RESUMO
Este artigo atenta para uma história transnacional da Didática, versando sobre os modos pelos quais ela foi criada e difundida enquanto uma disciplina, ora em conexão com outras, ora com mais autonomia e especificidade no currículo das Escolas Normais. Tais conhecimentos estão no cerne de uma tradição dos modos de compreender e viver a docência ao longo do século XX. A centralidade da Didática é atestada pela crescente produção e circulação de manuais específicos, tomados aqui como fontes nucleares, escritos para atender às demandas do campo educacional e dos processos de democratização e ampliação do número de escolas. Esses livros são muitas vezes escritos e lidos por pessoas que viajam ao exterior divulgando saberes e conhecendo outras experiências, além de serem citados em títulos publicados em outros países, sobretudo aqueles tidos como “mais avançados”. Contribuindo com pesquisas já desenvolvidas sobre os manuais de Didática, o presente trabalho reconhece similaridades entre títulos editados no Brasil, em Portugal e na Espanha e imprime uma perspectiva transnacional à análise ao organizar um corpus reunindo 32 manuais de Didática (13 brasileiros, 9 portugueses e 10 espanhóis), editados entre 1930 e 1970, quando a disciplina foi se consolidando nesses países, ensinando saberes ainda hoje reconhecidos, marcados ora por um conjunto de saberes de como ensinar, ora pela ânsia sempre presente de renovação desse ofício.
Palavras-chave:
História transnacional da Didática; Manuais de Didática; Produção e circulação de saberes
ABSTRACT
This article focuses on the transnational history of Didactics, addressing the ways in which it was created and disseminated as a discipline, sometimes in connection with others, sometimes with greater autonomy and specificity in the curriculum of Normal Schools. Such knowledge is at the core of a tradition of ways of understanding and experiencing teaching throughout the 20th century. The centrality of Didactics is attested to by the growing production and circulation of specific manuals, taken here as core sources, written to meet the demands of the educational field and the processes of democratization and expansion of the number of schools. These books are often written and read by people who travel abroad to disseminate knowledge and learn about other experiences, apart from being cited in titles published in other countries, especially those considered “more advanced.” Contributing to research already developed on Didactics manuals, this work recognizes similarities among titles published in Brazil, Portugal and Spain and gives a transnational perspective to the analysis by organizing a corpus by bringing together 32 Didactics manuals (13 Brazilian, 9 Portuguese and 10 Spanish), published between 1930 and 1970, when the discipline was being consolidated in those countries, teaching knowledge that is still recognized today, marked either by a set of knowledge on how to teach, or by the ever-present desire to renew this craft.
Keywords:
Transnational History of Didactics; Didactics Manuals; Production and circulation of knowledge
Por uma compreensão das fronteiras e dos espaços de circulação da Didática e seus manuais
Ao traçar uma história transnacional da Didática, o presente artigo pretende contribuir com um amplo conjunto de trabalhos realizados acerca da constituição histórica da disciplina (Candau, 2013; 2014; Oliveira, 1992; Martins, 1998; Longarezi; Pimenta; Puentes, 2023) e, de forma mais específica, com trabalhos que assumem os manuais de Didática como fonte central de investigação (Araújo, 2001; Campos, 2009; Hegeto, 2014; Vilar, 2022; Cardoso, 2024).
No caso da Didática, já foi possível evidenciar proximidades com a Psicologia em livros usados nas aulas da Escola Normal e publicados entre 1900 e 1960 (Silva e Lima, 2024), pois seus prefácios, sumários e conteúdos evidenciam uma espécie de “porosidade” entre as diferentes matérias, ou seja, elas tendem a ser muito parecidas em alguns momentos. O que constituiria, portanto, uma fronteira da Didática enquanto disciplina escolar? Quais são seus saberes específicos? A centralidade da Didática é atestada pela crescente produção e circulação de manuais que tratam dela, tomados aqui como fontes nucleares, escritos para atender às demandas do campo educacional e dos processos de democratização e ampliação do número de escolas. Esses livros são muitas vezes escritos e lidos por pessoas que viajam ao exterior divulgando saberes e conhecendo outras experiências, além de serem citados em títulos publicados em outros países. Nesse sentido, o presente trabalho reconhece similaridades entre títulos editados no Brasil, em Portugal e na Espanha e imprime uma perspectiva transnacional à análise ao organizar um corpus reunindo 32 manuais de Didática (13 brasileiros, 9 portugueses e 10 espanhóis), editados entre 1930 e 1970, quando a disciplina foi se consolidando nesses países, ensinando saberes ainda hoje reconhecidos, marcados ora por um conjunto de saberes de como ensinar, ora pela ânsia sempre presente de renovação desse ofício1.
A listagem abaixo apresenta os manuais em pauta, organizados em ordem cronológica de publicação e levando em consideração o país no qual foram editados. Não foi possível localizar a primeira edição de todos os livros, mas buscou-se apresentar sempre a mais antiga com a qual se teve contato. Importante destacar, também, que muitos manuais tiveram mais de uma edição, mas não foi o objetivo deste estudo apresentar as diferentes edições, mas sim, o levantamento da maior variedade de obras possível.
Manuais de Didática brasileiros: Didáctica nas escolas primárias (Toledo, 1930); A linguagem didática no ensino moderno (Mattos, 1956); Sumário de didática geral (Mattos, 1956); Didática mínima (Grisi, 1956); Noções de didática especial (Santos, 1960); Pedagogia e didática modernas (Andrade, 1969); Introdução à didática geral: dinâmica da escola (Nérici, 1963); Didática geral (Pentagna, 1964); Noções de didática geral (Santos, 1964); Didática geral (Penteado Jr., 1965); Didática geral (Fontoura, 1966); Diretrizes de didática e educação (Campos, 1967); Nova didática (Oliveira, 1968).
Manuais de Didática portugueses: Didáctica geral (Almeida, 1933); Súmula didática (Pimentel Filho, 1934); Didáctica aplicada ao ensino primário: 3ª classe (Faria; Ribeiro, Domingues, 1941); Didáctica aplicada ao ensino primário: 4ª classe (Faria; Ribeiro, Domingues, 1941); Diário escolar: normas didácticas para a 1ª, 2ª, 3ª e 4ª classes (Pinto de Abreu; Oliveira, 1941); Notas de didáctica especial (Gaspar; Ferreira, 1944); Didáctica geral da escola moderna (Fonseca Lage, 1945); Lições de pedagogia e didáctica geral (Loureiro, 1950); Introdução ao estudo da didática especial (Moreirinhas Pinheiro, 1960).
Manuais de Didática espanhóis: El arte de enseñar o didáctica general (Amado, 1933); Didáctica general y metodología (Sánchez-Trincado, 1935); Curso general de didáctica: metodologia y organización escolar (Floriano Cumbreño, 1947); Didáctica: metodología general y organización escolar (Mateos y Mateos, 1950); Didáctica: metodología y organización escolar (Muñiz, 1954); Didáctica Manjoniana (Montero, 1959); Didáctica moderna: el aprendizaje y la enseñanza (Perez, 1965); Didáctica (Gros, 1967); Didáctica general (García y García, 1969); Didáctica general: 2º año de normales (Pozo Pardo, 1969).
Diante de tal cenário, cabe perguntar, então, o que define a Didática enquanto uma disciplina, tomando como fonte os manuais usados nas Escolas Normais, que se destinam às aulas desse tema. Com o intuito de responder a tal pergunta, a busca por esses títulos contou com levantamentos anteriores, já partilhados em catálogos e teses (Correia e Silva, 2021; Silva, 2018; Silva, 2019; Manrique, 2015) e com novas incursões em acervos brasileiros, portugueses e espanhóis2. Após o levantamento inicial de títulos dos manuais, partiu-se para a etapa de localização dessas obras por meio da investigação presencial em arquivos de bibliotecas públicas dos três países já mencionados, uma vez que poucos livros se encontravam disponíveis de forma digital. A pesquisa nos arquivos favoreceu a identificação de outras obras que não constavam nos materiais que serviram de referência inicial, permitindo a ampliação de títulos. Na sequência, os manuais foram catalogados em fichas padronizadas e digitalizados, de forma completa ou parcial. No caso dos manuais brasileiros, não foi necessário realizar a digitalização das obras, uma vez que alguns títulos já estavam disponíveis em formato digital, outros foram manuseados fisicamente nos arquivos e a maioria pôde ser adquirida em livrarias onde se vendem livros usados. Conforme dito anteriormente, consideraram-se livros de formação pedagógica que trouxessem o termo “didática/didáctica” no título e/ou subtítulo. Por outro lado, desconsiderou-se livros das chamadas didáticas especiais ou específicas, como as “didáticas de...” ou “didáticas do ensino de...” (geografia, história, matemática etc.).
Os manuais selecionados foram analisados e organizados em linhas de classificação: 1) manuais de Didática Pedagógica e 2) manuais de Didática Geral. Os primeiros reúnem tanto conteúdos de didática geral quanto das didáticas específicas das disciplinas do programa da escola primária, enquanto os segundos consideram apenas conteúdos da didática geral, sem tratar de elementos sobre o ensino das matérias. Essa classificação levou em consideração dois critérios centrais, já trabalhados em Manrique (2015): os títulos e os conteúdos dos livros, que são alguns dos elementos constitutivos de uma disciplina, tal como entendida por André Chervel (1990). Ao assinalar os desafios de uma história das disciplinas escolares, o pesquisador francês destaca a variedade de questões suscitadas nesse campo, como é o caso do estudo dos conteúdos ensinados na escola, com sua constituição e desenvolvimento, bem como o lugar de um determinado tópico nos programas de ensino, com sua relação com outros tópicos e outras matérias.
Estudos na perspectiva da história das disciplinas escolares têm evidenciado a pluralidade de fontes, entre as quais estão a legislação e os programas de ensino, as obras clássicas adotadas por professores, os documentos de escrituração escolar, os cadernos dos alunos, seus boletins ou revistas pedagógicas que orientam o trabalho docente. Uma das fontes históricas mais mobilizadas para compreender a história da educação e das disciplinas escolares são os livros utilizados nas instituições educativas como suporte ao ensino, também chamados de manuais escolares, didáticos ou pedagógicos. Os manuais desvelam várias facetas da disciplina e seu desenvolvimento, pois partem dos programas oficiais, tratam dos conteúdos previstos e trazem explicações e exercícios. Ademais, suas páginas deixam entrever um modo de conceber o ensino e a aprendizagem. Enquanto objeto escolar, o manual de Didática é parte de um “território em disputa” (Arroyo, 2013) do que se quer para o currículo. Na esteira dos estudos de Catani e Silva (2010, p. 4), acredita-se que o conhecimento sobre esses livros permite “ampliar o que se sabe sobre a formação e o exercício do magistério, sobre a profissão e as ciências da educação, uma vez que eles traduzem o que se considera, em cada momento, ‘o que há de melhor’ a ser feito pelos professores”.
Nossas fontes nucleares podem ser denominadas manuais de ensino, livros didáticos, compêndios, apontamentos, súmulas, cartilhas etc. Trata-se de uma definição ampla, complexa e nem sempre consensual entre os pesquisadores da área, em um movimento classificado por Gabriela Ossenbach (2013) como “ambiguidade terminológica”. Os manuais de Didática também podem ser conhecidos como manuais pedagógicos (Silva, 2018 e Silva, 2019). Em trabalhos que percorrem a produção brasileira e portuguesa, a autora considera os manuais das disciplinas destinadas às questões de ensino, no caso, a Didática, a Pedagogia, a Metodologia e a Prática de Ensino.
Embora englobados nesse amplo conjunto dos manuais pedagógicos, os manuais de Didática restringem-se apenas a essa disciplina. É interessante notar uma especificidade dos textos aqui em pauta. Os manuais pedagógicos, desde sua origem, na década de 1870, apresentam, ao longo de um século de publicação, conteúdos que oscilam entre um saber mais pragmático, orientando o professor sobre o que e como fazer quando leciona, e um conhecimento mais teórico. A Pedagogia constou dos programas de ensino ora sozinha, ora junto à Didática, ora vinculada à História da Educação. A Metodologia Geral de Ensino e a Prática de Ensino também foram sendo incorporadas às publicações destinadas às aulas sobre como ensinar (Silva, 2018). Nesse amplo conjunto de disciplinas que podem se misturar, aparecer ou desaparecer, a Didática teve alguns destaques, já que esteve sempre presente nos planos de estudos da Escola Normal, sobretudo depois da década de 1930 e vinculou-se mais a saberes do fazer da sala de aula do que a conhecimentos teóricos. A opção foi, portanto, utilizar o termo “manuais de Didática” (e não “manuais pedagógicos”).
Ao reunir e analisar manuais de Didática publicados entre as décadas de 1930 e 1970 no Brasil, em Portugal e na Espanha, o estudo atenta para um período de consolidação da Didática enquanto disciplina das Escolas Normais. É especialmente nesse período que a Didática vai se constituindo como um campo epistemológico e disciplinar mais autônomo em relação à Pedagogia, com manuais próprios e não apenas como parte dos manuais de Pedagogia, o que justifica a periodização deste estudo. Desse modo, percorrem-se os modos pelos quais os livros definem a Didática. Tais definições mudam ao longo do tempo? Apresentam sinais de permanência? São compartilhadas entre brasileiros, portugueses e espanhóis? Tais perguntas estão no centro de uma história transnacional (Fuchs, 2014) da Didática que se quer tecer aqui, pois, tal história dispõe da construção da disciplina e identifica, em diferentes espaços nacionais (Brasil, Portugal e Espanha), a partilha de concepções e modos de funcionamento da Didática, que serviram à constituição da identidade da área. As fronteiras (Altenbernd e Young, 2014) da disciplina circulam em diferentes lugares e são permeáveis a diferentes entendimentos.
Acredita-se que a pesquisa possui potencial de aprofundamento dos estudos historiográficos sobre a construção da Didática como disciplina e campo epistemológico, não apenas no Brasil, mas também em perspectiva transnacional. Além disso, é de extrema importância destacar que os manuais pedagógicos, dentre eles os de Didática, são obras que ressaltam o valor da experiência, da atividade pragmática, da constituição de ritos escolares, permitindo-nos olhar a escola como cultura, como propôs Escolano Benito (2017).
Sobre a Didática e suas fronteiras: o primado da prática
O aparecimento da Didática como uma disciplina da Escola Normal remonta a meados do século XIX, quando ainda era uma parte da Pedagogia, o que se constituía como uma espécie de justaposição de disciplinas. Segundo Manrique (2015, p. 123), “la Didáctica durante el siglo XIX está incluida en los tratados generales de Pedagogía y será a lo largo del siglo XX cuando adquiera independencia de la misma”. A afirmação feita pelo autor, embora se refira ao caso espanhol, também se aplica aos contextos português e brasileiro (e provavelmente a muitos outros países).
A compreensão acerca da História da Pedagogia e da Didática levou Manrique (2015) a destacar três grandes linhas de manuais no campo da Didática, a saber: manuais de Didática Pedagógica, manuais de Didática ou Didática Geral e manuais de Metodologia ou Metodologia Geral. Neste estudo, o foco está nas duas primeiras. Essas linhas de classificação dos manuais - Didática Pedagógica e Didática/Didática Geral - diferenciam-se basicamente por seus conteúdos.
Los manuales de Didáctica Pedagógica tienen dos tipos de contenidos, una primera parte de Metodología General (o Didáctica General) y una segunda parte mucho más extensa de Metodología Especial (o Didáctica Especial) de la distintas materias de Educación Primaria; mientras que los manuales de Didáctica o Didáctica General sólo tienen los contenidos de esa primera parte y desaparecen totalmente los contenidos de Metodología Especial o enseñanza de la materias de Educación Primária (Manrique, 2015, p. 123).
Vale lembrar que os manuais de Didática Pedagógica apresentam seus conteúdos bem diferenciados em duas partes: Didática Geral (ou Metodologia Geral) e Didática Especial/Didáticas Especiais (Metodologia Especial/Metodologias especiais). A parte dedicada à Didática Geral normalmente se encontra logo no início das obras, frequentemente como introdução, e trata da apresentação da definição de Didática, seu objeto de estudo, relação com a Pedagogia e explicações gerais sobre métodos de ensino e de organização da escola. Já a parte dedicada às didáticas especiais costuma ocupar maior volume e apresentar pressupostos didático-metodológicos específicos sobre as diferentes matérias do currículo/programa escolar (didática da aritmética, didática da geografia, didática da história etc.). Os manuais analisados neste estudo e classificados nesta linha perfazem 3 títulos brasileiros (Toledo, 1930; Santos, 1960; Andrade, 1969), 6 portugueses (Pimentel Filho, 1934; Faria; Ribeiro; Domingues, 1941a; Faria; Ribeiro; Domingues, 1941b; Pinto de Abreu; Oliveira, 1941; Gaspar; Ferreira, 1944; Moreirinha Pinheiros, 1960) e 5 espanhóis (Sánchez-Trincado, 1935; Floriano Cumbreño, 1947; Muñiz, 1954; Monteiro; 1959; Gros, 1967).
De acordo com Manrique (2015), esses manuais estão presentes durante quase todo o século XX (pelo menos de 1900 a 1970), embora apenas no início utilizassem a expressão que serve de denominação na perspectiva da Didática Pedagógica. Portanto, a maioria não leva esse título e algumas vezes utilizam os da outra linha (Didática ou Didática Geral), mas seus conteúdos temáticos correspondem ao que o autor classifica como Didática Pedagógica por tratarem tanto da didática geral quanto das especiais ou específicas.
Como exemplos, podemos citar Didática nas escolas primárias, do brasileiro João Toledo (1930), Diário escolar: normas didácticas para a 1ª, 2ª, 3ª e 4ª classes, dos portugueses Maria de Lourdes Maia Pinto de Abreu e João Luís de Oliveira (1941) e Didáctica: metodología y organización escola, do espanhol Antonio Gil Muñiz (1941). A título de ilustração, apresentam-se as imagens das capas desses manuais.
Já os manuais classificados como de Didática Geral tratam especificamente de temas gerais da Didática, sem incluir conteúdos das chamadas Didáticas Especiais (ou específicas) das matérias da educação primária. Eles tratam de temas como finalidades da educação e objetivos do ensino, métodos didáticos, disciplina e governo da classe, motivação da aprendizagem, atitudes do professor, planejamento do ensino, controles da aprendizagem e verificação do rendimento escolar, entre outros. Segundo Manrique (2015), a expressão Didática Geral aparece como uma nova forma de intitular os manuais do campo didático sobretudo a partir da década de 1930, quando se percebe uma maior presença desses livros. Ainda de acordo com o autor, é na década de 1960 que a expressão Didática Geral se consolida nos manuais didáticos, tal como costumamos entendê-la hoje, ou seja, sem tratar das especificidades das metodologias especiais ou metodologias “do ensino de” (aritmética, geografia etc.). Os manuais analisados neste estudo e classificados nesta linha perfazem 10 títulos brasileiros (Grisi, 1956; Mattos, 1956a; Mattos, 1956b; Nérici, 1963; Pentagna, 1964; Santos, 1964; Penteado Jr., 1965; Fontoura, 1966; Campos, 1967; Oliveira, 1968), 3 portugueses (Almeida, 1933; Fonseca Lage, 1945; Loureiro, 1950) e 5 espanhóis (Amado, 1933; Mateos y Mateos, 1950; Perez, 1965; García y García, 1969; Pozo Pardo, 1969).
Os autores dos manuais dessa linha utilizam em seus títulos as expressões Didática ou Didática Geral, podendo ser acompanhados de termos como Moderna (Didática) ou acrescentados termos como Metodologia, Organização Escolar e Lições de Pedagogia. Como exemplos, podemos citar Sumário de didática geral, do brasileiro Luíz Alves de Mattos (1966), Didáctica geral da escola moderna, do português Bernardino Fonseca Lage (1945) e El arte de enseñar o didáctica general, do espanhol Ramón Ruiz Amado (1933). A título de ilustração, apresentam-se as imagens das capas desses manuais.
Conforme já afirmado anteriormente, o levantamento de manuais de Didática empreendido neste estudo resultou na localização de um total de 32 manuais produzidos entre 1930 e 1970, sendo 13 brasileiros, 9 portugueses e 10 espanhóis. Para se ter uma ideia melhor de como eles podem ser classificados e como sugerem diferentes entendimentos acerca da disciplina, a tabela a seguir apresenta o número aproximado de manuais por década, nas duas linhas de classificação: DP - Manuais de Didática Pedagógica; DG -Manuais de Didática ou Didática Geral.
Considerou-se um número aproximado de manuais por década em virtude da não localização da primeira edição de todas as obras, ou seja, é possível que alguns livros tenham sido contabilizados na coluna de uma determinada década, mas publicados pela primeira vez na década anterior. Ainda assim, os dados evidenciam um aumento geral desses manuais na década final da análise, de 1960 a 1970, o que também foi percebido por Manrique (2015) ao analisar um conjunto de 54 manuais de Didática escritos ou traduzidos para a língua espanhola entre 1900 e 1970. Quanto às linhas de classificação, os manuais de Didática Pedagógica somam 14 ao longo das décadas e os de Didática Geral totalizam 18.
Os manuais de Didática Pedagógica costumam definir essa disciplina de forma mais sucinta e alguns nem mesmo apresentam uma definição explícita do que se entende por Didática, diferentemente daqueles de Didática Geral que tratam de forma mais aprofundada desse conceito. As diferentes formas de compreender a disciplina não se relacionam propriamente com as linhas em que os manuais foram classificados, mas sim com a compreensão dos autores ao longo das décadas. A leitura dos conteúdos desses livros evidencia diferentes formas de conceber a Didática e tais formas, nem sempre divergentes, apresentam a disciplina como: técnica de ensino, direção/orientação de ensino-aprendizagem, disciplina pedagógica orientada à prática, arte de ensinar, ciência e/ou teoria do conhecimento, segurança e/ou eficiência no ensino-aprendizagem, desenvolvimento intelectual e espiritual dos alunos, transmissão do conhecimento e conjunto sistemático de procedimentos, normas e/ou regras para o ensino.
Para fins de exemplaridade, optou-se por apresentar integralmente a definição de Didática presente no manual de autoria do brasileiro Imídeo Nérici (1965), uma vez que reúne um conjunto de percepções identificadas em diferentes manuais analisados, tanto no contexto brasileiro, quanto no português e no espanhol. Vejamos o que diz o autor ao explicar o que é Didática:
Didática vem, etimologicamente, do grego de didaktiké (ensinar) tékne (artes), isto é, arte de ensinar, de instruir. Didática é ciência e arte de ensinar. É ciência enquanto pesquisa e experimenta novas técnicas de ensino, com base, principalmente, na Biologia, na Psicologia, na Sociologia e Filosofia. É arte, quando estabelece normas de ação ou sugere formas de comportamento didático com base nos dados científicos e empíricos da educação, isto porque a didática não pode separar teoria e prática. Ambas têm de fundir-se em um só corpo, visando a maior eficiência do ensino e ao seu melhor ajustamento às realidades humana e social do educando. Pode-se dizer, mais explicitamente, que a didática é representada pelo conjunto de técnicas, através das quais se realiza o ensino, pelo que reúne e coordena, em sentido prático, todos os resultados das ciências pedagógicas a fim de tornar este mesmo ensino mais eficiente. A didática é uma disciplina orientada mais para a prática, uma vez que tem, por objetivo primordial, orientar o ensino. O ensino, por sua vez, não é mais do que direção da aprendizagem. Logo, em última análise, didática é um conjunto de procedimentos e normas destinados a dirigir a aprendizagem da maneira mais eficiente possível (Nérici, 1965, p. 47-48, grifo do original).
A leitura das definições presentes nas obras nos permitiu perceber que há manuais que definem Didática a partir da etimologia do termo, como arte de ensinar e/ou instruir; outros, como ciência da educação. Há ainda os que afirmam que ela é, ao mesmo tempo, arte e ciência. Muitos autores a consideram como uma disciplina essencialmente prática; outros, enfatizam seu caráter teórico. E há, ainda, os que defendem a indissociabilidade entre teoria e prática. Embora não haja um consenso nos manuais sobre como essa disciplina é concebida ao longo das décadas analisadas, é possível perceber muitas aproximações, sobretudo no que tange ao seu objeto de estudo, o ensino, e à intrínseca relação entre Didática e prática pedagógica.
A Didática em viagem
A metáfora da viagem é aqui mobilizada para destacar que os manuais de Didática e suas propostas para a disciplina circularam para além dos limites nacionais. Quando determinados livros foram divulgados - e outros foram esquecidos - estiveram em jogo questões relacionadas ao prestígio de certos nomes no campo educacional, bem como determinações de ordem econômica, relativas ao interesse das editoras na propaganda de certos títulos. Os manuais foram vias de circulação de conhecimentos pedagógicos, nas quais foram apresentados saberes que colaboraram para a construção e difusão da escola e de seus modos de ensinar (Silva, 2018).
Dito isso, alguns destaques são necessários na análise dos livros de Didática, como estão expostos a seguir: 1) primeiramente, convém mapear, nos limites deste artigo, a presença da disciplina nos programas das Escolas Normais no Brasil, em Portugal e na Espanha, 2) não se tem aqui a pretensão de dar conta de toda a complexidade e amplitude da questão aqui colocada, mas apenas retomar outros trabalhos que já mapearam a presença da Didática nos cursos de formação, já que os manuais foram escritos a partir dos planos de estudo (Silva, 2018 e Manrique, 2015) e 3) nos três países, a Didática constou dos programas com propósitos semelhantes.
Na listagem de manuais em espanhol apresentada por Manrique (2015), há obras que não foram produzidas originalmente em língua espanhola, mas traduzidas para o espanhol e publicadas na Espanha. É o caso dos manuais dos italianos Giuseppe Lombardo-Radice (1933) e Renzo Titone (1966), e dos alemães A. Y. J Schmieder (1933), Otto Willmann (1948) e Ferdinand Koop (1967). Considerou-se relevante mencionar esses autores em virtude da relevância de suas contribuições para a História da Didática em nível internacional e do importante papel da tradução para a circulação de ideias pedagógicas. É possível identificar a presença de exemplares de obras desses autores em diferentes arquivos na Espanha.
Outros exemplos de manuais produzidos originalmente em outro idioma, mas traduzidos para o espanhol são as obras: 1) Compendio de Didáctica General, do brasileiro Luiz Alves de Mattos (1963), traduzida para o espanhol e publicada na Argentina, mas produzida originalmente no Brasil sob o título “Sumário de Didática Geral”; e 2) Hacia una Didáctica General Dinámica, de autoria de Imídeo Giuseppe Nérici (1963), italiano radicado no Brasil desde a infância. A obra, cuja tradução em espanhol teve publicação na Argentina, foi produzida originalmente em terras brasileiras sob o título “Introdução à didática geral: dinâmica da escola”. Durante a pesquisa, foi possível localizar exemplares tanto do manual de Mattos (1963) quanto do de Nérici (1963) em diferentes arquivos na Espanha e em alguns arquivos de Portugal (em língua portuguesa e espanhola), reforçando a presença e circulação dessas obras para além do Brasil e da América Latina. As pesquisas de Silva e Vieira (2024) adentraram com mais detalhes nos processos de produção e circulação da obra de Luiz Alves de Mattos, examinando a trajetória do autor, os conteúdos de seus livros e os modos como ele teceu redes de relações e de trabalho que ajudam a compreender o sucesso editorial de seus manuais.
Um último aspecto a ser mencionado é que Manrique (2015) ainda apresenta outros títulos de manuais de Didática escritos em espanhol, mas publicados fora da Espanha, em diferentes países de língua espanhola. É o caso, por exemplo, de manuais publicados na Argentina, no México, em Cuba e no Chile, que não foram objeto de investigação neste estudo uma vez que centramos o olhar apenas naqueles publicados no Brasil, em Portugal e na Espanha. Entretanto, cabe destacar dessas obras o manual Didáctica de la Escuela Nueva, de autoria do porto-riquenho Alfredo Miguel Aguayo Sánchez (1932), escrito em espanhol e publicado em Cuba, mas traduzida para o português e amplamente difundida no Brasil sob o título Didática da Escola Nova. Ao estudar os manuais pedagógicos brasileiros publicados entre 1930 e 1970, Silva (2019) identificou os autores e obras mais mencionados nas páginas dos livros e Aguayo figurou, numa contagem geral, como o segundo autor mais citado em um amplo universo bibliográfico.
Dessa maneira, os manuais de Didática não circularam apenas em seu local de produção, seja na forma original, seja por meio de tradução, difundindo formas de pensar e construir a disciplina. Ao ler os manuais, os professores entraram em contato com outras ideias e experiências, as quais constituíram um corpo de conhecimentos compartilhados para além das fronteiras nacionais. Palavras e enunciados das mais variadas naturezas puderam circular, como, notadamente, as justificativas para o uso de determinado método didático, as definições de “bom” professor, “bom” aluno, “boa” aula, até prescrições mais minuciosas sobre como ensinar, planejar ou avaliar. A história da Didática em perspectiva transnacional evidencia os modos pelos quais essa disciplina vem participando da constituição de uma cultura escolar compartilhada mundialmente.
Referências
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Apoio ou financiamento:
Sem agência de fomento.
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Disponibilidade de dados de pesquisa:
Dados estão disponíveis no repositório: Nome do repositório: Fino Traço Editora URL ou DOI: https://www.finotracoeditora.com.br/e-book-catalogo-manuais-pedagogicos-portugueses-e-brasileiros-1868-1970. Data do depósito: 2021.
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Este estudo está vinculado ao projeto temático Saberes e Práticas em Fronteiras: por uma história transnacional da educação (1810-...), financiado pela FAPESP, do qual as autoras deste artigo são participantes.
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A investigação em acervos brasileiros, portugueses e espanhóis constituiu-se como etapa inicial da pesquisa de pós-doutorado desenvolvida por Carolina Ribeiro Cardoso, ao longo de 2024, e teve como objeto de estudo a constituição histórica da Didática por meio da análise de manuais pedagógicos produzidos no Brasil, em Portugal e na Espanha entre 1930 e 1970. A pesquisa esteve vinculada à Universidade de São Paulo (USP) e contou com a supervisão de Vivian Batista da Silva. Os acervos pesquisados no Brasil foram: Biblioteca do Centro de Ciências da Educação da Universidade Federal de Santa Catarina e Biblioteca da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Em Portugal: Biblioteca Pública de Braga, Biblioteca Pública Municipal do Porto, Biblioteca da Universidade do Minho, Biblioteca Nacional de Portugal e Biblioteca da Universidade de Lisboa. Na Espanha: Biblioteca da Universidad Complutense de Madrid; Centro de Investigación MANES; Biblioteca da Universidade Nacional de Educação à Distância - UNED; Centro Internacional de La Cultura Escolar - CEINCE, Biblioteca da Universitat de Barcelona. A pesquisa no exterior ainda contou com encontros para diálogos teóricos com os pesquisadores portugueses Justino Magalhães e Joaquim Pintassilgo e com os pesquisadores espanhóis Agustín Escolano Benito, Gabriela Ossenbach e Jordi Garcia Ferrero, a quem prestamos sinceros agradecimentos.
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Como citar este artigo:
CARDOSO, Carolina Ribeiro; SILVA, Vivian Batista da. A Didática e seus manuais em perspectiva transnacional: fronteiras disciplinares e espaços de circulação (Brasil-Portugal-Espanha, 1930 a 1970), Educar em Revista, Curitiba, v. 42, e99074, 2026. https://doi.org/10.1590/1984-0411.99074
Dados estão disponíveis no repositório: Nome do repositório: Fino Traço Editora URL ou DOI: https://www.finotracoeditora.com.br/e-book-catalogo-manuais-pedagogicos-portugueses-e-brasileiros-1868-1970. Data do depósito: 2021.



Fonte:
Fonte: Mattos (1966, 5ª ed.), Fonseca Lage (1945) e