Resumo
A pesquisa1 tem como objetivo compreender os níveis de concordância/discordância dos editores acerca dos critérios de admissão e/ou permanência na Coleção SciELO Brasil. A pesquisa caracteriza-se como descritiva, em relação aos seus objetivos e levantamento frente aos procedimentos técnicos adotados e de natureza qualitativa e quantitativa. Recorreu-se ao questionário com 66 editores de periódicos das universidades federais do Nordeste brasileiro que têm portal de periódicos. No que se refere aos níveis de concordância/discordância dos editores acerca dos critérios de admissão e/ou permanência na Coleção SciELO Brasil, os resultados evidenciaram que a maioria dos critérios alcançaram Ranking Médio que alterna entre 3,3 - Concordância - e acima de 3,5 - Alta concordância. Entretanto, os critérios de registro de ensaios clínicos; registro de material biológico de referência e de sequência de DNA; erratas e retratações; citações recebidas em índices alcançaram Ranking Médio de indiferença. Conclui-se que embora os editores investigados reconheçam a relevância da indexação dos periódicos, a limitação de infraestrutura e de recursos financeiros e humanos constitui-se como o principal obstáculo para que os periódicos das instituições em que atuam como editores alcancem qualidade para admissão e permanência na Coleção SciELO Brasil.
Palavras-chave:
periódicos científicos; indexação; bases de dados - SciELO; editores; universidades e faculdades - Brasil, Nordeste
Abstract
This research aims to comprehend the levels of agreement/disagreement of the editors concerning the criterias of admission and/or permanence in the SciELO Brazil Collection. This research is characterized as descriptive, in relation to its goals and to its data collection regarding the technical procedures adopted and to its qualitative and quantitative nature. We resorted to a survey form with 66 journal editors of federal universities from Brazilian Northeast who have journal portals. Concerning the levels of editors’ agreement/disagreement about the criteria of admission and/or permanence in SciELO Brazil Collection, the result showed that the majority of criterias reached the Medium Raking, which alternate between 3.3 - Agreement - and above 3.5 - High agreement. However, the criteria of clinical trial register; biological material of reference register and the DNA sequel; errata and retractions; and citation received by index reached out the Medium Raking of indifference; disagreement; disagreement; and indifference, respectively. It is possible to conclude that although the investigated editors recognize the relevance of journal indexing, the infrastructure and human resources limitation represent the main obstacles for the journals of the institutions in which they work as editors, to achieve a satisfactory quality for admission and permanence in SciELO Brazil Collection.
Keywords:
scientific journals; indexing; databases - SciELO; editors; universities and colleges - Brazil, Northeast
1 Introdução
A implementação do SciELO foi um marco importante no processo histórico da comunicação científica, contribuindo para que os títulos de periódicos científicos de países do terceiro mundo ampliassem a visibilidade e a credibilidade de suas publicações científicas. Barleta, Silva e Dias (2018, p. 3-4) elucidam que o SciELO é “[...] uma Base de Dados voltada para a publicação de artigos científicos, principalmente desenvolvidos em países da América Latina e do Caribe”. Gonçalves, Ramos e Castro (2006, p. 170), por sua vez, afirmam que o “[...] SciELO é ao mesmo tempo uma coleção de revistas selecionadas em texto completo, uma base de dados bibliográfica e um site de indicadores bibliométricos de uso, citação e acesso às revistas da coleção”. A Clarivate Analytics (2020, p. 1, tradução nossa) classifica o SciELO como sendo “[...] uma base de dados de referências para artigos publicados em mais de 1.000 periódicos de acesso aberto [...]”.
Criado em 1998, o SciELO inicialmente era denominado Projeto SciELO/Brasil (Packer, 2000). Um projeto realizado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) juntamente ao Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (Bireme) e que disponibilizava inicialmente títulos de periódicos científicos de diferentes campos do conhecimento e idiomas. Em 2002, o SciELO passou a ter o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) (Scientific Electronic Library Online, 2008).
Elucida-se que o Projeto SciELO surgiu da necessidade de dois amigos que almejavam ter acesso a títulos de periódicos de forma segura, confiável e gratuita. A parceria foi firmada entre Abel Packer e Rogério Meneghini, em 1994, após um seminário em Itatiaia. Abel Packer trabalhava na Bireme e tinha a ideia de disponibilizar textos completos de títulos de periódicos por meio do computador. Rogério Meneghini, por sua vez, idealizava uma proposta para fazer com que os títulos de periódicos científicos tivessem mais visibilidade e acessibilidade, a partir de uma base de dados (Guedes, 2012).
De acordo com Guedes (2012, p. 58), a proposta de Rogério Meneghini e Abel Packer tinha como meta “[...] avaliar a produção científica do país” e, assim, expandir a sua notoriedade e credibilidade em âmbito internacional.
Inicialmente, a proposta do SciELO tinha dois objetivos principais, conforme elencam Packer, Cop e Santos (2014, p. 44, grifo nosso), em um capítulo do livro intitulado SciELO: 15 anos de acesso aberto: um estudo analítico sobre acesso aberto e comunicação científica:
O primeiro deles é o de acompanhar, adotar e adaptar ao ambiente SciELO a última geração de metodologias e tecnologias de indexação, publicação e interoperação de periódicos online. O segundo é o de aumentar a visibilidade, disponibilidade e uso de artigos completos e melhorar o impacto dos periódicos e das pesquisas que publicam.
Nos objetivos do SciELO, fica clara a preocupação com os avanços de “metodologias e tecnologias” mais adequadas para contribuir com o “impacto dos periódicos”. Além disso, de acordo com Packer e Meneghini (2014), foram priorizadas três linhas para o Projeto SciELO: internacionalização, sustentabilidade e profissionalização, estando estas linhas relacionadas à equidade entre os títulos de periódicos de países desenvolvidos e em desenvolvimento no que se refere à visibilidade e alcance dos títulos de periódicos.
Quando o SciELO surgiu, o movimento de Acesso Aberto ainda não havia se consolidado (Pereira, 2019), reforçando seu pioneirismo no campo científico e o fortalecimento do acesso aberto no Brasil, pois, conforme Guimarães (2018, p. 1), “[...] o Brasil é o país com mais publicação científica em acesso aberto”. De acordo com o relatório internacional Science-Metrix, em 2018, 75,0% dos títulos de periódicos brasileiros podiam ser acessados de forma gratuita, rápida e sem burocracia por meio do SciELO. Em 2018, Barleta, Silva e Dias (2018, p. 3-4) constataram que o SciELO tinha “[...] mais de 1.200 periódicos ativos, 52 mil fascículos de revistas especializadas e mais de 740 mil artigos publicados”.
De acordo com Packer (2014b) e Scientific Electronic Library Online (2022), o SciELO, desde o início, destaca-se por sua importância na editoração científica por meio das características que agrega, tais como: (a) Visibilidade e acesso aberto; (b) Qualidade e credibilidade; e (c) Preservação digital (Packer, 2014a). Quanto à cobertura do SciELO, esta abrange diferentes áreas temáticas, entre elas: Ciências Agrícolas, Ciências Sociais Aplicadas, Ciências Biológicas, Engenharia, Ciências Exatas e da Terra, Ciências da Saúde, Linguística, Letras e Artes, Matemática e Física (Clarivate Analytics, 2020). É importante ressaltar que o Projeto-Piloto contava com apenas dez títulos de periódicos.
Com o sucesso da fase experimental, a Coleção SciELO foi lançada em um workshop, em 1998, na cidade de São Paulo (Antonio; Packer, 1998). Após os três primeiros anos, foi criado um comitê composto pelos representantes da Capes, da Associação Brasileira de Editores Científicos (ABEC), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do CNPq, assim como pelos representantes de áreas temáticas. Logo, os novos periódicos a serem inseridos na plataforma teriam que passar pelo crivo do comitê avaliador científico (Guedes, 2012), uma vez que nos três primeiros anos optou-se por incorporar os títulos de periódicos indexados em bases de dados internacionais - ISI, MEDLINE e American Psychological Association (APA) (Guedes, 2012). Para o autor, o comitê avaliativo consolidou o projeto SciELO “[...] como um mecanismo de excelência acadêmica [...] o trabalho passa a ganhar maior reconhecimento quando entidades de fomento como CNPq e CAPES utilizam o projeto como referência” (Guedes, 2012, p. 65).
O SciELO alcançou relevância no campo científico, pelas razões descritas acima, e ainda porque os periódicos indexados na referida base de dados recebiam um “selo de qualidade”, possibilitando que eles adquirissem subsídios financeiros do CNPq, por meio de editais para editoração de periódicos (Pereira; Rodrigues; Santos, 2020).
Para Packer, Cop e Santos (2014, p. 48), o modelo ou plataforma SciELO “[...] consiste em um conjunto de políticas, princípios, metodologias, tecnologias e procedimentos para implementar, desenvolver e operar uma Coleção SciELO, em âmbito nacional ou temático, bem como para integrá-la à Rede SciELO”. Esse modelo é composto de três elementos - Metodologia SciELO, Coleção de Periódicos do SciELO e Rede SciELO.
Packer, Cop e Santos (2014), ao citarem os componentes do Modelo SciELO, explicitam aspectos como interoperabilidade das coleções, governança e cooperação entre as coleções, evidenciando as percepções dos idealizadores ao tratar da comunicação científica e seus reflexos para o campo científico. Um aspecto essencial que se faz presente no Modelo SciELO é a utilização de critérios de avaliação da coleção de Periódicos SciELO, seja para o ingresso ou para a permanência destes.
Inúmeros títulos de periódicos manifestaram interesse em participar da Coleção SciELO, o que impulsionou o estabelecimento de critérios para direcionar a “[...] avaliação de qualidade de periódicos e, assim, apoiar com evidência os processos de indexação nas coleções SciELO” (Montanari; Packer, 2014, p. 68). De acordo com os autores, esses critérios servem para fundamentar “[...] as decisões sobre a admissão e permanência nas coleções da rede SciELO” (Montanari; Packer, 2014, p. 68).
Esses critérios, embora primem pela qualidade dos títulos de periódicos científicos e estejam em constantes atualizações desde 1999, recebem críticas de alguns pesquisadores pelo rigor. Para Pereira, Rodrigues e Santos (2020, p. 3), “os critérios de indexação e permanência na SciELO são rígidos e exigem uma crescente profissionalização das equipes editoriais que mantém o periódico”, o que demonstra uma preocupação constante da equipe SciELO para com os periódicos.
A partir de janeiro de 2014, uma nova etapa foi adicionada ao programa SciELO - Citation Index (SciELO CI), a qual foi integrada a plataforma WoS (Packer, 2014b). Segundo Alencar e Oliveira (2017, p. 143), a SciELO Citation Index foi “[...] desenvolvida através de parceria entre o Programa SciELO/FAPESP e a Thomson Reuters, através da plataforma Web of Science (WoS)”. Essa integração à plataforma teve dois objetivos a serem alcançados: inserir o “[...] SciELO em um dos índices bibliográficos e bibliométrico de referência internacional [...] operar a indexação dos periódicos SciELO, em particular a contagem de citações em um universo amplo de periódicos [...]” (Packer, 2014b).
Também em 2014, o SciELO Brasil publicizou a primeira versão do documento intitulado Critérios SciELO Brasil: critérios, políticas e procedimentos para admissão e a permanência de periódicos científicos na Coleção SciELO Brasil (Scientific Electronic Library Online, 2014), o qual, em 2022, teve disponibilizada a sua quarta versão. As diferentes versões desse documento norteador para indexação de periódicos no SciELO Brasil vêm acompanhando as discussões sobre comunicação científica. Em 2017, o SciELO adotou o Directory of Open Access Journals (DOAJ) como uma das indicações de qualidade do periódico, pois trata-se de um “[...] índice de periódicos de acesso aberto de qualidade reconhecido globalmente. O DOAJ é gerido por uma associação independente com sede na Suécia tendo como membros organizações de comunicação científica que apoiam o acesso aberto” (Scientific Electronic Library Online, 2022, p. 30).
Destaca-se também a preocupação do SciELO Brasil acerca da transparência e compartilhamento dos periódicos nos diferentes campos científicos, ao adotar a Ciência Aberta. Inicialmente, em 2020, as orientações sobre Ciência Aberta constavam apenas como critério para admissão e permanência do periódico na base. Em 2022, por sua vez, estas passaram também a constar como “princípios do Programa SciELO”, explicitando-a como razão primária para pleitear a admissão na coleção.
As quatro dimensões adotadas pelo SciELO sintetizam a urgência em publicizar os resultados de pesquisa, por meio de preprint ou da adoção de fluxo contínuo dos periódicos científicos, retroalimentando o processo cíclico da comunicação científica. O acesso aos documentos, que ainda não estão em suas versões finais, dá celeridade à pesquisa, pois o emprego dessa modalidade dispensa a revisão por pares. Contudo, o preprint é opcional, e o periódico precisa ter suas políticas adaptadas quanto à submissão de preprints em um servidor reconhecido formalmente.
Ao analisar as dimensões também chama atenção o fato de que o SciELO tem a necessidade de partilhar com seus pares os “dados, códigos, métodos e outros materiais” de suas pesquisas. Os pesquisadores-autores devem ser orientados quanto à inclusão de todos os dados ou materiais implícitos usados ou resultantes da pesquisa e que não constam explícitos no texto.
Além da observância do alinhamento com a Ciência Aberta, o referido documento elenca outros critérios para admissão e permanência na Coleção SciELO Brasil, tais como:
-
a) tempo de existência para admissão;
-
b) caráter científico - artigos de pesquisa e alinhamento com a Ciência Aberta;
-
c) tipos de documentos;
-
d) relevância, sustentabilidade e qualificação editorial;
-
e) multilinguismo - texto completo e metadados;
-
f) avaliação de manuscritos informada:
sistema ou serviço de gestão da avaliação de manuscritos;
tempo médio de processamento dos manuscritos;
internacionalização da avaliação de manuscritos;
- boas práticas de ética na comunicação científica:
- créditos aos(às) autores(as);
- registro de ensaios clínicos;
- registro de material biológico de referência e de sequências de DNA;
- verificação de similaridade;
- erratas e retratações.
-
g) fluxo de produção editorial - periodicidade, pontualidade e quantidade de artigos;
-
h) estruturação dos textos, citações e referências bibliográficas e autoria:
textos em XML - SciELO Publishing Schema;
autoria - identificação dos(as) autores(as), sua afiliação institucional e contribuição;
identificação ORCID iD;
afiliação institucional dos(as) e autores(as).
-
i) indexação requerida e avaliação por citações recebidas:
indexação do periódico e dos metadados dos artigos no DOAJ;
indexação dos metadados no Crossref;
citações recebidas em índices ou base de dados bibliométricas.
-
j) marketing e divulgação científica;
-
k) interoperabilidade - resumo das condições metodológicas;
-
l) responsabilidades sobre os conteúdos publicados.
Constata-se que os critérios para admissão e permanência na Coleção SciELO Brasil referem-se não apenas ao processo de produção dos periódicos, mas também ao gerenciamento e disseminação dos artigos publicados nesse canal de comunicação científica. Para tanto, periodicamente são elaborados e discutidos no Comitê Consultivo relatórios de desempenho, pois cada periódico tem seu desempenho avaliado não apenas individualmente, mas também em conjunto, pois “A regra básica [do SciELO] é melhorar de forma sustentável o desempenho dos periódicos individuais, das áreas temáticas e da Coleção como um todo” (Scientific Electronic Library Online, 2022, p. 38). Tudo depende do bom rendimento do periódico, caso contrário, há prejuízo para sua área temática, o que contribui para a exclusão do título da coleção (Scientific Electronic Library Online, 2022).
Toda a qualidade alcançada pelos periódicos indexados no SciELO tem influenciado nos critérios de classificação de periódicos empregados pelos docentes-pesquisadores e discentes de programas de pós-graduação do Brasil para disseminar os resultados de suas pesquisas. Isso porque, durante o Qualis Periódicos da Capes, o fato de o periódico estar indexado no SciELO é um dos critérios para que esteja bem classificado. Ortellado (2008), ao discutir sobre políticas nacionais de acesso à informação produzida no campo científico, cita que, em pesquisa realizada pelo Qualis Periódicos da Capes, entre os títulos de periódicos brasileiros classificados como “internacional A”, 58,0% deles estavam indexados na base de dados SciELO. Guedes (2012, p. 83) também reconhece a influência do SciELO no Qualis Periódicos, ao afirmar que:
[...] com o surgimento e consolidação do projeto SciELO, possibilitando maior visibilidade, acesso e impacto aos periódicos nacionais, houve uma crescente demanda baseada nos resultados do SciELO para que o mesmo fosse mais valorizado dentro dos critérios Qualis, fornecendo melhor qualificação aos periódicos presentes no projeto, e por conseguinte valorizando-se a produção nacional nos periódicos nacionais.
Outros autores também reconhecem a importância do SciELO na definição dos critérios durante a avaliação dos periódicos científicos. De acordo com os autores, “[...] alguns comitês de avaliação da Capes Qualis têm a indexação no SciELO como um dos parâmetros para classificação nos estratos mais altos A1, A2, A3, ou A4, a exemplo das áreas de História, Educação, Antropologia e Arqueologia” (Pereira; Rodrigues; Santos, 2020, p. 3). Pode-se compreender que os critérios exigidos pelo SciELO, por si só, traduzem o nível de qualidade, confiabilidade, credibilidade e rigor científico do periódico. Enfatiza-se que o SciELO (2020) orienta-se pelas boas práticas, a exemplo do Guia SciELO de Boas Práticas para o Fortalecimento da Ética na Publicação Científica” e dos Princípios de Transparência e Boas Práticas em Publicações Acadêmicas, o que demonstra o reconhecimento pela Capes, além de certificar a qualidade da produção intelectual disponibilizada no SciELO.
Dito isso, o presente artigo elegeu como problema de pesquisa, a seguinte pergunta: como os editores dos títulos de periódicos científicos das universidades federais do Nordeste brasileiro avaliam os critérios de admissão e/ou permanência dos periódicos na Coleção SciELO Brasil? Para responder à pergunta de pesquisa, definiu-se como objetivo: compreender os níveis de concordância/discordância dos editores de títulos de periódicos científicos das universidades federais do Nordeste brasileiro acerca dos critérios de admissão e/ou permanência na Coleção SciELO Brasil. Elucida-se que a pesquisa se justifica pelo número diminuto de produções científicas acerca da temática - indexação de periódicos científicos, recuperados na Base de Dados em Ciência da Informação (BRAPCI).
2 Procedimentos metodológicos
A pesquisa caracterizou-se como descritiva e como levantamento. Para tanto, decidiu-se trabalhar com uma amostra de editores que atuam em periódicos científicos das instituições que participariam desta investigação. Com isso, antes de selecionar a amostra que comporiam o corpus da pesquisa, fez-se necessário trilhar duas etapas. A primeira etapa consistiu no mapeamento realizado no Cadastro e-MEC, para identificar as universidades federais do Nordeste brasileiro.
Para a segunda etapa, realizou-se a consulta nos portais das universidades identificadas na primeira etapa, para verificar a existência de portal de periódicos nas referidas instituições. Do total de 18 instituições, 14 universidades federais no Nordeste brasileiro dispõem de portal de periódicos, sendo então selecionadas para fazerem parte da investigação - Universidade Federal de Alagoas; Universidade Federal da Bahia; Universidade Federal da Paraíba; Universidade Federal de Campina Grande; Universidade Federal de Pernambuco; Universidade Federal de Sergipe; Universidade Federal do Cariri; Universidade Federal do Ceará; Universidade Federal do Maranhão; Universidade Federal do Piauí; Universidade Federal do Recôncavo da Bahia; Universidade Federal do Rio Grande do Norte; Universidade Federal Rural de Pernambuco; e Universidade Federal Rural do Semi-Árido. O fato de as 14 universidades federais do Nordeste brasileiro terem portal de periódicos não se constitui como objeto de investigação deste estudo. Identificá-las fez-se necessário para eleger o corpus da pesquisa.
Para a coleta de dados, foram cumpridas três etapas: a primeira etapa da coleta de dados ocorreu no portal de periódicos das instituições investigadas. Nessa etapa, optou-se por elaborar uma planilha eletrônica no Microsoft Excel, para mapear o nome do editor do título do periódico com seu contato de e-mail e telefone.
A segunda etapa da coleta dos dados consistiu em aferir os títulos de periódicos das universidades investigadas que não se encontravam indexados no SciELO. Para tanto, foi realizada uma pesquisa no endereço eletrônico do SciELO Periódicos, empregando como estratégia de busca o link “Periódicos ativos” e o campo “Título exato”. As informações referentes a essa etapa da coleta de dados foram inseridas na planilha, elaborada na primeira etapa da coleta de dados desta pesquisa.
Quanto à terceira etapa da coleta de dados, decidiu-se por aplicar um questionário elaborado na ferramenta Google Forms, junto aos editores de periódicos das universidades federais do Nordeste brasileiro, cujos títulos dos periódicos, até a realização desta pesquisa, não se encontravam indexados no SciELO.
É oportuno esclarecer que para este artigo apresenta-se os resultados de uma pergunta de múltipla escolha do referido instrumento de coleta de dados empregado para coletar os dados na pesquisa de Mestrado, conforme informado anteriormente. A referida questão estava estruturada em quatro eixos definidos com base no documento intitulado Critérios, políticas e procedimentos para a admissão e a permanência de periódicos na Coleção SciELO Brasil - infraestrutura; credibilidade e visibilidade; indexação de metadados e responsabilidade sobre as contribuições dos autores. Em 29 de abril de 2024, o questionário foi enviado, por e-mail, para 404 editores de títulos de periódicos selecionados para investigação. No que se refere aos procedimentos éticos, esclarece-se que durante a coleta dos dados foi solicitado o consentimento dos editores, para participação voluntária na pesquisa.
Desse total, 38 e-mails retornaram informando a impossibilidade de entrega da mensagem. O questionário ficou disponível até o dia 29 de julho de 2024, para 363 editores de títulos de periódicos das universidades federais do Nordeste brasileiro. Dois títulos de periódicos foram excluídos da investigação porque os editores informaram que os referidos periódicos foram criados como recurso pedagógico a serem utilizados em disciplinas que ministravam, totalizando 402 editores de títulos de periódicos.
Fizeram parte desta investigação 66 (18,1%) editores que tiveram as respostas do questionário validadas e analisadas. A taxa de retorno ultrapassa a preconizada por autores como Mulligan, Hall e Raphael (2013), que defendem 10,0% como taxa satisfatória de retorno para questionários on-line. Galan e Vernette (2000), por sua vez, defendem que um retorno de 7,0% a 13,0% em pesquisas que envolvem questionários on-line é considerado positivo.
A análise dos dados dividiu-se em três etapas: a primeira etapa consistiu em transformar as variáveis em “medida ordinal”, a partir do cálculo de Ranking Médio (RM) da Escala Likert. De acordo com Oliveira (2001, p. 15), os resultados desse cálculo “[...] informam qual seu grau de concordância ou discordância. É atribuído um número a cada resposta, que reflete a direção da atitude do respondente em relação a cada afirmação. A somatória das pontuações obtidas para cada afirmação é dada pela pontuação total da atitude de cada respondente”.
Nesta fase da análise da Escala Likert, foram atribuídos valores de um a cinco para cada nível de concordância proposto no questionário e, consequentemente, calculou-se a média ponderada para cada proposição. Sobre o emprego de média em Escala Likert, Burke (19532apud Costa Júnior et al., 2024, p. 369) esclarece que “o uso da média e do desvio padrão da amostra não agride os dados, quaisquer que sejam as propriedades da escala de medida. Assim, o uso dos testes estatísticos usuais é limitado apenas pelas conhecidas restrições estatísticas”.
Na segunda etapa da análise da escala, os dados foram agrupados, para que em seguida fosse realizada a multiplicação entre a frequência - o número de resposta dos editores para cada ponto da Escala Likert - e o valor atribuído a cada resposta e/ou peso (de um a cinco); por exemplo3: de 46 respondentes, sete editores “discordam totalmente” sobre o tempo médio de existência do periódico, cujo valor atribuído ao “discordo totalmente” equivale a um. A partir desse valor, multiplica-se sete (total de editores que responderam “discordo totalmente”) por um (valor atribuído à referida proposição - discordo totalmente). Esse procedimento é repetido para todos os pontos da Escala Likert, para que, em seguida, seja realizada a somatória de cada valor da Escala Likert e assim alcançar a Média Ponderada (MP), como expõe a Fórmula 1. Esclarece-se que para os cálculos do RM e da MP - Fórmulas 1 e 2 - teve-se como base as orientações de Cassiano (2005), Malhotra (2001) e Tresca e Rose Júnior (2000).
Fórmula 1
Onde:
MP = Média Ponderada;
Fi = Frequência de cada resposta no questionário para cada proposição;
Vi = Valor atribuído a cada resposta e/ou peso (1 a 5); e
∑ = Somatória.
Exemplo:
Quanto ao cálculo do RM, este é calculado a partir da divisão da MP pelo número de editores que responderam ao questionário, conforme descrito na Fórmula 2.
Fórmula 2
RM = MP/N
RM= 142/46
RM= 3,08
Onde:
RM = Ranking Médio
MP = Média Ponderada
N = Número de editores respondentes
Após fazer os cálculos de cada proposição, utilizando as Fórmulas 1 e 2, realizou-se na terceira etapa a regra de três, para obter a porcentagem e a ideia global das opiniões dos editores, lembrando que o total de respondentes do questionário foi 46 (100,0%) editores. Desse total, 11 (23,9%) editores responderam “concordaram parcialmente” acerca do tempo mínimo de existência do periódico para ser admitido pelo SciELO.
Exemplo:
46 respondentes --------------- 100,0%
11 “concordam parcialmente” ----- X
46x= 1.100
X= 1.100/46
X= 23,91%
Para auxiliar a análise dos dados, decidiu-se subdividir os critérios para admissão e a permanência de periódicos científicos na Coleção SciELO Brasil em quatro eixos, como forma de reunir os dados cuja temática convergiam, tornando-os mais fáceis de serem compreendidos: (a) “infraestrutura”; (b) “credibilidade e visibilidade”; (c) “indexação e metadados”; e (d) “responsabilidade sobre os conteúdos dos autores”.
Para melhor compreensão da operacionalização da análise na perspectiva da Escala Likert, como por exemplo, de uma visão parcial do eixo “infraestrutura”, empregou-se o quantitativo de 46 respostas.
Elucida-se que se recorreu a Escala Likert de cinco pontos - “discordo totalmente”; “discordo parcialmente”; “nem concordo/nem discordo”; “concordo parcialmente”; e “concordo totalmente”, para calcular o RM. Assim, os valores foram atribuídos, conforme elencados a seguir:
-
a) 3,0 - discordância;
-
b) entre 3,1 e 3,2 - indiferença;
-
c) a partir de 3,3 - concordância;
-
d) iguais a 3,4 - concordância máxima;
-
e) acima de 3,5 - alta concordância.
Essa estratificação foi necessária por indicar níveis de concordância diferentes. Em determinados critérios de adesão/permanência do periódico no SciELO Brasil, pode ser registrado RM 3,0, correspondendo à “discordância” podendo registrar até a totalidade da escala, indicando “alta concordância”.
3 Análise dos dados
Nesta seção, os resultados estão descritos conforme os eixos eleitos e indicadas nos procedimentos metodológicos - “infraestrutura”; “credibilidade e visibilidade”; “indexação de metadados”; e “responsabilidade sobre as contribuições dos autores”.
3.1 Infraestrutura
Neste eixo, encontram-se as análises das proposições “tempo médio de existência do periódico para admissão”; “multilinguismo - texto completo e metadados”; “sistema de gestão da avaliação de manuscritos”; “tempo médio de processamento dos manuscritos”; “fluxo de produção editorial”; “estruturação dos textos, citações e referências”; “afiliação institucional dos(as) autores(as)”; “marketing/divulgação”; “registro de ensaios clínicos”; e “registro de material biológico”.
Os resultados revelaram que o “tempo médio de existência do periódico para admissão” alcançou RM 3,3 - “concordância” (, expondo que os editores investigados concordam com o critério de tempo mínimo de existência do periódico (Tabela 3). O tempo médio de existência do periódico beneficia os periódicos mais antigos, em contrapartida, os periódicos mais novos sofrem por não possuir um grande volume de citações. Nesse cenário, o índice h5 é uma estratégia para dirimir essa questão, como esclarece Caregnato e Vanz (2020). De acordo com as autoras, o índice h5 permite “dirimir o problema da idade, já que permite a comparação entre periódicos mais novos com os mais velhos. Além disso, distribuição de citações em uma revista é irregular, sendo que cerca de 20,0% dos artigos recebem 60,0% das citações, o que pode enviesar as análises baseadas nesses indicadores de citação” (Caregnato; Vanz, 2020, p. 12).
O “multilinguismo - textos completos e metadados” consiste na utilização de inúmeros idiomas tanto no texto completo como nos metadados do periódico e tem sido uma prática crescente e necessária para a internacionalização desse canal de comunicação. Os editores de países que não têm a língua inglesa como nativa se esforçam para ampliar o acesso e a disseminação dos conteúdos do periódico científico, e publicam nessa língua inglesa também para atrair autores em especial de países originários do inglês que possam contribuir com o periódico. Os resultados evidenciaram que a maioria dos editores concorda que deve haver mais de um idioma no periódico. Nesse aspecto, a maioria dos editores 18 (27,2%) responderam “concordo totalmente” e 22 (33,3%) “concordo parcialmente”, reafirmando o grau de concordância entre os editores sobre a importância quanto ao multilinguismo e ao reconhecimento da essencialidade de tornar o periódico mais acessível à comunidade internacional, o que pode resultar em aumento da visibilidade. Guédon (2011) informa que o multilinguismo possibilita um alcance maior do conhecimento científico, sobretudo se estiver indexado em uma base de dados internacional. Também chama a atenção que oito (12,1%) editores tenham informado que “discordam totalmente” e cinco (7,5%) “discordam parcialmente” do multilinguismo.
O valor RM para o multilinguismo corresponde a 3,3 - “concordantes”, o que possibilita inferir que entre os editores investigados se evidenciou boa adesão sobre o emprego de múltiplos idiomas na editoração do periódico científico. Demonstra também uma compreensão crescente de que o acesso aos resultados da pesquisa publicado em periódicos com mais de um idioma pode aumentar o impacto das publicações e a visibilidade deste.
No que se refere ao “sistema de gestão da avaliação de manuscritos”, constatou-se que 22 (33,3%) editores participantes “concordam totalmente” e 16 (24,2%) “concordam parcialmente” com a eficácia dos sistemas de gestão. Do total de respondentes, apenas sete (10,6%) editores “discordam totalmente”. O “sistema de gestão da avaliação de manuscritos” consiste em etapas de análise dos manuscritos que se interligam. No que tange ao processo de avaliação por pares, Nassi-Calò (2015) afirma que “[...] apesar de ser alvo de críticas a respeito de sua eficiência e transparência, a avaliação de manuscritos por pesquisadores pares nas suas diferentes formas prevalece historicamente como sendo a mais utilizada”.
Essa proposição alcançou RM de 3,4, o que expressa uma percepção positiva de “concordância máxima”. A adoção do uso do sistema de gestão da avaliação de manuscritos é importante para agilizar a análise e possibilitar a transparência de todo o processo editorial.
Vários fatores podem influenciar o “tempo médio de processamento dos manuscritos”, principalmente como resultado da infraestrutura que o editor dispõe para gerenciar o processo editorial. Hohendorff e demais autores (2016, p. 1) explicam que “O tempo para que um processo de revisão seja concluído é estimado [...] em aproximadamente dois a três meses, porém, esse tempo dependerá do tamanho e complexidade do manuscrito e do número de revisores envolvidos”.
Vinte e cinco (37,8%) editores responderam que “concordam parcialmente” que o tempo médio de processamento deve ser um critério de admissão ou permanência do periódico na Coleção SciELO Brasil. O RM dessa proposição é de 3,6, revelando “alta concordância” entre os editores investigados, o que pode ser resultante da infraestrutura que esses editores dispõem em suas instituições.
Com relação ao “fluxo de produção editorial”, 22 (33,3%) editores indicaram a opção “concordo parcialmente” e 18 (27,2) “concordo totalmente”. O RM de 3,4 sugere uma visão positiva sobre o fluxo de produção editorial, com uma indicação de “concordância máxima” (Tabela 5).
No que se refere à relação à proposição “estruturação dos textos, citações e referências”, o cenário é semelhante ao da proposição “fluxo de produção editorial”, no que tange ao RM de 3,4 - “concordância máxima”, na percepção dos editores. Sobre a proposição “estruturação dos textos, citações e referências”, os resultados revelaram que 24 (36,3%) editores “concordam totalmente” sobre a dificuldade de atender a esse critério da Coleção SciELO Brasil e 11 (16,6%) “concordam parcialmente”. Compreende-se que é importante fazer a correta estruturação dos textos e das citações, para manter a integralidade da pesquisa e atender aos critérios da Coleção SciELO Brasil, pois a não efetivação dessa prática pode comprometer a receptividade do periódico na referida base, assim como em outras bases de dados.
No que concerne à “afiliação institucional do(as) autores(as)”, 28 editores (42,4%) “concordam totalmente” que essa proposição é relevante, embora as opções “discordo totalmente” e “discordo parcialmente” tenham obtido 11 (16,6%) resposta cada uma. O RM de 3,4 “concordância máxima” revela uma percepção positiva por parte dos editores. Sete (10,6%) editores assumiram uma posição neutra “nem concordo/nem discordo”, o que revela que nem todos os editores compreendem a afiliação institucional como um fator determinante para a qualidade das publicações, consequentemente, como critérios para admissão e/ou permanência no SciELO Brasil.
A proposição “marketing e divulgação” logrou RM de 3,5 - “alta concordância” - indicando percepção levemente mais positiva do que a proposição “afiliação institucional dos(as) e autores(as)”. Vinte e um (31,8%) editores “concordam parcialmente” que esse critério deva ser observado pelo SciELO Brasil; por sua vez, três (4,5%) editores “discordem totalmente”. O resultado constata um reconhecimento sobre a importância do marketing por uma parte dos editores, embora não muito consolidada, demandando maior sensibilização desses profissionais acerca do marketing e divulgação. Conforme argumentam Silveira e Silvia (2020, p. 201, grifo nosso), o “[...] pesquisador precisa adaptar-se às novas estratégias de comunicação, compartilhamento de dados e ideias com o uso das mídias sociais e serviços de marketing baseados na era digital”.
Assim como no campo social, no científico, é essencial o desenvolvimento de estratégias de marketing para melhorar a visibilidade das produções científicas, mais leve e aprazível, para alcançar diferentes faixas etárias de público. No campo social, os jovens elaboram de forma natural e engraçada conteúdos nas redes sociais, aumentando o número de engajamento e seguidores em determinadas redes sociais como o Instagram e o X, antigo Twitter. A editoras precisam adotar essas redes sociais para que suas publicações ampliem o alcance junto ao público almejado.
A análise das percepções dos editores em relação aos “registros de ensaios clínicos” e “registro de material biológico e de referência e de sequências de DNA” revela nuances importantes sobre o cenário da editoração de periódico científico no Brasil. O registro de ensaios clínicos é essencial para a integridade, transparência e credibilidade nas pesquisas médicas. No que diz respeito ao “registro de ensaios clínicos”, do total de respostas recebidas, 13 (19,6%) editores marcaram, em relação ao critério “registro de ensaios clínicos”, a opção “concordam totalmente” (Tabela 7).
Com relação ao “registro de material biológico e sequências de DNA”, 12 (18,1%) editores “concordam totalmente” e seis (9,0%) “concordam parcialmente”. As 34 (51,5%) respostas neutras “nem concordo/nem discordo” expressam uma desconfiança ou falta de clareza na percepção do referido critério ou distanciamento do periódico em relação à área do conhecimento ao qual está vinculado.
Importante refletir que tanto a proposição “registro de ensaios clínicos” quanto “registro de material biológico e sequências de DNA” alcançaram RM baixo - 3,1 “indiferença” e 3,0 “discordância”, respectivamente. Essa percepção dos editores pode ser resultante da área do conhecimento em que o periódico está inserido, conforme a classificação do SciELO Brasil, pois oito editores haviam informado que o periódico pertencia às “Ciências da Saúde” e dois à área das “Ciências Biológicas”, ou pela área de conhecimento da graduação desses editores.
3.2 Credibilidade e visibilidade
O eixo “credibilidade e visibilidade” envolve “caráter científico”; “relevância e qualificação editorial”; “internacionalização da avaliação de manuscritos”; “boas práticas de ética na comunicação científica”; “verificação de similaridade”; e “erratas e retratações”.
Com relação à proposição “caráter científico”, o RM foi 3,5, o que revela uma percepção positiva, que equivale à “concordância máxima”. Como assevera Castro (2011), a editoração científica passa por etapas imprescindíveis para validação das publicações e para atender ao caráter científico. Ainda sobre esse critério do SciELO Brasil, 27 (40,9%) editores “concordam totalmente” que as publicações mantenham caráter científico, embora 11 (16,7%) “discordam totalmente” (Tabela 8).
Quanto à “relevância, sustentabilidade e qualificação editorial”, o RM obtido corresponde a 3,7, o que expõe uma percepção ainda mais positiva de “alta concordância”. Para Rozemblum e demais autores (2015, p. 67, tradução nossa), “[...] ‘qualidade editorial’ é constituída pelos elementos contextuais do periódico, formais, que explicitam e asseguram as regularidades na gestão do periódico [...]”.
No campo científico, existe forte tendência para que as práticas de publicação promovam a internacionalização da avaliação de manuscritos. Os resultados revelam RM de 3,8, o que demonstra a “alta concordância” na aceitação dessa proposição pelos editores. As respostas da maioria dos editores se concentraram entre “concordo parcialmente” e “concordo totalmente” - 26 (39,3%) e 20 (30,3%), respectivamente. Como observam Packer (2014b) e Scientific Electronic Library Online (2022), a internacionalização destaca-se por sua importância na editoração científica, em especial pelo que agrega ao periódico.
A alta taxa de concordância entre os editores indica não apenas uma tendência, mas uma possibilidade estratégica para os periódicos científicos, pois impulsiona o:
[...] aumento sustentável da visibilidade e impacto da Coleção como um todo, [...] dos periódicos que indexa e publica e das pesquisas que comunicam. A avaliação é convergente com as políticas nacionais de avanço da pesquisa, [...] e com os padrões internacionais de indexação, publicação, interoperabilidade e de avaliação de desempenho de periódicos de qualidade (Scientific Electronic Library Online, 2022, p. 4).
Em relação às “boas práticas de ética na comunicação científica”, o RM de 3,4 indica uma percepção positiva dos editores, que corresponde à “concordância máxima”. Vinte e oito (42,4%) respondentes marcaram a opção “concordo totalmente” afirmando que essas práticas são adequadas. Conforme ressalta o Scientific Electronic Library Online (2020, p. 22), as boas práticas de ética na comunicação científica “[...] aplicam-se à gestão do periódico e suas práticas editoriais com ênfase nas relações com os(as) autores(as) e especialmente na avaliação dos seus manuscritos”.
Embora sejam reconhecidas como importante por parte dos respondentes, percebe-se também a urgência de fortalecer a percepção de alguns editores, visto que dez (15,1%) editores marcaram a opção “nem concordo/nem discordo”.
A análise da percepção dos editores sobre a “verificação de similaridade” alcançou o RM de 3,3 - “concordância”. A verificação de similaridade e/ou plágio, pode ser depreendida como “[...] essencialmente uma questão ética que consiste no ato de apropriar-se, de qualquer forma ou meio, de uma obra intelectual de outra pessoa, apresentando-a como de sua autoria. [...] omitindo deliberadamente os créditos para o autor original” (Wachowicz, 2015, p. 2). Sobre essa proposição, embora 19 (28,7%) editores tenham respondido que “concordam totalmente” com o referido critério do SciELO Brasil, 12 (18,1%) editores informaram “discordo totalmente”.
A errata, também conhecida como correction no inglês, é uma “[...] modificação ou correção de material publicado previamente” (Scientific Electronic Library Online, 2020, p. 41). Os conteúdos veiculados por periódicos às vezes contêm informações que passaram desapercebidas no processo de avaliação e edição, mas que demandam ajustes. Sendo assim, são emitidas as erratas com as correções que garantem a integridade da pesquisa. Packer e Salgado (2015, p. 1) advertem que “Os artigos e outros tipos de documentos publicados por periódicos podem conter incorreções [...]”. Os autores complementam que nestes casos, “[...] tem dois procedimentos principais de retificação de acordo com o tipo, gravidade e implicâncias da correção detectada. O primeiro deles é a publicação de umaerrata(ouretificação) [...] o segundo, é a publicação de umarepresentação [...]”.
Com relação a essa proposição, os resultados apresentam um aspecto importante, pois, do total de respondentes, oito (12,1%) editores marcaram a opção “discordo parcialmente” revelando ausência de segurança acerca das “erratas e retratações” quando necessário, por parte dos artigos publicados nos periódicos. O RM dessa proposição atingiu 3,0, o que reflete uma percepção de “discordância”.
3.3 Identificação de metadados
Neste eixo, encontram-se as análises das proposições “Orcid iD”; “indexação do periódico e metadados no DOAJ”; “indexação dos metadados no Crossref” e “citações recebidas em índices”.
A proposição “identificação Orcid iD” totalizou RM de 3,5, indicando a percepção de “alta concordância”. Entre os respondentes, 29 (43,9%) editores marcaram a opção “concordo totalmente”, enquanto 12 (18,1%) respondentes informaram “discordo totalmente”. Como ressalta a Open Researcher and Contributor ID (2023), o Orcid iD funciona como um identificador de pesquisador-autor, que substitui as variações dos nomes dos autores por um código único e gratuito, que acompanha a carreira do pesquisador-autor, além de estabelecer conexões entre a produção desse profissional. Essa prática permite que o pesquisador-autor consiga ser reconhecido e citado, mesmo que tenha adotado ao longo de sua carreira profissional vários nomes e sobrenomes nas publicações.
Sobre a proposição “indexação do periódico e metadados no DOAJ”, constatou-se RM de 3,4 - “concordância máxima”, lembrando que a indexação em diretórios como o DOAJ é fundamental e indispensável para garantir a acessibilidade e visibilidade dos periódicos, por ser de “[...] acesso aberto de qualidade reconhecido globalmente” (Scientific Electronic Library Online, 2022, p. 30). Entre os respondentes, 24 (36,3%) editores marcaram a opção “concordo totalmente” com a indexação no DOAJ; em contrapartida, 13 (19,6%) editores sinalizaram “discordo totalmente”. Observou-se também que 12 (18,1%) editores optaram por uma resposta neutra “nem concordo/nem discordo”.
A indexação correta dos metadados é imprescindível para a disseminação do conhecimento científico, nessa perspectiva, a inclusão dos metadados no Crossref promove o rastreamento das citações, assim como proporciona a melhora da visibilidade das publicações. Os resultados acerca da percepção dos editores sobre a “indexação dos metadados no Crossref” atingiram RM de 3,5, o que sugere percepção positiva entre os editores - “alta concordância”. Entre editores, 22 (33,3%) responderam “concordo totalmente” e 15 (22,7%), “concordo parcialmente”, logo a maioria reconhece a substancialidade dessa prática para aumentar a visibilidade e garantir a acessibilidade das publicações (Tabela 12).
No que diz respeito às “citações recebidas em índices”, o RM atingiu 3,2 - “indiferença”. Entre os respondentes, 16 (24,2%) editores destacaram a opção “concordo totalmente” e 18 (27,2%), “concordo parcialmente”. Nesse sentido, Caregnato e Vanz (2020, p. 14) informam que “Bons artigos serão, presumivelmente, lidos pela comunidade científica e citados, levando às revistas a alcançarem bons indicadores de citação”.
3.4 Créditos aos(às) autores(as), autoria - responsabilidade sobre as contribuições dos autores e responsabilidade sobre os conteúdos
Neste eixo, encontram-se as análises das proposições “créditos aos(às) autores(as)”, “autoria - responsabilidade sobre as contribuições dos autores” e “responsabilidade sobre os conteúdos”. É importante destacar que, neste eixo, todas as três proposições obtiveram RM 3,3 - “concordo”, reforçando que concordam com a atribuição dos créditos aos autores das publicações. A proposição “créditos aos(às) autores(as)” alcançou 22 (33,3%) editores, com “concordo totalmente”, em oposição ao número de editores - sete (10,6%) - que marcaram a opção “discordo totalmente” desse critério da Coleção SciELO Brasil. A atribuição das contribuições dos autores é um fator importante, por garantir a ética e a responsabilidade sobre os conteúdos publicados. A atribuição devida dos créditos aos autores é crucial para a garantia dos direitos autorais dos respectivos autores, e deve ser uma prioridade da editora.
Ainda sobre este eixo - a proposição “autoria - responsabilidade sobre as contribuições dos autores” - 27 (40,9%) editores responderam “concordo totalmente” que a autoria deve refletir sobre a responsabilidade das contribuições e precisa ser um dos critérios em todas as bases, a exemplo da Coleção SciELO Brasil. No entanto, 13 (19,6%) editores informaram “discordo totalmente”.
A responsabilidade sobre o conteúdo é a base da ética na comunicação científica, o que torna imprescindível para a conservação da credibilidade da pesquisa e, por conseguinte, na publicação do periódico. A respeito da “responsabilidade sobre os conteúdos”, 25 (37,8%) editores marcaram a opção “concordo totalmente”, mas 12 (18,1%) editores informaram “discordo totalmente”.
4 Considerações finais
Diferentes são os critérios para indexação de periódicos científicos na Coleção SciELO Brasil, os quais nem sempre conseguem ser atendidos pelos editores de periódicos. Este estudo buscou compreender os níveis de concordância/discordância dos editores acerca dos critérios de admissão e/ou permanência na Coleção SciELO Brasil. Os resultados revelam que a maioria dos critérios de admissão e/ou permanência na Coleção SciELO Brasil obteve RM entre 3,3 - “concordância” - e acima de 3,5 - “alta concordância”, embora critérios mais específicos de periódicos da área da saúde tenham apresentado níveis que variam entre “indiferença” e “discordância”, a exemplo de “registro de ensaios clínicos”; “registro de material biológico de referência e de sequência de DNA”; e “erratas e retratações”.
Dito isso, os resultados evidenciam que embora os editores investigados reconheçam a relevância de indexação dos periódicos e tenham interesse em realizar nos periódicos que atuam, a limitação de infraestrutura e de recursos financeiros e humanos tende a constituir-se como os principais obstáculos para alcançar esse objetivo, em especial no que se refere aos padrões de qualidade para admissão e/ou permanência na Coleção SciELO Brasil. Nestas reflexões, é importante destacar que os critérios para admissão e/ou permanência na coleção são padrões que independem do tempo de consolidação do periódico, como também da área do conhecimento ao qual o periódico encontra-se inserido, o que pode inviabilizar a indexação de alguns títulos de periódicos, em especial os não consolidados.
Destaca-se que o objetivo deste estudo foi alcançado, contudo, recomenda-se que novas pesquisas sejam realizadas para acompanhar possíveis mudanças da percepção dos editores de periódicos científicos de universidades federais do Nordeste brasileiro em relação aos critérios de admissão e permanência de periódicos na Coleção SciELO Brasil. Recomenda-se também que outras instituições, inclusive de outras regiões brasileiras, façam parte de novas pesquisas, para ampliar e robustecer ainda mais os resultados.
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Como citar
FERREIRA, Emmanoella Patrocinio; RODRIGUES, Kátia de Oliveira. Critérios da coleção SciELO Brasil: percepção dos editores do Nordeste brasileiro. Em Questão, Porto Alegre, v. 32, e-145742, 2026. DOI: https://doi.org/10.1590/1808-5245.32.145742
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1
Este artigo faz parte de uma pesquisa de Mestrado, realizada no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal da Bahia.
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2
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3
O exemplo aqui apresentado (46 respondentes) está sendo empregado apenas para ilustrar como foi realizado o cálculo do RM e corresponde aos resultados preliminares da pesquisa, obtidos até junho de 2024.
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4
A(s) resposta(s) invalidada(s) sobre os “níveis de concordância/discordância dos editores acerca dos critérios de admissão e/ou permanência de periódicos na Coleção SciELO Brasil” ocorre(m) quando o editor respondente marcar mais de uma opção de resposta.
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Declaração de disponibilidade de dados
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo


