Resumo
Por intermédio de uma textura crítico-poética, o presente ensaio apresenta uma reflexão sobre a representação da morte no romance Flor de Pedra (2024), de João Carrascoza. Sem perder um tom subjetivo e confessional, uma espécie de “Eu Crítico” navega de uma forma errática entre as nuances do romance e as particularidades da sua própria vida. Ao final de contas, o que está em jogo é um espelhamento entre o lido e o vivido. Dessa forma, a escrita ensaísta, aqui apresentada, caracteriza-se como um tour de force que desfaz as fronteiras entre a crítica literária e a escrita criativa.
Palavras-chave:
memória; subjetividade; literatura contemporânea; autoria
Abstract
This essay examines the representation of death in João Carrascoza’s novel Flor de Pedra (2024). Drawing on a critical-poetic approach, it discusses how the narrative intertwines with personal experience, establishing a dialogue between literary interpretation and lived reality. By adopting an essayistic mode that merges analytical rigor with creative expression, the text proposes a form of criticism that challenges conventional boundaries between literary scholarship and creative writing.
Keywords:
memory; subjectivity; contemporary literature; authorship
Resumen
Por intermedio de una textura crítico-poética, el presente ensayo presenta una reflexión sobre la representación de la muerte en la novela Flor de Pedra (2024), de João Carrascoza. Sin perder un tono subjetivo y confesional, una especie de "Yo Crítico" navega de forma errática entre los matices de la novela y las particularidades de su propia vida. Al final de cuentas, lo que está en juego es un reflejo entre lo leído y lo vivido. De esta forma, la escritura ensayística, aquí presentada, se caracteriza como un tour de force que deshace las fronteras entre la crítica literaria y la escritura creativa.
Palabras-clave:
memoria; subjetividad; literatura contemporánea; autoría
Hoje, fazem ironias
Parece que percebem
que são cada vez maioria
Roque Dalton
Tenho vivido entre a água e a terra
Minha amiga Lucía Tennina já me descreveu como um típico anfíbio do meio acadêmico. Minha rotina tem se dividido entre a sala de aula e as coxias dos teatros. Agora mesmo, nesse exato momento, escrevo esse texto durante um entediante seminário de lideranças.
Sempre gostei de visitar cemitérios
Seria talvez uma espécie de turismo mórbido. Conhecer as tumbas de grandes escritores e artistas acaba sendo um tipo de dramatização da memória. Para além dos grandes túmulos nos panteões históricos, existem solitários jazigos que renegam qualquer redenção épica da morte. Nunca esquecerei do túmulo de Kafka no cemitério judaico de Praga. Ao final de um longo corredor, deparamo-nos com um nicho mortuário, quase clandestino, que parece espelhar o esquecimento em vida. Vida e morte unem-se numa prosaica materialidade secreta.
Mas porque falar de cemitérios?
Segundo Rivera Garza, estamos “rodeadas por covas coletivas, sitiadas pelo horror e pelo medo, novas e mais brutais necrópolis surgiram.... Necrópolis contemporâneas. Palestina. África Central. Chernobyl” (Rivera Garza, 2024, p. 25). O que significa escrever hoje nesse contexto? Quais são os desafios que o exercício da escrita enfrenta em um meio onde a precariedade do trabalho e mortes horríveis são matéria-prima do dia a dia? Quais são diálogos estéticos e éticos que nos impõe o ato de escrever cercado de mortos? Nesses tempos pós-humanos, “o sangue e as telas se confundem” (Rivera Garza, 2024, p. 30). Se a escrita pretende ser crítica do estado das coisas, como é possível, através da escrita, desmantelar a gramática do poder predatório do neoliberalismo exacerbado e suas máquinas mortais de guerra? Como não lembrar dos ataques aos ônibus de São Paulo? Vivemos um “horrorismo contemporâneo” no qual as formas de violência espetacular e extrema atentam contra a vida humana.
E se o cemitério falasse?
A partir dessa premissa, João Anzanello Carrascoza apresenta Flor de Pedra (Carrascoza, 2024). O cemitério protagonista e narrador descreve um mosaico reflexivo que oscila entre o lirismo e a reflexão filosófica. Discutindo sobre a perenidade e a fugacidade do tempo e da memória, o romance divide-se em duas partes: A vida até agora (Livro I), que revisita o passado do cemitério e daqueles que por ele passaram, e A vida daqui em diante (Livro II), que começa com a transformação da casa do coveiro em biblioteca pública. O texto imita a desordem arquitetônica dos pequenos campos santos e a imprevisibilidade da existência humana. O Livro I é composto por 112 capítulos, enquanto o Livro II reúne 76 capítulos. Os capítulos funcionam como lápides filosóficas numa espécie de rapsódia de memórias aleatórias. O cemitério de Cravinhos, desprovido de “atrativos”, como ele mesmo se define, é um arquivo de memórias, um campo onde a morte repousa e também se ressignifica. O cemitério é mais do que um abrigo dos mortos - ele se torna guardião da história. Assim, Carrascoza redefine o conceito de memória, conferindo-lhe materialidade. O cemitério armazena lembranças e lhes dá forma. No Livro II, essa dimensão memorialística amplia-se com a criação da biblioteca anexa ao cemitério. Esse espaço torna-se metáfora da permanência do saber e da continuidade dos vínculos humanos por meio da literatura, mostrando que, assim como os mortos, os livros também carregam memórias e histórias de tempos passados. No romance de Carrascoza, o cemitério testemunha essa continuidade entre a vida e a morte, funcionando como um portal entre as gerações, onde as memórias permanecem vivas, transformadas em símbolos como os livros na biblioteca.
Os cemitérios são miniaturas da vida
A cidade dos mortos emite toda uma simbologia, figurativa ou não, uma arquitetura e uma estatutária, nas quais se refletem novos afetos familiares e uma consciência diversa da imortalidade. Como define Le Goff (1990), inúmeras memórias coletivas coexistem em um cemitério ao serem eternizadas em monumentos-documentos. Em outras palavras, as sepulturas funcionam como semióforos responsáveis por trazer o que está longe para perto, a morte para a vida, o ausente para o presente, o que estava no vácuo para a luz das recordações. Como um museu da morte, o cemitério é capaz de fazer uma mediação faústica entre o passado e o presente. Nesse sentido, Carrascoza consegue articular uma poética humanista dos sentimentos que gravitam entre um sepultamento e outro. Sem ignorar ou mecanizar a finitude pelas táticas de uma anestesia contemporânea, o cemitério narrador indaga-se: como são as vozes murmurejantes? Quais são os nomes dos anônimos? Quais são os retratos dos desconhecidos? Qual é a caçula do cemitério? Quais são as manias do coveiro? Como é o lamento de um pai inconsolável? Quais são as flores ofertadas?
O cemitério é um livro de pedra
Há tanta fabulação num cemitério que deveria necessariamente originar uma biblioteca. Em Flor de pedra, as estórias da primeira parte configuram um acervo romanesco. A cidade dos mortos conecta-se com o espaço dos livros. Isso quer dizer muita coisa. Para além da efemeridade dos corpos, resta a incontrolável capacidade de contar os scripts de existência daqueles que já se foram - mas permanecem vivos nas narrativas. Por essas curiosidades da vida, ou da morte, existe uma produtora cultural na minha equipe que também é cerimonialista de funerais aos finais de semana. Carol consegue uma graninha extra ao entrevistar os familiares dos mortos de forma a preparar um texto na hora do enterro. Seu guia de perguntas tem pontos obrigatórios: apelido? Nome carinhoso? Características marcantes? Alguma estória marcante? Ou seja: no final das contas, o que resta é a espécie fabuladora e suas estórias. O que resta é a literatura.
As artes estão cheias de cemitérios
Seria possível, sem muito trabalho, produzir uma antologia das representações da morte nas artes. Mas quero passar muito rapidamente por manifestações na fotografia, no cinema, nas artes plásticas, na música, na poesia. Em abril desse ano, completei vinte anos da defesa do meu Doutorado. Tal data fez- me revisitar uma instalação fotográfica que foi parte do meu corpus. Trata-se de IMEMORIAL, Rosangela Rennó. A obra é composta por fotos de operários mortos na construção de Brasília. Abaixo das fotografias, resgatadas dos acervos apagados pela amnésia social, existem chapas de aço que parecem lápides da História Oficial.
Já no cinema não há como esquecer o documentário poético Nós que aqui estamos por vós esperamos (Nós..., 1999). O filme tematiza imagens do século XX, sempre entrecortadas por cenas de lápides, filmadas em um cemitério que, ao que tudo indica, foi o responsável pelo nome do filme. O diretor realizou um minucioso trabalho na pesquisa de imagens de arquivo e trechos de filmes clássicos e, posteriormente, na montagem das mesmas, tomando uma forma muito particular. Quase todas as imagens do filme vêm acompanhadas de uma escrita inserida na montagem. Já Nuno Ramos, na sua releitura e reapropriação dos blocos de mármore, propõe uma transposição poética da sobriedade da pedra em metáforas de leveza e efemeridade. Em diferentes instalações do artista existe uma profanação da solidez através de formas disformas numa delicadeza do movimento.
Na poesia brasileira, por sua vez, João Cabral de Melo Neto compõe uma série de poemas sobre cemitérios sobre uma história social da morte. Enquanto a sociedade empurra os cemitérios para longe da vista, os versos escancaram-lhes os portões de um morrer sem dignidade e cidadania. Os poemas em questão são os seguintes: “Cemitério pernambucano” (Melo Neto, 1979, p. 78) “Cemitério alagoano” (Melo Neto, 1979, p. 68), “Cemitério paraibano” (Melo Neto, 1979, p. 32). Permeados pela ironia e agudeza, os poemas apresentam símiles inusitados, metáforas, alegorias, reiteração de imagens, revelando-se o caráter desumano de uma vida marcada pelo vazio, a ponto de ser mera antecipação da morte.
Enquanto revisito Rosangela Rennó, Nuno Ramos e João Cabral, uma música toca sem parar no meu computador. É Cemitério do grande Belchior. Um verso, em particular, não sai da minha cabeça. Ele é um abstract poético desse texto:
E a morte nos faz irmãos
Tu nessa idade e não sabe
Tudo é sertão e cidade
Tudo é cidade e sertão
(Belchior, 1976).
Gertrude Stein já deu a batia
Rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa. E a flor de pedra? Como não sabia a resposta, fui até a floricultura com minha esposa. Até que é simpática. Mas quando penso em flor de pedra me vem à cabeça o cárcere do DOPS e o cravo solitário. Nunca esquecerei sua força e sua resistência. Um cravo que sobrevive à crueldade. Um cravo que ilumina a escuridão. Um cravo de pedra que não pode ser pisado pelos fascistas.
Epílogo I
Cada vez mais me pergunto sobre qual o poder transformador de escrever um texto acadêmico. Qual o papel social da escrita universitária? Como transformamos a sociedade com nossas tintas A1, B1, B3? Escrever sobre os cemitérios levou-me a enfrentar um trauma existencial. Desde o falecimento do meu pai, em 2013, nunca havia me informado sobre a situação da sua sepultura. Eu tinha uma vaga lembrança que minha irmã era responsável financeira pelo jazigo. Mesmo depois de uma década nunca havia sido encomendada uma lápide. Não é preciso ser um psicólogo para perceber o que existe de negação ao não escrever em mármore a morte consumada. Pois bem, antes de acabar de esse ensaio, resolvi acertar as contas com esse trauma. Ao ligar para o cemitério, para minha surpresa, descobri que minha irmã nunca havia pagado as anuidades do nicho mortuário. Para completar, os ossos do meu pai estavam num saco de plástico num enorme ossário. Segundo a atendente, que falava em tom sádico, não existia nenhuma garantia que ele seria achado porque o nome poderia estar apagado pela umidade do recinto. Para minha felicidade, justamente enquanto eu assistia a última palestra do seminário de gestão, recebi um WhatsApp confirmando a localização daqueles ossos paternos. Fiquei pensando nas ironias da vida, ou da morte: meu pai, um grande paleontólogo, sendo redescoberto entre os ossos/fósseis do Cemitério São Miguel e Almas. Logo me lembrei do fóssil que estava na pasta do meu pai quando ele teve seu primeiro derrame. Sim, ele está comigo. Deveria entregar para o museu da UFRGS. Mas aquele dicinodonte com mais de 300 milhões de anos parece esmagar a ausência paterna.
Epílogo II
Pensei tanto no epitáfio para uma lápide ausente. Decidi finalmente. Está no capítulo “Alguns Epitáfios” em Flor de Pedra: ACENDEU UMA TOCHA CONTRA A ESCURIDÃO DO MUNDO. A vida é amiga da arte.
Epílogo III
Já está marcada para a próxima semana a recuperação do ossário. Irei na marmoraria encomendar a lápide. Quem diria que um texto acadêmico seria o gatilho para enfrentar um fantasma pessoal.
A liberdade ferida: individualismo, dano e a crise da agência liberal em Correr com rinocerontes
Declaração de Disponibilidade de Dados
Os dados de pesquisa só estão disponíveis mediante solicitação.
Referências
- BARBERENA, Ricardo (2022). Túmulo de Franz Kafka. [arquivo pessoal].
- BARBERENA, Ricardo (2025). Fóssil de Dicinodonte. [arquivo pessoal].
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BELCHIOR (1976). Cemitério. [10ª. faixa] [gravadora Chantecler]. [LP]. Disponível em: Disponível em: https://discografia.discosdobrasil.com.br/discos/belchior-1976 Acesso em: 10 jan. 2025.
» https://discografia.discosdobrasil.com.br/discos/belchior-1976 - CARRASCOZA, J. A. (2024). Flor de pedra. Rio de Janeiro: Editora Faria e Silva.
-
FANON, Levi (2025). [o cravo no Memorial da Resistência]. Disponível em: Disponível em: https://memorialdaresistenciasp.org.br/exposicao/longa-duracao/ Acesso em: 10 jan. 2025.
» https://memorialdaresistenciasp.org.br/exposicao/longa-duracao/ - LE GOFF, Jacques (1990). Memória e história. São Paulo: Unicamp.
- MELO NETO, João Cabral de. Poesias completas: 1940-1965. 3. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1979.
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NÓS que aqui estamos por vós esperamos (1999). Direção de Marcelo Masagão. 1 vídeo. (1h12min55seg). [documentário]. Disponível em: Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ahQzx79jUso&rco=1 Acesso em: 10 jan. 2025.
» https://www.youtube.com/watch?v=ahQzx79jUso&rco=1 -
RENNÓ, Rosângela (1994). Imemorial. Disponível em: Disponível em: https://rosangelarenno.com/imemorial-3 Acesso em: 10 jan. 2025.
» https://rosangelarenno.com/imemorial-3 - RIVERA GARZA, Cristina (2024). Os mortos indóceis: necroescritas e desapropriação. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes.






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Fonte: Nuno Ramos (1998)
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