Resumo
As comunidades de prática vêm sendo cada vez mais estudadas no âmbito da aquisição, compartilhamento e evolução do conhecimento organizacional. A partir dos anos 2000, as pesquisas passaram a relacionar as comunidades de prática a instrumentos estratégicos de gestão, incluindo comunicação, colaboração e execução de trabalhos em grupo. Nessa perspectiva, este artigo objetiva analisar a produção científica sobre CoPs no contexto da Biblioteconomia, com ênfase nas comunidades de prática formadas em bibliotecas ou constituídas por bibliotecários. Para tanto, realizou-se um estudo exploratório, apoiado em revisão sistemática da literatura, baseado nos documentos indexados pelas bases de dados BRAPCI e Scopus e pelo portal da BDTD. Os resultados indicam que, internacionalmente, o conceito de comunidades de prática apresenta maior maturidade e diversidade de aplicação, promovendo inovação, desenvolvimento profissional, transformação organizacional e colaboração interprofissional. No Brasil, observa-se que a discussão sobre comunidades de prática está em estágio inicial, focando em gestão do conhecimento, aprendizagem coletiva e integração de redes existentes. As conclusões apontam que as comunidades de prática contribuem para o compartilhamento de conhecimento, o desenvolvimento profissional do bibliotecário e a inovação de produtos e serviços em bibliotecas e novos estudos são necessários para ampliar , o entendimento teórico-prático sobre o tema.
Palavras-chave:
comunidades de prática; biblioteca; bibliotecários
Abstract
Communities of Practice have been increasingly studied in the context of the acquisition, sharing, and evolution of organizational knowledge. Starting in the 2000s, research began to relate Communities of Practice to strategic management tools, including communication, collaboration, and the execution of group work. From this perspective, this article aims to analyze the scientific production on Communities of Practice within the field of Library and Information Science, with an emphasis on Communities of Practice formed in libraries or composed of librarians. To this end, an exploratory study was conducted, supported by a systematic literature review, based on documents indexed in the BRAPCI and Scopus databases and on the BDTD portal. The results indicate that, internationally, the concept of Communities of Practice shows greater maturity and diversity of application, fostering innovation, professional development, organizational transformation, and interprofessional collaboration. In Brazil, it is observed that the discussion on Communities of Practice is at an early stage, focusing on knowledge management, collective learning, and the integration of existing networks. The findings indicate that Communities of Practice contribute to knowledge sharing, the professional development of librarians, and the innovation of products and services in libraries, and that further studies are needed to broaden the theoretical and practical understanding of the topic.
Keywords:
communities of practice; library; librarians
1 Introdução
Para atender às demandas de sua clientela e aprimorar a eficiência de seus processos, produtos e serviços, as organizações, incluindo as bibliotecas, investem continuamente em inovação e aprendizado. Nesse contexto, o compartilhamento de conhecimento e experiências torna-se uma prática fundamental. Nesse sentido, destacam-se as comunidades de prática (CoPs), que são espaços voltados ao compartilhamento de conhecimentos e experiências.
As CoPs são grupos formados por indivíduos que compartilham interesses, competências e conhecimentos, impulsionando o aprendizado conjunto e a disseminação de saberes organizacionais. Desde os anos 2000, pesquisas as apresentam como estratégias de gestão organizacional capazes de favorecerem o trabalho colaborativo (Bettiol; Sedita, 2011; Braithwaite et al., 2009; Chu; Khosla, 2009) e aprimorarem a comunicação interna (Bell; Lai; Li, 2012).
O conhecimento, por sua natureza imaterial, reside no intelecto humano e permeia as práticas organizacionais. Quando gerenciado de forma estratégica, torna-se um recurso valioso e capaz de gerar vantagem competitiva. Nesse contexto, destaca-se a Gestão do Conhecimento, reconhecida como uma subárea da Ciência da Informação, que considera o conhecimento um elemento essencial para o sucesso organizacional (Araújo, 2014).
A Gestão do Conhecimento tem como objetivo coletar, armazenar, disseminar e aplicar o conhecimento das pessoas ao contexto organizacional. As CoPs contribuem diretamente para esses processos, pois favorecem a externalização do conhecimento tácito, o aprendizado colaborativo, o desenvolvimento de competências, a colaboração entre profissionais e a resolução de problemas. Assim, as CoPs são ferramentas de apoio à Gestão do Conhecimento.
No contexto das bibliotecas, as CoPs configuram um espaço dinâmico para a troca de experiências e conhecimentos entre bibliotecários e outros profissionais. Essas comunidades favorecem a colaboração no desenvolvimento de produtos e serviços inovadores, fortalecem a prática profissional e promovem a atualização contínua sobre tendências e desafios na área da Biblioteconomia.
Consequentemente, no contexto das bibliotecas, as CoPs ampliam a capacidade de atender às demandas dos usuários e favorecem o desenvolvimento de um ambiente propício à aprendizagem colaborativa e à construção de redes de conhecimento entre bibliotecários.
Diante desse cenário, emerge a seguinte questão de pesquisa: qual é o panorama da produção científica nacional e internacional sobre CoP na Biblioteconomia? Para responder a essa questão, este estudo tem como objetivo analisar a produção científica sobre CoPs no contexto da Biblioteconomia, com ênfase nas CoPs formadas em bibliotecas ou constituídas por bibliotecários.
Justifica-se esta pesquisa pela necessidade de ampliar a compreensão sobre o papel das CoPs nas bibliotecas e seu potencial de contribuição para a Biblioteconomia e para a Ciência da Informação. Espera-se que esta revisão sistemática da literatura ofereça subsídios para a atuação do profissional bibliotecário por meio de práticas colaborativas, possibilitando o reconhecimento das CoPs como instrumentos relevantes para o fortalecimento da Gestão do Conhecimento, do aprendizado profissional e da inovação nos serviços informacionais.
2 Comunidades de prática nas organizações do conhecimento
O conhecimento se constitui em um recurso essencial ao desenvolvimeto organizacional. Contudo, nem sempre ele se encontra estruturado e disponível, estando, por vezes, disperso nas organizações ou concentrado em alguns indivíduos (Choo, 2003).
Nesse aspecto, as organizações devem fazer uso de estratégias ou ferramentas que oportunizem a criação, o registro e o compartilhamento do conhecimento, de modo que a tomada de decisão seja baseada naqueles conhecimentos considerados estratégicos. Para Choo (2003), a capacidade de criar significado e construir conhecimento para orientar a tomada de decisões leva as organizações a serem consideradas organizações do conhecimento.
Entretanto, em meio ao crescente volume de informações e conhecimentos compartilhados, identificar aqueles que são considerados essenciais pode se tornar um desafio, sendo de significativa importância mapear os fluxos informacionais. Santos e Valentim (2014) compreendem que os fluxos de informação são inerentes à própria atividade das organizações, podendo ser formais (estruturados) ou informais (não estruturados).
Considerando que os conhecimentos organizacionais demandam tratamento, análise e valorização, destaca-se a Gestão do Conhecimento, que, ao focar no capital intelectual da organização, objetiva desenvolver uma cultura organizacional orientada à criação, ao registro, à disseminação e à organização do conhecimento (Santos; Valentim, 2014). A implantação da Gestão do Conhecimento nas organizações pode ocorrer a partir da adoção de estratégias ou práticas, a exemplo das CoPs.
Lave e Wenger (1991) cunharam e definiram o termo CoP, originalmente em inglês, community of practice. Na literatura, o conceito aparece também sobre outras desginações, como “comunidade de aprendizagem”, “comunidade de conhecimento”, “comunidade de prática social” e “comunidade de saber” (Moura, 2009).
O Quadro 1 a seguir apresenta quatro definições de CoP.
Como observado, o termo CoP refere-se a um grupo de pessoas que compartilham uma preocupação, um conjunto de problemas ou uma paixão por um tema comum e que, por meio da interação contínua, aprofundam seu conhecimento e especialização. O Quadro 2 apresenta uma síntese sobre as CoPs, considerando seus objetivos e características.
Importa destacar que cada CoP possui uma identidade única e observa um domínio específico, geralmente correspondente à área de interesse de seus membros. Quando bem definido, esse domínio legitima a comunidade ao afirmar seus propósitos, valores e identidade (Moura, 2009; Gudolle; Antonello; Flach, 2012).
As CoPs são estruturadas em torno de sete elementos principais, quais sejam: necessidade, aprendizagem, conhecimento, prática social, relações sociais, comunidade e identidade. Esses grupos reúnem indivíduos com interesse comum em um determinado tema, possibilitando o desenvolvimento de competências, a troca de conhecimentos e a construção de novos aprendizados.
As CoPs podem ser compreendidas como grupos de aprendizes, tornando-se como comunidades que aprendem continuamente. Na visão de Pór (2002, p. 1), “[...] não são simplesmente visionários trocando ideias em torno de águas geladas, compartilhando e beneficiando-se de outros especialistas, mas colegas comprometidos em agregar as melhores práticas”.
Desta feita, as CoPs são formadas por pessoas ou instituições de uma área de conhecimento, que compartilham objetivos, experiências, ideias, conhecimentos e melhores práticas com o propósito de aprimorar competências e resolver problemas de forma colaborativa (Fialho et al., 2006). Logo, a gestão e o compartilhamento de conhecimento são processos essenciais às CoPs.
As CoPs transcendem barreiras geográficas, organizacionais ou hierárquicas, favorecendo o desenvolvimento de interações espontâneas, participação voluntária, autogestão, relações baseadas na confiança e no aprendizado mútuo, aprendizagem colaborativa e desenvolvimento profissional (Mengalli, 2007).
Nas organizações, as CoPs podem receber diferentes denominações, como “redes de aprendizagem”, “grupos temáticos” ou “clubes de tecnologia”. Independentemente do nome adotado, o propósito é facilitar o compartilhamento de conhecimento. Vale frisar que as CoPs podem ser presenciais ou virtuais, grandes ou pequenas, locais ou globais, e compostas por membros internos ou externos à organização.
Apesar do caráter predominantemente informal, muitas organizações reconhecem formalmente essas comunidades devido ao impacto positivo que geram na circulação do conhecimento e na aprendizagem organizacional (Wenger, 2002). Ao proporcionar um ambiente colaborativo, essas comunidades favorecem o crescimento profissional e o sucesso organizacional.
Por fim, evidencia-se que a inovação é um processo responsável pela conversão de ideias em soluções - sejam produtos, serviços ou processos - novas ou aprimoradas, capazes de atender às necessidades da organização ou de sua clientela. Envolve a gestão estratégica dos recursos organizacionais, tangíveis e intangíveis, com o propósito de captar oportunidades e neutralizar ameaças (Trindade, 2021).
A inovação organizacional depende do direcionamento estratégico da organização, da disposição para o trabalho colaborativo e da capacidade de aceitar e promover mudanças. Além disso, “[...] para inovar é preciso estabelecer uma cultura e um clima organizacional que estimulem os sujeitos a inovar, criar, compartilhar conhecimentos e insights [...]” (Trindade, 2021, p. 21).
Dessa forma, a inovação é um processo de aprendizagem organizacional, sustentado pelo uso de informação e conhecimento e fortemente vinculado à Gestão do Conhecimento (Trindade, 2021). Assim, entende-se que o intercâmbio de saberes e experiências entre os membros de uma CoP pode contribuir para a inovação organizacional, desde que tais comunidades sejam adequadamente gerenciadas por meio de princípios e práticas de Gestão do Conhecimento.
A próxima seção apresenta os procedimentos metodológicos adotados neste estudo.
3 Procedimentos metodológicos
A presente pesquisa adota uma abordagem mista (quanti-qualitativa), possui caráter exploratório e caracteriza-se como um estudo bibliográfico fundamentado em uma revisão sistemática da literatura.
A pesquisa exploratória visa “[...] levantar informações sobre um determinado objeto, delimitando assim um campo de trabalho e mapeando as condições de manifestação desse objeto” (Severino, 2013, p. 107).
Os estudos bibliográficos são conduzidos:
[....] a partir do registro disponível, decorrente de pesquisas anteriores, em documentos impressos, como livros, artigos, teses etc. Utiliza-se de dados ou de categorias teóricas já trabalhados por outros pesquisadores e devidamente registrados. Os textos tornam-se fontes dos temas a serem pesquisados. O pesquisador trabalha a partir das contribuições dos autores dos estudos analíticos constantes dos textos (Severino, 2013, p. 106).
Assim, em estudos bibliográficos, o pesquisador interpreta e dialoga com o conhecimento previamente produzido por outros autores, contribuindo ao avanço do conhecimento científico ao fundamentar sua investigação em um corpo teórico consistente e documentado.
A revisão sistemática da literatura, por sua vez, busca identificar, avaliar e interpretar pesquisas existentes sobre uma determinada questão, tema ou fenômeno (Kitchenham, 2004). Essa abordagem permite mapear o conhecimento existente, identificar lacunas de pesquisa e destacar as principais contribuições relacionadas à questão, tema ou fenômeno analisado.
Para a coleta de dados, realizou-se, em 13 de dezembro de 2024, um levantamento bibliográfico na Base de Dados em Ciência da Informação (BRAPCI) e na Scopus e no portal da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD). A seleção dessas bases teve como objetivo garantir uma visão abrangente e contextualizada do tema, contemplando perspectivas nacionais e internacionais sobre CoPs, o que confere maior consistência e robustez ao estudo. A Tabela 1 apresenta a estratégia de busca adotada.
Inicialmente, para garantir que a amostra contemplasse apenas estudos que têm as CoPs como principal foco de análise e discussão, a busca foi realizada prioritariamente no campo “título”. Quando essa estratégia não retornou resultados ou apresentou um número reduzido de documentos, a busca foi ampliada para os campos “assunto” ou “palavras-chave”, especialmente nas bases que indexam a produção brasileira, as quais não permitem a construção de strings de busca1 sofisticadas, ou seja. com múltiplos operadores booleanos e termos de busca, sendo necessário que várias buscas fossem realizadas.
Em contraste, a Scopus permite a elaboração de strings de busca sofisticadas, o que possibilitou recuperar, em uma única busca, todos os documentos alinhados aos objetivos do estudo. Além disso, essa base indexa os metadados dos documentos em inglês, independentemente do idioma original. Dessa forma, ao utilizar termos de busca em inglês, são recuperados documentos publicados em diferentes idiomas. No presente estudo, foram identificados 28 documentos em inglês e um em espanhol.
Na sequência, os relatórios das buscas fornecidos na pesquisa foram baixados e importados para o software gestor de referências Zotero, onde as duplicatas foram identificadas e eliminadas, totalizando 37 documentos, os quais foram acessados e analisados. Destaca-se que um documento oriundo da BDTD foi descartado por não atender aos critérios estabelecidos para a pesquisa, consolidando um corpus documental composto por 36 documentos.
A próxima seção apresenta e discute os resultados obtidos.
4 Análise e discussão dos resultados da pesquisa
A Figura 1 apresenta a evolução do número de publicações sobre CoP formadas no contexto de bibliotecas ou por bibliotecários, conforme o corpus documental analisado.
Publicações sobre CoP em bibliotecas ou formadas por bibliotecários: panorama internacional e nacional
No cenário internacional, a primeira publicação data de 2003. Ao longo dos anos, observam-se oscilações, com períodos de baixa e picos de produção; ainda assim, a continuidade das publicações indica interesse contínuo pelo tema. No Brasil, as publicações começam em 2004, são esporádicas e apresentam menor volume.
Foram identificadas 29 publicações internacionais e sete nacionais. As publicações internacionais indexadas pela Scopus provêm de nove países, quais sejam: EUA (19), Reino Unido (3), Canadá (2), Austrália (1), El Salvador (1), Nova Zelândia (1), Paquistão (1), Arábia Saudita (1), Espanha (1). Há dois documentos cujo local de publicação não pôde ser identificado.
Como mencionado anteriormete, o conceito de CoP foi cunhado na década de 1990. No Brasil, as primeiras publicações surgiram em 2004, um ano após a primeira publicação indexada na Scopus, demonstrando adesão relativamente rápida ao tema. Entre as produções nacionais, identificaram-se três artigos de periódicos publicados em 2015, 2019 e 2021, três dissertações defendidas em 2004 e 2015 e um trabalho apresentado em evento em 2023.
Esses dados evidenciam a escassez de estudos sobre CoPs no contexto da Biblioteconomia brasileira e indicam a necessidade de expandir as investigações na área. A seguir, apresenta-se a caracterização dos estudos que compõem o corpus de análise.
4.1 Estudos internacionais sobre CoP
Cox e Morris (2003) destacam que, no início dos anos 2000, listas de discussão por e-mail constituíam os principais instrumentos de colaboração virtual entre bibliotecários do Reino Unido, atuando como fontes de informação. A autoria reforça que “comunidades online” favorecem ao desenvolvimento profissional contínuo de bibliotecários, à colaboração e à resolução de problemas que surgem no cotidiano das bibliotecas.
Yeoman, Urquhart e Sharp (2003) analisam os portais especializados da UK’s National Electronic Library for Health2 (Biblioteca Nacional Eletrônica de Saúde) como uma CoP voltada ao desenvolvimento profissional, constatando que a maioria delas já havia superado as etapas iniciais de desenvolvimento e consolidação. Moore, Vaughan e Hayes (2004), por sua vez, demonstram o potencial do conceito de CoP como modelo de apoio ao desenvolvimento de serviços de biblioteca voltados à área da bioinformática na University of North Carolina, EUA.
Kortelainen e Rasinkangas (2007) analisam como as CoPs contribuem para o compartilhamento de informações, para o fortalecimento da colaboração entre profissionais e para o desenvolvimento e implementação de novos métodos de avaliação em bibliotecas.
Henrich e Attebury (2010) examinam modelos de mentoria e discutem a implementação e avaliação de uma CoP na University of Idaho, EUA. Jager-Loftus, Midyette e Harvey (2014), por sua vez, analisam uma rede de pesquisa biomédica interinstitucional formada por bibliotecários de ciências da saúde, concluindo que a colaboração entre bibliotecários fortalece serviços de referência especializados.
Green (2014) evidencia que a colaboração entre bibliotecários e docentes favorece projetos de pesquisa em humanidades digitais. Willey (2014) demostra que as CoPs contribuem para o desenvolvimento profissional de bibliotecários, especialmente no aprimoramento de habilidades e fortalecimento de programas de instrução, e na promoção de uma cultura de aprendizagem contínua em bibliotecas acadêmicas.
Bilodeau e Carson (2015) destacam que o conceito de CoP constitui uma perspectiva valiosa para compreender os processos de aprendizagem dos bibliotecários e para aprimorar a formação acadêmica, contribuindo para preparar os estudantes para suas trajetórias profissionais.
Clifton, Jo, Longo e Malone (2017) descrevem a criação de CoP especializada em informação em saúde, resultado da parceria entre bibliotecas acadêmicas e públicas de Oklahoma, EUA. Osborn (2017) discute os benefícios da CoP de Aprendizado e Ensino formada por bibliotecários da University of Adelaide, na Austrália, que está alinhada às pedagogias contemporâneas e às tecnologias educacionais.
Smith e Lee (2017) descrevem como um grupo de bibliotecários acadêmicos da British Columbia, no Canadá, integrou-se a uma CoP voltada à troca de ideias, estratégias e ferramentas sobre o uso de Recursos Educacionais Abertos (REA), ou Open Educational Resources (OER). Garzón-Farinós e Mancebo (2018) analisam como bibliotecários gerenciam a informação no ambiente web e propõem um modelo de interoperabilidade para o intercâmbio de dados de autoridades entre sistemas de informação, demonstrando a relevância das CoPs para a gestão de informação em ambientes digitais.
Crowe, Pemberton e Yeager (2019) relatam a criação de uma CoP sobre letramento informacional no ensino superior, formada por professores e bibliotecários, no contexto da University of North Carolina Wilmington, EUA. Weltin e Schultz (2019) analisam a implementação de uma CoP voltada ao aprimoramento de habilidades de gestão e liderança da equipe na University of Wisconsin-Madison, EUA. Já Gola e Martin (2020) demonstram como uma CoP contribuiu para o desenvolvimento de inteligência emocional entre bibliotecários da University of Houston, EUA.
Johnson e Vasudev (2020) relatam a formação de uma CoP entre bibliotecários acadêmicos responsáveis por divulgação e marketing para compartilhar experiências e aprimorar práticas. Rodriguez, Kanungo e Macias (2020) discutem como bibliotecários da área da saúde podem incorporar princípios da Biblioteconomia crítica aos serviços das bibliotecas por meio de uma CoP inter-regional.
Thomas e Martin (2020) abordam o desenvolvimento da Research Data Management Librarian Academy (RDMLA), ou Academia de Bibliotecários de Gestão de Dados de Pesquisa, uma CoP voltada ao desenvolvimento profissional e educação continuada de bibliotecários. Archer et al. (2021), por sua vez, descrevem a criação de uma CoP voltada a bibliotecários gestores, promovendo a aprendizagem colaborativa sobre os desafios administrativos e gerenciais enfrentados na profissão.
Carroll e Mallon (2021) apresentam uma CoP virtual, voltada ao desenvolvimento profissional de bibliotecários, focando no processo de desenvolvimento e nas estratégias de avaliação dessa comunidade.
Gibson e Regan (2021) discutem a formação e a aplicação de uma comunidade profissional de prática centrada na Pedagogia Contemplativa (PC) em bibliotecas, explorando como as práticas de PC e mindfulness podem ser integradas à alfabetização informacional e às dinâmicas das bibliotecas.
Kelly e Brody (2022) apresentam uma CoP dedicada ao compartilhamento de objetos de aprendizagem e ao design instrucional. O estudo aborda os fundamentos teóricos e práticos da iniciativa, detalha as estratégias empregadas e destaca as lições aprendidas.
Qutab et al. (2022) examinam o papel e o impacto das CoPs virtuais no desenvolvimento profissional de bibliotecários no Paquistão, evidenciando seu papel no aprendizado profissional, na resolução de problemas, na criação de conhecimento e no fortalecimento da identidade profissional.
Wake, Hu e Shaw (2022) discutem como bibliotecários escolares constituíram CoPs informais, durante a pandemia de covid-19, com o propósito de apoiar professores e estudantes e de desenvolver soluções inovadoras diante dos desafios impostos pelo ensino remoto.
Fay et al. (2023) descrevem como seis bibliotecários médicos nos EUA criaram um simpósio, o Medical Institutional Repositories in Libraries Symposium, para suprir a ausência de conferências voltadas para profissionais que trabalham com Repositórios Institucionais (RI) na área da saúde. O simpósio se estabelece como um espaço fundamental para o compartilhamento de melhores práticas, o fortalecimento do networking e o avanço da inovação na gestão de conteúdos digitais institucionais, caracterizando-se como uma CoP.
Shereff e Lou (2023) analisam as experiências de bibliotecários e assistentes sociais em um programa de treinamento online sobre Biblioteconomia Responsiva, um modelo de serviços personalizados voltado para questões de saúde e bem-estar. O programa formou uma CoP interprofissional, influenciando o desenvolvimento da identidade de ambos os profissionais.
Farrier (2024) investiga o impacto de uma CoP antirracista na cultura organizacional de uma biblioteca acadêmica inglesa, indicando que a CoP teve um impacto significativo na cultura organizacional, resultando em mudanças nos processos decisórios da equipe gestora. Sahn e Riesen (2024) descrevem o desenvolvimento de uma CoP voltada ao aprimoramento de práticas de ensino de bibliotecários de instrução.
De modo geral, a literatura demonstra que as CoPs, no contexto da Bibliotecoomia, favorecem o desenvolvimento profissional, o compartilhamento de conhecimento, a colaboração, a inovação e a aprendizagem organizacional.
Identificou-se também que as CoPs ampliam redes colaborativas, fortalecem competências técnicas e sociais e favorecem a implementação de melhorias em serviços e processos de bibliotecas. Observou-se, ainda, que as CoPs podem assumir diferentes formatos, a saber: formais, informais, virtuais, interprofissionais, interdisciplinares ou especializadas, adaptando-se às demandas específicas das bibliotecas. Nesse sentido, destaca-se que as CoPs interprofissionais e interdisciplinares reúnem profissionais de diferentes áreas, enquanto as especializadas concentram-se em temas, desafios ou áreas específicas.
Por fim, destaca-se que a eficácia da CoP depende do engajamento dos participantes. Outrossim, no contexto da Biblioteconomia, essas comunidades podem e devem voltar-se a discussões de cunho técnico e social, como inclusão e enfrentamento ao racismo, contribuindo para um desenvolvimento profissional em várias pespectivas.
4.2 Estudos nacionais sobre CoP
Oliveira (2013), ao analisar o caso do Centro Federal de Educação Tecnológica do Rio de Janeiro (CEFET/RJ), destaca a importância da Gestão do Conhecimento como um mecanismo essencial para aprimorar o desempenho organizacional e apresenta as CoPs como ferramentas de Gestão do Conhecimento que fortalecem o senso organizacional.
Rodrigues (2014) explora como as práticas dos bibliotecários refletem processos de aprendizagem coletiva e incentivam os docentes a incorporar a pesquisa como suporte ao ensino, no âmbito do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo (IFES).
Valdez (2015) discute a mediação da leitura e da informação como ações fundamentais à aprendizagem dos alunos em bibliotecas escolares, propõe a criação de uma CoP virtual para profissionais das bibliotecas das instituições federais de ensino superior, visando promover a troca de informações e experiências sobre práticas de mediação, e aponta as plataformas mais adequadas para a configuração de uma CoP virtual.
Melo (2015), Melo e Almeida (2015) e Melo, Moraes e Costa (2019) analisam a Rede de Bibliotecas e Centros de Informação em Arte no Estado do Rio de Janeiro (REDARTE/RJ) para identificar características semelhantes às de uma CoP e avaliar se essas características favorecem a integração das ações desenvolvidas pelos profissionais da informação que fazem parte da rede.
Achilles e Kornalewski (2021) realizam uma revisão sistemática sobre CoP, destacando as suas contribuições para as bibliotecas públicas que compõem a Rede de Bibliotecas Populares de Niterói, Rio de Janeiro.
Silva, Moreno e Telmo (2023) utilizam a metodologia de Análise de Redes Sociais (ARS) para examinar a produção científica sobre CoP publicada entre 2003 e 2022, indexada pela Scopus e pela BRAPCI, focando na análise da dinâmica de coautoria.
Observou-se que a maioria das produções brasileiras consiste em estudos empíricos. A análise destes estudos permite inferir que, embora as CoPs revelem elevado potencial para fortalecer políticas de informação, ampliando a inteligência organizacional e qualificando os processos decisórios por meio de práticas colaborativas e interpretações coletivas da realidade institucional, sua efetividade permanece limitada pela ausência de formalização, de governança e de condições estruturais que garantam continuidade e sustentação.
As evidências mostram, ainda, que a atuação das bibliotecas por meio dessas comunidades se fundamenta no esforço individual dos profissionais, indicando uma institucionalização frágil e deficiente. Isto porque a aprendizagem organizacional se fortaleceria se estas bibliotecas estivessem estruturadas por meio da Gestão do Conhecimento e apoiadas por uma infraestrutura tecnológica adequada.
Além disso, a falta de políticas de informação que reconheçam formalmente o valor das CoPs perpetua seu posicionamento periférico nas organizações. No campo acadêmico, a baixa densidade das redes de pesquisa e a frágil articulação teórico-metodológica reforçam que a dificuldade de consolidação das CoPs no ambiente profissional reflete, em parte, a própria dispersão existente na literatura. Assim, apesar de seu caráter promissor, as CoPs ainda não se configuram como práticas plenamente constituídas no contexto biblioteconômico, dependendo de avanços institucionais, tecnológicos e conceituais para que possam exercer, de modo efetivo, seu papel transformador.
4.3 Análise comparativa e crítica da produção sobre CoP
De modo comparativo, observa-se que os estudos internacionais apresentam aplicações mais maduras e diversificadas das CoPs na Biblioteconomia, abrangendo temas como inovação, transformação organizacional, antirracismo e pedagogias contemporâneas, enquanto os estudos nacionais se concentram predominantemente na Gestão do Conhecimento, aprendizagem coletiva e caracterização de redes existentes.
Enquanto, no cenário internacional, as CoPs são amplamente tratadas como ferramentas para inovação, desenvolvimento profissional, mudança organizacional e articulação entre bibliotecários e outros profissionais, no contexto brasileiro elas são vistas, sobretudo, como mecanismos de suporte ao ensino, à mediação, à aprendizagem colaborativa e ao fortalecimento de práticas pedagógicas. Isso revela que, na Biblioteconomia brasileira, o conceito ainda está em consolidação, com avanços mais teóricos e exploratórios do que aplicações práticas estruturadas.
Importa frisar que o corpus documental analisado abrange 20 anos de produção científica sobre CoPs, o que permitiu identificar transformações significativas nas práticas, objetivos e formatos dessas comunidades ao longo das últimas duas décadas. Entre essas transformações, destacam-se: a migração de CoPs presenciais para o contexto digital; a crescente influência das tecnologias digitais na estrutura e no funcionamento dessas comunidades; a consolidação das CoPs como ferramentas estratégicas de desenvolvimento profissional e organizacional.
Os estudos evidenciam a ampliação das áreas de aplicação das CoPs na Biblioteconomia, reforçando seu caráter multifuncional. Contudo, diante das diferentes configurações organizacionais, torna-se necessário investigar como políticas institucionais influenciam a criação e a manutenção de CoPs; quais modelos organizacionais são mais eficazes para sua implementação; e de que forma estruturas hierárquicas podem facilitar ou dificultar o engajamento dos participantes.
No conjunto, os estudos revelam benefícios tangíveis e intangíveis associados à implementação de CoPs: (a) tangíveis: desenvolvimento de serviços, produtos, portais, processos, cursos, ferramentas e eventos; (b) intangíveis: fortalecimento identitário, colaboração, confiança profissional, inovação cultural e senso de pertencimento.
Também são reconhecidos desafios estruturais e culturais que devem ser gerenciados, tais como: baixa participação; dependência de apoio institucional; desigualdades no acesso às tecnologias; dificuldade de avaliação de resultados; tensões entre práticas colaborativas e estruturas burocráticas; e conciliação entre normas e valores profissionais.
Em síntese, os estudos demonstram que as CoPs: (a) impulsionam processos de inovação incremental e, em alguns casos, inovação radical3; (b) criam ambientes que favorecem a experimentação e a aprendizagem social; (c) funcionam como espaços de incubação de ideias e boas práticas.
5 Considerações finais
Este estudo analisou, por meio de uma revisão sistemática da literatura, a produção científica sobre CoPs no contexto da Biblioteconomia, com ênfase nas CoPs formadas em bibliotecas ou constituídas por bibliotecários. Para isso, analisou-se a produção indexada pela BRAPCI, Scopus e BDTD.
No cenário brasileiro, as CoPs ainda são uma temática incipiente. A maior parte dos estudos se concentra na formação dessas comunidades em instituições específicas, havendo poucos trabalhos dedicados ao desenvolvimento de uma base teórico-conceitual sólida. Essa lacuna limita tanto o avanço do conhecimento acadêmico-científico sobre CoP quanto a aplicação estratégica das CoPs no contexto da Biblioteconomia brasileira.
No contexto internacional, as pesquisas sobre CoPs apresentam maior diversidade, evidenciando seus benefícios para os bibliotecários e, consequentemente, para as bibliotecas. Essas comunidades desempenham papel fundamental no compartilhamento de conhecimentos entre profissionais e instituições, contribuindo para o desenvolvimento de produtos e serviços de bibliotecas, bem como para a construção de novas habilidades técnicas e sociais.
Verificou-se que, quando integradas de forma estratégica, as CoPs contribuem para a socialização do conhecimento tácito, a documentação de práticas, o fortalecimento da identidade profissional e a criação de ambientes favoráveis à inovação. No entanto, o contexto brasileiro ainda carece de políticas institucionais de Gestão do Conhecimento capazes de sustentar essas comunidades de forma contínua e alinhada aos objetivos organizacionais.
De modo geral, os resultados revelam que as CoPs contribuem de maneira significativa para o compartilhamento de conhecimentos, o desenvolvimento profissional do bibliotecário e a inovação de produtos e serviços em bibliotecas, havendo espaço para expansão, amadurecimento teórico e consolidação prática dessas comunidades na Biblioteconomia brasileira. Recomenda-se a realização de novos estudos que aprofundem o entendimento teórico-prático sobre CoPs, investigando sua articulação com modelos de Gestão do Conhecimento e suas abordagens avaliativas capazes de demonstrar seu impacto institucional.
À luz dessas constatações, reforça-se a importância de políticas institucionais que apoiem a criação, manutenção e avaliação de CoPs em bibliotecas, bem como a adoção de diretrizes alinhadas aos modelos de Gestão do Conhecimento. Entre as recomendações, destacam-se: (a) estruturar CoPs integradas ao planejamento estratégico das bibliotecas; (b) promover ambientes colaborativos e híbridos que ampliem a participação dos bibliotecários; (c) estimular práticas de mentoria e aprendizagem organizacional; (d) fomentar CoPs interdisciplinares; e (e) incorporar temáticas emergentes relacionadas à inovação, a inclusão e a transformação social.
Conclui-se que as CoPs, quando adequadamente apoiadas por modelos e políticas de Gestão do Conhecimento, representam não apenas um recurso operativo, mas um eixo estruturante para o fortalecimento das bibliotecas e para a qualificação do fazer bibliotecário. Seu desenvolvimento contínuo configura uma oportunidade estratégica para consolidar ambientes mais colaborativos, responsivos e inovadores no âmbito da Biblioteconomia e da Ciência da Informação.
Referências
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Declaração de disponibilidade de dados
Não se aplica.
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Como citar
MORENO, Danielle Harlene da Silva; SILVA, Alzira Karla Araújo da; TRINDADE, Alessandra Stefane Cândido Elias; SAEGER, Márcia Maria de Medeiros Travassos; PINHO NETO, Júlio Afonso Sá. Comunidades de prática formadas no contexto das bibliotecas ou por bibliotecários: revisão sistemática da literatura. Em Questão, Porto Alegre, v. 32, e-146819, 2026. DOI: https://doi.org/10.1590/1808-5245.32.146819
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1
String de busca é uma sequência de termos de busca, operadores boleanos ou símbolos usada para encontrar informações em mecanismos de busca, base de dados ou sistemas de busca.
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2
Serviço de biblioteca digital fornecido pelo Serviço nacional de saúde do Reino Unido para profissionais de saúde e o público entre 1998 e 2006.
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3
A inovação incremental consiste em melhorias graduais em produtos, serviços ou processos existentes. A inovação radical, por sua vez, refere-se à criação de soluções totalmente novas, que rompem com os padrões anteriores (Trindade, 2021).
Não se aplica.


Fonte: Dados de pesquisa.