Open-access Apresentação

Presentation

Presentación

como seria, afinal,
a voz das ruínas?
(Dal’Maz, 2024, p. 14).

A elaboração estética sempre foi um exercício importante em tempos de suspensão, como o que atravessamos durante a pandemia da COVID-19, sob as mais diversas crises, com destaque para a crise sanitária e a da democracia liberal, que deflagraram uma crise de maior envergadura, que é a crise de humanidade. Esta, marcada pelo desalento, pelo desamparo e pelo isolamento, confiscou das pessoas o direito ao convívio.

Nesse contexto, a poesia, e o exercício rítmico que ela convoca, se apresentou como uma das possibilidades de lidar com a asfixia, já que seu “excesso de transações semióticas” seria, em acordo com Franco Berardi (2020, p. 6), capaz de reativar a respiração.

O convite feito pelo filósofo italiano na obra Asfixia: capitalismo financeiro e a insurreição da linguagem para pensar e respirar fora da esfera da mensurabilidade e da medida deste século junto ao corpo do poema (Berardi, 2020, p. 13) dialoga com o de Alberto Pucheu, em versos que começaram a circular no facebook do poeta e, posteriormente, deram título a seu livro mais recente:

É chegado o tempo de voltar
à superfície. Apesar do pulmão
estourado, do estômago
explodido, dos olhos
esbugalhados, das veias
estufadas, dos miolos
espatifados, do corpo
maltratado, algo faz
saber que, apesar de tudo,
resta um fôlego qualquer
para mais um segundo,
aguentando o arremesso
final
(Pucheu, 2022, p. 137-138).

Esse impulso para voltar à superfície, acolhido como pulsão de vida, que só se realiza desafiando-se a organicidade do poema, é o que nos ensina a poesia em sua antipedagogia: ao colocar em diálogo o ato cognitivo e a competência imaginativa de quem escreve e lê, inaugura outros modos de ver e conceber o mundo, “como se nunca o tivéssemos visto antes” (Moisés, 2020, p. 23).

Pensemos neste gesto, em seu imperativo ético, como uma tarefa de restituição, a exemplo do que defende Rodrigo Cavelagna no ensaio que abre este dossiê. Tomando como ponto de inflexão e análise versos também de Pucheu, o “Poema para a catástrofe do nosso tempo”, seu pesquisador reflete sobre a atuação da poesia frente aos negacionismos e apagamentos provocados pelas violências sistêmicas; uma atuação articulada entre um dever de memória e um dever de imaginação das catástrofes históricas.

Nesse sentido, a poesia, aproximando-se do que comentamos anteriormente, pode, nas palavras de Cavelagna, “dar a ver partes significativas da construção desse tempo — o modo como passado, presente e futuro estão sobredeterminados no acontecimento e as formas de que dispomos para apresentá-lo”. Como resultado dessa observação, ele sugere que:

essa compreensão — e tudo o que dela depende: a punição dos culpados; o rememorar das vítimas; a criação de políticas da memória — deve se valer, ou carece, de uma “lógica do poético” (Pucheu, 2020) e de uma capacidade de imaginação (Didi-Huberman, 2018a, 2018b), contrários à apropriação do passado como instrumento de violência e de apagamento no presente.

O que o poema de Pucheu, em seu corpo fraturado posto em diálogo com um corpus filosófico referencial para se pensar o contemporâneo, a exemplo de Butler, Mbembe, Paul B. Preciado, Agamben, entre outros, faz, de acordo com Cavelagna, é questionar a produção e a distribuição da violência no contexto brasileiro, tornando-se, em síntese, uma montagem crítica, nos termos de Georges Didi-Huberman.

O pensamento de Didi-Huberman volta a aparecer no artigo seguinte, “Tempo suspenso: pandemia e poesia contemporânea”, de Emanuelle Estiphano. Dessa vez, a partir de uma referência ao livro Garotas em tempos suspensos, de Tamara Kamenszain, no qual a poeta escolhe como epígrafe um fragmento do filósofo francês: “Estamos diante de um tempo que não é o das datas”. Para Estiphano, “no fragmento citado, ao propor certa arqueologia da história da arte, o filósofo e historiador a toma como uma disciplina anacrônica e tensiona as discussões sobre o tempo e a imagem”.

Elegendo estes como categorias condutoras do estudo, a pesquisadora explora “em que medida a poesia e a pandemia se imbricam, aproximando e/ou se distanciando; e como os ecos pandêmicos se efetivam no pensamento poético”. Para tanto, parte do que considera a “tese-poema” de Alice Sant’Anna, intulada Dobra, na qual “O tempo — a passagem e/ou a pausa dele — é o mote central”, e nos leva à reflexão sobre a nossa experiência, e a da própria poesia, nesse tempo-estado de supensão. Como apoio para a sua leitura, Estiphano utiliza, em termos de referências centrais, Agamben, Jean-Luc Nancy e Eurídice Figueiredo.

Tendo também como categoria central o tempo, o artigo de Gislei Oliveira seleciona como corpus nove poemas do livro O tempo denso, de Vera Lúcia de Oliveira, todos escritos nos primeiros meses da pandemia de COVID-19, entre março e maio de 2020. Ancoradas na vivência do cotidiano, as análises observam como, mobilizado a voltar-se para si mesmo em meio ao isolamento social, o sujeito lírico percebe-se em meio ao entrecruzamento de diversos planos temporais, sugeridos já desde o título dos poemas: “é um tempo parado”; “lidar com o silêncio é ligá-lo a um poste de luz”; “há tempo sem dentro”; “o tempo parado pinga”; “seu pulso tinha dentro o ponteiro”; “quarentena”; “o relógio afere o que não existe”; “esse tempo despenca sobre nós”; “fendia a noite com a lâmpada”.

Em termos de resultados, Gislei Oliveira nos mostra que “os poemas de Vera Lúcia de Oliveira sobre a temporalidade constitutiva do homem vão sistematizar os conflitos inerentes a um cotidiano maçante e massacrante imposto pelo período pandêmico”. E a sensação que se destaca é justamente aquela da qual nos aproximamos a partir da epígrafe do artigo, retirada da canção de Djavan: “Dava para ver o tempo ruir”.

No entanto, os poemas, bem como a leitura que Gislei Oliveira propõe, apontam para a certeza de que “o tempo resiste como memória”; isto a poeta sugere ao configurar “uma série de imagens poéticas que coloca o tempo e a própria linguagem como transgressores dos limites impostos pelo senso comum”. A fim de orientar as análises, o autor utiliza teóricos como Paul Ricoeur, mas também convoca pesquisadores e pesquisadoras da obra de Vera Lúcia de Oliveira, como Rosa Correia e Eduardo Dall’Alba.

Em “Os filhos do tempo da peste: a pandemia de covid-19 em dois poemas de Alexei Bueno”, Leandro Fonseca parte da constatação de que a poesia contemporânea brasileira apresentou um interesse expressivo em abordar a pandemia de COVID-19, citando diversas produções até chegar à poesia de Alexei Bueno, escolhida para análise, mais particularmente dois poemas do Decálogo Indigno para os Mortos de 2020: “Matinada da peste” e “As máscaras”. A leitura destes é toda orientada pelos estudos de Antonio Candido, considerando tanto os fatores externos quanto a organização interna da obra, a fim de observar de que maneira ambos atuam na construção de sentidos. Nessa perspectiva, são mostrados os esquemas rítmicos e rímicos, aspectos lexicais, entre outros, como a observação de que, enquanto temática, a pandemia é registrada desde a escolha dos títulos, como a do opúsculo: um decálogo para os mortos de 2020, em referência ao primeiro ano de incidência da COVID-19 e ao seu rastro imenso de perdas e luto.

Dessa forma, Leandro Fonseca mostra que os poemas apresentam um significativo estrato histórico, sendo dotados “de uma considerável camada social, identificada em diversos níveis ao longo dos versos. Entretanto, não se limitam à mera tematização da pandemia, pois transbordam as marcas da História ao revelarem questões universais da condição humana”.

Já no estudo de Mileide Dias, apresentado como um texto “pessoal-político-poético”, os projetos estéticos da escritora Conceição Evaristo e da cantautora Luedji Luna são o ponto de partida para a discussão proposta, que gira em torno do quanto a precariedade estrutural imposta à população negra e as desigualdades que a provocam assumiram contornos exponenciais durante a pandemia da COVID-19 no Brasil. Em contrapartida, a arte dessas mulheres aponta para estratégias de subversão e sobrevivência capazes de desmantelar as violências e as precariedades impostas, a começar pelo que é apontado na análise de “Vozes-mulheres”, um dos poemas mais conhecidos de Evaristo, publicado na obra Poema da recordação e outros movimentos; embora não tenha sido escrito no e sobre o contexto da pandemia, como a pesquisadora nos lembra, é um poema que denuncia séculos de opressão e violências contra as mulheres negras, ao mesmo instante em que mostra que as possibilidades destas de existir e resistir passam pela força da ancestralidade, incluindo a matéria das suas escrevivências.

Como afirma a pesquisadora, durante a pandemia, para muitas mulheres negras, escrever suas negras vivências foi uma forma de não sucumbir. A leitura das canções de Luedji, “Chororô” e “Ain’t Got No”, sendo esta última uma releitura da canção imortalizada na interpretação de Nina Simone, é feita enfatizando-se a potência criativa da justaposição das duas letras, que culmina na declamação do poema A noite não adormece nos olhos mulheres, também de Conceição Evaristo, na voz da própria autora. Como aporte teórico, ganha destaque, no artigo, pensadores e, especialmente, pensadoras negras, a exemplo de Neusa Santos Souza, Lélia Gonzalez, Vilma Piedade e Carla Akotirene.

Saindo de uma abordagem mais centrada na pandemia, mas interessado em uma temática próxima, a do fim do mundo na poesia, temos o artigo “Ocupando o apocalipse com Lucas Matos”, de Carolina Carvalho. Voltado para a análise de “ocupando o apocalipse com laurie”, da obra 1989, a pesquisadora apresenta a capacidade de o poema, publicado em 2018, antever esse futuro que estaria tão próximo, assolado, em meio ao avanço da extrema-direita, pelas tragédias climáticas.

Nesse sentido, na percepção da autora, o poema em questão contribui para a compreensão de nosso tempo em sua potencialidade de reconfigurar a sensibilidade do nosso olhar para o cotidiano. Tendo como foco a questão do trabalho,

são observados que discursos são mobilizados e que diálogos são estabelecidos; quais são as cenas, os personagens, o ritmo, o tom que compõem o fim do mundo nesse poema; e como essa manifestação se insere no contexto mais amplo da escatologia contemporânea, no realismo capitalista.

Similar à postura interpretativa de Leandro Fonseca, a leitura feita por Carolina Carvalho se mostra atenta a diversos aspectos estruturais e estilísticos do poema, a exemplo da radicalidade do uso do enjambement e da fragmentação das cenas registradas. Ao final, compreendemos, junto à autora, que os versos de Lucas Matos funcionam como uma “tentativa de recuperar e reconfigurar o significado do fim do mundo, associando-o não mais a um (único) fim (possível), mas a um retorno a possíveis recomeços”.

Encerrando o dossiê, temos o artigo de Fernanda Nery, que retoma o pensamento de um filósofo convocado em outros trabalhos: Didi-Huberman. É dele a reflexão teórica em torno da melancolia que orienta a leitura da produção de Letrux, proposta pela pesquisadora. Em termos de recorte, são considerados os trabalhos entre os anos de 2018 e 2021, mais especificamente, partes do álbum Letrux aos prantos, do livro Tudo que já nadei, de colunas publicadas na revista Gama e de publicações em redes sociais, como o Instagram.

Tomada como chave interpretativa, a melancolia é lida como uma estratégia de resistência ao cenário de horror constitutivo do Brasil em meio à atuação da extrema-direita, cujas violências impetradas assumem uma proporção alarmante no período pandêmico, com o acirramento das políticas de morte. Em resposta, valendo-se de diferentes processos de construção artística, Letrux se utilizaria da melancolia, em acordo com o que nos aponta Fernanda Nery, como uma maneira de lidar com o intolerável.

Percorrer os textos deste dossiê nos faz pensar que, junto à elaboração estética, mais particularmente a poética, também a elaboração crítica em torno dessa poesia forjada em tempos de suspensão é uma maneira importante de lidar com a memória destes, uma memória que, como nos diz o poeta Lau Siqueira (2017), em um dos seus títulos, “é uma espécie de cravo ferrando a estranheza das coisas”.

A elaboração crítica, pois, nos sugere os artigos lidos, toma parte e, às vezes, frente, na difícil, mas necessária, tarefa de restituição comentada a partir do artigo de Rodrigo Cavelagna, ao instante em que nos convida, leitores/as, professores/as, pesquisadores/as, poetas e tantos/as outros/as que investem no trabalho com a palavra como um agir no mundo, a também assumir tal responsabilidade ética.

Referências

  • BERARDI, Franco (2020). Asfixia: capitalismo financeiro e a insurreição da linguagem. Tradução de Humberto do Amaral. São Paulo: Ubu.
  • DAL’MAZ, Maíra (2024). Vira uma pedra o tempo São Paulo: Patuá.
  • MOISÉS, Carlos Felipe (2020). Poesia para quê? A função social da poesia e do poeta. São Paulo: Editora Unesp.
  • PUCHEU, Alberto (2022). É chegado o tempo de voltar à superfície São Paulo: Bregantini.
  • PUCHEU, Alberto. Facebook Disponível em: https://www.facebook.com/alberto.pucheu Acesso em: 20 set. 2024.
    » https://www.facebook.com/alberto.pucheu
  • SIQUEIRA, Lau (2017). A memória é uma espécie de cravo ferrando a estranheza das coisas Porto Alegre: Casa Verde.
  • Editor:
    Paulo César Thomaz

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    29 Nov 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    02 Out 2024
  • Aceito
    07 Out 2024
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Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade de Brasília (UnB) Programa de Pós-Graduação em Literatura, Departamento de Teoria Literária e Literaturas, Universidade de Brasília , ICC Sul, Ala B, Sobreloja, sala B1-8, Campus Universitário Darcy Ribeiro , CEP 70910-900 – Brasília/DF – Brasil, Tel.: 55 61 3107-7213 - Brasília - DF - Brazil
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