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GLENADEL, Paula; DASSIE, Franklin Alves. (2023). Poesia e gesto: sobre estéticas crítico-filosóficas contemporâneas. Rio de Janeiro: 7Letras.

A desmaterialização do corpo que experimentamos em nossa época, e que converteu uma boa parte de nossas experiências afetivas, de trabalho e de lazer em um conjunto de representações virtuais, não começou nas últimas décadas. É verdade que a experiência dos smartphones, das webcams e das salas de conferência, com as quais organizamos hoje boa parte de nossas reuniões e conversas, limitou a imagem do corpo à área do busto e da cabeça, e nossos gestos parecem sumir nas pequenas caixinhas de dentro das quais nossas bocas se movem. No entanto, faz parte da própria invenção da escrita o fenômeno de um tal (relativo) desaparecimento do corpo do falante. Essa transformação de longa duração, não obstante tenha se tornado especialmente sensível após a última revolução comunicacional em meio à pandemia do coronavírus, é o solo do qual emergem agora as discussões sobre o corpo e seus movimentos na arte contemporânea.

Nos últimos anos, o corpo, entre acadêmicos e poetas, também tem estado no centro do debate sobre a poesia. Na introdução à antologia As 29 poetas de hoje (2021), a organizadora Heloisa Hollanda, analisando “o elo entre a geração Ana C. e a nova poesia feminista”, destaca o aprendizado que “jovens feministas” tiveram com a poeta Angélica Freitas desde a publicação de Rilke Shake e Um útero é do tamanho de um punho: o aprendizado de que “não há uma linguagem sem corpo” (Hollanda, 2021, p. 20). Já na antologia a extração dos dias (2017), o organizador Gustavo Silveira Ribeiro afirma que sua seleção é resultado de um “sentir com o corpo e a inteligência” (Ribeiro, 2017, p. 7) da paisagem do contemporâneo, e que sua reunião de poemas do nosso tempo em livro tem em si o risco como traço fundamental “como em qualquer corpo novo que se lança (ou é lançado) no mundo” (Ribeiro, 2017, p. 8). E o poeta Ricardo Aleixo deu ao seu “Poemanto”, um poema-ensaio performático que faz as vezes de manifesto em meio às cenas poética e política brasileira atual, o subtítulo “ensaio para escrever (com) o corpo”.

É em um tal contexto que recebemos, em 2023, a publicação de Poesia e gesto: sobre estéticas crítico-filosóficas contemporâneas, volume com oito ensaios de oito pesquisadores, organizado por Paula Glenadel e Franklin Alves Dassie. Em uma era que transformou boa parte da comunicação e da experiência em um conjunto de imagens, dados e informações, que reduziu a linguagem à sua dimensão meramente comunicacional, e as imagens reificantes do corpo que reinam na cultura hegemônica à sua dimensão ótica, a publicação desses ensaios confere à nossa cena uma baliza importante. Os ensaios de Poesia e gesto deslocam essa discussão do conceito de corpo para o de gesto para pensar o fenômeno e a magnitude da poesia contemporânea. A importância dessa operação conceitual está no fato de que o conceito de gesto tende a diluir a diferença entre representação pela imagem e realidade física, e, portanto, tende a escapar de soluções fáceis a uma tal situação.

A principal referência mobilizada nos diferentes textos é Giorgio Agamben. Para o filósofo italiano, o gesto pertence à esfera da ação, porém se distingue de outros dois tipos de ação mais comumente pensados na história da filosofia: a produção (a poiesis, que confecciona objetos e obras) e o agir (a práxis). O gesto é algo que “se assume e suporta” (Agamben, 2008, p. 12). Ele se distingue da poiesis, da criação, porque não se realiza visando uma finalidade; e se distingue da praxis, do fazer, porque não é um fim em si mesmo, não é sem meios. A dança, por exemplo, é gesto porque “é somente o suportar e a exibição do caráter medial dos movimentos corporais”, assim, “gesto é a exibição de uma medialidade, o tornar visível um meio como tal” (Agamben, 2008, p. 13). Tomado como conceito central para a poesia, o gesto torna-se um conceito-limite, ao delimitar três regiões distintas da linguagem em estado de poesia: a da comunicação (ou aquilo que se comunica no poema), a do poema em sentido autonômico (isto é, como obra de arte) e a da poesia (como puro meio). Ou, nas palavras de Agamben: “O gesto é, neste sentido, comunicação de uma comunicabilidade. Este não tem propriamente nada a dizer, porque aquilo que mostra é o ser-na-linguagem do homem como pura medialidade” (Agamben, 2008, p. 13). Há algo na poesia, então, que escapa ao que é dito no poema e ao poema ele mesmo.

Mas por que a consideração do gesto tende a diluir a diferença entre representação pela imagem e realidade física, que é, de certa forma, a distinção metafísica que sustenta a reificação das imagens e dos corpos? Agamben explica-nos este aspecto a partir das análises de Deleuze sobre o cinema:

Gilles Deleuze mostrou que o cinema apaga a falaciosa distinção psicológica entre imagem como realidade psíquica e o movimento como realidade física. As imagens cinematográficas não são nem poses eternelles (como as formas do mundo clássico), nem coupes immobiles do movimento, mas coupes mobiles, imagens mesmas em movimento, que Deleuze chama images-mouvement (Agamben, 2008, p. 11-12).

Seria o caso de dizer, em forma de paráfrase à citação que Agamben faz de Deleuze, que as palavras poéticas não são nem conceitos (como as ideias eternas e imutáveis do mundo clássico), nem termos de significados fixos, mas termos móveis, signos em rotação, palavras-movimento? O que parece transparecer nos gestos da poesia, para os organizadores do volume, é o fato de que o gesto indica aquilo que não tem êxito (e que não alcança a sua finalidade) na linguagem. Dessa forma, ainda que se perguntem na sua introdução sobre “o que caberia ao gesto propriamente dito na poesia, em especial naquela que se faz nos últimos tempos” (Glenadel; Dassie, 2023, p. 9), Glenadel e Dassie esboçam, com o gesto de sua publicação, também uma teoria da poesia como gesto.

Devemos atentar também para o fato de que o livro tem como subtítulo sobre estéticas crítico- filosóficas contemporâneas. Ao citar não apenas a “teoria do gesto” de Agamben, mas também “a figura do contágio” do francês Georges Bataille, que também figura na introdução de Poesia e gesto, Glenadel e Dassie referem-se a um “aspecto da criação artística” que diz respeito ao seu tensionamento “entre êxito e fracasso, ou entre forma e informe, abrindo uma chance de amplificar [...] as dimensões ética e política do gesto” (Glenadel; Dassie, 2023, p. 9). Em seu ensaio, na mesma coletânea, Susana Scramim suplementa essa ideia: o gesto “provoca uma crise na ideia de representação que sustenta a metafísica de uma transparência entre a coisa representada e o ato da representação”, incitando “à linguagem um modo inaugural” (Glenadel; Dassie, 2023, p. 91).

Assim, temos uma situação curiosa, pois à primeira vista a obra traz oito ensaios que se dedicam a objetos estéticos dos séculos XX e XXI: Inês Oseki-Dépré escreve sobre Mallarmé e Duchamp; Paula Glenadel, sobre Carlos Augusto Lima; Masé Lemos considera a poesia de Claudia Roquette-Pinto e Josely Vianna Baptista; Susana Scramim escreve sobre Eugenio D’Ors, Paula Glenadel e Oswald de Andrade; Celia Pedrosa conta-nos sobre a imagem do coração em parte da poesia e da arte brasileira dos últimos anos; Davi Andrade Pimentel escreve sobre Hélène Cixous; Marcelo Jacques de Moraes fala-nos de Christophe Tarkos; e, por fim, Leonardo Gandolfi escreve sobre João Cabral de Melo Neto. Ainda assim, esses ensaios também abordam questões éticas e políticas: de alteridade, de identidade e não-identidade, questões de gênero, problemas existenciais, antropológicos e socioeconômicos (inclusive, em alguns casos, a propósito dos últimos eventos turbulentos em nossa história, por ocasião da ascensão da extrema direita) etc.

Tal salto é logrado graças a uma inscrição ensaística desses artigos. Aliás, o fato de que esses capítulos são artigos ensaísticos confere tanta unidade ao volume quanto (quiçá mais que) o tema do gesto. Isto é próprio da natureza do ensaio, que se dirige, à primeira vista, em direção a objetos culturais particulares (que concernem à estética), mas que também tenta alcançar grandes questões filosóficas (que ultrapassam a estética), ainda que de forma discreta e modesta. Assim, por exemplo, Inês Oseki-Dépré investiga o Lance de dados de Mallarmé e algumas obras de Marcel Duchamp para tatear o fato de que “o gesto é ao mesmo tempo uma figura da crítica e corresponde a um traço vital” (Glenadel; Dassie, 2023, p. 13). Ainda que Oseki-Dépré sublinhe as obras desses artistas como “in-significantes” (Glenadel; Dassie, 2023, p. 34), a significância de sua crítica está em descobrir a “pura medialidade” (Glenadel; Dassie, 2023, p. 16) do gesto (em geral). E, na investigação que Celia Pedrosa faz da imagem do coração na arte contemporânea, lemos, não apenas a sua descrição de aspectos de uma cena da arte, mas também a discreta tese de que não apenas “o lirismo está sempre retornando”, mas também “as infâncias - atuando de modo a evitar qualquer identificação imediata e promovendo uma pedagogia da emancipação movida pela provocação, pela dúvida, pelo enfrentamento difícil da diferença de si mesmo e do outro” (Glenadel; Dassie, p. 143). É por meio desse gesto que esses ensaios ultrapassam seu caráter estético e alcançam a esfera ética e política. A escolha do texto de Leonardo Gandolfi para fechar o volume explicita esse gesto, pois ali o autor encontra em João Cabral de Melo Neto um gesto específico, o do monólogo dramático, que realiza uma “construção de si pela alteridade”, uma autoconstituição que passa pela incorporação do modus operandi do outro (Glenadel; Dassie, p. 207).

Por fim, a coletânea apresenta também uma contribuição teórica para os estudos sobre o conceito de gesto, já que um conceito, quando se tensiona com outros fenômenos, tende a, no mínimo, revelar outras faces que são latentes em sua forma especulativa original, e, no limite, tende a transformar-se a si mesmo no contato com aquilo que tenta conceituar. No ensaio da organizadora Paula Glenadel, por exemplo, o gesto é pensado em relação à ideia de felicidade - uma ideia elementar na obra agambeniana (como uma espécie de herança benjaminiana) e à qual talvez pouco se tenha recorrido na investigação do conceito de gesto. Já Glenadel o faz investigando como, no poema, o gesto poderia constituir “um espaço de renovação da aspiração ética em acenar messianicamente para um tempo-lugar sem culpa” (Glenadel; Dassie, p. 42). O ensaio de Masé Lemos, por outro lado, traz à tona o caráter irruptivo e de interrupção que todo gesto tem, ao reivindicar poéticas que são “gestos-saxífragas”, isto é, flores que irrompem de dentro de formas petrificadas, culminando seu ensaio na imagem de “um buquê de saxífragas em flor” (Glenadel; Dassie , p. 87).

Em meio a tempos turbulentos, como o nosso, a relação entre o pensamento o político e o estético torna-se urgente. Como diz Pedrosa em seu capítulo, sob certas condições, “face ao ‘deserto do real’, cada poema se torna experiência de vida, acontecimento de pequenos gestos, irrupção de memórias nômades, resto de vida/vida outra vez” (Glenadel; Dassie, p. 126). Mas essas circunstâncias não se abrem facilmente à nossa consideração. E a urgência que sentimos pode nos conduzir a uma simplificação epistemológica que tem implicações políticas, resultando, não raro, em um pensamento que determina a estética pela política e vice-versa. Tal tendência tende a crer que combate, dessa maneira, uma metodologia que não se compromete com as convulsões sociais de nossa era, mas pode reforçar certas reificações. A coletânea Poesia e gesto apresenta não apenas um panorama de parte da cena poética contemporânea, como também um gesto metodológico que tende a de fato diluir a fronteira entre essas dimensões. E o faz com um gesto discreto.

Referências

  • AGAMBEN, Giorgio (2008). Notas sobre o gesto. Artefilosofia, Ouro Preto, v. 3, n. 4, p. 09-14, jun. [Tradução de Vinicius Nicastro Honesko].
  • GLENADEL, Paula; DASSIE, Franklin Alves (orgs.) (2023). Poesia e gesto: sobre estéticas crítico-filosóficas contemporâneas. Rio de Janeiro: 7Letras.
  • HOLLANDA, Heloisa Buarque (org.) (2021). As 29 poetas hoje. São Paulo: Companhia das Letras.
  • RIBEIRO, Gustavo Silveira (org.) (2017). a extração dos dias [poesia brasileira agora]. Curitiba: Revista Escamandro.
  • 1
    Este estudo foi financiado pela FAPERJ - Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, Processo SEI 260003/000203/2024.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    18 Ago 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    15 Fev 2025
  • Aceito
    15 Jul 2025
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Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade de Brasília (UnB) Programa de Pós-Graduação em Literatura, Departamento de Teoria Literária e Literaturas, Universidade de Brasília , ICC Sul, Ala B, Sobreloja, sala B1-8, Campus Universitário Darcy Ribeiro , CEP 70910-900 – Brasília/DF – Brasil, Tel.: 55 61 3107-7213 - Brasília - DF - Brazil
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