Open-access Entre o pasmo e a poeira: o arquivo na pesquisa educacional*

Propõe-se, neste artigo, elaborar uma reflexão sobre a noção de arquivo na obra de Michel Foucault, destacando dois movimentos complementares em sua formulação conceitual. De um lado, o arquivo aparece como monumento, fruto de um gesto arqueológico que desestabiliza a linearidade da história e interroga os regimes de saber a partir das condições de emergência dos discursos. Nesse sentido, privilegiam-se a descontinuidade, a raridade e a materialidade do dito, elementos que desafiam narrativas totalizantes e promovem uma escuta sensível às forças que atravessam e sustentam os saberes. De outro lado, enfatiza-se a dimensão poética do arquivo, compreendida como uma operação investigativa movida pelo pasmo, pela curiosidade e pela abertura ao acaso, efeito da poeira do tempo e daquilo que se encontra nas frestas dos documentos. Essa perspectiva sugere uma atitude de escuta atenta aos desvios, aos vestígios, ao que escapa, resiste e insiste em permanecer. Por fim, esboça-se a ideia de “bisbilhotagem”, conforme evocada por Foucault, como um possível gesto metodológico para a pesquisa em educação, especialmente diante da recorrência de perguntas e respostas prontas e da urgência em interrogar os modos pelos quais se produzem, legitimam e fazem circular os conhecimentos. Trata-se, talvez, menos de uma conclusão do que de uma aposta ainda em elaboração: deixar-se pasmar pela poeira dos arquivos e por seus vestígios de vidas, traços do tempo e espaços de suspensão, como uma maneira de criar brechas na lógica apressada do presente.

Palavras-chave:
Arquivo - Michel Foucault - Pesquisa educacional - Poética.

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