Resumo
Pretende-se, com este artigo, demonstrar, por meio de uma comparação, que os poetas Gabriel Albuquerque e Tenório Telles, nos livros Diálogo dos afetos (2022) e Prelúdio coral (2020), respectivamente, utilizam a figura da roca de fiar e a alegoria da máquina do mundo para apresentarem questões temáticas comuns a esse novo momento em que se avança na literatura nacional, de modo especial o tempo cíclico, o resgate do mito e o alinhamento da vida. Para tanto, são acionados estudiosos, teóricos e filósofos que tratam das demandas do contemporâneo - além daqueles que versam sobre a novíssima literatura brasileira, revisando a situação do mundo e repensando o estado das produções artístico-literárias, principalmente as germinadas no século XXI -, dentre os quais: Marcos Siscar, com Poesia e crise (2010), Jacques Rancière, com O fio perdido (2017), sem interditar outros ensaístas e críticos importantes naquilo que concerne aos estudos literários no Brasil.
Palavras-chave:
poesia brasileira contemporânea; tempo; mito
Abstract
This article aims to demonstrate, through a comparison, that the poets Gabriel Albuquerque and Tenório Telles, in the books Diálogo dos afetos (2022) and Prelúdio coral (2020), respectively, use the figure of the spinning wheel and the allegory of the world machine to present thematic issues common to this new moment in which national literature is advancing, especially cyclical time, the rescue of myth and the alignment of life. To this end, scholars, theorists and philosophers who deal with the demands of the contemporary - in addition to those who deal with the very new Brazilian literature, reviewing the situation of the world and rethinking the state of artistic-literary productions, especially those germinated in the 21st century -, are triggered, among which: Marcos Siscar, with Poesia e crise (2010), Jacques Rancière, with O fio perdido (2017), without interdicting other important essayists and critics in what concerns literary studies in Brazil.
Keywords:
contemporary Brazilian poetry; time; myth
Resumen
El presente artículo tiene como objetivo demonstrar, a através de una comparación, que los poetas Gabriel Albuquerque y Tenório Telles, en su libros Diálogos dos afetos (2022) y Prelúdio coral (2020), respectivamente, emplean la figura de la rueca y la alegoria de la máquina del mundo para abordar custiones temáticas comunes a este nuevo momento de avance en la literatura nacional. Se destacan, de modo particular, el tiempo cíclico, el rescate del mito y la alineación de la vida. Para tal fin, se recurre a académicos, teóricos y filósofos que abordan las demandas de lo contemporáneo - además de aquellos que se centran en la novíssima literatura brasileña, revisando la situación mundial y repensando el estado de las produciones artístico-literarias, especialmente las geminadas en el siglo XXI -, entre los cuales se incluyen: Marcos Siscar, con Poesia e crise (2010), y Jacques Rancière, con O fio perdido (2017), sin interdictar a otros ensayistas y críticos relevantes en lo que concierne a los estúdios literarios en Brasil.
Palabras-clave:
poesía brasileña contemporánea; tiempo; mito
Introdução
A poesia brasileira contemporânea, sobretudo a produzida agora no século XXI, apresenta um caráter heterogêneo, pois não há mais a predominância de movimentos coletivos empreendidos sob a inscrição de vanguarda. O que se verifica, na verdade, é o resultado do amadurecimento de uma literatura que se estrutura a partir do modernismo. Ainda que, em determinados momentos, a crítica tenha especulado sobre o avanço de uma crise na produção poética, o que se observa são caminhos que seguem em direção oposta a tais hipóteses, logo superadas, as quais previam um período infértil para a poesia.
O trabalho criativo desenvolvido pelo Poeta jamais se encerrou. Este início de século, que já atravessa suas duas primeiras décadas, passa por um processo de transformação que, de certo modo, também se reflete na literatura. Quando esse processo é alcançado pela crítica especializada, suscita reflexões, debates, preconceitos e incômodos, tal como ocorre com tudo aquilo que é novo. Concorda-se com Marcos Siscar ao dizer que “se alguns críticos preferem apontar as limitações culturais e ideológicas da poesia contemporânea, outros diagnosticam um salto no que diz respeito à qualidade média da poesia no país”, porque, nas palavras do ensaísta, “nunca se teria visto um número tão expressivo de bons poetas” (Siscar, 2010, p. 151, grifos no original).
Outro fator relevante, quando se pensa na novíssima literatura, é a presença de poetas e prosadores, advindos dos auspícios das universidades, muitos dos quais, docentes dessas instituições de ensino superior. Alberto Pucheu, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Sergio Nazar, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ); Leonardo Antunes, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Eliane Debus, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Júlia Larré, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), são alguns nomes que integram o conjunto de professores(as) escritores(as) com conhecimento teórico daquilo que produzem, já que muitos têm formação na área de Letras, com mestrado e doutorado, além de enveredarem também pela ensaística. Demonstram, dessa maneira, serem poetas-prosadores e críticos literários, assim como os escritores em análise neste artigo: Gabriel Albuquerque e Tenório Telles, que são egressos da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).
Ademais, conjecturar sobre as mudanças operadas no percurso que a poesia lírica e a prosa de ficção vêm tomando implica adotar uma perspectiva plural, na qual reverberam as vozes presentes nos centros urbanos, nas universidades, nas ruas, nos interiores do país e na internet. Essa multiplicidade reflete o dinamismo da literatura contemporânea, evidenciando que o processo de transformação não se limita apenas ao ambiente acadêmico ou às grandes cidades, mas se estende aos espaços periféricos e digitais. Ao considerar tais mudanças, percebe-se uma renovação que ultrapassa fronteiras geográficas e sociais, dando espaço à diversidade de experiências, estilos e linguagens, e conferindo à produção literária brasileira uma vitalidade única. Dessa forma, o diálogo entre tradição e inovação fortalece-se, permitindo que diferentes sujeitos e contextos influenciem e modifiquem o cenário da poesia e da prosa, tornando-o mais democrático, inclusivo e representativo da complexidade do país.
Quando se amplia esse ponto de vista, tornam-se evidentes as mudanças ocorridas, assim como os canais utilizados pelos autores contemporâneos: os e-books, as plataformas digitais, os blogs, as redes sociais, que, em última instância, alternam o lugar dos poetas. Contudo, é importante ressaltar que o livro impresso continua sendo o suporte ideal desses escritores, levando, em muitas situações, artistas da internet a publicarem seus textos no tradicional formato de brochura. O contato com narrativas e poemas, sejam aqueles lidos em tablets, smartphones e notebooks, ou os folheados em livros impressos, permanecem sendo de interesse dos amantes da literatura. Jacques Rancière, em O fio perdido, diz que
O poema na página pertence a todos a esse preço, a sensação, que ele faz nascer no sonhador deitado no sofá ou sobre o trevo, ressuscita um passado, profetiza um futuro ou serve de ponto de partida a uma teia de sensações, de sombras que aparecem e desaparecem e de melodias ouvidas e não ouvidas que são, ao mesmo tempo, o jardim privado da indolência e o presente oferecido a quem quiser pela aranha diligente (Rancière, 2017, p. 93-94).
Essa “teia de sensações” tecida equivale à chave de acesso às “cifras e códigos” que se encontram “sob a pele das palavras” (Andrade, 2000), mencionados por Drummond em “A flor e a náusea”. Dessa mesma forma, pode-se pensar nos mundos criados por Gabriel Albuquerque e Tenório Telles, nos quais o leitor vai desbravando, página a página, a constituição de um universo em que se configuram a retomada dos mitos clássicos e a atualização desses mesmos mitos na contemporaneidade, além das memórias, vincadas no tempo da infância, que são remontadas em forma de poesia.
As informações iniciais desenvolvidas auxiliam na apreciação das obras desses poetas, das quais se obtiveram subsídios para a elaboração do problema de pesquisa: como está a situação da literatura brasileira contemporânea, especificamente a produção de poesia lírica, na década de 20 do século XXI, tomando por observação os livros Diálogos dos afetos e Prelúdio coral? Essas considerações colaboram na formulação da hipótese deste artigo: a poesia de Gabriel Albuquerque e de Tenório Telles resgata os mitos clássicos e propõe um olhar renovado, a partir desses elementos, trilhando o caminho da novíssima literatura brasileira, principalmente no tocante às temáticas tratadas em seus textos.
Pretende-se com este artigo demonstrar, por meio de uma análise comparativa e método bibliográfico, que os poetas mencionados utilizam, respectivamente, a figura da roca de fiar e a alegoria da máquina do mundo como recursos para abordar questões temáticas recorrentes à nova fase da literatura nacional. Destacam-se, dentre outras, o tratamento dado ao tempo cíclico, o resgate dos mitos clássicos e a busca pelo alinhamento da vida, aspectos que evidenciam a vitalidade e a renovação da poesia brasileira contemporânea.
Costura
Gabriel Arcanjo Santos de Albuquerque nasceu em 1967, na cidade de Manaus (AM). É professor titular da Universidade Federal do Amazonas. Licenciou-se em Letras: Língua Portuguesa (1990) pela Universidade Federal do Amazonas. Possui mestrado (1997) e doutorado (2002) em Literatura Brasileira, ambos pela Universidade de São Paulo. Em 2019, participou do Concurso Literário Cidade de Manaus e venceu na categoria melhor livro de poesia (Prêmio Violeta Branca Menescal) com Diálogo dos afetos, obra publicada em 2022, pelo selo editorial paraLeLo13S, da livraria Boto-cor-de-rosa (Salvador, BA). Como ensaísta, escreveu Deus, amor, morte e as atitudes líricas na poesia de Hilda Hilst (2012), organizou Poesia e Ficção na Amazônia Brasileira (2017) e, recentemente, Literatura, Cultura e Sociedade: Intersemioticidades, representações e autorrepresentações (2024).
Os poemas “Convite” e “Em Manaus” integram “Os primeiros poemas” de Gabriel Albuquerque, publicados em 2001 na revista Teresa (USP). Em ambos os textos, já é perceptível o cuidado do autor na escolha das palavras, o domínio dos jogos semânticos e a delicadeza na estruturação poética dos versos. Em “Convite”, revelam-se camadas costuradas pelo tempo, nas quais o eu lírico se depara com a impossibilidade de uma vivência amorosa - evidenciada pelo uso do verbo no futuro do pretérito -, mas ainda assim alimentada pela ânsia do convite: “A um chamado teu, / Eu correria. / Ignorando o frio, / Esquecendo o orgulho, / Entraria na esfera do silêncio” (Albuquerque, 2001b, p. 78). Já “Em Manaus”, destaca-se o olhar aguçado do poeta sobre fatos corriqueiros, manifestado na simplicidade de um efeito (a lembrança), o que contribui para a (re)descoberta de uma memória quase esquecida, momento em que há o encontro entre a imaginação (Menino) - “Quando menino, imaginava: / Existem lugares onde tudo é areia, / Existem lugares onde tudo é gelo / E existe a lua” - e a percepção da vida adulta (Homem) - “Assim é o meu coração de homem / Água / Areia / Gelo / Lua. / Fogo na palma da tua mão” (Albuquerque, 2001a, p. 79). Esses dois textos antecipam a técnica que Gabriel Albuquerque viria a utilizar no livro de 2022 e que também pode ser observada nos “Quatro poemas” publicados no nono volume da Journal of Lusophone Studies, em 2024, cuja nota de rodapé informa que comporão um livro em construção, provisoriamente intitulado Os poemas do viado.
A concisão é uma das características marcantes de Diálogo dos afetos, perceptível tanto no tamanho do livro (14x18cm), quanto nos versos curtos dos poemas. Essa particularidade evidencia o trabalho árduo do artista em transformar aspectos cotidianos em discurso poético breve, mas carregado de sugestões e significados. Com linguagem apurada, essa escrita aguda remete a poetas como Ana Cristina Cesar e Chacal, assim como as sensações do mundo e a ironia diante dos dramas da vida evocam Carlos Drummnd de Andrade e Hilda Hilst. Em grande medida, a poesia de Gabriel está minada por questões íntimas - a saudade, a confissão, o desabafo e a angústia -, que parecem prestes a explodir diante dos olhos do leitor.
A capa da plaquete apresenta quatro círculos irregulares que lembram pedras. Esses círculos, por não serem perfeitos, podem sugerir as imperfeições humanas em contato; não se fundem, pelo contrário, geram tensão entre distanciamento e proximidade, entre presença e ausência. É também esse jogo que ativa e alimenta sua “dialética dos afetos” (Albuquerque, 2022, p. 36). A cor púrpura preponderante resulta da mistura entre o vermelho (emoção) e o azul (razão), associando-se à ideia de introspecção, espiritualidade e complexidade emocional. Dessa forma, indica que o diálogo dos afetos é profundo, ambíguo e denso, assim como os poemas que cirzem as páginas da obra em análise.
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Tenório Nunes Telles de Menezes nasceu em 1963 no município de Anori (AM), especificamente, como informa no início de sua tese de doutorado, “Esse era o meu endereço no tempo de menino: ‘Rio Solimões, Costa do Cabaleana (em frente à Ilha do Marrecão), Porto do seu Francisco Telles’” (Menezes, 2025, p. 15). É licenciado em Letras (1989) e bacharel em Direito (1996), pela Universidade Federal do Amazonas. Possui mestrado (2019) e doutorado (2025) em Literatura e Crítica Literária, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Compõe o Conselho Editorial da Valer Livraria Editora e Distribuidora Ltda atuando como editor de livros, especialmente aqueles de temática amazônica. Em 2001, tomou posse na Academia Amazonense de Letras, ocupando a cadeira n.º 16, originalmente patrocinada por José do Patrocínio, da qual foi fundador João Leda.
Tenório Telles iniciou a trajetória literária em 1988, com a publicação de Primeiros fragmentos, uma reunião de poemas escritos na época da faculdade e lançados na Semana de Letras do curso. Em 2004, traz à lume a peça A Derrota do mito; posteriormente, ampliou sua presença na poesia com Canção da esperança & outros poemas (2011). No campo das crônicas, destacou-se com Viver (2011) e Renovação (2013). Recentemente, reafirmou o compromisso com a literatura ao publicar Manaus: solo dissonante (2020) e Prelúdio coral (2020). Esse poeta enfatiza a poesia como o elemento primordial de sua produção artística: “A poesia é a margem fundamental do meu processo literário. A ela tenho me dedicado - estudando sua tradição, lendo seus autores seminais e me empenhando na construção de meu trabalho criativo” (Telles; Graça, 2021, p. 693). Não se pode deixar de mencionar sua notável contribuição aos estudos literários no Amazonas, especialmente por meio de prefácios, posfácios e apresentações de livros de autores da região. Dentre as principais realizações nesse âmbito, destacam-se as obras: Clube da madrugada: presença modernista no Amazonas (2014) e Estudos de literatura no Amazonas (2021), esta última em parceria com Antônio Paulo Graça. Como fica demonstrado, Tenório Telles constrói uma trajetória marcada pelo diálogo entre a criação poética e a pesquisa literária, consolidando-se como referência na literatura brasileira contemporânea produzida no Amazonas.
O título de Prelúdio coral carrega consigo uma ambiguidade, perceptível tanto na semântica do vocábulo “coral” quanto na imagem que ilustra a capa. O significado imediato de “prelúdio” remete à música, visto que esse tipo de composição musical costuma ser utilizado para introduzir cantatas de Natal, Ano Novo, Semana Santa e Páscoa. Ao unir essas duas palavras, evoca-se o clássico instrumental, geralmente marcado por características litúrgicas, tendo em Joseph Sebastian Bach um nome de destaque nesse gênero. Esse estilo barroco tornou-se célebre por ser empregado como interlúdio nas igrejas luteranas. Em outros termos, prelúdio coral representa o prenúncio de algo porvir: a introdução de um canto entoado por muitas vozes (coral) guiadas pela melodia base (poeta), que repercutirá nos versos do livro. Assim como Primeiros escritos introduziu Tenório Telles na verve literária, Prelúdio coral anuncia uma grande obra em construção.
Por outro lado, a palavra “coral” remete aos animais cnidários que formam recifes no mar. A ilustração da capa (corais saindo de uma concha) parece unir nascimento, música-poesia, terra-mar e morte na dinâmica do mundo. O poeta revela-se ao universo, percorre os tempos em diálogos com os outros habitantes da terra, vive experiências marcantes e, em algum momento, depara-se com a inevitabilidade finitudinal. Esse percurso pode ser notado na estrutura do livro, que inicia com a preparação para o nascimento (“Oferenda”), a origem do poeta (“Trípico da palavra), a passagem pelo mundo (“Prelúdio coral), os contatos com outras experiências (“Trípico dos sentidos”), o anúncio e a preparação para o fim (“Passagem”), o que restou de tudo foi poesia (“Poética”) e, por último, a ideia de uma existência após o término (“Outra margem”).
Contextura
O livro de Gabriel Albuquerque e o de Tenório Telles manifestam alguns pontos de similitude: foram publicados na década de 20 do século XXI, (a)bordam, ainda que com alguns distanciamentos, as vicissitudes do tempo, e delineiam uma espécie de gênese do mundo por meio da ação criadora de um demiurgo. Utilizam metáforas da tecedura, unindo mito e poesia, e formulam um produto articulado por vieses clássicos, mesmo que sustentado por questões intrinsecamente contemporâneas, tão caras à novíssima literatura brasileira. Em outras palavras, o discurso lírico, perceptível na proposta dos dois projetos, busca alinhar o tempo, indo ao clássico, a um tempo distante, e alinhavar fraturas, retornando ao passado, à infância, a um passado mais próximo.
Diálogo dos afetos e Prelúdio coral revelam a agudeza da poesia e a inventividade de seus autores. O cuidado na composição, o uso preciso dos vocábulos em momentos-chave, a seleção de temas e o florescimento de imagens, tanto internas quanto externas ao texto, transformam a sensibilidade inicial (alumbramento) em esforço criativo: suor, sofrimento, lágrimas e inquietação. Nesse movimento, a poesia realiza aquilo que Jean-Luc Nancy (2005) formula como a capacidade de fazer “a facilidade do difícil, do absolutamente difícil” (p. 11), tornando sensível e comunicável uma experiência originalmente árdua.
O livro de Gabriel Albuquerque apresenta, deslocado do conjunto de textos, um poema sem título, como se fosse uma espécie de portal, um rito de passagem. Esse poema sintetiza a temática do tempo: um tempo cíclico, delineado por categorias ou modos, representados por ações de numes da mitologia clássica. Passemos, então, à apreciação verso a verso, desse primeiro texto:
Em silêncio Cloto pôs
a roca a girar
e criou o fio de afeição.
Láquesis o estendeu e enovelou.
Inevitável,
Átropos o recebeu.
E cortou.
(Albuquerque, 2022, p. 9).
A afirmação do primeiro verso suscita uma reflexão existencial, ancorada na forma como o eu lírico propõe o estar no mundo. Nesse caso, os “fios” são compreendidos como as fases que, em certa medida, irão compor o percurso do ser humano no universo. Para sustentar esse aspecto universalizante da vida, são apresentadas três divindades: Cloto, Láquesis e Átropos. Diferente do que se sugere na primeira linha, contudo, não são “fios”, assim, no plural, mas apenas um “fio”, trabalhado por essas deidades.
As molestas fiandeiras são as tecedoras do destino individual, conhecidas também por Moiras. A função desses numes, que inclui o domínio da vida e da morte, ia além da intervenção de qualquer outro deus. Sobre isso, Junito de Souza Brandão diz: “Impessoal e inflexível, a Moira é a projeção de uma lei que nem mesmo os deuses podem transgredir, sem colocar em perigo a ordem universal”, pois, ainda segundo o pesquisador, “É a Moira, por exemplo, que impede um deus de prestar socorro a um herói no campo de batalha ou de tentar salvá-lo, quando chegou sua hora de morrer” (Brandão, 1986, p. 230, 231). Pode-se deduzir, assim, que se trata do inevitável: a sina tramada por essas fiandeiras para o tempo em que o ser humano estiver neste mundo. É desse mito que o poeta se apropria, no intuito de levantar questões acerca dos infortúnios, tragédias, alegrias e aventuras a que se submete na relação com outras pessoas, cada qual com seus fios que, quando tecidos ou cortados, comovem-no, a ponto de fazer de tudo isso poesia.
“Em silêncio Cloto1 pôs / a roca a girar / e criou o fio de afeição”. Nesse verso, o fio criado não é o da vida, mas o de um sentimento que nasce das relações interpessoais. A “afeição” faz parte da existência do ser humano, especialmente quando se cultivam algumas formas de comunicação permeadas pelo amor, assim como acontece entre familiares ou amizades. Esses elos são responsáveis por sustentar “o fio da vida”. É sobre esse “fio” que versa a poesia de Diálogos dos afetos: a vida não começa apenas biologicamente, mas afetivamente.
“Por afeto compreendo as afecções2 do corpo, pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída, estimulada ou refreada, e, ao mesmo tempo, as ideias dessas afecções” (Spinoza, 2009, p. 98), é o que propõe Benedictus de Spinoza ao definir o conceito de afeto na terceira parte de sua Ética. Os afetos podem ser entendidos como as ideias das afecções que incidem sobre o corpo e o colocam em relação com o mundo. Conforme o modo como essas afeções nos atravessam, elas podem ampliar ou reduzir nossa potência de agir. Não se trata, apesar disso, de qualquer afecção indistintamente, mas de um domínio específico que Spinoza articula por meio das noções de imagem e imaginação. As imagens correspondem às afecções enquanto modos pelos quais o corpo é afetado, muitas vezes sob a forma de angústia, ao passo que a imaginação consiste na apreensão dessas ideias de afecção, isto é, na forma como a mente as contempla e organiza.
A definição apresentada por Spinoza permite compreender os afetos não como emoções vagas ou meramente subjetivas, mas como variações efetivas da potência de agir que se dão simultaneamente no corpo e na mente. Cada afecção que nos atravessa implica uma modificação, constituindo o afeto propriamente dito. Assim, quando tais afecções ampliam nossa capacidade de existir, experimentamos afetos alegres; quando as restringimos, afetos tristes. É justamente essa dinâmica que ilumina a leitura de Diálogo dos afetos, na medida em que a obra pode ser entendida como a encenação poética dessas variações: um espaço em que as afeções se convertem em linguagem e no qual o sujeito lírico se constitui no entrelaçamento de forças que ora o expandem, ora o limitam, evidenciando a dimensão relacional e processual da experiência afetiva.
Esses aspectos, quando sondados, repercutem especialmente na primeira das três partes do livro, intitulada “Origens (Manaus anos 70)”. É o ponto de partida, no sentido de concepção, quando o fio é criado e desenvolvido por Cloto. Os quatro poemas que compõem esse item possuem uma carga extremamente subjetiva, transpassados por ocasiões em que a afeição, matizada pelo amor, recupera laços atados em pretéritos tempos pueris. As marcas desse tempo restauradas pelas lembranças e figuradas nos versos, retomam cenas pitorescas como em “Álbum” - “O vestido é verde / Porque assim à minha / Lembrança vem. // Mas é mais forte / A cor da terra / Nos vasos / O café açucarado / A lavanda francesa” -; assim também emerge em “Cromos” - “a primeira casa era azul / coberta de zinco / eu lembro do tambor da chuva” -; no flagrante trágico e metafísico de “Encantamento” - “Minha tia lavava roupas / - O sabão. Pediu / E o sabão? E a menina?” -; e no cenário revisitado de “Agosto” - “Deitávamos / Na varandinha / Amadeirada / Para olhar o céu / Lá longe” (Albuquerque, 2022, p. 18, 19, 22, 25). Dessa maneira, os fios de afeição vão se cruzando até formularem, entre si, o fio da vida, tão bem assegurado e protegido, ainda que o corte seja inevitável.
“Láquesis3 o estendeu e enovelou”. A segunda divindade, ao “estender” o fio, conduz a leitura para a ideia de duração, continuidade e projeção do tempo. Láquesis transforma o instante inicial em experiência acumulada, sobretudo considerando a passagem dos dias, o crescimento e a construção da biografia do ser humano na terra. Vale destacar que o segundo verbo, “enovelou”, confere à ação uma complexidade: a vida não se desenrola de forma simples; ela se complica, dobra-se sobre si mesma, configurando uma trama afetivo-experiencial. Indo além, compreende-se que, nessa fase, está em jogo a sorte, instituída pela entidade e aplicada aos homens e mulheres sorteados. Trata-se de um tempo antecedente ao corte realizado pela terceira moira. Sem Láquesis, haveria apenas início e fim; com ela, há vida entre os dois, e é justamente isso que torna o corte final tão significativo.
Átropos4 está definida, em Diálogo dos afetos, pelo adjetivo “Inevitável”, sugerindo não apenas a aproximação da morte literal, mas também o término de qualquer experiência. No poema, isso indica a ruptura do fio da afeição, já que ela recebeu o fio de Láquesis, e, então, “cortou”. O último verso, isolado, curto e definitivo, mimetiza o próprio ato de cortar. Há, aqui, um recurso importante verificável na brevidade do verso: reproduz a rapidez do fim e, no deslocamento gráfico (afastado da estrofe anterior), visualiza a separação, como se o próprio poema fosse “cortado”. A concisão do texto potencializa seu efeito, já que não há justificativas, nem desdobramentos, apenas o gesto final. Se Cloto dá início à existência e Láquesis confere ordem e continuidade, cabe a Átropos a tarefa de encerrá-la. Por mais delicado ou valioso que seja, o fio está sempre prestes a ser cortado, finalizando, assim, um ciclo vitalício (ou ainda um ciclo de afetividade). Dessa maneira, a tessitura mítica das Moiras não apenas ilustra, mas complexifica a concepção spinozista, ao converter em imagem poética o processo pelo qual os afetos se constituem, se entrelaçam e, inevitavelmente, se interrompem.
Como se observa, a mitologia é convocada como chave interpretativa para a compreensão do mundo poético elaborado pelo artista, sobretudo quando este se vê atravessado pelas tensões e insurgências da modernidade. O poema “Penélope” corrobora essa perspectiva ao mobilizar a imagem do tecer, diretamente associado à figura mítica, a partir da qual se constrói uma reflexão sobre resistência, tempo e recomposição:
do fim da tarde malinou
mas não destruiu a teia
no alto da varanda,
antes
ateou cristal líquido
sobre os fios
a aranha escondeu-se
entre as telhas.
Quando veio a calmaria
e se ouvia apenas o
lamento de uma ave
ao longe e as últimas
gotas caírem,
a aranha retornou,
rainha sobre sedas.
(Albuquerque, 2022, p. 58).
Diferente da narrativa clássica, em que o tecer e destecer são atos conscientes de adiantamento, aqui essa lógica é deslocada para a natureza. A chuva “vociferante” atua como força que ameaça a ordem da teia; no entanto, não a destrói, apenas a transforma ao atear “cristal líquido sobre os fios”. Essa imagem é essencial, pois converte a violência da chuva em elemento estético, isto é, não rompe a teia, mas a reconfigura, criando uma espécie de ornamentação efêmera. Dessa forma, ocorre uma tensão entre destruição e permanência, típica da condição da própria teia e, simbolicamente, da própria vida. A aranha, que se esconde durante a intempérie, retorna apenas com a calmaria, instaurando um ritmo cíclico de retirada e reaparição. Esse movimento repercute a lógica de Penélope, ou seja, não se trata apenas de fazer, mas de saber quando suspender e retomar o fazer. Esse gesto de tecer e destecer, suspende o tempo, impede a conclusão e adia a escolha, instaurando um intervalo contínuo de decisão e espera. Há aqui uma aproximação com as figuras das Moiras - Cloto, Láquesis e Átropo - que tecem, medem e cortam o fio da vida, pois Penélope introduz a possibilidade de suspensão desse destino, ainda que temporariamente. Sendo assim, a aranha, o poeta e o mito de Penélope partilham um mesmo simbolismo, visto que todos são figuras do tecer como forma de existir e resistir no tempo.
A poesia de Gabriel Albuquerque (2022) recompõe esse tempo por meio desses fios, os mesmos que atam e cerzem a memória, figurada pelos momentos de reflexão em meio à dinâmica do cotidiano: “Na manhã amazônica / um temporal inaugura / o sábado enquanto / seguro com as duas / mãos estoutra xícara / de café” (2022, p. 47). São essas impressões que servem de nó aos versos minados pelas experiências do olhar infantil e pela certeza da finitude: “Acordei. / Simples como estarmos lado a lado, veio a certeza da minha finitude. // Vou morrer, pensei. / Vou morrer. / E voltei a dormir” (2022, p. 63). Há certo desassossego nessas pequenas atitudes diante do mundo. É como se as coisas minúsculas, ou sem valor aparente, crescessem nas horas de fulgor, assim como o tecido que se forma a partir da fina linha, manuseada por quem a tece, até ser roupa, cobertor, proteção ou mesmo um presente, uma lembrança.
Em Tenório Telles, por seu turno, o mito do fio lembra muito aquele do conto A moça tecelã, ligado à origem das coisas, já “que convoca o mistério do verbo / tece a linha que liberta / a/ fuga dos territórios perdidos” (Telles, 2020, p. 48). A ação criadora configurada nos textos que compõem o “Tríptico da palavra” revela a gênese do poeta e do poema:
Cria/dor
ConchA
[submerso:
anônimo e silencioso
•
- t r a n s u b s t a n c i a r -
Areia
Musgo
sêmen e sina]
<<no ninho madrepérola
encistar sibilina constelação
láctea de estrelas>>
(Telles, 2020, p. 27).
A aliteração produzida pelo encontro consonantal /cr/ indica a dificuldade nesse ato inicial, sentida pelo deus e pelo poeta -, percebida pela imagem de irritação criada pelo corpo estranho que será coberto pelo nácar da concha até tornar-se pérola. A sílaba /ar/ separada aparece como o fôlego de vida (deus) ou o alumbramento (poeta), assim como a /dor/ resume a consequência dessa ação primeira que terá como resultado a criação /A/: poeta (útero), poema (palavra), pérola (concha). A segunda estrofe desloca o processo para a interioridade, lugar de formação, “- t r a n s u b s t a n c i a r-”, tanto do poeta (sêmen), quanto do poema (sina), comparado à dinâmica da “areia/musgo” até se tornar pérola (•).
Sendo assim, na medida que o eu lírico desvela a vida, por intermédio de seu contato com a natureza e com aqueles que a compõem enquanto ser humano, em experiências plurais, estabelece-se um cenário no qual se arquiteta a grande engenharia que é o universo. Isso fica claro na página final do longo poema que intitula o livro, “Prelúdio coral”, cujos excertos, transcritos a seguir, plasmam a máquina do mundo diante do leitor.
- a c a s a : pequeno ponto c i n z a
se abrindo em flor
na moldura do tempo
ouvi
o desespero de Mársias
sua dor
sua alegria supliciada
e
vi quando a máquina do mundo se entreabriu
vi a fulguração de seu silêncio majestoso
seu rosto roto
seu coração devoluto
:
por um círculo eu vi no céu profundo;
e ali saímos a rever estrelas
(Telles, 2020, p. 71, grifos no original).
O sonho de Cipião, presente no livro sexto Da república de Cícero, apresenta “o esplendoroso círculo que brilhava com luz deslumbrante no meio dos fogos celestiais”, descrevendo, de tal maneira, os itens desse elemento - “nove globos, ou antes, nove esferas, que compõe e enlaçam o universo, e o que ocupa um lugar excelso nas alturas, o mais longínquo, o que dirige, contém e abraça todos os outros” -, que pode ser entendido como “o próprio Deus soberano, no qual se fixam, em seu movimento, todos os astros seguindo o seu curso sempiterno; mais abaixo”, completa Cipião, “resplandecem sete estrelas impelidas num curso retrógrado, em oposição ao movimento dos céus” (Cícero, 2019, p. 94).
Essa descrição faz lembrar a da máquina do mundo camoniana, figurada no canto X de Os Lusíadas, momento em que Tétis conduz os portugueses ao alto de um monte para ver, “cos olhos corporais”, o que está acima da “vã ciência” dos mortais e declara “Aqui um globo veem no ar, que o lume / Claríssimo por ele penetrava, / De modo que o seu centro está evidente, / Como a sua superfície, claramente” (Camões, 2018, X, 77, vv, 1-8). Adiante, depois de deixar os marinheiros comovidos, a deusa acrescenta:
Etérea e elemental, que fabricada
Assi foi do Saber, alto e profundo,
Que é sem princípio e meta limitada;
Quem cerca em derredor este rotundo
Globo e sua superfície tão limitada,
É Deus; mas o que é Deus, ninguém entende,
Que a tanto o engenho humano não se estende.
(Camões, 2018, X, 80, vv. 1-8).
Como já se pode notar Tenório Telles revisita os clássicos, aprimora a visão em torno das coisas que compõem o espaço para além daquilo que Ricardo Reis chama de “espetáculo do mundo”. A aproximação entre as duas imagens - a de Cícero e a de Camões - mostra a organização do sistema solar e que esse conjunto de corpos celestes são formatados por Deus. É também nesse sentido que o poeta brasileiro percebe essa criação, gregária do conhecimento criacionista, já que, no desenrolar do poema, o leitor depara-se com as possíveis origens de tudo, tendo, como sustentáculo, esse viés, o mito de criação indígena pela “grande mãe”, a “senhora criadora do mundo/ Y E ´ P Á”, e do cristianismo, pela qual é mostrado “o invisível sendo tecido / na tapeçaria-mundo / a vida composta de pequenos feixes luminosos” (Telles, 2020, p. 61).
Ademais, a máquina do mundo de Tenório Telles é um modelo especular daquela instituída por Carlos Drummond de Andrade em Claro enigma. O eu lírico de ambos os poemas atingem uma plenitude e, ao mesmo tempo, despertam um espanto ao apreenderem o sem-limites que é o universo e como ele se organiza nesse espaço.
“abri a janela / - a c a s a : pequeno ponto c i n z a / se abrindo em flor / na moldura do tempo” (Telles, 2020, p. 71). A dimensão do ser humano diante da grandeza do universo fica mostrada pela configuração da casa, um lugar de abrigo e de abertura à subjetivação da vida. Nota-se que é a partir desse microcosmos que o cosmos é invocado ou mesmo percebido pelo eu lírico, aquele que sonda as tecidas camadas nas quais o mundo se vai arquitetando no desenvolver desses versos.
“Ouvi/ o desespero de Mársias / sua dor / sua alegria supliciada” (Telles, 2020, p. 71). Nesse trecho, o poeta recorre ao mito grego do sátiro que desafiou o deus da música, Apolo; segundo a mitologia, tendo Mársias “recolhido uma flauta atirada fora por Atená adquiriu, à força de tocá-la, extrema habilidade e virtuosidade”, nessa disputa atuaram como juízes “as Musas e Midas, rei da Frígia”, sendo, portanto, o filho de Zeus “declarado vencedor”. Como consequência dessa atitude, “Apolo o puniu, fazendo que nascessem nele orelhas de burro. No tocante ao vencido, foi o mesmo amarrado a um tronco e escorchado vivo” (Brandão, 1987, p. 89). Apesar do tom lamentoso desse mito, o que importa, no caso do poema, é a música, gênero que repercute por todo o livro de Telles. Destarte, o instante de alumbramento diante do firmamento estabelece-se encenado por um som de “dor” e “alegria supliciada”, sendo o eu lírico, nessa situação, como o sátiro condenado.
“e/ vi quando a máquina do mundo se entreabriu/ vi a fulguração de seu silêncio majestoso/ seu rosto roto/ seu coração devoluto” (Telles, 2020, p. 71). Convém, aqui, trazer um trecho do poema drummondiano, a fim de comparar a percepção de ambas as instâncias poéticas diante da configuração dessa engenharia. Em ambos os textos, o ser, concentrado por um gesto centrípeto - isto é, um movimento de recolhimento do olhar que converge para o ponto de revelação -, aproxima tudo aquilo que se matinha distante; no entanto, enquanto, em Drummond, esse gesto é atravessado pela hesitação e pela recusa, em Tenório Telles, ele se realiza como experiência sensível de apreensão. No trecho citado, a “fulguração de seu silêncio majestoso”, assim como as imagens de “rosto roto” e “coração devoluto”, introduzem uma dimensão paradoxal e fraturada da própria máquina, que deixa de ser apenas ordem para se apresentar como corpo marcado. Desse modo, ao projetar-se na cena, o sujeito não apenas a contempla, mas a incorpora, e, nas imagens construídas, o tempo se espacializa, condensado na visualidade, passando a simbolizar uma experiência de pensamento e de devaneio de caráter profundamente existencial.
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia
[...]
(Andrade, 2012, p. 106).
Se, na passagem do Canto X de Os Lusíadas, os marinheiros (a coletividade) recebem de Tétis a visão da máquina do mundo como recompensa, isto é, como o termo de um percurso carregado de ações e experiências distantes do lar, na alegoria de Claro enigma há o fim de um dia que simboliza também o retorno ao lugar de juventude, um lugar nomeado e concreto, “uma estrada de Minas, pedregosa”. Nos dois poemas, presenciar a máquina do mundo constitui não apenas a demonstração de amadurecimento diante dos problemas enfrentados ao longo da vida, mas dois modos distintos de lidar com o conhecimento: um que acolhe como totalidade reveladora (Camões) e outro que o rejeita, afirmando os limites da experiência humana (Drummond).
O poema de Tenório Telles, enquanto produção contemporânea, reelabora a alegoria modernizada por Carlos Drummond, a qual, por sua vez, remonta à estrutura clássica de Camões. A questão fundamental, nesse caso, reside no lugar de onde se olha, vê-se, repara-se e se percebe toda a dimensão da máquina do mundo: o eu lírico de “Prelúdio coral”, encontra-se em casa, espaço que não é apenas ponto de chegada, como para os marinheiros do Gama, mas lugar de instauração da própria revelação, diferente também da errância reflexiva presente em Claro enigma. Outro aspecto relevante diz respeito à compreensão que se instaura quando a janela é aberta; isto é, a imagem não se configura propriamente como mistério (Camões), tampouco como enigma (Drummond), mas como uma reconfiguração dessas formas de apreensão. Nesse caso, não se trata da eliminação do hermetismo, mas de sua inflexão em uma experiência mais sensível e estética, que permite entrever a beleza engenhosa do firmamento. Resta, então, a conjunção entre música, mito e linguagem, para que o equilíbrio se estabeleça, uma vez que é “por um círculo [que] eu vi no céu profundo ;/ e ali saímos a rever estrelas” (Telles, 2020, p. 71, grifos no original).
Sendo assim, a poesia de Gabriel Albuquerque e de Tenório Telles manifesta, por intermédio de seus gestos líricos, aquilo que parece mínimo, as coisas esquecidas ou tendentes ao esquecimento, que se projetam nas cores, nos cheiros, nas imagens e nas lembranças. Vejamos em Diálogo dos afetos: “Manhã” - “na cozinha / o ritual: / preparar o café / aquecer o pão / encher a taça / com um cintilante / iogurte 0% / de gordura / a mesma que me envenena / day by day”; “não vi um país / perdido / apenas a luz / impenetrável como / a vida / impossível como / a vida / os gestos / não me deixam” (Albuquerque, 2022, p. 30-33). E em Prelúdio coral: “veredas encantadas / [cores, cheiros, seres, mistérios / : vozes não reveladas” (Telles, 2020, p. 87). Viviana Bosi chama atenção desse aspecto da poesia brasileira contemporânea, já que, segundo a ensaísta, “é um aprofundamento da atenção em pequenos gestos do cotidiano que podem adquirir sentidos maiores, mas sem que haja necessariamente remissão a imagens metafóricas. São como sombras que indiciam algo e se entremostram a partir da representação de atos mínimos” (2019, p. 173).
Considerações finais
Os dois poetas usam a imagem do fio no intuito de demonstrar a construção ou tecedura da vida, por meio da poesia. E elaboram um universo de sensações moldado pelas intempéries do mundo contemporâneo com todos os seus problemas, seus atritos, suas tensões, perpassadas pelas experiências dos eu-líricos, a ponto de tornarem tudo isso um registro poético.
Como foi evidenciado, há o retorno a mitos, ainda e sempre, nos discursos formulados, cuja temática esbarra nas insurgências recuperadas em cada verso, principalmente quando se tem o planeta mergulhado em uma pandemia. Assim sendo, o mote dos dois livros configura-se pela temática do tempo, sempre no desejo de alinhamento, mesmo que com isso tenham que rever o passado e tentar reelaborar o presente, para talvez revelar um futuro que não seja esgarçado pelas dores, pelas doenças, pelo sofrimento, mas pela cerzidura de tudo isso.
Portanto, Diálogo dos afetos e Prelúdio coral são exemplos da força poética que se mantém viva e sustenta a literatura brasileira contemporânea. Além disso, os poetas podem ser tomados como modelo da criatividade dos artistas resistentes, dotados de uma visão de mudança, no processo de escrita que formará o produto estético, seja em livro impresso, seja nas plataformas digitais que se desenvolvem e crescem dia após dia na internet.
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Referências
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1
Cloto, vem do grego Kλωθώ, do verbo κλώθειν, fiar, significando, assim, aquela que fia, a fiandeira. Assim sendo, Cloto é a moira que segura o fuso e vai puxando o fio da vida (Brandão, 1986, p. 231).
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2
Em Spinoza, afecção (do latim affectio) é toda modificação que ocorre no corpo quando ele entra em relação com algo externo. Para Gilles Deleuze, em Espinosa: filosofia prática “As afecções (affectio) são os próprios modos; Em um segundo grau, as afecções designam o que acontece ao modo, as modificações do modo, os efeitos dos outros modos sobre este. De fato, estas afecções são imagens ou marcas corporais; Mas essas afecções-imagens ou ideias formam certo estado (constitutio) do corpo e do espírito afetados, que implica mais ou menos perfeição que o estado precedente” (2002, p. 55).
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3
Láquesis também vem do grego Λάκεϛ, do verbo λαγκάνειν, que em sentido lato, significa sortear, a sorteadora. Em outras palavras, a tarefa de Láquesis é enrolar o fio da vida e sortear o nome de quem deve morrer (Brandão, 1986, p. 231).
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4
Átropos, em grego Aτροπoϛ, com o “a” de (α, “alfa privativo”), “não”, e o verbo τρέ πειν, o mesmo que voltar, ou seja, Átropos é a que não volta atrás, a inflexível. Sua função é cortar o fio da vida (Brandão, 1986, p. 231).
