Open-access 100 páginas por dia: Bookstagram, BookTube e as formas de condução da conduta leitora na contemporaneidade

100 pages a day: Bookstagram, BookTube and the ways of conducting reader behavior in contemporary times

100 páginas al día: Bookstagram, BookTube y las formas de conducir el comportamiento lector en la época contemporánea

Resumo

Este artigo objetiva analisar algumas formas de condução da conduta leitora na contemporaneidade, tomando por base os discursos que circulam nos perfis e canais de quatro influenciadores literários de grande destaque no Brasil. Os dados, provenientes da observação silenciosa (lurking) em perfis de Bookstagram e canais de BookTube, foram escrutinados com inspiração na análise do discurso foucaultiana. Ancora-se, em termos teóricos, nas lentes conceituais dos estudos foucaultianos e dos Estudos Culturais, especialmente a partir das noções de pedagogias culturais e de governamento. As análises empreendidas indicam que os sujeitos são conduzidos a uma prática de leitura diária e organizada, para isso definindo metas de leitura, utilizando aplicativos de controle e estabelecendo cronogramas. Os discursos conduzem os sujeitos a formas específicas de ser leitor, emergindo daí um leitor endividado, empresário de si, estatístico de si e disciplinado. Nessas formas de ser leitor podem ser observadas relações com os princípios da racionalidade neoliberal e com as práticas escolares.

Palavras-chave:
práticas de leitura; mídias sociais; governamento; pedagogias culturais

Abstract

This article aims to analyze some ways of conducting reading behavior in contemporary times, based on the speeches that circulate in the profiles and channels of four highly prominent literary influencers in Brazil. The data, coming from lurking on Bookstagram profiles and BookTube channels, was scrutinized with inspiration from Foucauldian discourse analysis. It is anchored, in theoretical terms, in the conceptual lenses of Foucauldian studies and Cultural Studies, especially based on the notions of cultural pedagogies and government. The analyzes carried out indicate that the subjects are led to a daily and organized reading practice, defining reading goals, using control applications and establishing schedules. The speeches lead the subjects to specific ways of being a reader, resulting in an indebted reader, a self-entrepreneur, a self-statistician and disciplined. In these ways of being a reader, relationships can be observed with the principles of neoliberal rationality and with school practices.

Keywords:
reading practices; social media; government; cultural pedagogies

Resumen

Este artículo tiene como objetivo analizar algunas formas de conducir el comportamiento lector en la época contemporánea, a partir de los discursos que circulan en los perfiles y canales de cuatro influencers literarios de gran relevancia en Brasil. Los datos, provenientes de la observación silenciosa (al acecho) en los perfiles de Bookstagram y los canales de BookTube, fueron examinados inspirándose en el análisis del discurso foucaultiano. Está anclado, en términos teóricos, en las lentes conceptuales de los estudios foucaultianos y los estudios culturales, especialmente basados en las nociones de pedagogías culturales y gobiernamiento. Los análisis realizados indican que los sujetos son conducidos a una práctica lectora diaria y organizada, definiendo objetivos de lectura, utilizando aplicaciones de control y estableciendo horarios. Los discursos conducen a los sujetos a formas específicas de ser lector, resultando en un lector endeudado, um autoemprendedor, un autoestadístico y disciplinado. En estas formas de ser lector se pueden observar relaciones con los principios de la racionalidad neoliberal y con las prácticas escolares.

Palabras-clave:
prácticas de lectura; redes sociales; gobiernamiento; pedagogías culturales

Não tenho números suficientes para descrever como me senti feliz com a decisão. Nesse dia, à noite, ao jantar, levantei-me e declarei: Gostava de ter um poeta. Podemos comprar um?

A mãe não disse nada, limitou-se a levantar a louça, quatro pratos de sopa, quatro colheres de sopa e informar os comensais, eu e o pai e o meu irmão, de que a carne seria servida de seguida, dentro de trinta segundos. O pai acabou de mastigar um bocado de pão, cerca de treze gramas, moveu os maxilares cinco vezes e inquiriu

Porque não um artista? A mãe disse:

Nem pensar, fazem muita porcaria [...]

Muito bem, disse o pai, compramos um poeta. De que tamanho? [...]

Dddffghhhhhg, disse o poeta, ou seja, qualquer coisa como sete rosas mais tarde (gostei deste porque era composto por um número, ainda que de baixo valor, abaixo da dezena).

[...]

Percebi que estava cada vez mais inutilista e que pensava em coisas só pela sua beleza e não queria saber do seu valor monetário ou instrumental.

Afonso Cruz

1.047 Palavras iniciais: uma introdução

No livro Vamos comprar um poeta, o autor português Afonso Cruz desenha um mundo distópico em que as famílias compram poetas em vez de (ou como se fossem) animais de estimação. Assim, compõe-se uma reflexão profunda sobre o utilitarismo e materialismo que marcam aquele mundo (e o nosso também), em que tudo deve ter uma utilidade imediata e quantificável.

O espaço analisado nesta investigação, embora tenha como pauta um elemento “inútil” (Azevedo, 1999; Ordine, 2016), a literatura, por vezes tende a esse culto aos números. É com base nesse achado de pesquisa que foi composto o título deste artigo e desta introdução.

Na atualidade, as mídias sociais têm sido palco de compartilhamento de experiências diversas, ao passo que usuários com interesses em comum têm se agrupado em nichos; um exemplo disso é o BookTube e o Bookstagram, resultado da junção da palavra book (livro, em inglês) e os nomes das mídias sociais, respectivamente, YouTube e Instagram. Liderados por sujeitos que serão doravante denominados como influenciadores literários e acompanhados por outros usuários dessas mídias (daqui para a frente denominados seguidores), esses espaços voltam-se à produção e ao compartilhamento de conteúdo sobre leitura, tais como: resenhas de obras; exposição de estantes e de livros; publicidade e sorteios; leituras conjuntas com os seguidores; desafios literários; listas de livros de acordo com temáticas específicas, entre outros.

Se a literatura antes era mais restrita às práticas institucionalizadas - das quais as escolares são as principais avalizadoras do caráter literário e da qualidade das obras (Lajolo, 2018) - na atualidade estão se multiplicando as práticas pós-institucionalizadas. Tais práticas descentralizam o poder sobre a literatura, abrindo espaços alternativos às instâncias tradicionais de legitimação do literário. Igualmente, essas práticas empoderam o leitor comum, fazendo surgir, conforme Chartier (1998, p. 17), um “novo crítico”: papel que pode ser desempenhado por qualquer sujeito, uma vez que, “cada leitor dispõe de uma legitimidade própria, do direito a um julgamento pessoal”, mesmo fora daquelas instâncias tradicionais.

Nesse sentido, entende-se que os discursos multiplicados nos espaços dedicados à leitura nas mídias sociais registram uma história do presente das práticas de leitura. Nesses locais, estabelecem-se as pedagogias culturais e as pedagogias do presente, que configuram, respectivamente, os processos educativos que acontecem fora dos espaços institucionalizados e as formas de condução de conduta que visam forjar os sujeitos deste tempo (Camozzato, 2014). Sendo assim, os discursos ali presentes educam e produzem formas específicas de ser leitor na atualidade.

Diante desse cenário, este artigo tem por objetivo analisar algumas formas de condução da conduta leitora na contemporaneidade, tomando por base os discursos que circulam nos perfis e canais de quatro influenciadores literários de grande destaque no Brasil. Este artigo é fruto de uma investigação de doutorado, cujos dados foram obtidos a partir de pesquisa etnográfica que utilizou como ferramenta a observação silenciosa (lurking) em perfis do Instagram e canais do YouTube de quatro influenciadores literários. A prática de lurking (“à espreita”, em inglês) é definida por Fragoso, Recuero e Amaral (2011, p. 234) como “Ato de entrar em listas de discussão, fóruns, comunidades online etc. apenas como observador, sem nenhuma participação ativa”. Os elementos analisados foram as postagens e os vídeos elaborados pelos influenciadores e os comentários escritos por seus seguidores.1

Os perfis/canais analisados têm caráter público, ou seja, os influenciadores optaram pelo livre acesso aos seus conteúdos. Esses sujeitos começaram a produzir conteúdo nas mídias sociais entre 2007 e 2017, ao passo que alguns deles hoje dedicam-se exclusivamente a esse fim. São três mulheres e um homem, brasileiros, entre 30 e 41 anos de idade, e com formação em nível de graduação e, alguns, também pós-graduação. Possuem milhares de seguidores, majoritariamente mulheres brasileiras entre 25 e 34 anos. Por questões éticas, optou-se pela não identificação dos sujeitos e pela troca dos nomes dos influenciadores por cores (verde, azul, amarela e laranja).

As análises empreendidas inspiram-se na análise do discurso foucaultiana, opção metodológica alicerçada no objetivo do texto, que focaliza a questão da condução de conduta, ou seja, as práticas de governamento. Fazendo relações conceituais, as práticas de governamento são movimentos de condução de condutas que se constituem em formas de exercer poder, operando por meio da linguagem, dos discursos e de enunciados que circulam na sociedade. Partindo da noção de discurso enquanto “Práticas que formam sistematicamente os objetos de que falam” (Foucault, 2012, p. 60), é também a partir dele que serão constituídas determinadas formas-sujeito (subjetivações), “que vão se produzir e traduzir em comportamentos, costumes, ações, a serem orientadas, guiadas, controladas” (Bello; Régnier; Sperrhake, 2014, p. 206). Ou seja, os discursos sobre leitura que circulam nos espaços analisados não somente descrevem um determinado ato de ler; eles também criam realidades possíveis, instituem práticas, produzem efeitos de verdade sobre como ler e ser leitor na contemporaneidade.

Além das lentes conceituais foucaultianas, também foram utilizadas noções provenientes dos Estudos Culturais, como o já mencionado conceito de pedagogias culturais, entendido como a pluralidade “de processos educativos em curso, para além daqueles que têm lugar em instituições historicamente vinculadas a ações de educar (como é o caso da escola, da família, da igreja etc.)” (Wortmann; Costa; Silveira, 2015, p. 37). Sendo assim, parte-se de uma compreensão de que diferentes espaços e sujeitos podem também educar (ou conduzir condutas), visando a formação de determinadas formas-sujeito.

Condução da conduta leitora: uma análise dos discursos

A partir do movimento de observação dos perfis e canais que são lócus desta pesquisa, foi possível compreender algumas formas de condução da conduta leitora, por meio das práticas discursivas presentes nesses espaços. Foram rastreadas conduções que induzem a uma leitura diária e organizada, para isso definindo metas de leitura, utilizando aplicativos de controle e estabelecendo cronogramas. São esses aspectos que serão detalhados a seguir.

A importância da leitura diária é tematizada pelo influenciador verde:

Bati a meta dos 50 livros para 2017! Como? Muitas pessoas vêm me perguntar como eu consigo compatibilizar um bom ritmo de leitura com uma rotina tão corrida. O que eu estou mais acostumado a ouvir é: “não tenho tempo para ler” ou “quando começo a ler, eu durmo na primeira página”. De fato, não dá para negar que, depois de um longo dia de trabalho, ler um livro pode parecer cansativo. No entanto, a resposta é justamente o hábito da leitura DIÁRIA! Sim, o segredo é ler sempre, todos os dias, e desenvolver esse hábito. E se você me disser que chega em casa exausto e só quer dormir, então eu te desafio a ler ao menos 2 páginas do livro. Só 2 páginas!!! Isso porque, sem esse hábito da leitura diária, você começa um livro e, depois de alguns dias sem ler, vencido pelo cansaço, acaba perdendo o fio da meada, deixando a leitura de lado e já acha que a leitura não é para você. Não estou falando que você precisa ler 20, 30 ou 50 livros em um ano. A quantidade não é o importante, mas sim o hábito da leitura diária! Com o tempo, você percebe que o ritmo acaba aumentando. Apenas para vocês terem uma noção, em 2016 eu li 28 livros e, em 2017, já passei dos 50. E não é que minha rotina de trabalho ficou mais tranquila (pelo contrário!), mas apenas o hábito da leitura que acabou se fortalecendo! Além disso, esse hábito melhora a qualidade do sono: quando chego do trabalho, com a cabeça funcionando a mil, a leitura acaba mudando o foco dos meus pensamentos e eu acabo relaxando. Fecho o livro e já durmo logo em seguida! Portanto, fica a dica: a resposta é o hábito da leitura diária! Pode marcar aqui aquele seu amigo que dá sempre a mesma desculpa para não ler...

(Influenciador verde, 2017, cópia de escrita).

A discussão sobre o hábito de leitura dos brasileiros, que envolve certamente uma prática diária (ou ao menos com alguma determinada recorrência), retorna de tempos em tempos ao discurso midiático, que, apoiado nas estatísticas, com frequência produz afirmações como esta: “É possível perceber, a partir dos dados divulgados, que os brasileiros não têm a leitura como uma prática diária e cotidiana em suas vidas” (Os hábitos..., 2021). Chamadas como esta também são comuns: “No Brasil, 44% da população não lê e 30% nunca comprou um livro” (Paz, 2022, não paginado). Aqui foram escolhidas duas notícias atuais, mas é só “dar um Google” (expressão corriqueira que designa fazer uma busca na internet) para ver inúmeras outras notícias, mais antigas, que encabeçam títulos que desejam descobrir “Por que o brasileiro lê pouco?” (Brasileiro..., 2004; Ceregato, 2016; Foster, 2015; Soeiro, 2010). É talvez apoiada no discurso midiático que uma seguidora lê aquele relato sobre a leitura diária do influenciador verde e afirma o seguinte:

Concordo demais com suas palavras. Sinto que meu raciocínio está melhor, assim como a minha capacidade de articulação. O que o nosso país precisa é de leitores (Comentário de seguidora do influenciador verde, 2017).

Se ler é verbo transitivo, ou seja, exige um complemento (Soares, 2008), qual é essa leitura que está sendo colocada em jogo quando se fala que o Brasil precisa de leitores? Em 2013, Chartier disse em uma entrevista que “nunca se leu tanto como agora: a sociedade contemporânea lê muito mais que a mesopotâmica, por exemplo. Lemos diferentes tipos de textos a todo momento” (Chartier, 2013). O historiador faz essa afirmação observando o fenômeno de expansão das tecnologias digitais. O Brasil ocupa o segundo lugar no ranking de tempo gasto em mídias sociais (Kemp, 2023) e tem altos índices de acesso à internet, condições que implicam um número considerável de leituras, que perpassam o texto visual, sem dúvida, mas que também englobam o texto verbal. Em função disso, o comentário de um seguidor da influenciadora azul pode ser questionável:

hoje tenho lido muito pouco por causa da internet (Comentário de seguidor da influenciadora azul, 2013).

É preciso diferenciar qual é o tipo de leitura que está sendo colocado em evidência e que, segundo as estatísticas, carece de leitores. Segundo Chartier (2002), um dos problemas da pesquisa “Retratos da Leitura” é considerar como leitor aquele que leu determinada quantidade de livros em certo tempo, tendo em vista que essa concepção reduz o conceito de leitor a quem lê em um único suporte. Podemos também refletir sobre o caráter histórico desse conceito, uma vez que, se o leitor “é aquele que leu, inteiro ou em partes, pelo menos 1 livro nos últimos 3 meses” (Failla, 2021, p. 174), com regularidade, isso pode significar quatro livros (inteiros ou em partes) em um ano. Se, no passado, dominava a leitura intensiva (Chartier, 2001), ou seja, ler e reler um número restrito de textos (muitas vezes não inscritos no suporte livro), com base no conceito em questão, alguns leitores do passado não podem ser considerados leitores no presente.

Justamente são os dados estatísticos oriundos daquela concepção restrita de leitor que são apropriados pela mídia e tomados como dizer verdadeiro sobre as práticas de leitura dos brasileiros. Com isso, não estamos afirmando que as estatísticas são distorcidas ou que não devem ser utilizadas, mas sim que devem ser tomadas com maior cuidado, entendidas mais como representações do que como retratos da realidade.

O saber estatístico - relacionado à alfabetização, ao analfabetismo e ao alfabetismo/letramento - é analisado por Sperrhake (2013, p. 113). Segundo a autora, ele “opera como um dizer verdadeiro [...] que é capaz de produzir saberes que posicionam os sujeitos quando da sua relação com a leitura e a escrita”. Ele é um saber necessário para as práticas de governamento da população, uma vez que é preciso quantificar e conhecer para melhor governar (Bello; Traversini, 2009). Além disso, as práticas de quantificação e classificação de sujeitos que envolvem a estatística contribuem para a invenção de tipos de pessoas. É nessa direção que Hacking (2009, p. 115) aponta “a influência da estatística sobre os modos como as pessoas são entendidas, governadas e veem a si mesmas”.

Portanto, as estatísticas são úteis para conhecer a população de leitores - principalmente os desviantes, aqui os não-leitores, em uma produção da noção de “risco” (Traversini, 2003) - para que se possa agir sobre eles, visando a conduzir sua conduta para uma vida de leitura. Ao mesmo tempo, os números fazem emergir um determinado tipo de leitor, neste caso, majoritariamente, um não-leitor de livros. Talvez assombrados por essa “identidade de não-leitores” historicamente atribuída aos brasileiros, vários deles passam a ler diariamente e a produzir suas próprias metas de leitura como forma de mudar seu posicionamento para a “fatia” dos efetivamente leitores.

Voltando ao comentário da seguidora do influenciador verde, também vemos que ela cita alguns benefícios da leitura, relatando impactos em seu raciocínio e capacidade de articulação. Essas consequências podem ser consideradas “efeitos colaterais” da leitura literária, ou seja, que acontecem sem que seja seu objetivo. Por isso, deve-se ter cuidado para não cair no utilitarismo, uma vez que

A literatura [...] é uma arte (em oposição à ciência) feita de palavras; [...] tem motivação estética (ou seja, em princípio não tem utilidade fora buscar o belo, o poético, o lúdico e o prazer do leitor); não é, portanto, utilitária (é “inútil” no sentido de que, objetivamente falando, não serve para nada, nem pretende ensinar nada) (Azevedo, 1999, p. 5).

Naquele relato do influenciador verde - “bati a meta dos 50 livros para 2017!” -, ele começa falando sobre essa meta de leitura que foi batida e afirma que o caminho para isso foi a constância: ele lia diariamente. Mesmo afirmando que os sujeitos não precisam ler um número determinado de livros por ano, ele inicia o relato mencionando uma meta alcançada e, na sequência, fala sobre o contraste de quantidade de livros lidos de 2016 para 2017, o que traz um ponto de contradição. Se a quantidade não é importante, como ele mesmo aponta, por que os números são constantemente convocados a falar sobre a leitura?

A quantificação é uma recorrência que pode ser visualizada quando os influenciadores pontuam nos registros, como “25/2022”, por exemplo, indicando que aquele livro é o vigésimo quinto lido no ano de 2022. Em alguns casos, eles mostram, em fotos, a pilha de livros lidos no ano corrente, às vezes comparando-a com a pilha do ano anterior, com vistas a demonstrar um contraste que indicaria a consolidação do hábito de leitura ou o aumento no rendimento leitor.

Com essas quantificações, os influenciadores desejam, além de expor suas métricas pessoais, motivar seus seguidores/inscritos para que leiam mais. Esse é um propósito que pode ser visto de forma ambivalente: como benéfico para a formação de leitores e como maneira de atender ao enunciado de que “o brasileiro lê pouco”, que, como visto anteriormente, é replicado ad infinitum nas mídias, que se valem das estatísticas para isso. Da mesma forma, há, nesses casos, uma tendência à performatividade, entendida como

uma tecnologia, uma cultura e um modo de regulação que se serve de críticas, comparações e exposições como meios de controlo, atrito e mudança. Os desempenhos (de sujeitos individuais ou organizações) servem como medidas de produtividade e rendimento, ou mostras de “qualidade” ou ainda “momentos” de promoção ou inspecção. Significam, englobam e representam a validade, a qualidade ou valor de um indivíduo ou organização dentro de um determinado âmbito de julgamento/avaliação (Ball, 2002, p. 4).

Os números são, inegavelmente, instrumentos investidos de poder no governo dos sujeitos deste tempo (Rose, 1991). Por isso, a quantificação e a busca por resultados melhores no âmbito da leitura podem ser uma forma de controlar e conduzir os leitores, avaliando-os de acordo com seus desempenhos. É com base em uma conduta performativa, de desempenho como medida de produtividade determinante do significado dos sujeitos em um determinado contexto, que se produzem comentários como este:

também tenho essa meta de 100 páginas é algo sagrado, ontem li 250 e me senti o cara!!! (Comentário de seguidor da influenciadora azul, 2013).

Quem tem a meta de ler 100 páginas por dia, como menciona o seguidor, é a influenciadora azul, que, como o verde, propõe a organização da leitura a partir de metas diárias:

Então eu tenho essa meta, tenho que ler cem páginas num dia [...] Então, e aí é lógico que vai ter dias em que eu não vou conseguir ler essas cem páginas, aí que que eu faço, eu acumulo pro dia seguinte tá, então às vezes no dia seguinte também não dá tempo, então, sei lá, se faltar de um livro vinte páginas daquele dia, eu diluo essas 20 páginas no restante dos dias do mês e dou um jeito de cumprir minha meta. E cem páginas por dia não é muita coisa, estava lendo um livro do Umberto Eco, chamado [...] “Seis passeios pelos bosques da ficção” e nesse livro ele diz que ele lê em meia hora 50 páginas, já pensou que sensacional você conseguir ler 50 páginas em meia hora?! Já pensou quantos livros dá pra você ler na vida? Enfim, então minha meta de vida é ser o Umberto Eco! É uma boa meta, né?! (Influenciadora azul, 2013, transcrição de fala).

Gostaríamos de chamar a atenção para a conduta de “acumulação de páginas para o dia seguinte”. Lazzarato (2011) produziu a noção de homem endividado, um produto do neoliberalismo,2 em que o sujeito é “submetido a uma relação de poder credor-devedor que o acompanha durante toda a vida” (Lazzarato, 2015). Para o autor, a dívida seria uma técnica de governamento e controle das subjetividades, sejam elas individuais ou coletivas (Lazzarato, 2011). Aqui é possível fazer uma relação, refletindo sobre um leitor endividado, que cria uma dívida imaginária de leitura consigo mesmo, está sempre controlando-se e na busca por uma quitação de um débito que não tem fim. Ainda dentro da lógica neoliberal, um leitor empresário de si, “que faz um certo número de despesas de investimento para obter certa melhoria” (Foucault, 2008a, p. 317). Ou seja, investe na conduta de leitor endividado para ler mais, para aumentar sua bagagem de leituras. Investir em si é, para Foucault (2008a), uma estratégia que garante a presença do sujeito no jogo neoliberal, onde cada um é responsável pelo seu próprio sucesso (ou fracasso). O próprio léxico utilizado nesse contexto (como metas e rendimentos) remete a uma infiltração da ordem empresarial nas relações sociais e nas relações dos sujeitos com os objetos culturais.

Não somente os influenciadores, mas também os seguidores aderem às metas diárias e à lógica da acumulação do leitor endividado. Assim, passam a cronometrar quanto leem em determinado período de tempo e a calcular seus rendimentos:

Minha meta de leitura é 50 páginas por dia de segunda à sexta e 100 páginas aos finais de semana, haha! Se eu não consigo atingir a meta, acumulo pro dia seguinte. Eu percebi que com essas metas meu rendimento é muito melhor; pena que demorei muito para aderi-las rs (Comentário de seguidor da influenciadora azul, 2013).

Acho que leio umas 40 páginas em meia hora, mas só se estiver muuito imersa no livro. Vou tentar cronometrar essa semana (Comentário de seguidora da influenciadora azul, 2013).

Hoje fui contar quantas páginas eu consigo ler em 10 minutos e deu por volta de 10 à 12 páginas (Comentário de seguidora da influenciadora azul, 2013).

Poxa que legal estabelecer meta de leitura. Vou copiar sua sugestão (Comentário de seguidor da influenciadora azul, 2013).

Em resposta:

Adotei esse método e consegui aumentar em 30% o rendimento! Dá muito certo e os momentos passam bem rápido :) (Comentário de seguidor da influenciadora azul, 2013).

Tem-se, assim, um leitor estatístico de si: ele analisa e interpreta seus dados a partir do cálculo de suas médias de leitura e observação das variações de seus rendimentos, de acordo com diferentes métodos. A leitura, variável essencialmente qualitativa, passa a ser vigiada sob o viés quantitativo. Essa centralidade dos números pode ser observada também na prática de representação da experiência de leitura em números, ou seja, quando os influenciadores atribuem uma determinada nota às obras.

Assim como a influenciadora azul tem seu exemplo em Umberto Eco, há muitos seguidores que encontram modelos a serem seguidos nos influenciadores, como demonstra o comentário: “Eu estou tentando 100 páginas por semana e mesmo assim às vezes não dou conta. Mas meu objetivo é ser [a influenciadora azul]” (Comentário de seguidora da influenciadora azul, 2013). Endividados com a leitura e tentando performar de maneira semelhante, eles observam as estratégias adotadas pelos influenciadores, são capturados por esses discursos e passam a repensar sua prática, governando a si mesmos:

Gostei da ideia de ter uma meta de páginas para ler em um dia. Vou tentar estabelecer a minha para ver se eu consigo ler mais (Comentário de seguidor da influenciadora azul, setembro de 2013).

No âmbito da performatividade como modo de regulação que se serve de comparação (Ball, 2002), os leitores usam as exposições de métricas para comparar-se uns aos outros sob o princípio de competição, característico do mesmo neoliberalismo que produz o homem endividado. É justamente nessa atmosfera de competição que, observando a própria prática de leitura, há os que se frustram ao compararem suas métricas às dos influenciadores.

Em 1 hora eu leio 30 paginas, santa lerdesa (Comentário de seguidor da influenciadora azul, 2013).

eu leio 10 paginas por hora, sou lento pra caraca (Comentário de seguidor da influenciadora azul, 2013).

Hahaha, eu sou uma tartaruga para ler! descobri isso vendo este vídeo! (Comentário de seguidor da influenciadora azul, 2013).

não consigo ler nem sonhando 4 livros por mês [...] PRECISO aprender a ler mais rápido (Comentário de seguidora da influenciadora azul, 2013).

Eu leio umas 20-25 páginas por hora, não sabia que eu era tão lento (Comentário de seguidor da influenciadora azul, 2013).

Ao apontar suas métricas de leitura (“leio x páginas por dia”), o influenciador cria, mesmo sem essa intencionalidade, um conceito de leitor, tal qual a pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, anteriormente mencionada. Conduzidos por essas enunciações, os seguidores vão governando a si mesmos e construindo estratégias para chegar a esse conceito de leitor idealizado:

a minha [meta de leitura diária] era de 20 [páginas], mas agora acho que vou aumentar para 50 (Comentário de seguidora da influenciadora azul, setembro de 2013).

Há também aqueles que, não contentes com todas essas estratégias, pedem mais condução: Queria dicas de organização de tempo e rotina mesmo, para se debruçar a boas leituras! Momentos, horários e hábitos para se dedicar!

(Comentário de seguidor do influenciador verde, 2020).

Porém, se essas ideias seduzem e conduzem alguns leitores, outros se questionam:

Nunca consigo me identificar nesses cronogramas compartilhados ou nessas metas de gente que parece que só passa o dia lendo. Tem dias que não leio 10 páginas por dia porque preciso ler outros livros, artigos da faculdade, etc. Mas tb tento ler nem que seja um pouco do que coloquei na meta todo dia (Comentário de seguidora do influenciador verde, 2017).

eu, particularmente, leio quando eu to afim. Acredito que o que importa é apreciar a leitura, refletindo sobre as idéias e os sentimentos que o livro propõe ao leitor, não ler o máximo de páginas possíveis (Comentário de seguidor da influenciadora azul, 2013).

Eu já penso diferente quanto ao ponto de ler 50 páginas em 30 minutos, pois neste caso é quantidade e onde fica a qualidade da leitura? Eu quando leio preciso me concentrar ao máximo, preciso “viver” o livro tornando aquele momento especial em minha vida, desta forma, enquanto estou lendo, “saboreio” cada página, cada letra, cada frase (Comentário de seguidor da influenciadora azul, 2013).

tenho apenas uma meta: não tornar a leitura uma obrigação e sim in [um] prazer. Então, quando não quiser ler, não leio. Quando quiser, lei [leio]. O quanto? O quanto o interesse, minha vontade é [e] disposição permitem (Comentário de seguidor da influenciadora azul, 2013).

se a pessoa consegue ler 01 livro por dia e absorver o conteúdo...ok. Porém a maioria das pessoas não consegue... acredito que ler tem que ser uma atividade de nossa vida e não ocupar todo o nosso tempo, pois caso contrário passaremos toda nossa vida lendo histórias de outras pessoas e esquecendo de fazer nossa própria história neste mundo. ler é muito importante, mas tem que ser feito com calma e alegria (Comentário de seguidor da influenciadora azul, 2013).

Eu acho tão boba [bobo] quando as pessoas fazem essa comparação, “Nossa eu leio bem mais páginas em 30 minutos” isso é tão irrelevante! (Comentário de seguidor da influenciadora azul, 2013).

Esses sujeitos colocam-se em posição de contraconduta, entendida por Foucault (2008b, p. 266) como uma “luta contra os procedimentos postos em prática para conduzir os outros”. A ação de contraconduta não se dá pela violência ou pela quebra do elo com aquele que conduz, mas significa “a forma de uma população se conduzir sem obedecer ao condutor, mas também sem romper com ele; não se trata de ser contra uma conduta, mas sim de lutar para ser conduzido de outras formas” (Veiga-Neto; Lopes, 2012, p. 62). Os seguidores, ao questionarem a produtividade das metas, lutam para ser conduzidos a uma experiência em que o controle numérico de suas performances seja abandonado em prol de uma relação de maior liberdade no contato com os livros.

No contexto do vídeo em que a influenciadora azul fala que tenta ler 100 páginas por dia, ela está respondendo perguntas dos seguidores sobre seus hábitos de leitura. Na ocasião, a pergunta era sobre como ela fazia para ler tão rápido, questão que ela afirma receber quase todos os dias de seus seguidores. Salientamos que o referido vídeo está entre os dez mais assistidos do canal e conta com mais de 280 mil visualizações. Essa pergunta foi feita há quase dez anos à influenciadora azul, mas os questionamentos que envolvem os números de sua prática de leitura seguem sendo feitos a ela, a exemplo de duas perguntas feitas em 2022:

Tem uma noção de quanto livros já leu? (Pergunta de seguidor da influenciadora azul, 2022).

Resposta: Nunca contei. Sei que cês gostam dessas estatísticas, mas eu, mesma, não ligo (Quantos livros lidos? Quantos não lidos? Quantas páginas por dia? Quantas horas? - nada disso eu conto) (Influenciadora azul, 2022, cópia de escrita).

Quantas horas seguidas você consegue ficar lendo? (Pergunta de seguidor da influenciadora azul, 2022).

Resposta: Ó lá, vocês, com essas perguntas! Nunca contei, mas não devo passar de meia hora por... bloco de leitura, talvez? Acho que é mais ou menos isso (Influenciadora azul, 2022, cópia de escrita).

Se, em 2013, a influenciadora azul se sentia confortável em quantificar sua prática, em 2022, o cenário parece mudar. Porém, os seguidores continuam interessados nessas estatísticas, talvez como um meio de ter um parâmetro para conduzirem suas próprias práticas.

Com o tempo de exposição nas mídias, os influenciadores começam a dar-se conta dos possíveis efeitos desses discursos quantificadores. Além da influenciadora azul, o influenciador verde passa a problematizar as métricas:

aquela falsa ideia de produtividade que as vezes eu ou outros perfis acabam passando aqui nas redes sociais. Isso gera ansiedade em quem tá seguindo, isso gera uma sensação de não fazer o suficiente. Eu recebo muita mensagem de vocês, seja quando eu posto, por exemplo, um livro que eu li e falo já li ‘x’ livros esse ano e as pessoas: ‘meu deus, quanto você já leu! Eu não consegui nem metade, nem um terço disso! Como faz para ler mais? Mais rápido? Não é possível, eu devo ser um péssimo leitor!’ [...] Já vi pessoas comentando no Twitter: ‘deixei de seguir o influenciador verde porque não consegui fazer metade das coisas e fiquei me sentido mal’. [...] Isso que vocês ficam achando que a vida e a rotina do outro é perfeita, isso é totalmente fake! [...] Esse tipo de rotina que as vezes aparenta para você ser perfeita, ela não é perfeita. As vezes ela não existe da forma que você imagina [...] ela traz consequências negativas. [...] a gente tem que parar de romantizar a pessoa que fica produzindo 24 horas por dia! Isso não existe! Eu quero, às vezes, não fazer nada [...] Isso é normal! [...] Leia com tranquilidade, já falei mil vezes em relação aos livros: ler não é competição! [...] Não importa a quantidade de livros lidos, o importante é ter sempre um livro com você, ler um pouquinho todos os dias, se não conseguir ler tudo bem (Influenciador verde, 2021, transcrição de fala).

Mesmo diante de toda essa reflexão para situar os seguidores sobre a produtividade, ainda há quem responda com: “Ler 1 hora por dia tá bom, né” (Comentário de seguidor do influenciador verde, 2021). Isso mostra que, até quando os influenciadores tentam se distanciar dos números, eles voltam a ser questionados. Esse comentário também é sintomático do desejo de validação da prática de leitura do seguidor pelo influenciador: “Leio cerca de 10 páginas por dia. Você acha que está bom?” (Comentário de seguidor do influenciador verde, 2017). Esperando por essa validação do influenciador (que é visto como uma autoridade), o seguidor esquece o fato de que, independentemente do número de páginas ou das horas investidas, a leitura precisa ser algo cujo benefício é exclusivamente dele e cuja “incógnita boa” é ele mesmo quem determina. Para definir esse “x” que os leitores tanto desejam, eles devem aprender a colocar nessa equação, de forma coerente, seus desejos, sua imersão no texto e seus outros afazeres, além da leitura.

Há dois pontos que devem ser problematizados na definição das páginas a serem lidas por dia e na questão da velocidade da leitura, elementos que entram constantemente em pauta nos espaços analisados. Primeiro, dependendo da editoração, as páginas terão números de palavras e caracteres variados, logo, sujeitos que leem 100 páginas em um dia dificilmente leem o mesmo volume de texto. Segundo, esses textos dispostos nas páginas variam em termos de complexidade, impactando no tempo demandado para sua apropriação; por isso, ler 50 páginas em 30 minutos pode ser viável para algumas obras e para outras não. Portanto, os números - entidade quantitativa convocada com frequência para representar as práticas de leitura - invisibilizam aspectos qualitativamente distintos.

De maneira semelhante ao que ocorre com a influenciadora azul, a influenciadora laranja também é questionada sobre a velocidade da leitura:

Vocês viram que eu terminei aqui, ontem a noite, As outras pessoas [de C. J. Tudor, 304 páginas] e muitas pessoas me perguntam: “Nossa, como você lê rápido! Qual é o segredo?” Não existe segredo! Eu li em dois dias, mas eu passei muitas horas com esse livro durante esses dois dias. Então não foi assim, tipo: sentei, devorei e engoli o livro. Não é assim! Eu passei acho que umas quatro horas e meia, na segunda-feira, lendo o livro, mais ou menos, porque eu li umas duas horinhas de manhã e umas duas horas e meia, três horas, de tarde. E é muito legal quando você usa o Forest porque você sabe... - Forest é um aplicativo de produtividade - porque você sabe exatamente quanto tempo você levou. E aí foi mais ou menos isso, acho que eu li umas quatro horas, quatro e um pouquinho... Assim, umas quatro horas, vai, na segunda-feira. [...] E aí ontem eu peguei de nove da noite até uma e meia da manhã. E direto! Eu fiquei essas horas todas aí assim, só lendo, não levantei acho que pra nada, no máximo para beber água uma ou duas vezes. E tipo realmente eu fiquei agarrada no livro sabe, no final, de madrugada, eu já tava com os olhos ardendo [...] Eu já tava bem cansada, mas eu não queria largar enquanto eu não terminasse (Influenciadora laranja, 2020, transcrição de fala).

É preciso ressaltar que vários desses sujeitos que produzem conteúdo sobre leitura nas mídias sociais fizeram dessa atividade seu único trabalho e fonte de renda. Dos quatro influenciadores considerados nesta pesquisa, apenas um ainda exerce paralelamente atividades ligadas à sua profissão; os outros três têm dedicação integral ao trabalho de produção de conteúdo para mídias sociais. Por isso, o tempo deles para investimento nos livros é maior do que o de um seguidor que trabalha e/ou estuda e, nas horas vagas, lê por lazer.

Beyer (1795), no final do século XVIII, já analisava a leitura como luxo daquele tempo. O autor sinaliza duas posturas em relação à leitura: de um lado, uma que contemporaneamente poderíamos nomear de utilitária, que visa a aumentar os conhecimentos ou relacionada à profissão e ao trabalho de alguém que “não só lê livros, mas estuda livros” (Beyer, 1795, p. 1, tradução nossa); de outro lado, a do luxo, aquela que, estando fora das necessidades naturais e necessárias do homem, configura um ato de “prazer e passatempo, ou como uma moda que pertence à elegância, às boas maneiras e ao modo de vida refinado” (Beyer, 1795, p. 1, tradução nossa). Nesta última postura, a leitura é uma atividade que demanda esforço, na medida em que a “despesa” do ato está relacionada ao dinheiro e ao tempo. Quanto ao dinheiro, essa modalidade de leitura de luxo seria como um prazer caro, que poucos conseguem manter, mesmo na época já tendo apoio de bibliotecas para saciá-lo. Ademais, o autor afirma que gosto estimula a compra, pois o leitor vai em busca da posse de edições diferenciadas. Quanto ao tempo, diz que o ato de ler por prazer/luxo torna-se ainda mais caro e valioso devido ao tempo que leva, em função de que os indivíduos investiriam uma determinada quantidade de tempo que poderia estar destinado a atividades laborais.

Certamente, as discussões de Beyer (1795) têm marcas das representações da leitura daquele período histórico, em que se tendia a encarar a leitura por prazer como algo frívolo. No entanto, mesmo no século XXI, ainda é possível vislumbrar essa leitura de luxo, que demanda dos sujeitos dinheiro (para saciar seus desejos de compra de livros) e tempo, em uma rotina de vários afazeres, para a prática de leitura. Ler um texto de 300 páginas em dois dias, dedicando aproximadamente nove horas a um livro, como faz a influenciadora laranja, é um luxo a que poucos têm acesso e talvez nem ela mesma teria se não tivesse passado da postura do luxo àquela outra de quem lê por profissão. Por isso, os seguidores devem ter em mente essa distinção entre o tempo deles e o tempo dos influenciadores, para que não se frustrem na busca de métricas impossíveis dentro de suas realidades.

No relato da influenciadora laranja, fica em evidência um novo elemento que passa a ser controlado: o tempo, especialmente a partir da utilização de aplicativos de apoio para cronometrar as horas dispensadas na leitura. Para Foucault (1987), a regulação do tempo está inserida no poder disciplinar, que organiza os corpos no espaço e no tempo; dessa forma, “O tempo de uns deve-se ajustar ao tempo de outros de maneira que se possa extrair a máxima quantidade de forças de cada um e combiná-la a um resultado ótimo” (Foucault, 1987, p. 139). A regulação do tempo é proveitosa para um “bom adestramento”, dentro de um poder disciplinar que se imprime sobre o corpo e é responsável por torná-lo dócil (disciplinado) e útil, entendendo-se que a disciplina está a serviço do governamento, porque, quanto mais disciplinado é o sujeito, mais fácil é governar a sua conduta. Cabe, então, aos sujeitos ficarem atentos aos seus ritmos de produtividade para buscar o seu melhor desempenho. Emerge daí um leitor disciplinado, que controla seu tempo para dele tirar o melhor proveito, o que lhe permite saber o quanto dedicou-se à tarefa de ler. O influenciador precisa ser um leitor disciplinado, uma vez que passa a ler como um trabalho, e não como um luxo, conforme comentado anteriormente; essa postura é essencial para a manutenção dos perfis e canais, que precisam de postagens recorrentes para sobreviver. O problema acontece, como já foi discutido, quando o seguidor, leitor do luxo, busca a performance do influenciador.

Voltando à disciplina, ela é responsável por transformar “multidões confusas, inúteis ou perigosas em multiplicidades organizadas” (Foucault, 1987, p. 135) e por aumentar “as forças do corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui[r] essas mesmas forças (em termos políticos de obediência)” (Foucault, 1987, p. 127). Então, a disciplina opera para ordenar sujeitos, tendo em vista a maximização de seus resultados e a minimização das possibilidades de desvio. Por analogia, um leitor menos assíduo, por assim dizer, que inicie seus caminhos como seguidor de perfis de Bookstagram e de canais de BookTube, encontrará enunciações que desejam transformá-lo em leitor diário, potencializando seu desempenho e atenuando as possibilidades de que regresse a uma vida de leitura não disciplinada.

Ainda dentro dessa perspectiva do leitor disciplinado, a prática de sprints de leitura da influenciadora laranja pode ser um exemplo do exercício dessa forma de ser leitor. O sprint é um momento de foco na leitura, em que os influenciadores abrem uma live para ler silenciosamente, e seus seguidores acompanham (seja observando-o ler ou aproveitando para ler também). A obra pode ser a mesma para todos ou cada um ler uma diferente, depois parando para conversar sobre o que leram até então. Essa prática também é aplicada para outros objetivos, como, por exemplo, para fins de estudo. Um sprint implica o estabelecimento de um tempo regulado para ler. Nesse sentido, os sprints de leitura, feitos pela influenciadora laranja, também são uma manifestação desse leitor que se deseja disciplinado, misturando elementos de regulação do tempo e de vigilância. Em uma live, ela determina períodos em que todos lerão juntos, intercalando com momentos de conversa. Nas duas ocasiões de realização do sprint, cada um lia o que queria, silenciosamente, em sua casa. A influenciadora regula os tempos dedicados à leitura, e os seguidores são conduzidos a ler concomitantemente. Como a influenciadora permanece o tempo todo com sua câmera ligada enquanto está lendo durante o sprint, seus seguidores podem, enquanto leem, vigiá-la.

A regulação do tempo também está presente nas leituras conjuntas (feitas pelos influenciadores e seus seguidores), dessa vez adicionando um novo elemento: os cronogramas. Neles, os textos são divididos em várias partes (por exemplo, por capítulos), determinando-se até qual data o seguidor deverá ler cada uma. Entre as leituras de cada parte, há as lives para debater o que foi lido. Retorna o leitor disciplinado:

Foi dada a largada da nossa Leitura Coletiva de Outubro: Frankenstein, de Mary Shelley! [...] Participe, é grátis! É só seguir o cronograma de leitura com disciplina e comparecer as Lives lá no nosso canal no YouTube (Influenciadora amarela, 2020, cópia de escrita).

Vigilante das metas, a influenciadora amarela pergunta aos seus seguidores sobre o atendimento ao cronograma de leitura e alerta os atrasados:

Todo mundo em dia com o cronograma da leitura coletiva? Se está atrasado, aproveite o domingo para se recuperar! (Influenciadora amarela, 2020, cópia de escrita).

Estou atrasada, mas correndo para chegar junto no final! (Comentário de seguidora da influenciadora amarela, 2020).

Segunda [leitura] coletiva que consigo terminar antes (Comentário de seguidora da influenciadora amarela, 2020).

Estou em dia com o cronograma! (Comentário de seguidora da influenciadora amarela, 2020).

Nos sprints de leitura e nas leituras conjuntas, há um elemento importante: um grupo de sujeitos reúne-se para, ao mesmo tempo, desempenhar uma mesma atividade. Aqui iniciam as semelhanças com as práticas escolares, mas elas não terminam aí. Para exemplificar, recorro ao livro Letramento literário: teoria e prática, de Cosson (2018). Nesta obra, o autor aborda algumas estratégias para o ensino da literatura e descreve certas experiências realizadas no espaço escolar:

A professora apresenta o livro que traz na capa o título O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, de Jorge Amado. [...] Quando a turma termina a leitura das páginas indicadas, a professora retoma os trechos que julga mais importante e os lê em voz alta, comentando e fazendo algumas perguntas aos alunos. Por fim, estabelece o cronograma de leitura. O primeiro terço do livro deverá ser lido até o próximo encontro e os dois terços finais no seguinte (Cosson, 2018, p. 97-98).

Se fossem trocados os marcadores que determinam que se trata de um espaço escolar (professora, turma, alunos), esse poderia ser o relato de uma cena de leitura conjunta feita por um influenciador literário. Nas leituras conjuntas, aparecem os mesmos elementos: leitura das páginas indicadas, retomada de trechos, leitura em voz alta, comentários, cronograma de leitura e encontros. Isso mostra que as formas de conduzir a conduta leitora dentro dos espaços não institucionais encontram similaridades com as dos espaços formais de educação, ou seja, há um encontro das pedagogias culturais com as pedagogias escolares. Embora estejam em um espaço onde a leitura pode acontecer mais livremente, pois não há, por exemplo, objetivos de aprendizagem a serem atingidos, os processos educativos que acontecem nos perfis e canais tendem a conduzir os leitores de maneira disciplinada, tal como acontece na escola.

Se as pedagogias culturais vão ao encontro das pedagogias escolares, o inverso também acontece. Entre as sugestões para o Ensino Fundamental 2, no site da Nova Escola, há uma sugestão de atividade: “Compartilhando resenhas no YouTube e no Instagram”. Proposta em 2021, a atividade apresenta os códigos das habilidades da Base Nacional Comum Curricular possivelmente desenvolvidas, além de um passo a passo, algo semelhante a uma sequência didática, onde encontramos estas indicações:

Estimule os alunos a criarem um cronograma de leitura pessoal, considerando o tamanho do livro escolhido e a rotina de cada um. Nas aulas síncronas, ceda um espaço para perguntar como estão com a leitura [...]

[...] Na reta final da atividade, já próximo ao encerramento do bimestre, forneça uma ficha de leitura (disponível aqui). Ela contém informações básicas, tais como título, autor, tradutor (se houver), editora, sinopse oficial e resumo. Peça também para os alunos avaliarem a obra: quantas estrelas ele daria ao livro? Eles devem justificar, de forma breve, a nota dada (Nunes, 2021, não paginado).

Algumas similaridades com o que vimos até aqui: cronogramas, adaptação do texto ao tempo de leitura, questionamentos sobre o andamento das leituras e avaliação (qualitativa, mas também quantitativa) da obra. Essa proposição mostra o quanto o espaço escolar vem incorporando práticas das mídias sociais, talvez como forma de dialogar com as crianças e jovens hiperconectados do presente. Porém, mesmo inovando com o desenvolvimento de competências no uso de diferentes linguagens, a escola segue retomando instrumentos tradicionais no ensino da literatura. A proposta descrita na Nova Escola é a de que o estudante expresse suas aprendizagens utilizando a linguagem verbal e visual (postagens de resenhas no Instagram e no YouTube), o que por si só já pode fornecer indícios ao professor sobre as aprendizagens construídas. No entanto, as “velhas conhecidas” fichas de leitura precisam figurar para caracterizar o espaço escolar, algo que não vemos no BookTube e no Bookstagram.

Algumas considerações finais

A condução da conduta, o governamento, é uma forma de exercer poder. Dentro da perspectiva foucaultiana, “são os ‘jogos’ de poder e de verdade que forjam, inventam, constroem, produzem realidades, isto é, não somente formas-objeto, mas também formas-sujeito” (Bello; Régnier; Sperrhake, 2014, p. 203). Nesse sentido, foi possível projetar algumas formas-sujeito, ou formas-leitor, que se conduzem nos espaços analisados: o leitor endividado, que cria uma dívida imaginária de leitura consigo mesmo e está sempre se controlando, na tentativa de quitar um débito que não tem fim; o leitor empresário de si, que investe na conduta de leitor endividado para ler mais, para aumentar sua bagagem de leituras; o leitor estatístico de si, que analisa e interpreta seus dados, a partir do cálculo de suas médias de leitura e observação das variações de seus rendimentos, de acordo com diferentes métodos e, por fim, o leitor disciplinado, que controla seu tempo a fim de tirar o melhor proveito dele, de modo que saiba o quanto se dedicou à tarefa de ler.

As análises mostram que os discursos que circulam no Bookstagram e no BookTube atuam na condução da conduta leitora, tanto em termos de governamento dos outros quanto no que tange ao governamento de si, ou seja, há ação dos influenciadores literários sobre a conduta de seus seguidores e também dos próprios seguidores em relação a si mesmos. Assim são transformadas as experiências pessoais em relação à leitura, que constituem os leitores de determinadas maneiras, e não de outras. De forma menos frequente, também foram vistas ações de contraconduta, em que os sujeitos expressaram sua luta para serem conduzidos de maneiras diferentes.

Mesmo sendo práticas pós-institucionais e distantes dos espaços educacionais formais, as formas de ensinar uma conduta leitora encontram similaridades com as praticadas nas escolas. Nas pedagogias culturais presentes nos perfis e canais dos influenciadores literários que fizeram parte deste estudo, foram encontradas indicações de obras, cronogramas de leitura, conversas sobre o que foi lido e construções de estratégias de leitura para maximização do desempenho, ações que também podemos ver nos espaços de educação formal e institucionalizada. Os processos educativos que acontecem nos perfis e canais tendem a conduzir os sujeitos de maneira disciplinada, como na escola, embora estejam em um espaço em que a leitura pode acontecer de forma livre. Ao mesmo tempo, o leitor que busca alguém que lhe indique obras, determine-lhe o tempo para leitura e lhe guie nas conversas sobre o que foi lido é um sujeito ciente, que busca por uma prática conduzida/mediada. É um sujeito que, com frequência, dobra-se às verdades estabelecidas nesses espaços e se deixa conduzir.

Além das relações com a escola, outras variáveis parecem estar conectadas com as práticas de leitura que ocorrem nos locais analisados: questões inerentes ao tempo vivido, especialmente a presença de elementos característicos da racionalidade neoliberal, como o endividamento, a competição e a ênfase na quantificação.

Embora algumas ações sejam questionáveis no sentido de sua efetividade para a qualificação da prática de leitura, há que se registrar a relevância do trabalho prestado pelos influenciadores. Eles contribuem para a disseminação da informação sobre leitura e literatura fora dos espaços institucionalizados, sendo bem recebidos por um público que não está mais na Educação Básica, reduto privilegiado das ações de mediação da leitura (em especial a literária) e principal alvo dos programas e políticas públicas de leitura no país. Além disso, contribuem para o empoderamento do leitor comum, incorporando à cena literária outros espaços e sujeitos, provocando um tensionamento sobre onde é legítimo e quem está autorizado a falar sobre literatura.

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  • 1
    O material empírico contém reproduções de escritas dos sujeitos e transcrições de suas falas. A escrita dos sujeitos foi mantida fielmente, com todas as suas marcas (por exemplo, utilizando “vc” para você), como forma de assinalar as diferenças de uso da língua no ciberespaço. Para as transcrições de fala (conteúdo proveniente dos vídeos), foram mantidos os marcadores de conversação e não foram feitos ajustes de concordância.
  • 2
    O neoliberalismo é resultado de uma ressignificação, a partir da década de 1980, do liberalismo. Dentre os deslocamentos promovidos por essa ressignificação, está a questão da liberdade de mercado, algo natural e espontâneo no liberalismo, que passa a ser produzida de forma contínua no neoliberalismo, tendo como princípio a competição (Saraiva; Veiga-Neto, 2009).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    28 Abr 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    10 Jan 2025
  • Aceito
    05 Mar 2025
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Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade de Brasília (UnB) Programa de Pós-Graduação em Literatura, Departamento de Teoria Literária e Literaturas, Universidade de Brasília , ICC Sul, Ala B, Sobreloja, sala B1-8, Campus Universitário Darcy Ribeiro , CEP 70910-900 – Brasília/DF – Brasil, Tel.: 55 61 3107-7213 - Brasília - DF - Brazil
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