Open-access A análise de assunto na catalogação museológica: aplicação do protocolo verbal individual em museus amazônicos

Subject analysis in museological cataloging: application of the individual verbal protocol in Amazonian Museums

Resumo

Este artigo analisa a temática da análise de assunto na catalogação de objetos museológicos, com o objetivo de mapear esse processo e aprimorar as práticas de organização e recuperação de informações em museus. A pesquisa, de caráter exploratório e qualitativo, utilizou o Protocolo Verbal Individual para coletar dados de nove profissionais envolvidos na catalogação em ambientes museológicos. Os resultados demonstram que a diversidade de tipologias dos objetos exige não apenas abordagens variadas, mas também a constante adaptação dos instrumentos de leitura documental. Assim, identificar categorias comuns sem desconsiderar as especificidades de cada item revela-se essencial para uma indexação eficaz e uma representação precisa da informação. Conclui-se que, como etapa inicial para a indexação, a análise de assunto demanda procedimentos e diretrizes bem delineados, capazes de atender às necessidades informacionais da comunidade usuária das instituições museológicas.

Palavras-chave:
catalogação museológica; análise de assunto; protocolo verbal individual; museus amazônicos; objetos museológicos

Abstract

This article examines subject analysis in the cataloging of museological objects, aiming to map this process and enhance organizational and information retrieval practices in museums. The exploratory qualitative research employed the Individual Verbal Protocol to collect data from nine professionals involved in museum cataloging. Findings indicate that the diverse typologies of museological objects require not only varied approaches but also the continuous adaptation of documentary reading instruments. Identifying common categories while respecting each item's specificities is essential for effective indexing and accurate information representation. Consequently, subject analysis, as the initial step in indexing, necessitates well-defined procedures and guidelines to meet the informational needs of the museum's user community.

Keywords:
museological cataloging; subject analysis; individual verbal protocol; amazonian museums; museological objects

1 Introdução

A análise de assunto constitui a primeira etapa do processo de indexação de documentos e representa uma das operações intelectuais mais importantes realizadas pelo profissional da informação, pois é por meio dela que se identificam os assuntos principais, fundamentais para a posterior recuperação em catálogos e índices, tornando o documento acessível aos usuários de uma unidade de informação (Fujita, 2003; Lancaster, 2004; Hjorland, 2018).

Por meio da análise de assunto, torna-se possível organizar e representar documentos e objetos de acordo com áreas específicas do conhecimento, utilizando os Sistemas de Organização do Conhecimento (SOC), como tesauros, índices alfabéticos e cabeçalhos de assunto (Cintra et al., 2002; Kobashi, 2008; Hjorland, 2018).

No contexto museológico, os princípios fundamentais para a catalogação de objetos estão intimamente relacionados ao processo de análise de assunto, uma vez que essa atividade envolve diferentes formas e níveis de representação da informação (Carvalho, 2022). A análise de assunto apresenta semelhanças com os procedimentos de catalogação museológica, pois é durante essa etapa que ocorre a representação formal do objeto na ficha de catalogação, garantindo a organização e a recuperação adequadas da informação nos sistemas de gestão dos museus.

Dessa forma, este estudo insere-se no campo da Organização e Representação do Conhecimento, compreendido tanto como área teórica responsável por desenvolver modelos e metodologias para estruturar a informação, quanto como processo aplicado às práticas de descrição, classificação e indexação em unidades de informação, como os museus. Nesse sentido, o estudo oferece o alicerce epistemológico necessário para compreender como os objetos museológicos se transformam em documentos informacionais, estruturando-se em sistemas de representação capazes de refletir as relações cognitivas, culturais e simbólicas presentes nas coleções.

Ao explorar esse tema, observa-se uma lacuna de estudos voltados para investigar e compreender o processo de análise de assunto na prática museológica. Carvalho (2022) evidencia essa ausência, destacando a necessidade de promover uma reflexão mais ampla sobre a representação da informação em museus. Dessa forma, torna-se essencial fomentar o debate sobre essa questão, contribuindo para uma compreensão mais aprofundada da construção da representação da informação no contexto museológico.

Diante desse cenário, a questão que orienta este estudo é: como os procedimentos de análise de assunto podem ser identificados no processo de catalogação museológica e de que forma contribuem para aprimorar a representação da informação nos museus?

Para responder a essa questão, o objetivo deste trabalho foi mapear o processo de análise de assunto na catalogação de diferentes tipologias de objetos museológicos em museus amazônicos, com vistas a reconhecer e aperfeiçoar as práticas de organização e recuperação da informação.

Com esse intuito, o estudo foi realizado por meio da aplicação do Protocolo Verbal Individual (PVI) junto a nove profissionais atuantes em museus, sendo quatro na Universidade Federal do Pará (UFPA) - Museu da UFPA, Museu de Anatomia, Museu de Geociências e Museu de Zoologia - e cinco no Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), em três reservas técnicas das coordenações de Ciências da Terra e Ecologia (COCTE), Zoologia (COZOO) e Ciências Humanas (COCH).

A observação das ações desses profissionais durante o processo de catalogação permitiu identificar as práticas e os desafios enfrentados na análise de assunto no contexto museológico, fornecendo subsídios para a proposição de melhorias e estratégias de padronização desse processo.

Assim, o presente estudo busca contribuir para o aperfeiçoamento das práticas de catalogação, fortalecendo a organização, representação e recuperação da informação nos sistemas museológicos e, consequentemente, consolidando os fundamentos da Organização e Representação do Conhecimento na Amazônia brasileira.

2 Análise de assunto e catalogação museológica

Os museus podem ser compreendidos como instituições profundamente vinculadas aos processos de Organização e Representação da Informação e do Conhecimento, uma vez que os objetos museológicos constituem verdadeiros veículos de informação e, portanto, possuem o potencial de se converterem em fontes para pesquisas científicas. Sob essa perspectiva, o museu ultrapassa a função de simples espaço de guarda de objetos e assume o papel de uma “[...] estrutura organizacional de referência” (Mensch, 1994, p. 15), voltada à produção, preservação e comunicação de saberes.

Nessa direção, os estudos que se dedicam à criação de sistemas, processos e instrumentos voltados à gestão da informação contribuem diretamente para o fortalecimento da área de Organização e Representação do Conhecimento, favorecendo também o aprimoramento das práticas documentais em diferentes tipos de unidades de informação, entre elas os museus. Isso ocorre porque tais instituições realizam procedimentos contínuos de representação e recuperação da informação, operacionalizados por meio da Documentação Museológica.

É importante destacar, contudo, que os termos catalogação, indexação e organização do conhecimento, embora inter-relacionados, não são sinônimos. A Organização do Conhecimento constitui o campo teórico que fundamenta os sistemas de representação e recuperação da informação; a catalogação museológica corresponde ao procedimento técnico e descritivo que sistematiza os dados físicos, contextuais e simbólicos dos objetos; e a indexação refere-se ao processo analítico responsável por representar tematicamente o conteúdo dos documentos ou objetos museológicos, possibilitando sua recuperação. Assim, a catalogação e a indexação são práticas aplicadas no âmbito da Organização do Conhecimento, cada uma com funções e finalidades específicas.

A Documentação Museológica, por sua vez, compreende o conjunto de procedimentos que abrange desde a aquisição e o registro até a catalogação, classificação e pesquisa sobre o documento museológico (Ferrez, 1994; Cury, 2008; Bottallo, 2010; Padilha, 2014; Mendonça, 2016). É por meio dessa prática que o museu constrói e mantém um acervo significativo de objetos, devidamente reunidos, organizados e conservados, de modo a comunicar sentidos, símbolos e signos capazes de estabelecer um diálogo com o público (Desvallées; Mairesse, 2013; Zalewski et al., 2020).

Por consequência, a partir do momento em que um objeto é inserido no museu, conferindo-se a ele o status de objeto documento, objeto museológico ou documento museológico, esse processo é chamado de musealização e é o que distingue o museu de outras instituições que também lidam com questões como a informação e a memória, tais como arquivos e bibliotecas (Desvallées; Mairesse, 2013; Mendonça, 2016). Para Cury (2008), a musealização inclui: aquisição, pesquisa, conservação, documentação e comunicação.

Assim sendo, na perspectiva museológica, o documento museológico possui características informacionais que evocam o passado, tornando-se testemunhas autênticas de fatos naturais e sociais (Stransky, 1985; Borgo et al., 2014; Preston, 2020; Davis, 2020) e, a partir desse momento, precisa receber um tratamento diferenciado, pois agora está em um ambiente de pesquisa, preservação e comunicação (Carvalho, 2022).

Castro (1999), Ferrez (1994), Cândido (2006) e Padilha (2014) compreendem que o documento museológico pode ser entendido sob duas perspectivas: a física e a simbólica. A perspectiva física denota as características morfológicas do objeto (informação intrínseca), enquanto a simbólica decorre da razão de sua existência em uma relação espaço-temporal (informação extrínseca) (Yassuda, 2009).

Mensch (1994) propõe que o objeto museológico deve ser analisado sob três dimensões complementares: a física, que abrange seus atributos materiais e morfológicos; a funcional e simbólica, que contempla os usos e significados culturais atribuídos ao objeto; e a histórica, que situa o objeto em um contexto espaço-temporal. Essas dimensões informam tanto a descrição (no âmbito da catalogação) quanto a análise temática (no âmbito da indexação), sendo importante destacar que a representação física não constitui indexação trata-se de uma etapa descritiva e não conceitual do processo documentário.

Nesse sentido, uma vez que adentram o espaço museológico, “[...] os objetos não servem mais ao seu propósito original, em vez disso, seu propósito e uso é informativo e comunicacional” (Maroević, 2000, p. 5, tradução nossa). Portanto, essas características dos documentos museológicos atuam ativamente no processo de catalogação, por meio de práticas direcionadas à extração de informações sobre seu conteúdo, permitindo a compreensão de um contexto (social ou natural) e sua recuperação posterior.

Dentre os instrumentos de tratamento da informação museológica, a catalogação exerce um papel fundamental na estratégia de recuperação da informação nos museus, pois, além de sintetizar aspectos temáticos e simbólicos, também abrange dados administrativos, técnicos e físicos do objeto, funcionando como instrumento de gestão e preservação.

Dessa forma, não se limita ao contexto temático, mas integra uma visão holística do documento museológico, articulando suas dimensões materiais, históricas e culturais em um registro unificado, sendo, portanto, “[...] uma ferramenta de trabalho que reúne uma série de informações que, de outra forma, estariam dispersas” (Bottallo, 2010, p. 63), multiplicando as formas de acesso ao documento museológico e potencializando o caráter científico das coleções (Carvalho, 2022).

Autores como Cerávolo e Tálamo (2007), Padilha (2014) e Reis et al. (2019) compreendem a catalogação como a principal forma de tratamento da informação dentro dos museus, pois é na catalogação que se realiza a operação de síntese das informações do documento museológico, por meio da inserção de informações contextuais (informações de caráter simbólico, histórico e de usos do objeto) na ficha catalográfica. Nesse processo, aspectos físicos e de conteúdo contribuem solidariamente para sua significação, por meio da indexação (Carvalho; Fonseca; Redigolo, 2021).

Fujita (2003) afirma que a indexação se dá a partir da realização de três operações: análise, para identificação e seleção de conceitos; síntese, para construção do texto documentário com os conceitos selecionados; e representação, por meio de linguagens documentárias.

De modo geral, a indexação é compreendida como um processo de análise de assunto aplicado a qualquer tipo de recurso informacional, com o objetivo de representar tematicamente o conteúdo dos documentos para fins de recuperação da informação.

Segundo Miranda (2005) e Gil Leiva (2012), trata-se de um processo essencial da Organização do Conhecimento, pois busca representar os documentos tematicamente, mediante síntese, análise e representação de conceitos, palavras-chave e termos relevantes, permitindo localizar e recuperar os registros do conhecimento por meio de uma linguagem de indexação (Borko; Bernier, 1978). Para Dias e Naves (2013), a indexação compreende como elementos principais o processo de descrição temática, as linguagens de indexação e os produtos informacionais (registros, resumos, catálogos, entre outros).

Para Lancaster (2004), a indexação envolve duas fases principais: análise conceitual e tradução, distinguindo duas modalidades: indexação por extração, na qual se selecionam palavras-chave diretamente do texto em linguagem natural, e indexação por atribuição, em que os termos são escolhidos e traduzidos para uma linguagem controlada, como vocabulário ou tesauro. Nesta investigação, observa-se predominância da indexação por atribuição, uma vez que os termos utilizados derivam da interpretação do conteúdo simbólico dos objetos e de sua tradução para o vocabulário controlado empregado pelo museu.

Diversos estudos têm buscado compreender a análise de assunto em ambientes biblioteconômicos. Entre eles, Fujita (2003) e Fujita, Nardi e Fagundes (2003) aplicaram o Protocolo Verbal Individual (PVI) para investigar como os indexadores realizam suas tarefas. Esses estudos demonstraram que os profissionais adotam estratégias cognitivas diferenciadas dependendo do domínio temático e do tipo de documento, evidenciando que a leitura documentária envolve operações simultâneas de interpretação, inferência e julgamento.

Os resultados destacam que o processo de análise de assunto é altamente dependente da experiência do profissional e do contexto institucional, incluindo as políticas de representação do acervo. Nesse sentido, a aplicação do PVI se mostra extremamente relevante para o estudo de práticas de catalogação em museus, pois permite captar a dimensão cognitiva das decisões tomadas durante a análise de objetos museológicos.

Embora as pesquisas originais tenham sido conduzidas em bibliotecas, seus achados oferecem subsídios importantes para compreender a prática da análise de assunto em outros contextos informacionais, como os museus. O PVI, ao registrar de forma detalhada o raciocínio verbalizado pelo catalogador, fornece uma ferramenta metodológica única para aproximar a teoria da Organização do Conhecimento às práticas de documentação museológica, revelando as estratégias mentais que orientam a representação temática dos acervos.

Dito isso, observa-se que alguns elementos da análise de assunto podem ser identificados na catalogação realizada nos museus, a partir da representação das informações contextuais no momento em que o profissional realiza a catalogação, quando o profissional “[...] trata das informações históricas, simbólicas e de usos do objeto no museu” (Padilha, 2014, p. 52). Trata-se de uma operação de síntese elaborada a partir das informações contempladas no que Cerávolo e Tálamo (2007) chamam de “matriz da informação”.

Dessa forma, a extração dos termos do documento museológico para a representação de seu conteúdo temático ocorre por meio da leitura documentária, identificação e seleção de conceitos, seguida da tradução para uma linguagem controlada, de acordo com o sistema de recuperação da informação da instituição. Esse processo permite criar pontos de acesso na coleção para cada objeto, funcionando como uma ferramenta de gestão aplicada aos sistemas de recuperação da informação museológica.

Portanto, ao analisar os procedimentos realizados pelos profissionais de museus e suas estratégias para representar assuntos em seus catálogos, é possível tecer considerações pertinentes sobre o processo de análise de assunto na catalogação museológica. O aporte teórico apresentado, aliado às pesquisas que aplicaram o Protocolo Verbal Individual, oferece subsídios para a análise dos procedimentos realizados pelos profissionais de museus, permitindo compreender de forma empírica as estratégias adotadas na análise de assunto durante a catalogação museológica.

A próxima seção apresenta os resultados e discussões das nove coletas realizadas por meio da aplicação do PVI, buscando estabelecer um parâmetro analítico entre a teoria e a prática do processo de análise de assunto na catalogação museológica, além de propor diretrizes mais consistentes para o desenvolvimento de políticas de indexação voltadas às coleções museológicas.

3 Metodologia

A metodologia da pesquisa possui caráter exploratório, com análise qualitativa dos dados, tendo como instrumento para coleta introspectiva de informações a aplicação do Protocolo Verbal Individual (PVI) com nove profissionais que realizam a catalogação no ambiente museológico.

O universo de pesquisa compreende museus localizados na região amazônica, inseridos no contexto da Organização do Conhecimento da Amazônia brasileira. Dessa forma, foram escolhidas duas instituições de grande relevância no contexto amazônico: a Universidade Federal do Pará (UFPA) e o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), delimitando-se o local de aplicação do instrumento de coleta de dados. Assim, a amostra foi definida conforme apresentado no quadro 1:

Quadro 1
Amostra definida para coleta introspectiva de dados

A amostra foi selecionada de modo a possibilitar a observação dos procedimentos, dificuldades e instrumentos disponíveis aos profissionais de museu em torno de domínios específicos em diferentes coleções museológicas, sobretudo por apresentarem contextos e situações distintas. Como nem todos os profissionais que realizam o processo de catalogação possuem formação em Museologia, optou-se pelo uso do termo geral “profissional” ou “profissional de museu” para identificá-los. O critério para escolha dos participantes foi possuir quatro anos ou mais de experiência em atividades documentais na instituição.

As informações sobre o perfil dos sujeitos participantes foram sistematizadas no quadro 2, de acordo com o museu ao qual pertencem, sua função, formação, tempo na função e identificação para fins desta pesquisa.

Quadro 2
Perfil dos sujeitos da pesquisa

A coleta introspectiva de dados buscou identificar os procedimentos realizados pelos profissionais de museu para análise de assunto durante a catalogação museológica. Para isso, foi utilizado o PVI como instrumento, uma vez que este preconiza que o sujeito explicite todos os procedimentos que está realizando em voz alta, em tempo real (thinking aloud). Trata-se de uma técnica exaustiva, capaz de proporcionar uma visão ampla do fenômeno analisado e dos processos cognitivos do sujeito (Cavalcanti, 1989; Redigolo, 2014; Alonso Arroyo et al., 2016).

Para a aplicação do PVI, foram seguidos os procedimentos metodológicos adaptados por Carvalho (2022), com base nos trabalhos de Fujita, Nardi e Fagundes (2003) e Redigolo (2014), conforme quadro 3:

Quadro 3
Procedimentos para aplicação do PVI

Destaca-se que o procedimento “Seleção do texto-base” foi transformado em “Seleção do objeto-base”, visto que, em vez de um documento textual, foram utilizados objetos museológicos para a realização da análise de assunto na catalogação, buscando identificar estratégias e comportamentos dos profissionais durante o processo. Esta adaptação não interferiu na coleta introspectiva de dados. Dessa forma, acredita-se que o PVI é uma técnica adequada para identificar os aspectos relevantes da catalogação museológica.

Os dados obtidos nas transcrições dos PVI foram organizados em eixos temáticos e categorias de análise, fundamentados nas falas dos participantes e na literatura sobre documentação museológica, indexação e análise de assunto. Foram definidas seis categorias, cada uma correspondendo a um processo da catalogação de objetos museológicos, conforme quadro 4:

Quadro 4
Categorias de análise

A partir desses resultados, apresenta-se uma discussão geral das categorias de análise, destacando os elementos da análise de assunto identificados e um quadro comparativo entre as duas instituições pesquisadas (museus da UFPA e MPEG).

4 Resultados

Com base nos resultados obtidos por meio da aplicação do PVI, foi possível observar a prática dos profissionais de museus durante a catalogação dos objetos museológicos. Assim, para atender aos objetivos da pesquisa, os dados coletados nos protocolos foram transcritos integralmente, organizados em eixos temáticos e suas respectivas categorias de análise, com o intuito de evidenciar trechos das declarações dos sujeitos participantes durante a realização da catalogação do objeto museológico.

Salienta-se que, para identificação dos sujeitos participantes, foram utilizadas as seguintes terminologias: Profissional 1 (P1), Profissional 2 (P2), Profissional 3 (P3) e assim por diante, conforme apresentado no quadro 2 deste artigo. A seguir, são apresentados os resultados obtidos a partir do PVI, de acordo com os eixos temáticos e categorias de análise.

4.1 Resultados do Protocolo Verbal Individual

Nesta seção, são apresentados os resultados obtidos a partir da aplicação do Protocolo Verbal Individual, técnica que permite compreender o processo cognitivo envolvido nas atividades de indexação e representação da informação museológica.

4.1.1 Eixo temático 1: Análise de assunto

O primeiro eixo trata da análise de assunto, etapa em que o indexador identifica e interpreta o conteúdo informacional e simbólico do objeto. As falas indicam como os participantes articulam aspectos materiais e conceituais, demonstrando a influência do conhecimento técnico e das referências culturais na atribuição de sentido e na representação documental.

4.1.1.1 Categoria 1: Leitura documentária do objeto museológico

A primeira categoria de análise refere-se à leitura documentária do objeto museológico, cujo objetivo é identificar informações intrínsecas e extrínsecas. Observou-se que os sujeitos adotam estratégias diferentes conforme a tipologia do objeto (vide quadro 8), indicando a necessidade de instrumentos específicos para sua análise.

Os sujeitos P1, P4, P5, P6 e P7 realizam a leitura documentária buscando caracterizar o objeto e comparando-o com a literatura da área. O sujeito P5 afirma: “[...] se observa a amostra em todas as faces, buscando informações e fazendo comparações com a literatura, dessa forma conseguimos identificar aquela amostra”.

Já os sujeitos P3, P8 e P9 delegam essa atividade ao pesquisador que deposita o objeto no acervo, utilizando as informações fornecidas no ato da doação. Como relata o P9: “Na verdade, quando a gente recebe o material esperamos que ele contenha a informação mínima sobre o conteúdo. Utilizamos como fonte as informações dadas por quem deposita o material no acervo”.

O sujeito P2 não realizou a leitura documentária.

4.1.1.2 Categoria 2: Identificação e seleção de conceitos para indexação

A segunda categoria refere-se à identificação e seleção de conceitos para indexação, visando à recuperação futura dos objetos museológicos. Observou-se, entretanto, a ausência de um referencial metodológico consistente nas respostas dos sujeitos.

Os sujeitos P2, P3 e P4 não realizaram essa atividade durante a catalogação. Já P5, P6, P7 e P8 selecionam os conceitos com base na leitura documentária, utilizando a taxonomia das Ciências Biológicas para definir os assuntos, como afirma P7: “Geralmente essas categorias taxonômicas vão acompanhar o material até mesmo para podermos organizá-los na coleção e encontrá-los depois”.

O sujeito P1 determina o assunto a partir da leitura documentária, enquanto P9 utiliza termos de uma linguagem controlada própria do museu, permitindo atualização e inclusão de novos termos: “O nosso acervo é organizado por língua e dentro de cada língua você tem seções gerais, então temos tópicos, assuntos. Identificamos e selecionamos os que melhor se encaixam, como classe gramatical, lexical, histórias tradicionais, atividades cotidianas e assim por diante”.

4.1.1.3 Categoria 3: Uso de linguagem controlada

Esta categoria buscou identificar a utilização de linguagem controlada na catalogação como ferramenta para operacionalizar a indexação.

O sujeito P1 utiliza o vocabulário do Museu Nacional de Belas Artes e, quando necessário, recorre a termos de outros museus para atribuir novos assuntos. Os sujeitos P2 e P3 não utilizam nenhuma linguagem controlada. P4, P5, P6, P7 e P8 utilizam a taxonomia biológica para determinar os assuntos de seus objetos.

O sujeito P9 destaca-se por possuir um vocabulário controlado próprio, elaborado a partir de sua coleção, que subsidia a identificação de termos, equivalências e dados contextuais, facilitando a interpretação e o acesso à informação:“Então foi feito um vocabulário pensado nos grandes tópicos que são investigados na coleção [...] um estudo em todo o conteúdo do nosso acervo para definir categorias, tópicos recorrentes e organizar isso dentro de um vocabulário controlado, que formam uma espécie de dicionário”.

4.1.1.4 Categoria 4: Estratégias para análise de assunto do objeto museológico

Nesta categoria, buscou-se observar as estratégias utilizadas pelos profissionais na análise de assunto durante a catalogação.

O sujeito P1 demonstra domínio da atividade, determinando os assuntos e pesquisando em outras instituições museológicas. O sujeito P2 não realiza catalogação ou registro do acervo, não sendo possível identificar estratégias de indexação, o que indica falta de domínio sobre atividades informacionais.

Os sujeitos P3 e P4 também não demonstram domínio da catalogação e da análise de assunto, não realizam identificação e seleção de conceitos e confundem etapas de registro e catalogação, impactando negativamente a representação adequada para os usuários.

Os sujeitos P5, P6, P7, P8 e P9 apresentam maior domínio da catalogação, demonstrando consciência do processo de Documentação Museológica e realizando pesquisas em fontes especializadas para identificar o objeto e determinar seus assuntos.

4.1.2 Eixo temático 2: Catalogação museológica

Este eixo trata da catalogação museológica, etapa de registro e organização das informações do objeto museológico.

4.1.2.1 Categoria 1: Catalogação do acervo

Esta categoria teve como objetivo verificar se a catalogação realizada pelos profissionais segue padrões estabelecidos.

Os sujeitos P1 e P4 não seguem um padrão, inserindo ou retirando campos da ficha catalográfica conforme julgarem necessário. O sujeito P2 não realiza catalogação: “Catalogação […] Não, esse controle aqui não existe”.

P3, P6 e P8 delegam a função, como explica P3: “[...] a ficha que vai ser entregue ao doador, onde ele vai preencher todas as informações referentes àquela mostra que está doando”. P5 e P7 realizam a catalogação pelo livro de registro, incorporando informações colhidas em campo e transferindo-as posteriormente para uma base de dados própria (Specify). P9 segue normas de catalogação e arquivamento de conteúdo linguístico.

4.1.2.2 Categoria 2: Banco de dados do museu

Esta categoria buscou identificar o uso de softwares de banco de dados para organizar e gerenciar os acervos.

Os sujeitos P1 e P4 utilizam o Excel, enquanto o P2 não adota nenhum procedimento de organização. P3 utiliza o site institucional como catálogo eletrônico, porém sem possibilidade de inserir novas informações.

Os sujeitos P5, P6, P7, P8 e P9 utilizam softwares que permitem organizar e gerenciar o acervo, garantindo a recuperação da informação pelo usuário: Specify para coleções biológicas e Language Archive Technology (LAT) para coleções de linguística.

5 Discussão dos resultados

A partir das análises dos PVI, foi possível tecer uma síntese conclusiva para as seis categorias analisadas neste estudo, permitindo estabelecer parâmetros analíticos entre a teoria e a prática da análise de assunto no contexto museológico:

Quadro 5
Quadro geral com a síntese dos resultados por categoria de análise

As categorias de análise demonstraram-se eficazes para observar a prática dos profissionais de museus quanto à representação temática durante a catalogação. Foi possível identificar se realizam a análise de assunto e quais estratégias utilizam para determinar o tema dos objetos. Observou-se, contudo, pouca preocupação com a representação temática durante a catalogação.

De modo geral, os profissionais executam apenas uma ou duas etapas do processo - leitura documentária e, ocasionalmente, identificação de conceitos - sem avançar para a tradução dos conceitos em linguagem documentária. Isso evidencia que a análise de assunto ainda é pouco aplicada na catalogação museológica, seja por falta de conhecimento técnico ou pela ausência de parâmetros metodológicos claros.

A diversidade de tipologias de objetos torna o processo ainda mais complexo, reforçando a necessidade de diretrizes baseadas em fundamentos teórico-metodológicos da Museologia e da Ciência da Informação. Além disso, nota-se a falta de sistematização na leitura documentária e a tendência de recorrer a fontes externas, como cadernos de campo, em vez de desenvolver uma análise centrada no conteúdo informacional do próprio objeto.

Como apontam Ceravolo e Tálamo (2007), identificar assuntos em objetos museológicos é uma tarefa complexa, marcada pela tridimensionalidade e subjetividade dos acervos, além da falta de sistematização do processo. Torna-se evidente, portanto, a necessidade de desenvolver procedimentos e diretrizes específicas para a análise de assunto no contexto museológico, capazes de atender às demandas informacionais das instituições e de seus usuários.

Os resultados indicam que, embora não exista uma sistemática formal - como manual ou política de indexação -, os profissionais analisados compartilham práticas e estratégias comuns para representar tematicamente e organizar seus acervos. Com base nessas observações, foi elaborado um quadro comparativo da análise de assunto realizada pelos profissionais da UFPA e do MPEG:

Quadro 6
Comparativo da análise de assunto nos acervos da UFPA e do MPEG

As análises dos PVI e os quadros 5 e 6 mostram que a realidade dos museus da UFPA e do MPEG é semelhante quanto à análise de assunto. Em ambas as instituições, há ausência de diretrizes específicas, resultando na falta de fundamentos para a organização e representação temática dos acervos. Torna-se indispensável, portanto, a criação de parâmetros metodológicos que orientem a análise de assunto na catalogação museológica.

Conclui-se que, embora seja uma atividade complexa, a análise de assunto é essencial para a recuperação eficiente da informação, devendo receber o mesmo cuidado que o tratamento descritivo. Reafirma-se, assim, a responsabilidade do profissional de museu em realizar essa etapa com rigor e consciência.

A seguir, apresentam-se os aspectos comuns da análise de assunto observados na catalogação museológica dos profissionais investigados:

Quadro 7
Aspectos da análise de assunto comuns entre as análises das catalogações

O quadro 7 demonstra que os museus analisados compartilham aspectos comuns na análise de assunto, apesar da ausência de padronização. Os aspectos destacados em vermelho - “Estratégia de busca” e “Manuais ou diretrizes para análise de assunto” - mostram unanimidade: a busca é delegada e nenhum museu possui manual que oriente a análise. Os aspectos em azul - “Instrumento de controle terminológico” e “Consulta a outras bases” - indicam que a maioria das instituições apresentou respostas semelhantes.

Outros aspectos, como “Leitura documentária” e “Identificação e seleção de conceitos”, estão relacionados à análise de assunto, enquanto “Banco de dados” se refere ao armazenamento da informação, mas os procedimentos variam entre os museus.

Os resultados foram sistematizados no quadro 8, de acordo com a tipologia do objeto museológico e os resultados da catalogação:

Quadro 8
Análise de assunto segundo cada tipologia do objeto museológico

Como pode ser observado no quadro 8, três elementos comuns na leitura documentária foram percorridos por todos os profissionais para determinar o assunto dos objetos:

  • a) elementos textuais - incluem descrições, rótulos ou informações escritas associadas ao objeto, fornecendo pistas sobre seu significado ou função;

  • b) características físicas - englobam a análise visual do objeto, incluindo forma, materiais e dimensões, informando sobre uso ou origem;

  • c) informações contextuais - referem-se ao contexto histórico, artístico, cultural e social em que o objeto foi criado ou utilizado, agregando valor à identificação de seu tema ou função.

Essas três categorias formaram a base do processo de leitura documentária no contexto museológico e foram essenciais para determinar o conteúdo temático dos objetos analisados. A identificação e seleção de conceitos mostrou-se mais complexa, pois cada tipologia exigiu categorias generalizantes distintas, revelando que a interpretação depende tanto de elementos comuns quanto das particularidades de cada acervo.

Observou-se, assim, que cada objeto demandou uma análise própria, considerando suas características e contextos específicos. Os conceitos empregados para cada tipologia foram extraídos das análises realizadas no âmbito do Protocolo Verbal Individual (PVI), configurando-se como um importante recurso para compreender as especificidades e denominar adequadamente os diferentes tipos de objetos.

De modo geral, a leitura documentária do objeto de arte concentrou-se nas intenções do autor, no contexto cultural e histórico e nos materiais utilizados. Já o objeto geológico foi analisado a partir de suas propriedades físicas, composição e contexto de coleta, embora sem identificação formal de conceitos para indexação.

Nos objetos zoológicos, a análise envolveu aspectos biológicos e ecológicos - como morfologia, classificação taxonômica, método de coleta e localização geográfica - fundamentais para compreender sua função e origem científica. Por fim, o objeto etnográfico, representado por um arquivo de áudio, exigiu uma leitura voltada ao conteúdo imaterial, considerando o responsável pela gravação, o tipo de atividade registrada e o contexto temporal e cultural em que foi produzido.

Os exemplos analisados demonstram que diferentes objetos e tipos de registros demandam abordagens flexíveis e especializadas na documentação museológica. Cada tipologia requer estratégias próprias de leitura para a identificação e seleção de conceitos relevantes, evidenciando que não existe um método único aplicável a todos os casos. Essa diversidade de suportes e contextos reforça a importância de instrumentos específicos de análise e interpretação, capazes de revelar tanto o conteúdo físico quanto o contextual de cada objeto museológico.

Entre esses instrumentos, destacam-se os modelos de leitura documentária, que auxiliam o profissional na compreensão mais precisa do objeto e na definição de conceitos adequados à indexação e à recuperação da informação. A adoção de procedimentos metodológicos padronizados, formalizados em um manual, pode garantir maior rigor e coerência ao processo de análise de assunto, promovendo a reflexão crítica sobre as práticas de documentação e assegurando a preservação e o acesso ao conhecimento museológico.

Dessa forma, a diversidade dos acervos exige uma abordagem ao mesmo tempo multifacetada e adaptável, que reconheça categorias comuns sem perder de vista as singularidades de cada objeto. Essa flexibilidade é essencial para uma indexação eficaz e para uma representação precisa da informação no contexto museológico.

Nesse sentido, a proposta apresentada por Carvalho, Redigolo e Fujita (2023) busca sistematizar o processo de análise de assunto de objetos museológicos, com foco nas coleções zoológicas, oferecendo subsídios para a construção de uma metodologia que favoreça tanto a representação temática quanto a recuperação da informação.

O modelo proposto organiza-se em três etapas principais:

Quadro 9
Procedimentos para análise de assunto em coleções zoológicas

A leitura documentária proposta baseia-se em três etapas interdependentes: (1) compreensão do objeto, por meio da observação das características físicas; (2) identificação dos conceitos, a partir de questionamentos sobre o contexto histórico, natural, geográfico, de uso ou simbólico; e (3) seleção dos conceitos, determinando os termos mais adequados para representar o conteúdo temático nos catálogos museológicos.

Essa proposta reforça a necessidade de um modelo sistematizado de leitura documentária, que combine a análise física e contextual dos objetos. Tal abordagem garante coerência entre a representação da informação e o uso que dela se faz nos museus, contribuindo para o avanço das práticas de documentação e para a consolidação da Museologia como campo voltado também à organização e comunicação do conhecimento.

6 Considerações finais

A análise comparativa dos Protocolos Verbais Individuais (PVIs) evidencia que, embora os profissionais de museus demonstrem consciência acerca da importância da leitura e identificação dos assuntos dos objetos museológicos, essa prática ocorre de forma empírica e não sistematizada.

Observou-se que a leitura documentária se concentra majoritariamente nas características físicas dos objetos, enquanto os aspectos contextuais e semânticos são pouco explorados, limitando a representação completa da informação. Tal abordagem contrasta com as recomendações de Silva e Fujita (2004), que defendem a integração de múltiplos níveis de leitura - física, contextual e temática.

Outro ponto relevante é o uso restrito de linguagens controladas, aliado à inexistência de políticas formais de indexação. Essa lacuna reforça a necessidade de diretrizes metodológicas que orientem o processo de análise de assunto, garantindo consistência terminológica e conceitual na catalogação. A ausência de manuais ou políticas específicas contribui para que informações museológicas permaneçam muitas vezes pouco acessíveis para recuperação pelos usuários, evidenciando uma limitação significativa no potencial de uso do acervo.

Diante desses achados, conclui-se que a análise de assunto deve ser formalizada e sistematizada por meio da criação de normas e diretrizes que considerem tanto os princípios da Museologia quanto os fundamentos da Ciência da Informação. Essa abordagem não apenas apoiaria os profissionais na indexação consistente dos objetos museológicos, como também atenderia às necessidades informacionais das comunidades usuárias.

Tais medidas são fundamentais para tornar os acervos museológicos mais acessíveis, confiáveis e consistentes do ponto de vista informacional, promovendo o fortalecimento do papel social e científico das instituições museológicas da região amazônica.

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  • Declaração de disponibilidade de dados
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível em: CARVALHO, R. A.A análise de assunto no contexto museológico: aplicação do protocolo verbal individual nos museus da UFPA e MPEG. 2022. Dissertação (Mestrado em Ciência da Informação) - Instituto de Ciências Sociais Aplicadas, Universidade Federal do Pará, Belém, 2022.
  • Como citar
    CARVALHO, Raul de Azevedo; REDIGOLO, Franciele Marques. A análise de assunto na catalogação museológica: aplicação do protocolo verbal individual em museus amazônicos. Em Questão, Porto Alegre, v. 32, e-146489, 2026. DOI: https://doi.org/10.1590/1808-5245.32.146489

Editado por

  • Editor-chefe
    Thiago Henrique Bragato Barros

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível em: CARVALHO, R. A.A análise de assunto no contexto museológico: aplicação do protocolo verbal individual nos museus da UFPA e MPEG. 2022. Dissertação (Mestrado em Ciência da Informação) - Instituto de Ciências Sociais Aplicadas, Universidade Federal do Pará, Belém, 2022.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    22 Mar 2025
  • Aceito
    30 Set 2025
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