Open-access Suicídios em uma universidade pública brasileira: análise documental de ocorrências entre 1990 e 20231,2

Resumo

Trata-se de um estudo que objetiva analisar as mortes por suicídio em uma universidade pública do estado do Rio de Janeiro, Brasil, no período de 1990 a 2023. Foi empreendida análise documental de 32 ocorrências de suicídio na universidade. Como resultados, o estudo apresenta duas categorias principais: Números que falam de tempo e de dor: o retrato do suicídio no contexto universitário, que demonstra que o suicídio não pode ser compreendido apenas como número, mas como expressão de uma trama de dores que se manifestam no contexto educacional de forma recorrente ao longo do tempo; e Dor que fala de pessoas: a singularidade do sofrimento estudantil, que evidencia ocorrências com características semelhantes, sendo a maioria de pessoas vinculadas à universidade, composta por homens, especialmente jovens entre 20 e 25 anos, com predomínio nos cursos de humanas. A aproximação teórica com Frantz Fanon e Émile Durkheim possibilitou o deslocamento da ideia de suicídio como fenômeno exclusivo da vulnerabilidade individual para uma compreensão como fenômeno sociogênico e como um Fato social, segundo o efeito das estruturas sociais, econômicas e culturais que moldam a vida estudantil. O estudo ainda problematiza as limitações dos modelos campanhistas de Janeiro Branco e Setembro Amarelo adotados no Brasil, que tendem a individualizar o sofrimento social. O suicídio no ambiente universitário expressa indicadores graves de saúde mental e reforça a necessidade de que o sofrimento estudantil não seja invisibilizado, mas que a universidade se constitua como espaço de cuidado, solidariedade e inclusão de estratégias coletivas de enfrentamento.

Palavras-chave:
Suicídio; Universidade; Saúde mental; Educação

Abstract

This study aims to analyze suicide deaths in a public university in the state of Rio de Janeiro, Brazil, from 1990 to 2023. It conducted documentary analysis of 32 suicide occurrences in the university. As a result, the study presents two main categories: Numbers that speak of time and pain: the portrayal of suicide in university settings, which demonstrates that suicide cannot be understood solely as a number, but as an expression of a web of pains that manifest in the educational context recurrently over time; and Pain that speaks of people: the singularity of student distress, which shows occurrences with similar characteristics, with the majority of people being associated with the university, consisting of men, especially young ones aged 20 to 25 years, predominantly in Humanities programs. The theoretical approach based on Frantz Fanon and Émile Durkheim enabled a shift from the idea of suicide as a phenomenon exclusively related to individual vulnerability to an understanding of suicide as a sociogenic phenomenon and as a social fact, according to the effect of social, economic, and cultural structures that inform student life. The study also problematizes the limitations of the “Janeiro Branco” (White January) and “Setembro Amarelo” (Yellow September) campaign-based models adopted in Brazil, which tend to individualize social distress. Suicide in university settings expresses serious mental health indicators and reinforces the need for student distress no longer being made invisible and for universities to constitute spaces of care, solidarity, and inclusion of collective coping strategies.

Keywords:
Suicide; University; Mental health; Education

Introdução

O suicídio no ambiente universitário impõe ao campo da educação desafios urgentes, entre eles o de reconhecer que a educação não é apenas um direito fundamental, mas também parte da determinação social de saúde. Isso significa compreendê-la de forma ampliada como um determinante estrutural das condições de vida, com repercussões diretas sobre a saúde das pessoas. Assim, entender a universidade como parte constitutiva do direito à educação - e, portanto, do direito à saúde também - permite reconhecer esses direitos como dimensões indissociáveis (Brasil, 2017).

No campo dos direitos, pessoas que frequentam uma universidade pública no Brasil fazem parte de uma pequena parcela, visto que os índices de desigualdades sociais no país são alarmantes. Estima-se que 9,9 milhões de pessoas cursam o nível superior no Brasil. Esse dado demonstra que a grande parte da sociedade brasileira não tem seu direito à educação garantido (Brasil, 2024). Das pessoas que conseguem acessar uma universidade, 11,4% estudam em universidades públicas, e 88,6%, em instituições privadas. Mesmo que uma parcela, ainda que pequena, consiga adentrar a universidade pública, sabe-se que há grandes barreiras tanto no acesso quanto na permanência dos estudantes, o que faz desse percurso universitário muitas vezes produtor de sofrimentos (Brasil, 2024).

Ademais, é importante destacar que o ensino público superior vem sofrendo muitos desgastes e desmontes, fazendo com que todo o sistema seja comprometido. Com a precarização do trabalho de professores e trabalhadores desse campo, toda a comunidade sente de algum modo esses efeitos, fragilizando não apenas o ensino, mas também o convívio nos ambientes universitários (Silva; Oliveira; Pinho, 2024).

Como dito, considerando que a universidade e o ensino superior constituem um direito fundamental e integram o território existencial das pessoas, não há como negar que todos os atravessamentos políticos que a universidade enfrenta - tanto em escala macroestrutural quanto em seu contexto interno - reforçam que ela não é uma ilha isolada da sociedade, e que esses atravessamentos e outros, advindos do modo de viver capitalista, incidem sobre os corpos e invariavelmente podem se expressar em forma de sofrimento psíquico no espaço acadêmico (Araújo; Macedo, 2022).

Assim, este estudo se pauta no conceito de sociogênese, do martinicano Frantz Fanon (2020), para romper com a ideia de que o sofrimento psíquico seria intrínseco e restrito ao funcionamento biológico dos indivíduos. Ao contrário, Fanon nos leva a compreender o sofrimento como uma trama coletiva, atravessada por dimensões sociais, econômicas e políticas. No contexto educacional, essa leitura permite considerar que o sofrimento não se limita à experiência individual do estudante, como se fosse causa e efeito de si mesmo; ele também se relaciona a determinantes presentes na universidade e na vida em sociedade. Por isso, trata-se de um fenômeno complexo, que exige integração entre saúde, educação, cultura, lazer e outras dimensões políticas da vida.

Outra referência que nos ajuda ampliar esse debate é o sociólogo francês Émile Durkheim (2024), um estudioso do tema do suicídio que indica uma ampliação da concepção da natureza desse tipo de sofrimento, inferindo que o tema não deve ser explicado apenas pela perspectiva psicológica, mas deve ser compreendido como Fato social, ou seja, como fenômeno coletivo, por mais que pareça da ordem individual.

Logo, pensar o tema do suicídio seria pensar em um tema coletivo, partindo do pressuposto de que a universidade é um ambiente de convivência e formação, integrada à cidade e à sociedade. Dessa forma, a educação se constrói por meio das relações, e o espaço universitário tem o potencial de ser tanto produtor de vida quanto de sofrimento. Este estudo, portanto, considera que os casos de suicídio nesse contexto devem ser interpretados como um alerta sobre possíveis falhas no projeto educacional. Se o propósito fundamental da educação é humanizar e expandir as existências, promovendo os processos de vida, tais tragédias representam uma contradição direta (Leão; Ianni; Goto, 2019).

Cabe dizer que, no Brasil, o suicídio tem sido atrelado a uma questão de saúde pública desde os anos 2000, quando o Ministério da Saúde (MS) inicia uma agenda política que vincula o suicídio e o campo da saúde à ideia de epidemiologia e de prevenção (Gonçalves, 2022). Mas, quando eventos de suicídio ocorrem em espaços de formação, somos provocados a repensar a prática educacional e a problematizar os atravessamentos que possam contribuir para desencadear sofrimentos e que impedem a universidade de cumprir plenamente seu papel formador.

Nosso debate se localiza na análise de dados oriunda da realidade e do contexto educacional de uma universidade pública do estado do Rio de Janeiro que concentra uma expressiva marca de sofrimentos, revelando a realidade concreta dos estudantes e do cotidiano educacional. Diante disso, devemos perguntar: qual é a responsabilidade do Estado, dos governos, dos professores, trabalhadores, alunos, da administração da universidade, da saúde e da sociedade como um todo sobre os casos de suicídio no ambiente acadêmico?

Além disso, é necessário refletir se a própria estrutura educacional não estaria contribuindo para que a universidade, em vez de se configurar como um espaço de acolhimento e aprendizado, acabasse se tornando um ambiente de opressão, sofrimento e morte. O estudo de Turner, Leno e Keller (2013) evidencia que o suicídio constitui a principal causa de morte entre universitários e ressalta que, embora existam numerosos dados epidemiológicos sobre a mortalidade por suicídio na população em geral, ainda persiste uma lacuna significativa no conhecimento quando se trata do contexto acadêmico. Na mesma direção, Rios (2019) destaca que essa invisibilidade do tema pode se dar pela percepção do suicídio como um tabu social, o que por sua vez dificulta a circulação de informações no cenário universitário.

Tal constatação evidencia as limitações da educação superior em abordar o tema do suicídio na comunidade, que, em vez de conferir visibilidade ao problema, frequentemente o encobre por meio de pactos coletivos de silêncio. Entretanto, em direção oposta, a Organização Mundial da Saúde (World Health Organization) (WHO, 2021a) ressalta que somente ao trazer à luz as situações de suicídio é possível construir estratégias singulares que subsidiem processos de tomada de decisão e favoreçam a identificação de pessoas em situação de intensa vulnerabilidade.

Para o empenho reflexivo e analítico sobre o fenômeno do suicídio em espaços educacionais, este estudo buscou analisar os casos de morte ocorridos em uma universidade pública do Rio de Janeiro, Brasil, no período de 1990 a 2023.

Métodos

Estudo é qualitativo, descritivo e retrospectivo, ligado ao Programa de Incentivo à Produção Científica, Técnica e Artística (Prociência) de uma universidade pública do estado do Rio de Janeiro. O interesse pelo tema emerge da experiência dos autores como educadores e como mobilizadores da construção da Política de Saúde Mental da universidade.

A universidade em tela é uma das maiores e mais prestigiadas do país e da América Latina, tem 20 campi e unidades externas. Na soma de todos os campi, a universidade conta com um total de 106 cursos de graduação, 67 cursos de mestrado, 46 cursos de doutorado, 3.332 professores, 5.616 servidores, 32.746 mil alunos e 5 unidades de saúde. Para fins de compreensão territorial, os campi estão localizados na Região Metropolitana de Saúde I e na área programática 2.2, da cidade do Rio de Janeiro. Os campi também são utilizados para a circulação da comunidade externa que faz a travessia para acessar outros espaços da cidade e o transporte público. São cerca de 20 mil pessoas por dia e 7 milhões por ano circulando pela universidade.

A coleta de dados ocorreu entre dezembro de 2023 e junho de 2024 e deu-se após a autorização da prefeitura dos campi e aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa, com Certificado de Apresentação de Apreciação Ética (CAAE) n. 71229123.3.0000.5282 e parecer n. 6.295.072, em cumprimento aos princípios éticos dispostos nas Resoluções n. 466, de 12 dezembro de 2012, e n. 510, de 7 de abril de 2016, do Conselho Nacional de Saúde (Brasil, 2013, 2016).

A coleta foi realizada por meio de um levantamento documental de 127 registros do período de abril de 1990 a dezembro de 2023 feitos no livro de ocorrências da Divisão de Segurança do Campus (DISEG-CAMPUS). Esses registros foram escolhidos por terem sido feitos pelos trabalhadores que primeiro identificam as situações relacionadas à saúde mental (de estudantes ou não) na universidade e os únicos que documentam os detalhes de tais fatos. O recorte temporal se deu pela disponibilidade dos registros, não sendo localizadas ocorrências anteriores a 1990. A análise documental é classificada como uma técnica que investiga fontes primárias e documentais, que, nas palavras de Cellard (2012), referem-se a todo vestígio do passado, que serve como prova.

Assim, para a adequada compreensão do tema, o estudo seguiu um roteiro para avaliação dos documentos conforme os tipos de situações relacionadas à saúde mental, que foram divididas em suicídio consumado, riscos de suicídio (ideação, planejamento e tentativas) e crises em saúde mental, conforme fluxo a seguir: leitura sistemática do livro de ocorrências; identificação das ocorrências ligadas a questões de saúde mental; categorização dos tipos de ocorrências; leitura sistemática das ocorrências e elaboração de gráficos.

Após a classificação das ocorrências, todos os dados configurados como suicídio consumado foram separados e, então, as variáveis da pesquisa foram registradas em uma planilha de Excel®. Desse modo, foram separados e registrados os dados de todos os suicídios ocorridos na universidade. Os dados coletados foram processados individualmente, as informações oriundas da leitura sistemática de cada ocorrência foram colocadas em sequência numérica na planilha. Após elaboração da planilha, os dados foram transformados em gráficos para melhor visualização dos achados e construção do perfil das situações de suicídio que se apresentam na universidade.

O estudo apresenta algumas limitações, principalmente em função da baixa sistematização dos registros realizados pela equipe de segurança e da ausência de informações completas sobre as tentativas de suicídio, como a idade e raça, devido à não localização dos documentos das pessoas envolvidas. Dessa forma, todos os registros de suicídio foram incluídos na análise, ainda que alguns indicadores dessa categoria não estivessem devidamente preenchidos nos relatórios.

Resultados

O estudo apresenta como resultados a descrição dos casos de suicídio ocorridos no ambiente universitário do Rio de Janeiro, Brasil, entre 1990 e 2023, analisados a partir das seguintes variáveis: evolução temporal das ocorrências e características singulares associadas ao contexto acadêmico.

Quanto à evolução temporal dos casos de suicídio consumado no ambiente universitário, constatou-se que no período em estudo (1990 a 2023) houve 32 ocorrências. Os anos de 2007, 2008, 2013, 2018 e 2022 foram os de maior incremento, com três óbitos cada. A análise da trajetória temporal das taxas de suicídio apresenta certo padrão de frequência que varia de um a três óbitos por ano. Destaca-se o padrão de um óbito por sete anos consecutivos, entre 1992 e 2002, e com tendência crescente a partir de 2007. Destaca-se também que a totalidade das mortes foi por precipitação de andares altos da universidade.

A evolução temporal dos casos de mortes por suicídio na universidade revela que os expressivos números, em mais de três décadas, podem se traduzir em processos de sofrimento que atravessam o tempo e as gerações, demonstrando a vulnerabilidade coletiva e institucional da educação e a relação simbólica do suicídio com o espaço acadêmico, sendo a universidade não só cenário das mortes como local de profunda experiência de sofrimento ao longo do tempo.

Os dias com maiores incrementos de suicídios na universidade registrados pelos seguranças foram quinta-feira (N = 11) e terça-feira (N = 7). O domingo foi incluído devido ao fato de a universidade ser local de realização de concursos e provas diversas. Sobre os horários das ocorrências, o estudo evidencia que o período da manhã (N = 16) foi o mais escolhido pelas pessoas para o suicídio, seguido da tarde (N = 11) e noite (N = 5). Os dados apontam que durante todo horário de funcionamento dos campi ocorrem situações relacionadas ao suicídio.

Quanto aos meses do ano, o estudo permitiu observar que o maior incremento de suicídios na universidade ocorreram em março (N = 4), abril (N = 4) e setembro (N = 4). Em segundo lugar, os meses de junho (N = 3), agosto (N = 3) e outubro (N = 3). Os demais meses apresentaram uma média de duas ocorrências cada. O mês de janeiro foi o de menor ocorrência, acredita-se que em decorrência das férias universitárias. Ao avaliar a carga de suicídios mensal, observa-se que em todos os meses do ano a universidade apresentou ocorrências, demonstrando certa tendência temporal.

Os resultados reforçam a ideia de que o suicídio nesse ambiente educacional não é um fenômeno casual e não deve ser interpretado apenas como decisão das pessoas. Nota-se um ritmo de frequência que pode estar ligado às dinâmicas institucionais, que concorrem com maior carga de atividades, avaliações e prazos acadêmicos. Os dados mostram ainda que o suicídio é um problema com presença cotidiana, ou seja, ocorre em todos os horários, dias e meses do ano, em maior ou menor frequência.

No que se refere às características singulares associadas ao contexto acadêmico, os registros mostram que a maioria das pessoas que põe fim à própria vida na universidade são parte da própria comunidade acadêmica (N = 19). O curso com maior frequência de ocorrência foi Letras (N = 3). A análise descritiva dos dados registrados demonstrou predomínio de cursos de humanas, como Filosofia (N = 1), Geografia (N = 1), Idiomas (N = 2), Letras (N = 3), Ciências Humanas (N = 1), Artes (N = 1), Serviço Social (N = 1) e Direito (N = 1).

A frequência de casos de suicídio na comunidade acadêmica reforça a profunda relação entre o sofrimento e o cotidiano da vida universitária, o que retrata não uma mera coincidência numérica, mas a expressão de vivências subjetivas e coletivas de sofrimento que se estruturam na universidade.

No que tange à idade das pessoas, foi possível constatar que o grupo com idade entre 20 e 25 anos teve maior ocorrência (N = 7), seguido do grupo com idade maior que 46 anos (N = 4). Ao analisar as taxas de suicídio de ocorrências em que a idade foi registrada, portanto, observa-se um aumento do risco de suicídio entre pessoas de 20 a 25 anos e com mais de 46 anos.

Sobre a predominância de suicídios relacionados ao gênero das pessoas, o estudo mostra que a maioria das pessoas que se suicidam na universidade são homens. Ao todo, foram dezenove homens e doze mulheres. Em uma ocorrência não foi identificado o gênero da pessoa.

Os dados sugerem que o suicídio na universidade atinge diferentes grupos etários, mas há predominância em jovens adultos. Eles também revelam que a questão de gênero é um importante analisador do sofrimento psíquico nos espaços da universidade e nos modos de pôr fim à vida, representado pelo maior incremento de mortes de homens.

Neste estudo foi evidenciada a evolução temporal das ocorrências de suicídio e as características singulares associadas ao contexto acadêmico de uma universidade pública do Rio de Janeiro. Desses dados, emergiram duas categorias principais: Números que falam de tempo e de dor: o retrato do suicídio no contexto universitário e Dor que fala de pessoas: a singularidade do sofrimento estudantil.

Discussão

Números que falam de tempo e de dor: o retrato do suicídio no contexto universitário

As evidências levantadas por este estudo abarcam as mortes por suicídio no período de 1990 a 2023 e revelam um padrão de frequência que varia entre um a três casos por ano, com tendência de crescimento nos últimos dezesseis anos. Observou-se ainda que nesse recorte temporal os suicídios ocorreram em todos os dias da semana, em todos os meses do ano e em todos os períodos do dia, embora com frequências distintas.

Os dados sobre suicídios ocorridos na universidade se relacionam com os indicadores de suicídio mais amplos. O Brasil é o oitavo país no mundo em número absoluto de casos (WHO, 2017). Apesar do decréscimo mundial no número de suicídios evidenciado de 2000 a 2019, na região da América do Sul houve um aumento de 17%, e o Brasil é um dos países com maior incremento (WHO, 2021b). Especificamente no estado do Rio de Janeiro, é possível notar que nos últimos dez anos as mortes aumentaram em 40%, crescimento que desde 2014 tem sido gradativo. No que tange às regiões do estado, no biênio 2018-2019 a chamada Metropolitana I, que compreende a cidade do Rio de Janeiro, correspondeu ao maior número de suicídios; se forem somados todos os casos das outras regiões do estado do Rio de Janeiro, não alcançamos o número de suicídios da região Metropolitana I (Rio de Janeiro, 2018).

Esse dado indica que os suicídios na universidade não estão desvinculados do panorama nacional, estadual, regional e local em termos de prevalência. Contudo, o suicídio apresenta uma especificidade na comunidade acadêmica, como destacado por Kaggwa et al. (2022) e Turner, Leno e Keller (2013), que o apontam como uma das principais causas de morte entre estudantes universitários, precedido apenas por lesões acidentais.

Dessa forma, os números trazidos por esta pesquisa falam de tempo e de dor, ou seja, os elevados índices em ambiente universitário refletem que as experiências de sofrimento se estendem ao longo do tempo e que não podem ser silenciadas ou negligenciadas, como se isso não fosse um problema da educação. Esse fato se explica pela escassez de registros na universidade em estudo: apenas os seguranças registraram os suicídios em livros de ocorrências, o que denota uma total invisibilidade desses indicadores que aqui estão sendo analisados.

Os resultados mostram que foram mais de três décadas de expressão de certa fragilidade coletiva e institucional do sistema educacional. Tal representação numérica, longe de ser a representação de todos os espaços educacionais, pode revelar certa dimensão simbólica do apagamento da vivência de sofrimento psíquico na universidade. Logo, o padrão de ocorrência demonstra que os episódios permanecem regulares, sugerindo uma tendência de estabilidade da incidência ao longo do tempo, ou seja, o suicídio está presente nos espaços educacionais. Esse fato chama a atenção para a necessidade de que as estratégias de cuidado voltadas à comunidade sejam práticas contínuas, uma vez que ações pontuais, como campanhas concentradas apenas nos meses de janeiro e setembro (Janeiro Branco e Setembro Amarelo, respectivamente) talvez não consigam abarcar a complexidade e a multiplicidade de fatores envolvidos no tema (Lôbo et al., 2024).

Tais iniciativas, no entanto, não vêm acompanhadas de um debate profundo. É crucial salientar um paradoxo: paralelamente a essas ações locais, observa-se uma lógica crescente de medicalização do sofrimento psíquico pelo campo da saúde. Essa perspectiva tende a reduzir as complexidades da vida e da saúde mental a meros transtornos psiquiátricos, conferindo ao tema um caráter estritamente patológico e individual (Albuquerque, 2021).

Os problemas inerentes a essa visão são múltiplos: ela reforça estigmas, banaliza diagnósticos e individualiza a dor. Dessa forma, buscam-se soluções individualizadas e localizadas para um mal-estar que é, em sua essência, coletivo. O foco nas soluções individuais acaba por ocultar as raízes estruturais do problema, deixando de lado o debate necessário sobre as formas precárias de vida impostas pela lógica neoliberal do capitalismo, que frequentemente estão na gênese desse sofrimento nas universidades (Albuquerque, 2021).

É importante destacar que a percepção do suicídio como um tabu social, que limita a divulgação de informações e o debate sobre o tema, incide diretamente sobre o problema dos óbitos no cenário universitário (Rios, 2019). Trata-se de um efeito significativo, pois, diante do silêncio da comunidade acadêmica, há uma redução no poder de ação e na formulação de propostas tanto pedagógicas quanto de cuidado. Dessa forma, perpetua-se o pacto de silêncio coletivo no âmbito universitário.

Destarte, o suicídio no ambiente universitário, quando conhecida a recorrência e linearidade dos eventos ao longo dos anos, pode ser um importante indicador de saúde da população acadêmica. Por isso, conhecer o fenômeno é fundamental para a definição de prioridades, a elaboração de estratégias e de políticas direcionadas ao enfrentamento do problema na universidade.

Se é inegável que o suicídio é o problema coletivo e social relevante no campo da educação, então impõe-se, como oposição à individualização do problema do suicídio na universidade, a presença de referências que façam o caminho inverso ao da culpabilização das pessoas pelos seus atos e vontades, como são feitas pela psiquiatria tradicional e campanhista. Destacamos duas referências importantes para essa discussão: o psiquiatra e filósofo anticolonial Frantz Fanon, e Émile Durkheim, sociólogo francês considerado um dos importantes pensadores sobre o suicídio como fenômeno social.

Fanon, por meio das obras Pele negra, máscaras brancas (2008), Os condenados da Terra (1963) e Alienação e liberdade: escritos psiquiátricos (2020), aborda a opressão estrutural e colonial que molda profundamente as subjetividades humanas. O autor, por meio do conceito de sociogênese do sofrimento psíquico, nos ajuda refletir sobre o fenômeno do suicídio em espaços universitários a partir das condições sociais, políticas e econômicas que incidem sobre os corpos (Fanon, 1963). Nesse caso, o suicídio seria um efeito social, sistêmico, e não apenas clínico, psiquiátrico, isto é, um sintoma das condições opressoras que se somam às pressões por produtividades inerentes ao sistema capitalista, tão bem aderido pelo sistema educacional.

Esse pensamento amplia a dimensão coletiva do cuidado em saúde mental, uma vez que, quando a universidade é o cenário escolhido pelas pessoas para pôr fim à vida, como reportado neste estudo, toda a comunidade recebe a responsabilidade de ser rede de solidariedade e de cuidado coletivo. Isso inverte a ordem da desvalorização da identidade e da alienação sobre o que se sente (vontade de morrer) para um profundo comprometimento social com o bem viver. Na visão de Fanon (2020), o sofrimento psíquico reflete a dor social mais ampla, e o autor aponta saídas coletivas que reconheçam que o problema é de todos e todas.

Martins et al. (2025) nos advertem que o cenário de suicídio na universidade é resultado do avanço neoliberal, que ataca o sistema público para convertê-lo em mercadoria, privilegiando o lucro capitalista em detrimento do direito à educação. Essa afirmação dialoga com Fanon (2020) ao discutir sobre os efeitos do colonialismo e do capitalismo sobre as existências.

Na mesma direção, Émile Durkheim (2024) atenta para o fato de que o comportamento do indivíduo muitas vezes reflete os padrões coletivos. O autor introduz o conceito de Fato social, ou seja, todas as normas, os valores e as demandas sociais que exercem de algum modo pressão sobre as pessoas. A mudança nesses padrões normativos pode aumentar ou reduzir a incidência de suicídios.

Ao refletirmos sobre o suicídio no campo da educação, é possível identificar as pressões apontadas por Durkheim também no contexto universitário. O estudo de Mota, Pimentel e Mota (2023) destaca que tais pressões podem se manifestar de diferentes formas, como na sobrecarga de trabalhos e provas, nas cobranças excessivas do corpo docente, nas tensões nas relações entre os estudantes, nas preocupações com a inserção no mercado de trabalho e até mesmo na autocobrança.

Sendo assim, cada pessoa inserida no espaço universitário tem histórias, saberes e vivências completamente diferentes, e quando finalmente tais histórias conseguem transitar por esses espaços, é sentida uma intensa pressão para que as notas sejam boas, não haja reprovações nem faltas e que a vida fora da faculdade não afete o desempenho, como se a vida fosse um eterno checklist com o intuito de corresponder a todas as exigências que são impostas. O resultado, porém, pode acabar em intenso sofrimento.

Longe de pretender trazer respostas e digressões simples sobre o fenômeno, que é complexo por natureza, este estudo ensaia uma reflexão sobre números que falam de tempo e de dor, como retratos reconstruídos do sofrimento invisível e presente de forma permanente no contexto universitário.

Dor que fala de pessoas: a singularidade do sofrimento estudantil

Na seção anterior, os números expressaram de algum modo as dores sentidas e vivenciadas nos espaços da universidade ao longo do tempo e que tiveram como desfecho o suicídio. Mas essas dores retratam pessoas e suas vinculações com a universidade, o que torna o tema específico, singular e coletivo ao mesmo tempo.

O estudo nos revela que, em relação à vinculação das pessoas com a universidade, mais da metade era da própria comunidade acadêmica (N = 19). No que tange especificamente ao tema do suicídio de universitários, a produção cientifica é ainda incipiente, centrando-se em estudos de prevalência do comportamento e ideação suicida (Rosario-Williams; Kaur; Miranda, 2021). Essa lacuna justifica a realização de estudos visando maior conhecimento sobre o suicídio entre esse público.

Os dados também deram pistas das relações entre os cursos e a recorrência de suicídios. Os cursos com maior frequência de ocorrência foram os de humanas, como Letras, Filosofia, Geografia, Idiomas, Ciências Humanas, Artes, Serviço Social e Direito. Nessa direção, o estudo de Pereira e Cardoso (2015) sugere que o sofrimento psíquico é mais prevalente em estudantes de áreas relacionadas ao ser humano. O estudo de Piva (2025) coaduna os achados ao apontar a situação dramática vivida na Universidade de São Paulo (USP), em que revela a ocorrência de vários casos de suicídio, particularmente nas unidades de humanas, como na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH).

Quanto à idade das pessoas, o perfil predominante de ocorrências foi de jovens, da faixa etária compreendida entre 20 e 25 anos, seguido do grupo com mais de 46 anos, dados que se assemelham aos da literatura científica nacional e mundial. Os estudos retratam dois grupos etários predominantes: os jovens e os idosos. O suicídio em jovens tem especial interesse quando o assunto é o suicídio na universidade, já que é nessa fase da vida que acontece a inserção em nível superior, ou seja, é a fase em que os indivíduos estão fazendo escolhas e definindo projetos de vida (OPS, 2021).

Em seus estudos, a psicanalista Leitão (2017) menciona que a preparação para a vida adulta pode exacerbar certos sentimentos e provocar desorganização psíquica. A autora esclarece que frequentemente as condições psíquicas são agravadas pela solidão, pela ausência de rede de apoio forte e advindas da construção de vínculos frágeis e superficiais. A busca por sentido na vida, somada a uma cultura que estimula a performance e competição, também são agravantes. Esses fatores não apenas ameaçam a saúde psicossocial, mas também expõem o jovem a diversos desafios, podendo levá-lo à vontade de morrer.

Sobre a questão de gênero das pessoas, os dados desta pesquisa assemelham-se também a um estudo ecológico sobre as notificações, internações e mortalidade por suicídio entre 2011 e 2022, em que se mostrou que o suicídio entre os homens foi quase quatro vezes mais frequente do que entre as mulheres em 2022, e que as taxas de suicídio mais altas ocorreram na faixa etária acima de 25 anos (Alves et al., 2022).

Baére e Zanello (2020) nos esclarecem que a elevada taxa de suicídio entre homens é um sintoma grave de como o machismo também os adoece. O modelo patriarcal de masculinidade, que exige força constante e rejeita a vulnerabilidade, cria uma armadura emocional que sufoca e isola.

Esse dado do suicídio entre os homens na universidade evidencia a urgência de discutirmos as questões de gênero. É preciso analisar o problema à luz de estudos que nos ajudem a desafiar as estruturas sociais vigentes, centradas em uma figura masculina normativa. A normatividade desse sistema patriarcal, branco, esteticamente padronizado, heterossexual e elitizado impõe à sociedade um machismo que oprime as mulheres e, simultaneamente, aprisiona os homens à ideia de uma força inquebrável (Butler, 2015). Nesse processo, atributos humanos fundamentais, como a sensibilidade, são desvalorizados e rotulados pejorativamente como coisa de mulher. Dessa forma, nega-se às mulheres a sua força, e aos homens, a sua vulnerabilidade, desumanizando ambas as experiências.

No contexto acadêmico, essa expectativa social de que homens demonstrem menos vulnerabilidade - mesmo em meio a um sofrimento psíquico significativo - tem consequências fatais. Ao inibir a busca por ajuda, a cultura machista contribui diretamente para que os estudantes homens recorram mais ao suicídio do que as mulheres. Em contrapartida, a maior propensão de mulheres manifestarem sofrimento e demandarem apoio, frequentemente estereotipada como reclamação, pode ser reinterpretada como uma expertise desenvolvida em estratégias de preservação da vida.

Tais coeficientes de mortalidade por suicídio entre os homens comparados aos das mulheres é um fato bem documentado em estudos gerais desenvolvidos no Brasil (Alves et al., 2024; Brasil, 2021; Dantas et al., 2023; Rio de Janeiro, 2023) e no mundo (Marconi et al, 2023; OPS, 2021). Essa diferença entre gênero é geralmente atribuída ao uso de meios de tentativa de suicídio mais letais (como a precipitação), a maior agressividade e maior intenção de morrer entre homens, relação intrínseca com a construção machista na expressão de sofrimento.

As evidências deste estudo se relacionam com os resultados de uma pesquisa desenvolvida no Japão que tinha como objetivo identificar tendências e fatores associados à mortalidade e motivos suicidas entre estudantes no período de 2007 a 2022. O estudo revelou que o número de suicídios de estudantes homens foi bem maior (5.179) do que de estudantes mulheres (1.880). Isso mostra que os suicídios entre universitários seguem o padrão geral de mortes relacionadas ao gênero (Okada et al., 2023).

Com essas evidências, os dados da pesquisa colocam a universidade na centralidade de um objetivo que também é global, o de reduzir o número de mortes por suicídio, tendo como meta atender aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (ODS da ONU) e à Ação Abrangente de Saúde Mental da OMS Plano 2013-2030 (OPS, 2021).

Como aponta o Suicide Worldwide in 2019: global health estimates (WHO, 2021a), o registro e o monitoramento regular das situações de suicídio são meios eficazes de compreender o escopo do problema e criar estratégias singulares e locais que subsidiem a tomada de decisão, sobretudo na identificação de grupos específicos em risco de suicídio, tais como os relacionados ao gênero, à idade, aos cursos e aos meios de pôr fim à vida.

Desse modo, a compreensão do fenômeno do suicídio em ambiente universitário deve ser direcionada muito mais às pessoas e suas relações com a universidade do que à associação direta a transtornos mentais ou a certa desregulação biológica do corpo que sofre. Quando o objetivo é entender o contexto de pessoas, passamos a incluir nessa compreensão as profundas determinações sociais e históricas que estão na base do sofrimento humano, como nos ensina Fanon e Durkheim.

Considerações finais

Este estudo teve como objetivo analisar os casos de morte ocorridos em uma universidade pública do Rio de Janeiro, Brasil, no período de 1990 a 2023. Os resultados evidenciaram que o suicídio em ambiente universitário não pode ser compreendido como um número e um fato isolado, circunscrito à pessoa de forma individualizada, mas, sim, como expressão de uma trama de dores e de sofrimentos que relacionam dinâmicas sociais complexas e institucionais especificas do contexto educacional ao longo do tempo, sendo um problema que a educação precisa cuidar e não mais invisibilizar. Assim, a recorrência e a linearidade dos suicídios em uma dada universidade dão pistas de que o campo da educação não deve ser pensado apenas como espaço de formação, mas também um cenário de experiências psíquicas profundas, que exigem solidariedade, afeto e cuidado coletivo.

Ademais, os dados nos levaram a refletir que as dores vividas ao longo do tempo na universidade pesquisada culminaram na morte de pessoas. Pessoas com características semelhantes, em sua maioria vinculadas à universidade, homens, especialmente jovens entre 20 e 25 anos. Os dados revelaram que as mortes por suicídio se manifestam de maneira diferenciada entre os cursos de humanas e reforçam a necessidade de uma análise sobre as questões de gênero que atravessam a vivência do sofrimento.

A reflexão teórica proposta por Fanon e Durkheim e por estudos de relevância no campo da educação possibilitou fazer um deslocamento da ideia de suicídio como fenômeno exclusivo da vulnerabilidade individual e relacionado estritamente aos transtornos mentais para uma compreensão mais ampla do suicídio como fenômeno sociogênico, como efeito das estruturas sociais, econômicas e culturais que moldam a vida estudantil. Essa abordagem problematiza os modelos campanhistas adotados no Brasil, que tendem a individualizar e patologizar o sofrimento social.

Por fim, o estudo indica a necessidade de olhar o suicídio na universidade como um problema coletivo, que demanda ação articulada da comunidade acadêmica com as políticas públicas de saúde mental, incluindo ainda intervenções pedagógicas que favoreçam a escuta dos sofrimentos e o acolhimento da própria comunidade. É imperativo que o sofrimento estudantil deixe de ser invisibilizado e que a universidade se constitua como espaço de cuidado, solidariedade e promoção do bem viver, revertendo a naturalização da dor e incluindo estratégias coletivas de enfrentamento.

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  • 1
    Disponibilidade de dados: Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
  • 2
    Agradecimentos: à Diretoria Geral de Segurança (DEGSEG) e ao Comitê de Política de Saúde Mental e Atenção Psicossocial (COMAPS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
  • Editora:
    Profa. Dra. Viviane Potenza Guimarães Pinheiro Fonseca

Disponibilidade de dados

Disponibilidade de dados: Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    09 Abr 2025
  • Revisado
    07 Ago 2025
  • Aceito
    04 Out 2025
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