Open-access O nome próprio de pessoa como hipercódigo em “Do modo cruel como se exterminam baratas”, de Paula Giannini: um estudo exploratório

Person’s name as a hypercode in “Do modo cruel como se exterminam baratas”, by Paula Giannini: an exploratory study

El nombre propio de persona como hipercódigo en “Do modo cruel como se exterminam baratas”, de Paula Giannini: un estudio exploratorio”

Resumo

Este estudo propõe a análise do antropônimo ficcional (nome de personagens) como forma textual onomástica de hipercodificação, ou seja, um hipercódigo pela ótica de Umberto Eco. Para isso, há a descrição de como a motivação de antropônimos ficcionais pela perspectiva autoral (intentio auctoris) em relação com a sua estruturação textual (intentio operis) atuam enquanto antecipadores de conteúdos, fazendo com que o nome ficcional exerça a função de mediador interpretativo quanto à (re)criação de sentidos literários. A fim de que se perceba tal atribuição onomástica em funcionamento, será considerado como corpus de análise o conto da Literatura Contemporânea Brasileira “Do modo cruel como se exterminam baratas”, de Paula Giannini - texto temático acerca da violência simbólica contra a mulher publicado na Antologia Pedaços de Asas (Giannini, 2023). Como base teórico-metodológica, estabelecemos uma relação entre a Enciclopédia Semântica de Eco (Eco, 1984) e as funções associativas dos nomes próprios de pessoa, ora pela base das pesquisas onomásticas tchecas (Dvořáková, 2018), ora pela revisão de literatura brasileira mais recente (Camargo, 2018; Camargo, 2020; Camargo, 2022; Camargo, Seide, 2018; Seide, 2021). A partir da análise empreitada e de diálogos com a autora contemporânea Paula Giannini, descrevemos como a função onomástica predominante proposta para a escolha do nome próprio da personagem principal Menina propõe a despersonalização da entidade ficcional e antecipa seu processo de subjetivação enquanto encontro de si: Maria. Este estudo exploratório confirma, ainda, a ideia do semioticista Umberto Eco acerca do conceito de Leitor-Modelo, isto porque, dentre os diversos procedimentos que envolvem o trabalho da escrita literária, há a elaboração de um arranjo antroponímico baseada em percursos inferenciais por parte de uma entidade leitora suposta cuja recepção textual empírica está necessariamente guiada pelo ancoramento das marcas textuais, às quais se atrela o continuum enciclopédico.

Palavras-chave:
Nomes ficcionais; antroponomástica literária; intentio auctoris; intentio operis; literatura brasileira contemporânea

Abstract

This study proposes an analysis of the fictional anthroponym (name of characters) as an onomastic textual form of hypercoding, that is, a hypercode from the perspective of Umberto Eco. To this end, there is a description of how the motivation of fictional anthroponyms from the authorial perspective (intentio auctoris) in relation to its textual structuring (intentio operis) acts as content anticipators, making the fictional name perform the function of an interpretative mediator regarding the (re)creation of literary meanings. In order to understand this onomastic attribution in operation, it will be considered as a corpus of analysis of the short story from Brazilian Contemporary Literature “Do modo cruel como se exterminam baratas”, by Paula Giannini - thematic text about symbolic violence against women published in the Antologia Pedaços de Asas (Giannini, 2023). As a theoretical-methodological basis, we established a relationship between Eco’s Semantic Encyclopedia (Eco, 1984) and the associative functions of person's proper names, sometimes based on Czech onomastic research (Dvořáková, 2018), sometimes based on a review of more recent Brazilian literature (Camargo, 2018; Camargo, 2020; Camargo, 2022; Camargo, Seide, 2018; Seide, 2021). Based on the analysis undertaken and dialogues with contemporary author Paula Giannini, we describe how the predominant onomastic function proposed for the choice of the main character’s first name Menina proposes the depersonalization of the fictional entity and anticipates its process of subjectivation as a self-encounter: Maria. This exploratory study also confirms the idea of semiotician Umberto Eco about the concept of Model Reader, this is because, among the various procedures that involve the work of literary writing, the elaboration of an anthroponymic arrangement based on inferential paths by a supposed reading entity whose empirical textual reception is necessarily guided by the anchoring of textual marks, to which the encyclopedic continuum is linked.

Keywords:
Fictional names; literary anthroponomastics; intentio auctoris; intentio operis; contemporary Brazilian literature

Resumen

Este estudio propone el análisis del antropónimo ficcional (nombre de personajes) como forma textual onomástica de hipercodificación, es decir, un hipercódigo desde la óptica de Umberto Eco. Este estudio exploratorio confirma, además, la idea del semiólogo Umberto Eco acerca del concepto de Lector Modelo, debido a que, entre los diversos procedimientos que involucran el trabajo de la escritura literaria, existe la elaboración de un arreglo antroponímico basado en recorridos inferenciales por parte de una supuesta entidad lectora cuya recepción textual empírica está necesariamente guiada por el anclaje; se considerará como corpus de análisis el cuento de la Literatura Contemporánea Brasileña “Do modo cruel como se exterminam baratas”, de Paula Giannini - texto temático acerca de la violencia simbólica contra la mujer publicado en la Antología Pedaços de Asas (Giannini, 2023). Como base teórico-metodológica, establecemos una relación entre la Enciclopedia Semántica de Eco (Eco, 1984) y las funciones asociativas de los nombres propios de persona, ya sea sobre la base de las investigaciones onomásticas checas (Dvořáková, 2018), o mediante la revisión de la literatura brasileña más reciente (Camargo, 2018; Camargo, 2020; Camargo, 2022; Camargo, Seide, 2018; Seide, 2021). A partir del análisis emprendido y de diálogos con la autora contemporánea Paula Giannini, describimos cómo la función onomástica predominante propuesta para la elección del nombre propio del personaje principal, Menina, propone la despersonalización de la entidad ficcional y anticipa su proceso de subjetivación en cuanto encuentro de sí misma: Maria. Este estudio exploratorio confirma, además, la idea del semiólogo Umberto Eco acerca del concepto de Lector Modelo, debido a que, entre los diversos procedimientos que involucran el trabajo de la escritura literaria, existe la elaboración de un arreglo antroponímico basado en recorridos inferenciales por parte de una supuesta entidad lectora cuya recepción textual empírica está necesariamente guiada por el anclaje de las marcas textuales, a las cuales se vincula el continuum enciclopédico.

Palabras-clave:
Nombres ficcionales; antroponomástica literaria; intentio auctoris; intentio operis; literatura brasileña contemporánea

A vontade de visitar a motivação autoral (intentio auctoris) do nome ficcional e o seu funcionamento no contexto da literatura brasileira contemporânea (intentio operis), especialmente na obra “Do modo cruel como se exterminam baratas”, publicada na antologia Pedaços de Asas (Giannini, 2023),1 levou-nos a um caminho de revisitação de conceitos, especialmente, àqueles comuns à disciplina que chamamos Antroponomástica,2 o estudo dos nomes próprios, no bojo do qual os nomes ficcionais são analisados.

A análise dos nomes ficcionais a qual nos propomos neste estudo requer uma mirada interdisciplinar que congrega Literatura, Onomástica, Semiótica, Semântica e Pragmática. A complexidade de nosso objeto de estudo leva-nos a reconhecer a complexidade do conhecimento e a recorrer à Teoria da Complexidade de Morin (2002), uma vez que esta nos permite acessar dialeticamente as diversas disciplinas historicamente construídas em prol de uma descrição que intenta pontes para a resolução de fenômenos. Para o autor (2002, p. 50), “Cada disciplina pretende primeiro fazer reconhecer a sua soberania territorial e, desse modo, confirmar as fronteiras em vez de desmoroná-las, mesmo que algumas trocas incipientes se efetivem. É necessário ir mais longe”.

Adentrar na análise do antropônimo ficcional como hipercódigo é o objetivo central deste artigo. Utilizando a fundação teórica apresentada mais adiante, analisamos os nomes próprios e as formas de chamamento relacionadas às personagens do conto “Do modo cruel como se exterminam as baratas” enquanto hipercódigos. Para tal, este artigo está organizado em quatro seções. Na primeira, fazemos uma breve discussão sobre como os nomes próprios de pessoas têm sido investigados tanto em contextos ficcionais quanto em contextos não ficcionais. Após essa discussão, apresentamos, na segunda seção do artigo, a fundamentação teórica da análise. A seguir, na terceira seção, apresentamos e contextualizamos a obra literária que analisamos. Apresentado e contextualizado o conto de Giannini, este é analisado na quarta seção do artigo, e seguimos a algumas considerações finais.

Breve discussão sobre os nomes próprios de pessoa em contextos de uso em âmbitos ficcionais e não ficcionais

Se fôssemos a campo e fizéssemos a experiência de perguntar às pessoas que circulam pelas vias, “O que é um nome próprio de pessoa?”, receberíamos diferentes respostas das pessoas inqueridas. Algumas delas, com reminiscência das aulas de Gramática Normativa, poderiam nos responder que é um substantivo próprio; outras, poderiam nos dizer que se trata de “uma palavra que identifica uma pessoa”. Desse contexto, salientar-se-ia a função já descrita em estudos onomásticos, ou seja, estudos do nome próprio, considerada primordial: a de identificar/denotar. Muitos implícitos seriam, porém, abertos para visitação, como a motivação para a escolha dos nomes próprios, o funcionamento social do nome próprio, o fato de o nome ser, geralmente, imposto por um nomeador etc.

Se complicássemos um pouco, e adentrássemos as aulas de Literatura Brasileira em qualquer segmento da Educação Básica, perguntando aos alunos, “O que é o nome de uma personagem?”, poderia haver persistência na resposta de que o nome de uma personagem é o nome que um escritor escolhe para identificá-la/denotá-la na história; e então, continuaríamos com a questão da identificação, que nos poderia parecer ser a natureza do nome próprio - seja ele usado em sociedade, seja ele presente na ficção. Poderíamos, então, retornar à nossa pergunta inicial e responder que o nome próprio é uma palavra usada para identificar, o que não deixa de ser uma de suas funcionalidades.

Se, recentemente, essa mesma turma estivesse realizando a leitura da obra Dom Casmurro, de Machado de Assis, e lhes fosse desenhado no quadro: “BENTINHO”, perguntando, “Qual o significado desse nome próprio?”, alguns, desesperados, não encontrariam nada no dicionário e presumiriam: “Nenhum”; outros, apenas pela terminação da palavra “o”, conseguiriam compreender ser “Bentinho” o nome de um homem e, assim, realizariam uma categorização básica que, para as ciências cognitivas, já implicaria significação (Karpenko, 2016; Van Langendonck, 2007); outros, com a competência onomástica mais aguçada (Seide, 2021, p. 84), veriam semelhança do nome próprio “Bentinho” com o adjetivo “bento” e chegariam próximos da definição lexicográfica: “benzido, consagrado pela bênção” (Bento, 2025), encontrando similitudes desse significado lexical com as circunstâncias ficcionais do nascimento da personagem que antecede uma promessa; outros, por fim, simplesmente diriam: “Bentinho é o marido ciumento da Capitu”.

Com base nessa situação hipotética, poderíamos depreender que: 1) um nome próprio não tem por função primordial denotar uma entidade empírica, portanto, não posso defini-lo como designador rígido nos preceitos millianos (Mill, 1984)3 ou como referência fregeana (Frege, 1978b),4 posso, porém, considerá-lo como parte do léxico mental das culturas que, ao categorizar e conceituar pessoas, pode exercer a função de singularizar e de identificar na lógica do mundo ficcional. Para justificar não ser única função do antropônimo ficcional denotar, poderia considerar, ainda, que na obra Dom Casmurro, o próprio título é um apelido recebido por Bentinho, ou seja, uma nomeação secundária - e qual seria a necessidade de (re)nomear então, se pensássemos ser o nome um simples identificador/individualizador? Afinal, tal personagem já foi identificada (Sjöblom, 2006, p. 65);5 2) um nome próprio apresenta significado/conteúdo lexical e gramatical (o nome é associado a um substantivo comum e ao gênero masculino); 3) o uso de um nome próprio pode associar-se às qualidades/defeitos de seu portador - caso de Bentinho e “ciumento” - sendo acrescidos significados associativos ao signo; assim, é possível criar sintagmas nos quais o nome próprio não só esteja pluralizado como não exerça a denotação, promovendo a descrição (conotação): “Cuidado, há homens que são Bentinhos” ou “Ela tem o estilo Madonna (Amaral; Seide, 2020, p. 117).

Na primeira construção em questão, além da aproximação por associação semântica do adjetivo “ciumento” à forma “Bentinho”, haveria um conhecimento enciclopédico necessário do enunciador e do interlocutor para a interpretação da situação da enunciação, o que relaciona, ainda, o significado de um nome próprio à sua pragmática.

Partindo do pressuposto de que nosso objeto de pesquisa trata do funcionamento do antropônimo na linguagem ficcional, ou seja, do antropônimo ficcional, consideramos, para a definição de nosso objeto, o fato primordial de sua recepção estética exigir o conhecimento enciclopédico, considerado por Seide (2021) como um dos componentes básicos de significação para o conceito onomástico, dotado, ainda, dos componentes lexical e gramatical. Para a autora:

O nome próprio é um nome singular, um objeto abstrato armazenado num endereço conceitual na mente do falante composto por um componente lógico, um componente lexical e um componente enciclopédico. Enquanto o primeiro responde pelo processamento necessário das informações para se chegar à compreensão de elocuções nas quais os nomes próprios são utilizados, os dois últimos integram o conhecimento linguístico e de mundo relativos ao nome próprio e correspondem ao conhecimento onomástico do falante ideal que pode abranger desde o conhecimento como em determinada língua e cultura os nomes são usados e suas características gramaticais até o conhecimento erudito sobre a etimologia e a origem dos nomes (Seide, 2021, p. 86).

É comum, porém, na literatura brasileira em Onomástica - e nem mesmo adentramos, ainda, a Onomástica Ficcional/Literária - que não se considere a perspectiva dos estudos sociocognitivos para descrição do nome próprio, o que o faz ser considerado, pelo viés dos estudos síncronos, um signo vazio quanto ao conteúdo/significado lexical. Nessa abordagem, percebida por Camargo (2022) como Onomástica Tradicional (2022), há uma vertente de análise dos nomes próprios que recupera os primeiros estudos de Dauzat (1925) e Vasconcelos (1928) acerca do onoma, solidificando-se, em solo brasileiro, pelo empreendimento teórico-metodológico das pesquisas acerca dos topônimos - nomes próprios de lugares -, estas amplamente difundidas pelos estudos de Dick (1990), Carvalhinhos (2002), Seabra (2006), Isquerdo e Seabra (2010), dentre outros pesquisadores.6

Embora Guérios (1973, p. 15), na introdução de seu Dicionário Etimológico de Nomes e Sobrenomes, aponte para as diversas áreas a que a “ciência dos nomes” possa vir a investigar, como a Teonímia, Zoonímia, Astronímia ou Onionímia7 etc., o teórico considera como áreas primordiais do estudo do nome próprio a Antroponímia - estudo dos nomes de pessoas8 - e a Toponímia - estudo dos nomes de lugares. No contexto tradicional das pesquisas toponímicas e, a partir de uma parcela das publicações da ordem da antroponímia brasileira (Cavalhinhos, 2003; 2007; Seabra, Isquerdo, 2018), há a defesa de que o nome próprio não apresenta significado/conteúdo em seu uso linguístico contemporâneo e que funciona como um designador rígido (Kripke, 1980; Seabra, 2006, p. 1956),9 ou seja, aponta para um referente do mundo - ou de um mundo possível para Kripke (1980) e Searle (1958) - sem a mediação de propriedades semânticas ou informações adicionais.

Tal paradigma do nome próprio defendido pelo viés da filosofia da linguagem de Mill (1984) e retomado pela Onomástica Tradicional ficou conhecido por semântica denotativa ou teoria causal da referência dos nomes próprios. Com base nas considerações de Mill, trazidas à luz dos estudos onomásticos brasileiros por Seabra (2006) e Carvalhinhos e Antunes (2007, p. 4), é possível afirmar que os estudos onomásticos tradicionais - sejam de nomes de lugares ou de pessoas (antropônimos) -, concentrar-se-iam na recuperação de tal léxico denotativo e semanticamente esvaziado (Carvalhinhos; Antunes, 2007, p. 173), geralmente, “partindo de sua etimologia” (Carvalhinhos; Antunes, 2007, p. 172). Para os estudos tradicionais em onomástica, então, haveria duas possibilidades metodológicas: desde a averiguação do significado etimológico do onoma - a recuperação histórica de seu sema - até a descrição das possíveis motivações dos nomeadores (Carvalhinhos; Antunes, 2007; Guérios, 1973). Admitimos serem profícuas as considerações históricas, ideológicas e culturais que podem ser realizadas a partir dessas duas vias de remonte de significação; por outro lado, perguntamos: haveria esfera significativa no uso síncrono do signo onomástico?

Antes de mais nada, é preciso compreender que, para Mill (1984), os nomes próprios e os pronomes pessoais são nomes singulares: signos denotativos, que possuem referência, mas não sentido ou conotação, colocando-os lado a lado. Ainda para a Filosofia da Linguagem, Frege (1978a) acrescenta ao que se convencionou chamar nome singular - em detrimento de nome geral - as descrições definidas, as quais, para o filósofo, carregariam o sentido do nome próprio. Com isso, considera-se o nome um designador rígido (Mill, 1984; Kripke, 1980), que designa sem a necessidade de qualquer mediação semântica, ou um signo descritivo cuja lógica semântica implica uma relação entre a referência e o sentido; este último, dado por descrições definidas. Isto posto, há uma aproximação lógica dos pronomes, dos nomes próprios e das descrições definidas. No entanto, para Seide (2021), incluir pronomes pessoais, descrições definidas e nomes próprios enquanto categoria comum de nomes singulares desconsidera o uso de cada um dos elementos mencionados. Continuando seu raciocínio, a autora afirma:

Com relação aos pronomes pessoais, sua carga semântica é definida no momento da enunciação. Quanto aos nomes próprios, ou ela é dada de antemão, nos casos em que os interlocutores conhecem o portador o nome, ou é construída ad hoc, quando entidades são apresentadas pela primeira vez ao ouvinte e/ou leitor. Pode haver, ainda, uma mistura de ambos. É o que ocorre quando, ainda que o portador do nome seja conhecido, o texto lido ou ouvido faz o interlocutor aprender algo a mais a seu respeito (Seide, 2021, p. 150-151).

Peirce (1878), por sua vez, considerava que o nome próprio se consubstanciava enquanto índice,10 apresentando relação necessária com o objeto imediato. Para Rastier (2021), porém:

uma lexia pode revestir-se do estatuto de um índice: por exemplo, quando se faz a chamada, cada pessoa deve reagir ao ser pronunciado seu nome. A mesma função de índice pode ser assegurada por um algarismo do qual se fez um número de identificação. Trata-se, então, de um funcionamento codificado - como no caso dos sinais - mas não do funcionamento próprio de um sistema linguístico, porque as línguas, pela sua própria criatividade, diferenciam-se fundamentalmente dos códigos Rastier (2021, p. 107).

Isto posto, há que se considerar a perspectiva simbólica, ou enciclopédica - como chamaremos, do nome próprio de pessoas.

Fundamentação teórica

Depois de considerarmos os diferentes modos de conceber e analisar os nomes próprios de pessoa apresentados na seção anterior, encontramos pouso teórico para a compreensão do motivo de haver uma episteme independente voltada ao signo onomástico, ou seja, a Onomástica: o fato de o nome próprio ser o signo mais significativo de todos e, por isso, baseamo-nos necessariamente nos teóricos que compartilham dessa percepção: Bréal (1992), Seide (2021) e Eco (1984, 1986, 2003).

São válidos, ainda, os estudos antroponímicos da última década, nos quais, embora a opacidade do significado lexical do nome próprio ainda seja uma questão complexa, houve uma tendência em descrever os seus significados considerados associativos e enciclopédicos, proposta que culmina na ressimbolização integral (Rastier, 2021) do signo onomástico (Seide, 2022, Camargo 2022). Tal movimento epistêmico, por sua vez, acarreta a revisitação dos estudos tradicionais e a própria tentativa de reformulação do nome próprio (Seide, 2013, 2021, Camargo, 2022), considerando para tal desde os estudos psicológicos e cognitivos do nome, elaborados por Van Langendonck (2007), Sjöblom (2006), Karpenko (2016) e Reszegi (2023), até possíveis ínterins epistêmicos entre as grandes áreas da Semântica Lexicalista e da Pragmática norte-americana, como se demostram as bases da Teoria da Relevância (Sperber; Wilson, 2001).11

Para Peirce (1878), semiólogo e pragmaticista, na tríade, “signo, objeto e interpretante”, o signo representa o objeto e o objeto subdivide-se em dois - o dinâmico e o imediato -, sendo aquele a coisa em si e este o modo como o objeto nos é apresentado pelo signo. A modificação que o signo imprime no objeto também fora notada pelo semanticista Bréal (1992)12 que, de acordo com Seide (2006, p. 66), “parte do princípio de que o nome carrega apenas uma das noções evocadas pelo referente e explica as flutuações de sentido com base na desproporção entre o que o nome expressa e aquilo que o falante pensa ao se utilizar dele”. Por fim, segundo Eco “a forma global do conteúdo é uma utopia” (Eco, 1984, p. 40).

Sintetizando as propostas acima consideradas, compreendemos, nas similitudes de observação dos estudiosos quanto ao significado, que todo objeto imediato - no caso posto por nós, todo conteúdo lexical - constitui um empobrecimento semântico do objeto dinâmico, jamais recuperável. Para que compreendamos determinado signo e suas flutuações de sentido, é necessário utilizar expressões que tragam à mente uma porção do conteúdo dos objetos imediatos. Como exemplificado por Eco a respeito do uso do signo linguístico /vermelho/:

quando diante da palavra /vermelho/, eu me pergunto o que é vermelho, e alguém me define vermelho em termos de milimícron, esta expressão numérica será o interpretante daquele representamen. [...] Ou, então, poderão dar-me uma definição de vermelho dizendo que é a cor do lado externo da bandeira italiana ou francesa. Ou “Você se lembra quando viu aquele fruto? Bem, a cor daquele fruto era um exemplo de vermelho”. Isto é, estabelece-se nesse ponto um processo de semiose ilimitada, pela qual de interpretante a interpretante, através de uma espiral que gradativamente se afunila, enriquecemos cada vez mais de propriedades nosso objeto imediato (Eco, 1984, p. 33).

Com relação à semiose, é preciso considerar que, ao longo deste processo motivado pela intenção de geração de (re)conhecimento, há os de indução e de dedução que tornam possível a abdução (Eco, 1984), ou seja, de criatividade (Santaella, 2004). É, pois, pelo fazer criativo autoral que se pode despertar uma porção adormecida, ainda não considerada do signo, inclusive do signo que aqui nos interessa: o signo antroponímico, ou seja, o nome próprio de pessoa - o antropônimo - em contexto ficcional.

Isto posto, resta considerar a visão holística (Silva, 2017) do conhecimento, que nos convida a reunir os estudos cognitivos e os sociais para que estes nos permitam levar em consideração os aspectos sociocognitivos (Salomão, 1977) dos nomes ficcionais em seus contextos de uso.

Desse ponto de vista, o nome ficcional é interpretado mediante uma atividade cognitiva caracterizada por ser situada, distribuída, sinérgica e sócio-histórica. É situada por estar localizada num contexto sociocultural; distribuída, pela repartição do esforço cognitivo entre dois ou mais indivíduos e entre eles e os seus instrumentos cognitivos; é, ainda, sinérgica, porque requer colaboração entre indivíduos; e sócio-histórica - está, necessariamente, relacionada ao acúmulo de experiências e vivências ao longo da história da humanidade (Silva, 2009, 2017).

Tal percepção levou-nos a questionar a definição de nome próprio de pessoas pela Antroponomástica Tradicional que o considerava enquanto designador rígido apenas dotado de significação pela perspectiva diacrônica e a defender que as unidades lexicais de uma língua - inclusive o nome próprio - são necessariamente significativas e organizadas em índices de pensamento (Bréal, 1924), ou léxico mental (Karpenko, 2016). Para uma melhor compreensão da significação e do significado do nome próprio, adotamos também os preceitos da Semântica Lexicalista de Bréal (Seide, 2006) e a noção de “Enciclopédia Semântica” de Eco (Eco, 1984; Monteiro, 2018, p. 182; Eco, 2013).

Atentando para o fato de que o nome próprio é a forma mais significativa da língua (Bréal, 1992, p. 126) - porque são nome de nomes - e considerando sua inserção no plano estético, no qual há um “trabalho particular de manipulação da expressão” (Eco, 2003, p. 222), há que se considerar, pois, que, na ficção, o conteúdo do antropônimo ficcional se faz ainda mais multifacetado quanto à significação, estando intrínseco aos processos de interpretação do texto literário. Isto posto, o uso do nome ficcional passa a exercer simbolizações específicas; estas, por sua vez, necessariamente pautadas pelo componente enciclopédico e guiadas pelo componente léxico-gramatical. Assim, embora mudem-se os usos e, com isso, as intenções, a natureza do nome próprio enquanto “endereço conceitual na mente do falante composto por um componente lógico, um componente lexical e um componente enciclopédico” (Seide, 2021, p. 86) não se altera em sua face ficcional, sendo adicionada a essa noção, porém, o fato de que o antropônimo, enquanto palavra-texto factual, exerce um direcionamento específico de significação que, imerso no ambiente ficcional, alcança o estatuto de hipercodificação. Logo, para fins de atualização, considera-se com base nos postulados brealinos e na Enciclopédica Semântica de Eco que o antropônimo ficcional é uma forma textual onomástica de hipercodificação (logo significativa) que perspectiva a interpretação semântico-enciclopédica de um Leitor-Modelo.

Posta nossa definição, é preciso que entendamos a hipercodificação como uma entrada textual que prenuncia conteúdos; trata-se, pois, de um hipercódigo nos níveis da retórica/estilística e da ideologia. Consideramos ser passível, a partir da forma antroponímica, recuperar desde “sintagmas estilisticamente conotados” (Eco, 1984, p. 61), elaborados a partir da presença de um nome próprio, até a hipercodificação ideológica, percebida enquanto “elementos já ideologizados depositados na enciclopédia e que funcionam para permitir que ativemos as estruturas ideológicas num nível superior”.

Para didaticamente situar a hipercodificação ideológica, Eco (1984, p. 120) propõe que “se num texto aparece um cão, isto já é hipercodificação ideológica, porque está registrado na enciclopédia que o cão é bom e fiel, que um xerife é corajoso”. Atualizando as considerações do autor para a hipercodificação ideológica de um nome próprio, quanto à sua funcionalidade básica - ou categorização - resta estabelecer que se, num texto literário brasileiro, aparece um nome próprio tal qual José, já está registrado que José é um nome masculino usual no paradigma brasileiro, sendo possível, ainda, presumir, até mesmo, que há um José bíblico. Por outro lado, “a ativação das estruturas ideológicas num nível superior”, mencionada pelo autor, não se dará a partir da interpretação isolada do antropônimo - do código em sentido próprio (Eco, 1986, p. 153), mas de sua relação discursiva, ou seja, dos papeis actanciais associados ao código antroponímico.

O modo como o sujeito ficcional nomeado pratica ou sofre um ato, rememorando noções conotadas como /bom x mau/; /sádico x generoso/; /influente x insignificante/, por exemplo, levará o Leitor-Modelo a acrescentar hipóteses significativas quanto ao conceito antroponímico com base em seu conhecimento enciclopédico, sua enciclopédia pessoal, sempre, porém, pautada pelo conhecimento acumulado ao longo da humanidade.

Eco (1984, p. 69) afirma que:

a enciclopédia é sempre uma construção parcial, provisória ad hoc que fazemos para poder explicar um dado contexto. O fato, porém, de ser parcial e ad hoc não quer dizer que ela é subjetiva porque, se pra entender “taça” como “escudo de Dionísio” construo uma porção enciclopédica em que a “taça” tenha a propriedade de ser redonda e côncava e de ser instrumento de paz, esta não é uma decisão pessoal minha porque, objetivamente, no tesouro da cultura, essas propriedades lhe foram atribuídas pelo menos uma vez.

Defendemos que há um continuum entre a experiência empírica e um “mundo possível” asseverado por Umberto Eco. Este “não representa um estado de coisas, mas uma sequência de um estado de coisas [...] ordenada por intervalos temporais” (Eco, 2003, p. 133), ao qual nos referiremos como “mundo da fábula” (Eco, 2003, p. 132),13locus empático, no qual dialogam as funções cognitiva e estética da literatura. Entendemos, portanto, na lógica mimética de determinada obra, a corporificação de variados comportamentos e crenças esteticamente elaborados pela vivência dos seres onomasticamente conceitualizados, funcionando enquanto mediação de um “(re)conhecimento sensível-estético” (Ferreira, 2019, p. 96; Novitz, 1987). Não percebemos, porém, que o signo antroponímico funcione como mero “designador rígido”, percepção de Kripke (1980). Por isso, utilizamos, conscientemente, o conceito “conotar” no lugar de “denotar”, isto porque consideramos a capacidade de um nome próprio de fazer conhecer, reconhecer e significar entes e compreendemos a interpretação de uma obra estética a partir da relação dos processos de singularização com os comportamentos dados e as pressuposições empreendidas por um Leitor-Modelo subordinado ao tópico-sensível. Segundo Eco (1984, p. 101):

Pode-se construir o Leitor até mesmo em nível de puras informações enciclopédicas. A construção pode ser feita com um simples título ou um apelativo. Ou seja, um texto que principia dizendo: “caros meninos, era uma vez um rei...’Quem, um rei?’ dirão logo meus pequenos leitores”, já se inicia através de estratégias de construções do Leitor-Modelo. Isto é, estabelece que o leitor ao qual o texto se dirige deve ser uma criança, e, portanto, trabalha sobre um sistema de expectativas, a semântica da criança.

Eco ensina-nos, pois, que mais que aguardar a presença de um leitor empírico, capaz de materializar os jogos de autoria de uma voz que combina “convenções enciclopédicas”, o processo de escrita constrói, na própria tessitura textual, qual a sua percepção quanto ao leitor esperado. Além, portanto, de pressupor o caminho interpretativo de um Leitor-Modelo, o escritor desenha-o em diferentes níveis de complexidade. Ainda nas palavras do autor (Eco, 1984, p. 107):

num texto em que se diz “entrou uma mulher maravilhosamente linda”, se se dissesse “entrou uma mulher linda” seria narração, “uma mulher maravilhosamente linda” é intervenção do sujeito do enunciado que, fora da narração, ainda a nível de funções discursivas, intervém como um juízo de valor pessoal que leva o leitor a um determinado comportamento emotivo com relação à personagem [...] o sujeito do enunciado se manifesta com frequência de modo secreto, não desejando ser reconhecido, mas na verdade ele é ativo e reconhecê-lo pode ser um modo de construir-se não mais como Leitor-Modelo de primeiro nível, mas como leitor crítico. Há textos em que o Leitor -Modelo é produzido como um leitor ingênuo, ignorando a presença do sujeito do enunciado e textos em que o Leitor-Modelo é produzido como um leitor consciente [...] Os níveis textuais em que podem ocorrer essas estratégias de cooperação são vários.

Ressaltamos que a função fundamental de um Leitor-Modelo - seja este ingênuo ou crítico - está circunscrita sob a função de topicalização, de definição do topic. De acordo com Eco (2003, p. 120) é o topic textual que estabelece “qual deve ser a estrutura mínima de um mundo em discussão. Essa estrutura nunca pode ser global e completa, mas representa (do mundo em questão) um perfil ou uma perspectiva. É o perfil que resulta útil para a interpretação de uma dada parcela textual”. Ainda para o autor, há, na tessitura textual, diversificadas instruções semântico-enciclopédicas, as quais funcionarão - em necessária relação dialética - como entradas lógicas, ou conceitos, que direcionarão, a partir de seu conteúdo linguístico (lexical e gramática) e enciclopédico (empírico), o processo de topicalização e de interpretação do significado. No raciocínio de Eco (1984, p. 96), as operações de narcotização (exclusão) e de enfatização dos semas (unidades portadoras de significado) poderão se dar somente a partir de prescrito o tema (topic).

A lógica desse processo interpretativo, por sua vez, leva-nos a procurar

saber de que maneira o leitor-modelo [...] é orientado para a reconstrução do topic. Muitas vezes o sinal é explícito: exatamente o título ou uma expressão manifestada que diz precisamente de que coisa o texto quer se ocupar. Às vezes, pelo contrário, deve-se procurar o topic. O texto então o estabelece, reiterando, por exemplo, com muita evidência uma série de sememas14 ou, em outros termos, palavras-chave (1986, p. 73).

Em virtude de lidarmos com o significado e a significação dos antropônimos ficcionais, ou seja, com o percurso de construção da significação de nomes de personagens a partir do uso estético da linguagem e considerarmos tanto a motivação autoral para o signo antroponímico (nome da personagem) quanto o modo textual como esse intentio auctoris (intenção do autor) organiza-se, coadunamos com as ideias de que, no texto, está implícita a construção de um Leitor-Modelo que, abstratamente idealizado e materialmente percebido na estrutura textual - exige a presença de um texto. Este além de ser uma “máquina preguiçosa que não executa todo o trabalho que deveria executar [...] construída de maneira a pedir que o leitor [...] execute uma parte do próprio trabalho” (Eco, 1984, p. 97), proporá, entre seus ‘buracos’ o direcionamento de um ‘trabalho interpretativo’, funcionando como:

mecanismo que prescreve quais propriedades, nas representações enciclopédicas dos termos que o compõe, devem ser narcotizadas e quais devem ser enfatizadas, de modo a se poderem dar amálgamas e, assim, estabelecer níveis de sentido ou isotopias no interior do texto. A maneira pela qual o texto estabelece quais as propriedades que devem ser consideradas não faz parte da representação semântica dos termos, mas de algumas estratégias pelas quais o texto prescreve o tema do próprio texto, ou topic, e o conjunto de pressuposições pretextuais e intertextuais que vão entrar em jogo e postas em função a fim de que esta operação de narcotização e de enfatização dos semas seja possível e a coerência textual seja estabelecida no amálgama dos semas escolhidos e tornados pertinentes (Eco, 1984, p. 96).

Considerando, no caso em específico que tratamos do texto literário, bem como que um texto literário implica um lugar de significação privilegiado pelo uso estético da linguagem, faz-se necessário compreender em que consiste tal “trabalho particular”, qual seja:

(i) um manipulação da expressão; (ii) essa expressão provoca (é provocada por) um reajustamento do conteúdo; (iii) essa dupla operação, produzindo um gênero de função sígnica altamente idiossincrático vem refletir-se, de certa forma, nos códigos que servem de base à operação estética, provocando uma mutação do código; (iv) a operação completa, mesmo quando visa à natureza dos códigos, produz com frequência um novo tipo de mundo; (v) enquanto visa a estimular um complexo trabalho interpretativo no destinatário, o emitente de um texto estético focaliza sua atenção nas possíveis relações de modo que tal texto representa um retículo de atos locutivos, ou comunicativos, que objetivam solicitar respostas originais (Eco, 2003, p. 222).

A manipulação da expressão que o texto literário propõe dialoga com o não-proposicional, com o que antecede a vontade do signo, isto é, prediz a própria experiência linguística. A linguagem literária propõe, embora faça uso do signo linguístico - e aqui está sua originalidade - diálogos constantes com a iconicidade peirceana (Santaella, 2004), bem como exacerba a noção de ícone, inclusive pelo artifício da elaboração do seu arranjo antroponímico, ou seja, do paradigma de nomeação de seus personagens. Cabe antecipar com base no caminho percorrido até o momento e nas considerações acima tecidas que, no texto literário, o nome próprio apresenta valor de hipercódigo, ou seja, anuncia conteúdos. Para Eco (1986, p. 61-62),

na história de Allais Un drame bien parisien, o título do primeiro capítulo introduz um /monsieur/ e uma /dame/. A primeira linha do texto do primeiro capítulo introduz os indivíduos Raoul e Margueritte. Visto que o dicionário de base deve conter também um dicionário onomástico, o leitor não tem dificuldade em reconhecer nos dois indivíduos um homem e uma mulher. Mas nenhuma regra de correferência lhe diz que Raoul e Marquerite se referem ao /monsieur/ e a /dame/ do título - aliás, operação essencial para estabelecer que os indivíduos são adultos e presumivelmente pertencem a um ambiente burguês. Neste ponto intervém uma regra hipercodificada onde (salvo ironia ou outra figura retórica) o título de um capítulo lhe anuncia o conteúdo.

Esse trecho nos é grato não só por Eco mencionar a existência de um dicionário onomástico comum ao dicionário de base - léxico que identifica as propriedades semânticas elementares das expressões, de modo a tentar amálgamas provisórios - mas, especialmente, por demonstrar como há a presença de uma certa “enciclopédia hipercodificada” no texto literário, cujo direcionamento é dado por uma palavra, um trecho ou, até mesmo um título - conforme explicitado - que direcionará quais propriedades devem ser atualizadas, ou seja, qual topic será a cadeia dos interpretantes acessada para análise de certas palavras ou passagens textuais. Assim, defenderemos, ao longo deste artigo, o nome ficcional enquanto hipercódigo. Este direcionará o Leitor-Modelo em diferentes interpretações quanto às entidades ficcionais, desde a mínima contextualização e mimese com as sociedades retratadas no mundo da fábula (Camargo, 2018), até um jogo intencional de equilíbrio entre a restrição e extensão do significado antroponímico - e aqui estão consideradas noções argumentativas e criativas do significado (Bréal, 1992), retomadas por Eco, em sua Enciclopédia Semântica.15 Ora retoma-se a relação do nome próprio com o léxico comum, ou com a etimologia - despersonalizando/sumarizando/ironizando comportamentos de entidades ficcionais - ora propõe-se, pela implicatura da alusão histórico-cultural, caminhos interpretativos impositivos do saber enciclopédico.

A construção do significado de um antropônimo ficcional em uma obra pela sua relação com um mesmo antropônimo culturalmente saliente (Van Langendonck, 2007) é bastante complexa pelas implicaturas associativas que impõe e será detalhada, neste estudo, pela perspectiva das pesquisas tchecas e brasileiras acerca do fenômeno de despersonalização. A função onomástica da despersonalização está relacionada de maneira dialética aos procedimentos estéticos de identificação da personagem e de sua autoidentificação. Para Dvořáková (2018, p. 36, tradução nossa),

a função de autoidentificação [...] Faz parte da identidade do personagem e de sua caracterização - mesmo que falte o nome [...] Quando um personagem perde seu nome ele sempre tenta recuperá-lo, bem como a identidade, ou substituí-la por uma nova [...] Em vários casos a função identificadora pode ser “quebrada” ou “corroída”. A primeira delas é uma situação em que o personagem não tem nome.

Os estudos de Laskowski (2010) e Camargo (2020, 2022) permitem afirmar que há uma forte relação entre o nome próprio e a noção de identidade social que este carrega. O uso do nome próprio em sociedade está vinculado desde a presença/ausência e uso dos documentos oficiais - enquanto índice de expressão de direitos pessoais - até a momentos simbólicos de experiência empírica: um nascimento, uma naturalização, um casamento, a possibilidade de se autonomear por um nome de urna, nome social ou pseudônimo, dentre outros, fazendo com que o nome próprio de uma pessoa esteja bastante relacionado à sua percepção de si em relação ao seu entorno, ou seja, chancela seu eu-enunciador. Essa relação entre o identificar e a identificação pode gerar, em sociedade, desde simbioses afetivas até aversões, casos últimos em que o portador de determinado nome próprio requer sua alteração (Camargo, 2022).

Desse fenômeno psicológico e sociocognitivo do antropônimo presente em sociedade quanto à simbiose identificação/identidade, interessa-nos a síntese “autoidentificação” de um sujeito já citada por Dvořáková (2018, p. 36), uma vez que tal conceito abstrato é reatualizado para a literatura na tessitura narrativa quando se faz perceptível que, ao longo do caminhar identitário de uma personagem sem nome, com uma nomeação fluida, ou nomeação posta por descrição definida (Camargo, 2018; Camargo; Seide, 2018), há tentativas de recuperação de sua singularização, ou seja, de meios que a tornem única, ao menos para si; e um desses meios é a recuperação ou a exigência de um nome próprio.16 Em “Do modo cruel como se exterminam baratas”, conforme se estabelecerá na seção de análise, Maria, repetidamente vocalizada com o substantivo comum e geral /Menina/, encontra, na assinatura do seu nome arranhado atrás da porta de um quarto que não era seu, o único meio de sentir-se singular e de perceber-se como dona de si: seu nome próprio.

Antes que cheguemos, pois, à análise do antropônimo ficcional enquanto hipercódigo, resta que contextualizemos a obra Pedaços de Asas, onde figura o conto “Do modo cruel como se exterminam baratas”.

A obra Pedaços de asas, do coletivo literário As contistas

O contexto brasileiro de produção literária pressupõe a visitação às Antologias desde o século XIX enquanto “reuniões de textos e autores [...] tendo como marco o Parnaso brasileiro, de 1830 (Coutinho; Sousa, 2001, p. 244). No século XX, porém, tais “reuniões de textos e autores” adquirem status pedagógico, uma espécie de paradigma do que viriam a ser textos “exemplares”, assim já percebidos pela crítica como um todo (Tonon, 2008). Hoje, a organização de Antologias, especialmente por editoras independentes - tal qual a Editora Urutau - responsável pela publicação de Pedaços de Asas, pressupõe um processo aberto de seleção de textos literários.

Trata-se, pois, de um meio viável de publicação para inúmeros escritores brasileiros ainda não consagrados. Especialmente a publicação de Pedaços de Asas não se deu por chamada antológica, mas sim pela busca por livros originais individuais, com o adendo de que seriam aceitos livros coletivos ou em coautoria. Para fins de percepção didática, levando em consideração que um coletivo literário pressupõe a publicação de diversos autores, consideraremos sinônimos Antologia ou Livro Coletivo. Para o processo de seleção de Pedaços de Asas (2023), foram enviados 485 originais dos quais apenas 16 foram publicados. De acordo com Sandra Godinho, prefacerista da obra: “Pedaços de asas [...] fala sobre o ‘ser mulher’[...] intrincado universo feminino que desafia um cotidiano no qual se late com a língua, já que, muitas vezes, não há mais voz, só invasão e morte” (Godinho, 2023, p. 11-12).

A partir das palavras de Godinho, é possível depreender que o coletivo As Contistas é formado por escritoras mulheres e que a Antologia versará sobre o cotidiano árido da violência contra a mulher. Antes da apresentação acima disposta, há, na seção: Quem somos detalhamentos quanto ao grupo que, formado em 2017, é hoje composto por 18 autoras, dentre as quais Paula Giannini, autora do conto: “Do modo cruel como se exterminam as baratas”. Em um apêndice da obra (2023, p. 143), é possível visitar a minibiografia da autora curitibana, texto em que se faz perceptível sua ampla atuação e devida premiação frente à Literatura Brasileira Contemporânea:

Paula Giannini transita em vários universos: escreveu Se essa Rua Fosse Minha - Espetáculo de Brincar (Ed. Bambolê, Catálogo Bolonha e PNLD Literário 2018). Seu livro Pequenas Mortes Cotidianas (Oito e Meio) foi finalista do prêmio Oceanos. É autora de Uma Estrela me Contou... História da Arte para Crianças, Como a Vida (Patuá) e De Esperança, Suor e Farina - Prêmio Dramaturgias do CCSP. Seu livro mais recente é Zumi Barreshti - uma história cigana.

Percebida a face autoral do corpus que por nós será considerado, interessa-nos justificar nossa postura de pesquisadoras que não se comportam à semelhança dos críticos hereges cátaros de Sartre (2004, p. 25) que: “querem ter nada a ver com o mundo real [...] e já que é imperiosamente necessário conviver com os nossos semelhantes, decidiram fazê-lo com os defuntos”.

Consideramos, portanto, que dar voz ao processo criativo de escritoras vivas, mediante a recuperação de trechos de entrevistas semiestruturadas quanto ao processo criativo e à elaboração do paradigma antroponímico-literário, permite não só propositar a visibilidade de textos ficcionais muitas vezes desconsiderados pelo cânone (Bernd, 2022), mas equiparar dialeticamente a intentio auctoris à intentio operis.

Concebemos, ainda, que, neste estudo, embora busquemos focar a motivação autoral (intentio auctoris) e relacioná-la ao texto (intentio operis), não deixamos de nos considerar também, sujeitos leitores, tanto do processo criativo que envolve a criação estética descrita, quanto da integralidade textual configurada em obra aberta; logo, percebemo-nos constantes representamens: necessariamente interpretativos. Feitas as devidas ressalvas quanto à perspectiva subjetiva e teórico-metodológica deste estudo exploratório, resta mencionar que a seleção da obra em questão: “Do modo cruel de se exterminar baratas” tem sua figuração justificada neste estudo por três dimensões: a) por sua atualidade (publicada em 2023); b) pela presença da temática decolonial: a violência simbólica contra a mulher; e c) pela demonstração palpável de como o antropônimo faz-se hipercódigo, prenunciando a posição do Leitor-Modelo e o caminho macrointerpretativo da obra.

Precisamos mencionar, ainda, a grata disponibilidade da autora quanto à descrição do processo criativo do respectivo arranjo antroponímico visitado, oportunidade rara de trazer à cena dos estudos literários a relação da motivação autoral com a estruturação significante do texto literário.

Justificadas nossas escolhas metodológicas e nosso corpus, passemos à descrição dos direcionamentos textuais para o estabelecimento do Leitor-Modelo quanto às funções antroponímicas no conto “Do modo cruel como se exterminam baratas”, de Paula Giannini.

Consideramos, ainda, neste momento de análise da vontade do texto literário (intentio operis), um paralelo com as considerações da autora (intentio auctoris), a fim de, nesse continuum discursivo, perceber sememas comuns.

O nome próprio como hipercódigo no conto “Do modo cruel como se exterminam baratas”, de Paula Giannini

O conto “Do modo cruel como se exterminam baratas”, presente na Antologia Pedaços de Asas (2023), topicaliza a invisibilidade da mulher periférica mediante o que chamamos de despersonalização do ente ficcional. Duas são as personagens principais do conto: uma patroa e uma empregada. A primeira se refere à segunda pela palavra “menina” grafada com letra maiúscula ao longo do conto. A narradora, por sua vez, refere-se à primeira pela palavra “patroa”, grafada com letra maiúscula. Esta grafia indica que houve uma mudança interna à categoria dos substantivos uma vez que os substantivos comuns funcionam, no conto, como nomes próprios (Seide, 2022).

Giannini afirma17 que buscou elaborar /Menina-Maria/, como representação de uma “cidadã de segunda linha”, forma como os patrões, geralmente, percebem os empregados e, especialmente, as empregadas domésticas. Para isso, a autora comenta que insistiu, textualmente, na vocalização da personagem principal por sua patroa como “menina”, intensificando, a cada novo chamado, a vivência de uma nova violência simbólica. A imposição de a empregada ser chamada por sua empregadora pelo nome Menina e não por seu nome de batismo pode ser considerada como uma situação constante e reiterada de violência simbólica (Bourdieu, 2003, 2007) é o que a leva, no desfecho da obra, ao empreendimento de uma autocrítica com relação à sua identidade e seu lugar no mundo.

A partir das considerações quanto ao processo criativo de Giannini, associadas às equiparações lexicais propostas pelo texto, diante de amortizações e enfatizações dos hipercódigos antroponímicos, há um direcionamento do Leitor-Modelo no estabelecimento de significação não só do antropônimo, enquanto conceito lexical, mas do próprio texto literário, cuja temática da invisibilidade e da violência contra a mulher se pauta inteiramente pelo jogo antroponímico.

O conto “Do modo cruel como se exterminam as baratas”, de Paula Giannini, apresenta ao leitor duas personagens: a empregada doméstica e sua patroa por uma descrição inicial fragmentada:

Quando a porta se abriu, olhava o chão. A sandália de pedrinhas contrastando com o seu chinelo de tiras seguras por um prego. Encolheu-se. Os calcanhares rachados retorciam-se intimidados pelos da outra. Os da Patroa” (Giannini, 2023, p. 57).

A partir da forma verbal “olhava”, buscamos o agente da ação (actante). Descobrimos de quem se trata somente por inferência. É possível perceber pela presença de uma “sandália de pedrinhas” contrastando com um “chinelo de tiras seguras por um prego” que estamos diante de duas pessoas; a primeira, deduzimos culturalmente - pela presença de pedras - ser uma mulher; ainda não nos está dito, tampouco implícito, que a dona do chinelo de tiras é uma mulher. Somente ao final do período é que temos a certeza de estarmos sendo apresentados a uma empregada doméstica. Tal conceituação só se faz possível pela progressão dos elementos textuais em relação dialética: a partir do vínculo dada pelo hipercódigo /outra/ que, em relação ideológica ao semema /Patroa/, permitirá a inferenciação do conceito /empregada/.

O substantivo “Patroa”, distante visualmente do leitor, apresentado somente no próximo parágrafo, é quem permite, pelo princípio simplista dedutivo de duplos ideológicos: /empregador x empregado/, associado ao conhecimento enciclopédico do conceito /patroa/, a inferenciação de seu “outro”, o diferente, o oposto: a empregada. Nota-se, desde já, que a grafia /Patroa/ apresenta letra maiúscula, indicando ao Leitor-Modelo que a essencialização18 da personagem será dada pelo seu papel social de superioridade: aquele de quem emprega e, portanto, a quem a empregada está subordinada. Por outro lado, embora socialmente hegemônica à empregada, a personagem Patroa não apresenta um processo de singularização - do início ao fim do conto - sendo conotada pela narradora, portanto, a partir de sua máscara social.

Ao longo do texto, o leitor é informado de que, até a maioridade, a dona dos chinelos de tiras vivera em um lar de acolhimento, sendo considerada “bicho forjado para a lida” (Giannini, 2023, p. 58). A única lembrança pretérita era a mãe cuja conceituação se dá por /Mulher/. Em determinada passagem quanto à infância da personagem pautada pela personificação: “Ficava. Boazinha e encostada à cortina que não calava os grunhidos” (Giannini, 2023, p. 59), recupera-se que a infância da personagem foi privada de inúmeros direitos e que sua mãe era prostituta, início de um caminho de violências. Anos depois, no dia seguinte ao seu aniversário de 18 anos, a empregada adentrava casa diferente do lar em que cresceu. Vivenciamos, então, a deplorável recepção da empregada por uma família burguesa e os primeiros diálogos entre as personagens:

Menina! [...] Uma barata. [...] Que matasse, a Patroa gania. Matou. Sacou o chinelo [...] Uma só chinelada. Exata. Era o fim. Os uivos agora eram de outra natureza. Olhos estalados, se havia matado com o chinelo, a Patroa perguntava. Que sim, sorria. Em seguida, intuição dessas que se tem sem se saber como, desfez o riso, intuindo que a expressão da outra era mais que asco apenas à barata. Entrou em seu quarto. Se estava sem uniforme, era porque fora acordada no meio do pesadelo. Que se calasse. Calou-se. A Patroa se cansara de sua voz. [...] um horror, a Patroa berrava. Acaso não viu o inseticida no armário? Vira-os, claro. E novamente que se calasse e que não pisasse descalça no chão. Não sabia o que fazer, se lavava o chinelo, se enxugava o chão, se buscava o outro calçado. Um horror a Patroa praguejava (Giannini, 2023, p. 61).

Neste momento do texto, o leitor conhece a vocalização que a /Patroa/ utiliza para referir-se à empregada doméstica: /Menina/. Tal forma antroponímica transparente associa-se ao léxico /menina/, dicionarizado como 1. Criança do sexo feminino. 2. Mulher solteira e muito nova (Menina, 2025). Trata-se, portanto, de uma entrada antroponímica de categorização ampla e que conceitua a personagem ao leitor a partir de uma generalização: não há essência ou singularização. O nome próprio selecionado por Giannini contrapõe a pragmática do nome próprio, negando à personagem o direito básico a autoidentificação. Quando perguntada acerca dessa motivação, a autora afirmou19 que sua intenção era marginalizar a personagem, equalizando-a às violências sofridas; tolher todo e qualquer direito de Menina para que o encontrar-se - o processo de singularização pautado pela temática textual - fosse uma descoberta. Atentando-nos novamente à fábula do conto, no sentido que lhe dá à palavra fábula Umberto Eco, a intentio operis, somos direcionados a uma sequência de humilhações que se intensifica, assimetricamente, do /grunhir/ ao /praguejar/ da patroa para o silenciamento da empregada, que antes lhe respondia.

O texto implica o Leitor-Modelo no direcionamento das primeiras deduções quanto ao topic, cabendo considerar, nessa definição crucial aos futuros procedimentos de inferência interpretativa, a consequência das formas antroponímicas demarcadas /Patroa/ e /Menina/ para a causal representação temática da violência pela estagnação de papéis sociais hierárquicos. Ademais, após o aparecimento textual da /barata/, conforme trecho acima, é possível recuperar o título que precede a narrativa e revisitá-lo, quanto à significação, uma vez que se faz possível, ainda, amortizar ou enfatizar tal signo quanto ao seu funcionamento como hipercódigo; é possível, afinal, que um leitor ingênuo presuma que a narrativa, em algum momento, mostre-se um manual normativo e descritivo das maneiras mais cruéis de se exterminar baratas, porém, conforme o desenvolvimento do conto, especialmente a partir do estabelecimento do topic, tal viés interpretativo-pragmático é abandonado, e por uma espécie de enciclopedização ad hoc (Eco, 1984, p. 140), que narcotiza a primeira opção, percebe-se, pela isotopia textual, a relação comportamental entre a personagem Menina e o inseto barata: ambos cruelmente acuados.

No dia seguinte ao aparecimento da primeira barata, quase sem dormir, devido aos serviços domésticos, /Menina/ apronta-se para servir o café da manhã: “Naquela casa primeiro comiam os patrões. Depois seria sua vez. Poderia tomar café, era permitido comer à vontade. Depois” (Giannini, 2023, p. 62). A partir da utilização do ordinal /primeiro/ e do advérbio de tempo /depois/, esclarece-se mais uma relação de poder dada pelos papéis sociais, intensificando que o Leitor-Modelo considere a violência simbólica contra /Menina/ como topic da narrativa. Menina, ainda sem poder comer, desde sua chegada, após lavar “banheiros dos quartos, o do corredor, o da sala” (Giannini, 2023, p. 63), decide nutrir-se dos restos deixados pelos patrões no café da manhã, quando é interrompida:

Barata. [...] No banheiro agora era ela e a barata. [...] Buscando o ângulo perfeito, percebeu, pendurados às antenas, dois pontos fazendo lembrar os brincos da mulher de sua infância. Sua mãe... a lembrança subia junto ao cheiro do ralo, misturando ao da barata. Nauseou-se. E respondeu aos socos na porta com um coice capaz de calar o mundo. Silêncio. O inseto, de cima do trono, encarava-a. [...] Não queria fazer mal à bicha. Se a Patroa quisesse, que a matasse ela mesma. Que culpa havia em sua pele para ser tomada por algo ancestralmente tão asqueroso? [...] Menina! A patroa urrava. [...]. Afastou a bicha. Que fosse embora. Por que não ia? Sabia. Os humanos odiavam, mas as baratas precisavam de seu lixo para viver! [...] Menina! O feijão incendiara. Escorregou a cascuda pelo ralo. Que se fosse. Não ia. E saiu em direção à cozinha, de lá à porta de serviço. [...] Menina! Que fosse embora, se era o que queria. Não ia. Não foi. Passou pela Patroa, os olhos grudados no chão. Os da Patroa. Os dela, não. Precisavam-se mutuamente, sabia (Giannini, 2023, p. 63-64).

No mundo da fábula, os comportamentos sócio-históricos são refletidos na engrenagem textual. Estes, por sua vez, organizar-se-ão a fim de serem assimilados (ou não) enquanto isotopia, ou seja, “um conjunto de categorias semânticas redundantes que tornam possível a leitura uniforme de uma história” (Greimas, 1966, p. 53). Percebemos, portanto, a construção de duas isotopias: a primeira, ao nível da superfície, dá-se pelo paralelismo na repetição do vocativo /Menina/, fazendo-se, pois, tal nome próprio um hipercódigo que, a partir de sua pragmática, passa a antecipar um semema: uma unidade mínima de produção de sentido. Intensiona-se20 o vocativo ao estatuto de índice de /menina/ cuja relação com o objeto /empregada doméstica/ implica o conteúdo mínimo de significado ao leitor: a submissão da protagonista /Menina/ aos mandos e desmandos da vilã /Patroa/ que, continuamente, exerce violência simbólica sobre a primeira.

Assim, o texto já simplificou ao Leitor-Modelo agentes actanciais, respectivamente protagonista x vilão. A segunda isotopia constrói-se pelo valor ideológico: a retomada da “mãe-ancestral”, pela relação barata/mãe que direciona à /menina/ a possibilidade de um lugar ancestral e diferente para ser, e que, embora nauseante, faz-se locus para exercer a subjetividade; e nisto temos a sua primeira aproximação com o inseto. Tal paradigma impõe a pressuposição de que haverá uma mudança no comportamento submisso de /Menina/ pautada pela recuperação da possibilidade de subjetivação. Caminha-se, pois, do passivo ao agressivo, para: “um coice capaz de calar o mundo” (Giannini, 2023, p. 63). O Leitor-Modelo, então, refazendo seu jogo de provisões (Eco, 1986, p. 150), pergunta-se: “Qual? Quão violento será esse coice?”. Então, o texto prossegue com uma única palavra: “Silêncio”. Levando em consideração que “Os estados sucessivos da fábula verificarão ou falsificarão previsões do leitor” (Eco, 1986, p. 134), é possível depreender que as esperanças actanciais simplistas do Leitor-Modelo partícipes do duplo dos papéis sociais constituídos pelo texto até o momento não foram satisfeitas; isto posto, as relações corporificadas a partir do duplo onomástico /Patroa/ e /Menina/ são mais complexas que o duplo /mal [opressor] x bem/ [oprimido]. Logo, o conto de Giannini (2023) intenta um texto que prevê a competência de Leitor-Modelo capaz de “especificar estruturas mais complexas” (Eco, 1986, p. 154) pela resolução de ambiguidades. A primeira e mais importante consiste em compreender de quem se fala no trecho: “Que culpa havia em sua pele para ser tomada por algo ancestralmente tão asqueroso?” (Giannini, 2023, p.64). Dado o campo semântico ativado: /pele/ comum ao ser humano e não a barata, que tem /exoesqueleto/, é possível que menina esteja se referindo ao comportamento da Patroa? Sim. Tal inferência - confirmada pelo processo criativo de Giannini - permite interpretar a repetição de estruturas sintagmáticas como descritores comuns do comportamento da /barata/, da /Patroa/ e de /menina/; vislumbremos: a) “Afastou a bicha. Que fosse embora. Por que não ia? Sabia. Os humanos odiavam, mas as baratas precisavam de seu lixo para viver!” [...] b) “Menina! Que fosse embora, se era o que queria. Não ia. Não foi. [...] precisavam-se mutuamente c) Passou pela Patroa, os olhos grudados ao chão. Os da Patroa. Os dela, não” (Giannini, 2023, p. 64-65).

A partir da repetição lexical e do paralelismo sintático acima demonstrado, é possível inferir que a) assim como a barata precisa conviver com o ódio dos humanos para sobreviver do seu lixo; b) Menina precisa conviver com as diversas humilhações da Patroa, porque tem a crença de que sua sobrevivência implica violência; a violência naturalizou-se; c) há uma relação de necessidade e culpa que relaciona Patroa à Menina: aquela sabe que seu comportamento é violento e, de alguma maneira, essa consciência a faz manter “os olhos grudados ao chão”. Gianini afirma em entrevista informal concedida as autoras desta pesquisa21 que pensara Patroa como aquela quem tem a obsessão de manter a casa impecável enquanto comunicação de valor ao marido e, para isso, terceiriza o que vê como único papel burguês constituído pelo casamento a partir da presença de Menina, que, por sua vez, crê estar fisiologicamente vinculada à patroa: a Patroa é sua sobrevivência.

O encaminhamento para a isotopia dos papéis numa nova tríade “querer, poder, precisar” (Villaça, 2006), impõe ao leitor que há um ciclo simbólico de violência que se cristalizou em Patroa e Menina, especialmente a partir do trecho: “De volta ao quarto, arranhou seu nome atrás da porta. A barata voltara. Por que voltara? Seria a mesma? Não sabia. No final, pareciam todas iguais. Iguais. Ela. O inseto. A Patroa” (Giannini, 2023, p. 65). Todo o percurso anterior de violência sofrido pela personagem Menina, e então o coice que seria capaz de calar o mundo diluído em silêncio e homogeneidade! Está posta a impaciência e o desconforto propositado ao Leitor-Modelo, porque esse desequilíbrio foi dado pela própria fábula, que antecipa a vontade do leitor de quebrar com a episteme comportamental passiva da personagem. O leitor, afinal, vivenciou a partir do caminhar de Menina a corporificação de todos os conceitos abstratos mencionados outrora: violência, passividade, submissão, dependência etc. O prazer do (re)conhecimento de estar certo - de Menina precisar reagir - advém a partir de uma informação da fábula que, inicialmente, parecia desconexa, além de não trazer informatividade ao homogêneo alcançado com a sentença “pareciam todas iguais”, mas é exatamente essa ação da personagem - o fato de arranhar seu nome - que devolve a harmonia catártica ao leitor, resolvendo-lhe o que lhe parecia já dado - a tomada de consciência de menina:

Não eram [iguais]. Ela era única. E poderia ter uma escolha. Um dia. Talvez. Lar doce lar. E admirou a única coisa que podia chamar de sua. Não era Menina. Chamava-se Maria (Giannini, 2023, p. 65).

Arranhar o nome é um símbolo de quebra das crenças da personagem, perspectivando, embora em nível simbólico, o rompimento de comportamentos de sujeição, submissão e violência. Essa percepção de si - a autoidentificação - rompe com a despersonalização anterior, dada, repetidamente, por uma vocalização associada à categorização básica. Tal forma que acompanha a personagem por toda a narrativa e direciona o conteúdo temático da violência simbólica é bruscamente resolvida na fábula pelo hipercódigo “Maria”. Para Giannini (2023), em /Maria/, não há um sobrenome, não há quaisquer marcas de um nome absolutamente singular quanto à pragmática, uma vez que quantas e tantas Marias domésticas e violentadas estão sofrendo violência simbólica no Brasil?22 Mas ser Maria é simplesmente “poder ser”: é “carregar a força de todas as mulheres”, afirma Giannini23.

A análise empreitada e os diálogos com a autora demonstram que o hipercódigo antroponímico apresenta significações diretas com a semântica macrotextual da narrativa, que se faz antecipada, seja pelo uso do antropônimo no sintagma, seja quanto aos implícitos ideológicos do signo com os processos de despersonalização e autoafirmação de uma pessoa.

No começo do conto, a personagem periférica é chamada por substantivo próprio derivado do substantivo comum “menina”, nome genérico que informa somente gênero e idade presumida, uma palavra com poucos semas que é escolhida por sua Patroa para lhe fazer referência. Esta nomeação erode a identificação da personagem (Dvořáková, 2018, p. 36), retirando o poder de essencialização do nome, despersonalizando-a. Ao final do conto, descobrimos seu nome: /Maria/, autoidentificação que, embora contemple a multiplicidade das Marias do Brasil: as periféricas, marginalizadas e aquelas que podem ser tratadas da mesma forma - com violência e desprezo - propõe uma ponte identitária, um caminho: “a única coisa que podia chamar de sua” (Giannini, 2023, p. 65). Em contrapartida, a personagem hegemônica Patroa tampouco é tratada por seu nome de batismo, mas sim generalizada por um substantivo próprio derivado do substantivo comum /patroa/ que indica que todas aquelas que assim podem ser chamadas, poderão agir da mesma maneira. Do ponto de vista da narradora, portanto, há também despersonalização e erosão da identidade: enquanto a patroa despersonaliza sua empregada doméstica, a narradora despersonaliza a patroa, realizando com isso uma representação de mundo no qual as relações sociais estão tal qual as personagens: erodidas e desumanizadas.

Considerações finais

O estudo exploratório aqui proposto buscou considerar o texto literário como “um produto cujo destino interpretativo deve fazer parte do próprio mecanismo gerativo” (Eco, 1986, p. 39), demonstrando, portanto, a maneira com que a significação dos nomes de personagens funciona como um hipercódigo que pressupõe um Leitor-Modelo e direciona a interpretação do signo antroponímico em prol da construção dos sentidos explorados do micro ao macrotextual.

Embora Umberto Eco procure desconsiderar a entidade autoral empírica em suas obras acerca da interpretação do texto literário, por entender que a significação subjaz ao texto em sua integridade e que a independência deste impede a gasta pergunta didática “o que o autor quis dizer?”, bem como Barthes (2004) tenha nos alertado quanto à morte do autor como uma maneira simbólica de desconstruir a relação autoral com a necessidade impositiva de uma univocidade interpretativa, recorremos, neste estudo, à visitação do processo criativo autoral, especialmente quanto ao arranjo antroponímico de uma obra literária.

Não discordamos das ideias dos autores mencionados, uma vez que não acreditamos que a motivação autoral reflita uma recepção uníssona quanto às possibilidades interpretativas do texto literário, afinal, este é independente; e mesmo um autor está atravessado por autores e palavras outras (Kristeva, 1974). Conforme já mencionado, porém, percebemos que o texto literário guarda em sua tessitura enciclopédica direcionamentos múltiplos que consideram a ideia de um autor empírico, consubstanciada, por sua vez, por meio do seu Leitor-Modelo, cuja pressuposição está implícita ao próprio processo criativo. Para explicitar como se dá a relação entre a motivação autoral (intentio auctoris) do antropônimo e seu direcionamento textual (intentio operis), que institui a presença do Leitor-Modelo, recorremos à motivação do processo criativo literário autoral do arranjo antroponímico de Giannini (2023), situando a presença do antropônimo enquanto palavra-chave direcionadora dos processos interpretativos, que refrata - embora não reflita, absolutamente, - a ideia de uma entidade autoral atravessada por um Leitor-Modelo.

Ainda que tenhamos considerado a motivação autoral para a seleção de antropônimos na Literatura Brasileira Contemporânea e como sua acomodação textual medeia um processo significativo, nossas considerações apresentam uma lacuna nítida: considerar a intentio lectoris. Dado o caráter exploratório desta pesquisa e a limitação do estudo, faz-se necessário buscar uma visitação à terceira entidade da tríade discutida por Umberto Eco: a intenção do leitor, vislumbrando quais os níveis de compreensão dos significados textualmente empreendidos são gerenciados por diferentes leitores para os seus processos de significação.

Pensando em um continuum formal de recepção, haveria de se estabelecer como se dão os processos interpretativos do texto aqui apresentado - e de outros - a partir da recepção de leitores diversificados, desde o segmento da Educação Básica, até a Pós-Graduação. Assim, finalmente, seria possível construir semioticamente os níveis do continuum entre a bússola textual motivada por autores brasileiros e o processo estético de recepção literária da literatura contemporânea brasileira por leitores brasileiros.

Em que pese o fôlego teórico-metodológico empregado neste estudo, é possível perceber como, de fato, faz-se infinita a cadeia de representamens passíveis à interpretação do antropônimo ficcional e sua relação com a significação do texto literário, fato que impõe a necessidade de revisitação constante dos pesquisadores ao nome ficcional: a forma linguística da reminiscência (Barthes, 1972, p. 121). Apesar dessas lacunas, passíveis de serem preenchidas posteriormente, acreditamos que as análises de outras obras literárias podem se beneficiar de nossa proposta quanto a perceber o nome próprio como hipercódigo em contextos ficcionais.

Declaração de Disponibilidade de Dados

Os dados de pesquisa só estão disponíveis mediante solicitação.

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  • VASCONCELOS, Leite de (1928). Antroponímia portuguesa. Lisboa: Imprensa Nacional.
  • VIEIRA, Isabela (2016). Maria e José são os nomes mais comuns do país, revela IBGE. Agência Brasil, 27 abr. 2016. Disponível em: Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2016-04/maria-e-jose-sao-os-nomes-mais-comuns-do-pais-revela-ibge Acesso em: 3 mar. 2025.
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    » https://doi.org/10.11606/issn.2447-8997.teresa.2005.116606
  • 1
    Há uma versão em audiovisual do conto disponível em: Do modo cruel... (2021).
  • 2
    “Ao estudo de nomes de pessoas, Guérios (1973) propõe o termo Antroponímia; considerado atualmente pelo International Congress of Onomastic Sciences (ICOS) enquanto um conjunto de nomes próprios de pessoas e sua área de estudo respectiva a Antroponomástica” (Camargo, 2022, p. 12).
  • 3
    Para Mill (1984, p. 99), “nomes próprios são conotativos; denotam os indivíduos a quem dão o nome, mas não afirmam nem implicam qualquer atributo como pertencente a esses indivíduos” [...] [são] “sinais usados para indicar esses indivíduos [uma criança chamada Paulo ou um cachorro chamado César] como sujeitos possíveis de um discurso”.
  • 4
    Para Frege, “É [...] plausível pensar que exista, unido a um sinal (nome, combinação de palavras, letra), além daquilo por ele designado, que pode ser chamado de sua referência, ainda o que eu gostaria de chamar de o sentido do sinal, onde está contido o modo pelo qual o objeto se apresenta” (Frege, 1978b, p. 62). Ainda para o autor “O nome próprio [i.e., termo singular] deve ter pelo menos um sentido (na acepção em que uso esta palavra), senão ele seria uma seqüência vazia de sons, ilegitimamente chamada, deve-se exigir que também tenha uma referência, que designe ou nomeie um objeto. Assim, o nome próprio [i.e., termo singular] se relaciona, mediante o sentido, e só mediante este com o objeto” (Frege, 1978c, p. 116). Para Alencar (2008, p. 167, 168), Frege, quanto ao objeto, no parágrafo §2 de As leis fundamentais da aritmética, “lista números, valores de verdade e cursos de valores como objetos, mas não pensamentos (embora nessa lista não esteja explícito se Frege pretende enumerar todos os tipos de objetos)”. Por isso, Frege é considerado para Alencar (2008) como empirista.
  • 5
    Para a autora, “O argumento por detrás da ideia de que os nomes não têm significado é o de que a única função de um nome próprio é a individualização. Recentemente, este argumento foi questionado. No que concerne os nomes não oficiais de cidades, por exemplo, descobriu-se que as pessoas usam nomes com outro propósito, não apenas para individualizar. Se um lugar já tem um nome próprio, a individualização não pode sequer ser a função primária do nome não oficial; nestes casos, o nome é usado para expressar imagens relativas ao lugar [...] O mesmo fenômeno ocorre, por exemplo, com nomes de pessoas não oficiais. O pré-requisito para ridicularizar alguém intencionalmente usando um nome abusivo é, acima de tudo, que o nome contenha determinado significado que possa ser interpretado de determinada maneira” (Sjöblom, 2006, p. 65).
  • 6
    Para Carvalhinhos e Antunes (2007, p. 172) “Os atuais estudos onomásticos no Brasil vêm justamente resgatando a história social contida nos nomes de uma determinada região, partindo da etimologia para reconstruir os significados e, posteriormente, traçar um panorama motivacional da região em questão, como um resgate ideológico do denominador e preservação do fundo de memória”.
  • 7
    Respectivamente “estudo dos nomes de deuses e seres sobrenaturais; dos nomes de animais; dos nomes de astros e símiles; dos nomes de produtos comerciais” (Guérios, 1973, p. 15).
  • 8
    Conforme mencionado, neste estudo, utiliza-se o termo Antroponomástica.
  • 9
    “O topônimo e o antropônimo são, pois, entidades que vão além da expressão lingüística e envolvem, obrigatoriamente, os referentes que destacam. Dentro dessa “teoria causal da referência”, Oliveira (1996) diz que o nome próprio é um “designador rígido”, pois designa um indivíduo de uma maneira única e direta. Mais que isso, acrescentamos que os nomes de lugares, assim como os nomes de pessoas são “designadores rígidos” já que representam ou são os próprios referentes em uma situação de comunicação, podendo-lhes atribuir, por isso, no âmbito dos estudos lingüísticos, certa singularidade”.
  • 10
    É preciso considerar, porém, que na teoria peirceana há cruzamentos entre a tríade ícone, índice e símbolo, podendo um índice como o nome próprio comporta-se enquanto símbolo, implicando a dependência de convenções sociais.
  • 11
    A partir do pressuposto da Teoria da Relevância de que entradas lexicais relativamente vazias podem ser significativas, Seide (2021) empreende um esforço intelectual de redefinição do nome próprio com o qual concordamos.
  • 12
    Fundador da Semântica Lexicalista a partir da publicação de Ensaio de Semântica cuja percepção teórica aproxima-se da vertente pragmaticista peirceana quanto à intenção do falante para a comunicação e processo de significação. Embora as ideias se coadunem, é preciso mencionar que não há “evidência de que Bréal tenha tido contacto com os estudos do filósofo norte-americano” (Seide, 2006, p. 138).
  • 13
    Ao longo deste artigo, utilizamos a palavra fábula como o faz Eco como sinônimo de ficção ou fabulação e não como sendo um nome de um gênero literário.
  • 14
    Eco percebe semema em concordância com Greimas, como uma “particular direção de sentido” (Eco, 1984, p. 128).
  • 15
    A perspectiva de Eco (2013, p. 543) de inspecionar sistemas de conteúdo com base na noção de que “texto e o contexto [...] fixam definitivamente o significado dos termos” baseia-se na Semântica Lexicalista de Bréal (Monteiro, 2018, p. 182; Eco, 2013), quanto à relação entre pragmática, polissemia e historicidade, uma vez que interessa à Eco “o estudo do sentido específico que termos ou enunciados assumem no contexto ou no conjunto textual” (Monteiro, 2018, p. 182).
  • 16
    Há que se considerar, ainda, o caminho oposto. Um dos meios da despersonalização na ficção é, também, esvaziar-se do nome próprio para, então, encontrar a si. Lispector explora esse viés subversivo em A paixão segundo G.H (Camargo, 2018b).
  • 17
    Entrevista informal concedida às autoras, em novembro de 2023, com uma descrição do seu processo criativo.
  • 18
    Para Barthes (1972, p. 58), “o nome próprio dispõe das três propriedades atribuídas pelo narrador à reminiscência: o poder de essencialização (pois designa apenas um referente), o poder de citação (pois é possível evocar sempre que se queira toda essência contida no nome, bastando para tanto que ele seja proferido), o poder de exploração (pois é possível ‘desdobrar’ um nome próprio, tal como se faz com uma lembrança): de certa forma, o nome próprio constitui a forma linguística da reminiscência”.
  • 19
    Entrevista informal concedida às autoras, em novembro de 2023, com uma descrição do seu processo criativo.
  • 20
    Falamos em extensão sobre a referência e intensão de sentido.
  • 21
    Entrevista informal concedida às autoras em novembro de 2023 com uma descrição do seu processo criativo.
  • 22
    A fala da escritora implica sua proficiente Competência Onomástica, uma vez que, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) “o nome próprio mais comum no Brasil é Maria. [...] 11,7 milhões de brasileiras têm esse nome” (Vieira, 2016).
  • 23
    Entrevista informal concedida às autoras em novembro de 2023 com uma descrição do seu processo criativo.
  • Editora
    Cimara Valim de Melo

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Jan 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    20 Abr 2025
  • Aceito
    20 Set 2025
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Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade de Brasília (UnB) Programa de Pós-Graduação em Literatura, Departamento de Teoria Literária e Literaturas, Universidade de Brasília , ICC Sul, Ala B, Sobreloja, sala B1-8, Campus Universitário Darcy Ribeiro , CEP 70910-900 – Brasília/DF – Brasil, Tel.: 55 61 3107-7213 - Brasília - DF - Brazil
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