Neste artigo, apresentamos parte dos resultados de um estudo etnográfico sobre a indisciplina na sala de aula, no qual enfocamos mais especificamente a coincidência observada entre a conduta disciplinar desviante de estudantes do 6º e do 7º ano do Ensino Fundamental e suas chances de reprovação. Analisamos essa ocorrência numa perspectiva que combina variáveis sociológicas clássicas, como sexo/gênero e classe social, com outras intrínsecas ao contexto da sala de aula, como clima disciplinar e relação professor-aluno. Problematizamos a natureza do processo de interação social na sala de aula, que tende a conferir aos estudantes do sexo masculino maior propensão a condutas disciplinares divergentes, ao mesmo tempo em que supõe ser natural às meninas a aceitação das formas da ordem escolar. A abordagem antropológica das configurações da sala de aula, baseada em observações, entrevistas e outros instrumentos de pesquisa, como questionário socioeconômico, índice do clima escolar, índice da relação professor-aluno e sociograma, permitiu constatar as noções de alunos e professores acerca do objeto indisciplina e de como assimilam o sincronismo “indisciplinado e bom aluno”, além de detectar a rejeição dos chamados bagunceiros pelos seus pares. Os resultados mostram diferenças significativas nas formas de indisciplina praticadas por meninos e meninas, bem como revelam que a conduta mais desafiadora dos estudantes do sexo masculino abala profundamente a relação professor-aluno a ponto de afetar a trajetória escolar dos mais envolvidos na indisciplina, inclusive quando se trata de estudantes que conseguem compatibilizar esse tipo de comportamento com uma boa performance nos estudos.
Palavras chave:
Indisciplina; Repetência escolar; Gênero