RESUMO
Trata-se da comunicação de resultados de pesquisa que teve como objeto o exame das ideias de Herbert Spencer disseminadas em manuais de História da Educação em circulação no Brasil entre 1914 e 1999, o que incluiu, por um lado, manuais disciplinares com autores estrangeiros que foram traduzidos para o português entre 1939 e 1999 e, por outro lado, manuais com autores brasileiros publicados no período compreendido entre 1914 e 1989. Partiu-se, principalmente, das ideias de Chartier (1990 e 1999), Chervel (1990), Choppin (2004) e Gatti Jr. (2014). A problemática que animou a investigação esteve relacionada à análise das diferentes apropriações das ideias de Spencer contidas nos manuais de História da Educação analisados. Em termos metodológicos partiu-se da pesquisa bibliográfica, por meio da leitura e análise de obras de comentaristas das ideias filosóficas, sociais e educacionais de Spencer e, em seguida, da leitura e análise das obras escritas pelo próprio autor. Depois, foram examinados os conteúdos relacionados as ideias de Spencer presentes nos manuais de História da Educação publicados em português, por meio do cotejamento dos conceitos e categorias spencerianas com as representações sobre os mesmos contidas nesses manuais de História da Educação, com ênfase em três temáticas principais: evolucionismo; hierarquização de saberes; educação científica. Finalizamos com uma reflexão sobre as diferenças das representações sobre as ideias de Spencer contidas nos manuais de História da Educação examinados.
Palavras-chave:
Herbert Spencer; Ciência; Evolução; História da Educação; Manualística
ABSTRACT
This is a communication of research results that examined Herbert Spencer’s ideas disseminated in History of Education manuals in circulation in Brazil between 1914 and 1999, which included, on the one hand, disciplinary manuals with foreign authors that were translated into Portuguese between 1939 and 1999 and, on the other hand, manuals with Brazilian authors published between 1914 and 1989. The main starting point was the ideas of Chartier (1990 and 1999), Chervel (1990), Choppin (2004) and Gatti Jr. (2014). The problem that motivated the investigation was related to the analysis of the different appropriations of Spencer’s ideas contained in the History of Education manuals analyzed. In methodological terms, we started with bibliographical research, through the reading and analysis of works by commentators about Spencer’s philosophical, social and educational ideas, and then by reading and analyzing works written by the author himself. Then, we examined the content related to Spencer’s ideas present in the History of Education manuals published in Portuguese, by comparing Spencerian concepts and categories with the representations of them contained in these History of Education manuals, with an emphasis on three main themes: evolutionism; hierarchy of knowledge; scientific education. We concluded with a reflection about the differences in the representations of Spencer’s ideas contained in the History of Education manuals examined.
Keywords:
Herbert Spencer; Science; Evolution; History of Education; Manuals
Introdução
Neste artigo1 abordamos as representações das ideias de Herbert Spencer (1820-1903) disseminadas em manuais de História da Educação publicados em português, com autores estrangeiros e brasileiros, entre 1914 e 1999. Destacamos que se trata de um pensamento que encontrou grande difusão internacional, seja no âmbito da teoria social, mas também nas concepções de educação em voga desde o final do Século XIX, com repercussão no Brasil2.
Para tanto, partimos das ideias de Chartier (1990 e 1999), Chervel (1990), Choppin (2004) e Gatti Jr. (2014). A problemática da investigação esteve relacionada à compreensão das diferentes representações contidas nos manuais disciplinares de História da Educação publicados em português no período referido, com a hipótese de que se antagonizavam posições típicas da passagem do século XIX ao XX, de cunho liberal e cientificista que buscavam a reforma social, por meio da renovação educacional e de caráter católico que demonstrava preocupação com a manutenção da relevância social, política e religiosa da Igreja em meio às mudanças que se operavam no mundo histórico de então, na busca de sua contenção, por meio do combate declarado as ideias liberais e cientificistas, por meio do movimento da restauração católica.
A metodologia conteve, inicialmente, a pesquisa bibliográfica, com a leitura e análise de obras de comentaristas das ideias filosóficas, teorias sociais e concepções educacionais de Spencer, mas também da leitura e análise das obras escritas pelo próprio autor. Após esse esforço inicial, foram examinados os conteúdos relacionados ao autor presentes em manuais de História da Educação publicados em português. Nem sempre as ideias de Spencer estiveram presentes nos manuais, mas em alguns casos isso ocorreu, sendo a esses manuais de História da Educação os quais faremos referência nesse artigo.
No sentido de atingirmos esses objetivos, dividimos o texto em três partes. Na primeira, apresentamos uma síntese das ideias de Spencer, notadamente sobre o evolucionismo, a hierarquização dos saberes e a educação científica. Depois, na segunda parte tratamos das representações das ideias do autor postas nos manuais de História da Educação publicados em português com autores estrangeiros. Na terceira e última parte, abordamos as representações sobre as ideias spencerianas nos manuais de História da Educação com autores brasileiros. Ao final, tecemos considerações a título de conclusão.
As ideias educacionais de Spencer
Spencer, filósofo britânico, nasceu em Derby (1820) e faleceu em Brighton (1903), assim, o contexto histórico no qual viveu reside principalmente nos acontecimentos do século XIX, no qual os efeitos da Revolução Industrial faziam-se presentes. Nesse contexto, as ideias de Spencer dialogam com o pensamento de Comte e de Darwin, evidentemente que, mediante convergências e divergências.
Spencer desenvolveu bases conceituais importantes relacionadas ao evolucionismo, a relação entre Estado, sociedade e indivíduo e a hierarquização de saberes. No que se refere à ideia de evolução, Abbagnano (1970, p. 376) afirma que para Spencer a “evolução é um progresso e, além do mais, um progresso necessário que, no que se refere ao homem, terminará só com ‘a maior perfeição e a mais completa felicidade’”.
Spencer ancora o fundamento de suas teorias na Ciência, notadamente na Biologia, por meio da qual buscava explicar os problemas sociais e econômicos no interior do liberalismo, tomando o organismo social em consonância com o organismo humano. Assim, observamos uma relação intrínseca nas concepções do autor entre o biológico, o sociológico e o filosófico, sendo que desenvolveu o seu trabalho de modo focado no evolucionismo. Ele formulou pressupostos sobre a teoria da evolução desde o cosmos, dos organismos vivos até chegar ao ser humano e concluiu que as análises dos pressupostos aplicáveis à natureza também seriam pertinentes de igual modo à história da cultura humana.
Desenvolveu um sistema filosófico, conhecido como evolucionismo spenceriano, que se apresentava como um modelo que, segundo Burke (2002, p.183-4), confere “ênfase à evolução social, ou seja, a mudança social que ocorre de maneira gradual e cumulativa (‘evolução’ por oposição a ‘revolução’) e é determinada essencialmente a partir de dentro (processo ‘endógeno’ por oposição a ‘exógeno’)”. Para Spencer essa análise pressupõe que
o universo evoluciona e evolucionar é progredir; progride, no seu conjunto, como progridem as células, que o constituem ou habitam. E sendo a causa determinante desse progresso, em todas as ordens - astronômica, geológica, orgânica, social, econômica, etc. - comum a todas elas, deve haver um caráter comum a todas elas, deve poder exprimir-se em função deste atributo; deve haver um caráter comum a todas as transformações. A contínua passagem do homogêneo para o heterogêneo deve assentar numa lei que pode determinar-se da transformação e enunciar-se deste modo: toda a causa produz mais de um efeito, ou toda força ativa produz mais duma modificação. E como cada modificação produzida é causa de outras, teremos os efeitos, com o tempo, multiplicados indefinidamente até o inverossímil (Spencer, 1939, p. 8-10).
Em Spencer, a mudança é observada a partir dos processos de deslocamento do mais simples ao mais complexo, do menos especializado e informal ao mais especializado e formal, do homogêneo ao heterogêneo. Para ele, há um progresso constante do universo, no qual a ciência, por meio de seu avanço contínuo, cuida da formulação de leis cada vez mais abrangentes, mas que por consequência, torna o conhecimento cada vez mais complexo.
Em 1852, Spencer, sete anos antes de Darwin publicar A Origem das espécies, buscou “descobrir leis científicas em seu trabalho sobre evolução, pelas quais os indivíduos poderiam conduzir suas próprias vidas sem interferência do governo. Enquanto Darwin confinou sua teoria à biologia, Herbert Spencer estendeu a evolução para toda a natureza e sociedade” (Batho, 2008, p. 151).
No que se refere a Comte, há distinções importantes a fazer em relação a Spencer, pois o primeiro enfatiza a vida coletiva, enquanto Spencer confere centralidade ao indivíduo e ao “ideal de Comte de subordinação dos indivíduos a uma regulamentação moral através de hierarquias políticas e sociais, Spencer se opõe com o ideal de minimizar as coerções externas e maximizar as cooperações espontâneas” (Levine (1997, p. 161).
Spencer aplicou um princípio evolucionista universal, o que o levou a considerar a existência da condução de um processo de crescente individualização na sociedade, com a defesa da primazia do indivíduo sobre a sociedade e o Estado, sendo a natureza a fonte da verdade, inclusive da verdade moral. Spencer destaca o antagonismo existente entre a organização das sociedades primitivas, cuja coesão era mantida fundamentalmente à força, e as sociedades industriais, cuja base estava fundamentada na competição.
Para Spencer, dificilmente a interferência do Estado na vida dos indivíduos traria benefícios, mas sim, grande dispêndio para a sociedade, pois, “um Estado de funções universais caracteriza um tipo social atrasado; o abandono de funções por parte do Estado caracteriza um progresso para um tipo social superior (Spencer, 1891, p. 270). A evolução natural da sociedade humana rumo ao individualismo acabaria por proporcionar a forma mais desenvolvida de Estado, ou seja, aquele que não interferiria nas questões individuais. Spencer possuía a convicção de que o sistema ao cuidar dos menos favorecidas, o faria sempre às expensas do restante da sociedade, sem se importar com as consequências, trazendo aquilo que ele denomina de “escravidão futura” (Spencer, 1900, p. 34) que designaria como nociva, pois a intervenção do Estado na vida do indivíduo retirava dele a responsabilidade por seus atos e deixava-o de fora dos méritos recebidos pelo seu esforço e dedicação na busca de evoluir e de contribuir para o progresso social.
No modelo spenceriano, que toma a sociedade como um organismo vivo, a existência de indivíduos com maior grau de desenvolvimento em comparação com outros devia-se ao processo evolutivo e à seleção natural no interior da espécie. A evolução é progressiva, irreversível e busca o equilíbrio, sendo o processo de seleção que a sustenta um mecanismo que reflete um direcionamento da espécie, pois conduz necessariamente a um progresso. A evolução levará a espécie humana a um patamar de superioridade e perfeição que fatalmente conduziria à felicidade plena pois “seja ou não o progresso do homogêneo para o heterogêneo bastante visível na história biológica do globo, ela aparece, com relevo suficiente, no desenvolvimento do ser mais moderno e mais heterogêneo - O Homem” (Spencer, 1939, p. 25).
As ideias de Spencer proporcionaram a ele notoriedade, devido a defesa da sobrevivência dos mais aptos. De acordo com Pinker (2018), houve o uso político nefasto e, por consequência, equívocos epistemológicos relacionados à ideia da aplicação do conceito de darwinismo social a partir de Spencer, desvirtuando-o para justificar a existência de demais teorias de superioridade racial e de formas de exploração entre as nações, com a ideia de que era um curso natural do processo evolutivo.
Sua filosofia política, uma forma primitiva de libertarianismo, foi adotada por magnatas corruptos, defensores da economia do laissez-faire e oponentes dos gastos sociais. Uma vez que essas ideias tinham um cheiro de direita, escritores de esquerda aplicaram de forma equivocada o termo “darwinismo social” a outras ideias com o mesmo feitio, como o imperialismo e a eugenia, embora Spencer fosse firmemente contra esse ativismo de governo (Pinker, 2018, p. 466-467).
No que se refere à sua teoria educacional, Spencer foi o principal defensor do evolucionismo nas ciências humanas, aplicando ideias oriundas das ciências naturais para a renovação da educação em bases científicas, por meio do estabelecimento dos seguintes pilares: centralidade do ensino das ciências; crítica ao ensino tradicional clássico; defesa da não intervenção do Estado na educação; classificação hierárquica dos conteúdos que deveriam ser ensinados nas escolas.
Para ele, a escola deveria ser privada em todos os anos de ensino, uma vez que deixar a cargo do Estado tal incumbência traria prejuízos muito maiores do que os eventuais benefícios que poderiam advir se o acesso ao sistema educacional fosse gratuito a todos. Era necessário formar jovens que estivessem aptos à competição, pois considerava que “o fato de dar instrução gratuita às crianças será seguido em alguns casos, pelo de lhes facilitar da mesma forma o alimento, e quando este uso se haja generalizado gradualmente, podemos estar seguros de que se estenderão a outros muitos casos” (Spencer, 1962, p. 46).
Spencer buscou demonstrar que somente por meio da Ciência, a Educação poderia atingir seus objetivos, dado que apenas pela predominância do ensino de conteúdos científicos e da secundarização do ensino clássico, o progresso poderia ser alcançado. Para ele, a Ciência na Educação é a resposta para os questionamentos relacionados a quais seriam os conteúdos de maior valor no ensino escolar.
Para a conservação própria, para a conservação da vida e da saúde, o conhecimento mais importante é a ciência. Para a indireta conservação própria, o que se chama ganhar a vida, o conhecimento de maior valor é a ciência. Para o justo desempenho das funções da família o guia mais próprio só se encontra na Ciência. Para a interpretação da vida nacional, no passado e no presente, sem a qual o cidadão não pode justamente regularizar o seu procedimento, a chave indispensável é a ciência. Para a produção mais perfeita e para os gozos da arte em todas as suas formas, a preparação imprescindível é ainda a ciência, e para os fins da disciplina intelectual, moral e religiosa - o estudo mais eficaz é, ainda uma vez, a ciência (Spencer, 1900, p. 85-86).
Em linhas gerais, a temática educacional, que sempre esteve presente em suas obras, foi apresentada de maneira específica com a publicação da obra Education - Intellectual, Moral, and Physical, em 1861, que agrupava as ideias de Spencer sobre educação. Para expor sua doutrina educacional, ele demonstrou que a importância do método de ensino estava em levar de modo mais eficaz os conhecimentos por meio das ciências para uma educação intelectual, moral e física. No âmbito da educação intelectual, ressalta que para conseguir melhores resultados é necessário tornar o ensino uma atividade que produza prazer e satisfação ao aluno, não podendo a educação ter a conotação de um encargo a ser suportado pelos mais jovens.
As ideias de Spencer nos manuais de História da Educação publicados em português, com autores estrangeiros, em circulação no Brasil
Nos manuais de História da Educação publicados e em circulação no Brasil, mediante autorias estrangeiras, buscamos apreender a forma como as ideias de Spencer foram representadas. Desse modo, dentre os manuais analisados, tomamos nesse artigo apenas aqueles que mencionaram com alguma intensidade as ideias do autor, a saber, por ordem de publicação da primeira edição em português no Brasil: Monroe (1939); Riboulet (1951); Luzuriaga (1955); Hubert (1957); Eby (1962); Larroyo (1970); Cambi (1999).
Na História da Educação de Paul Monroe, as ideias de Spencer são mencionadas em oito páginas, com referência à tendência científica moderna na Educação, que teve início entre os séculos XVIII e XIX, da qual Spencer seria um dos principais representantes, devido ao “grande desenvolvimento das ciências físicas e biológicas, a influência da tendência naturalista para exaltar o valor do contacto com a natureza, e a insuficiência da velha educação humanista como preparação para a vida moderna” (Monroe, 1970, p. 317).
Monroe toma as ideias de Spencer na direção de uma educação liberal que se volte para a formação prática na qual conteúdos úteis tenham precedência, bem como assinala a importância das ciências, que foram fundamentais para a educação no século XIX e que contribuíram para a “predominância de tal educação liberal e tal organização de suas matérias, será possível para o profissional comum em qualquer das profissões combinar a educação liberal com a profissional ou técnica” (Monroe, 1970, p. 320).
Apesar de concordar com algumas ideias de Spencer, Monroe diverge no entendimento de que a educação seja preparação para a vida, dado que ela deveria ser entendida como consentânea à própria vida, pois “deve ser reconhecido que a posição de Spencer é apenas uma reação contra a acentuação excessiva que davam ao método os partidários da educação disciplinar e os representantes da tendência psicológica, embora estes o fizessem de uma forma totalmente diversa” (Monroe, 1970, p. 324).
Louis Riboulet, por seu turno, do último, dentre os quatro volumes de sua História da Pedagogia, constam menções à Spencer em dez páginas. Discorre que no século XIX, o método experimental ganha relevância, mediante a busca pela aplicação de métodos das ciências físicas e naturais às ciências ditas psicológicas e pedagógicas. Nessa perspectiva, Riboulet ao tratar do positivismo e do evolucionismo, menciona respectivamente, a importância dos estudos de Comte e a relevância de Spencer. Sobre o evolucionismo inglês, Riboulet afirma que “assemelha-se, em vários pontos, ao positivismo francês. Admite transformações sucessivas da humanidade, a criação, por meio da imaginação, de mitos religiosos e filosóficos, e faz da experimentação científica, o único critério do conhecimento certo. Sua pedagogia repousa na ciência (Riboulet, 1951, p. 71).
Riboulet buscou efetivar uma divisão clara das bases educacionais de Spencer e, nesse percurso, apresentou suas principais características, mas também críticas a elas. Na questão do método, por exemplo, os princípios fundamentais defendidos por Spencer são consubstanciados no interesse e na atividade espontânea, ou seja, para Spencer, por quanto tempo o estudo se tornar habitualmente repugnante, por tanto prevalecerá a vontade de não continuar no estudo, logo que os rapazes possam furtar-se à coação dos pais e mestres. Dessa forma, quando o estudo da ciência for habitualmente agradável, então há de prevalecer a tendência para continuarem sem superintendência nos estudos começados sob a direção dos mestres.
Nessa direção, Riboulet apresenta crítica ao pensamento de Spencer, pois que o mesmo deveria “distinguir entre o que agrada e o que é útil: certos exercícios que agradam muito aos alunos não são os mais importantes [...] Se é importante tornar a aula interessante, é mais importante ainda ensinar os alunos a vencerem suas repugnâncias e seus caprichos” (Riboulet, 1951, p. 74-75).
Por fim, cabe mencionar, a análise realizada por Gatti e Silva, na qual foi assinalada que em Riboulet há “predominância da análise sobre o cientificismo e o evolucionismo, todavia, em um registro combativo, no qual são apontados os erros destas correntes, quando elas rejeitam princípios cristãos na análise do campo educacional” (2019, p. 15-16).
Para Gatti Jr., na História da Educação e da Pedagogia, de Lorenzo Luzuriaga, tinha-se como objetivo “oferecer uma visão de conjunto da história da educação e da pedagogia, tratando de relacionar a educação e as concepções sociais e culturais de cada momento histórico” (2014, p.487). No que se refere às ideias de Spencer, Luzuriaga dedicou cinco páginas, notadamente, quando se referiu a pedagogia no século XIX, com a consideração do evolucionismo social no âmbito da corrente positivista, sendo que “o maior representante dela foi Herbert Spencer (1820-1903) que, ainda não sendo propriamente um pedagogista, teve certa influência na educação” (Luzuriaga, 1963, p. 208).
Luzuriaga é um crítico das ideias de Spencer, pois, embora reconheça as contribuições, as qualidades e a relevância do autor no rol de estudiosos de sua época, afirma que em “realidade, há muito pouco de original na pedagogia de Spencer, a não ser a insistência no caráter utilitário, pragmático, da educação, e no valor do conhecimento científico” (Luzuriaga, 1963, p. 209).
No que tange à pedagogia social, definida por Luzuriaga (1978, p.253), essa é entendida como a que possui sua ancestralidade em Platão, mas que em relação à pedagogia entendida como ciência, que é uma ideia que ganha força a partir do século XIX e se consolida no século XX, novamente observamos que foi dado à Spencer também o pertencimento a essa corrente, como um representante da pedagogia social histórica, no interior da corrente positivista.
Em História da Pedagogia René Hubert menciona as ideias de Spencer ao longo de onze páginas. Destaca que “o traço mais característico da história das instituições pedagógicas nos principais países da Europa ocidental desde a Renascença é a continuidade do desenvolvimento” (Hubert, 1976, p. 122), com a afirmação de que a grande contribuição de Spencer estava no fato de ele ter sido o responsável por unir duas tendências pedagógicas, a psicologia experimental e a filosófica. Para ele:
parece que as duas tendências se juntam novamente e se unem na doutrina da educação desenvolvida por Herbert Spencer (1820-1903), primeiro em artigos que escreveu no começo da carreira e reuniu em 1861 numa obra intitulada Da Educação intelectual, moral e física, depois em diversas publicações. Essa filosofia geral toma, todavia, em Spencer, caráter inteiramente diverso do que tinha entre os pós kantianos: a teoria da evolução é, para ele, essencialmente uma generalização e uma sistematização dos resultados das várias ciências. Sua ressonância é toda positiva, de modo algum metafísica. Ademais, essa sistematização tira seus princípios da ciência mecânica e da ciência física, mais que da biologia ou da sociologia; quando elabora a doutrina do Incognoscível, é ainda à noção de força que recorre para exprimir o fundo do ser (Hubert, 1976, p. 288-289).
Hubert, no que se refere a apropriação da ideia de evolução e de como ela ultrapassa a ideia puramente biológica, mas também no âmbito do aspecto psíquico e social e, de modo diverso dos demais autores, traz para seu texto obras de Spencer para além de Educação - Intellectual, Moral e Physica, citando também O indivíduo contra o Estado, para demonstrar sua importância na explicação do evolucionismo spenceriano.
Hubert dedica-se a avaliar a função das doutrinas pedagógicas e, no que concerne à questão da educação, afirma que os problemas da educação acabaram por não serem observados com a devida importância em muitas correntes filosóficas. Hubert explica a posição de Spencer, justificando que nos grandes sistemas filosóficos
de algum modo, dissolvem o homem nas realidades que o ultrapassam, mal atentam nos problemas da educação. Se Spencer se detém neles, é que os considera principalmente em função dessa filosofia da história, que é a sua sociologia. Uma doutrina pedagógica é, de início e essencialmente uma reinvindicação dos direitos do humano, da liberdade e, pois, da individualidade do homem, da liberdade e, pois, da individualidade do homem em face das tradições de qualquer natureza que sobre ela pesam, que a deformam e lhe entravam o desenvolvimento. Seja qual for o plano em que esse desenvolvimento esteja particularmente proposto, o da natureza biológica, o da adaptação social, o das exigências espirituais, é sempre para a ideia do homem, de sua essência, de seu destino, que concorrem todas as especulações teóricas e práticas (Hubert, 1976, p. 356).
Na História da Educação Moderna, de Frederick Eby, houve menção às ideias de Spencer em seis páginas, nas quais o evolucionismo científico afigura como a principal contribuição de Spencer, por meio da demonstração dessa corrente filosófica baseada na ciência e na crença no progresso constante da humanidade e da sociedade. Assim, Eby cita o exemplo da Inglaterra, onde “as instituições existentes permaneceram, em grande parte, inalteradas pela mudança dos acontecimentos, mas um novo tipo de escolas e universidades surgiu para cuidar do progresso moderno. Além disso, os baluartes do Humanismo e do Idealismo foram vigorosamente atacados pelos defensores do evolucionismo científico” (Eby, 1970, p.507).
Spencer, juntamente com Darwin e Huxley, são alçados a categorias de estudiosos que deram uma contribuição fundamental para a ideia da ciência como base da educação. Segundo, Gatti e Silva, o manual de Eby “conferiu destaque à Spencer, com sua ideia do conhecimento trazendo contribuições para a vida e a educação sendo uma preparação para a vida completa, com atribuição de grande valor para o conhecimento científico. Huxley, por seu turno, também teve grande influência, por meio da ênfase que deu a necessidade do ensino de ciências nos programas escolares, sendo ela considerada o único método para a verdade” (2019, p.21).
Para Eby, a importância do pensamento de Spencer encontra-se no mesmo rol de pensadores como Dewey, para o qual a educação “é compreendida como um processo de reconstituição da experiência, concedendo-lhe uma perspectiva mais socializante, a partir de um avanço e de um desenvolvimento individual” (Gatti Jr., Lima, 2019, p. 26). Nesse aspecto, Eby expõe que “Spencer argumentava que as ciências naturais eram, sob todos os pontos de vista, as mais valiosas” (Eby, 1970, p. 584-585).
Na História Geral da Pedagogia, Francisco Larroyo menciona as ideias de Spencer em seis páginas, que são caracterizadas, desde a partida, no âmbito do evolucionismo, com aproximações e diferenciações em relação ao positivismo. Para ele:
Comte [...] compreendeu, apesar das deficiências de sua doutrina, as limitações do intelectualismo. Reconheceu o valor do princípio emocional na Filosofia e na educação. Herbert Spencer (1820-1903), por outro lado, acentuou, ao extremo, a importância da ciência nas tarefas educativas (Larroyo, 1974, p. 666).
Em Larroyo, a teoria spenceriana está registrada no âmbito do cientificismo pedagógico que é a base fundamental da pedagogia na qual a “educação é um acentuado processo evolutivo que se opera na marcha progressiva de um ser que, pouco a pouco, revela suas aptidões e potencialidades” (Larroyo, 1974, p. 667).
Na História da Pedagogia de Franco Cambi, as ideias de Spencer estão dispostas em sete páginas. Quando aborda a Inglaterra, o autor destaca o empirismo inglês em educação, por meio da afirmação de que esse orbita entre o utilitarismo e o evolucionismo, salientando o papel de Spencer no que se refere a essa tradição empírica.
Para Cambi, a emergência da sociedade industrial impactou sobre a pedagogia, com um direcionamento laico e voltado ao saber científico, pois, no que se refere a “pedagogia são apontadas novas tarefas sociais e um novo modelo de rigor epistemológico (passando da filosofia à ciência), mas ligando-a assim, e intimamente, aos processos da ideologia” (Cambi, 1999, p.465).
Ao analisar o positivismo pedagógico no âmbito da Inglaterra, Cambi demonstra como a valorização do saber científico foi relevante em uma sociedade industrial mais avançada, afirmando que, “a figura dominante é Spencer, mas ao lado dele deve ser lembrado também o empirista Bain, e outras figuras menores, como John Tyndall (1820-1893) e Thomas Huxley (1825-1895), que defenderam abertamente a validade, e mesmo a superioridade, da educação científica” (Cambi, 1999, p. 468). Para ele:
A cultura filosófica inglesa de orientação positivista, que entrelaça de maneira original a tradição empirista e o evolucionismo darwiniano, encontra a expressão pedagógica máxima na obra de Herbert Spencer (1820-1903), Educação intelectual, moral e física, que foi, em âmbito europeu, uma espécie de manifesto de positivismo pedagógico (Cambi, 1999, p. 470).
As ideias de Spencer nos manuais de História da Educação, com autores brasileiros, em circulação no Brasil
Nos manuais de História da Educação com autores brasileiros, selecionamos aqueles abordaram as ideias de Spencer de modo mais intenso, a saber: Barreto (1914); Peixoto (1933); Peeters e Cooman (1936); Andrade Filho (1941); Santos (1945); Archêro Jr. (1957); Rosa (1971); Giles (1987); Aranha (1989).
Em História da Pedagogia, René Barreto afirma que no contexto inglês Bell, Lancaster, Mill, Bain, Quick e Spencer seriam os filósofos que mais contribuíram para a educação e a pedagogia. Spencer seria “um dos mais célebres philósophos contemporáneos e um dos maiores nomes da Inglaterra sábia. Sua obra pedagógica - Da Educação intellectual, moral e physica exerceu uma extraordinaria influencia em todo o mundo civilisado” (Barreto, 1914, p. 213).
Barreto já contempla a importância da difusão das ideias e obras de Spencer que, publicadas a partir da segunda metade do século XIX, adentram em diversos países do mundo, inclusive no Brasil, e afirma que o “Ensaio, de Spencer, merece lugar de destaque entre as obras relativas à pedagogia. Traduzido em quase todas as linguas, exerceu a diversos respeitos influência notável na sciencia da educação” (Barreto, 1914, p. 217).
Júlio Afrânio Peixoto, por seu turno, em Noções de História da Educação, assevera que a teoria educacional spenceriana é apreendida no sentido de que a “educação é tudo o que fazemos por nós mesmos e o que os outros fazem por nós, para nos aproximarmos da perfeição de nossa natureza” (Peixoto, 1933, p.175). Desse modo, a “evolução, lei universal, da natureza e do espírito”, determinou também a educação. Assim como o adorno precedeu o vestuário, as superfluidades instrutivas precederam os conhecimentos uteis” (Peixoto, 1933, p. 175). A importância da ciência, ponto fundamental para Spencer, é reforçada em Peixoto, por ser “a alma da educação. Para adquiri-la há o interesse e atividade espontânea” (Peixoto, 1933, p. 176). Nessa direção, Peixoto afirma que o mérito de Spencer foi proceder
a crítica cerrada à educação tradicional - e ainda vigente - de um excessivo intelectualismo e uma exigente educação moral e religiosa, em desproveito da educação física, primordial e indispensável. Depois, com o conhecimento, em vez de vetustas prendas, já ininstrutivas hoje, (latim e grego... e tantas cousas mais... para que? Já existem boas traduções...) e para as quais se achou a desculpa de educativas, venham conhecimentos uteis, aplicaveis, que instruem e educam. (Porque se hade preferir uma matéria educativa inutil, se há materias educativas uteis?) Como a humanidade aprendeu, deve aprender a criança. (Peixoto, 1933, p. 177).
As Madres Francisca Peeters e Maria Augusta de Cooman, em Educação: História da Pedagogia. Problemas Actuaes, esclarecem que o manual por elas redigido tinha por objetivo “servir ás alumnas normalistas que desejam noções resumidas e claras sobre a evolução dos processos e das doutrinas educacionaes no tempo e no espaço” (Peeters; Cooman, 1936, p.11).
Na parte dedicada à temática do naturalismo científico, analisam as ideias de Spencer, no interior do que nomeiam ser um novo paradigma, cujo “axioma fundamental [...] ‘Não ha differença de natureza entre homem e o animal’ inspira toda a doutrina educacional dos seus adeptos. Dora em diante, não será mais o espírito que deve dominar: o corporal subjuga o espiritual” (Peeters; Cooman, 1936, p.106). Para elas, nessa nova concepção, abre-se espaço para a importância de Spencer na propagação das doutrinas evolucionistas em educação.
Em tom crítico, destacam que em Spencer o fator da educação seria a Natureza, pois nem “o pae, nem o professor, nem o Estado, nem a Igreja, devem desempenhar o papel principal: A grande educadora é a Natureza: ‘Deixar fazer em tudo a Natureza’” (Peeters; Cooman, 1936, p.108). Sobre a pedagogia de Spencer, afirmam que “seu systema particular no que tem de original é de mínimo valor. As poucas coisas sensatas que ali se encontram são logares communs que se podem tirar de qualquer bom livro de pedagogia” (Peeters; Cooman, 1936, p. 108).
Na História da Educação, de Bento de Andrade Filho, as ideias de Spencer são abordadas no âmbito da educação científica, tomada como ponto culminante da tendência na educação do século XIX. Entre os conteúdos de maior relevância da filosofia spenceriana encontra-se “a ciência, inclusive a ciência de educar” (Andrade Filho, 1941, p. 249), sendo que a vida completa, segundo Spencer, consistia em “um preparo científico para cada gênero de atividade” (Andrade Filho, 1941, p. 249). Sob o repertório de críticas engendradas pelo autor a filosofia de Spencer, encontra-se a falta de possibilidades de que a teoria proposta pudesse ser executável do ponto de vista educacional. Assim,
no ponto que analisamos o ideal educativo foi proposto: a preparação à vida completa; definiu-se essa vida; mas quando da aplicação prática do princípio, vemos quão restringida foi a primitiva idéia - pois há que atender às ‘coisas mais necessárias’ à essa vida completa. Ora, aquí a inconsistência do plano é manifesta: quais serão essas coisas essenciais à vida? A basear-se no ideal do filósofo - que tende a dar às finalidades educativas o carater universal das verdades científicas - incorrer-se-ia no mais grave erro, pois segundo temos visto, o que há de importante a cada gênero de vida é essencialmente mutável, como o é a própria vida” (Andrade Filho, 1941, p. 253).
Findando sua análise sobre Spencer, Andrade Filho reconhece a contribuição positiva mais relevante de Spencer que consistiu na defesa da atribuição do cunho científico que a educação deve possuir e dos objetivos que ela deve atingir na sociedade e sobre os indivíduos. No entanto, afirma que “Sobre apontar fins, Spencer largamente contribuiu com meios. Em relação a estes últimos, “o evolucionismo espenceriano é a alma de quanto se pensa e se estabelece com a característica dos fatos científicos” (Andrade Filho, 1941, p. 226).
Theobaldo Miranda Santos, em Noções de História da Educação, também toma as ideias de Spencer no âmbito da educação científica. Para Santos, a tendência científica na educação estava centrada na “preocupação de transformar o processo educativo num simples problema científico e experimental, que vamos encontrar dominando certos círculos pedagógicos do século XIX, foi um reflexo das ideias filosóficas da época” (Santos, 1945, p. 400). A importância de Spencer está em sua contribuição, que juntamente com Comte, passou a dominar o panorama cultural do século XIX. As correntes filosóficas predominantes nesse período, o positivismo e o evolucionismo, segundo Santos (1945), caracterizam-se
pela exaltação e apoteose da natureza. Seu ponto de vista básico é que só existe o que é passível de verificação empírica. A matéria é o fundamento eterno de toda a ordem existencial. Deus é substituído pela Natureza, una, autônoma, soberana (Santos, 1945, p. 401).
Em Santos, tomado como o filósofo do evolucionismo, no campo educacional, Spencer teceu ideias que foram apenas o reflexo de suas ideias filosóficas, sendo que sob essa perspectiva a “pedagogia deve guiar se pela luz da evolução, isto é, pela marcha progressiva de um ser que cresce e cujas potências se vão desabrochando sucessivamente” (Santos, 1945, p. 407).
Archêro Jr., em Lições de História da Educação, afirma que Spencer foi o “maior representante do positivismo na Inglaterra [...]. Engenheiro na sua juventude, interessou-se depois pelas questões sociais e dedicou-se aos estudos da biologia e da psicologia. É o pai do evolucionismo” (Archêro Jr., 1957, p. 81). Ele destaca a obra de Spencer, Educação - Intellectual, Moral e Physica, que considera ser aquela na qual estão dispostas claramente suas ideias pedagógicas, onde a educação seria “tudo quanto nós e os outros fazem para nos aproximar do ideal de nossa natureza (Archêro Jr., 1957, p. 81). O ideal que consiste em que “a criança logre uma preparação completa para a vida ulterior” (Archêro Jr., 1957, p. 81), com o objetivo de adquirir os conhecimentos considerados mais úteis para desenvolver a vida individual e social. Para ele:
a educação é a mais perfeita preparação para a vida completa. Todos os estudos devem ser organizados tendo em vista um fim prático (utilitarismo) e daí o predomínio que concede ao estudo das ciências. Para êle o método ideal é o da Natureza. Essas ideias foram, mais tarde, aceitas por Dewey (Archêro Jr., 1957, p. 81).
Em História da Educação através dos textos, Maria da Glória de Rosa, após notas introdutórias, apresenta excertos de textos originais de pensadores da Educação, nos quais se percebe claramente o caráter didático do manual disciplinar em questão. Spencer é um dos autores destacados no oitavo capítulo, nomeado Educação no século XIX, sendo antecedido pela análise das ideias de Herbart e Froebel.
A autora enfatiza o caráter determinista e generalizante das ideias de Spencer, dado que ele afirmava “haver encontrado a fórmula única segundo a qual nascem e se desenvolvem os fenômenos de todos os tipos: desde os mecânicos até os fatos biológicos, psicológicos e sociais. É a evolução, isto é, a passagem do homogêneo ao heterogêneo” (Rosa, 1971, p. 267). Pela abordagem dada ao ideal evolutivo de Spencer, conforme exposto pela autora, é colocada uma ideia de evolução linear sem possibilidade de mudanças que não seja pela passagem prioritária do mais simples para o mais complexo, no entanto,
Por estranho que possa parecer, a fórmula que Spencer dá à evolução não é tão somente mecânica como parece à primeira vista. Achava que na base do processo evolutivo deveria haver alguma Potência sobrenatural e encarava a evolução como sinônimo, em última análise de progresso. Entretanto, referia-se a essa Potência como o Incognoscível e dizia que ela não deveria merecer consideração científica. O homem somente estudaria aquilo que estivesse dentro de sua capacidade de conhecimento, quer dizer, as especulações humanas não deveriam ultrapassar a matéria, os movimentos e os fatos da experiência sensorial (Rosa, 1971, p. 268).
Thomas Ransom Giles3, em sua História da Educação, aborda as ideias de Spencer no âmbito da análise dos sistemas paralelos de ensino, relativos à Inglaterra, berço da Revolução Industrial, que estaria baseado na necessidade cada vez mais crescente do ensino científico, uma vez que essa revolução trouxe mudanças no próprio agrupamento das pessoas, mediante uma evolução urbana que “cria novas necessidades profissionais, sobretudo burocráticas, para suprir as necessidades dos bancos, das ferrovias, dos armazéns, das lojas, como também do próprio governo” (Giles, 1987, p. 228).
A reforma do ensino com vistas ao atendimento de demandas crescentes impôs a necessidade de mudança na estrutura do ensino tradicional, por meio da modernização dos programas de estudos, sendo Spencer uma “das vozes mais fortes a favor da introdução de estudos científicos” (Giles, 1987, p. 229).
Sobre a ciência e sua importância na educação, Spencer advoga que os conhecimentos científicos são “indispensáveis para o progresso humano” (Giles, 1987, p. 229) e, nessa direção, confere relevância a hierarquia de conhecimentos defendida por Spencer, notadamente, em Educação Intelectual, Moral e Física. Spencer opõe-se ao ensino clássico tradicional, por meio da valorização das ciências, em substituição ao ensino de disciplinas cujo conteúdo era considerado inútil pelo filósofo britânico, que também atribui aos métodos de ensino a importância para sobrepor-se ao ensino arcaico.
Em História da Educação, Maria Lúcia de Arruda Aranha afirma que o “pensamento pedagógico do século XIX é influenciado não só pelas alterações econômicas e sociais [...], mas precisa ser compreendido conforme o estágio em que se encontram a filosofia e as ciências” (Aranha, 1989, p. 139). Ao conferir relevância à filosofia e às ciências no desenvolvimento da pedagogia e do próprio processo educacional, tem a autora que o positivismo influencia sobremaneira esse desenvolvimento, uma vez que “exprime a exaltação provocada no século XIX pelo avanço da ciência moderna, capaz de revolucionar o mundo com uma tecnologia cada vez mais eficaz: ‘Saber é poder’” (Aranha, 1989, p. 139). A autora afirma que a maior contribuição de Spencer está na incorporação do evolucionismo darwinista ao positivismo, contida na ideia da proeminência das ciências entre os demais saberes, pois, para ele
A educação, como tudo no mundo, sofre um processo evolutivo em que o ser revela suas potencialidades. Imbuído da concepção cientificista, Spencer escreveu a obra Educação, que obteve muita popularidade. Nela considera o ensino das ciências o centro de toda educação, não só em termos de transmissão dos conhecimentos, como da formação mesma do espírito científico. Dentre as ciências, considera a física, a química e a biologia como as mais importantes. Na sua obra prevalece o interesse pelas questões utilitárias, em franca oposição ao ensino humanista tradicional (Aranha, 1989, p. 140).
Considerações finais
Depreende-se do exame dos manuais de História da Educação publicados em português ao longo do século XX, que as ideias formuladas por Spencer no Século XIX tiveram repercussão importante nos conteúdos disseminados junto à instituições relacionadas à formação de professores, o que assinala um processo de circulação de ideias significativo no que se refere ao requerimento de inovação de saberes e de práticas escolares a partir do evolucionismo, da hierarquização de saberes e da educação científica propostos por Spencer, os quais estiveram presentes no conteúdo dos referidos manuais.
Preliminarmente, é preciso notar a variedade de autores estrangeiros, dos Estados Unidos, da França, da Espanha, da Argentina, do México e da Itália, que tiveram suas obras traduzidas para o português ao longo do século XX, a partir de originais publicados com alguns anos de antecedência. Quanto aos manuais de História da Educação com autores brasileiros, publicados desde 1914, a presença de Spencer também se destaca em um número importante de obras que alcançaram grande circulação ao longo do século XX, todavia, nesse caso, é preciso ressalvar que muitos autores brasileiros tiveram acesso às versões originais dos manuais publicados no exterior, ou seja, em muitos casos, não foi preciso que esperassem a veiculação das versões em português de manuais estrangeiros, o que se soma ao fato de poderem acessar as obras de Spencer diretamente, em seus idiomas originais ou em traduções em português.
Na análise do conteúdo veiculado sobre Spencer nos manuais de História da Educação analisados, a menção mais frequente esteve relacionada à valorização dos saberes científicos e ao ensino de ciências, notadamente, Física, Química e Biologia, em uma hierarquia de saberes que se coaduna com a ideia de preservação da vida, o que se relacionava com a proposição de superação da educação tradicional em favor de uma nova educação, de caráter experimental e alinhada a uma nova posição filosófica, o que foi assinalado em alguns manuais na influência sobre as ideias de Dewey e mesmo sobre parte das propostas de renovação educacional.
Essas ideias educacionais, que tiveram grande difusão internacional, estavam vinculadas ao evolucionismo spenceriano, que é apresentado de modo bastante diferenciado nos manuais de História da Educação analisados. Em alguns casos, foi percebida a antecedência das ideias evolucionistas de Spencer em relação a teoria darwinista da evolução, mas em outros, nomeou-se sem ressalvas o evolucionismo de Spencer no quadro do darwinismo social.
Outro ponto de divergência entre os autores dos manuais de História da Educação analisados esteve ligado à ideia de que Spencer deveria ser enquadrado no interior do positivismo, por vezes nomeado positivismo inglês, interpretação que apareceu com certa regularidade. Todavia, uma leitura atenta do conjunto de obras de Comte, em comparação com a leitura das obras de Spencer, tornaria visível que apesar do caráter cientificista contido em ambos, o espírito que presidia o positivismo estava fundado na ideia da predominância do interesse coletivo sobre o interesse particular, em uma espécie de liberalismo de caráter cívico, enquanto o papel do indivíduo, do interesse particular, bem como as ressalvas em relação ao papel do Estado, o que se aplicava também à Educação, era a tônica do evolucionismo spenceriano. Desse modo, de um lado, o positivismo, enquanto teoria sobre a sociedade e, por desdobramento, sobre a educação, partia do caráter social do ser e, por outro, o evolucionismo ancorava-se no caráter natural do ser e, portanto, de uma proeminência do indivíduo, do interesse particular no movimento da sociedade.
Por fim, comparece, ainda que mediante poucas incidências nos manuais de História da Educação analisados, um recorte que à primeira vista parece ancorado no pensamento de Kant, daquilo que se refere aos homens e a natureza, passível de elaboração e tratamento científico, com distanciamento necessário em relação ao incognoscível, potência criadora, mas inatingível no registro das ciências.
Finalizamos, com a clareza de que as ideias spencerianas animaram o pensamento filosófico, a teoria social e o campo educacional desde o final do século XIX, com repercussões que alcançaram principalmente o século XX, ao menos no que se refere à formação de professores, por meio do ensino de História da Educação, as quais diferentes manuais disciplinares ao longo do tempo apresentaram as ideias do autor, não sem contradições e antagonismos. Assim, em alguns casos, com posições mais favoráveis e, em outros, desfavoráveis às ideias de Spencer, fato revelador, principalmente, dos combates travados entre liberais de caráter cívico e cientificista com clérigos e leigos vinculados à restauração católica, no âmbito das políticas, das instituições e da manualística relacionada à formação de professores, destacadamente, durante a primeira metade do século XX, mas, com desdobramentos que alcançaram o final desse mesmo século e que se percebe de alguma maneira reeditados neste início do século XXI.
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Apoio ou financiamento:
CNPQ (304180/2024-6); FAPEMIG (APQ-01223-24)
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Disponibilidade de dados de pesquisa:
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
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1
A pesquisa que deu origem a este artigo contou com apoio do CNPq e da FAPEMIG.
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2
No caso brasileiro, poderíamos destacar a influência de Spencer, por exemplo: nos pareceres redigidos por Rui Barbosa na década de 1880 (Lucas; Machado, 2003); nas pesquisa sobre a Constituinte Paulista e a Constituição Estadual de 1891 em relação à educação escolar (Cury, 2022); no Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932, onde se advoga a importância da ciência para a sociedade e de seu ensino nas escolas; as leis da evolução social; a preparação da hierarquia democrática por meio da hierarquia das capacidades (Azevedo, 2010).
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3
Norte-americano de nascimento, radicou-se no Brasil em 1965 (Giles, 1987, p. 2).
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Como citar este artigo:
SANTOS, Leonardo Batista dos; GATTI JR., Décio. Herbert Spencer: ciência e evolução nos manuais de História da Educação em circulação no Brasil (1914-1999), Educar em Revista, Curitiba, v. 42, e99031, 2026. https://doi.org/10.1590/1984-0411.99031
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