Resumo
Neste artigo, a minha intenção é de mostrar o quanto a nova coleção “Brasileiras”, da editora Rosa dos Tempos e organizada por Josélia Aguiar, é, ao mesmo tempo, desbravadora e premente. A coleção, apresentando retratos de ilustres brasileiras, tem sido curada com o maior cuidado em relação à escolha da autora, e cada volume tem um estilo diferente. Faço uma leitura dos três primeiros livros publicados da coleção, realçando o compromisso com uma prática feminista de biografia.
Palavras-chave:
biografia; feminismo; mulheres brasileiras; história; literatura
Abstract
In this article I intend to show how the new collection “Brasileiras”, published by Rosa dos Tempos and co-ordinated by Josélia Aguiar, is both trailblazing and timely. The collection, which portrays illustrious Brazilian women, has been very carefully curated, in relation to the choice of author, and each volume is written in a different style. My reading of the first three published books in the collection highlights the commitment to a feminist practice of biography.
Keywords:
biography; feminism; brazilian women; history; literature
Resumen
En este artículo intentaré mostrar cómo la nueva colección “Brasileiras”, de la editora Rosa dos Tempos y organizada por Josélia Aguiar es simultáneamente pionera y atemporal. La colección, que retrata a ilustres brasileñas, fue curada con muchísimo cuidado, en relación con la elección de la autora, y cada volumen tiene un estilo distinto. Mi lectura de los tres primeros libros publicados enfatiza el compromiso con una práctica feminista de biografía.
Palabras-clave:
biography; feminism; brazilian Women; history; literature
É consenso entre pesquisadores da literatura brasileira contemporânea que o Brasil não tem uma tradição coerente e consistente de biografia, muito menos biografias de mulheres, e muito menos ainda biografias de mulheres por mulheres.1 Uma olhada rápida pelas estantes das livrarias revela uma variedade de biografias de políticos, jogadores de futebol, empreendedores, músicos - quase todos masculinos. Também se encontram biografias de conceitos culturais intangíveis ou tradições: o café, o samba, a depressão, o fusca, o ano 1822, entre outros. Claro que as biografias de figuras internacionais como Anne Frank, Madre Teresa de Calcutá, Michelle Obama, vidas impressionantes e importantes foram traduzidas para o mercado brasileiro, mas estão muito em falta as vidas de ilustres brasileiras.
Neste artigo, a minha intenção é de mostrar o quanto a nova coleção “Brasileiras”, de iniciativa da escritora, jornalista e biógrafa Josélia Aguiar, e de Livia Vianna, editora-executiva da editora Rosa dos Tempos, é, ao mesmo tempo, desbravadora e premente. Até julho de 2025, a coleção contava com três biografias publicadas, e três em preparação. Cada volume abre com uma pequena nota introdutória que explica:
Brasileiras é a coleção que apresenta mulheres que construíram, expandiram e transformaram seus campos de atuação no país - das artes à ciência, do meio ambiente à política (Aguiar, 2003, p. 11).
Depois de umas reflexões sobre a biografia como categoria literária, sobre a biografia feminista, e sobre a situação da biografia de e sobre mulheres no Brasil, vou analisar os três primeiros volumes da Coleção Brasileiras, já publicados, retratando Niéde2 Guidon (Abujamra, 2023), Patrícia Galvão (Rezende, 2023) e Conceição Evaristo (Santos, 2024), para comparar as técnicas e os efeitos realizados.
Biografia e feminismo
O próprio gênero de biografia é complexo, desprestigiado pela academia, mas popular entre leitores. A definição é complicada e em contínua evolução, talvez porque constitui uma sobreposição de várias disciplinas (História, Jornalismo, Literatura, Antropologia, Sociologia), sem se encaixar plenamente em nenhuma delas. Eurídice Figueiredo escreve sobre a proliferação de literatura (auto)biográfica desde os anos 1990 como constituindo uma “grande nebulosa em que, às vezes, é difícil discernir os índices de ficcionalidade e de referencialidade” (Figueiredo, 2022, p. 9). A biografia é frequentemente considerada suspeita (e menos confiável que a História, por exemplo), por causa das fronteiras indistintas entre histórias “verdadeiras” e histórias “inventadas”.3 Ao mesmo tempo, existe o conceito de “biographical fallacy” [falácia biográfica], a tentação e a tendência, da parte da crítica, de acreditar que a literatura (sobretudo de autoria feminina) possa ser reduzida a uma cópia da vida da autora, recusando a possibilidade de criatividade ou imaginação. Cada biógrafo tem que encontrar um equilíbrio entre fatos e conjeturas baseadas em fatos, deixando transparente o próprio lugar de fala e os meios utilizados para construir a vida do biografado.
Uma biografia é sempre e inevitavelmente moldada pela biógrafa, que apresenta uma vida ao leitor e a enquadra, contextualiza-a, e a edita para a forma e os fins desejados. Pode até tomar a forma de uma espécie de autoetnografia, em que a biógrafa narra a própria experiência de pesquisa em paralelo à apresentação da biografada, como, por exemplo Pagu no Metrô de Adriana Armony (2022).4 Ou, ao mesmo tempo, pode ser chamada de metabiografia se trata explicitamente do processo criativo, emocional e prático de escrever a vida de outra pessoa.5 A história avança quando a pesquisadora encontra pistas, graças à própria persistência, à serendipidade, à ajuda dos bibliotecários, mas, em outros momentos, vê-se atrapalhada por burocracia, azar e eventos fora de seu controle. Como o enredo básico é previsível (nascimento, vida, morte), a autora tem obrigação de contar essa história com recurso à criatividade: “Para fazer crer que uma vida escrita “corresponde” a uma vida vivida, faz-se uso de estratégias narrativas próprias do romance” (Figueiredo, 2022, p. 10). Isso pode tomar a forma de baralhar a cronologia, introduzir outras narrativas, tomar um fato significante da vida da biografada (debates sobre arqueologia, comunismo, candomblé) e ampliar, como veremos mais adiante neste artigo.6 Ao mesmo tempo, cada biógrafa precisa ter em mente questões éticas e legais, quando se trata de uma pessoa real (às vezes ainda viva), e existem proteções legais para evitar a invasão da vida privada.7
A afinidade entre biógrafa e biografada também conta. Pode ser completamente aleatória, ou transacional: uma encomenda para biografar uma desconhecida. Ou, como no caso da Coleção Brasileiras, a escolha da biógrafa para cada biografada foi curada com muito cuidado. Adriana Abujamra é uma jornalista com vinte anos de experiência em perfis e reportagens, que fez a longa viagem até o sertão de Piauí para conhecer melhor a biografada e entrevistar quem a conhecia. Maria Valéria Rezende era vizinha e amiga de Patrícia Galvão em Santos, nos anos 50 e começos de 60. A sua biografia representa um testemunho sobre o período menos conhecido da vida de uma mulher famosa por ser “a musa do Modernismo” e desmente a representação mais frequente dela como uma figura trágica. Por último, Yasmin Santos, jornalista e editora, tem muito em comum com a escritora Conceição Evaristo: ambas “pontos fora da curva na família” (Santos, 2024, p. 15), ligadas por histórias parecidas, dominadas por parentes femininas fortes e lutadoras.
A Coleção segue uma prática feminista não só na insistência em biógrafas mulheres (e também em organizadora, designer e bibliotecárias). A recuperação de vidas femininas esquecidas, excluídas e invisibilizadas pela História Oficial foi um dos alvos da segunda onda do feminismo no mundo acadêmico anglófono, nos anos 1970 e 80. As pesquisadoras refletiram sobre a possível existência de uma biografia feminista, reconhecendo o lavoro invisibilizado historicamente, e mostrando a divisão do lavoro segundo classe e gênero.8 Ao mesmo tempo, reconheceram que chegaram a identificar-se, consciente ou inconscientemente, com as biografadas (Ascher, DeSalvo e Ruddick, 1993). Segundo a historiadora Barbara Caine (1984), a tendência tanto na história como na biografia feministas é uma ênfase não só nos feitos ou nos ganhos de certas mulheres, ou o que fizeram, mas, principalmente, como conseguiram fazer o que fizeram considerando os limites sociais e familiares que as reprimiram. A biografia feminista revela os momentos em que a biografada entrou em confronto com as várias estruturas que a impediram de seguir os seus desejos ou interesses e, assim, desvenda o quanto a vida era problemática para as outras mulheres: para parafrasear o lema feminista, o pessoal torna-se um assunto político. Ou, por outras palavras, salienta as situações e os desafios que os homens não tiveram que enfrentar. Nas palavras de outra historiadora, a canadense Susan Mann Trofimenkoff:
O propósito pode ser tão simples como revelar um passado que foi negado às mulheres […] ou pode ser tão complexo como expor os modelos da sociedade patriarcal para mudá-los. [...] Quando a grande maioria do nosso patrimônio tem enfatizado a passividade da mulher, a biografia feminista nos permite ver as mulheres como agentes. [...] Um Grande Homem que faz Grandes Actos pode merecer que a sua história seja contada, mas raramente precisa de ser justificada. Quando uma mulher está na mesma posição, imediatamente surge a pergunta “Como assim?” (Trofimenkoff, 1985, p. 4, tradução nossa).
Estas ideias, publicadas em 1985, reverberam nas declarações de uma pesquisadora indígena em 2023, Fernanda Vieira de Sant’Anna, que, em sua tese de doutoramento, advoca uma nova escrita autobiográfica inspirada na contagem de histórias de sua comunidade:
Contamos histórias como expressões de nossas identidades individuais e coletivas, construímos comunidade pelas palavras e pelos silêncios. Autobiogeografias Indígenas não são celebrações de um superindividualismo - esse monstro criado e alimentado pelo capitalismo que nos ronda -, são conversas à mesa da cozinha, são conversas ao pé do fogo, rodas de conversa. Palavra que circula (Sant’Anna, 2021, p. 135).9
A expressão da identidade singular e plural, a erosão de hierarquias, a importância da vida cotidiana e comunitária, e a partilha de ideias são elementos que a autora preza e que podemos identificar também nas biografias da Coleção Brasileiras. As três biógrafas tomam como base a pesquisa minuciosa e a leitura (e audição) do material existente: uma metodologia evidenciada nas bibliografias detalhadas. Enquanto já existiam vários textos biográficos sobre Patrícia Galvão que Maria Valéria podia consultar, havia muito menos sobre as outras duas biografadas. A Adriana teve uma única oportunidade de entrevistar Niéde Guidon, e de observar a “habitat” da arqueóloga, o ritmo do seu dia-a-dia, os gestos e o “jeito” dela. A autora começa a sua reportagem contando este encontro presencial, que fornece o material do último capítulo também, assim aproveitando ao máximo o contato que teve com a entrevistada. A Yasmin narra conversas-entrevistas com Conceição Evaristo por vídeo-chamada e ao vivo; conversas sempre interrompidas, porém, mostrando o quanto a escritora privilegia o tempo com a filha, ou um bate-papo com uma vizinha que passa. Os leitores dão-se conta de como a vida da Conceição, tratada como “popstar” (Santos, 2024, p. 20) pelo público, é movimentada e cheia de aulas, comunicações, viagens e outros compromissos, com pouco tempo para sentar e escrever. A jornalista suplementou o material que obteve em primeira mão com entrevistas publicadas e gravadas e disponíveis na internet. Mas as três biografias privilegiam o diálogo, assumindo o papel de narradora e dando voz às biografadas.10
Adriana é a que menos conta sobre si própria, além de suas impressões imediatas ao visitar a Serra da Capivara, em Piauí. Niéde é resistente à intimidade de uma entrevista sobre ela própria. Quando a visita pergunta “como acha que será lembrada?”, a arqueóloga responde, bruscamente, utilizando uma tática de “autodeboche”11: “Espero que esqueçam logo de mim. [...] Niéde Guidon, arqueóloga e ponto” (Abujamra, 2023, p. 240). Chegamos a ter a impressão de que de tanto conviver com as pedras e as pinturas rupestres, Niéde se identifica com elas, chamando-se “Pré-histórica” (Abujamra, 2023, p. 34). Coube à Adriana apresentar ao leitor os dados biográficos que a entrevistada parece não ter achado relevantes: “Deixemos por ora a arqueóloga entretida com os cães e o gato. Vem comigo entender como a franco-brasileira se tornou essa “sertaneja raiz” (Abujamra, 2023, p. 43).
Assim, dialogando, respeitando, a Coleção visa contar, segundo Livia Vianna, “a história de um país, uma época”, focando as experiências das mulheres extraordinárias que ajudaram a construir o Brasil (Niéde Guidon..., 2023).
A biografia no Brasil
Existe um prêmio Jabuti para o gênero biográfico desde 1963 (o Prêmio foi criado em 1959), mas por causa da natureza movediça da categoria, o galardão passou por várias denominações: Biografia e/ou Memórias (1963-1986); Ensaio e Biografia (1998-2001); Reportagem e Biografia (2002-2005); Biografia (2006-2018); Biografia e Reportagem (2019-). No site do Prêmio Jabuti, é possível consultar os dados sobre os prêmios atribuídos. Constata-se a dominação das categorias biográficas por homens e se vê a progressiva consagração das carreiras dos, agora, mais conhecidos nomes da biografia no Brasil: Ruy Castro e Lira Neto.12 Em mais de 60 anos do Jabuti, a quantidade de biógrafas nominadas cresceu, com nomes importantes como Lília Schwarcz, Ana Miranda e Josélia Aguiar a ganhar prêmios com livros sobre homens ilustres. Só em duas ocasiões aconteceu o fenómeno de uma mulher ganhar o Prêmio Biografia com uma obra que comemora a vida extraordinária de uma mulher: em 1984, Nancy Fernandes e Maria Teresa Vargas receberam o primeiro prêmio por Uma Atriz: Cacilda Becker e, em 2007, Anita Malfatti no tempo e no espaço, de Marta Rossetti Batista, foi outorgado com terceiro lugar.
Mesmo levando em conta a relativa escassez de biografias de brasileiras, as escritoras acharam múltiplas maneiras de homenagear as vidas de mulheres extraordinárias. Por viés de metaficção historiográfica e intertextualidade, escritoras como Ana Miranda, Claudia Lage e Maria José Silveira imaginaram as experiências e sucessos de, respectivamente, Clarice Lispector, Eufrásia Teixeira Leite e Damiana da Cunha. Jarid Arraes chegou a comemorar quinze mulheres em literatura de cordel, em Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis (Arraes, 2017). Em 2023, saiu o volume enciclopédico Histórias de ninar para garotas rebeldes: 100 brasileiras extraordinárias, apresentando a um público de jovens leitores toda uma gama de “artistas, campeãs, líderes, guerreiras, cientistas e pioneiras” (Garotas Rebeldes, 2023, p. xi) de A a Z, desde a atleta paraolímpica Ádria Santos até a médica Zilda Arns.13
Uma das menos reconhecidas heroínas da biografia brasileira é Ana Arruda Callado, jornalista pioneira e primeira mulher a ser chefe de reportagem de um jornal no Brasil: Diário Carioca. Desde 1995, ela publicou oito retratos de outras desbravadoras que tiveram um grande impacto no país durante o século XX.14 Callado tem um claro motivo feminista: quer chamar atenção às lacunas na História do Brasil, recuperando da obscuridade histórias de vida de mulheres subestimadas e invisíveis, e proclamando a sua significância. Oito livros é um corpus considerável que, lidos em conjunto para identificar elementos em comum, representam a intenção da autora de apresentar uma história alternativa do Brasil visto de “um olhar feminino” (informação verbal).15 Ao homenagear os sacrifícios e as façanhas de oito figuras femininas, ela efetivamente realça e critica atitudes patriarcais aprofundadas na sociedade, na política, na literatura e na arte brasileiras.16
A experiência de preparar e compilar oito biografias deixou Ana Callado ciente das seguintes conclusões, que resumo aqui: a) as fontes são pouco confiáveis; b) a memória é mentirosa; c) os documentos contêm muita ficção: as pessoas falsificam por várias razões; d) o biógrafo está sempre procurando a si próprio; e) é importante evitar os nossos próprios preconceitos; f) escrever biografia é uma tarefa impossível.
A Coleção Brasileiras
Na sequência das biografias de Ana Callado, a autora Josélia Aguiar e a editora Livia Vianna17 decidiram que já era tempo de lançar uma série de biografias cuidadosamente curadas: seriam retratos18de brasileiras, escritas por brasileiras. A editora seria Rosa dos Tempos (selo do Grupo Editorial Record), fundada por duas pioneiras feministas (Ruth Escobar e Rose Marie Muraro);19 esta escolha enfatizando que, nas palavras de Aguiar, “as mulheres ainda estão lutando por espaço”, e que a escolha das biografadas “está ligada a uma luta de mulheres” (Niéde Guidon..., 2023).20 O projeto tem vários objetivos: o principal é de dar a conhecer (a um público maior), e, ao mesmo tempo, de valorizar mulheres extraordinárias, especialistas na sua área (mas desconhecidas fora dela), ou esquecidas pela história. Vai incluir mulheres de diversos campos de conhecimento. Outro alvo é o de começar a remediar o desequilíbrio no número de biografias de mulheres em relação a biografias de homens, e de incentivar as mulheres a escrever mais ‘não-ficção’, inclusive retratos biográficos. Ainda outro objetivo da coleção é o de formar leitores, sobretudo jovens leitores, e de produzir uma série de volumes que eles vão gostar de colecionar. As lombadas, cada uma de uma cor viva, formarão uma espécie de arco-íris na estante: vermelho alaranjado como as pinturas rupestres da Serra da Capivara, para a biografia de Niéde Guidon; lilás como o batom de Patrícia Galvão; amarelo ocre, cor da orixá Oxum, guia de Conceição Evaristo (informação verbal).21
Os livros da Coleção são relativamente curtos (menos de 300 páginas), com um visual atrativo, utilizando só uma ou duas cores além de preto e branco.22 O projeto gráfico atraente é obra da ilustradora e designer pernambucana Hana Luzia. São retratos estilizados, quase de banda desenhada, mas imediatamente reconhecíveis, tais como as imagens icônicas de Che Guevara (originalmente de Jim Fitzpatrick), ou os retratos “pop” de Andy Warhol. A falta de perspectiva no desenho na capa desmente a profundeza dos retratos escritos. Cada livro traz encarte, uma seção de fotografias, no centro, selecionadas para representar momentos-chave, ou etapas significantes nas vidas das retratadas. As autoras referem estas imagens de arquivo, reforçando as palavras com provas fotográficas.
A coleção Brasileiras é inovadora em muitos respeitos, não só no aspecto visual, nem na originalidade de, finalmente, dar a devida atenção a vidas que tiveram impacto, mas foram depois negligenciadas. A metodologia varia em relação ao estilo de pesquisa e de escrita de cada autora. Não há regras restritivas; cada livro adapta-se à história de vida contada, segundo uma estrutura escolhida pela autora, desde uma estrutura temática que ajuda a organizar as memórias (Patrícia Galvão) até a “forma livre do ensaio” (Conceição Evaristo) (A Voz Submissa..., 2025).23 Cada livro inclui um detalhado levantamento bibliográfico, o que é útil para o leitor que quer saber mais. Embora existam várias biografias (e uma espécie de autobiografia em carta ao marido, de 1940) de Patrícia Galvão (Galvão, 2020), estas são os primeiros retratos biográficos de Niéde e de Conceição a serem publicados em livro. O conteúdo resulta da relação específica entre biógrafa e biografada: nos primeiros três volumes, as autoras conheceram a sua perfilada pessoalmente. Mais que sujeito e objeto, a relação entre elas parece uma colaboração, um trabalho consensual, elaborado em conjunto. O âmago do texto vem de diálogos entre biógrafa e biografada, ou em forma de entrevista quase formal, gravada (e cheia de interrupções, de animais, no caso de Adriana e Niéde; e de amigos e vizinhos numa das entrevistas de Yasmin com Conceição), ou de conversas realizadas décadas atrás, vivas na memória de Maria Valéria. Em vez de tratar das perfiladas com fria objectividade, aproveitam da ligação pessoal e afectiva, fazendo dela uma característica positiva e uma marca de autenticidade.
Estas parcerias são cuidadosamente curadas pelas editoras:
fizemos uma lista de prováveis biografadas e prováveis autoras. As possibilidades são infinitas. Mas tudo parte de uma conversa que tenho para entender como uma autora específica vai interagir com uma biografada específica. Às vezes a autora propõe um nome, ou nós propomos. Isto se relaciona à atuação da autora, origem, formação, interesses prévios e futuros. Digo isto para reforçar que, embora tenhamos nomes maravilhosos de biografadas e biógrafas, o “encontro” de dois nomes é o que pesa mais para nós (informação verbal).24
As abordagens das vidas retratadas são imaginativas, não se limitando a datas e marcos em ordem cronológica, mas voltando no tempo, parando para comentar sobre um fato interessante, ou para contar uma anecdota. Assim reconhecem que a maioria das vidas não seguem um caminho recto, sem obstáculos nem curvas: todos enfrentamos imprevistos, altos e baixos, alegrias e decepções. Os três livros reconhecem o peso do preconceito e os desafios particulares enfrentados por mulheres vivendo inseridas numa sociedade patriarcal, realçando os atos de solidariedade e generosidade das retratadas com outras mulheres.
Agora vou tratar de cada volume em separado, comentando as estratégias inovadoras (e feministas) das autoras.
O encontro entre uma arqueóloga e uma jornalista no sertão de Piauí
A protagonista do primeiro livro da Coleção Brasileiras é a recém-falecida Niéde Guidon (1933-2025), uma arqueóloga franco-brasileira que não só estudava as pinturas rupestres e vestígios pré-históricos na Serra da Capivara (no sertão de Piauí), como lutou para que a região recebesse a denominação de Patrimônio da Humanidade da UNESCO, fundou um Museu, e trabalhou incansavelmente com a comunidade local para desenvolver as áreas de saúde, educação e indústria artesanal (cerâmica e apicultura, entre outras). Como explica Josélia Aguiar no prefácio, o livro de Adriana Abujamra esforça-se para mostrar as muitas facetas da Niéde: a cientista assídua, a empreendedora astuta, a negociadora ferrenha, a amiga leal (Niéde Guidon..., 2023). A jornalista criou este retrato multidimensional por meio de uma única entrevista com a retratada. Complementou a informação surgida do encontro (o contato pessoal um pouco ríspido, a residência, o quotidiano), com as suas próprias experiências na vila onde a arqueóloga morou, que Adriana visitou em plena pandemia. Entrevistou muitos habitantes do lugar, o que a ajudou a entender (e transmitir) o contexto sócio-histórico, político e científico, além de obter várias opiniões em relação à “Doutora”, uma figura quase mítica, admirada e temida. As impressões dos outros ajudam a dar uma impressão mais completa e multi-dimensionada dela. Assim, a Adriana descobriu e relatou como a Niéde revitalizou a comunidade.
Podemos categorizar este livro como uma biografia feminista na maneira em que a autora mostra como a arqueóloga (ela própria acostumada a lutar para ser reconhecida num meio científico sexista), apreciava as dificuldades enfrentadas pelas mulheres da vizinhança, achando modos de ajudá-las a estudar, dando-lhes oportunidades de trabalho, facilitando-lhes uma autonomia. A “Doutora” mostrava-se furiosa ao saber de casos de violência doméstica ou alcoolismo destrutivo nas famílias da vila. Depois de várias experiências negativas, resolveu empregar mulheres como vigias nas guaritas do Parque Nacional. Elas se provaram mais de confiança que os homens. Forneceu-lhes meios de transporte e horários flexíveis para cuidar das suas famílias. Ao terminar o livro, o leitor tem a impressão de ter conhecido uma mulher inimitável.
Duas educadoras e militantes irredutíveis
O segundo volume da série é, principalmente, a biografia de Patrícia Galvão, por Maria Valéria Rezende. “Vou contar tudo de que me lembro” (Rezende, 2023, p. 17), promete a autora, avisando que vai apresentar não a Pagu lendária, mas “a Patrícia que eu conheci” (Rezende, 2023, p. 17). Mas não é só retrato: é um díptico que, alterna o retrato da Patrícia com as memórias da Maria Valéria Rezende. Maria Valéria nasceu e cresceu no “caldo cultural” (Rezende, 2023, p. 49) da movimentada cidade portuária de Santos, onde Patrícia viveu a última década de sua vida. Embora o livro aborde a vida toda dela, este enfoque pessoal sobre os últimos anos, um período menos conhecido da trajetória da escritora, desvia a atenção da época mais conhecida, quando era retratada ou como femme fatale (Pagu, a musa do Modernismo), ou como uma radical e perigosa militante comunista.25 Quando era adolescente, Maria Valéria sentia-se profundamente impressionada pelo ativismo da amiga mais velha, pelo desejo de viajar para longe, pelas atitudes perante a cultura e a política. Ela se orgulha de ainda lembrar de conversas completas com a Patrícia (Rezende, 2023, p. 125), sobretudo as palavras de conselho de uma mulher madura, tais como “nunca deixe homem nenhum mandar em você” (Rezende, 2023, p. 31), que, o livro acaba por mostrar, influenciaram-na de muitas maneiras. O subtítulo do livro, “militante irredutível”, aplica-se igualmente às duas mulheres.
O livro segue uma estrutura temática em vez de ser estritamente cronológica. Começa com o encontro fulcral entre a menina e a jornalista. Cada capítulo trata de um assunto importante nas vidas das duas, como a militância, as viagens, a escrita. E cada capítulo divide-se em duas seções, apresentando as atividades da Patrícia, primeiro, e, em segundo lugar, as da Maria Valéria, como se fossem causa e efeito, provando a influência direta. A mulher mais nova define-se como ‘educadora popular’, e se apronta para testemunhar o quanto a Patrícia comunicava com os jovens, e apoiava os grupos culturais comunitários. No prefácio, Josélia Aguiar comenta o ritmo diferente das duas correntes de escrita: “Ao narrar a vida de Pagu, seu ritmo é pausado, há a consulta cuidadosa das anotações feitas previamente, e a narrativa assume teor quase didático. Quando começa a recordar o curso da própria vida, o fluxo se altera” (Rezende, 2023, p. 15).
O texto é uma transcrição de conversas ao vivo, que Maria Valéria chama, várias vezes, de “memórias ditadas” (Rezende, 2023, p. 80, 131, 140), gravadas e posteriormente editadas. Foi a própria Josélia a “puxar o fio de dados e recordações” (Rezende, 2023, p. 13). Nos “agradecimentos”, a autora reconhece a colaboração da editora, mas também de amigos, parentes e conhecidos consultados, participantes ativos “nessa grande operação de compartilhar um passado em comum” (Rezende, 2023, p. 157). A oralidade e espontaneidade irradiam do texto com as muitas exclamações, perguntas retóricas, tais como: “já pensou?” (Rezende, 2023, p. 83), “entendeu?” (Rezende, 2023, p. 122); e as anecdotas contadas com delícia: “Nunca me furtei de bancar a atriz” (Rezende, 2023, p. 90), declara. Quando se lê que agora é hora de tomar a sopa (Rezende, 2023, p. 77), ou que “vamos parar um pouco para um passeio na praia” (Rezende, 2023, p. 131) ou ainda “isto [...] fica para outro dia” (Rezende, 2023, p. 103), o leitor tem a impressão de estar do outro lado do telefone, participante (mudo) na conversa.
O próprio processo de falar da amiga Patrícia estimula a biógrafa a pensar no processo criativo e no papel da escrita na sua vida, ligado sempre à alfabetização, à educação e à comunicação. Também reflete sobre a subjectividade de quem recria uma vida e uma época, sobretudo quando se trata de um autorretrato. Maria Valéria tem o cuidado de avisar que “toda memória é ficção e toda ficção é memória” (Rezende, 2023, p. 75), reconhecendo e assumindo a subjetividade de um retrato tão pessoal, de uma pessoa falecida décadas antes. Na última página do livro, portanto, afirma que “não há fronteira entre memória e imaginação. [...] às vezes me pergunto se é tudo verdade ou se a ficcionista que está dentro de mim é que está inventando” (Rezende, 2023, p. 153). O leitor aprecia a honestidade, e acredita a autora quando promete “que tudo o que contei aqui o fiz com toda sinceridade. É assim que eu lembro” (Rezende, 2023, p. 153).
A literatura de nós
O terceiro volume da Coleção Brasileiras conta a história da vida e das obras de Conceição Evaristo.26 Mais uma vez, a escolha de biógrafa combina perfeitamente com a perfilada selecionada: ambas “ligadas” (Santos, 2024, p. 17) pelo “laço da ancestralidade” (A Voz Insubmissa..., 2025).27 Yasmin não esconde a admiração para a escritora desbravadora e campeã de literatura de brasileiras Negras.28 Também celebra as coincidências entre a vida da mãe da autora, Joana Josefina Evaristo, e a da sua própria avó, Alayde dos Santos, que nasceram no mesmo ano: 1922. Ao ler por primeira vez o livro de contos da Conceição Olhos d’Água (2014), Yasmim sentiu uma forte conexão e:
vi uma multiplicidade de vivências negras. Conforme ia lendo os romances, ia entendendo mais sobre mim mesma, sobre de onde eu venho, da minha família, do silêncio da minha avó. É silêncio como estratégia (A Voz Insubmissa..., 2025).
A escritora mais nova descobre mais pontos de contato entre ela e a escritora mais velha, apesar dos 24 anos que as separam. As lutas e paixões delas são paralelas: a família, o ativismo, a religião, a escrita. Ambas se consideram “pontos fora da curva” (Santos, 2024, p. 26) nas respectivas famílias, por serem as únicas que se devotaram à escrita como profissão.
Ao mesmo tempo que celebra a obra e a figura inspiradora e simbólica da Conceição, o livro da Yasmin utiliza ela e sua vida como pedra de toque para analisar outros assuntos, como, por exemplo, o tratamento histórico da saúde mental no Brasil, o candomblé, o panorama da literatura de mulheres Negras brasileiras. Cada capítulo retrata uma faceta diferente da Conceição: a menina “espevitada”, a jovem revolucionária, a mãe extremosa de uma especial menina, Ainá. O texto viaja pelas obras literárias, não para provar as origens delas na vida real da escritora, mas para mostrar como tudo se entretece. Yasmin reconhece e realça o papel de intelectual de Conceição, uma escritora e professora com doutorado, leitora de Édouard Glissant, Angela Davis e Beatriz Nascimento.
Conceição é famosa pela criação do conceito de “escrevivência” (elaborado por primeira vez em 1994, na dissertação de mestrado), que entretece a experiência de viver, ver-se e escrever-se, e a prática de escrever, sempre consciente da situação histórica de mulheres Negras escravizadas, e reconhecendo a dívida para com os ancestrais. O conceito baralha os limites entre biografia e autobiografia, ficção e realidade. No começo das conversas entre Yasmin e Conceição, a “mais velha” esclarece que tudo na sua escrita é verdade, nada é mentira. Alguns críticos identificaram o conceito de escrevivência com a prática de autoficção, o que Conceição recusa: “Pensar a autoficção é pensar um texto que se esgota em si mesmo, o sujeito angustiado às contas com as suas dores, enquanto no exercício da “escrevivência” há uma fusão entre o sujeito individual e coletivo” (Evaristo, 2024).
O desafio para a Yasmin era escrever um retrato da Conceição que não caísse nesta armadilha: reconhecendo a sua subjetividade como mulher Negra inserida numa linhagem longa, e uma comunidade ampla, que ela chama de “um rosário de mulheres” que “conseguem partilhar força, ternura e experiência entre gerações” (Santos, 20204, p. 43). Yasmin captura o espírito plural e egalitário da obra da Conceição, resumindo-a como:
uma literatura centrada no nós, em contraste com a escrita centrada no eu, típico da modernidade europeia, quando brancos falam de si para si, ou no outro, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, quando brancos falam de povos subalternizados a partir da crítica pós-colonial (Santos, 2024, p. 187).
O efeito-Conceição sobre a escritora mais nova se vê na página do livro, na característica colocação do adjetivo antes do substantivo (como nos títulos dos capítulos “Invisível presença”, e “Desconcertantes mistérios”), e até nas palavras híbridas, como quando descreve as lágrimas como “líquido-lembradiço” (Santos, 20204, p. 144). De fato, podemos considerar Conceição Evaristo: voz insubmissa outro exímio exemplo de uma literatura de nós.
Mais Brasileiras
A série Coleção Brasileiras promete renovar a prática do retrato biográfico de (e por) brasileiras, ao mesmo tempo que revalida a presença e a importância das mulheres na história, ciência e cultura do país. Os próximos volumes estão em preparação: a cantora e compositora Nara Leão será retratada pela historiadora Heloísa Starling; a revolucionária e comerciante Bárbara de Alencar, pela escritora Socorro Acioli; e a professora, filósofa e ativista Lélia Gonzalez pela escritora Semayat Oliveira.29 E talvez sirvam para estimular a publicação de mais textos originais e históricos de autoria feminina, como os manuscritos, diários, cartas, relatos, etc., publicados pela Chão Editora de São Paulo. E talvez incentivem uma procura de textos escondidos, ou “perdidos”, como a campanha-convocatória de Maria Valéria Rezende:
Uma coisa eu tenho certeza de que existe muito [...]: a escrita de mulheres. Não tenho mais pique para essas coisas, no entanto dá uma vontade grande de fazer uma campanha para recuperar os baús das avós. Porque as mulheres escreviam, disso eu tenho certeza [...], muitas vezes escreviam no próprio livro de receitas. [...] Tudo isso ficou perdido porque, evidentemente, não tinha cópia, era aquele original e pronto. E eu acho que esses textos ainda existem, em algum lugar, em algum baú de guardados perdidos. Pode ser ilusão minha, pode ser que as traças já tenham comido tudo, mas [...] acredito que se todo o mundo fosse vasculhar, descobriria que suas mães, avós e bisavós eram escritores (Rezende, 2023, p. 43-44).
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Referências
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1
Obviamente, existem biógrafas excelentes, como a pioneira Lúcia Miguel Pereira, a própria Josélia Aguiar, Regina Zappa, Karla Monteiro, Bianca Santana e outras, como veremos mais para a frente.
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2
O nome da arqueóloga aparece às vezes com acento agudo e outras com acento grave. Adriana Abujamra, autora do retrato, utiliza o agudo e por isso eu também usarei.
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3
Estou parafraseando Clarice Lispector em A hora da estrela, em que o narrador afirma que vai contar uma história “verdadeira embora inventada”, uma definição que se pode, de fato, aplicar a qualquer texto (Lispector, 1992, p.26).
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4
Outros textos que seguem este padrão de pesquisa biográfica são Banti (1947), Marçal (1995), Shapland (2021) e Mersal (2023). A obra canônica de Virginia Woolf, Orlando: a biography (1928), uma velada biografia da sua amiga Vita Sackville-West, também é relevante.
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5
Antonio Marcos Pereira chama este modelo de biografia de “tradição processual”, em contraste com a tradição “monumental” (Pereira, 2012).
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6
Duas biografias feministas britânicas inovadoras recentes são a de Francesca Wade (2020), que explora as vidas de cinco mulheres que habitaram a mesma praça em Londres, e a de Clare Harman (2023), que se aproxima à vida da autora através de leituras de dez de seus contos.
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7
Ver: Eakin, 2004 e Barbosa, 2016.
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Agradeço a Federica Lupati que me apresentou à obra da Fernanda numa comunicação durante o colóquio X ABIL, em setembro de 2023.
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É interessante notar que as estratégias das três autoras analisadas neste artigo contrastam com as técnicas sugeridas pelo biógrafo brasileiro mais conhecido, Ruy Castro, que recomenda que o biógrafo “deve ser uma parede de vidro entre o leitor e o biografado. Ou seja, invisível” (Castro, 2022, p. 147).
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É a Adriana quem descreve a atitude de Niéde, no podcast lançando o volume inaugural da Coleção Brasileiras (Niéde Guidon..., 2023).
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Consultei as listas de premiados em: Jabuti (2025).
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O livro foi criado em parceria com Rebel Girls, como parte da franchise internacional Histórias de ninar para garotas rebeldes.
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As oito são: Maria José Barbosa Lima, Jenny Pimentel de Borba, Adalgisa Nery, Maria Martins, Lygia Lessa Bastos, Darcy Vargas, Berta Ribeiro e Maria Yedda Leite Linhares. Apesar de esta impressionante lista de livros, publicados entre 1995 e 2022, achei um único artigo que analisa as biografias de Callado, o de Jussimara Lopes de Jesus Simões (Simões, 2022). A tese de doutorado da Jussimara trata igualmente das biografias de Ana Callado (Simões, 2024). Ver também Claire Williams (2026).
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Numa entrevista realizada pela Secretaria de Estado de Cultura do RJ, em janeiro de 2010, Callado assume a intenção de re-escrever a história do Brasil.
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16
Callado não pretende representar todas as brasileiras; as suas biografadas eram todas brancas, de classe média ou alta (ou chegaram a fazer parte dela), e membros de elites intelectuais.
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17
A informação neste parágrafo consta de: (Niéde Guidon..., 2023).
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18
A própria Josélia explicou-me que prefere a expressão “retrato” a “biografia” em e-mail de 21 de agosto de 2025 (informação verbal).
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Ver: Pereira e Luchesi (2021). Muraro descreve a fundação da editora em capítulo 28 da sua autobiografia, Memórias de uma mulher impossível (1999).
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Inicialmente, a coleção seria publicada pelo selo Civilização Brasileira (também da Record), registrando as brasileiras que construíram a civilização brasileira, segundo Aguiar (Niéde Guidon..., 2023).
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Agradeço a simpatia da ilustradora Hana Luzia que me explicou, por e-mail, o processo de design dos livros e a escolha das cores em 24 de agosto de 2025.
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Em comparação, a recente biografia de Lira Neto, Oswald de Andrade: Mau Selvagem, conta com 528 páginas e pesa 800g.
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23
Yasmin Santos descreve assim o seu retrato de Conceição Evaristo (A Voz Submissa..., 2025).
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Informação recebida em e-mail de Josélia Aguiar em 21 de agosto de 2025.
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A Patrícia que a Maria Valéria conhecia detestava o sobrenome de ‘Pagu’, e por isso a biógrafa trata a amiga, respeitosamente, como Patrícia.
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Esta não é a primeira biografia de Conceição, mas é a mais completa, porque dá uma ampla contextualização histórica e cultural (sobretudo em relação à escravidão e ao racismo), e aborda todas as obras literárias publicadas até 2025. As anteriores estão citadas na bibliografia dessa biografia.
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27
Yasmin Santos em: (A Voz Insubmissa..., 2025).
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28
Yasmin Santos confessa ser “completamente encantada” e “fanzoca” da Conceição em: (A Voz Insubmissa..., 2025).
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29
Informação gentilmente cedida pela organizadora da série, Josélia Aguiar, em e-mail de 10 de abril de 2025 (informação verbal).
