Resumo
O presente estudo, de caráter exploratório, ocupou-se das colunas de Contardo Calligaris publicadas semanalmente no jornal Folha de S.Paulo entre 1999 e 2021. Tratou-se de descrever e analisar uma iniciativa operada pelo psicanalista fora do enquadramento técnico-profissional da psicanálise, capaz de movimentar um jogo discursivo viabilizado por eficazes mecanismos veridictivos. O arquivo empírico do estudo foi constituído e analisado segundo dois níveis complementares: primeiro, a construção de um mapa temático do material; e, em seguida, o reordenamento da massa discursiva por intermédio da montagem dos enunciados ali em circulação a partir dos seguintes vetores analíticos: Psicanálise/psicanalistas; Brasil/brasileiros(as); Educação; Sociedade; Subjetividade; e Eu, Contardo. O processamento do material permitiu evidenciar que Calligaris, ao se postar como intérprete do presente, impulsionou o espraiamento de uma lógica discursiva que dispõe, incita e, afinal, logra governar os modos pelos quais os sujeitos do presente se (auto)constituem, segundo um nexo operativo centrado em uma interioridade psicologizada. Marcada pelo esforço de comentar os desafios da vida e das relações humanas, a longeva atuação do psicanalista no referido jornal denota sua autoridade intelectual, bem como o reconhecimento e a legitimação de suas ideias, ultrapassando a vulgarização do arsenal discursivo psi e redundando na multiplicação de uma ambiência propriamente educacionalizante.
Palavras-chave
Educacionalização; Veridicção; Jornal; Psicanálise
Abstract
This exploratory study examined the newspaper columns of* Folha de S.Paulo *written by Contardo Calligaris between 1999 and 2021 and published weekly in the newspaper. The aim was to describe and analyze an initiative undertaken by the psychoanalyst outside the technical-professional framework of psychoanalysis, capable of driving a discursive game made possible by effective verdictive mechanisms. The empirical archive of the study was stablished and analyzed according to two complementary levels: first, the construction of a thematic map of the material; and then, the reordering of the discursive mass through the assembly of the statements in circulation based on the following analytical vectors: Psychoanalysis/psychoanalysts; Brazil/Brazilians; Education; Society; Subjectivity; and I, Contardo. The processing of the material made it clear that Calligaris, by positioning himself as an interpreter of the present, promoted the spread of a discursive logic that disposes, incites, and ultimately manages to govern the ways by which the subjects of the present (self-)constitute themselves, according to an operative nexus centered on a psychologized interiority.The writings of Calligaris are marked by the effort to comment on the challenges of life and human relations. The psychoanalyst’s long-standing work in the aforementioned newspaper denotes his intellectual authority, as well as the recognition and legitimization of his ideas. His work transcends the vulgarization of the psychoanalytic discursive arsenal and results in the multiplication of a properly educationalizing environment.
Keywords
Educationalization; Veridiction; Newspaper; Psychoanalysis
Introdução
O campo educacional consiste em um domínio teórico-prático em torno do qual uma gama de estudos de diferentes proveniências teóricas se constituiu historicamente, incluindo aqueles que propuseram explicações de cunho psicológico às inflexões do referido campo. Entre tais proveniências teóricas está a psicanálise.
Em uma perspectiva analítica que se distingue sobremaneira das tematizações usuais oriundas do encontro da psicanálise com a educação, o presente estudo debruçou-se sobre as colunas de Contardo Calligaris publicadas semanalmente no jornal Folha de S.Paulo entre 1999 e 2021, ano da morte do psicanalista. O objetivo foi perspectivar o lastro educacionalizante de sua atuação jornalística, esta facultada, segundo nossa hipótese, pelo emprego de mecanismos veridictivos apoiados na discursividade psi2.
A escolha de tal materialidade empírica radica-se no fato de que o colunista se firmou como um dos grandes difusores das ideias psi na cultura brasileira, o que pode ser verificado tanto pela longevidade de sua atuação na imprensa escrita, quanto pelo reconhecimento público daí derivado. Calligaris não era jornalista – sua autodesignação sempre foi a de psicanalista –, mas não se furtava a comentar o mais variado leque de assuntos, agregando a eles lances interpretativos de natureza psi.
Mediante o material angariado, declinamos de qualquer tipo de remissão teórica à própria psicanálise, a fim de que fosse possível abordar sua circulação social de modo exógeno à sua lógica conceitual. Situamo-nos, assim, na exterioridade do discurso psicanalítico, uma vez que, não obstante sob sua insígnia, a ação de Calligaris como colunista de opinião deu-se fora do enquadramento institucional próprio da psicanálise.
Partimos da premissa de que o empreendimento jornalístico lato sensu consiste em um suporte cultural que protagoniza e faz espraiar discursividades capazes de sediar vigorosos processos veridictivos (Val; Aquino, 2013).
Em diálogo com a teorização de Michel Foucault (2011), entendemos que há uma política geral da verdade no seio das sociedades, responsável por delimitar as fronteiras entre o que é admitido como verdadeiro e como falso, uma vez que “[...] aquilo qualificado de verdadeiro não habita num já-aí; antes, é produzido como acontecimento num espaço e num tempo específicos” (Candiotto, 2007, p. 204).
Admitir a verdade como um acontecimento rigorosamente cambiante em termos históricos, sem reduzi-la um mero relativismo epistemológico, requer a distinção entre uma “verdade-demonstração” e uma “verdade-acontecimento”, sendo a primeira delas definida como
[...] manifestação daquilo que é: verdade-apofântica, verdade-descoberta, verdade-abstrata, constante, demonstrada e objetiva que faz uso da mediação de instrumentos; outra [verdade-acontecimento], da ordem daquilo que acontece, das técnicas de produção, da captação mediante rituais e recusas, efeito de jogos de verdade que ocorrem nas práticas concretas
(Candiotto, 2007, p. 205, grifos do autor).
No encalço da delimitação da segunda proposição, Foucault (2006, p. 343) aponta que, no que tange aos processos veridictivos atuantes na cultura, está-se diante da “[...] disposição de domínios em que a prática do verdadeiro e do falso pode ser, ao mesmo tempo, regulamentada e pertinente”. Daí a razão de focalizar a atuação de um psicanalista em um veículo midiático de grande porte.
Admitimos, assim, que o conjunto de práticas em torno da produção do verdadeiro e do falso em determinado período histórico conjuga ações que instam os sujeitos daquele tempo a se posicionarem de tais ou quais maneiras na relação consigo e com os outros. Destacam-se aí as práticas que se dão sob o propósito – manifesto ou não, tanto faz – de educar as populações; práticas baseadas no norte da educabilidade vitalícia dos e pelos próprios sujeitos. Trata-se, nomeadamente, de uma das formas de governamento das condutas que designam a atualidade histórica, a qual requer, a nosso ver, um perspectivação que leve em conta o quadro geral de educacionalização social.
A noção de educacionalização aqui em uso refere-se à disseminação de investidas com intencionalidade educativa sob o domínio de especialistas vinculados(as) a espaços não restritos ou sequer relacionados à educação formal.
Mais especificamente, educacionalização refere-se, segundo Marc Depaepe e Paul Smeyers (2016, p. 754), ao “[...] conceito geral para identificar a orientação global ou tendência de pensar a educação como ponto focal para abordar ou resolver os maiores problemas humanos”. Conforme os autores, haveria, desde a formação dos Estados-nação, uma tendência de imputação de responsabilidades múltiplas ao âmbito educativo. Antes a cargo de figuras sociais ligadas ao Estado, sobretudo aquelas conexas ao universo escolar, as investidas educacionalizantes veem-se converter, na atualidade, em prerrogativa de especialistas vinculados(as) a espaços não restritos ou sequer relacionados à educação formal. É o caso, a nosso ver, do colunista Contardo Calligaris.
A educacionalização social dá-se pelo espraiamento ininterrupto de iniciativas de teor pedagogizante amalgamadas em torno da racionalização reformadora dos modos de vida dos(as) cidadãos(ãs), provendo-os de competências e habilidades tais como flexibilidade, adaptabilidade, criatividade, inovação e, sobretudo, o cultivo da subjetividade livre, não obstante intensamente governada (Rose, 1988). Em face da adoção de intencionalidades educativas pelas mais diversas práticas sociais, estaríamos testemunhando a multiplicação exponencial de intervenções de cunho educacionalizante, com destaque para os aparatos midiáticos disponíveis. Trata-se de práticas que se exercem segundo o modus operandi axial da sociedade da aprendizagem (Noguera-Ramirez, 2011), consoante dois processos complementares – a autoaprendizagem e a aprendizagem permanente – a reboque dos quais as pessoas veem-se converter em reféns voluntárias da retórica da aprendizagem ao longo da vida (Ball, 2013).
Com base em tal horizonte de ideias, a hipótese geral do presente estudo é a de que havia, na disseminação das ideias psi a cargo de Calligaris, efeitos de condução das condutas viabilizados, de uma parte, por uma eficaz lógica veridictiva e, de outra, por um propósito pedagogizante difuso.
A circulação de ideias psicanalíticas e seus operadores históricos
À chegada da psicanálise em terras brasileiras na década de 1920 é atribuída, por boa parte dos(as) teóricos(as) do campo, uma intencionalidade revolucionária, em oposição aos ditames psiquiátricos da época. Segundo Elisabete Mokrejs (1993, p. 56), “[...] o conhecimento psicanalítico abalou sensivelmente os pilares da psiquiatria tradicional, reformulando os conceitos de saúde e doença mental, introduzindo uma nova metodologia para sua interpretação”.
Advogando desde seu início o pleito de um ofício exclusivo decorrente de uma formação institucional com regras, regulamentos e procedimentos próprios, as ideias freudianas foram recebidas prontamente na Europa, nos Estados Unidos e também no Brasil. No caso brasileiro, a difusão das ideias psicanalíticas ocorreu via classe médica, especialmente por psiquiatras que ocupavam posições de destaque à época.
A sexualidade, assunto ao qual a psicanálise foi associada de imediato, tornou-se elemento fundamental quando o problema da miscigenação racial oferecia uma ameaça ao projeto nacional desenvolvimentista, segundo as ideias higienistas à época (Russo, 2002b, 2002b), promovendo o espraiamento social da teoria freudiana por intermédio de um volume significativo de materiais informativos: revistas, livros, programas de rádio.
Nessa direção, um nome destacado que conjugou a relação entre a psicanálise e o público não especializado foi Gastão Pereira da Silva, cuja atuação se deu principalmente no final da primeira metade do século XX. Seus esforços dirigiam-se a articular os depoimentos recolhidos de pessoas comuns e o olhar psicanalítico sobre a sexualidade humana. Apesar de não ter se vinculado aos movimentos de organização inicial das instituições psicanalíticas, Silva chegou a se corresponder com Freud relatando o trabalho que desenvolvia no Brasil. Ainda, teve dois trabalhos seus traduzidos para o idioma alemão: Para compreender Freud e Psicanálise em 12 lições (Marcondes, 2015).
O raio de intervenção de Gastão Pereira da Silva foi amplo: publicou livros, participou de programas de rádio e foi responsável por colunas em várias revistas, as quais deram origem aos livros Conhece-te pelos sonhos e Conheça seu filho. No rádio, ele trabalhou durante três anos no programa No mundo dos sonhos, operando um espaço para a escuta dos sonhos dos(as) ouvintes (Russo, 2002b).
Outra personagem histórica responsável pela circulação das ideias psicanalíticas no Brasil foi Virgínia Leone Bicudo. Nascida em 1910, filha de uma imigrante italiana e de um pai descendente de negros escravizados, ela participou dos primórdios da institucionalização da psicanálise, tendo atuado, igualmente, na divulgação da teoria em veículos culturais.
Reconhecida por ter realizado uma pesquisa pioneira, em 1955, sobre a temática da cor/raça nas atitudes de alunos em grupos escolares na cidade de São Paulo, Bicudo publicou o livro Nosso mundo mental, cujo conteúdo foi organizado com base em seu programa homônimo na rádio Excelsior e em colunas veiculadas no jornal Folha da Manhã. Teperman e Knopf (2011) afirmam que o referido programa teria sido “antológico”, sobretudo por ter proporcionado à psicanálise a credibilidade do público leigo (Gianesi, s.d.).
Décadas mais tarde, Contardo Calligaris despontaria como um personagem-chave da difusão das ideias psicanalíticas no País. Embora tenha havido coetâneos(as) seus que contribuíram para a divulgação social da teoria, como Maria Rita Kehl e Jurandir Freire Costa, o trabalho de Calligaris evidencia uma produção sistemática e polivalente.
Nascido em Milão, em 1948, Calligaris teve uma trajetória intelectual diversa: estudou epistemologia genética, em Genebra; escreveu sobre Italo Calvino em uma monografia de sua primeira licenciatura; foi orientando de Roland Barthes, em Paris; estudou psicanálise com Jacques Lacan, na década de 1970 (Calligaris, 2021).
Sua primeira vinda ao Brasil – onde mais tarde se estabeleceria em definitivo – data da década de 1980, por ocasião da divulgação de um de seus livros. O percurso pelo continente americano rendeu-lhe, ainda, períodos de residência nos Estados Unidos, onde, além de trabalhar como psicanalista, foi professor na New School, em Nova York, e na Universidade da Califórnia, em 1994.
Calligaris publicou livros relacionados à teoria psicanalítica, como Hipótese sobre o fantasma na cura psicanalítica, em 1986, e Introdução a uma clínica diferencial das psicoses, em 1989. Em 2004, houve a publicação de Cartas a um jovem terapeuta: reflexões para psicoterapeutas, aspirantes e curiosos, que consiste em um diálogo com jovens profissionais interessados(as) em construir carreira na área psi.
O livro Hello Brasil! Notas de um psicanalista europeu viajando pelo Brasil, publicado originalmente em 1991, teve nova edição revista pelo autor lançada em 2017, com o título Hello Brasil! e outros ensaios: psicanálise da estranha civilização brasileira. Calligaris também contribuiu com outras obras e produziu livros em parceria.
Em 1996, foi publicada a obra Crônicas sobre o individualismo cotidiano, que reúne textos escritos pelo psicanalista em meios não especializados. No início dos anos 2000, o psicanalista lançou o livro A adolescência, um dos volumes da série denominada Folha Explica. Além disso, também enveredou pela escrita de obras ficcionais, como O conto do amor, em 2008, e A mulher de vermelho e branco: uma história de Carlo Antonini, em 2011.
Quanto à atuação no jornal paulista, seu trabalho como colunista rendeu dois volumes publicados pela Publifolha: Terra de ninguém, em 2004, e Quinta-coluna, em 2008. Pela mesma editora, Calligaris participou de um dos volumes da série denominada Ilha deserta, publicada em 2003. Em 2013, a obra Todos os reis estão nus – reunião de 118 escritos veiculados na Folha de S.Paulo – foi publicada pela editora Três Estrelas, sob a organização do jornalista Rafael Carriello.
Outros dois livros foram publicados postumamente, em 2022 e 2023: respectivamente, O grupo e o mal: estudo sobre a perversão social e O sentido da vida. O primeiro refere-se à tese de doutorado de Calligaris, defendida em 1991 na Universidade da Provença. Já o segundo, finalizado pouco antes de seu falecimento em 30 de março de 2021, aos 72 anos de idade, é constituído por histórias e reflexões sobre a vida do próprio autor. Em 2024, o livro foi agraciado com o Prêmio Jabuti.
Além do âmbito teórico e da literatura, a produção de Calligaris alcançou o mundo audiovisual com o seriado Psi, produzido e exibido pelo canal de televisão por assinatura HBO Brasil, tendo atingido quatro temporadas, entre 2014 e 2019. Seu protagonista é Carlos Antonini, personagem central de dois de seus livros de ficção, cuja caracterização está impregnada, em tese, de elementos análogos aos da biografia do autor (Angiolillo, 2021).
Sua trajetória foi marcada, sobretudo, pelos textos que foram publicados na Folha de S. Paulo, os quais lhe proporcionaram consagração tanto entre o público leitor quanto entre seus pares. A estreia de sua coluna de opinião ocorreu em 1999, embora ele anteriormente já tivesse redigido textos esporádicos para o jornal.
Calligaris manteve-se ativo em uma função que lhe creditou legitimidade para comentar o mundo, o País, os acontecimentos, as pessoas e também a si próprio. Sua produção para a Folha de S. Paulo é digna de espanto: em 23 anos consecutivos, teve 1.102 textos publicados, e pouquíssimas vezes o espaço ficou sem sua assinatura.
A última aparição de Calligaris como colunista deu-se em 1º de abril de 2021: o espaço destinado à sua coluna trouxe, como homenagem, um retrato seu feito por Luciano Salles.
É possível afirmar que Calligaris firmou-se como sucessor e herdeiro de Gastão Pereira da Silva e de Virgínia Bicudo, já que seu trabalho conjugou e, ao mesmo tempo, ultrapassou as ações que deram destaque às trajetórias de seu antecessor e de sua antecessora. Sob esse prisma, ele pode ser reputado como um terceiro grande operador da discursividade psicanalítica no terreno da cultura nacional.
O arquivo Calligaris e seus movimentos próprios
Como já anunciado, o foco do estudo – de caráter exploratório – voltou-se à atuação de Contardo Calligaris no terreno jornalístico. O procedimento relativo à coleta e à organização do material empírico deu-se inicialmente por meio da captura das imagens de cada uma das colunas disponíveis no acervo eletrônico da Folha de S. Paulo. Em seguida, foram consultadas todas as edições das quintas-feiras, dia reservado à coluna, no intervalo temporal selecionado: de 1999 a 2021.
O processo de triagem dos textos foi concluído quando se logrou catalogar os seguintes dados referentes ao total das 1.102 colunas: data, ano e número do jornal, página, título da coluna e corpo do texto. Realizada com o intuito de identificar, inicialmente, os assuntos mais recorrentes, os argumentos mobilizados e as questões centrais que figuraram no conjunto dos textos, a ordenação temática do material correspondeu à primeira etapa da montagem empírica do estudo.
Por se tratar de um material de consideráveis extensão e volume, a organização inicial dos dados se dividiu de acordo com quinquênios, sendo que, à primeira vista, não foi possível observar um padrão temático nas colunas. Estas contavam sempre com a mesma extensão: meia página do jornal. Mais especificamente, ocupavam a primeira metade de uma das páginas do caderno Ilustrada e, em sua maioria, eram acompanhadas de uma ilustração. Mariza Dias Costa assinou as ilustrações de 1999 até 2019, ano de sua morte. Em seguida, a responsabilidade por ilustrar as colunas passou a ser de Luciano Salles.
Ao longo dos textos, observa-se a preocupação de levar em conta os(as) leitores(as). Não raro Calligaris agradecia os apontamentos enviados, reconhecendo enganos e/ou informações equivocadas que repassara sem perceber. Por exemplo3:
P.S.: A coluna da semana passada, “Crianças do Divórcio”, suscitou um número inusitado de e-mails. Agradeço aos leitores. É impossível responder a todos
(Calligaris, 2000#42, p. E10).
Não conseguirei responder a todos os leitores que me escreveram comentando a coluna da semana passada. Peço desculpas e agradeço pelos dissensos, pelas observações e pelos parabéns
(Calligaris, 2003#40, p. E10).
Reagindo à minha coluna da semana passada, Álvaro de Campos, um leitor com quem dialogo com frequência, notou que, ao escrever sobre percalços amorosos, eu me ocupo raramente daquela “maioria que não está mesmo casada e que nem por isso deixa de sofrer por amor”
(Calligaris, 2006#12, p. E12).
A grande maioria dos textos contava com um disparador inicial baseado em fatos então em voga: um filme, um livro, uma pesquisa científica, uma notícia em destaque etc. Ao serem dispostos em perspectiva, os disparadores se organizam segundo três grandes frentes que dizem respeito aos âmbitos cultural, psicológico e político-social.
Com relação ao primeiro âmbito, havia uma constelação de menções a obras cinematográficas, livros recém-lançados, peças de teatro em cartaz e diferentes possibilidades de experimentar entretenimento e cultura na cidade de São Paulo e em outras. No que se refere ao âmbito psicológico, tratava-se de eventos relativos aos efeitos produzidos nas e pelas relações humanas; muitos desses disparadores apontavam para as relações afetivo-sexuais – a vida dos casais, por exemplo – e para as relações familiares – como os desafios da educação das crianças. Já no que se refere ao âmbito político-econômico, os disparadores se voltavam a eventos mais coletivos, como eleições, disputas partidárias, discussão de projetos de leis, relações entre países etc.
A parte correspondente ao desenvolvimento da ideia central mobilizada em cada coluna se apoiava em diversas fontes teóricas de que Calligaris lançava mão: Jacques Lacan, Umberto Eco, Michel Foucault, Sigmund Freud, Jean-Jacques Rousseau, Karl Marx, Roland Barthes, Melanie Klein, Zygmunt Bauman, Charles Baudelaire e outros(as) pensadores(as) das ciências humanas.
A última parte da estruturação narrativa era composta por conclusões que se apresentavam na forma tanto de posicionamentos assertivos, quanto de indagações sem resposta. Nos parágrafos finais, as palavras, em geral, endereçavam-se ao sujeito leitor, ora por meio de uma provocação, ora por meio de uma síntese da discussão levada a cabo.
São Paulo, Rio de Janeiro e Nova York foram as cidades mais mencionadas; os países, Estados Unidos, Brasil e alguns da Europa. A Itália, país em que Calligaris nasceu, costumava aparecer nas declarações que ele fazia sobre sua infância, sua juventude ou sua família.
Ao longo das colunas escritas pelo psicanalista, diversos eventos históricos recentes podem ser recordados. Sua atenção não ignorou fatos que repercutiam de imediato na população, como casos de violência, crimes e assassinatos que chocaram a opinião pública brasileira.
Entre as mais de mil colunas redigidas por Calligaris, é possível encontrar considerações sobre uma gama de assuntos díspares, atinentes sobretudo às esferas psicológica e sociocultural. A abordagem de tais esferas remetia aos modos de vida que caracterizam o presente, os quais incitam as pessoas a agir em certa direção, a desejar certas coisas, a viver certos tipos de experiências. É o que se pode testemunhar a seguir:
O gosto pela novidade é crucial em nossas vidas. Ele preside, por exemplo, à insaciável variedade dos objetos oferecidos a nossos apetites [...]. A paixão pelo novo e a ojeriza da mesmice não comandam apenas nossa relação com os objetos [...]. Queremos novidades não só nas ruas e nas vitrinas, mas em nossas vidas
(Calligaris, 2001#23, p. E11).
Cultuamos a liberdade política e prezamos a autonomia também porque nossa fantasia erótica se arrisca a enlouquecer, imaginando e desejando coisas impossíveis ou proibidas. É com a liberdade de fantasiar que nasce a culpa moderna: paramos de ser culpados por não respeitar proibições e normas e passamos a sentir culpa sobretudo por deixar de perseguir o que desejamos
(Calligaris, 2002#48, p. E10).
Em outras palavras, homens e mulheres são todos vítimas de abuso sexual na infância – é claro, alguns de abusos mais violentos, e outros, menos –, mas, na vida adulta, no caso das mulheres, a estupidez do machismo ambiente transforma os abusos da infância em traumas
(Calligaris, 2019#42, p. C6).
* * *
Encerrada a etapa inicial de montagem do arquivo, o segundo movimento de processamento da empiria foi a elaboração de um diagrama analítico que permitisse identificar as diferentes forças que movimentavam a discursividade ali operante, bem como seus possíveis efeitos educacionalizadores. Mais especificamente, tratou-se de remontar o arquivo, doravante em sentido diagonal.
Frise-se que, em vez de recorrermos ao expediente usual na pesquisa educacional da elaboração de categorias temáticas, optamos pela criação de vetores analíticos. A distinção entre ambas as noções reside no fato de que, no segundo caso, não se trata de uma mirada glosadora, tanto menos extenuante da reunião dos dados angariados. Em razão de sua especificidade, os vetores consistem em cortes discursivos estratégicos no sentido de dar a ver os modos de efetivação veridictivo-subjetivadora em tela (Foucault, 2010). Dessa maneira, não se tratou de perseguir representações do psicanalista, mas de contornar a disposição sinérgica dos tipos de enunciação por ele operadas. Em outros termos, interessou-nos mirar a performação discursiva ali em ato sem a pretensão de remetê-la a alguma instância explicativa generalizante.
Impõe-se esclarecer que o trato do material teve o propósito de desabrigar a discursividade em pauta de qualquer crivo interpretativo que lhe pudesse ser atribuído de antemão. Para tanto, foi necessário assumir os seguintes deslocamentos: no lugar do ideário psicanalítico, uma discursividade qualquer; no lugar das colunas, enunciados organizados em fluxos intermináveis de definições fundamentadas em dado modo de pensar/viver; no lugar da escuta clínica, uma prática de matriz educacionalizante.
Desde a perspectiva procedimental por nós adotada (Aquino; Val, 2018), a lida com o arquivo implica a decisão de tomar o que foi dito com base em sua aparição fática, atendo-se àquilo que se dá a ver de pronto, sem a suposição de que haveria instâncias fundadoras ali representadas. Trata-se de uma posição investigativa voltada a concretudes históricas, jamais a supostas essencialidades conceituais abstratas.
Tocou-nos, assim, lidar com o arquivo por nós constituído como um observatório de práticas investidas por arranjos discursivos próprios, atentando para os nexos argumentativos que ali se afiguravam. Como se demonstrará adiante, o intuito foi o de tomar a discursividade de Calligaris amparada pela convocação de uma interioridade psicologizada. Nesse sentido, entendemos a atuação jornalística do psicanalista como uma prática que mobiliza verdades acerca do âmbito subjetivo – sua especialidade, afinal –, definindo e operacionalizando regras e sentidos acerca das instâncias psicológicas dos sujeitos.
Tendo tais antecedentes teórico-metodológicos em mente, foram criados seis vetores analíticos que contemplam os diferentes caminhos pelos quais o discurso anunciava e, no mesmo golpe, perfazia aquilo que estava em pauta. Por meio dos referidos vetores, foi possível articular uma gama de passagens afins, das quais uma pequena parcela será apresentada aqui, respeitando os limites deste artigo.
O arquivo Calligaris – como passamos a nomeá-lo – constituiu-se pela montagem de enunciados perspectivados a partir dos seguintes vetores analíticos: 1) Psicanálise/psicanalistas; 2) Brasil/brasileiros(as); 3) Educação; 4) Sociedade; 5) Subjetividade; e 6) Eu, Contardo.
Por meio da dissecção e da transposição de alguns enunciados-chave segundo o arranjo acima, tal procedimento teve por objetivo remontar os ditos em um contexto deveras distinto daquele que presidiu sua aparição primeira. Tratou-se de desterrar os enunciados de seu habitat original, de modo que, assim, fosse possível compor uma mirada atenta à tessitura enunciativa do material como um todo, o qual, ao carrear certas questões/problemas, tornava visíveis os modos pelos quais esses arranjos discursivos específicos se forjaram e, concomitantemente, o que eles produziram.
O primeiro vetor mobiliza passagens em que a ideia de psicanálise foi diretamente mencionada. A sequência de enunciados evidencia o uso da teoria psicanalítica como um aporte argumentativo que valida considerações sobre os mais variados assuntos, por meio da interpretação dos fenômenos que acometeriam a vida dos sujeitos e os eventos da sociedade, assim como pelas provocações reflexivas que miravam os(as) interlocutores(as). Há enunciados que lançam mão de definições, conceitos e pressupostos próprios da psicanálise por meio de suas figuras autorais centrais, mormente Freud, Lacan e Klein.
Muitas das reflexões desenvolviam-se com base nesse conjunto teórico, com vistas a explicar, ilustrar, constatar, confirmar e recomendar. O cumprimento de uma função interpretante é atestado no uso de uma gramática conceitual que circula no arquivo, como exemplificado a seguir:
Pelo mundo afora, todos indivíduos, grupos, famílias, sociedades sofremos de passivos herdados. É ótimo investigar esses passivos, para melhor ultrapassá-los. Essa é, por exemplo, uma das funções de qualquer psicanálise
(Calligaris, 2000#7, p. E8).
Melanie Klein, uma das grandes figuras da psicanálise depois de Freud, mostrou que cada um pendura nas costas alheias alguns elementos (mais ou menos incômodos) de sua própria personalidade. Pensamos lidar com os outros e com suas exigências, enquanto lidamos, de fato, com exigências que são nossas e que preferimos atribuir aos outros
(Calligaris, 2001#52, p. E6).
A psicanálise explica que, no declínio do Édipo, o que é pedido à menina é que ela renuncie ao pênis do pai: com isso, ela poderá ter acesso a todos os pênis do mundo. Certo, mas a mãe não é boba: como assim, a filha pode ter todos, e ela fica só com o marido? Não é raro que a mãe tenha um estranho (e escuso) prazer em ver a filha fracassar amorosamente
(Calligaris, 2017#32, p. C6).
No caso do vetor Brasil/brasileiros(as), explorou-se um continuum discursivo acerca do que era atribuído comumente à identidade do Brasil e de seu povo, explicitando os modos como as ideias em voga delimitavam o coletivo e as interrelações nele estabelecidas.
Os elementos articulados nesse vetor apontam para uma composição argumentativa apoiada em dois eixos centrais. O primeiro refere-se a elementos que dispõem a compreensão dos processos históricos que teriam constituído o Brasil como nação. O segundo revela-se em argumentos sobre a apreensão da relação dos(as) brasileiros(as) com sua terra natal, por meio de um ponto de vista marcado pela exterioridade, tratando-se, assim, de um olhar estrangeiro – de Calligaris – sobre as condutas típicas, muitas vezes irrefletidas, daqueles(as) que se constituem subjetivamente como brasileiros(as).
Ao anunciar a realidade vivida no presente pela perspectiva do passado, o movimento do discurso produzia um fluxo de informações que explicava tanto os acontecimentos vigentes à época, quanto os processos históricos mais estendidos. Ao serem sublinhados desejos, traços de caráter e qualidades decorrentes das relações que os(as) brasileiros(as) estabelecem entre si, pode-se observar um olhar em busca de indícios de uma suposta identidade nacional.
Nossa realidade social talvez corresponda apenas a uma caricatura do ser brasileiro. Tanto faz, pois nos alegramos sempre que reconhecemos qualquer imagem no espelho. Olha só! Somos nós! Por isso, cultuamos traços patológicos de caráter como se fossem joias de família. E tristes heranças culturais como se fossem bandeiras gloriosas
(Calligaris, 1999#10, p. E10).
[...] o dinheiro no Brasil compra uma cidadania VIP, na qual não só escola, saúde e segurança são serviços particulares, mas a própria relação com a administração pública é filtrada por um exército de facilitadores e despachantes
(Calligaris, 2013#26, p. E10).
Um ano, dois anos, três anos e o Brasil morre afogado numa mistura de incompetência e interesses (explícitos e escusos). É preciso ter uma confiança infinita no Brasil, na sua capacidade de encarnar um futuro que não chega, para não soltar a mão do balão nem as amarras que prendem os navios
(Calligaris, 2021#03, p. B11).
O vetor Educação, por sua vez, objetivou reunir os momentos em que Calligaris se referia tanto a processos educativos formais, quanto à educação de maneira mais ampla. Embora houvesse considerações recorrentes sobre professores, escolas e o aparato político-institucional relativo à educação no Brasil, o norte argumentativo se associava hegemonicamente às funções familiares e, mais especificamente, a atitudes recorrentes na relação dos pais(mães) com seus(as) filhos(as), com a escola, com a sociedade e, sobretudo, consigo mesmos. Nessa direção, muitas afirmações se davam a respeito de aspectos individuais, como a autoconfiança ou a falta dela, a autoridade, o respeito, a coragem, os limites e as frustrações.
Nesse vetor mostra-se a presença massiva de enunciados que evocavam os aspectos psicológicos subjacentes a determinadas condutas, os quais eram compreendidos, muitas vezes, como elementos que, não obstante inerentes às ações do sujeito, se encontrariam por ele ignorados ou desconhecidos. Destaca-se, assim, uma força persuasiva que age constantemente na produção de uma suposta necessidade de educar os outros e, sobretudo, a si mesmo.
Quando desejamos que nossos filhos sejam a cópia da gente, é para encarregá-los de compensar nossas frustrações: quero um filho igual a mim para que tenha o sucesso que eu não tive ou para que viva segundo regras que eu proclamo, mas nunca consegui observar. Pois bem, para criar e educar no interesse dos menores, é necessário fazer o luto dessas esperanças, que tornam as crianças escravas de nossos devaneios narcisistas
(Calligaris, 2010#16, p. E15).
O mais difícil talvez seja transmitir às nossas crianças a coragem de desejar. Proibir as saídas noturnas e o uso prolongado de computador é ótimo e necessário, mas a autoridade que forma o caráter de um jovem não é só a que diz não às suas vontades; é também a que o autoriza a dizer sim na hora daquelas escolhas de vida que são custosas e decisivas e diante das quais é fácil amarelar
(Calligaris, 2010#47, p. E14).
O que foi? Será que, de repente, na modernidade, perdemos a mão, e ninguém sabe mais ser pai direito? Por que, na hora de educar, nossos avós pareciam se sair melhor do que a gente – com menos questionamentos e menos dramas? É uma questão de expectativas: eles não esperavam nem um pouco que criar filhos lhes trouxesse a felicidade
(Calligaris, 2012#35, p. E12).
De modo similar a Brasil/brasileiros(as), o vetor denominado Sociedade foi composto, por sua vez, por enunciados que afirmavam traços da formação histórica da sociedade, da cultura e dos sujeitos. Em tais extratos textuais atestam-se ideias voltadas a oferecer um quadro interpretativo do presente. A denominação mais empregada por Calligaris para designar o período era sociedade moderna, embora muitas tenham sido as qualificações atribuídas, como sociedade individualista, sociedade vaidosa e exibicionista, sociedade do consumo etc.
O presente produzido no arquivo, em termos analíticos, é a evidência de uma prática em que subjaz a posição de um tradutor ou, mais especificamente, de um intérprete. Legitimado por uma posição de saber, essa figura social explica e, ao mesmo tempo, ensina. Trata-se de um tipo de pregnância discursiva sustentadas por gestos de cunho pedagógico, à moda de um educador obstinado em comunicar um modo não apenas de pensar, mas também de se posicionar no mundo; em suma, um modo de ser.
Uma extravagância narcisista toma conta de nossa subjetividade por ser necessária ao nosso funcionamento social: é preciso alimentar um crescimento econômico infinito, fomentando a inveja que dá fôlego à corrida de todos. Sem extravagância, acaba a sociedade de consumo
(Calligaris, 2003#40, p. E10).
[...] o combustível de uma sociedade do “ter” é uma mistura de cobiça com vaidade. Por cobiça, preferimos os bens materiais a nossas eventuais virtudes, mas essa cobiça está a serviço da vaidade. A riqueza que acumulamos não vale “em si”, ela vale para ser vista e reconhecida pelos outros: é a inveja deles que afirma nossa desejada “superioridade”
(Calligaris, 2015#22, p. C10).
Francamente, as crianças não são burras a ponto de se engajarem sem necessidade num caminho no qual constatam, pelo bullying de cada recreio, que é árduo e sofrido. As crianças sabem que é doloroso viver com um corpo que a gente estranha – ainda mais se for numa sociedade que não quer entender bulhufas de quem você é
(Calligaris, 2018#46, p. C8).
Com relação ao vetor Subjetividade, a primeira ação que se fez visível foi a oferta de um tipo de análise sobre as vidas dos sujeitos que vivem no presente. Diversas designações eram utilizadas para nomear a subjetividade, tais como inquieta, angustiada e insatisfeita; complacente e fraca; (sempre) atormentada; (raramente) normal. Os argumentos se articulavam, frequentemente, a remissões aos desejos, sonhos, satisfações, insatisfações e confiança das pessoas em dois níveis: o social e o individual.
A própria definição de subjetividade evocava dois vieses, em certa medida, ambivalentes: ora mais geral, com base na relação dos indivíduos com a cultura; ora mais específico, com base na relação destes consigo mesmos. Emergiam, assim, muitas afirmações apoiadas na interpretação sobre o que os sujeitos fazem, desejam e produzem. Assim, a subjetividade era mobilizada para descrever tanto um período cultural, histórico e social, quanto as atitudes e as particularidades de seus sujeitos constitutivos.
A explicação cultural tem algo em comum com a explicação pela subjetividade. Ambas apontam para o espelho [...]. Ora, cultura e subjetividade, nossas explicações contemporâneas preferidas, pretendem explicar pelo que somos [...]. Poderíamos explicar nossos atos pela cultura ou pela subjetividade e mesmo assim querer mudar. Mas não é o que acontece geralmente
(Calligaris, 1999#10, p. E10).
As revoluções do fim do século 18 produzem um homem novo, de quem ainda somos os herdeiros. Esse homem novo é levado a “apreender a ordem do mundo através de sua subjetividade”: ele “se identifica com os personagens do romance psicológico”, “funda a introspeção como meio de conhecimento” e, sobretudo, ele é obrigado a reconhecer que a autoridade não é mais um atributo dos padres, dos nobres ou dos anciões
(Calligaris, 2012#47, p. E12).
Não sou catastrofista e, até aqui, tendia a pensar que as redes sociais são uma extensão da subjetividade moderna. Sem elas ou com elas, de qualquer forma, a imagem do indivíduo moderno é a que aparece na retina dos outros, apreciada (ou não) pelos “likes” da vida. Só que, descubro agora essa banalidade, as redes sociais estão invadindo o último e crucial baluarte da esfera da vida privada, que é o foro íntimo, o lugar interior no qual julgamos questões morais com a nossa cabeça, embora nossa imagem seja sempre pública
(Calligaris, 2017#46, p. C10).
Por fim, no vetor Eu, Contardo agruparam-se os enunciados em que o psicanalista se referia a si mesmo, fosse por meio de comentários sobre experiências vividas, fosse por declarações nominais sobre aquilo que pensava, tornando-se fonte e objeto de suas afirmações. No sequenciamento dos enunciados selecionados, atestou-se o vigor inconteste da autoridade narrativa de Calligaris.
Além de evidenciar aspectos relativos à sua história pessoal, os enunciados agrupados nesse vetor expõem o modo como o discurso performa um sujeito que não cessa de tentar se convencer sobre quem ele supostamente é – suas escolhas, seus desejos, seus medos, suas dúvidas etc. –, demonstrando uma força interiorizante que emana dele e incide nele próprio.
Por ter um irmão mais velho, soube cedo que não eram o Papai Noel e o menino Jesus que traziam presentes. Mas essa descoberta não fez vacilar minha fé no Natal. O abalo veio mais tarde, aos 13 anos, quando, na noite do 24 de dezembro, o pai de Alessandro, meu melhor amigo daqueles tempos, morreu de repente. Meu próprio pai, cardiologista, acorreu para encontrá-lo já morto [...]. Por contraste, os Natais antes dos meus 13 anos aparecem, na lembrança, como momentos de absoluta certeza do amor e da proteção dos adultos
(Calligaris, 2001#51, p. E10).
No sábado passado, no aeroporto de Chicago, esperava o voo que me levaria de volta a São Paulo. Diante de mim, uma longa parede de vidro mostrava, além dos aviões estacionados, um pôr do sol glorioso e dilacerante. Por alguma sabedoria (consciente ou não), meus companheiros de espera estavam quase todos sentados de costas para a janela. Alguns poucos, pela posição de seus assentos, teriam condição de contemplar o pôr do sol, mas não levantavam os olhos de seu notebook
(Calligaris, 2010#01, p. E12).
Quando criança, eu tinha medo do escuro. A porta do quarto (meu e de meu irmão) era de vidro jateado. Meus pais deixavam a luz do corredor ligada até eles irem para cama. Aí, supondo que eu estivesse dormindo, apagavam tudo. Suposição errada: eu ficava acordado, esperando o momento fatídico em que perderia minha luz. Na minha lembrança, aliás, eu não dormia nunca. Enquanto havia luz, ficava esperando que apagassem. Depois disso, era um pavor crescente e insone
(Calligaris, 2017#34, p. C8).
O arquivo Calligaris e seus efeitos presumidos
Como se pretendeu demonstrar até aqui, o processo de montagem do arquivo Calligaris e de sua posterior remontagem oportunizou a emergência de um conjunto movente de posições, estratégias e problemáticas, sendo possível situar três estratégias discursivas nucleares operando ali: a presença do léxico psicanalítico como um a priori autenticador das ideias propagadas; uma leitura das inflexões que emergem no presente de modo correlato aos traços distintivos da subjetividade contemporânea; e, por fim, a assinatura em primeira pessoa de um intérprete chancelando as histórias, as ideias e os desejos do próprio Calligaris.
O intuito principal do estudo, relembramos, foi o de prover um tipo de reflexão crítica acerca da circulação social dos saberes psi e do acento educacionalizante de que ela se imbui, atentando para o fato de que as fronteiras entre os afazeres de um psicanalista fora do enquadramento teórico-prático de seu ofício e os de um educador social revelam-se, afinal, indiscerníveis. Nessa direção, apreensão análoga poderia ser estendida a outros tipos de experiências sociais que se justificam pela suposta edificação pedagógica dos(as) cidadãos(ãs).
A massa discursiva constante da reunião dos escritos jornalísticos de Calligaris dá mostras do exercício – bem-sucedido, sem dúvida – da maquinaria psi operando a céu aberto. As ideias do psicanalista circularam em vários meios culturais, mas é inegável que sua atuação na Folha de S.Paulo foi decisiva quanto à disseminação do ideário psi em larga escala no Brasil. Marcada pelo esforço de comentar os desafios da vida e das relações humanas, a longeva atuação de Calligaris naquele jornal denota sua autoridade intelectual, bem como o reconhecimento e a legitimação de suas ideias, ultrapassando a vulgarização do arsenal discursivo psi e redundando na multiplicação de uma ambiência propriamente educacionalizante.
É assim que os referidos escritos, quando perspectivados em conjunto, evidenciam a condução de um tipo de intervenção social que, além de não se confundir com os ditames teórico-práticos formais da psicanálise, finda por materializar um intento ambíguo – porque não se reconhece como tal – de educar as pessoas, de lhes revelar conhecimentos, de lhes segredar crivos para arbitrar a si e ao mundo. No caso em tela, tal intento era propiciado por um teor psicologizante na abordagem das temáticas eleitas, as quais podiam eventualmente recobrir um sem número de assuntos, questões e circunstâncias.
É fato que Calligaris se revestia de uma aura professoral, já que, como expert da alma, figurava como portador de um saber tão vasto quanto ubíquo, o qual lhe cabia difundir pelos textos-aula que oferecia a cada semana.
Retomando o diálogo com o pensamento foucaultiano, assumimos que, nas coordenadas contemporâneas, a condição de porta-vozes da verdade é delegada amiúde àqueles(as) detentores(as) da rubrica de experts – sobretudo quando oriundos(as) das Humanidades e, em particular, do território psi. A despeito de se valerem de saberes teórico-técnicos pontuais, são, no entanto, alçados(as) à condição de portadores(as) do direito suplementar de discorrer sobre e em nome do mundo, da vida e das pessoas, dando azo, assim, a determinada racionalidade (auto)governante das condutas dos(as) cidadãos(ãs). Soma-se o teor pedagogizante imanente às ações desses(as) operadores(as) da verdade, em termos de uma tutela pastoral à distância, com vistas à promoção de certo estado de conscientização, autossuperação ou redenção das injunções humanas.
Ante tal engenhosidade discursiva, a atitude crítica inspirada em Foucault requer um gesto continuado de suspeição em relação a toda e qualquer investida pontificadora acerca dos negócios humanos. Trata-se, ao contrário, de criar espaços ora de hesitação, ora de refração a tudo aquilo que, não obstante arbitrário e contingente, se arroga o estatuto de essencial, atemporal, peremptório. No gesto crítico residiria, assim, o compromisso inarredável com a liberdade de pensar (Foucault, 2000) e, logo, de habitar o presente sem tutela de nenhuma ordem.
Em nosso entendimento, as colunas de Calligaris na Folha de S.Paulo performavam de modo desassombrado os torneios veridictivos de uma lógica discursiva que dispõe, incita e, afinal, logra governar os modos pelos quais os sujeitos do presente se (auto)constituem.
Nos termos de Edgardo Castro (2009, p. 424), “[...] o sujeito de fato é um sujeito qualificado, construído, nas e pelas instâncias institucionais: as universidades, as escolas, os laboratórios, etc.” – também e sobretudo nos/pelos dispositivos midiáticos hoje, ponderamos. Ora, no arquivo Calligaris avulta a performação de um tipo de subjetivação derivada de ações centradas nos e pelos próprios sujeitos. Mais: impulsionando uma estratégia de governamento que os antepõe ao mundo, tal subjetivação torna este último uma pálida figura de fundo no enredo de vidas acometidas por um investimento incansável sobre e por si mesmas.
Segundo um nexo operativo centrado em uma interioridade psicologizada, porque orientada pela iluminação de aspectos psicológicos supostamente recôncitos dos sujeitos, nos textos-aula de Calligaris os(as) leitores(as) podiam encontrar uma espécie de bússola de exemplaridade racionalizante ante os problemas enfrentados cotidianamente, tendo em vista as formas como o mundo se impõe e, mediante isso, as alternativas decisórias cadenciadas pela batuta psi.
Sustentada por argumentações com raras chances de contestação, a discursividade analisada descreve um diagrama de forças de ordem cognitiva, precisamente. Ou seja, Calligaris ensinava aos(às) leitores(as) um modo próprio de se perceber, de se interrogar, de se autoavaliar e, em última instância, de gerir a própria vida de maneira renovada e, quiçá, mais cônscia de si. Trata-se, em suma, de uma forja social que conclama a irrupção de um sujeito interiorizado que precede e, ao mesmo tempo, sobrepaira o mundo concreto; um sujeito instrumentado por uma ininterrupta hermenêutica de si, esta ancorada na sucumbência, em igual medida, em uma presumida ignorância de si.
Eis que, ao fim e ao cabo, nos deparamos, de um lado, com uma modalidade implacável de governamento subjetivo e, de outro, com uma perturbadora geografia da ação pedagógica: a educacionalização emocional de uma parcela populacional.
Na contramão desse tipo de norte político, subscrevemos o posicionamento de Foucault (2014, p. 342) ao defender que
[...] desde os anos 1960, subjetividade, identidade, individualidade constituem um problema político maior. É perigoso, a meu ver, considerar a identidade e a subjetividade como componentes profundos e naturais, que não seriam determinados por fatores políticos e sociais. Devemos liberar-nos do tipo de subjetividade de que tratam os psicanalistas. Somos prisioneiros de algumas concepções de nós mesmos e de nossa conduta.
A intervenção de um psicanalista em um domínio social alheio à sua prática efetiva-se, como vimos em Calligaris, por meio da dispersão de noções supostamente instrutivas, mas, a rigor, vagas e esotéricas, já que desprovidas de uma significação partilhada entre as pessoas que as consomem. Daí a contingência e, no limite, a superfluidade da ação de um psicanalista-educador, tal como Calligaris vigorosamente o foi.
Referências
-
ANGIOLILLO, Francesca. Contardo Calligaris, autor de 13 livros, cobriu de tudo, de A até quase Z. Folha de S.Paulo, São Paulo, 31 mar. 2021. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/03/contardo-calligaris-autor-de-13-livros-cobriu-de-tudo-de-a-ate-quase-z.shtml?origin=folha# . Acesso em: 28 dez. 2023.
» https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/03/contardo-calligaris-autor-de-13-livros-cobriu-de-tudo-de-a-ate-quase-z.shtml?origin=folha# - AQUINO, Julio Groppa; VAL, Gisela Maria do. Uma ideia de arquivo: contributos para a pesquisa educacional. Pedagogía y Saberes, Bogotá, v. 49, p. 41-53, 2018.
- BALL, Stephen. Aprendizagem ao longo da vida, subjetividade e a sociedade totalmente pedagogizada. Educação, Porto Alegre, n. 36, v. 2, p. 144-155, 2013.
- CALLIGARIS, Contardo. Hello, Brasil! e outros ensaios: psicanálise da estranha civilização brasileira. 3. ed. São Paulo: Fósforo, 2021.
- CANDIOTTO, Cesar. Verdade e diferença no pensamento de Michel Foucault. Kriterion, Belo Horizonte, v. 48, n. 115, p. 203-217, 2007.
- CASTRO, Edgardo. Vocabulário de Foucault. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.
- DEPAEPE, Marc; SMEYERS, Paul. Educacionalização como um processo de modernização em curso. Perspectiva, Florianópolis, v. 34, n. 3, p. 753-768, 2016.
- FOUCAULT, Michel. A função política do intelectual. In: FOUCAULT, Michel. Arte, epistemologia, filosofia e história da medicina. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2011. (Ditos e escritos; v. 7). p. 213-219.
- FOUCAULT, Michel. Foucault estuda a razão de Estado. In: FOUCAULT, Michel. Filosofia, diagnóstico do presente e verdade. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2014. (Ditos e escritos; v. 10). p. 342-346.
- FOUCAULT, Michel. Mesa-redonda em 20 de maio de 1978. In: FOUCAULT, Michel. Estratégia, poder-saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006. (Ditos e escritos; v. 4). p. 328-344.
- FOUCAULT, Michel. O governo de si e dos outros: curso no Collège de France (1982-1983). Tradução Eduardo Brandão. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010.
- FOUCAULT, Michel. O que são as Luzes? In: FOUCAULT, Michel. Arqueologia das ciências e história dos sistemas de pensamento. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000. (Ditos e escritos; v. 2). p. 335-351.
-
GIANESI, Regina Lacorte. Algumas notas sobre a trajetória de Virgínia Leone Bicudo. Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, s.d. Disponível em: https://www.sbpsp.org.br/blog/algumas-notas-sobre-a-trajetoria-de-virginia-leone-bicudo/ . Acesso em: 13 mar. 2023.
» https://www.sbpsp.org.br/blog/algumas-notas-sobre-a-trajetoria-de-virginia-leone-bicudo/ - MARCONDES, Sérgio Ribeiro de Almeida. “Nós os charlatães”: gastão Pereira da Silva e a divulgação da psicanálise em O Malho (1936-1944). 2015. Dissertação (Mestrado em História das Ciências e da Saúde) – Casa de Oswaldo Cruz (Fiocruz), Rio de Janeiro, 2015.
- MOKREJS, Elisabete. A psicanálise no Brasil: as origens do pensamento psicanalítico. Petrópolis: Vozes, 1993.
- NOGUERA-RAMIREZ, Carlos Ernesto. Pedagogia e governamentalidade ou da Modernidade como uma sociedade educativa. Belo Horizonte: Autêntica, 2011.
- ROSE, Nikolas. Governando a alma: a formação do eu privado. In: SILVA, Tomaz Tadeu da (org.). Liberdades reguladas. Petrópolis: Vozes, 1988. p. 30-45.
- RUSSO, Jane A. A difusão da psicanálise no Brasil na primeira metade do século X: da vanguarda modernista à rádio-novela. Estudos em Psicologia, Rio de Janeiro, v. 2, n. 1, p. 51-61, 2002a.
- RUSSO, Jane A. O mundo psi no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002b.
-
TEPERMAN, Maria Helena Indig; KNOPF, Sonia. Virgínia Bicudo: uma história da psicanálise brasileira. Jornal de Psicanálise, São Paulo, v. 44, n. 80, p. 65-77, 2011. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/jp/v44n80/v44n80a06.pdf . Acesso em: 13 mar. 2023.
» http://pepsic.bvsalud.org/pdf/jp/v44n80/v44n80a06.pdf - VAL, Gisela Maria do; AQUINO, Julio Groppa. A ordem do discurso jornalístico sobre educação: uma análise das matérias da Folha de S.Paulo de 1996 a 2006. Educação em Revista, Belo Horizonte, v. 29, n. 1, p. 93-120, 2013.
-
1
Disponibilidade de dados: Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi disponibilizado no ScieloData e pode ser acessado em https://doi.org/10.48331/SCIELODATA.IIDEI3
-
2
O termo psi é aqui empregado como designação comum dos discursos conexos ao universo subjetivo. Abarca, indistintamente, a psicologia, a psiquiatria e a psicanálise, incluindo seus subcampos e suas múltiplas abordagens.
-
3
Doravante, as citações relativas ao âmbito empírico do estudo seguirão um padrão de referenciação específico: após o sobrenome do autor, apresenta-se o ano seguido por uma cerquilha (#) e, então, o número do jornal naquele ano. Por fim, após a vírgula, são apresentadas a letra que designa o Caderno e a página de onde aquele excerto foi subtraído.
Editado por
-
Editora responsável:
Profa. Dra. Ana Luisa Paz
Disponibilidade de dados: Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi disponibilizado no ScieloData e pode ser acessado em https://doi.org/10.48331/SCIELODATA.IIDEI3
