Open-access Futebol não é coisa de menino, mas de Michel Yakini-Iman

Football is not for boys, but for Michel Yakini-Iman

El fútbol no es cosa de niños, sino de Michel Yakini-Iman

YAKINI-IMAN, Michel. , (2023). Futebol não é coisa de menino. Rio de Janeiro: Editora Campo ou Bola.

Futebol não é coisa de menino é a mais recente obra literária do escritor paulistano Michel Yakini-Iman ou, simplesmente, Michel Yakini, nomes com os quais assina seus textos literários desde 2021, sendo seu nome de batismo Michel da Silva Ceríaco. Publicada em 2023, pela Editora Campo ou Bola (Rio de Janeiro), a obra reúne em suas páginas uma série formada por vinte e duas crônicas relativas ao mundo futebolístico, na mesma linha da sua obra intitulada Crônicas de um peladeiro (Yakini, 2014).

No entanto, se, naquela primeira obra inteiramente dedicada ao universo do futebol, o autor reunia crônicas como um continuum de textos/relatos avulsos, nesta obra, o autor estrutura o texto em dois grandes capítulos e/ou itens intitulados “1° tempo” e “2° tempo”. Além disso, a obra conta, ainda, com um prefácio, “pré-jogo”, em que o autor e cineasta Akins Kintê cria uma espécie de metáfora para nos introduzir na obra. Nessa introdução, prévia aos dois tempos em que o autor desenvolverá as diferentes crônicas do livro, Kintê apresenta a literatura de Yakini-Iman como “cadenciando o jogo e nos levando pro íntimo de nós mesmos, fuçando nossas memórias, bulindo nossos corações, trazendo interrogação e caminho pro labirinto de nossa mente” (Yakini-Iman, 2023, p. 2), o que é claramente identificável com a primeira parte ou o primeiro tempo. Já na segunda parte, o foco “nos alerta sobre o tempo de agora, deste sistema capitalista que cada vez mais torna jogadores robotizados” (Yakini-Iman, 2023, p. 3).

Toda a obra dialoga com inúmeras referências ao futebol, não apenas do ponto de vista do jogo como também da linguagem empregada para transmitir uma mensagem cuidada a respeito desse mundo futebolístico e suas dinâmicas. Nesse sentido, e como sugerido, podemos ver como o autor dialoga com sua primeira obra sobre esse esporte: Crônicas de um peladeiro (2014). Não obstante, em Futebol não é coisa de menino (2023), para além de toda a crítica social que a obra traz como pano de fundo e que prova que este, o do futebol, não é um mundo para crianças, o autor tenta dar visibilidade a outras questões que entram em cena para criticar esse universo. Assim sendo, e em relação à sua obra de 2014, as práticas atuais da escrita de Michel Yakini-Iman demonstram maturidade estilística, tanto na escrita quanto nos conteúdos, e ainda na forma como estes são apresentados. Seus textos mais recentes, como a obra de crônicas Na medula do verbo (2021), estruturam-se de acordo com um plano elaborado que, na obra aqui analisada, é construído em termos dos tempos de um jogo de futebol.

No primeiro tempo, as crônicas trabalham a questão de um modo abrangente e trazendo à tona lembranças ou relatos criados a partir do ponto de vista das próprias crianças. Assim, “a pior defesa” (Yakini-Iman, 2023, p. 4) traz da mão de um garoto preto a crítica à fome por meio das dificuldades em “fazer gol de barriga doendo” (Yakini-Iman, 2023, p. 6). Partindo do mais básico, remete-se, em “tele 900”, (Yakini-Iman, 2023, p. 7) a um novo abuso às crianças: a pedofilia. Sendo ou não real o abuso, expandir-se essa ideia de serem abusados constitui uma “bola chutada de veneno” (Yakini-Iman, 2023, p. 8), cuja única saída é agradecer “em silêncio o fim daquele inferno” (Yakini-Iman, 2023, p. 9). No entanto, a linguagem é utilizada em favor de sua crítica sem permitir que essa questão morra em silêncio, ao contrário, converte-a em crônica para ser lida, expondo assim violências várias ao longo da obra.

Entre outras possibilidades, o autor apresenta uma série de crônicas cujos títulos levam nomes próprios diferentes e trazem, junto com esses personagens que dão nome à crônica, temáticas particulares a abordar. Por exemplo, em “o nosso Maradona” (Yakini-Iman, 2023, p. 19) o autor serve-se de jogadores de futebol como personagens que, tendo a oportunidade de os ver jogar ao vivo, são trazidos para o texto com o fim de observar “piadinhas sem graça de cunho racista” (Yakini-Iman, 2023, p. 20) presentes, também, no mundo futebolístico. Em “Beira-Rio de Zé Diquinha” (Yakini-Iman, 2023, p. 21), questiona-se a temática da saúde e a necessidade de ter algo para se agarrar e lidar melhor com as dificuldades. Em “Leão do Mercado”, (Yakini-Iman, 2023, p. 24) reflete-se sobre pormenores linguísticos e como é possível aprofundar-se em diversas questões por meio do que constitui “apenas” uma peça de roupa. Assim sendo, Michel Yakini-Iman demonstra que a resposta à questão do futebol como não sendo um assunto de crianças é complexa, incluindo também na discussão materiais físicos, com as referidas roupas. “Toca a bola pra Geni” (Yakini-Iman, 2023, p. 26) remete à parte feminina da equação através da reinterpretação de uma música de Chico Buarque e, em “dedos iguais” (Yakini-Iman, 2023, p. 28), o autor lembra as palavras de Nelson Rodrigues para demonstrar que no futebol há muito mais do que a simples “bola”, listando toda uma série de dinâmicas de jogo diferentes em que o foco é posto na própria brincadeira e atacando a dependência do futebol atual em relação ao dinheiro e aos negócios.

No segundo tempo, esta voz crítica em forma de lembranças e majoritariamente apresentada do ponto de vista de uma criança regressa ao momento atual e expõe as opiniões de acordo com a perspectiva do ponto de vista do adulto. Isto acontece até quando traz o relato das conversas com sua filha Yakini na crônica “pé frio” (Yakini-Iman, 2023, p. 51), que encerra a obra falando em “azar”. Assim, fecha (quando menos, por enquanto) um ciclo também em relação à primeira obra deste estilo, Crônicas de um peladeiro (2014), em que o autor se auto-apresentava (apenas) como Michel Yakini, pela primeira vez num livro exclusivamente de sua autoria.

As outras crônicas que compõem esta segunda parte, a começar por “convocação” (Yakini-Iman, 2023, p. 30), trazem também esse foco para problemáticas que atingem um público adulto, salvo no caso da referência ao autor Sérgio Vaz, quem defende que “o sonho não envelhece”, face aqueles para quem “a última chance foi hoje” (Yakini-Iman, 2023, p. 30). Em “não vou mais pintar a rua” (Yakini-Iman, 2023, p. 32) o autor refere-se aos interesses comerciais e elitizados que levam à corrupção e aos abusos contra as mulheres. “A Copa do fim do Mundo” (Yakini-Iman, 2023, p. 34) traz consigo como “o futebol sobreviverá, mas o que sinto agonizar é a elegância” (Yakini-Iman, 2023, p. 35) e, com isso, o acabamento de um dos pontos-chave do jogo. “A finta e a rebeldia” (Yakini-Iman, 2023, p. 36) questiona os problemas aos quais devem fazer frente os jogadores que conseguiram levar seu trabalho para a Europa, sem conseguir ser integrados nem fora nem dentro do próprio Brasil.

Em “Ginga, meu caro!” (Yakini-Iman, 2023, p. 38), o autor detém-se novamente na questão linguística e dialoga com as anteriores, trazendo um percurso histórico bem fundamentado sobre como foi apagado o conhecimento “cultural-corporal” do negro. O argumento é ampliado e agravado para referir como “os ataques que você tem sofrido não dizem respeito só a você” (Yakini-Iman, 2023, p. 38), em relação a problemas de racismo na Europa e como a ginga (no jogo e na palavra) acaba por tornar-se uma marca inconfundível. Ainda sobre essa ponte Brasil-Europa, o autor continua a questionar em “futebol com código de barras” (Yakini-Iman, 2023, p. 40) como os times discutem a venda dos “craques brazucas” e como isso faz com que a estratégia do futebol não seja mais o jogo (com sua ginga), mas o negócio; obrigando o povo a não poder acompanhar mais os encontros, exceto pela televisão. Em “Pra lá de Marrakech” (Yakini-Iman, 2023, p. 42), o autor discute a “educação midiática” e como as violações dos direitos humanos são vistas de forma diferente segundo quem quebra essas normas, a partir do exemplo da diáspora marroquina e da visão que há no Ocidente sobre os muçulmanos.

As seguintes crônicas dialogam também com a educação da sociedade e, nelas, a voz das crianças continua presente, embora seja para reforçar/fazer visível o ponto de vista do adulto em relação àquilo que está a acontecer. “As lágrimas de Thiago” (Yakini-Iman, 2023, p. 47) só foram valorizadas/validadas por um único jornalista, que o apresenta como “menino negro, praticamente abandonado...” (Yakini-Iman, 2023, p. 47), o que leva a pensar numa valorização que deve ser revista devido aos termos em que é exposta. De resto, “Thiago chorou e foi crucificado” (Yakini-Iman, 2023, p. 47) mas não foi o único pois, neste pequeno relato, contrapõem-se, ainda, os problemas dos homens que não se encaixam na realidade “hétero-cis” e outras adversidades, nomeadamente as enfrentadas por mulheres que, em certas ocasiões, atingem casos de feminicídio.

Em “Me abraça, papai!” (Yakini-Iman, 2023, p. 49), o autor retrata opiniões de adultos sobre como as manifestações de afeto dos familiares podem impactar na concentração das crianças antes de um jogo, assim como sentir essa falta também pode ter consequências. No entanto, a leitura vai além do retrato do impacto que o contato físico e emocional tem sobre estas crianças para discutir o que a voz narrativa considera essencial nesta ocasião e que diz mais respeitos aos adultos do que às crianças: a responsabilidade na criação dos/as filhos/as, sem “sobrecarregar as mães e outras mulheres que estão na rede de cuidados das crianças” (Yakini-Iman, 2023, p. 49). A última das crônicas, “pé frio” (Yakini-Iman, 2023, p. 51), já apresentada anteriormente e com uma ótica mais otimista, não deixa de revelar contrastes de opiniões, demonstrando também como, por vezes, é a voz do adulto a que realmente pesa e decide até “sem nem mesmo a criança ter aprendido a dizer não” (Yakini-Iman, 2023, p. 51).

Nesse sentido, mais do que um resumo de parte das crônicas da obra, o que tentamos apresentar aqui foi uma interpretação crítica do que consideramos pontos-chave de cada uma das partes. A leitura do conjunto do livro pode ser realizada por diferentes tipos de público, pois utiliza uma linguagem acessível e variada em função da crônica, com depoimentos mais voltados à oralidade em alguns casos e de revisão bibliográfica noutros, com referências a conceitos e teorias de teor mais acadêmico. No entanto, atingir toda a complexidade da obra não é fácil precisamente devido à linguagem utilizada, com referências específicas de termos do mundo futebolístico. O nível de complexidade dos conteúdos, por vezes implícitos, não referenciados explicitamente, pode provocar que alguns assuntos sejam menos notados em uma primeira leitura (mais superficial); não por isso menos proveitosa do que uma leitura mais atenta e para conhecedores/as dos times e histórias referidas nessas crônicas.

Com este acúmulo de referências identificadas como pontos críticos, pretendemos apresentar o nível de complexidade da resposta que o autor traz para a questão sobre “de quem” é coisa o futebol. O objetivo pode ser referir a quantidade de coisas que devemos ter em consideração para entender o futebol: objetos, pessoas e sua religião/etnia/cor, a educação da sociedade e o papel das mídias nessas dinâmicas etc. Mas não apenas, enxergar estas nuances do ponto de vista de uma criança ou de um adulto também pode ter consequências. Por isso, nenhuma escolha na obra é utilizada de forma inocente.

À vista disso, devemos destacar também o fato de a editora em que foi publicada ser especializada em conteúdos do universo do futebol que, embora tenha um público mais familiarizado com o registro e as referências ao esporte, poderá ter um horizonte de expectativas particulares, mas que, sem dúvida, não ficará indiferente. Assim, a editora, além de possibilitar a publicação da obra através de um financiamento coletivo, abre as portas para um público especialista na questão que permite aumentar a difusão e a divulgação da obra, ampliando o olhar sobre a realidade futebolística e as consequências dos atos nesse âmbito.

Para concluir, devemos assinalar a forma em que a obra é apresentada desde o início por meio das cores usadas na capa da autoria de Rafael Alvarenga, da Editora Campo ou Bola. O roxo e o amarelo remetem, de forma geral, a um ideário feminino e feminista que, embora presentes na obra, não são tão evidentes quanto poderia parecer ao representar o primeiro contato com a obra por meio do uso dessas cores. Outras complexidades para tentar dar resposta a esta questão estão relacionadas com a presença da imagem que há nela e, na qual, por meio de uma perna visivelmente masculina e uma bola que não está no melhor estado de conservação, representa o que não deixa de ser uma bela metáfora da obra e da realidade atual do futebol: visivelmente masculino e desgastado pelo uso que da bola se tem feito.

Todo o conjunto até aqui apresentado e analisado, em que é possível identificar algumas pontes entre as obras referidas, como a presença da Geni ou a referência a Akins Kintê, remetem àquilo que identificamos como mudanças e constâncias na obra e escrita de Michel Yakini-Iman. A primeira delas é a já referida estrutura cuidada, com um discurso pensado e elaborado, como no caso de Na medula do verbo (2021), em que o autor republicava algumas de suas crônicas de temática diversa organizadas em cadernos. Observamos aqui uma vontade de transmitir um discurso construído em termos de projeto arquitetado e não simplesmente um elenco de várias crônicas. O ponto de vista da temática feminista e feminina também ganhou um peso destacado desde a publicação de Amanhã quero ser vento (2018), escrito precisamente com uma voz narrativa em feminino.

Por último, a linguagem e o uso de metáforas e “gingas” continuam presentes em seus textos, com reflexões explícitas aos nomes (recebidos, impostos ou proibidos) e constituindo-se como um dos itens que permanecem em sua trajetória e que permitem observar as diversas formas em que o autor é (re)conhecido. Em relação ao(s) nome(s) devemos ainda assinalar que além de recuperar o nome da filha Yakini, também traz o vínculo com o futebol a partir da identificação do termo ‘Yakini’ (verdade) com o do jogador nigeriano ‘Rashidi Yekini’, conhecido por ser autor do primeiro gol da Nigéria em Copas do Mundo (Literafro, 2022). Assim sendo, recuperamos a ideia de que o Futebol não é coisa de menino, mas de Michel Yakini-Iman que continua a aprofundar-se sobre a temática em seus textos.

Referências

  • Literafro (2022). Michel Yakini. Disponível em: Disponível em: http://www.letras.ufmg.br/literafro/autores/331-michel-yakini Acesso em: 2 jul. 2024.
    » http://www.letras.ufmg.br/literafro/autores/331-michel-yakini
  • YAKINI-IMAN, Michel (2023). Futebol não é coisa de menino. Rio de Janeiro: Editora Campo ou Bola.
  • YAKINI-IMAN, Michel (2021). Na medula do verbo. São Paulo: Elo da Corrente Edições e Avangi Cultural.
  • YAKINI, Michel (2014). Crônicas de um peladeiro. São Paulo: Elo da Corrente Edições.
  • YAKINI, Michel (2018). Amanhã quero ser vento. São Paulo: 11 Editora.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Jun 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    15 Out 2024
  • Aceito
    01 Mar 2025
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Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade de Brasília (UnB) Programa de Pós-Graduação em Literatura, Departamento de Teoria Literária e Literaturas, Universidade de Brasília , ICC Sul, Ala B, Sobreloja, sala B1-8, Campus Universitário Darcy Ribeiro , CEP 70910-900 – Brasília/DF – Brasil, Tel.: 55 61 3107-7213 - Brasília - DF - Brazil
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