menor unidade de medida possível, voltamos a amplificar o conhecimento: corpos de homens e mulheres retornarão às imagens para que a confiabilidade e a legitimidade dos procedimentos sejam ensinadas (Figura 3); fios conectarão os equipamentos a uma enorme bateria, sugerindo a portabilidade dos procedimentos para qualquer lugar; a mesa será colocada em diagonal para que o leitor veja o gesto correto (Figura 4). As práticas científicas não estão longe das culturais, portanto:

Os dramas industrializados, para serem percebidos como uma experiência do cotidiano, devem se adaptar aos formatos e ser pedagogicamente ministrados aos indivíduos, moldando o gosto e o paladar da audiência. A construção da tradição de uma modernidade-mundo repousa, portanto, num processo amplo de socialização das formas e dos objetos culturais (Ortiz, 1994, p. 198).

Assim, o gesto banal será alçado ao ritual, o tremor das mãos será observado atenta e silenciosamente nas oficinas de metalurgia da indústria paulista.

Esse processo de mudança de escalas não raro embaralhará a primazia das descobertas e invenções, também a ideia de nacionalidade das práticas e objetos. Camargo entende os instrumentos como mercadoria, quer que seu trabalho seja um guia para o público leitor brasileiro, que os instrumentos sejam facilmente encontrados. Em Piéron, trata-se de reproduzir a legitimidade do corpus francês, e também a do próprio autor, como autoridade que passa pelo Brasil a serviço da diplomacia francesa (Dadico; Monteiro, 2021; Petitjean, 1996).

Apesar de não haver qualquer referência a nomes de fabricantes nos instrumentos psicotécnicos mencionados por Piéron, os nomes mencionados de seus inventores (Weber, Eulemberg, Henry, Pizzoli, Mosso etc.) marcam a dimensão transnacional do empreendimento psicotécnico, à época. A maior parte deles era de alemães, mas há ali também franceses, ingleses e italianos, ainda que sua popularização e referência para o uso se encontrasse, como anunciado pelo professor francês, em circulação principalmente nos Estados Unidos, naquele momento.

Nessa rede, onde centro e periferia são posições relacionais, Camargo tanto contribui para a legitimação de seus interlocutores estrangeiros quanto se apresenta como uma referência para a indústria paulista emergente.

Referências

  • ANTUNES, Mitsuko Aparecida Makino. Processo de autonomização da Psicologia no Brasil. Psicologia e Sociedade, v. 11, n. 1, p. 16-26, 1999.
  • BOURDIEU, Pierre. As condições sociais da circulação internacional das ideias. Enfoques - Revista de discentes do PPGSA/IFCS/UFRJ, v. 1, n. 1, p. 6-15, 2002. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/enfoques/article/view/12679 Acesso em: 10 out. 2025.
    » https://revistas.ufrj.br/index.php/enfoques/article/view/12679
  • CAMARGO, José Octavio Monteiro de. Psicotécnica: Tentativa de Seleção Profissional. Revista Politécnica, v. 14, n. 84, p. 455-480, dez. 1928.
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  • Apoio ou financiamento:
    Esta pesquisa faz parte do Projeto “Ciência e Tecnologia em imagens: edição e circulação de impressos no Brasil oitocentista”, processo: 407655/2023-9, financiado na Chamada Universal do CNPq/MCTI nº 10/2023.
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  • Como citar este artigo:
    MONTEIRO, Rogério; DADICO, Luciana. Da presença e ausência da pessoa na psicometria: circulação de instrumentos psicométricos na São Paulo dos anos 1920. Educar em Revista, Curitiba, v. 42, e99237, 2026. https://doi.org/10.1590/1984-0411.99237
  • Editora responsável - Editora chefe:
    Angela Scalabrin Coutinho.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    23 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    19 Mar 2025
  • Aceito
    27 Maio 2025
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