Resumo
Este artigo analisa as obras publicadas pela coleção e clube de assinatura “Círculo de poemas” ao longo do ano de 2023, com foco nas escolhas curatoriais que moldam sua inserção no sistema literário brasileiro contemporâneo. A partir da teoria dos polissistemas de Itamar Even-Zohar (2013) e das reflexões críticas sobre a poesia contemporânea de autores como Celia Pedrosa (2015), Beatriz Resende (2008) e Marcos Siscar (2008), o estudo examina características autorais, editoriais e estruturais das publicações. Observa-se que, embora a coleção contribua para a renovação do sistema poético nacional, ela também reproduz certas hierarquias históricas, evidenciando tensões entre inovação e tradição no campo literário.
Palabras-clave:
Círculo de poemas; sistema literário; curadoria editorial; cânone
Abstract
This article analyzes the works published by the “Círculo de poemas” collection throughout 2023, focusing on the curatorial choices that shape its insertion into the contemporary Brazilian literary system. Drawing on Itamar Even-Zohar’s polysystem theory (2013) and critical reflections on contemporary poetry by authors such as Celia Pedrosa (2015), Beatriz Resende (2008), and Marcos Siscar (2008), the study examines the authorship, editorial, and structural characteristics of the selected works. It is observed that, although the collection contributes to the renewal of the national poetic repertoire, it also reproduces certain historical hierarchies, highlighting tensions between innovation and tradition in literary field.
Keywords:
Círculo de poemas; contemporary poetry; literary system; editorial curation; canon
Resumen
Este artículo analiza las obras publicadas por la colección y club de suscripción “Círculo de poemas” a lo largo de 2023, centrándose en las decisiones curatoriales que configuran su inserción en el sistema literario brasileño contemporáneo. Basándose en la teoría de los polisistemas de Itamar Even-Zohar (2013) y en las reflexiones críticas sobre la poesía contemporánea de autores como Celia Pedrosa (2015), Beatriz Resende (2008) y Marcos Siscar (2008), el estudio examina las características autorales, editoriales y estructurales de las publicaciones. Se observa que, si bien la colección contribuye a la renovación del sistema poético nacional, también reproduce ciertas jerarquías históricas, lo que pone de relieve las tensiones entre innovación y tradición en el campo literario.
Palavras-chave:
Círculo de poemas; sistema literario; curaduría editorial; canon
Introdução
Na segunda metade do século XX, o mundo observou a consolidação dos processos de leitura compartilhada e coletiva, a partir do surgimento de Clubes de Leitura e do Livro em diversos países, especialmente na Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos (Norrick-Rühl, 2019). Além dos espaços para debate e trocas acerca de uma leitura literária feita coletivamente, esse período viu surgir também os Clubes de Assinatura, que distribuíam periodicamente livros aos participantes, através do processo de curadoria e venda. No Brasil, segundo Laurence Hallewell (2017), o primeiro clube de assinaturas data de 1941 e foi criado por Mário de Andrade, Cândido Portinari e Aníbal Machado, distribuindo aos assinantes livros de poesia. Em 1973, houve a criação do “Círculo do livro”, produzido pela editora Abril, que publicava títulos estrangeiros inéditos no Brasil e obras brasileiras de escritores contemporâneos.
Embora haja, então, alguma tradição em relação a clubes literários de assinatura, foi na última década que presenciamos um aumento nesses projetos de leitura coletiva e mediada no Brasil, com o surgimento de clubes como o popular “Tag livros”, os infantis “Turista literário” e “Leiturinha” ou o “Amora”, que distribui somente livros de escritoras mulheres. Nessa esteira, destaca-se a coleção e clube de assinaturas “Círculo de poemas” que, produzido pela editora Luna Parque, em parceria com a editora Fósforo, edita mensalmente livros de poesia, normalmente ainda inéditos no país, que tenham sido produzidos nos séculos XX ou XXI. Os livros, que são enviados mensalmente aos assinantes, são acompanhados de “plaquetes”, compostas por poemas ou ensaios produzidos especialmente para a coleção. De acordo com Gustavo Ribeiro (2023), essa coleção “trata-se de um dos grandes acontecimentos editoriais do país no que diz respeito à poesia. Nada, nenhuma publicação do tipo, nenhum conjunto de livros foi tão relevante desde, pelo menos, o fim da “Ás de colete”, coleção publicada mais de uma década atrás pelas editoras Cosac Naify e 7Letras” (2023, p. 1).
Nessa perspectiva, o presente artigo discute a produção poética da coleção “Círculo de poemas”, que já está em seu quarto ano. Faz-se uma análise panorâmica das obras publicadas durante o ano de 2023, observando as características tanto autorais - quem são os autores, suas nacionalidades, gênero e outras questões pertinentes -, quanto editorais - ano de publicação, edições anteriores, informações sobre as traduções - de cada uma das doze obras selecionadas. Entende-se que essas características são um indicativo importante na compreensão sobre a formação e a continuidade do cânone poético contemporâneo. É possível pressupor, por exemplo, que certas escolhas editoriais, como a seleção de determinados autores, temas ou estilos, influenciam não apenas a qualidade das obras, mas também sua aceitação e impacto no sistema literário (Even-Zohar, 2013).
A coleção “Círculo de poemas” trouxe títulos importantes para o cenário da poesia brasileira, seja através de autoras que ainda não tinham sido publicadas no Brasil, como a argentina Laura Witner, seja através de livros de estreia de autores brasileiros, como a Aline Motta, seja pela recuperação de poesia há muito esgotadas, como a da Maria Firmina, ou, ainda, através do processo de “antologização”, como a poesia reunida de Donizete Galvão, importante poeta do modernismo mineiro, cuja poesia, até então, não havia sido agrupada, com muitos títulos esgotados há anos. Conforme Ribeiro, “a seu modo, “Círculo de poemas” procura continuar essa tarefa dupla de prospecção do futuro e inventário do passado recente” (2023, p. 3).
Para além dos aspectos mercadológicos envolvidos em um clube de assinatura, entendemos que a “Círculo de poemas” se apresenta como um importante panorama contemporâneo da produção poética, cuja curadoria1 aponta autores e temáticas importantes da lírica produzida nas últimas décadas. Ao fazer um processo duplo de, por um lado, publicar novos nomes e, por outro, resgatar autores esgotados ou esquecidos, entendemos que essa coleção atualiza o sistema literário poético brasileiro. Desse modo, analisar e produzir conhecimento sobre essa coleção amplia o olhar que temos sobre a poesia moderna e contemporânea, permitindo que tenhamos um quadro sobre o que se entende, hoje, como mais relevante nas publicações sobre poesia.
O objetivo deste trabalho é, assim, investigar de que modo as escolhas da coleção refletem tendências contemporâneas da poesia, ao mesmo tempo que revelam persistências estruturais, como a centralização regional e a baixa representatividade racial. Discute-se também a relação entre mercado e curadoria literária, considerando os impactos dessas dinâmicas na formação de repertórios de leitura e na configuração do cânone poético atual. A metodologia adotada combina análise documental e crítica literária. Foram examinadas e catalogadas as doze obras publicadas em 2023 pela coleção “Círculo de poemas”, a partir de dados paratextuais, biográficos e textuais, articulados a uma reflexão teórica sobre o sistema literário brasileiro. O presente artigo está dividido em três seções: as particularidades da coleção dentro de uma perspectiva de sistema literário, uma análise sobre os livros enviados pela coleção em 2023 e, por último, uma análise dos perfis dos autores da coleção.
A coleção dentro do sistema literário
Se entendermos a literatura por uma perspectiva sistemática ou de polissistemas, como quis Itamar Even-Zohar (2013), podemos ver com clareza a importância de clubes e/ou coleções para a manutenção e atualização do sistema literário brasileiro. Pelos termos do autor, uma coleção como a “Círculo de poemas”, fortalece a “instituição” literária, visto que o autor explicitamente define os clubes como pertencentes a ela, uma vez que é através do movimento de curadoria de um clube de assinatura que se escolhe quem será incluído no sistema literário. Ao mesmo tempo, um clube desses também revigora o mercado, pois faz os produtos literários circularem através de relações comerciais. Embora dentro dos estudos literários tenda-se a deixar em segundo plano os aspectos mercadológicos, Even-Zohar (2013), reforça que eles também são importantes, porque, “na ausência de um mercado sociocultural não há espaço para que nenhum aspecto das atividades literárias possa se assegurar” (Even-Zohar, p. 37).
Enquanto instituição, a coleção, que já se torna referência entre os leitores e pesquisadores de poesia, vem construindo, aos poucos, sua autoridade de chamar atenção sobre quem deve ser lido. Como vivemos um momento bastante fértil em relação à poesia contemporânea, a coleção atende ao propósito de colocar luz sobre determinados autores e produções - para que os autores escolhidos pela coleção sejam colocados em evidência não é necessário que, obrigatoriamente, os leitores assinem o clube de assinatura, já que os livros podem ser adquiridos por outros meios e, inclusive, outros livros desses autores podem vir a ganhar destaque. Esse viés de indicar autores relevantes é um ponto particularmente importante, pois, como afirma Celia Pedrosa (2008), as modificações sociais, econômicas e tecnológicas que ocorreram nas décadas finais do século XX afetaram os modos de produção e de reprodução dos bens simbólicos. Esses movimentos da modernidade fragilizaram, assim, critérios que antes eram bem estabelecidos entre crítica e público, tornando inviável que hoje ainda se fale em “uma pedagogia hegemônica fundada no cânone de grandes autores e grandes obras” (Pedrosa, 2008, p. 41, grifos da autora). Nesse sentido, a coleção contribui para um refortalecimento da instituição enquanto responsável por indicar e consagrar autores e obras.
Pedrosa explica, ainda, que a lírica contemporânea “passa a se caracterizar também pela pluralidade de discursos e tendências” (2015, p. 322). Essa pluralidade parece estar presente na poesia publicada pelo “Círculo de poemas” que, em 2023, alternou entre títulos de estreia, como Uma volta pela lagoa da brasileira Juliana Krapp, e livros já consagrados em outros idiomas, como Paterson de William Carlos Williams e Ellis Island de Georges Perec. Cada uma das obras apresenta-se singular em sua linguagem, estilo e temática. Essa diversidade é, muitas vezes, um obstáculo no estudo da literatura, já que exige perspectivas de estudos diferentes para que se consiga apreender panoramicamente toda uma produção. Especialmente em função disso, é importante fazer um esforço de categorização e catalogação dessas obras, já que, conforme afirma Marcos Siscar (2008), poeta e crítico, existe uma dificuldade de incluir a produção poética das últimas décadas em uma “narrativa convincente da história da literatura” (Siscar, 2008, p. 186), devido, especialmente, aos desafios que a crítica literária enfrenta ao lidar com os impasses próprios da contemporaneidade, o que acontece também, inevitavelmente, com outras literaturas nacionais. Há, para Pedrosa, uma “dificuldade de enfrentamento do heterogêneo e de fazer disso oportunidade de questionar generalizações e discutir a partir de tensões, incertezas” (Pedrosa, 2015, p. 323).
Beatriz Resende (2008) explica que, para analisar essas novas produções literárias, é preciso, então, “deslocar a atenção de modelos, conceitos e espaços que nos eram familiares até pouco tempo atrás” (Resende, 2008, p. 15). Nesse sentido, o presente trabalho discute, inclusive, questões que, muitas vezes, são secundarizadas dentro dos estudos literários, como os dados biográficos dos autores que estão publicando. Como afirma Even-Zohar (2013):
Tem havido uma grande ausência de teorias da literatura do ponto de vista da produção. Infelizmente, quando a tradição cultural de colocar o escritor no centro da literatura foi abolida, e começou a impor-se o estudo “textocêntrico”, os velhos modelos exegéticos invadiram os novos métodos “interpretativos” que surgiram para concentrar-se na “compreensão do texto”. [...] o papel do produtor foi reduzido ao que este tem a dizer sobre seu produto, o que na sequência foi rejeitado por não ser confiável” (Even-Zohar, 2013, p. 31).
Assim, ao olhar para os produtores, assim como para a instituição e, efetivamente, para os produtos (Even-Zohar, 2013), é possível discutir a coleção “Círculo de poemas” a partir de uma perspectiva mais ampla, em um movimento que, ao mesmo tempo que analisa questões extradiegéticas, dedica também atenção ao texto poético, atentando para as especificidades de cada uma das obras.
Os livros
Ao longo de 2023, a “Círculo de poemas” publicou doze obras poéticas, acompanhadas de doze plaquetes. Naquele ano, os livros foram produzidos com a identidade visual em tons de azul, cujos projetos gráficos contavam com diferentes tipos de círculos nas capas de cada um dos livros. Foram enviados, em ordem, os seguintes livros aos assinantes:
Das doze obras acima, nenhuma havia sido lançada no Brasil anteriormente, ou seja, todas elas tiveram sua primeira edição no Brasil pela “Círculo de poemas”. Dessas, somente cinco, o que equivale a 42,7%, já tinham edições prévias em outros países. São elas: as já aclamadas Paterson de William Carlos Williams, publicada originalmente de 1946 a 1958 em cinco volumes nos Estados Unidos e Ellis Island, de George Perec, publicada em 1980 na França; as contemporâneas Tradução da estrada de Laura Wittner, com sua primeira edição argentina em 2020, A costureira descuidada de Tjawangwa Dema, publicada em 2019 em Botsuana e A tradição de Jericho Brown, publicada pela primeira vez também nos Estados Unidos em 2019. Esses dados mostram que a coleção atinge êxito em inserir novas obras no sistema literário brasileiro, visto que, conforme discute Even-Zohar (2013), quando obras são traduzidas para a língua portuguesa e são comercializadas aqui, elas passam, então, a integrar o sistema literário do país que a traduziu. Assim, além do grande número de obras que nunca haviam sido publicadas, o fato das cinco obras que não estavam disponíveis em língua portuguesa terem sido traduzidas especialmente para a coleção indica a sua importância em fazer novas obras circularem no Brasil.
É importante mencionar ainda que os poemas que compõem a obra Poesia reunida de Donizete Galvão já haviam sido publicados anteriormente no Brasil, em livros avulsos, porém foram, pela primeira vez, reunidos em uma única obra. Esse é um ponto importante que ressalta outro aspecto da coleção: recuperar obras que não estão mais em circulação, já que muitos dos livros de Galvão estão esgotados e não são mais possíveis de serem comprados. Esse traço será mais desenvolvido na coleção publicada no ano de 2024, que recuperou obras como as de Duda Machado e Maria Firmina dos Reis.
Tendo em vista o número de obras que teve sua primeira publicação em 2023 - sete - é possível afirmar ainda que a coleção deu preferência a livros contemporâneos, sendo que, dos doze livros publicados, apenas dois deles foram produzidos no século XX. Todos os demais foram escritos a partir da segunda década do século XXI, como mostra o gráfico abaixo:
A predominância de obras publicadas no século XXI revela, por parte da curadoria, uma aposta no agora: dar visibilidade a uma lírica emergente ou recente. Mais do que retomar obras consagradas, a coleção parece interessada em ampliar o repertório de leitura dos seus assinantes com livros que abordam diretamente temáticas relevantes para a contemporaneidade, como a violência de gênero em A costureira descuidada e Uma volta na lagoa; a maternidade em Tradução na estrada ou a violência racial em A tradição.
Outro dado importante é que a grande maioria das obras de 2023 (83,3%) pertencem à categoria “obras originais”, ou seja, apresentam-se como reunião de poemas configurados em uma obra original. Apenas duas obras não se encaixam nessa categoria: Poesia reunida de Galvão que reúne todos os livros publicados pelo autor e Paterson, de Williams, que reúne uma série de livros da mesma temática do autor estadunidense. Com exceção do último, que é composto por um único poema subdividido em livros, todos os demais livros apresentam múltiplos poemas, sendo que Tradução da estrada, Sequências e Ellis Island estão também subdivididos em seções. Ellis Island apresenta uma estrutura altamente experimental de modo que sua classificação é complexa, já que mistura trechos em prosa aos poemas que, tratando todos da mesma temática, também podem ser compreendidos como um poema único. De modo geral, então, é possível afirmar que os livros oscilam entre, majoritariamente, manter um padrão um pouco mais tradicional em relação à distribuição dos poemas, especialmente aqueles livros que nunca haviam sido publicados anteriormente. Já aqueles que são mais experimentais do ponto de vista de sua configuração são livros que já tinham sido bem recepcionados em outros países e, portanto, seriam uma escolha mais segura do ponto de vista comercial.
Aliado a isso, percebe-se a predominância de livros curtos, sendo que, com exceção de Poesia reunida e Paterson, todos os demais títulos têm, em média, 100 páginas. Embora essa extensão seja relativamente comum no gênero poético, o predomínio de obras mais concisas parece responder a uma série de fatores práticos. Do ponto de vista editorial, livros menores demandam menos recursos de produção, o que contribui para manter os custos da coleção mais baixos. Do ponto de vista da recepção, livros mais curtos podem ser mais atrativos aos leitores não especializados, o que pode ampliar o alcance da coleção. Além disso, a extensão reduzida das obras dialoga com o próprio ritmo de envio - um livro por mês - e torna mais viável a proposta de leitura contínua ao longo do ano. Assim, a concisão dos volumes publicados não é apenas uma característica editorial, mas sugere uma estratégia mais ampla que busca equilibrar sustentabilidade financeira e fidelização de leitores.
As obras da coleção foram analisadas, também, a partir de aspectos formais e composicionais. Para isso, foram classificadas de acordo com o nível de predominância de elementos como rima, métrica, uso de formas fixas, intertextualidade e intermidialidade. No conjunto, os livros apresentam baixo índice de estruturação formal rígida - com pouca presença de rimas, metrificação regular ou formas fixas tradicionais. Esse dado alinha-se às tendências contemporâneas que vêm sendo observadas pelos críticos de poesia. No seu texto “Figuras da prosa: a ideia da ‘prosa’ como questão da poesia” (2016), Marcos Siscar indica que há uma pulsão da poesia em sentido da prosa, com a presença de características como:
O afastamento da expecionalidade, do “milagre” ou do “halo” poéticos (Gleize, 1999), a recusa do lirismo e da expressão subjetiva, a incorporação da linguagem do real ou do imediato e nu (resumido pela figura do cão), a crítica à figuração, à formalização do poema como unidade acabada, ainda que não sejam capazes de distinguir formalmente o texto escrito em verso do texto escrito em prosa [...] fazem parte da discussão contemporânea sobre o assunto (Siscar, 2016, p. 8)
Os poemas dos livros publicados em 2023 vão ao encontro dos elementos apontados por Siscar e são majoritariamente elaborados em versos livres, o que não surpreende, pois, conforme ratifica Paulo Henriques Britto (2014), em sua reflexão sobre esse tipo de verso, “No Brasil o verso livre tornou-se a forma default da poesia contemporânea” (Britto, 2014, p. 28). Apesar disso, é importante observar que isso não significa que os poemas são construídos de maneira similar, mas sim que, hoje, utiliza-se esse termo para dar conta de uma multiplicidade de construção poética, já que essa nomenclatura “trata-se se um repertório de recursos formais, uma pluralidade escamoteada pela adoção do termo único ‘verso livre’, como podemos verificar com facilidade” (Britto, 2014, p.).
Chama atenção, especialmente, a intensificação do diálogo entre mídias e a crescente permeabilidade das fronteiras entre linguagens artística nos poemas da coleção. Florência Garramuño aponta essa como uma característica da poesia contemporânea, já que identifica, nos textos das últimas décadas, “uma saída da especificidade do meio, do próprio, da propriedade, do enquanto tal de cada uma das disciplinas, uma expansão das linguagens artísticas que desdobra os muros e barreiras de contenção” (Garramuño, 2014, p. 15). Embora a autora não esteja limitando essa expansão apenas à intermidialidade, observamos que a presença de elementos intermidiáticos nos livros da coleção - como referências visuais, sonoras, cinematográficas, performáticas ou tecnológicas incorporadas ao texto - pode ser entendida como uma forma de atualização da linguagem poética frente ao ambiente midiático que constitui o cotidiano contemporâneo.
Como discutem autores como Claus Clüver (2006) e Rajewsky (2005), a intermidialidade pode funcionar tanto como estratégia estética quanto como modo de construção de sentido, ativando camadas perceptivas e cognitivas múltiplas no leitor. Nos livros Pretovírgula, Sequências, Holograma e Ellis Island, observa-se maior grau de predominância intermidiática, seja pela incorporação explícita de outras linguagens (como a visualidade gráfica, a música ou o cinema), seja pela evocação de experiências sensoriais que remetem a mídias externas ao campo literário.
Esses dados indicam que a coleção “Círculo de poemas” não se orienta apenas por uma seleção cronológica recente, mas também por uma aposta clara em modos contemporâneos de fazer poesia através de uma curadoria atenta às linguagens que atravessam o presente. A coleção propõe, dessa maneira, um modo de ler atento às transformações do próprio campo literário, abrindo espaço para poéticas que tensionam os limites do texto impresso, contribuindo na renovação do repertório poético de seus assinantes.
Os autores
É importante discutir, ainda, o perfil dos autores que vêm sendo publicados pela curadoria do projeto. Dos doze autores publicados em 2023, nove deles ainda estão vivos, com idades que variam entre os 27 e os 73 anos, mostrando boa variedade geracional. Embora 100% deles tenham livros anteriores publicados, foi possível observar que a coleção foi a porta de entrada para muitos deles na poesia - 66% dos autores nunca tinham publicado um livro de poesia.
No que diz respeito a sua nacionalidade, observa-se que os autores estrangeiros são, respectivamente: dois autores dos Estados Unidos (Jerico Brown e William Carlos Williams), uma autora da Botsuana (Tjawangwa Dema), um autor francês (Georges Perec) e uma autora argentina (Laura Wittner), o que indica uma boa diversidade em relação aos continentes escolhidos pela coleção. A maioria dos autores selecionados foram, entretanto, brasileiros: foram sete autores de nosso país, representando 58,7% do total. Entre os brasileiros, o projeto é insuficiente em relação a variedade regional, sendo que a ampla maioria dos autores pertence a região sudeste, como podemos ver no gráfico abaixo:
A predominância de autores da região Sudeste entre os brasileiros publicados pela coleção, mesmo diante da diversidade internacional de nacionalidades, evidencia uma dificuldade estrutural de acesso e circulação literária no Brasil. Embora a curadoria contribua para a circulação de vozes distintas e para a renovação do sistema literário, ainda se percebe uma tendência a reforçar o eixo Rio-São Paulo, histórica e estruturalmente privilegiado. Assim, mesmo ampliando o repertório poético contemporâneo, a coleção também reflete as assimetrias de acesso e visibilidade que caracterizam a produção literária brasileira.
Em relação ao gênero, a coleção de 2023 publicou sete homens e cinco mulheres, mantendo uma paridade razoável ao longo do ano. A presença de autoras mulheres possibilitou a abordagem de temas específicos como maternidade, aborto, violência sexual e de gênero - questões que aparecem de forma mais marcada nos livros escritos por elas. Já no que diz respeito à racialização dos autores, observa-se um desequilíbrio mais acentuado: apenas quatro das doze obras foram escritas por autores negros. Nessas obras, temas ligados às negritudes e às africanidades ganham destaque, como se vê em: Pretovírgula e A tradição, que mobilizam questões raciais de maneira incisiva; em A costureira descuidada, cuja abordagem atravessa experiências do sul global e da diáspora africana; e em A morte também aprecia o jazz, na qual referências culturais aos países africanos de língua portuguesa são incorporadas ao debate sobre negritudes e diáspora.
A sexualidade desses autores também foi um parâmetro de análise, mas revelou-se de difícil verificação, já que, na maioria dos casos, essa informação não estava explicitada nos paratextos das obras (como a orelha, a contracapa, a descrição do livro no site, entre outros). Desse modo, a tabela ficou inteiramente preenchida com o dado “desconhecida” para o item “sexualidade”. A ausência dessa informação evidencia uma lacuna importante na forma como autores e autoras são apresentados ao público. Ainda que a sexualidade não deva ser tratada como informação obrigatória ou redutora, seu apagamento sistemático dificulta leituras que levem em conta marcadores identitários e seus efeitos na escrita e na recepção das obras. A curadoria e a edição, nesse contexto, ainda operam muitas vezes dentro de parâmetros que privilegiam certa neutralidade discursiva, o que pode contribuir para a invisibilização de autores LGBTQIA+ ou para a leitura despolitizada de textos em que a sexualidade é uma dimensão constitutiva. Essa dificuldade de acesso reforça a importância de desenvolver metodologias investigativas mais sensíveis a essas questões - não no sentido de classificar rigidamente os autores, mas de compreender como determinados silêncios e omissões também participam da construção do campo literário.
Considerações finais
Ao longo desta análise, observou-se que a coleção “Círculo de poemas” atua como uma instância formadora de valor simbólico, promovendo a inserção de autores e obras no sistema literário brasileiro. Essa atuação se dá não apenas pela repetição de referências consagradas, mas também pela aposta em nomes inéditos e emergentes, o que evidencia um movimento simultâneo de preservação e renovação do cânone. A diversidade de estilos contemplados - entre obras mais tradicionais e outras de caráter experimental - confirma o diagnóstico de autores como Pedrosa e Siscar sobre a dificuldade de narrar a poesia contemporânea de forma linear e homogênea.
Do ponto de vista da representatividade autoral, a predominância de autores da região Sudeste, a despeito da diversidade internacional presente, evidencia uma reprodução das assimetrias estruturais de circulação literária no Brasil. Da mesma forma, embora haja uma razoável paridade de gênero, a baixa presença de autores negros indica a persistência de desigualdades que a curadoria apenas atenua, sem de fato superar.
No que diz respeito à escolha das obras, a análise revelou uma tensão entre inovação e aprovação prévia: obras de caráter mais experimental são predominantemente aquelas já consagradas em outros sistemas literários, enquanto os inéditos tendem a apresentar estruturas mais habituais em relação à distribuição dos poemas no livro. Essa escolha sugere limites ao papel inovador da coleção, sinalizando uma cautela estética em relação ao risco editorial e mercadológico.
As escolhas da coleção, ainda que revelem tendências claras, como a valorização da contemporaneidade, a experimentação controlada e a recuperação de obras esgotadas, não tornam explícitas seus critérios curatoriais, o que gera ambiguidade quanto à natureza da seleção. Na descrição atual do site, encontra-se a seguinte informação sobre a coleção: “O Círculo de Poemas, da editora Fósforo, é uma coleção de poesia brasileira e estrangeira de diferentes épocas e tendências” (Círculo..., 2022). Essa descrição revela muito pouco sobre os livros que serão enviados aos leitores. De modo similar, os pequenos cartões explicativos que acompanham o livro do mês centram-se na sinopse da obra enviada em detrimento dos critérios da coleção como um todo. Desse modo, a análise dos títulos publicados assume papel central para a compreensão dos parâmetros estéticos e editoriais que efetivamente a estruturam.
Em síntese, a coleção “Círculo de poemas” desempenha um papel relevante na atualização do sistema literário brasileiro, ao ampliar repertórios e renovar perspectivas, mesmo que ainda reflita tensões constitutivas entre tradição e inovação e entre abertura simbólica e manutenção de hierarquias históricas de caráter regional, racial e mercadológico. Sendo assim, entendemos que futuras investigações sobre esse clube de assinatura, que tem se mostrado significativo e propositivo no campo da poesia, são fundamentais para atualizar a crítica de poesia brasileira.
Declaração de Disponibilidade de Dados
Os dados de pesquisa só estão disponíveis mediante solicitação.
Referencias
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Esse artigo provém do projeto de pesquisa “Circular a poesia: temáticas, formas e tendências na coleção Círculo de poemas” com fomento da Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação do Instituto Federal Sul-rio-grandense. Agradeço imensamente aos bolsistas e colaboradores do projeto que trabalharam na discussão e catalogação dos dados da coleção.
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Nos dois primeiros anos da coleção, a ficha catalográfica indica uma equipe de produção formada por Ana Luiza Greco, Fernanda Diamant, Julia Monteiro, Leonardo Gandolfi, Mariana Correia Santos, Marília Garcia, Rita Mattar e Zilmara Pimentel. A partir do terceiro ano, com a saída da Luna Parque e a manutenção do projeto apenas pela Fósforo, a ficha passa a apresentar o item “coordenação da coleção e edição”, assinado por Tarso de Melo. Neste artigo, compreendo essas duas instâncias - equipe de produção e coordenação da coleção - como responsáveis pela concepção do conjunto de obras, referindo-me a ambas, para fins analíticos, como “curadoria”.



Fonte: Elaboração própria.
Fonte: Elaboração própria.