Este artigo investiga a confluência entre materiais autobiográficos e biográficos em Huaco retrato (2021), da escritora peruana Gabriela Wiener, um livro no qual três histórias se entrecruzam: a de uma filha e seu pai, recentemente falecido; a de uma tataraneta chola e mestiça que descobre conexões inesperadas com um antepassado que ela qualifica como branco e racista; e o relato das dificuldades de Wiener diante do poliamor e dos ciúmes. Proponho ler o livro como um relato de filiação (Viart, 2019), no qual Wiener escreve uma patriografia (Couser, 2005) para esclarecer quem foi de fato seu pai e com quais aspectos de seu legado decide ficar; ao mesmo tempo, ensaia uma biografia heterodoxa de seu tataravô, a fim de explorar a genealogia masculina de sua família. Essa leitura, voltada para os vínculos entre a vida própria e as vidas alheias que se entretecem no livro, permite iluminar as diversas modulações que hoje assumem as escritas de vida na América Latina.
Palavras-chave:
literatura latino-americana; Gabriela Wiener; relatos de filiação; patriografias; escritas de vida