No presente artigo, proponho revisitar o romance Quarenta dias (2014), de Maria Valéria Rezende, objetivando analisar como o sujeito nordestino, em especial a mulher nordestina, é representado na obra. Parto do pressuposto de que esse corpo ocupa, no imaginário social brasileiro, um lugar de marginalização, marcado pela figura do ser errante, aquele sempre em deslocamento forçado, frequentemente associado à fuga da seca, da fome e da miséria. O romance, ora lido, amplia essa discussão ao propor uma reflexão mais complexa acerca das dinâmicas de exclusão que atravessam os marcadores sociais da diferença de raça, classe, gênero e território. A partir da análise de passagens específicas da narrativa, busco evidenciar como a protagonista, Alice, ao se deslocar de João Pessoa para Porto Alegre, incorpora esse lugar de corpo errante e vulnerável, passando a experimentar diretamente os processos de estigmatização social. Para tanto, a análise articula os conceitos de abjeção (Kristeva, 1982) e de necropolítica (Mbembe, 2018), compreendendo que tais corpos são não apenas simbolicamente rejeitados no espaço narrativo do sul do Brasil, mas também materialmente produzidos como vidas descartáveis, sujeitas à invisibilização, ao confinamento e, não raro, à morte social ou real. Desse modo, conclui-se que o romance de Maria Valéria Rezende denuncia os mecanismos de produção da alteridade e da exclusão, revelando como práticas de racismo, xenofobia e higienização social são operacionalizadas no espaço urbano, sobretudo, quando se trata de corpos racializados, empobrecidos e imigrantes, que desafiam as normas de pertencimento e aceitabilidade social.
Palavras-chave:
Maria Valéria Rezende; abjeção; racismo; necropolítica