Open-access A medida do impossível: a ciência poética dos seres comuns

The measure of the impossible: the poetic science of common beings

La medida de lo imposible: la ciencia poética de los seres comunes

Resumo

Neste artigo, reflete-se sobre a produção da escritora brasileira Maria Esther Maciel, com especial atenção às suas incursões pela zoopoética, as quais se associam também à sua carreira como professora e pesquisadora. O fio condutor do artigo é o livro Pequena enciclopédia de seres comuns, escrito por Maciel (2021) e ilustrado por Julia Panadés. Nele uma série de verbetes mescla animais, plantas e outros seres vivos, ficcionais ou não. Sua estrutura reforça os deslizamentos entre as diversas espécies que compõem o livro, assim como entre a arte e a ciência, levando os leitores a pensar acerca dos próprios processos de classificação que ordenam nossa produção de conhecimento e das relações entre humanos e não humanos.

Palavras-chave:
zoopoética; hibridismo; arte; ciência

Abstract

This article reflects on the work of Brazilian writer Maria Esther Maciel, with special attention to her incursions into zoopoetics, which are also associated with her career as a teacher and researcher. The central thread of the article is the book Pequena enciclopédia de seres comuns, written by Maciel (2021) and illustrated by Julia Panadés, in which a series of entries blends animals, plants, and other living beings, whether fictional or not. Its structure reinforces the fluidity between the various species that compose the book, as well as between art and science, leading readers to reflect on the classification processes that organize our knowledge production and the relationships between humans and non-humans.

Keywords:
zoopoetics; hybridity; art; science

Resumen

En este artículo, se propone una reflexión sobre la producción de la escritora brasileña Maria Esther Maciel, con especial atención a sus incursiones en la zoopoética, a las cuales se asocian también a su carrera como profesora e investigadora. El hilo conductor de este artículo es el libro Pequena enciclopédia de seres comuns, escrito por Maciel (2021) e ilustrado por Julia Panadés, en el cual una serie de entradas mezcla animales, plantas y otros seres vivos, ficticios o no. Su estructura refuerza los desplazamientos entre las diversas especies que componen el libro, así como entre arte y ciencia, llevando al lector a reflejar sobre los propios procesos de clasificación que ordenan nuestra producción de conocimiento y sobre las relaciones entre humanos y no humanos.

Palabras-clave:
zoopoética; hibridismo; arte; ciencia

M DE MARIA

MARIA-VAI-COM-AS-OUTRAS (Maria mariensis)
É uma humana solidária. Se ela vai com as outras marias, é sobretudo para ajudá-las. E não importa que as outras sejam aves, insetos, plantas ou crustáceos, pois todas as criaturas lhe são caras. Por outro lado, se ela ensina a todas o que pode, com cada uma aprende o que não sabe. Juntas, enfrentam qualquer situação complicada. E mesmo quando está só, o que ela aprendeu com as outras deixa sua vida mais calma
(Maciel, 2021, p. 32).

“Maria-vai-com-as-outras” é um dos verbetes que compõem a primeira parte do livro Pequena enciclopédia de seres comuns, intitulada “Marias”. De autoria de Maria Esther Maciel, com ilustrações de Julia Panadés, o volume publicado em 2021 pela editora Todavia se constitui em um conjunto de verbetes que apresenta aos leitores um rol de “seres vivos” que, nas palavras da autora, “têm uma realidade irrefutável”, seja esta dada pela ciência, seja pela literatura, seja por nenhuma das duas (Maciel, 2021). Além das palavras que nos fazem deslizar entre ciência e ficção, os verbetes são acompanhados por ilustrações de Julia Panadés que se assemelham às clássicas ilustrações científicas, contribuindo para os deslimites entre os campos da arte e do conhecimento1.

No rol das “Marias” presentes no livro, talvez fosse possível incluir a própria autora, uma “humana solidária” a quem “todas as criaturas são caras”. Maria Esther é uma voz singular no cenário literário contemporâneo, com uma produção que transita entre os gêneros, embaralhando-os com delicadeza e elegância, num diálogo contínuo com sua atuação como pesquisadora e professora. A própria autora afirma que esta é “uma prática que [vem] cultivando ao longo de [sua] trajetória: articular o trabalho acadêmico com o trabalho literário e, em certos casos, embaralhar os limites entre esses dois campos de atuação” (Maciel, 2020, p. 17-18).

Seus primeiros livros, Dos haveres do corpo (Terra, 1985) e As vertigens da lucidez: poesia e crítica em Octavio Paz (Experimento, 1995), reuniram produções poéticas e ensaísticas. Sua estreia na produção ficcional ocorreu apenas em 2004, com o lançamento, pela editora Lamparina, de O livro de Zenóbia, obra finalista do prêmio Portugal Telecom de 2005, ao qual se seguiram O livro dos nomes (Companhia das Letras, 1998), Pequena enciclopédia de seres comuns (Todavia, 2021), livro sobre o qual me deterei ao longo deste artigo, e Essa coisa viva (Todavia, 2024), sua mais recente publicação.

A Pequena enciclopédia é um exemplo claro do movimento entre ciência e arte, caro à autora, remetendo a discussões teóricas que permeiam suas reflexões, associadas à enciclopédia, ao hibridismo, à zoopoética ou à memória, todas questões de fôlego que atravessam sua produção teórico-crítica. Isso se evidencia se nos atentarmos, por exemplo, aos títulos de algumas de suas publicações ensaísticas, tais como A memória das coisas: ensaios de literatura, cinema e artes plásticas (Lamparina, 2004), O animal escrito: um olhar sobre a zooliteratura contemporânea (Lumme, 2008), As ironias da ordem: coleções, inventários e enciclopédias ficcionais (Editora UFMG, 2009), Literatura e animalidade (Civilização Brasileira, 2016), M de memória (Tlön, 2020) e Animalidades: zooliteratura e os limites do humano (Instante, 2023).

É com base nos verbetes dessa enciclopédia poética que procuro traçar, nas próximas seções deste artigo, uma breve reflexão sobre a ciência poética apresentada pela obra de Maria Esther Maciel (2021). Para tanto, sigo a mesma estrutura que é tão cara à autora, trabalhando fundamentada nos breves verbetes temáticos que primam pela incompletude e pela descontinuidade, mas que talvez por isso mesmo permitam arranjos e combinações das mais diversas.

T DE TÍTULO

No contexto da produção de Maria Esther Maciel (2021), o primeiro traço que imediatamente chamou minha atenção ao conhecer a Pequena enciclopédia de seres comuns foi dado pelo próprio título do livro. Trata-se da forma e do escopo do que nele se anunciava: afinal, o uso dos verbetes como forma de organização textual, associado ao termo enciclopédia, remete a um universo de investigações frequente à autora, que assim discorre sobre ele em “M de memória”:

Encontrei na enciclopédia o dispositivo taxonômico mais adequado para o contexto cultural do mundo contemporâneo, no qual as fronteiras entre culturas, línguas, gêneros, artes e campos disciplinares se entrecruzam, abrindo-se cada vez mais ao híbrido, ao heterogêneo. Um contexto em que a rapidez e a multiplicidade de informações desautorizam e desestabilizam explicitamente a própria ideia de classificação, demandando uma reconfiguração do conhecimento a partir de uma perspectiva mais aberta, dialógica e, até mesmo, paradoxal
(Maciel, 2020, p. 50-51).

No título do livro, Maciel (2021) condensa essa reflexão de ordem crítica: Pequena enciclopédia de seres comuns provoca um estranhamento que se aproxima do paradoxo já pela junção das suas duas primeiras palavras, pequena e enciclopédia. A enciclopédia, como objeto, envolve uma vasta carga histórica, etimológica e epistemológica, uma vez que nela há registros que indicam que desde tempos remotos os seres humanos tentavam criar um espaço/objeto no qual fosse possível reunir todos os conhecimentos sobre o mundo disponíveis em dado momento, buscando ainda definir critérios que possibilitassem sua organização. Ela está, portanto, associada à ideia de acúmulo, como bem pontuou a pesquisadora portuguesa Olga Pombo (2006, p. 180, grifos meus):

A enciclopédia apresenta-se como a exposição da totalidade do saber adquirido pela humanidade até um determinado momento. Ela está orientada por uma pretensão à exaustividade. Trata-se, invariavelmente, de uma obra mais ou menos volumosa que apresenta, sem pretensões de originalidade, um panorama que se pretende completo, imparcial e objectivo do conjunto dos conhecimentos disponíveis numa determinada época.

Ora, ao associar esse objeto com “pretensão à exaustividade” e à “totalidade” ao adjetivo “pequena”, Maciel (2021) já aponta para as subversões ficcionais que permeiam o seu processo poético, elaborando um panorama que, ao contrário do que indica Pombo (2006), só pode ser incompleto, parcial e subjetivo, revelando o “uso crítico-criativo dos sistemas de classificação do mundo e do conhecimento” (Maciel, 2009, p. 11) feito pela escritora. O título escolhido, portanto, ao mesmo tempo que aponta para essa ideia de um “livro total”, de um livro que representaria o “círculo perfeito do conhecimento ou da educação” (Pombo, 2006, p. 180), nega essa possibilidade, descontruindo a própria noção de enciclopédia.

A continuidade do título, que nos indica o assunto ao qual essa “pequena enciclopédia” estaria dedicada, não é menos instigante: o que poderíamos entender por “seres comuns”? Se consultarmos os dicionários, o adjetivo comum remete-se a dois grupos de ideias distintas: de um lado, diz das coisas que são habituais, corriqueiras, banais; de outro, daquilo que é feito em comunidade ou compartilha características com a maioria. Nessa perspectiva, pode-se pensar em uma enciclopédia que procura reunir conhecimentos sobre os seres comuns, que não se destacam, e seriam nela agrupados em uma “comunidade”, reunindo os dois sentidos da palavra comum.

A própria autora, na nota com que abre o livro, acrescenta mais alguns elementos a essa discussão ao afirmar que no livro estão incluídos “seres vivos”, “todos classificados segundo certas peculiaridades de seus nomes comuns” (Maciel, 2021), agregando às concepções iniciais a ideia de que sua enciclopédia trata de “seres vivos” aproximados por seus “nomes comuns”. Os nomes comuns, ou substantivos comuns, são aqueles que se aplicam a seres ou objetos que reúnem características inerentes a determinada classe, ou seja, a seres de uma mesma espécie, opondo-se aos nomes próprios, que seriam utilizados para particularizar cada um desses seres. A importância do nome reforça-se na forma escolhida pela autora para a organização dos verbetes: acessamos cada um deles por meio do nome popular desses “seres comuns”, que é o nome presente no sumário da obra, mas, ao nos dirigirmos a cada verbete, segue-se a esse nome popular também seu nome científico, que de certo modo chancelaria o caráter taxonômico dessa enciclopédia.

Ao adentrarmos no livro, o jogo entre o comum e o próprio reverbera nas duas primeiras partes que compõem a enciclopédia, respectivamente intituladas “Marias” e “Jõoes”, num processo de desparticularização do nome próprio de forma a utilizá-lo como identificador comum da espécie, remetendo simultaneamente à noção corrente de que os nomes mais comuns dos brasileiros são Maria e João. A autora constrói, assim, um jogo poético que nos faz repensar as próprias noções que nos diferenciariam, como seres humanos, dos outros seres vivos, deslocando num movimento complexo os sentidos de identidade que nos norteiam, embaralhando os territórios tanto do comum e do particular quanto do humano e do não humano.

Não podemos deixar de observar, ainda em relação ao título do livro, que a forma a ele dada pela escritora é um de seus artifícios para direcionar os leitores a Jorge Luis Borges e, também, à zoologia. Borges é um nome tão relevante na formação acadêmica e literária de Maria Esther Maciel que merece um verbete específico no memorial da autora, “B de Borges”, no qual ela destaca sua escrita repleta de jogos ficcionais e paradoxos, afirmando: “Enfim, o que até hoje me instiga é a maneira como Borges lidou com categorias aparentemente incompatíveis, como o limitado e o infinito, a realidade e a ficção, o possível e o absurdo, o uno e o múltiplo” (Maciel, 2020, p. 29).

A remissão em Pequena enciclopédia de seres comuns a O livro dos seres imaginários, escrito por Borges em colaboração com Margarita Guerrero e publicado em 1967, é bastante evidente. Nesse livro, os autores discutem no prólogo o que se entenderia ali como “seres imaginários”:

O nome deste livro justificaria a inclusão do príncipe Hamlet, do ponto, do traço, da superfície, do hipercubo, de todas as palavras genéricas e, talvez, de cada um de nós e da divindade. Em suma, de quase o universo inteiro. Ativemo-nos, contudo, ao que é imediatamente sugerido pela locução “seres imaginários”, compilamos um manual dos estranhos entes engendrados, ao longo do tempo e do espaço, pela fantasia dos homens
(Borges; Guerrero, 2007, p. 9).

Essa discussão está diretamente associada ao fato de que os autores veem o livro como uma espécie de segunda versão ampliada do Manual de zoología fantástica, publicado dez anos antes, em cujo prólogo afirmavam não pretender abarcar “o número total dos animais fantásticos”, uma vez que estavam cientes de “que o tema abordado é infinito”, restringindo-se a investigar esses seres nas “literaturas clássicas e orientais” (Borges; Guerrero, 2001, p. 9). Com ambos os livros, Maciel (2021) dialoga transversalmente, recuperando tanto as temáticas zoológica e imaginativa quanto a estrutura de verbetes e a questão da necessária incompletude de qualquer projeto de caráter enciclopédico, aproximando ainda seus leitores das reflexões que envolvem os limites entre o humano e o não humano.

Z DE ZOOPOÉTICA

A relação entre humanos e não humanos é outra discussão cara à autora, sobre a qual Maciel vem se debruçando há alguns anos, como os títulos de alguns de seus livros já mencionados permitem antever. A primeira sistematização de seus escritos a respeito da zooliteratura data de 2008, quando publicou O animal escrito, e se desdobra em uma série de artigos e em dois outros livros, mais recentes: Literatura e animalidade, de 2016, e Animalidades: zooliteratura e os limites do humano, de 2023.

Nessas investigações, Maciel procura sistematizar de que modo, ao longo do tempo, a questão dos animais se inscreveu no pensamento ocidental, dialogando transdisciplinarmente com a filosofia, a zoologia, a etologia, a arte, entre outros campos do saber. Se, na Antiguidade clássica, ao se falar em animal se remetia também ao ser humano, ao longo do tempo essa concepção passou por diversas alterações, culminando, “após o triunfo do racionalismo cientificista no mundo moderno” (Maciel, 2023, p. 13-14), em uma cisão entre homem e animal, a qual “provocou não apenas o rebaixamento dos seres não humanos à última categoria na hierarquia dos viventes, como também a transformação do próprio termo ‘animal’ num antônimo de ‘humano’” (Maciel, 2023, p. 14). Nessa perspectiva antropocêntrica, o animal é tratado como um ser menor, irracional, e a palavra é ainda utilizada com propósitos depreciativos quando associada ao ser humano.

Ao longo do século XX e nesse princípio de século XXI, no entanto, diferentes caminhos estéticos têm sido propostos para colocar em questão essa relação entre seres humanos e animais, os quais possibilitam a “compreensão dos animais, da animalidade e das interações humano/não humano também pela via dos sentidos e da imaginação” (Maciel, 2023, p. 28). É nessa perspectiva que se desenvolveram termos como zooliteratura e zoopoética para tentar sistematizar essas discussões. Zooliteratura diz respeito a um conjunto de obras literárias que têm como elemento central os animais: esse conjunto, que pode receber recortes diversos — de autoria, de localização geográfica, de pertinência temporal, por exemplo —, constitui-se também mediante distintas estratégias ficcionais. Zoopoética, por seu turno, pode ser utilizado em dois sentidos: de um lado, para apontar os estudos teórico-críticos sobre obras literárias que discutem a questão animal; de outro, para reflexões quanto à “produção poética específica de um autor voltado para esse universo animalista” (Maciel, 2023, p. 28). Acrescentam-se nessa discussão sobre o animal novos estudos que têm se afirmado desde fins do século passado — como a ecocrítica e os estudos acerca do meio ambiente — e que ampliam o escopo da reflexão, passando a incluir outras categorias do mundo natural no âmbito do não humano, como é o caso dos vegetais.

A Pequena enciclopédia dialoga muito de perto com todas essas questões, porém no plano ficcional. Num primeiro relance, ao adentrarmos no livro, observamos seu sumário e identificamos que ele se compõe de cinco sessões: I. Marias; II. Joões; III. Viúvas e viuvinhas; IV. Híbridos; e Et cetera, esta não numerada. Em cada uma das seções numeradas, está arrolada uma listagem de nomes comuns associados a alguns seres vivos (o que foi informado na nota de abertura do livro), os quais talvez identifiquemos se os conhecermos, como “João-de-barro” ou “Cavalo-marinho”. Quando nos encaminhamos aos textos que compõem essas seções, dos quais constam também o nome científico e uma ilustração do ser mencionado, percebemos que há nesse conjunto de seres vivos tanto animais quanto vegetais:

MARIA-DORMIDEIRA (Mimosa pudica)
É uma planta sensitiva que recolhe suas folhas em resposta a alguns estímulos. Como seu nome científico diz, é mimosa e pudica, preferindo dormir com a porta fechada para evitar as investidas de mãos atrevidas. Defende-se, assim, também dos grilos e de outros insetos herbívoros. Por isso, “maria-fecha-a-porta” é o seu apelido. Por outro lado, é bastante invasiva e se espalha com força em terrenos baldios. Todos acham que ela dorme muito, mas, na verdade, seu sono é fingido. Um dado curioso é que, para ter sonhos eróticos vívidos, muitas mulheres põem um ramo dessa maria sob o travesseiro, em noites de lua cheia
(Maciel, 2021, p. 20).
JOÃO DIAS (Mustelus canis)
Quase ninguém imagina que esse joão possa ser um tubarão, mas ele é. De corpo comprido, cor marrom-acinzentada com reflexos verde-oliva e ventre amarelo, possui boca pequena cheia de dentes de pontas redondas e enfileiradas. Vive em águas turvas e rasas. Parece que tem alguma relação com os cachorros, por causa do “canis” de sua designação científica. É também chamado de “cação-bico-doce”, “sebastião” e “tolo”. Não se sabe muito ao certo o porquê desses nomes. Gosta de comer lagostas, caranguejos, pequenos peixes e moluscos. Os poetas dizem que, além de soturno, ele é um desses seres que possuem a alma turva
(Maciel, 2021, p. 45).

O diálogo entre ciência e ficção é evidenciado pela estrutura de cada verbete: da ciência, temos o nome científico, a ilustração, a apresentação descritiva; da ficção, por seu turno, o caráter poético da apresentação, o recurso à antropomorfização, a inserção de informações não comprováveis ou mesmo de pouca relevância à caracterização da espécie. Ambos os seres, vegetal e animal, apresentam atributos que reforçam seu caráter de “seres vivos”, e mais parecem aproximar-se do que distanciar-se dos seres humanos ao serem abordados com sentimentos, consciência e inteligência — faculdades tidas como próprias dos seres humanos (cf. Maciel, 2023, p. 26).

Se esse deslizar classificatório reverbera no duplo movimento de nomeação utilizado por Maciel (2021), com nome comum e nome científico desses seres — vale destacar que esse movimento é, por vezes, ainda mais amplo, uma vez que alguns verbetes mencionam a diversidade de nomes populares com que certos seres são identificados, como no caso do “João-bobo”, nome científico “Nystalus chacuru”, cujas “outras alcunhas são ‘chicolerê’, ‘rapazinho-dos-velhos’, ‘biquinho-de-sabonete’ e ‘pedreiro’” (Maciel, 2021, p. 38) —, seu jogo zoopoético torna-se mais complexo quando atentamos ao fato, também apresentado na nota de introdução ao livro, de que entre esses seres há os existentes e os inexistentes, uma vez que sua realidade pode ser atestada pela ciência ou pela literatura (ou, ainda, por nenhuma delas). Assim, vemos ser posta em questão não apenas a relação entre seres vivos humanos e não humanos, mas também entre a ciência e a ficção.

Talvez o mais emblemático verbete para refletirmos sobre as singularidades da zoopética de Maria Esther Maciel seja aquele por meio do qual a autora inclui a si mesma em seu inventário de seres comuns. Isso se dá com a inserção da espécie “Viuvinha-humana” na terceira seção do livro, a qual vem acompanhada de uma ilustração de si mesma, como se vê na Figura 1, provocando novo deslizamento entre o comum e o próprio, mas também entre as diversas espécies de seres viventes, reais ou imaginários, incluídas nessa pequena compilação:

Figura 1
Viuvinha-humana, por Julia Panadés.
VIUVINHA-HUMANA(Homo sapiens viuvensis)
Ela está triste, mas não é triste. O desamparo que lhe é atribuído por outros humanos não existe senão como uma saudade doída do que foi irreversivelmente perdido. De resto, persiste e se mantém altiva. “Contra a solidão, ouvir Bach é um antídoto”, uma já me disse, ao sair do luto. Outra, menos afeita às coisas líricas, me contou que o trabalho foi sua forma de recusa ao tédio inapelável dos dias. Sei, ainda, daquela que (para conter a melancolia) se rendeu às vertigens da escrita. Cada uma com seu recato. Ou sua malícia
(Maciel, 2021, p. 66).

Mais uma vez, o vínculo com Jorge Luis Borges (2007) se faz marcante pela replicação do mesmo artifício utilizado por ele quando, em seu “O idioma analítico de John Wilkins”, ao apresentar a enciclopédia chinesa, o escritor argentino insere na lista com que organiza e classifica os animais a categoria “incluídos nesta classificação”:

Essas ambiguidades, redundâncias e deficiências [relativas ao idioma de John Wilkins] lembram as que o dr. Franz Kuhn atribui a certa enciclopédia chinesa intitulada Empório celestial de conhecimentos benévolos. Em suas remotas páginas está escrito que os animais se dividem em a) pertencentes ao Imperador, b) embalsamados, c) amestrados, d) leitões, e) sereias, f) fabulosos, g) cachorros soltos, h) incluídos nesta classificação, i) que se agitam feito loucos, j) inumeráveis, k) desenhados com um pincel finíssimo de pelo de camelo, l) et cetera, m) que acabam de quebrar o jarrão, n) que de longe parecem moscas
(Borges, 2007, p. 124, grifos meus).

O movimento borgiano que arruína as possibilidades taxonômicas e é retomado por Michel Foucault (2002) no famoso prefácio de As palavras e as coisas é aqui mobilizado por Maciel para colocar em questão também os próprios limites da taxonomia, estratégia relevante em sua produção ficcional. Afinal, nas palavras da própria escritora,

toda taxonomia requer o princípio da menor diferença possível entre as coisas para se sustentar. Entretanto, é graças ao que resiste às leis da taxonomia, ou seja, a diferença, que tais sistemas estão sempre em processo de reformulação, revelando sua insuficiência e precariedade
(Maciel, 2009, p. 15).

H DE HIBRIDISMO

O jogo poético de Maciel aponta, ainda, para os limites que permeiam o diálogo entre diferentes categorias (arte/ciência, homem/animal) ao reforçar a perspectiva de combinação entre ambas. A própria autora destaca que essa não é uma prática inédita ou mesmo recente e afirma:

Sabemos que desde que existem gêneros, existem as misturas, tendo sido estas, aliás, a marca das manifestações literárias mais antigas, vide os textos bíblicos e os diálogos de Platão, dentre outros. Mesmo após o estabelecimento, a partir de Aristóteles, de uma taxonomia poética, os cruzamentos não deixaram de existir e de desafiar a “lei do gênero”, tornando-se mecanismos de desvio e transgressão da normatividade
(Maciel, 2009, p. 108).

Recorrendo a Jacques Derrida e à sua reflexão sobre “a lei do gênero”, Maciel (2009) pontua que todo gênero, por mais que procure estabelecer limites e evitar a impureza, acaba excedendo suas próprias fronteiras, uma vez que “as contaminações são sempre inevitáveis, seja por força do acaso, seja por atos deliberados de ruptura, seja por lapsos e equívocos” (Maciel, 2009, p. 110). Em seu ensaio, uma vez mais a escritora discute a precariedade dos próprios processos taxonômicos, a qual reverbera em sua produção literária.

É o que percebemos quando, na quarta seção de sua Pequena enciclopédia, intitulada “Híbridos”, somos postos em contato com um conjunto de seres cujos nomes comuns (os quais dão títulos aos verbetes, lembremos) se remetem a mais de um elemento, seja este relacionado ao mundo animal (como em “Besouro-rinoceronte” ou “Peixe-borboleta”), seja ao mundo vegetal (é o caso de “Bromélia-zebra” ou “Trepadeira-elefante”), seja, ainda, a uma espécie de delimitação geográfica (como “Cavalo-marinho” ou “Peixe-boi-da-amazônia”).

Tal construção coloca em deslizamento nossas tradicionais formas de classificação relacionadas ao universo da natureza, evidenciando a desarticulação do próprio de cada espécie ao reuni-lo a outro que não lhe condiz. Poderíamos afirmar, conforme a autora aponta com relação ao “Bagre-sapo”, que a natureza desses seres “é incerta, quase um enigma” (Maciel, 2021, p. 78), mobilizando ao mesmo tempo nossa imaginação e nossos conhecimentos a respeito do mundo em que vivemos.

Ainda que os seres contidos nessa seção do livro não apresentem fusões entre animais e humanos, a antropomorfização contribui para que sintamos, uma vez mais, que os poéticos processos de classificação da escritora insistem em nos tirar de um lugar confortável no qual as diferenças se encarregam de justificar taxonomias hierarquizantes. Não há, no texto de Maciel (2021), espaço para a oposição binária “humano” / “não humano”: aqui as plantas ficam bravas (é o caso da Flor-leopardo, que assim reage quando gatos intrusos se aproximam para cheirar suas folhas) e gostam de dias de sol (como se diz da Bromélia-zebra), enquanto os animais têm olhares cínicos ou sábios (como a Cobra-papagaio e a Gazela-girafa, respectivamente), são “mal-encarados” (assim se descreve o Peixe-borboleta), exibidos (como o Peixe-leão) ou invejosos (é o caso do peixe-dragão, do peixe-peru e do peixe-escorpião) e até mesmo gostam de cochichar com as amigas (como a Perereca-cabrinha).

O verbete dedicado à Formiga-leão sintetiza esse processo, reforçando o caráter dúbio e móvel desses seres, conforme ilustração da Figura 2:

Figura 2
Formiga-leão, por Julia Panadés.
FORMIGA-LEÃO (Myrmeleon ambiguus) Atende pelos nomes de “cachorrinho-do-mato”, “piolho-de-urubu”, “joão-torrão”, “furão” e “tatuzinho”. Porém, não é formiga, não é leão, ou nenhum desses outros bichos. Tampouco é o mirmecoleão — animal filho de pai leão e mãe formiga, catalogado nos bestiários antigos. Ambígua, ora é uma coisa, ora é outra, mas não é nenhuma ou é todas juntas. Sua larva tem uma mandíbula feroz de mamífero, cheia de pinças e espinhos, com a qual escava um buraco na areia para capturar possíveis vítimas. Sua vida adulta é breve: vai do fim da primavera até os primeiros dias do outono
(Maciel, 2021, p. 85, grifos nossos).

O recurso poético ao hibridismo como uma das maneiras de colocar em questão as categorizações, apontando por meio desse deslizamento entre as espécies os limites dos processos taxonômicos, reforça o diálogo entre a arte e a ciência, na medida em que a primeira possibilita o olhar crítico e problematizador para a segunda. A arte apresenta-se como “o lugar / não lugar daquilo que se desvia das classificações, seja por conter características próprias de várias categorias instituídas, seja por se furtar a qualquer uma delas” (Maciel, 2020, p. 76). É, portanto, com esse movimento de hibridização que se evidencia tanto na temática do livro aqui em destaque quanto no processo de escrita da autora2 que o diálogo entre a pesquisadora e a ficcionista se afirma.

F DE FIM

Todo texto precisa chegar ao fim, ainda que isso não signifique um fechamento ou conclusão definitiva. No caso da produção poética de Maria Esther Maciel, permeada por uma diversidade de caminhos de leitura, esse movimento de encerramento torna-se ainda mais difícil. Sigo, portanto, um percurso similar ao da autora na sua Pequena enciclopédia, o qual, por sua vez, dialoga uma vez mais com o percurso borgiano na já citada enciclopédia chinesa sobre a qual o escritor argentino discorre: o recurso ao et cetera.

Expressão latina utilizada geralmente em enumerações, para indicar uma possível continuidade dos elementos nestas inseridos, o termo tem um aspecto paradoxal, pois, ao mesmo tempo que normalmente encerra essa sequência de enumerações, dá a entender que ela poderia se estender indefinidamente. Essa característica potencializa seu uso poético, tal qual explorado por Jorge Luis Borges e Maria Esther Maciel.

A lista que conforma a enciclopédia chinesa de Borges tem seu efeito enumerativo ampliado pela utilização de três estratégias centrais: a ordem alfabética, que nos aproxima das ideias de hierarquia e de sequencialidade; a inclusão da própria enumeração como um dos itens que a compõem, num efeito de mise en abyme do qual também se vale Maciel (2021) com sua “Viuvinha-humana”; e a aparição do “et ceteraem meio aos tópicos da enciclopédia3, rasurando seu efeito de encerramento e, ao mesmo tempo, apontando para tudo o que resta de um processo classificatório (ou, para usarmos um termo caro à escritora mineira, ao inclassificável4). Borges, com esses recursos, apresenta simultaneamente um texto que enumera, hierarquiza e subverte a hierarquia indicada, uma vez que o conjunto contido no próprio conjunto e o infinito que se delineia no et cetera que comparece no meio da lista contradizem qualquer possibilidade de ordem para a qual apontaria o uso da ordenação alfabética.

Maciel (2021) não insere a categoria no meio da enumeração que constitui sua enciclopédia de seres comuns, uma vez que o et cetera é utilizado no encerramento do livro. Todavia, o et cetera parece uma categoria atópica: no sumário, aparece em caixa-alta, aproximando-se assim pela aparência gráfica dos títulos das seções que compõem o volume; ao mesmo tempo, não traz, como essas seções, um indicativo numérico sequencial, o que faz com que delas se distancie. Ao lermos o texto que a ele se segue no livro, identificamos sua abordagem como uma categoria capaz de englobar aquilo que resta aos sistemas classificatórios, aquilo que, de alguma maneira, resiste a ser categorizado e evidencia a impossibilidade que atravessa os rígidos sistemas taxonômicos que norteiam o pensamento científico ocidental:

Esta pequena enciclopédia não termina aqui. Muitos outros seres poderiam ocupar suas páginas, já que as marias, os joões, as viúvas e viuvinhas, os híbridos animais e vegetais se multiplicam em diferentes reinos, famílias e espécies do mundo natural. Os que não foram incluídos se fazem aqui presentes de alguma forma, graças às potencialidades do et cetera — essa categoria inclassificável que contém aquilo que falta, sobra ou ainda não foi inventado
(Maciel, 2021, p. 109).

Ao abrir espaços nessa Pequena enciclopédia para que ela abrigue tudo aquilo que “falta, sobra ou ainda não foi inventado”, Maciel (2021) atua, de forma irônica, na demonstração das falhas e lapsos que permeiam qualquer pretensão classificatória. Ao reunir animais, vegetais e seres humanos, reais ou imaginários, sob um mesmo prisma organizador, a enciclopédia, a escritora evidencia que, por mais que se queira ordenar o mundo, sempre há algo que sobra, algo que desestabiliza princípios classificadores tidos como “naturais” e “absolutos”. Ao romper, ao mesmo tempo, com os próprios da arte e da ciência, Maria Esther Maciel realiza, na medida do impossível — para recuperar suas próprias palavras — a elaboração de uma ciência, poética, dos seres viventes.

Notas

  • 1
    As pesquisas em torno da ilustração científica tomam esse ramo da produção como fundamental à divulgação científica, demandando um conhecimento transdisciplinar capaz de garantir a capacidade de transmissão de informações das imagens apresentadas: “Representar graficamente a Ciência implica um estudo, uma pesquisa em que essa ação adote a linguagem estruturante, hierárquica e sequencial do método científico (que constitui a coluna vertebral da imagem), mas adornando-a com o sabor e o saber da Estética” (Correia, 2012). Seu uso no livro de Maciel (2021), no entanto, funciona como mais um dos artifícios da autora que contribuem para o deslizamento constante da obra entre arte e ciência e entre distintos gêneros literários.
  • 2
    Vale destacar que o hibridismo textual é característico dos dois livros ficcionais anteriormente publicados por Maciel, O livro de Zenóbia e O livro dos nomes. No primeiro, vários tipos de texto, que vão de poemas a receitas culinárias, compõem a narrativa; o segundo constitui-se pelo recurso a características de gêneros textuais de natureza classificatória, como dicionários e enciclopédias.
  • 3
    O escritor francês Georges Perec (2001), ao se deter sobre a enciclopédia chinesa “de Borges”, pontua que o principal estranhamento que ela faz surgir está na posição ocupada pelo et cetera: “Este ‘et cetera’ não tem nada de surpreendente em si mesmo; somente chama a atenção por seu lugar na lista” (Perec, 2001, p. 117).
  • 4
    Temática sobre a qual refletiu em artigos e em seus livros, Maciel (2009, p. 14) assim o descreve: “Segundo os dicionários, a palavra inclassificável significa o que não pode ser inserido dentro de uma classe ou categoria, o que não pode ser definido nem qualificado com precisão. Guarda, por isso, uma afinidade intrínseca com a palavra grega atopos, que, além de apontar para aquilo ou aquele que não se fixa em um lugar ou em um discurso, caracteriza também o que é estranho, extraordinário, inoportuno”.

Referências

  • 1. BORGES, Jorge Luis (2007). O idioma analítico de John Wilkins. In: BORGES, Jorge Luis. Outras inquisições São Paulo: Companhia das Letras. p. 121-126.
  • 2. BORGES, Jorge Luis; GUERRERO, Margarita (2001). Manual de zoología fantástica México: Fondo de Cultura Económica.
  • 3. BORGES, Jorge Luis; GUERRERO, Margarita (2007). O livro dos seres imaginários Tradução de Heloísa Jahn. São Paulo: Companhia das Letras.
  • 4. CORREIA, Fernando (2012). A ilustração científica: “santuário” onde a arte e a ciência comungam. Visualidades, Goiânia, v. 9, n. 2, p. 221-239. Disponível em: https://revistas.ufg.br/VISUAL/article/view/19864 Acesso em: 23 out. 2022.
    » https://revistas.ufg.br/VISUAL/article/view/19864
  • 5. FOUCAULT, Michel (2002). As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. São Paulo: Martins Fontes.
  • 6. MACIEL, Maria Esther (1985). Dos haveres do corpo Belo Horizonte: Terra.
  • 7. MACIEL, Maria Esther (1995). As vertigens da lucidez: poesia e crítica em Octavio Paz. São Paulo: Experimento.
  • 8. MACIEL, Maria Esther (2004). O livro de Zenóbia Rio de Janeiro: Lamparina.
  • 9. MACIEL, Maria Esther (1998). O livro dos nomes São Paulo: Companhia das Letras.
  • 10. MACIEL, Maria Esther (2004). A memória das coisas: ensaios de literatura, cinema e artes plásticas. Rio de Janeiro: Lamparina.
  • 11. MACIEL, Maria Esther (2008). O animal escrito: um olhar sobre a zooliteratura contemporânea. Bauru: Lumme.
  • 12. MACIEL, Maria Esther (2009). As ironias da ordem: coleções, inventários e enciclopédias ficcionais. Belo Horizonte: Editora UFMG.
  • 13. MACIEL, Maria Esther (2016). Literatura e animalidade Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
  • 14. MACIEL, Maria Esther (2020). M de memória Belo Horizonte: Tlön.
  • 15. MACIEL, Maria Esther (2021). Pequena enciclopédia de seres comuns São Paulo: Todavia.
  • 16. MACIEL, Maria Esther (2023). Animalidades: zooliteratura e os limites do humano. São Paulo: Instante.
  • 17. MACIEL, Maria Esther (2024). Essa coisa viva São Paulo: Todavia.
  • 18. PEREC, Georges (2001). Pensar/clasificar Barcelona: Gedisa.
  • 19. POMBO, Olga (2006). O projecto enciclopedista. In: POMBO, Olga; GUERREIRO, António; ALEXANDRE, António Franco (org.). Enciclopédia e hipertexto Lisboa: Duarte Reis. p. 180-193.
  • Editor:
    Paulo César Thomaz

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    29 Ago 2024
  • Aceito
    03 Dez 2024
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Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade de Brasília (UnB) Programa de Pós-Graduação em Literatura, Departamento de Teoria Literária e Literaturas, Universidade de Brasília , ICC Sul, Ala B, Sobreloja, sala B1-8, Campus Universitário Darcy Ribeiro , CEP 70910-900 – Brasília/DF – Brasil, Tel.: 55 61 3107-7213 - Brasília - DF - Brazil
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