Resumo
No presente artigo, proponho revisitar o romance Quarenta dias (2014), de Maria Valéria Rezende, objetivando analisar como o sujeito nordestino, em especial a mulher nordestina, é representado na obra. Parto do pressuposto de que esse corpo ocupa, no imaginário social brasileiro, um lugar de marginalização, marcado pela figura do ser errante, aquele sempre em deslocamento forçado, frequentemente associado à fuga da seca, da fome e da miséria. O romance, ora lido, amplia essa discussão ao propor uma reflexão mais complexa acerca das dinâmicas de exclusão que atravessam os marcadores sociais da diferença de raça, classe, gênero e território. A partir da análise de passagens específicas da narrativa, busco evidenciar como a protagonista, Alice, ao se deslocar de João Pessoa para Porto Alegre, incorpora esse lugar de corpo errante e vulnerável, passando a experimentar diretamente os processos de estigmatização social. Para tanto, a análise articula os conceitos de abjeção (Kristeva, 1982) e de necropolítica (Mbembe, 2018), compreendendo que tais corpos são não apenas simbolicamente rejeitados no espaço narrativo do sul do Brasil, mas também materialmente produzidos como vidas descartáveis, sujeitas à invisibilização, ao confinamento e, não raro, à morte social ou real. Desse modo, conclui-se que o romance de Maria Valéria Rezende denuncia os mecanismos de produção da alteridade e da exclusão, revelando como práticas de racismo, xenofobia e higienização social são operacionalizadas no espaço urbano, sobretudo, quando se trata de corpos racializados, empobrecidos e imigrantes, que desafiam as normas de pertencimento e aceitabilidade social.
Palavras-chave:
Maria Valéria Rezende; abjeção; racismo; necropolítica
Abstract
In this article, I propose to revisit the novel Quarenta Dias (2014), by Maria Valéria Rezende, with the aim of analysing how the Northeastern subject, particularly the Northeastern woman, is represented in the work. I start from the premise that this identity occupies a marginalized position in the Brazilian social imaginary, characterized by the figure of the wandering individual, the one who is perpetually in forced displacement, often associated with fleeing drought, hunger, and poverty. The novel expands this debate by offering a more nuanced reflection on the dynamics of exclusion that permeate the social markers of race, class, gender, and territory. Through an analysis of specific passages from the narrative, I aim to highlight how the protagonist, Alice, as she transitions from João Pessoa to Porto Alegre, embodies this state of wandering and vulnerability, directly confronting the processes of social stigmatization. To this end, the analysis integrates the concepts of abjection (Kristeva, 1982) and necropolitics (Mbembe, 2018), positing that such bodies are not only symbolically rejected within the narrative space of southern Brazil but are also materially constructed as disposable lives, subjected to invisibility, confinement, and often, social or literal death. Thus, it is concluded that Maria Valéria Rezende's novel critiques the mechanisms of otherness and exclusion, revealing how practices of racism, xenophobia, and social sanitization are operationalized in urban spaces, particularly concerning racialized, impoverished, and immigrant bodies that challenge the norms of belonging and social acceptability.
Keywords:
Maria Valéria Rezende; abjection; racism; necropolitics
Resumen
En este artículo, propongo revisitar la novela Quarenta dias (2014), de Maria Valéria Rezende, con el objetivo de analizar cómo se representa al sujeto nordestino, especialmente a la mujer nordestina, en la obra. Parto del supuesto de que este cuerpo ocupa un lugar de marginalización en el imaginario social brasileño, marcado por la figura del ser errante, aquel que siempre está en desplazamiento forzado, a menudo asociado con la huida de la sequía, el hambre y la pobreza. La novela que se analiza aquí amplía esta discusión al proponer una reflexión más compleja sobre las dinámicas de exclusión que permeabilizan los marcadores sociales de la diferencia en raza, clase, género y territorio. Con base en el análisis de pasajes específicos de la narrativa, busco destacar cómo la protagonista, Alice, al mudarse de João Pessoa a Porto Alegre, asume este lugar de cuerpo errante y vulnerable, comenzando a experimentar directamente los procesos de estigmatización social. Para ello, el análisis articula los conceptos de abyección (Kristeva, 1982) y necropolítica (Mbembe, 2018), entendiendo que dichos cuerpos no solo son rechazados simbólicamente en el espacio narrativo del sur de Brasil, sino que también se producen materialmente como vidas descartables, sujetas a la invisibilidad, el confinamiento y, a menudo, a la muerte social o real. Así, se concluye que la novela de Maria Valéria Rezende denuncia los mecanismos de producción de alteridad y exclusión, revelando cómo las prácticas de racismo, xenofobia y saneamiento social se operacionalizan en el espacio urbano, especialmente cuando se trata de cuerpos racializados, empobrecidos e inmigrantes, que desafían las normas de pertenencia y aceptabilidad social.
Palabras-clave:
Maria Valéria Rezende; abyección; racismo; necropolítica
Carcará pega, mata e come...
confiando, Atílio tocando toda noite na antiga churrascaria
reformada pra virar casa de forró, com estátua de Lampião
e Maria Bonita na porta e tudo, conforme o entendimento
que o dono tinha do que seria estilo nordestino, já
funcionando e começando a ter um movimento bem
bonzinho, havia vários meses.
Maria Valéria Rezende
Euclides da Cunha
Em 1964, poucos meses após o golpe de Estado cívico-militar que assolou o Brasil e estabeleceu o governo ditatorial que controlou o país por mais de duas décadas, nos palcos do teatro do shopping center de Copacabana estreava o espetáculo Opinião, dirigido por Augusto Boal, que se eternizou na história da Música Popular Brasileira como experiência de uma arte de protesto durante a Ditadura Militar. Maria Bethânia, ainda uma desconhecida do grande público nacional, viria a substituir Nara Leão no espetáculo que contava ainda com Zé Kéti e João do Vale entre os artistas cantores.
É nesse espetáculo que Bethânia cantou pela primeira vez a um grande público a versão da música Carcará, escrita pelo próprio João do Vale e José Candido, a qual também estaria no seu compacto simples a ser lançado no ano seguinte. Seu irmão, Caetano Veloso, no livro Verdade Tropical (2017), reflete sobre a imagem criada em torno da chegada de Bethânia, uma cantora de grandes músicas de amor e boleros, ao Rio de Janeiro e à cena musical do país como uma migrante nordestina, tal qual cantam os versos de Carcará:
para todos que só começaram a conhecê-la então, Bethânia chegou com uma marca de regionalismo que para nós foi motivo, a princípio de surpresa curiosa e, em breve, de embaraços e mal-entendidos que, na verdade, nunca se desfizeram de todo. [...] Isso, naturalmente, não era possível de ser pensado pelos produtores do show - um grupo de homens de teatro e intelectuais de esquerda -, que tinham, entre outras coisas, de arranjar uma linha de imagem para a nova estrela lançada. É curioso constatar que, para nós, a primeira experiência com as falsidades do marketing tenha sido proporcionada por um grupo de artistas anticapitalistas (Veloso, 2017, p. 101, grifos meus).
Veloso (2017) levanta questões fundamentais ao refletir sobre o imaginário construído em torno da figura do sujeito nordestino, cuja representação, à época, gerou “surpresa” e “mal-entendidos”. Havia, nesse contexto, uma expectativa de que Bethânia correspondesse a esse perfil estereotipado do Nordeste, especialmente aquele produzido e reproduzido nos centros hegemônicos do Sul e Sudeste. Sua crítica recai, portanto, sobre a imposição social e midiática de construir uma imagem para Bethânia que se apoiasse em um estereótipo ficcional, elaborado a partir de olhares externos, distantes e profundamente desconectados da complexidade, da diversidade e das múltiplas realidades socioculturais que compõem o Nordeste brasileiro.
O que Veloso (2017) relata e critica em sua obra não constitui uma novidade no cenário cultural brasileiro, uma vez que o Nordeste e, de forma ainda mais marcada, o sertão, há muito ocupa, no imaginário coletivo, um lugar de subalternidade. Essa é uma região historicamente retratada como um espaço de privação, abandono e êxodo forçado, de onde pessoas partem em busca de melhores condições de vida e trabalho em outras partes do país, principalmente no eixo Sul-Sudeste. Essa construção simbólica foi consolidada por diversas expressões artísticas e culturais ao longo da história. A célebre tela Os retirantes, de Candido Portinari (1944), por exemplo, eterniza imageticamente a representação do corpo nordestino imigrante, pobre, miserável, ecoando uma narrativa que já se fazia presente no romance homônimo do escritor fluminense José do Patrocínio, publicado em 1879, reforçando, assim, uma visão muitas vezes reiterada e estigmatizada sobre a imigração nordestina.
Durval Albuquerque Júnior, em “O rapto do sertão” (2019), entende que as apropriações que o conceito de sertão sofreu pela cultura brasileira desde, pelo menos, o século XIX, provocou muito mais uma idealização, uma arbitrariedade, que um fato per se, observável. Ou seja, o sertão não o é aprioristicamente, não corresponde a um fato natural ou óbvio, mas sim, torna-se algo, nomeia uma ideia, um conceito de região.
Lília Schwarcz e Heloisa Starling, em Brasil: uma biografia (2015), descrevem que desde a chegada dos colonizadores ao Nordeste brasileiro, o termo “sertão” passou a significar algo desconhecido, um espaço sobre o qual quase nada se sabe.
“Sertão” é termo usado já por Caminha, denotando o vasto e desconhecido interior da colônia, longe do mar. A partir do século XV, com a expansão, a palavra (antes empregada para designar áreas situadas em Portugal mas distantes de Lisboa) passou a nomear espaços sobre os quais pouco ou nada se sabe. Com o tempo, porém, a nomenclatura demarcaria um espaço simbólico, mais que um lugar geográfico (Schwarcz; Starling, 2015, p. 31).
Ao articular os conceitos de Durval Júnior (2017) e Lília Schwarcz e Heloisa Starling (2015), percebe-se que o discurso sobre o sertão carrega um olhar externo, associando-o sistematicamente ao atraso, à rusticidade e à carência - uma representação que atende a projetos políticos e culturais específicos. Nessa lógica, o sertão deixa de ser apenas um lugar para tornar-se uma ideia construída socialmente, demarcando simbolicamente divisões entre centro e periferia, progresso e arcaísmo, o que é reconhecido e o que permanece à margem.
Dessa forma, compreende-se que a linguagem exerce papel constitutivo na produção da realidade, e que o conceito de sertão, no imaginário social brasileiro, constitui-se historicamente a partir de um olhar exógeno, desvinculado da própria região. Trata-se, portanto, de uma construção que transcende os limites estritamente geográficos ou físicos, configurando-se como uma representação elaborada por sujeitos enunciadores - a exemplo dos diretores do espetáculo Opinião -, que, mesmo situados fora do território sertanejo, mobilizam e reproduzem essa noção em conformidade com seus interesses, expectativas e demandas socioculturais.
O Nordeste brasileiro (ele próprio uma arbitrariedade discursiva que simplifica identidades diversas) é frequentemente retratado apenas como um sertão árido e hostil. Essa representação aparece em obras como Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e O Quinze, de Rachel de Queiroz, nas quais o sertão surge como um espaço inóspito, reduzido à seca e à miséria, que expulsa famílias retirantes para outras regiões, onde enfrentam exploração e preconceito. O problema, porém, não é a veracidade ou não dessas representações, mas o fato de elas dominarem o imaginário sobre o Nordeste, apagando sua diversidade e reforçando estereótipos que perpetuam sua marginalização.
Em sentido semelhante às críticas de Caetano Veloso (2017) acerca do ideário de corpo nordestino-imigrante que se esperava que Bethânia performasse ou assumisse, este artigo propõe uma leitura do romance Quarenta Dias (2014), de Maria Valéria Rezende, na qual se analisa como o sujeito nordestino, especialmente aquele em situação de rua, emerge como um pária, cujo marcador de alteridade, socialmente relegado à margem, é alvo de xenofobia e racismo, e cuja circulação pelo espaço urbano é monitorada, restringida e frequentemente repelida. Essa análise se ancora nos conceitos de abjeção, formulado por Julia Kristeva (1982) e necropolítica, conforme pensado por Achille Mbembe (2018), para compreender os processos pelos quais determinados corpos são simbolicamente expulsos do convívio social, transformando-se em resíduos do tecido urbano e social.
Maria Valéria Rezende, formada em Letras, Pedagogia e com mestrado em Sociologia, iniciou sua carreira literária aos 60 anos. Com cerca de 15 anos de produção, venceu o Jabuti de Melhor Romance e Livro do Ano com Quarenta dias (2014), protagonizado por Alice, paraibana que migra da Paraíba ao Sul por imposição da filha. Atualmente, integra o Movimento Mulherio das Letras e segue publicando e traduzindo.
O livro está estruturado em dois tempos narrativos. O primeiro, que aqui denominarei T1, corresponde ao presente da narrativa, no qual a narradora-personagem reflete sobre os quarenta dias em que viveu como andarilha, uma espécie de flâneuse,1 pelas ruas da capital sul-riograndense. Essas reflexões são registradas por ela nas páginas de um caderno velho, com uma capa estampada com uma boneca Barbie.
O segundo tempo, T2, remete ao passado, que se desdobra no relato dos eventos que levaram a personagem a deixar João Pessoa de forma contrariada e a se estabelecer precariamente em Porto Alegre. Nesse eixo narrativo, o texto apresenta os detalhes de sua experiência nas ruas, expondo os desafios e as tensões de sua condição enquanto mulher nordestina racializada em situação de vulnerabilidade no espaço urbano sulista.
Assim sendo, no T1, além de narrar os acontecimentos, a protagonista também reflete e dialoga com a imagem da Barbie estampada na capa do caderno, que assume o papel de uma espécie de narratária. Essa figura simbólica desempenha uma função central na construção da narrativa, operando de duas maneiras complementares.
Por um lado, funciona como um recurso que estabelece uma relação de proximidade entre a narradora e nós, que a lemos, criando a sensação de que estamos em contato direto com Alice, como se fôssemos ouvintes ou até personagens do próprio romance. Essa estratégia evidencia-se na passagem: “você é só um recurso mentiroso pra eu me sentir em comunicação com alguém, como se você se importasse” (Rezende, 2014, p. 123). Por outro lado, esse diálogo também adquire uma dimensão terapêutica, funcionando como uma forma de organização dos próprios pensamentos e emoções da personagem, o que se manifesta em trechos como: “Deixa pra lá, eu estou dizendo pra mim, pra ninguém” (Rezende, 2014, p. 48) e “Ufa, Barbie, está exausta, não é? Eu estou. Exausta, mas contente porque sinto mesmo os restos da raiva escorrendo de mim pro seu papel” (Rezende, 2014, p. 88, grifos meus).
O recurso utilizado por Rezende (2014) ainda emula o próprio processo de retomada da memória, uma vez que sua escrita não é uma linha reta rumo aos desdobramentos de seus atos, posto que a narradora para, reflete, retoma fatos antigos, segue caminhos tortuosos. Não raro recorre ao fluxo de consciência como recurso narrativo, e por ser um “diálogo” com a boneca em que apenas ela [a protagonista] fala, torna-se prolixa, por vezes, impondo um ritmo mais lento ao que conta, como se se recusasse a, efetivamente, começar a narrar o que a levou a mudar-se de estado e o porquê de ter ido parar nas ruas de Porto Alegre. Descreve-se, assim, o processo próprio da escrita narrativa, literária, como se observássemos a máquina da ficção operando na construção do enredo.
Alice é compelida a se mudar de sua casa na capital paraibana em função da insistência da filha, Norinha, que, com artimanhas várias, convence-a a acompanhá-la a Porto Alegre para cuidar de um futuro neto, idealizado pela filha e o genro, ambos pesquisadores universitários:
Deixa eu me lembrar direitinho como foi. Tudo começou nas férias de inverno do ano passado, quando Umberto voltou logo pra Porto Alegre, a pretexto de muito trabalho na Universidade, e Norinha disse que ia ficar ainda três semanas comigo pra curtir sua Mãínha, que sentia tanto a minha falta, que Umberto é um amor, Eu sinto que a família dele gosta tanto de mim!, minha sogra me trata como uma filha, mas não é a mesma coisa, mãe de verdade a gente só tem uma! Depois de uns três dias dessas declarações de amor filial, fora do costume, a ponto de me deixar meio cismada, deu o bote, com certeza já armado havia tempo: Mãínha, tenho uma coisa importantíssima pra lhe dizer. Chegou a hora da senhora virar avó! (Rezende, 2014, p. 25, grifos meus).
Norinha não queria apenas comunicar uma resolução em sua vida de casada, tampouco fazer um convite inocente a que a mãe a acompanhasse em determinado momento da gravidez e dos primeiros meses do filho, mas sim, levá-la consigo para cuidar em tempo integral da futura criança, ser avó em tempo irrestrito, conforme a última frase transcrita no excerto acima comprova, em que se observa a decisão de Norinha acerca da vida de sua mãe de modo mais preponderante que uma resolução sua em se tornar mãe.
Alice, primeiramente resiste, mas acaba por ceder. Retirar-se de sua terra não estava em seus planos, mas as chantagens emocionais da filha e o apoio de outros parentes convencem-na, “E eu vim, no dia marcado pelos outros. Fui cedo pro aeroporto, fiz o checkin o mais depressa que pude” (Rezende, 2014, p. 38). Em síntese, Alice sente que estava “convidada” a abandonar a própria existência, a se reduzir à figura de avó-cuidadora, sair de cena em função da maternidade idealizada da filha.
No novo estado, recusa-se a se sentir em casa, estranha (n)o local, “Fui preparar e tomar café com saudade dos meus velhos móveis, por onde andarão eles?, ‘who knows’, Barbie?” (Rezende, 2014, p. 54). É uma estranha na própria moradia que não havia sido decorada por ela, mas por Norinha, que também tinha uma cópia das chaves e levava a alimentação para a mãe - qual uma prisioneira -, além de responder às próprias perguntas, completando o silenciamento imposto à Alice.
A protagonista sente-se aprisionada tanto pelas expectativas da filha quanto pelo espaço que esta controla. Norinha impõe suas vontades de forma autoritária, forçando a ida e permanência da mãe em um lugar onde ela se sente estrangeira e deslocada. A mudança definitiva é crucial na narrativa, pois a impede de ocupar o papel passageiro de turista, reforçando sua condição de imigrante, à semelhança de outros sujeitos vulneráveis que migram ao Sul em busca de subsistência por meio de subempregos.
Após um desentendimento com a filha, que desiste da maternidade para viajar à Europa a fim de realizar uma pesquisa que pode durar até oito meses, Alice abandona o apartamento e sai pelas ruas de Porto Alegre, a pedido da prima Elizete, em busca de Cícero Araújo, paraibano como ela, perdido da mãe, e supostamente morando na capital sulista:
Da última vez que telefonou disse que a obra tinha terminado, a empresa queria que ele fosse pro Mato Grosso, mas ele não ia não, estava gostando muito daí, tinha arranjado uma namorada e estava morando com ela na Vila Maria Degolada, vê se pode um nome desse?, e agora a Socorro está desesperada porque já faz quase um ano que ele não deu mais sinal de vida, nem o celular dele não responde, ela chora todo dia, ninguém sabe mais nada dele, nem os antigos colegas daqui, o melhor amigo dele não sabe nada, nem a ex-namorada, e a lesa da Socorro não lembra o nome da empresa, vê se você vai lá nessa Vila Maria Degolada, sei lá onde é que fica!, você não está em Porto Alegre?, então, pois é aí mesmo, pergunte por aí, vá lá e veja se consegue notícia do Cícero, Cícero Araújo é o nome completo, só isso mesmo.
Um rumo vago. Que eu seguiria se quisesse (Rezende, 2014, p. 92).
Pois seguiu o rumo vago de Cícero Araújo, que, conforme vai dar-se conta com o tempo, é apenas uma desculpa para fugir de seus próprios problemas. Ela, uma mãe sem filha, atrás de um filho, longe da mãe. Justamente na sua andança pelas ruas de Porto Alegre, centro, praças, hospitais, comunidades, rodoviárias, enfim, pelos espaços públicos, urbanos da capital, Alice vê-se constantemente confrontada com a ideia de ser um outro, alguém sobre quem se fala, um ser que se repele, de quem se afasta, um corpo abjeto em função de sua origem nordestina e de sua cor, conforme discutirei com mais atenção nos tópicos que seguem.
Racismo e xenofobia: du(r)as formas de materialidade da abjeção
de americano. Aqui não tem diferença porque todo mundo é
brasileiro acima de tudo, graças a Deus. Preto aqui é bem
tratado, tem o mesmo direito que a gente tem. Tanto é que,
quando se esforça, ele sobe na vida como qualquer um.
Conheço um que é médico; educadíssimo, culto, elegante e
com umas feições tão finas… Nem parece preto.
Lélia Gonzalez
Ishiguro, Moacyr Scliar, Magris, Semprun, Baricco,
Updike e por aí vai.
Maria Valéria Rezende
Julia Kristeva, em Powers of Horror (1982), conceitua a abjeção a partir da metáfora dos fluidos e dejetos corporais que expelimos, aquilo que o corpo expulsa, que já foi parte do sujeito, mas do qual se separa para preservar a própria integridade. Trata-se de um movimento ambivalente, que produz, simultaneamente, repulsa e atração, funcionando como um “bumerangue inevitável, um vórtice de invocação e repulsão” (Kristeva, 1982, p. 1, tradução própria). Nesse processo, o corpo, ao expulsar aquilo que não lhe pertence mais, reafirma seus próprios limites, assegura uma ideia de unicidade e pureza, e mantém-se dentro das fronteiras simbólicas de um “eu” limpo, asséptico, afastando de si tudo aquilo que é destinado à sujeira, ao descarte, à lixeira.
O paradoxal resultado reside na reação provocada ao se afastar do dejeto, do desejo de limpar-se ao expulsá-lo, associado à vergonha de ter sido em algum tempo um só organismo. Assim, a associação dos dejetos à sujeira e à repugnância provocada são básicas para que haja a delimitação desse outro. Ou, come explicita a teórica,
A repugnância, a ânsia de vômito que me empurra para o lado e me afasta da contaminação, do esgoto e da sujeira. A vergonha de estar em comum acordo, de estar no meio de uma traição. O começo fascinado que me conduz e me separa deles. A aversão à comida é talvez a mais elementar e mais arcaica forma de abjeção. Quando os olhos veem ou os lábios tocam aquela camada na superfície do leite - inofensiva, fina como uma folha de papel de cigarro, deplorável como uma unha cortada - experimento uma sensação de engasgo e, ainda mais abaixo, espasmos no estômago, na barriga; e todos os órgãos do corpo se encolhem, provocam lágrimas e bile, aumentam os batimentos cardíacos, fazem a testa e as mãos transpirarem (Kristeva, 1982, p. 2, tradução própria).
A metáfora em questão revela-se potente ao evidenciar como o sujeito traça fronteiras simbólicas a partir da construção de um “eu” que precisa ser protegido e mantido em estado de pureza. Nesse processo, tudo aquilo que provoca repulsa, nojo ou perturbação, que desestabiliza essa integridade imaginada, é expelido e passa a constituir o campo do abjeto. O que antes fazia parte do “eu” é transformado em “outro”, em um corpo ou elemento que deve ser rejeitado e confrontado.
Essa lógica, como observa Kristeva (1982), é marcada por uma oposição irredutível e fundante da identidade. De modo análogo, o corpo subalternizado nas grandes cidades, embora constitua parte integrante do espaço urbano, é frequentemente tratado como excedente, um dejeto social cuja presença deve ser restringida, controlada ou ocultada, reproduzindo o mesmo mecanismo de exclusão e negação que opera na constituição do sujeito individual.
Ao pensarmos em termos sociais, alusivos à cultura, à organização de dada sociedade para além do “eu”, podemos recorrer ao pensamento de Kristeva (1982) a fim de entender como determinados corpos são excluídos, negados em sua alteridade, violentados em sua materialidade, vistos como um “outro” que deve ser apartado do “eu” discursivo, posto que se tornam corpos-abjeto, deploráveis como uma unha cortada. Assim sendo, a teoria do abjeto pode auxiliar-nos a ler os modos como a produção literária de Rezende (2014) representa uma sociedade capitalista, urbana, contemporânea, ciosa de valores burgueses, a qual cria mecanismos diversos para excluir esse “outro”, inclusive - principalmente - discursivos.
Isto posto, em havendo um corpo social, qualquer que seja, forjado segundo valores racistas e xenofóbicos, herdeiro de uma tradição colonial, tal qual a sociedade urbana porto-alegrense como descrita no romance, haverá a produção discursiva de sujeitos cuja existência plena é negada, tornados abjetos ao meio em que estão inseridos. Ou seja, corpos não nascem abjetos, mas tornam-se na relação dialógica que mantêm com os demais atores e atrizes sociais. Dito isso, um sujeito pode vir a se tornar abjeto a depender do contexto que ocupa, o que ocorrerá com Alice.
No romance, fica evidente que esses corpos, embora necessários à lógica da exploração capitalista, são relegados a espaços e funções precarizadas, como trabalho doméstico, prostituição, acampamentos e favelas. Sua presença é tolerada apenas enquanto força de trabalho, mas sua existência plena é constantemente negada, ou, ao menos, vigiada.
A abjeção, segundo Kristeva (1982), delimita aquilo que não pode ser o “eu” ou aquilo que o sujeito deseja manter fora de si. Esse mecanismo simbólico opera na construção das fronteiras entre o desejo de uma identidade discursiva e aquilo que se nega, rejeita ou expulsa de si. Sob essa perspectiva, o nordestino, no contexto analisado, ocupa o lugar desse “outro” abjeto, projetado pelo olhar higienista do sulista que o despreza e, consequentemente, rejeita-o, como torna-se evidente nas páginas do romance Quarenta Dias (2014), em que os processos de xenofobia, racismo e exclusão social se inscrevem nos corpos e nas experiências da personagem imigrante.
Aqui, nos limites da leitura que faço do romance de Rezende (2014), trato de pensar como a romancista representa os corpos nordestinos imigrantes como corpos-abjetos no discurso das demais personagens, mas bem poderia ser o corpo não-heteronormativo, o corpo feminino transgressor, o corpo transexual, enfim, todo e qualquer corpo que provoque uma fissura no ideal de uma sociedade branca cis-heteropatriarcal, de classe média alta a alta.
O tema da abjeção surge na narrativa de maneira sutil para logo tornar-se rotina na vivência da protagonista. Após alguns dias no novo endereço, Alice decide que precisará de uma diarista que a ajude a pôr a casa em ordem, e aceita a recomendação de um dos porteiros do edifício em que mora, o qual avisa “que uma mulher estava subindo pelo elevador de serviço, diarista, tinha dia vago” (Rezende, 2014, p. 61), porém, a longa sequência é incômoda, seja para Alice, seja para Sabina (a diarista), seja para nós, que lemos o excerto, abaixo reproduzido.
Imediatamente ouvi bater à porta da cozinha, abri e dei com uma mulher alourada, bem mais nova, mais corpulenta e mais alta do que eu, que respondeu ao meu Boa-tarde com um resmungo, enquanto me olhava de cima a baixo. Então, tudo bem?, eu sou Alice, e você, como é seu nome?, entre, por favor. Ela disse É Sabina, mas não se moveu do lugar. Insisti, Entre. O olhar azul-acinzentado percorrendo-me de novo, Não precisa, não, senhora. Fiquei ali, meio sem jeito, à porta, ela parada do lado de fora, eu sem querer insistir mais, deve ser o costume daqui ou está apressada, pensei. Ela calada, desatei a falar, meio precipitada, uma pergunta emendada na outra, tentando parecer que achava tudo normal, Então, você poderia me ajudar como diarista, pelo menos uma vez por semana?, qualquer dia da semana está bem pra mim, a diária Seo Jerônimo já lhe disse?, está bem pra você?, dou a condução por fora, o serviço não vai ser pesado, que moro sozinha, você lava e passa também?, roupa de uma pessoa só, é pouca coisa, quando pode começar? Ela demorou a responder, olhando pra mim, a cara inexpressiva. Repeti Então, que dia pode ser? Finalmente abriu a boca, É... não vai dar certo pra mim, não, senhora. Achei que tinha entendido a hesitação dela, É a diária que não está agradando? Diga quanto costuma receber e a gente se entende sobre isso. Não é a diária, não, é que eu estou mesmo sem dia livre, tenho faxina todo dia (Rezende, 2014, p. 61-62, grifos meus).
Há o tempo todo um discurso subjacente, mas não dito no momento da ação, no passado, tampouco no presente, quando Alice escreve sobre a situação constrangedora. Os não-ditos representam aquilo que o discurso não pode, não quer, ou não sabe enunciar, as reticências carregam os sentidos das pausas, das avaliações impostas pelo olhar da diarista. O incômodo reside ainda na rejeição dessa diarista que nega ter dia livre para aquela moradora, nordestina, de pele não-branca, imigrante. O racismo da cena não precisa ser declarado, está na dinâmica que se estabelece.
É relevante destacar que o ato de Sabina ir até Alice revela a expectativa de que a provável patroa fosse branca, não concebendo, naquele contexto, que uma mulher com o perfil de uma paraibana racializada pudesse ocupar uma posição de classe média e contratá-la para o trabalho doméstico, e sentencia “não vai dar certo pra mim, não, senhora” (Rezende, 2014, p. 62).
Essa cena evidencia uma ameaça ao pacto narcísico da branquitude, que, conforme analisa Bento (2022), sustenta-se em um forte mecanismo de autopreservação, baseado na percepção de que o “diferente” ameaça aquilo que se constrói como “normal” ou “universal”. Segundo a autora, “esse sentimento de ameaça está na essência do preconceito, da representação que é feita do outro e da forma como reagimos a ele” (Bento, 2022, p. 18). O desconforto e a repulsa de Sabina decorrem justamente do fato de Alice não corresponder ao estereótipo socialmente atribuído à figura da “patroa”, um lugar, no imaginário hegemônico, associado à branquitude e seus dispositivos de poder.
Retomando Bento (2022), a presença de Alice ameaça a branquitude como norma, desestabilizando o narcisismo de Sabina. O preconceito, inicialmente velado, revela-se quando a diarista recusa trabalhar para Alice, decisão claramente atravessada por marcadores raciais e territoriais. Afinal, como aceitar servir a uma mulher nordestina, de pele não branca, sendo ela própria “alourada”?
Alice, que prefere deixar “a coisa por conta de um mal-entendido qualquer” (Rezende, 2014, p. 62), vai aos poucos perceber como se dá a dinâmica social a partir do tom de pele no espaço que passa a habitar:
Dona Alice, estou mandando aí pra senhora uma diarista que, essa sim, a senhora vai gostar demais e tenho certeza de que ela vai ter tempo e querer lhe servir, vão se dar bem, que ela é brasileirinha, assim como a senhora [...] brasileirinha feito a senhora?, que conversa era aquela? Bateram à porta da cozinha, abri e entendi na hora, porque diante de mim estava uma mulata bonita, cheia de corpo, com um sorriso aberto (Rezende, 2014, p. 66, grifos meus).
Novamente, é pela sutileza que o texto caminha e constrói essa sociedade marcada pelo racismo de suas personagens, pois, os detalhes contam o que não é explicitamente pronunciado, veja-se, por exemplo, o reforço retórico-discursivo “essa sim”, que determina que há na nova diarista algo que a diferencia da anterior e a aproxima da própria patroa, a cor/raça e origem nordestina, mesmo que isso não se diga, talvez seja algo apenas intuído pelo próprio porteiro. Efetivamente entre Alice e Milena estabelecer-se-á um reconhecimento e aproximação, quase uma “amizade” bem característica das relações domésticas que se dão no interior de diversos lares brasileiros.
Sabina, assim, é o primeiro choque racial que Alice enfrenta na nova cidade, a primeira defensiva que sutilmente a narradora expõe, ainda que não explicite, nem se alongue em explicar os pormenores da rejeição descrita. O racismo opera, pois, como forma de materialidade discursiva da abjeção sofrida por Alice, e pela omissão em se reconhecer racismo (ver Gonzalez, 2020).
Se retomamos as palavras de Kristeva (1982), chegamos à ideia defendida de que à abjeção precede um choque, um enfrentamento e um desejo de manter intacta a ideia de um “eu” limpo, cujos contornos identitários são bem claros e não se deixam misturar, conforme já dito anteriormente. É especialmente significativo que seja, no romance, uma funcionária contratada para realizar a limpeza do apartamento de Alice a personagem escolhida para introduzir essa questão.
Visto que o racismo opera, em grande medida, por meio da lógica da abjeção, tal como conceituada por Kristeva (1982), os sujeitos racializados são posicionados como aquilo que deve ser expulso, rejeitado e mantido à margem para que o sujeito hegemônico possa preservar a ilusão de pureza, controle e coesão identitária, como se se limpasse algo sujo. A construção social do corpo negro, nordestino ou imigrante, como corpo-abjeto, é atravessada por sentimentos como nojo, repulsa, medo e desconforto, que naturalizam a exclusão, a segregação e a violência.
Trata-se de uma operação simbólica e material que não só separa, mas hierarquiza, definindo quem acessa a cidadania plena e quem é lançado ao lugar do descartável. O racismo opera por uma fronteira identitária que constrói um “eu” limpo e normativo ao relegar o “outro” ao sujo, subalterno e indesejável. Esse processo se manifesta na desigualdade de direitos, mobilidade e, como aponta Mbembe (2018), no controle sobre quem vive e quem pode morrer - uma necropolítica2 sustentada pela abjeção, como discutiremos a seguir.
Necropolítica e corpos abjetos pelas ruas de Porto Alegre
exatamente quanto tempo durou essa maluquice.
Maria Valéria Resende
apenas mais ou menos
matáveis
mais rapidamente ou mais vagarosamente
matáveis
isso sempre foi grave
mas a gravidade hoje talvez
recaia
no assombro de ver
que isso está explícito
desvelado sem véus descarado
às caras e às claras somos
matáveis
Danielle Magalhães
Passada a sequência em que se descreve a história de Milena, vinda da Bahia com o marido, a narradora apresenta o que poderíamos classificar como uma peripécia narrativa, isto é, uma mudança de rumo sem precedentes, pois, como declara, “o resto que vem é pesado que só!” (Rezende, 2014, p. 77).
Ganhei a rua e saí a esmo, querendo dar o fora dali o mais depressa possível, como se alguém me vigiasse ou me perseguisse, mas saí andando decidida, como se soubesse perfeitamente aonde ia, pisando duro, como nunca tinha pisado em parte alguma da minha antiga terra, lá onde eu sempre soube ou achava que sabia que rumo tomar (Rezende, 2014, p. 95).
Nas ruas de Porto Alegre, a divisão entre corpos-sujeitos e corpos-abjeto torna-se mais visível, incontornável. Nos quarenta dias em que perambula, Alice enfrenta as fronteiras simbólicas que separam quem detém a legitimidade social para plena existência daqueles que são silenciados e lançados à abjeção. Sua vivência no espaço urbano é atravessada por marcadores de classe, gênero, raça e território. A rua, portanto, não é mero cenário, mas dispositivo que revela as tecnologias de exclusão e a produção de sujeitos descartáveis.
Alice, na busca de informações sobre Cícero Araújo, parte rumo à Vila Maria Degolada, já compreendendo a dinâmica social, a divisão entre ‘brasileirinhas’ e sulistas, reconhecendo-se já como um corpo sobre o qual recaem olhares, uma estrangeira em seu próprio país. “Segui até a esquina e atravessei na faixa. Outro ponto de ônibus, só uma mulher esperando e, fiquei aliviada, seria brasileirinha?, era negra, não era dali, não ia me olhar de modo estranho” (Rezende, 2014, p. 98, grifos meus). Aos poucos, se torna alguém em quem “ninguém reparava” (Rezende, 2014, p. 99).
Novamente, a narração não segue por caminhos simples e óbvios e Alice se mostra cada vez mais complexa enquanto personagem, uma vez que há intersecções sobrepostas na sua vivência já que não se trata apenas de ser não-branca, mas sim, uma personagem não-branca, nordestina, no sul do país, em situação de rua. Após chegar à Vila Maria Degolada, outro incômodo e compreensão, Alice entende melhor o que significava ser uma “brasileirinha”:
Eu, confundida de todo, querendo explicar que era Paraíba, nada a ver com Recife, Fortaleza, Bahia, Minas, que Cícero era brasileirinha feito eu, que trabalhava em obra de construção, mas foi inútil, Pois então, não é isso mesmo, de lá? “Lá” parecia ser um vago território homogêneo que cobria tudo o que fica acima do Trópico de Capricórnio. E voltavam a citar, falando todas ao mesmo tempo, todos os casos que conheciam ou tinham ouvido falar de mães agoniadas e filhos perdidos. Toda mãe é uma sofredora! Veio a Baiana. Era do Piauí e não conhecia nenhum Cícero (Rezende, 2014, p. 110-111, grifos meus).
O discurso da narradora de Quarenta dias (2014) revela que o nordeste brasileiro neste contexto é sempre um outro, um local distante, um “lá”, longe, portanto, de um “aqui” de onde se pronunciam tais discursos pelas personagens sulistas, também assimilado pelas próprias personagens nordestinas em deslocamento. O “aqui” também cumpre um ideal de uma perfeita harmonia em oposição ao “lá”, qual pronome demonstrativo que pode tanto indicar uma distância real, geográfica em relação àquele ou àquela sobre quem se fala, mas, sobretudo, uma distância ideológica, que aparta o sujeito discursivo da coisa sobre a qual se fala. Em síntese, uma demarcação linguística entre o corpo-sujeito e o corpo-abjeto que marca uma diferença abissal entre ambos, reforçando o que já postulei anteriormente: a linguagem age sobre a realidade que supostamente apenas registra.
O Nordeste, e por extensão o nordestino e a nordestina, povoam o imaginário sulista urbano como um amálgama que converge a seca, a pobreza, a exploração, a imigração forçada, mas também o perigo, o sujo, aquilo de que se deve escapar:
Os tipos ‘nordestinos’ do pau-de-arara, do coronel, do cangaceiro, do jagunço faziam parte da coleção de tipos que a chanchada agenciava dos programas de humor de rádio e levava para a tela, já na década de quarenta. O nordestino se aproxima muito da imagem do matuto ou do caipira. Ele é sempre mostrado como a inversão da figura do citadino, do grão-fino, do bem-educado, do civilizado, do polido. Ele é a negação da figura cosmopolita, porque atesta a nossa pobreza física e mental. Era sempre uma figura de gestos, comportamentos, valores e falas disparatadas com o mundo urbano, com o glamour do mundo burguês, era o símbolo da precariedade nacional (Albuquerque Júnior, 2011, p. 297, grifos do autor).
Como pontua Albuquerque Júnior (2011), o sujeito nordestino no discurso nacional é representado como o oposto da figura cosmopolita, metropolitana, bem educada e citadina que o sulista parece querer representar, como nos mostra o romance de Maria Valéria Rezende (2014). Nesse ponto, a aproximação com Kristeva (1982) é novamente pertinente, pois, no tecido social, a abjeção reside nas formas como a sociedade adere a certos mecanismos e/ou rituais de segregação, delimitação de espaços e cria corpos desprezíveis, dos quais pretende apartar-se, diferenciar-se. Corpos, em síntese, que precisam ser lidos como “precariedade nacional” para que o “eu” discursivo seja o seu inverso.
Na procura por Cícero Araújo, Alice conhece a realidade de outros nordestinos, como ela, que não têm moradia certa, que viajaram em busca de melhores condições de vida, porém, vivem em alojamentos, com trabalhos precários, “sabe como é, esse povo, vai de obra em obra” (Rezende, 2014, p. 132), perdem a própria identidade e assumem apenas apelidos que remetem às suas origens, pelos quais são conhecidos, e que retornam aos alojamentos após um exaustivo dia de trabalho, como se se resumissem a sua função laboral. Talvez, no sul do país, de fato, sejam apenas isso: um corpo a ser explorado em trabalhos rejeitados pelos sujeitos sulistas.
Alice aprende a deslocar-se pelas ruas de Porto Alegre, a fazer uso dos espaços urbanos conforme as suas necessidades, como lavar as roupas no banheiro da rodoviária, onde também toma banho, e levá-las para secar em uma praça, debaixo de uma árvore, onde pode descansar.
É nesses espaços que passa a compor o cenário urbano, uma espécie de pano de fundo, estático, por onde transitam os verdadeiros donos do espaço, os quais ignoram personagens como Alice, na medida em que não as reconhecem como semelhantes, mas como corpos inferiores, “sem casa”, verdadeiros “coitadinhos”:
Acordaram-me uma risada e alguma coisa úmida tocando meu tornozelo. Um cachorrinho lambia insistentemente a faixa nua entre a meia e a barra da calça na minha perna esquerda. Na outra ponta da corrente presa à coleira do bicho estava a menina loura, não mais de sete anos, Vamos, Einstein, não faz isso, deixa a pobre dormir, coitadinha, que ela não tem casa!, mais adiante uma avó, só podia ser, ainda bem aprumada mas a cabeça honestamente grisalha, seria avó profissional, como eu estava fadada a ser?, por gosto?, ou também a contragosto?, Vem, Raquel, se não tu vais te atrasar pra escola.
Aquele “ela não tem casa” ficou ecoando no meu ouvido. Estava mesmo sem teto, a minha casa tinha sido desmanchada lá em João Pessoa, uma espécie de vergonha misturada com coragem (Rezende, 2014, p. 164-165, grifos meus).
As personagens que, como Alice, vivem em extrema vulnerabilidade, são invisibilizadas e tratadas como corpos sem existência plena, culpados exclusiva e individualmente de suas condições. Assumem uma presença fantasmagórica no espaço urbano, percebidas como sujeitos “sujos” que poluem simbolicamente a cidade. Sua circulação é tolerada apenas em posições de servidão; fora disso, são empurradas para espaços marginalizados, reforçando sua condição de corpos abjetos, situados na fronteira do que é considerado socialmente aceitável.
Aqui chama a atenção que Alice lance um olhar questionador à avó profissional, de cabelos “honestamente” brancos. Há nela também um olhar de estranhamento e inquisidor, em certa medida, por ser aquela personagem, passeando com a neta e o cachorro, o que a própria Alice quase se transformou. É, assim, um dos poucos momentos da narrativa em que ocorre uma inversão e é a nordestina quem olha, mesmo de sua subalternidade, questionando, quase reprovando o que vê.
Em diversas sequências, a protagonista experimenta o mesmo desprezo nos discursos, nos gestos, no olhar, ao ser ignorada, confrontada, repelida, impedida de transitar e/ou permanecer nos espaços públicos.
Ele remexia em alguma coisa, de costas pra mim. Ao meu chamado, deu uma olhada por cima do ombro e voltou a me dar as costas. Insisti, ele veio de má vontade. Àquela hora, além de brasileirinha, despenteada, os olhos decerto inchados de sono, a roupa amassada e malposta, eu podia muito bem parecer-lhe uma esmoler. Perguntei pela padaria, outra vez o olhar estranho, pôs a cabeça pra fora da janelinha pra me olhar melhor, de cima a baixo. Desta vez, Barbie, juro que não inventei, ele fez isso ostensivamente. Repeti minha pergunta, Não conheço esse bairro, por favor... finalmente respondeu Tu segue por ali, vira pra lá, duas quadras... e deu-me de novo as costas sem querer saber se eu tinha entendido (Rezende, 2014, p. 159, grifos meus).
Retomando o conceito de abjeção, de Kristeva (1982), essas duas cenas exemplificam como, no romance, os marcadores sociais da diferença tornam-se a marca indelével daquilo que se tem como repulsivo. A abjeção, portanto, é um mecanismo psíquico, mas que se inscreve no tecido social, funcionando como tecnologia de exclusão social, real.
Ao articular essa perspectiva com a análise de Mbembe (2018) sobre necropolítica, amplia-se a compreensão desse fenômeno, pois entende-se que a abjeção vai além da repulsa: torna-se uma política de gestão da vida e da morte. Se, para Kristeva, o corpo abjeto é aquele que ameaça os limites do eu e da ordem social, para Mbembe (2018), esse corpo ultrapassa a condição de excluído e se torna descartável, uma vida sobre a qual se exerce um poder soberano de decidir quem pode sobreviver sob condições de morte social permanente e quem pode - ou deve - morrer.
No romance Quarenta Dias (2014), essa lógica se materializa na forma como a protagonista e os demais sujeitos em situação de rua são percebidos no espaço urbano: são corpos que não apenas geram repulsa e incômodo - na lógica da abjeção -, mas que também são geridos pela cidade como excesso, como sobra humana, como vidas que não importam. A rua, nesse sentido, não é apenas um lugar de circulação, mas um território de exposição à morte simbólica, social e, potencialmente, física, evidenciando a articulação entre os regimes de abjeção (Kristeva) e de necropolítica (Mbembe) na produção e manutenção da marginalização.
Posteriormente, Alice conhece outra personagem com a qual dialoga sobre a sua experiência de imigrante e moradora de rua, afinal de contas, “eu já devia parecer uma inegável moradora de rua. E não era, Barbie? Ainda não tinha me dado conta, mas já era, sim” (Rezende, 2014, p.195). Lola compõe um perfil que provocará com que Alice confronte a própria realidade:
Tu é nova por aqui, veio de onde? Tão acostumada a essa pergunta, respondi Da Paraíba antes mesmo de levantar os olhos do livro e dar com a figura que se achegava um pouco mais. A mulher era bem mais velha que eu, à primeira vista parecia gorda, de tanta roupa vestida, uma por cima da outra, mas bastava reparar melhor no rosto, nos pulsos e mãos descarnados, nas canelas finas aparecendo por baixo das muitas saias pra ver o engano. Era uma ruína, pobrezinha, pensei, até encará-la e perceber o brilho vivo, curioso e esperto dos olhos azuis, inacreditavelmente limpos e vivos, o azul, azul, o branco, perfeitamente branco. Ela estava muito viva e limpa, cheirando a sabão, apesar de tantas camadas de roupa. Pra viver na rua, veio de tão longe? Eu não vivo na rua, estou só passando. Ela observou, com expressão descrente, meus trajes, por fora já enxovalhados, meus cabelos arrepiados, a mochilinha entupida, as peças quase secas estendidas ao meu lado, Ah, não vive na rua, não? Um risinho, mais nos olhos que na boca desdentada, acentuava o tom de mangação da pergunta (Rezende, 2014, p. 195-196, grifos meus).
À Lola, Alice conta a sua história, ainda incomodada de ser confundida com uma moradora de rua. No presente da escrita de seus diários, a narradora é capaz de reconhecer que, naquele momento, encontrava-se em um estado de negação. Contudo, já havia, de fato, assumido a condição e a postura de uma pessoa em situação de rua, especialmente após decidir evadir-se e lançar-se pelas ruas de Porto Alegre, adotando a perspectiva de uma flâneuse. É relevante destacar, ainda, como Alice, inicialmente posicionada a partir de um lugar de classe média, hesita em reconhecer-se como parte do cenário de marginalização e miserabilidade que observa e sobre o qual reflete.
Lola, como uma espécie de duplo de Alice, também tem uma residência para a qual retornar, e na qual abrigará a protagonista, e a acompanhará pelas ruas, pois “andar com Lola dava-me direitos de cidadania pelas ruas, assimilavam-me como uma a mais entre eles, e eram tantos!, aves migrantes de todas as espécies” (Rezende, 2014, p. 237-238).
Cabe a Lola encerrar as “agora esparsas errâncias em nome da mãe de Cícero” (Rezende, 2014, p. 241), após Alice confrontar uma face ainda mais brutal da violência urbana que recai sobre sujeitos em situação de vulnerabilidade social, como ela:
O medo crescendo, movi um pouco o celular pra encontrar caminho, desviar do sangue e sair logo dali. O que vi foi mais sangue, tive a certeza de que era mesmo, traçando um rastro que descia em diagonal e entrava pelo mato. Não, Barbie, não desviei nem corri pra baixo, pra longe dali, como seria natural. Não sei o que me deu: esquecida do medo, segui o rastro como se fosse puxada por alguém me pedindo socorro e fui, entrei no mato, movendo o foco da luz que já enfraquecia, procurei, nem sabia o quê, achei um celular caído no meio do capim alto, apanhei-o sem pensar e enfiei no bolso da calça, avancei mais um pouco até dar com a luz bem na cara de um homem ainda jovem, os olhos esbugalhados, os braços abertos em cruz, e a poça de sangue já seco, escorrido de um buraco num lado do pescoço dele, mortinho da silva. Não, ele não podia mais pedir socorro, nem eu, muito menos, não podia fazer nada por ele, mas não era capaz de deixar o coitado ali sozinho, fiquei lá, coisas malucas passando pela minha cabeça, até mesmo a ideia de que tinha, afinal, achado Cícero e como era que eu ia dizer aquilo à mãe dele?... Uma vontade de chorar... Até que a bateria do meu celular descarregou de vez e o morto sumiu na treva. Então, sim, o medo voltou pra valer, não do morto, coitado, mas dos vivos que a escuridão à volta podia esconder, de quem tinha matado Cícero, que era negro e não era Cícero, ou da polícia me achar ali e me levar como assassina (Rezende, 2014, p.241-242).
Alice, ao encontrar o corpo de um jovem negro morto, diante da cena experimenta não apenas o horror da morte, mas o medo do que essa morte significa no contexto em que está inserida, um medo “não do morto, coitado, mas dos vivos que a escuridão à volta podia esconder, de quem tinha matado Cícero, que era negro e não era Cícero, ou da polícia me achar ali e me levar como assassina” (Rezende, 2014, p. 242). A protagonista teme tanto os autores da violência quanto o próprio aparato policial, revelando como os corpos racializados são alvos potenciais tanto da violência letal quanto da criminalização.
O corpo negro morto no mato, anônimo e esquecido, materializa a lógica da necropolítica: vidas que não importam, que não são lamentadas, que desaparecem na escuridão sem justiça ou memória. Alice, ao tentar humanizar essa morte e se recusar a abandoná-la de imediato, rompe momentaneamente com essa lógica, mas sua impotência diante da cena reafirma os limites do indivíduo frente à estrutura que define quem deve ser abandonado à morte.
Isto posto, o corpo exposto, podendo ser o de Cícero ou de tantos outros nordestinos imigrantes expostos à precariedade e ao abandono, evidencia a necropolítica em ação: corpos vulneráveis a riscos constantes, os quais os transformam em vidas descartáveis, submetidas a uma violência estrutural que torna a sobrevivência uma luta permanente e a morte violenta a última barreira da abjeção.
Os corpos-abjetos, é importante que se reitere sempre, existem na medida em que são alijados de direitos legítimos, portanto, estão para além dos limites discursivos e literários, posto que existem na vivência de sujeitos reais, de carne e osso, os quais sofrem em função de sua corporalidade, cor, sexualidade, origem e/ou identidades, dentre outros marcadores sociais da diferença. Assim, a linguagem aqui registra, aponta em sua direção, age sobre os seus corpos e determina a sua vivência subalternizada e explorada, aspectos que a produção de Maria Valéria Rezende (2014) habilmente explora com os diários de Alice.
Ainda que esteja “escondida ali, invisível entre os invisíveis” (Rezende, 2014, p. 150), Alice tem para onde retornar e, efetivamente, o faz, ao final da narrativa, e tem voz para contar a sua experiência, fala desde a sua perspectiva acerca do cotidiano daquelas personagens, as quais são silenciadas pelas circunstâncias sociais. A despeito do lugar subalternizado em função de sua origem e cor/raça e gênero, deve-se registrar que ocupa meios de deslocamentos que outros corpos similares não experimentam, para os quais sobra apenas a indiferença e a violência.
Maria Valéria Rezende (2014), assim, constrói uma narrativa que provoca um giro conceitual e narrativo em que as vozes historicamente silenciadas falam por si e expõem de maneira dura e, por vezes, até cruel, a realidade a que estão sujeitos corpos racializados e imigrantes. Em tempos de xenofobia e racismo explícitos, em que discursos antes considerados datados voltam à tona, Quarenta dias (2014) ocupa lugar de urgência como leitura contra-hegemônica e que denuncia a exclusão, a produção simbólica e material dos corpos-abjeto e que, por fim, podem ser excluídos seja simbolicamente ou seja materialmente, com a morte.
Considerações finais
Quarenta dias (2014), de Maria Valéria Rezende, apresenta uma narrativa profundamente crítica que desestabiliza o discurso hegemônico acerca do sujeito nordestino, com ênfase na mulher nordestina imigrante. Ao idealizar uma protagonista que experiencia a condição de corpo-abjeto (Kristeva, 1982), a obra revela os mecanismos sociais responsáveis pela exclusão, invisibilização e descarte de vidas marginalizadas. A trajetória de Alice, ao migrar de forma definitiva para o Sul e viver nas ruas, promove uma imersão que potencializa sua percepção sensível e crítica diante das múltiplas formas de opressão enfrentadas por corpos racializados, empobrecidos e não brancos, configurando-se como uma narrativa de resistência e denúncia dessas dinâmicas excludentes.
Articulando as reflexões de Julia Kristeva (1982) sobre a abjeção e de Achille Mbembe (2018) sobre a necropolítica, compreende-se que tais corpos são lançados à margem como resíduos sociais, alvos de políticas de morte simbólica e material. A literatura de Rezende (2014), ao dar visibilidade a essas figuras historicamente silenciadas, não apenas denuncia as tecnologias de exclusão, como também propõe uma outra forma de narrar o país, rompendo com o cânone estabelecido e promovendo um olhar mais plural e crítico sobre os atravessamentos entre raça, gênero, classe e território.
Por fim, ao deslocar-se e perambular pelos espaços segregados da capital sulista, Alice não apenas narra essa vivência, mas a compreende de modo mais profundo, mesmo partindo de um lugar atravessado por certos privilégios. Sua experiência permite-lhe acessar, de forma sensível e crítica, os entraves impostos aos corpos considerados abjetos. Ao assumir a palavra, Alice ainda abala a hierarquia discursiva predominante na literatura contemporânea, oferecendo um olhar outro, raramente contemplado no centro dos debates literários canônicos. Assim, a obra de Maria Valéria Rezende (2014) contribui para o debate sobre gênero, raça, classe e território, valorizando subjetividades e questionando o discurso social dominante, impondo-nos a leitura de vozes outras.
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Referências
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» https://www.scielo.br/j/ref/a/6mqnxg3cxZvgnMFH6q3F6vP/ - VELOSO, Caetano (2017). Verdade tropical. São Paulo: Companhia das Letras .
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1
A esse respeito, indico Stoll (2020).
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2
Entenda-se por necropolítica, a partir das postulações do professor camaronense Achille Mbembe, o controle sobre quem pode viver e quem deve morrer, gestão de vidas descartáveis sob lógicas coloniais, raciais e econômicas.
