Open-access “Quero paz para escrever”: uma leitura biografemática da auto-internação do escritor João Antonio (1937-1996) no Sanatório da Muda

“I want peace to write”: a biographematical reading of the self-admittance of writer João Antonio (1937-1996) at the Muda Sanatorium

“Quiero paz para escribir”: una lectura biografemactica de la autoadmisión del escritor João Antonio (1937-1996) en el Sanatorio de Muda

Resumo

Em maio de 1970, João Antonio (1937-1996) teve um hiato na sua trajetória pública que provocou uma guinada no seu projeto literário: o jornalista e escritor internou-se voluntariamente por dois meses no Sanatório da Muda, no Rio de Janeiro, mesmo sem indicação psiquiátrica. Um episódio breve, mas que, se observado de perto, em detalhes, revela muito acerca da biografia do autor - o que Roland Barthes (1977) definiu como um biografema. A partir de uma ampla pesquisa documental que inclui cartas, rascunhos, anotações pessoais, depoimentos inéditos e jornais da época, este ensaio reconstrói o período de isolamento do escritor, quando João Antonio se aprofundou de maneira definitiva na vida e obra de Lima Barreto, cuja ética e estilo passou a perseguir nas obras que escreveu e publicou daquele momento em diante.

Palavras-chave:
João Antonio; Lima Barreto; biografema

Abstract

In May 1970, João Antonio (1937-1996) had a hiatus in his public career that caused a turnaround in his literary project: the journalist and writer voluntarily hospitalized himself for two months at the Muda Sanatorium in Rio de Janeiro, even without a psychiatric recommendation. A brief episode, but one that if observed closely, in detail, reveals a lot about the author’s biography - what Roland Barthes (1977) defined as a biographema. Based on extensive documentary research that includes letters, drafts, personal notes, unpublished testimonies and newspapers from the time, this essay reconstructs the writer’s period of isolation, when João Antonio delved definitively into the life and work of Lima Barreto, whose ethics and style he began to pursue in the works he wrote and published from that moment on.

Keywords:
João Antonio; Lima Barreto; biographema

Resumen

En mayo de 1970, João Antonio (1937-1996) tuvo un paréntesis en su carrera pública que provocó un giro en su proyecto literario: el periodista y escritor se hospitalizó voluntariamente durante dos meses en el Sanatorio de Muda, en Río de Janeiro, incluso sin recomendación psiquiátrica. Un episodio breve, pero que si se observa de cerca, en detalle, revela mucho sobre la biografía del autor, lo que Roland Barthes (1977) definió como biografema. A partir de una amplia investigación documental que incluye cartas, borradores, notas personales, testimonios inéditos y periódicos de la época, este ensayo reconstruye el período de aislamiento del escritor, cuando João Antonio se adentró definitivamente en la vida y obra de Lima Barreto, cuya ética y estilo comenzó a perseguir en las obras que escribió y publicó a partir de ese momento.

Palabras-clave:
João Antonio; Lima Barreto; biografema

A biografia alargará seu escopo pendurando espelhos
em cantos inesperados.
Virginia Woolf

Diante do desejo de entender melhor um período nebuloso da trajetória do jornalista e escritor João Antonio (1937-1996), do qual não havia muita informação em sua fortuna crítica - um hiato na sua produção literária que envolvia uma autointernação voluntária do autor em um hospital psiquiátrico em 1970 - decidi pesquisar de maneira biográfica, levantando fontes documentais para reconstruir o episódio. Conforme a pesquisa foi resultando, no entanto, o evento que parecia passageiro foi se revelando determinante para a guinada do projeto literário do autor. Como definiu o crítico literário John Updike (1999) a respeito dos tipos de biografias possíveis de se fazer de um escritor, aquele evento tinha características que podiam “estender a nossa intimidade”1 do leitor com a obra de João Antonio.

Há muitas formas de se escrever uma vida. E sabendo que “para cada escritor é preciso inventar uma forma nova e específica de biografia” (Dosse, 2015, p. 309), escolhi narrar essa passagem peculiar na vida de João Antonio usando uma metodologia que foi forjada na mesma época do episódio. Em 1971, Roland Barthes escreveu o perfil de Marquês de Sade, Charles Fourier e Ignácio de Loyola no livro Sade, Fourier, Loyola (Barthes, 1977), por meio de excertos que chamou de biografemas. No mesmo ano, ele repetiu o exercício ao escrever sua autobiografia, Roland Barthes por Roland Barthes (Barthes, 2003), selecionando episódios peculiares da sua vida, passagens e fragmentos que acreditava absorver melhor a sua singularidade do que eventos biográficos tradicionais dispostos em linearidade com a intenção de abarcar uma pretensa totalidade,

Se fosse escritor, e morto, gostaria que a minha vida se reduzisse, pelos cuidados de um amigável e desenvolto biógrafo, a alguns pormenores, a alguns gostos, a algumas inflexões, digamos: ‘biografemas’, em que a distinção e a mobilidade poderiam deambular fora de qualquer destino e virem contagiar, como átomos voluptuosos, algum corpo futuro, destinado à mesma dispersão!; em suma, uma vida com espaços vazios, como Proust soube escrever a sua, ou então um filme, à moda antiga, onde não há palavras e em que o fluxo da imagens [...] é entrecortado, como salutares soluços, pelo rápido escrito negro do intertítulo, a irrupção desenvolta de um outro significante (Barthes, 1977, p. 13).

Em 1980, Barthes volta ao conceito em A câmara clara:

Gosto de certos traços biográficos que, na vida de um escritor, me encantam tanto quanto certas fotografias; chamei esses traços de ‘biografemas’; a Fotografia tem com a História a mesma relação que o biografema com a biografia (Barthes, 2011, p. 51).

A partir de então, o conceito de biografemas passou a integrar a teoria literária,

inserindo-se na crítica como aquele significante que, tomando um fato da vida civil do biografado, corpus da pesquisa ou do texto literário, transforma-o em signo, fecundo em significações, e reconstitui o gênero autobiográfico através de um conceito construtor da imagem fragmentária do sujeito, impossível de ser capturado pelo estereótipo de uma totalidade (Mucci, 2009).

Assim, os biografemas tornaram-se uma ferramenta de escrita de vida fragmentada, pós-moderna, que seria estratégica para escrever algumas vidas - criando signos sobre “fatos da vida civil” - que pudessem ser prismados em novas significações. Se o exercício biográfico possibilita uma forma de construção histórica do sujeito, o exercício biografemático, neste sentido, pode ajudar a iluminar a compreensão da sua construção poética. No entanto, é preciso tomar cuidados com automatismos na interpretação e análise dos biografemas. No artigo “Introdução ao método biografemático”, Corazza (2014) alerta para o risco de estabelecer uma relação causal entre vida e obra:

(a) tomar cuidado com as conexões lineares, causais, psicologistas, historicistas; (b) esquivar-se de fetiches como descendência, fatalismo, extraordinariedade, verdade, transparência, tempo; [...] (d) afastar-se da ilusão retrospectiva de coerência; (e) entender como falaciosa a constatação da vida com um todo, um conjunto coerente e orientado, que pode e deve ser apreendido como expressão unitária de uma intenção subjetiva e objetiva, de um projeto ou mesmo de uma constância; (f) não operar com modelos que associam uma cronologia ordenada, uma personalidade coerente e estável, ações sem inércia e decisões sem incertezas (Corazza, 2014, p. 55).

Assim, elegi um “fato civil” da vida do escritor João Antonio - fato este repleto de resíduos difusos e miudezas que ajudam a compor um prisma - para dar a ele uma leitura biografemática: o episódio de sua autointernação no Sanatório da Muda, no Rio de Janeiro, em maio de 1970. Ao detalhar essa passagem da sua trajetória, que durou cerca de dois meses, vou analisá-la como “signo fecundo em significações”, ou seja, interpretando o impacto que ela teve em seu projeto literário dali em diante, quando voltou a publicar. Ao biografema, portanto.

“Vou viver de literatura”

Em junho de 1968, pouco depois do turbulento maio francês, o Brasil fervilhava em protestos nas ruas contra a ditadura militar estabelecida em 1964. No dia 14, uma semana antes da Sexta Feira Sangrenta - como ficou conhecido um dos piores dias daquele período, quando 48 pessoas morreram em confronto nas ruas no Rio de Janeiro - João Antonio escreveu uma carta à amiga,2 poeta e professora Ilka Brunhilde Laurito, dando-lhe uma boa notícia, apesar do clima terrível do país. Ele, que desde a sua premiada estreia com Malagueta, Perus e Bacanaço, em 1963, não publicava ficção, afundado na rotina turbulenta como repórter, havia sido convidado a integrar o time da revista Realidade, onde fazia colaborações esporádicas, como escritor:

Sabe, eu tenho uma coisa tão grande pra lhe contar, que até estou com medo. [...] Ilka, uma equipe da Editora Abril inaugurará um caso inédito no Brasil. Eu, João Antonio, serei pago para escrever apenas literatura. E conto, apenas conto. Viverei profissionalmente de minha literatura. Chore, mulher, chore, que eu já chorei. O que foi que domou os leões, que dobrou as hienas e que enterneceu os vampiros? Terá sido esta minha pureza, este meu quê retirado do mundo, esta vontade representada de me botar inteiro no papel, este sentir estranho que ultrapassa todos os dados e informes oficiais? Ou este amor à palavra, esta gamação pelo homem, este dar-me sem conta, quando escrevo contos? Eles mesmos, os donos do dinheiro, concluíram que o João Antonio não nasceu para reportagens, artigos ou outras classificações jornalísticas. Eles concluíram que eu sou para escrever contos. Sem rédeas. […] Inauguro no mês de junho de 1968, aos trinta e um anos de idade, algo que, cheio de medo, espero merecer. Vou viver de literatura (1968b).

Dias depois, ele embarcou para a primeira aventura, já como escritor na Realidade: passou uma temporada no Porto de Santos para escrever sobre a rotina do maior cais da América Latina. O texto foi publicado em setembro de 1968 com o título “Um dia no cais”. Entrou para a história do jornalismo como o primeiro conto-reportagem brasileiro, marcando o início da prática do New Journalism no país, o “jornalismo literário”. Assim começava:

O menino equilibra a sacola na bicicleta. Manhã cedo. A rua é doméstica. De longe em longe, uma locomotiva a óleo diesel apita, modorrenta, e vem furando para as luzes na zona do cais. Um menino branco se esforça, sobe do selim para o cano, mete os peitos contra o guidão, se enverga, equilibra a sacola na bicicleta e corta de fininho o cais. Vai que vai embora. Está quase sozinho com as luzes no comprimento de paralelepípedos, gozando nas curvas. O menino mais o seu calção e a sua japona, seu cabelo cortado rente, sua campainha, trim-trim nas esquinas que atravessa. Cinco da manhã. As vassouras de piaçava correm nas mãos dos dois garçãos, peitos de fora, calças arregaçadas, tamancos. Batem, esfregam o chão da calçada do Bar Café Restaurante Chave de Ouro. A cidade, os prédios e os morros dormem de todo. Cais não dorme. Não se apaga. Lá pelos cantões, um que outro olho aceso fica no rabo da manhã. E fica (Antonio, 1976, p. 41).

Ao ler o texto antes da edição final, o colega de redação Woile Guimarães deixou um bilhete sobre ele: “João Antônio, Cabei de ler o cais, sô. Nada de embromação, só coisa linda de doer escriturada por lá. Puxa vida, deu uma vontade lôca de te abraçar e saber escrever desse jeito bonito assim. Guima, 15/8/68” (Guimarães, 1968). Em entrevista, Marília Andrade, mulher de João, foi categórica: “A Realidade foi a única fase da vida dele que eu o vi feliz” (Lacerda, 2006, p. 398).

As ruas do Brasil seguiam a marcha de protestos contra as arbitrariedades impetradas pelo Estado. Em outubro, mudanças na equipe da revista provocaram uma demissão em massa. A situação da Realidade ficou insustentável a partir do dia 13 de dezembro de 1968, com a publicação do decreto do AI-5 pelo presidente militar Artur da Costa e Silva. Mal tinha entrado, João Antonio já seria demitido. Se a carta de junho tinha as esperanças de braços erguidos, as que escreveu depois à Ilka eram de profundo desalento, a exemplo da missiva do dia 19 de dezembro de 1968:

Sua carta, agora de 8 de dezembro, teve, como muitas outras e outras cartas suas, o poder de me tirar do marasmo, do choque. E desanuviar, bastante mais do que posso, a perspectiva sombria, ou antes, a inteira falta de perspectiva que está jogada sobre mim. [...] Um homem como eu não pode deixar de se sentir profundamente amargurado num fim de ano como este [...] eu não posso ficar indiferente. Com amigos na cadeia, com a peia, com a amarra, o tacão da censura sobre tudo o que daqui pra frente redigirei (o verbo é certo, que escrever, para mim, é outra coisa) [...] Não estou revoltado. Estou é triste, amargurado, sem motivações, uma vontade desmaiada de xingar. Sei claramente que o que vem aí será pior (1968d).

Sem emprego, João Antonio tomou a mulher e o filho pelo braço e voltou ao Rio de Janeiro para ser repórter de novo na revista Manchete. Em entrevista ao jornalista Ary Quintela,3 João contou como foi voltar a operário da notícia:

JA: [Na Manchete], entre outras coisas, passei cinco meses trabalhando sem um dia de folga, era na época do primeiro sequestro nacional, o do embaixador norte-americano. Isso leva qualquer cidadão à estafa, principalmente num regime de terror, onde o fantasma da demissão pairava sobre nossas cabeças 24 horas por dia. Isso pode arrastar uma pessoa à pederastia, à impotência sexual, à ranhetice crônica ou até um sanatório. [...] Saí da Realidade em 1968 e fui para Manchete, onde fiquei quase três anos. […] Entrei num estado de profundo aborrecimento, hipocondria, dores físicas inclusive (Antonio apudSilva, 2009, p. 402).

Nos arquivos da revista, o nome de João Antonio entra no expediente na edição de 10 de maio de 1969, e a última vez que aparece é na edição de 16 de maio de 1970, ou seja, João Antonio teria trabalhado lá por pouco mais de um ano, não quase três, como disse. No total, João assinou seis reportagens de fôlego - uma sobre o Cordão do Bola Preta, uma sobre Nara Leão, uma sobre um polonês que construiu o próprio barco e dava a volta ao mundo, uma sobre ocultismo, uma sobre bandeirantes na Amazônia e uma sobre a ascensão do espiritismo no Brasil - entre outras pequenas notas de menor expressão. João Antonio estava na Manchete quando o homem pisou na Lua, quando os sequestros de diplomatas estrangeiros se tornaram habituais e quando a seleção brasileira foi escalada para a Copa do Mundo.

Em maio de 1970, João Antonio surpreendeu a equipe. Reclamando de estafa, pediu à mulher que o internasse no Sanatório da Muda, na Tijuca, conhecido hospital psiquiátrico no Rio de Janeiro, que, mais tarde, ele passaria a chamar de “Sumidouro da Tijuca”. E Marília o levou.

O “Sumidouro da Tijuca”

O Brasil tem histórico irregular de tratamento dos seus doentes mentais. A primeira instituição psiquiátrica foi aberta no país em 1841, durante o Império, batizada como Hospício de Pedro II, num imponente prédio neoclássico situado à entrada da Urca, no Rio de Janeiro, com leitos individuais e trato comparável a instituições de renome europeias.4 Rebatizado, em 1890, como Hospital Nacional dos Alienados, foi nele que Lima Barreto foi internado por alcoolismo em 1914, de 18 de agosto a 13 de outubro, e onde começou a escrever seu Diário íntimo. O conto “Como o homem chegou” (Barreto, 2010a), sobre um sujeito que morava com o pai nos arredores da cidade, era acusado de bebedeira renitente com amigos vagabundos e passava o tempo vendo estrelas - é claramente inspirado no episódio. Lima esteve no hospital durante a direção do doutor Juliano Moreira,5 intelectual que causava impressão favorável a seus pares.

Apesar disso, o hospital estava longe de ser um lugar tranquilo. São conhecidos os históricos de superlotação, tortura, perseguição e mortes em instituições do tipo. Reportagens de 1902 já denunciavam as condições precárias do local. O que só pioraria com o tempo: em reportagem do Jornal do Brasil de 10 de outubro de 1962, intitulada “Rio faz a média de 100 loucos por dia”, um médico do Ministério da Saúde, Dr. Washington Boyello, fez um panorama do setor de psiquiatria no estado da Guanabara: faltavam leitos, pessoal e recursos. Havia nove unidades públicas que integravam o “Serviço Nacional de Doenças Mentais”, e algumas clínicas particulares conveniadas com o INPS que dispunham pouquíssimos leitos para o convênio. Uma delas era o Sanatório da Muda, cujo nome oficial era Sanatório da Tijuca Ltda. Apesar da capacidade total de quase 300 leitos, disponibilizava apenas 30 para o convênio público.

Incrustado em uma área verde com três casarões de dois pavimentos no final de uma rua residencial na Zona Norte do Rio - o que o caracterizava por manter os pacientes alijados do convívio social, mas ainda dentro do perímetro urbano - o Sanatório da Tijuca era uma unidade psiquiátrica particular que havia sido fundada em 1938 pela União dos Empregados do Comércio. Dirigida por uma mulher, a doutora Iracy Doyle - “Uma mulher entre duzentos loucos!” (Rodrigues, 1941), titulou a revista Diretrizes, ao perfilá-la,6 discípula de Adolph Meyer, importante psiquiatra americano, a instituição destacava-se por usar eletrochoques, uma novidade na época, e por deixar os pacientes trabalhando ao longo do dia, em vez de confinados. Dependendo do caso, os pacientes podiam regressar à casa nos fins de semana.

Quando começou a oferecer leitos para o convênio público, as propagandas em tom convidativo que publicava nos jornais,7 na década de 40, foram substituídas por notícias referentes a greves de médicos, condições precárias dos pacientes e episódios de violência no local. A luta pela reforma psiquiátrica no Brasil só tomou corpo no final dos anos 70, e foi só em 1989 que a extinção do modelo de tratamento com altas doses de fármacos e eletrochoques virou lei no país.

Há quase nenhuma documentação histórica que possa detalhar a rotina do Sanatório da Muda especificamente em 1970, quando João Antonio lá esteve. O que é possível saber são as pistas deixadas pelo autor no conto “Casa de Loucos”, publicado em 1976. Assumidamente inspirado em sua passagem pelo local, o conto relata tratamento com choques, solitária, pouca equipe disponível, internos sem diagnóstico de doenças mentais: “Somos 290, entre enganados e desenganados” (Antonio, 1994, p. 136). É curioso que o autor tenha escolhido justamente esta instituição para isolar-se e se recuperar da estafa. O Sanatório da Tijuca não parecia muito melhor do que uma redação jornalística.

“Quero paz para escrever”: a autointernação

O risco, no entanto, parece ter valido a pena. Em depoimento ao escritor Mylton Severiano (2005), Marília Andrade conta como João Antonio “era um personagem que ele mesmo criou” (2005, p. 150), “dentro da literatura dele” (2005, p. 150), “que tinha de viver até as últimas consequências, ainda que às raias da demência” (2005, p. 150). E que, nesse sentido, ao lhe fazer o pedido “estranhíssimo, de interná-lo como louco”, ele se assemelhava a Lima Barreto, levado ao hospício pelo irmão:8

O Adolfo Bloch rasgava laudas, pisava em cima das fotos. Ele chegou em casa e falou: “Olha, quero paz para escrever. Esse negócio de jornalismo está me deixando louco. E o único jeito de eu escrever vai ser num hospício [...] Me deram este endereço, é do Sanatório da Tijuca, você me leva lá e fala que não estou bom da cabeça. Que estou rasgando dinheiro!” (Andrade apudSeveriano, 2005, p. 150).

De acordo com Marília, nem foi preciso mentir. O relato das “esquisitices normais” foi suficiente para que o médico o internasse. O que incluía sumir de casa por vários dias seguidos sem dar notícias, ou, quando em casa, trancar-se na suíte para não ser incomodado. Em entrevista a Rodrigo Lacerda, Marília usou a expressão “temperamento explosivo” (Lacerda, 2006, p. 221), e disse que sentia no episódio não só o perfume de Lima Barreto como de Dostoiévski, autor que também havia escrito sobre o tema. “O episódio foi ao mesmo tempo um laboratório literário, uma reportagem de campo e uma internação real” (Andrade apud Lacerda, 2006, p. 423). Anos depois, em entrevista ao jornalista Ary Quintela, João daria outra versão para sua internação:

JA: Passei, realmente, uma temporada muito braba na vida [Na Manchete], entre outras coisas, passei cinco meses trabalhando sem um dia de folga. Isso leva qualquer cidadão à estafa, principalmente num regime de terror, onde o fantasma da demissão pairava sobre nossas cabeças 24 horas. Isso pode arrastar uma pessoa à pederastia, à impotência sexual, à ranhetice crônica ou até um sanatório [...] Entrei num estado de profundo aborrecimento, hipocondria, dores físicas inclusive, e - a conselho médico - fui levado para o sanatório. Fui para lá sob meus protestos, claro, pois o estafado acha que nunca está estafado, como o mitômano afirma que não mente, o alcoólatra diz que não bebe, o epilético afirma estar sadio e o louco jura ser lúcido (Antonio apud Silva, 2009, p. 402).

Assim como Lima Barreto, João Antonio ficou internado por cerca de dois meses. Mas ao contrário de Lima, em um calvário autoinduzido, um exílio forçado e, segundo algumas pistas levam a crer, forjado. Em carta endereçada ao amigo e crítico literário Fábio Lucas, João afirma que foi internado no dia 13 de maio de 1970, “para tratamento dos nervos, de possível esgotamento, estafa, desequilíbrio emocional e não sei mais quantos nomes para fazer a caracterização de saco cheio, paciência esgotada” (Antonio, 2005, p. 91). Vale destacar a data: 13 de maio é também o aniversário de Lima Barreto, a data em que se celebra a Abolição da escravatura e o dia em que João Antonio escolheria anos depois para assinar a nota prévia do livro concebido no sanatório e dedicado a Lima Barreto.

Esses detalhes mostram que a autointernação pode ter sido planejada. Um exercício de seu “corpo a corpo com a vida”9 que se transformava em uma espécie de performance de permanência, já que a elaboração da posteridade também era uma característica do seu projeto literário. Nesse sentido, internar-se voluntariamente bem no dia do aniversário de Lima Barreto não soa como simples coincidência, mas como ação imantada de significado. João Antonio manejava cuidadosamente a recepção à sua obra. Mantinha amigos e jornalistas a par de cada ideia, tradução, aceite ou nova edição; cuidava da divulgação dos livros na imprensa, afagando quem pudesse recomendar ou fazer resenhas, artigos e entrevistas, garantindo sua fortuna crítica registrada para o futuro.

Na missiva a Fabio Lucas, enviada durante o período no sanatório, João revelou ainda que um amigo recente o havia visitado - o escritor José Rubem Fonseca - e que estavam tendo boa aproximação. Foi a única vez que mencionou receber visitas no local. Contou também que escrevia aquela carta de casa, onde passava os finais de semana - um detalhe que atenua a imagem de sofrimento exaustivo que a rotina no sanatório lhe impunha, o que era repisado em entrevistas (é a única vez em que a informação de que passava os finais de semana em casa aparece). Na carta, deu mais detalhes que confirmavam a internação planejada:

Embora não podendo, do ponto de vista financeiro, Fábio, resolvi, juntamente com Marília, fazer uma parada nessa vida de correrias, atropelos e mourejar. Daqui pra frente teremos de nos arranjar com 30% a menos dos meus vencimentos, pois é essa a porcentagem que o INPS dá aos associados internados. [...] A verdade tranquila é que eu já não estava mais aguentando o tranco diário (Antonio, 2005, p. 91).

João Antonio juntava a fome à vontade de comer: à sua estafa no trabalho, somava-se um desejo novo de “ter paz para escrever” e um antigo de reviver a experiência de isolamento de Lima Barreto ou Dostóievski, como aventou Marília. O sanatório parecia então a saída possível, já que, durante a licença, continuaria a receber pelo menos uma parte do salário. A internação tornava-se uma performance de permanência neste sentido: uma forma de articular, manejar e produzir a fixação e perenidade da própria obra, de maneira ativa e consciente.

A estratégia resultou. Ainda que não tivesse previamente o controle de tudo que poderia acontecer durante o seu período de internação, o fato de lançar-se à experiência já o colocava numa predisposição positiva aos acasos. Isolado, tinha tempo de reler seus contos,10 reescrevê-los, refletir, criar, ler, receber visitas, conversar com trabalhadores do sanatório e com outros internos. Tudo isso virava matéria de literatura em suas mãos ávidas pela escrita serena.

Um dos acontecimentos mais marcantes na sua estadia no sanatório foi ter conhecido o paciente Carlos Alberto Nóbrega da Cunha (1897-1974), então com 72 anos, seu companheiro de quarto na instituição.11 Diagnosticado com esclerose, Carlos Alberto tinha sido um importante educador e jornalista fluminense. Natural de Dorândia12 (RJ) e professor de português por formação, passou a vida no Rio de Janeiro. Como jornalista, foi redator dos jornais A Noite e O Jornal, escreveu para veículos como o Correio do Ceará - assinava suas reportagens como “Nóbrega da Cunha” - foi repórter internacional,13 correspondente da France Press, integrante da Associated Press e da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Em 1930, fundou o Diário de Notícias, fortalecendo o grupo da imprensa favorável à Aliança Liberal. Nóbrega da Cunha era ligado a Getúlio Vargas, e o Diário ficou conhecido como o “jornal da revolução”. O Diário foi o primeiro jornal brasileiro a ter uma página inteira dedicada à educação, uma conquista de Carlos Alberto, que entregou a seção à jornalista e poeta Cecília Meireles. Amigo de Cecília, padrinho de uma de suas filhas, foi Carlos Alberto quem a convidou para escrever a coluna, o que ela fez por três anos. O período foi considerado, por ela, como o mais político da sua carreira (Roberto, 2017, p. 3048).14

Carlos Alberto Nóbrega da Cunha foi também o responsável pela entrada de Carlos Lacerda no jornalismo. De acordo com João Pinheiro Neto, no livro Bons e maus mineiros e outros brasileiros (1996), ele pagava do próprio bolso para que o jovem, aos 16 anos, filho do embaixador Mauricio Lacerda, reunisse informações para a página de educação de Cecília Meirelles. Entre 1932 e 1933, Carlos Alberto Nóbrega da Cunha também foi diretor de Instrução Pública do Estado do Rio de Janeiro. Ele participou da redação e divulgação do “Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova” (Saviani, 2013, p. 239), que defendia a reforma integral do ensino brasileiro. Há uma escola com seu nome no Paraná.

Carlos Alberto participou ainda da fundação do Partido Socialista Fluminense em 1937 e foi diretor do Serviço Nacional de Teatro, de 1946 a 1948. Era conviva de nomes como Mario de Andrade, Monteiro Lobato e Carlos Drummond de Andrade, “e toda geração de escritores e jornalistas que faziam a vida culta da cidade nas décadas de 20 e 30” (Beraba, 1977, p. 5). Era muito próximo do crítico Mário Pedrosa, com quem frequentava terreiros de candomblé. Seu interesse por religiões de matriz africana era antigo: Carlos Alberto foi o autor de uma das primeiras reportagens sobre macumba na imprensa brasileira, a série “Os mystérios da macumba”,15 publicada no periódico Vanguarda, de 1927, e depois republicada no próprio Diário de Notícias. A série foi ilustrada por Fernando Correia Dias (1892-1935), marido de Cecília Meirelles.

O novo amigo era um personagem pronto para a lavra de um escritor como João Antonio. Especialmente quando começou a contar histórias boêmias do escritor Afonso Henriques de Lima Barreto, que havia conhecido pessoalmente entre 1916 e 1920 (Lima morreu em 1922). Como a bibliografia sobre Lima era pouca àquela altura, havendo apenas a biografia de Francisco de Assis Barbosa, A vida de Lima Barreto, publicada em 1952 (Barbosa, 2017), as falas de Carlos Alberto tinham valor raro e especial. João Antonio sabia disso. Como relatou à Marcelo Beraba:

Aos poucos, fui descobrindo que [Carlos Alberto] tinha um amor muito grande pelas coisas do Lima Barreto e chegou a conhecê-lo em vida. No início, duvidei e fiz alguns testes. Deixava que ele falasse horas sobre a obra do Lima. E ele simplesmente sabia tudo. Na época eu estava fazendo um estudo sobre Lima para meu próprio consumo, para minha ilustração, e não dava, portanto, para ele me enganar (Beraba, 1977, p. 5).

Foi num longo café no refeitório do sanatório, depois de Carlos Alberto lhe contar um causo inspirado em Policarpo Quaresma, que João Antonio insistiu “num trabalho paciencioso”:

Queria arrancar do professor um depoimento mais sentido e amplo sobre Lima Barreto. Afinal, Nóbrega da Cunha era o homem que discordava profundamente de certas considerações já consagradas do tipo “mulato genial beberrão”. Insistia em garantir que jamais viu bêbado o homem que bongava por todos os botequins (Antonio, 1982).

João Antonio propôs que ele lhe fizesse um roteiro dos bares da cidade e dos subúrbios, a via crúcis de Lima, “seu calvário de pileques e desenganos” (Beraba, 1977, p. 5). Depois de dias e noites de depoimentos, “que pareciam séculos”, de tal forma os absorviam, e que se alongavam em digressões variadas, eles tinham 40 laudas de roteiro de vida de Lima Barreto: “E de tal forma vivíamos Lima Barreto naqueles dias que não sei até que ponto o professor e eu não éramos dois personagens de Lima, discutindo nosso autor - inclusive porque também ele acabara num sanatório” (Beraba, 1977, p. 5).

No depoimento, Carlos Alberto contou que conheceu Lima Barreto numa época em que o escritor vagava de bar em bar, e chegaram a conversar poucas vezes - numa delas, a mais longa, Lima teria lhe feito confidências amorosas. Carlos Alberto citava cada “bar de portinha anônimo” (Antonio, 1977, p. 47) pelo qual Lima Barreto passara, com detalhes sobre o arranjo do ambiente ou do que oferecia em estoque. Recordava os assuntos que se falava à época nos balcões, como as novidades literárias, as atualizações políticas ou a Primeira Guerra Mundial. Relatava histórias curiosas dos frequentadores das rodas de Lima, a maneira como algumas reuniões evoluíam para tertúlias e como a gripe espanhola dizimou os encontros.

O Lima Barreto de Carlos Alberto circulava pelos bares com uma certa elite cultural, poetas, cartunistas, intelectuais, estudantes de Direito, mas também com operários, capoeiras e alguns vagabundos. As mulheres não circulavam entre eles, apenas algumas artistas em eventos mais sociais. “Às vezes, ia embora com um desses tipos, malandros e capadócios; outras, com gente humilde, mas correta e boa - guardas, carteiros, mata-mosquitos, pequenos funcionários. Esse pessoal está todo de personagens dos seus livros” (Antonio, 1977, p. 57).

Cada detalhe enchia os olhos e a pena de João Antonio. Carlos Alberto descreveu seus gestos, trajes e modos minuciosamente - em seleção que faz lembrar a descrição dos biografemas de Barthes ou a do “biógrafo” ideal de Marcel Schwob: “O biógrafo sabe escolher, entre os possíveis humanos, aquilo que é único” (Schwob, 1997, p. 23).

Ele delineava um Lima Barreto que gostava de piadas, mas não gostava de trocadilhos. Um sujeito que não saía de casa sem chapéu, mas não usava guarda-chuva. Quando chovia, “preferia se esgueirar pelas marquises” (Antonio, 1977, p. 73). Andava com os bolsos pesados de moedas, e as cédulas de dinheiro enrolava num cilindro que levava “na fenda do lencinho do paletó”. Que andava mal vestido e quase nunca engraxado. Fumava o cigarro Elite 18, da Souza Cruz, e não usava isqueiro, preferia fósforo. Jamais fora visto beber a crédito, e nos grupos de paus d’água, “era sempre Lima quem pagava” (Antonio, 1977, p. 58) a conta. No bar da Rua Sachet, o primeiro em que parava, às três da tarde, pedia uma parati. Recusava qualquer outra bebida alcoólica, inclusive cerveja. Carlos Alberto foi veemente ao afirmar que naquele período “Lima jamais tomou um porre” (Antonio, 1977, p. 50). “Nunca o vi bêbado, mas sempre tomado” (Antonio, 1977, p. 56). E ainda:

Nunca perdia a linha do equilíbrio, não chamava ninguém para ir lá fora, discutir. Jamais gritava, nem nunca o ouvi dizer um palavrão ou desaforo. Bebia tristemente, tanto que o seu estado era sorumbático, ficava recolhido, olhando vagamente, respondendo quando se lhe perguntavam e, lá uma vez ou outra, dava um aparte [...] A única nota marcante de sua identidade era o olhar: olhos alongados, de um verde sujo com um fundo amarelo e embaciados, digo, baços. Eram olhos tristes (Antonio, 1977, p. 50-70).

O relato testemunhal refazia o percurso boêmio do escritor, tanto do ponto de vista da rua, como de dentro dos bares, com detalhes desconhecidos à época, mesmo para seu biógrafo, Francisco de Assis Barbosa (2017). Depois do lançamento do depoimento de Carlos Alberto, as edições posteriores do seu livro passariam a incorporar o relato.

Carlos Alberto valorizava em pormenores o bar e a rua como espaços de sociabilidade fundamentais para a caracterização da figura do escritor, na contramão de um certo senso comum da época relatada:16

À medida que marchava naquele roteiro dos bares urbanos e suburbanos frequentados por Lima, o professor Nóbrega da Cunha acabava revelando-me ainda, de lambujem, o clima, as figuras, os costumes daquelas rodas em que o escritor circulava, e, em consequência, eu tinha um retrato da cidade e do homem. E, logo, um quadro profundamente brasileiro, que o Rio representava, ainda mais naqueles ambientes, uma síntese do país (Antonio, 1982).

Cheio de aliterações e duplos sentidos, o depoimento tinha ainda o mérito de evocar a linguagem da época com seus vocábulos específicos:

vaporeto, estilete, jetar, meetingueiro (do inglês “meeting”), gadanhar. Uma postura diante da língua que não é a nossa, absolutamente. Percebi que essa linguagem ia constituindo um retrato de época muito forte, e através dele poderia recompor o clima intelectual, cultural, político e humano de 1916 (Beraba, 1977, p. 5).

Anos depois, João Antonio atribuiu a essa fala um certo espírito do tempo:

sua fala, à medida que avançava, ganhava uma linguagem diferente, que se remetia àquele Rio de 1916 e em que pulavam vocábulos desta família: versalete, punhalete, sizígia. Um falar de época, uma fala colorida. Ou antes, em sépia, refletindo um espírito entre o boêmio e o revoltado, sempre vivo e participante. O professor falando me dava de graça o Rio de 1916 (Antonio, 1982).

João ficou tão envolvido que mergulhou nos livros de Lima Barreto que estavam na biblioteca do hospital psiquiátrico, aprofundando o exercício que já tinha começado a fazer em 1968.17 Um bom jornalista saberia que encontrar uma fonte daquele quilate, e disposta a falar naquelas condições, com tempo, não era só uma boa pauta de reportagem. Poderia render-lhe material para muito mais.

João Antonio deixou o Sanatório no final de junho com o feixe de laudas embaixo do braço. Não há como saber se encontrou a tal paz que buscava para escrever, mas certamente encontrou assunto para um livro. Com estratégia, malandragem e um tanto de sorte, como era típico dos seus personagens, a investida de João Antonio na autointernação foi uma semeadura fértil. Rendeu-lhe um conto, “Casa de Loucos”, que batizaria também a coletânea que integrava, lançada em 1976; o livro Calvário e porres do pingente Afonso Henriques de Lima Barreto, que só conseguiu lançar em 1977, uma obra absolutamente original em sua bibliografia, com linguagem modernizada pela colagem e pelo aspecto cinematográfico da narrativa, que salientava no prefácio da obra:

Este roteiro dos bares urbanos frequentados pelo amanuense Afonso Henriques de Lima Barreto me foi passado [...] pelo professor Carlos Alberto Nóbrega da Cunha, homem tido e havido como caduco, maníaco e esclerosado [...] Os textos em destaque são de e em torno de Lima. Assim, não há aqui uma palavra minha. Como um montador de cinema, tesoura em punho, dei ritmo e respiração ao trabalho alheio. Participei, se muito, na linguagem da versão final do depoimento (Antonio, 1977, p. 17).

Mas, sobretudo, o episódio da autointernação rendeu-lhe um encontro definitivo e transformador com Lima Barreto, autor que impactou sobremaneira seu projeto literário.

Loucura e fantasmagoria

“O fantasma de Lima Barreto baixa no Sanatório da Muda” foi o título da crítica literária que o jornalista e dramaturgo Aguinaldo Silva escreveu para o jornal O Globo, em 1977 (Silva, 1977), quando do lançamento do livro Calvário e porres do pingente Afonso Henriques de Lima Barreto. Uma metáfora irônica, mas indicativa do imaginário que se construiu sobre o ocorrido naquele hospital psiquiátrico tijucano entre maio e junho de 1970, enquanto a ditadura acumulava arbitrariedades na sua fase de endurecimento e o Brasil avançava de fase na Copa do Mundo do México. Na “casa de loucos” da Muda, entre a fila das “bolinhas” às sete da manhã e a sessão noturna de TV no refeitório, dois internos evocavam a presença de Lima Barreto, e os tantos detalhes inéditos contidos naquele livro só poderiam indicar alucinação ou fantasmagoria, de acordo com a crítica do jornal, “nas condições em que foi feito, há nele um evidente traço alucinatório, lhe parecem uma espécie de psicografia” (Silva, 1977).

Como fantasmas não existem, o que aconteceu parece mais simples e terreno. Em entrevista a Ary Quintela, João Antonio explica a sua aproximação com Lima Barreto:

J.A: Conheci num sanatório da Tijuca um senhor que viveu com Lima Barreto. [...] Por causa dele, aproximei-me muito do Lima, li tudo do Lima inclusive cartas. E surgiu-se essa admiração pelo Lima, que crescia mais a cada dia. Penetrei fundamente na obra do Lima e reconheci que se tratava de um grande escritor, o escritor brasileiro por excelência, independentemente de escolas, de épocas. Um escritor que tinha uma posição honesta na literatura do país sobre o qual escrevia. Muito maior do que a de todos os escritores brasileiros. Lima foi o que mais se aproximou do pobre diabo, do homem de subúrbio, do miserê sem grandeza nacional, daquela camada que não tem nenhum traço folclórico (Antonio apud Silva, 2009, p. 398).

Havia outros traços biográficos em comum além da passagem pelo sanatório: tanto Lima Barreto quanto João Antonio eram mestiços, pobres, oriundos da periferia. Jornalistas com aspirações literárias, ambos viveram no Rio de Janeiro, foram boêmios e tiveram problemas de saúde ligados ao uso excessivo de álcool. A identificação de João Antonio com Lima Barreto era natural. Mas o que se deu foi além: um encontro perpétuo, uma verdadeira fixação. Mas não foi só um acaso que de repente fez com que Lima entrasse na sua vida de maneira avassaladora, pela porta do sanatório, através de Carlos Alberto.

O encontro de João com Lima foi construído por ele, de maneira consciente, em pelo menos cinco fases. A primeira delas, como leitor. Antes de entrar no Sanatório da Muda, já havia uma predisposição para exercício de leitura de toda obra de Lima que se tornaria mais sistemático no próprio sanatório. O pesquisador Pedro Silva (2005) mapeou todos os livros de e sobre Lima Barreto existentes no acervo pessoal remanescente de João Antonio: 14 volumes, todos grifados e anotados.

Depois, como um devoto. A partir do mergulho na obra de Lima que fez no sanatório, João Antonio passou a “consagrar” deliberadamente todos os seus livros a Lima Barreto. Desde 1974, quando saiu a segunda edição de Malagueta, Perus e Bacanaço, até o último livro publicado em vida, em 1996, Dama do Encantado. Todos, sem exceção, têm dedicatórias nas quais aproveita para exaltar a pertinência, atualidade e pioneirismo do “amanuense de Todos os Santos” ao abordar e denunciar a precariedade em que viviam muitos brasileiros.

Em terceiro, como um paladino. João Antonio ergueu uma persona de referência em Lima Barreto, e tornou-se, sem academicismos, ele mesmo um especialista, fosse para palestras, prefácios e textos de apresentação de livros ou artigos publicados em jornais. Em 1980, fez intensa campanha para que houvesse homenagens a Lima Barreto em todo país, por ocasião do centenário de seu nascimento, a ser celebrado em 1981. Em março de 1981, por exemplo, escreveu a Jácomo Mandatto: “Escrevi hoje ao Suplemento Literário Minas Gerais sugerindo uma edição especial sobre o centenário do nascimento de Lima e oferecendo um artigo meu nesse sentido. Vamos ver como recebem minha dica” (Silva, 2009, p. 79).

Depois, como um seguidor, até como um imitador de Lima Barreto. João Antonio passaria a emular alguns de seus trejeitos, repetindo seus vocábulos característicos - “bruzundangas” sai do título da obra de Lima Barreto (Barreto, 2017) para tornar-se gíria escrita repetidamente por João Antonio - ou hábitos, como a organização de seu acervo ao mesmo modo meticuloso e preocupado com a posteridade de Lima Barreto. João também dividia suas pastas de recortes e retalhos por temas, encimadas por etiquetas que organizavam o material, exatamente como estão guardadas as de Lima Barreto na Biblioteca Nacional. Até a própria autointernação pode ser lida como uma forma de emular a experiência biográfica de Lima Barreto, como visto anteriormente. Se Lima escreveu sobre suas passagens pelo hospício em Cemitério de vivos, João Antonio fez o mesmo em “Casa de loucos” - expressão também tirada de uma passagem de Diário do hospício, de Lima Barreto (2010b).

E, por fim, como herdeiro. Era notável o desejo de João de ser comparado a Lima, e a maneira habilidosa pela qual provocava essa comparação. Isso pode ser percebido na leitura de cartas e artigos em que João induz à referência. Em 1973, escreve ao crítico Fábio Lucas:

Não lhe posso dizer, Fábio Lucas, que a minha literatura tenha caminhado. Nem muito, nem pouco. Provavelmente, ela mudou. [...] Hoje, dentro de mim, há revoltas, mágoas, descréditos e até entendimentos das pessoas e do país em que vivo, que me levariam fatalmente a uma linha de produção nos lados de Lima Barreto, talvez. Uma visão ácida do social e do psicológico deste país (1973, p. 51).

No prefácio de Dedo-duro, publicado em 1982, Jorge Amado ergue a comparação: “Existe um parentesco entre os dois narradores: sente-se, nas páginas de um e de outro, ranger de dentes, soluções estranguladas, desencontros, bruscas emoções e uma vida que jamais é fácil” (Amado, 2012, p. 591). Alfredo Bosi sustenta, no prefácio de “Abraçado ao meu rancor”:

João Antonio revive o perfil do boêmio amargo e clarividente que teve nas letras brasileiras o exemplo ardido de Lima Barreto (…). Estende-se de novo sobre os passos de João Antonio a sombra irada de Lima Barreto lançando palavras de escárnio contra os “periodistas” fátuos e cínicos de sua belle époque carioca (Bosi, 2012, p. 598).

O cronista Ignácio de Loyola Brandão chegou a dizer que João “em muitos instantes foi ele”: “Lima foi seu fascínio, alter-ego, encantamento. Você viveu possuído por ele. Em muitos instantes você foi ele. […] Idêntico a Lima, que teve contra ele todas as barreiras, mulato, alcoólatra, anarquista, marginal” (Brandão, 2017). Telma Maciel da Silva observa que a estratégia acabou funcionando em mão dupla: “Quando João buscava a consagração de Lima Barreto, estava, ao mesmo tempo, também sugerindo a sua própria consagração, já que se coloca explicitamente como seu ‘afilhado’” (Silva, 2009, p. 100).

Outro ponto importante de análise é o quanto o encontro com Lima Barreto afetou formalmente a obra de João Antonio. Lembrando que, para João Antonio, “Lima Barreto pertence a uma família universal de escritores cuja marca é o humanismo que se agita por um permanente espírito de luta: Cervantes, Gogol, Dickens, Gorki” (Antonio, 1996, p. 85). Portanto, importava a João o caráter bravateiro de Lima Barreto, o tal “espírito de luta” que enchia a literatura de Lima, o que Prado (2012, p. 148) chamaria de “disponibilidade ideológica para o conflito”. Repetidamente, João Antonio elogia e reitera essa característica de Lima Barreto, sua coragem e pé-na-porta - “Sua obra até hoje é uma porrada, seca e rente, na nossa apatia, malemolência, calhordice, omissão, indiferença, farisaísmo, relapsia e macaqueação dos modelos estrangeiros” (Antonio, 1977, p. 14).

O impacto começa daí: a escolha cada vez mais direcionada dos temas, da construção dos personagens, a maneira de abordar os humildes, desassistidos, “essa indesejada das gentes que mandam” (Barreto, 2010c) fossem nas suas crônicas, contos ou romances. O que o aproximava do autor era mais uma postura ante a literatura, uma postura de resistência ao classicismo; além da escolha de temas, a preferência pelos desvalidos. Também interessava a João Antonio a estrutura moderna da prosa de Lima Barreto, especialmente os contos “O moleque”, “Dentes negros e cabelos azuis” e o romance Vida e morte de M.J. Gonzaga de Sá, exemplos que elogiava com frequência em relação à linguagem.

Por mais que João Antonio buscasse ativamente esse parentesco, no entanto, Arnoni Prado identifica diferenças entre os dois, especialmente em relação ao que chama de “solidarismo dos pobres” - que, para ele, aparece “com força redobrada” em João Antonio, apesar de o lirismo vez ou outra repelir a crueza dos personagens, ou de o humor “apazigua o marginal, impensável em Lima Barreto” observa Prado (2012, p. 160). “Em João Antonio, muito mais que em Lima Barreto, o olhar do narrador é um aliado do olhar do bandido, quando não é a própria alma do bandido” (Prado, 2012, p. 160). As águas entre os dois se separam, portanto. A tese de Prado é que João Antonio transformou Lima Barreto em seu personagem, o que alimentaria a sua obsessão. Calvário e porres do pingente Afonso Henriques de Lima Barreto (Antonio, 1977), portanto, seria a biografia desse personagem criado por ele.

Ou um biografema, para retomar a metodologia deste artigo, já que trabalha um recorte específico da trajetória de Lima Barreto, gerando sobre ela novas leituras.

Conclusão

Este biografema aqui apresentado como uma estratégia de recorte biográfico de João Antonio nos diz muito sobre o apreço e disposição que um autor pode ter pelo seu projeto literário (“quero paz para escrever”), uma mistura de amor fulgurante pela literatura, por si mesmo e por uma aproximação de fato realista com a matéria literária - o tal “corpo a corpo com a vida” (Antonio, 1976) que ele defendeu em texto homônimo. Investigar a experiência de lançar-se ao mundo, num misto de coragem e egoísmo, alteridade e isolamento, nos diz muito também sobre um mundo que podia receber este tipo de investida sem questionamentos éticos ou morais - até que ponto é aceitável abusar da função de um espaço público, em internação custeada pelo Estado? Talvez só fosse possível ao escritor fazer o que fez porque havia uma mulher em casa, cuidando do filho e do orçamento doméstico reduzido em 30%. É impossível ler tal empreitada quase 50 anos depois, a contrapelo, e não questionar se as aventuras literárias que geravam experimentos tão originais também não dependiam, pelo menos neste caso, dos privilégios de gênero e classe. Um trabalhador que não tivesse o nome publicado na imprensa teria conseguido a manobra?

Este exercício - o de se aprofundar num recorte da vida de um escritor - nos diz ainda mais: que a literatura é, ela mesma, uma porta aberta em casa de loucos. Há muita diversidade nos assuntos que surgem a partir de um mergulho vertical em um episódio específico da vida de alguém que persegue a matéria literária. Neste excerto, foi possível mobilizar temas tão distintos como a história das políticas públicas para a saúde mental no Brasil, a geografia dos subúrbios do Rio de Janeiro - que levaram Lima Barreto à errância e João Antonio ao seu encalço - ou os tipos de botequins ou vocabulário do início do século XX, tudo isso para investigar as estratégias de uma “performance de permanência” manejada ativamente por João Antonio. O que, voltando a John Updike, nos devolve “um desejo de participar novamente, de outro ângulo, das alegrias que experimentamos na obra do autor, na presença de uma voz que passamos a amar” (Updike, 1999).

Declaração de Disponibilidade de Dados

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  • 1
    No ensaio “One cheer for literary biographies”, publicado na The New York Review of Books, o crítico literário John Updike escreveu, a respeito das biografias literárias, que os leitores têm esse desejo de ler sobre a vida dos autores por muitas razões, entre elas pelo “desejo de estender nossa intimidade com o autor - e participar de novo, de outro ângulo, das alegrias que experimentamos mergulhados na obra do autor, na presença de uma voz e mente que aprendemos a amar” (Updike,1999, tradução própria).
  • 2
    João era um fervoroso autor de cartas. “Quando eu morrer, meus amigos de fé herdarão minhas cartas. Tomara fiquem ricos” (Silva, 2009, p. 5), escreveu ele ao escritor Jacomo Mandatto. “As cartas do contista paulistano são exemplares, uma vez que permitem ao pesquisador de sua obra entender como se dá seu projeto literário - pois este é, em geral, o tema abordado pelos correspondentes - e, ao mesmo tempo, notar que elas se configuram, muitas vezes, como peças literárias independentes” (Silva, 2009, p. 19).
  • 3
    Essa entrevista consta como documento sem referência à fonte no “Acervo João Antonio”, depositado no Centro de Documentação e Apoio à Pesquisa (CEDAP) da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP, em Assis.
  • 4
    Ao preparar as notas da edição de Diário do hospício e Cemitério dos vivos lançada pela Cosac Naify (Barreto, 2010b), Augusto Massi (2010) observou que Lima Barreto estabeleceu uma relação fraterna com alguns médicos que cuidaram dele nas suas internações, como Humberto Gotuzzo e Juliano Moreira, que o ajudaram a estabelecer “uma vida” lá dentro, com cômodos cedidos exclusivamente para ele ler e escrever, por exemplo. “[…] é preciso relativizar esse lado, muito marcado nos ensaístas, todos que seguem uma linha de leitores de Foucault, ‘vigiar e punir, a clínica psiquiátrica…’” Aqui, esta crítica pode ser feita, só que, pelas brechas e desajustes do Brasil, você tinha um médico que de repente era mulato, baiano e estava dirigindo o hospício. Isso já muda tudo. A simpatia do Juliano Moreira pelo Lima Barreto, que sabia ser ele escritor, um homem culto” (Massi apud Dorigatti, 2019).
  • 5
    Juliano Moreira era uma figura rara de intelectual negro de origem modesta que tinha lugar como alienista de renome. Progressista, remodelou o Hospital Nacional dos Alienados, retirando grades e camisas de força. Fundou, em 1911, a Colônia do Engenho de Dentro. Em 1919, inaugurou o primeiro manicômio judiciário do Brasil.
  • 6
    Suplemento de O Jornal, a revista Diretrizes fez uma reportagem em que visitava “um hospital de psicopatas” na Zona Norte do Rio, dirigido por uma discípula do dr. Adolf Meyer, “o maior psiquiatra norte-americano”, a dra. Iracy Doyle. Na reportagem, contava em detalhes o funcionamento da instituição e perfilava Iracy (1941).
  • 7
    Desde a sua fundação, em 1938, o Sanatório da Muda divulgava diariamente seus anúncios nos periódicos cariocas. Os primeiros reclames destacam seus “parques arborizados”, depois limitavam-se ao serviço ofertado: “Sanatório da Muda. Doenças nervosas e mentais. Tratamentos modernos. Eletrochoque. Eletropirexia. Cardiapol-insulina. Psicoterapia. Pavilhão separado para nervosos e para curas de repouso. Direção: Dra. Iracy Doyle e Dr. Arruda Câmara. Rua João Alfredo 23, T. 38-1188”. Em abril de 1940, a diretora do Sanatório, dra. Iracy Doyle, publicou um anúncio em formato de artigo na revista mensal Boa nova garantindo que a loucura tinha cura. Para isso, apresentava dados de remissão do primeiro ano de funcionamento do Sanatório da Tijuca: “Erasmo fez o Elogio da Loucura. Depois delle, a deusa nunca mais encontrou quem lhe tecesse lôas. Mas, ao contrário, encontrou quem lhe erguesse preconceitos. No Sanatório da Tijuca, a percentagem de remissões em 1939 foi de cerca de 70%. O tempo de internação de dois e três meses. Ergo minha voz em favor dos loucos. É uma nova e original cruzada” (Doyle, 1940).
  • 8
    Conforme descreve Lilia M. Schwarcz em Lima Barreto: Triste visionário, Lima Barreto foi internado pelo irmão, Carlindo, em 18 de agosto de 1914, no Hospital Nacional de Alienados, depois de quebrar a casa do tio, em Guaratiba. Lima Barreto havia se mudado havia pouco para a casa do parente depois de frequentes alucinações que tivera em casa, em Todos os Santos, em decorrência da bebida. Foi o médico do seu pai, José Henriques, quem recomendou a remoção de Lima Barreto de casa, para não piorar a saúde de José, que padecia, neurastênico. Carlindo pertencia aos quadros da polícia e procedeu à internação. “Lima jamais perdoaria o irmão, nem esqueceria da viagem que fez de Guaratiba até a praia Vermelha, misturado a delinquentes (Schwarcz, 2017, p. 275-276).
  • 9
    Em 1976, João Antonio publica o texto “Corpo a corpo com a vida”, uma espécie de manifesto pró-realismo na literatura brasileira: “Nossa severa obediência às modas e aos ismos, a gula pelo texto brilhoso, pelos efeitos de estilo, pelo salamaleque e flosô espiritual ainda vai muito acesa. Tudo isso se denuncia como resultado de uma cultura precariamente importada e pior ainda absorvida, aproveitada, adaptada. Como na vida, o escritor brasileiro vai tendo um comportamento típico da classe média - gasta mais do que consome, consome mais do que assimila, assimila menos do que necessita. Um comportamento predatório em todos os sentidos (Antonio, 1976, p. 143).
  • 10
    O conto “Paulinho Perna Torta” seria reescrito no sanatório, como ele explicaria na edição de Leão de Chácara, de 1975.
  • 11
    Em artigo publicado no jornal O Liberal, intitulado “Debates com João Antonio” (Debates..., 1989), sobre uma agenda de debates e conferências do autor em Belém do Pará naquele mês, com uma breve entrevista com João Antonio, surge a informação de que Carlos Alberto Nóbrega da Cunha foi companheiro de quarto do autor.
  • 12
    Ainda no rastro das coincidências, a cidade de Dorândia, no sul fluminense, é também a cidade natal da avó materna de João Antonio, Nair de Sá Cardoso, a quem ele dedica o livro Abraçado ao meu rancor (Antonio, 2012b).
  • 13
    Alguns fatos pitorescos se somavam à sua carreira de correspondente internacional: em 1950, participou de uma comitiva que trouxe ao Brasil 150 galinhas “sem asas” para exibição no país, um marco da transgenia à época (Galinhas..., 1950) e, no ano seguinte, foi o primeiro repórter brasileiro a cobrir a estreia do concurso de Miss Universo, em Miami (Beraba, 1977, p. 5).
  • 14
    Como relata Roberto (2017), entre 1930 e 1933, tendo Cecília Meirelles à frente, a Página de Educação constituiu-se em um instrumento de combate e de divulgação de ideias modernizantes relacionadas à educação. “Engajada e atuante, Cecilia Meireles tomou para si o compromisso de fazer circular e discutir, por meio da seção, temas que elegeu como centrais para o processo de (re)construção do país” (Roberto, 2017, p. 3048).
  • 15
    Os cerca de 17 capítulos da reportagem estão preservados, em recortes, no Arquivo Mário de Andrade do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP) (Valle, 2018).
  • 16
    Em Trabalho, lar e botequim (2012), Sidney Chaloub mostra como os bares sofriam ataques moralistas da imprensa no início do século XX, caracterizados como locais de desordeiros e vagabundos. Principal opção de lazer dos pobres urbanos do sexo masculino à época, o bar se consolidou como estabelecimento comercial urbano já de forma estigmatizada. Muito porque a tentativa de imposição de hábitos de trabalho domesticados encontrava um obstáculo na maneira de vida tradicional dos pobres urbanos em questão. “Era ali, nos papos das horas de descanso, que se afogavam as mágoas e se entorpeciam os corpos doloridos pelas horas seguidas do labor cotidiano [...] O botequim e o quiosque, a despeito dos seus algozes, apresentam múltiplos significados” (Chaloub, 2012, p. 257-258). Assim, segundo Chaloub, o botequim, além de funcionar como distribuidor de bebidas e alimentos, tinha papel de “observatório popular”, um centro aglutinador e difusor de informações entre os populares, era um “ponto privilegiado, uma janela aberta para o estudo de padrões de comportamento dos homens pobres em questão” (Chaloub, 2012, p. 312).
  • 17
    Em carta datada de janeiro de 1968, João Antonio disse a Ilka: “Olhe, apesar de tudo, estes tempos estão me dando uma experiência muito útil. A releitura de tudo, absolutamente tudo (e, pausadamente, refletidamente) de Lima Barreto, está me fornecendo uma dimensão de Brasil bastante desencorajadora, mas bastante real, do ponto de vista subjetivo e da análise. Este país já era assim desde 1910” (1968a).
  • Editor
    Antonio Marcos Pereira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    30 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    15 Set 2025
  • Aceito
    20 Nov 2025
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Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade de Brasília (UnB) Programa de Pós-Graduação em Literatura, Departamento de Teoria Literária e Literaturas, Universidade de Brasília , ICC Sul, Ala B, Sobreloja, sala B1-8, Campus Universitário Darcy Ribeiro , CEP 70910-900 – Brasília/DF – Brasil, Tel.: 55 61 3107-7213 - Brasília - DF - Brazil
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