Resumo
Este artigo propõe uma leitura filosófica da obra Correr com rinocerontes, de Cristiano Baldi, à luz de dois paradigmas do pensamento político britânico: o pragmatismo liberal de John Stuart Mill e o conservadorismo liberal de Edmund Burke. A análise investiga os modos como o romance encena o esgotamento das mediações institucionais e morais no Brasil contemporâneo, articulando uma sensibilidade liberal à altura do sofrimento e da fragmentação subjetiva de seus personagens. O percurso argumentativo justifica o uso de categorias filosóficas não como moldes exógenos, mas como lentes críticas capazes de iluminar o alcance ético-estético do romance. Ao entrecruzar crítica literária, filosofia política e teoria do romance, o artigo contribui para a compreensão dos impasses da literatura brasileira contemporânea diante do colapso civilizacional. Este artigo ensaístico oferece, por fim, um modelo interpretativo que inscreve Baldi em um debate maior sobre o lugar da imaginação moral em tempos de brutalização da vida comum.
Palavras-chave:
literatura brasileira contemporânea; Cristiano Baldi; liberalismo; conservadorismo
Abstract
This article offers a philosophical reading of Correr com rinocerontes, by Cristiano Baldi, through the lens of two British liberal traditions: John Stuart Mill’s pragmatic liberalism and Edmund Burke’s liberal conservatism. The analysis explores how the novel stages the exhaustion of institutional and moral mediations in contemporary Brazil, articulating a liberal sensibility capable of responding to suffering and subjective disintegration. Rather than applying external philosophical frameworks, the study uses these concepts as critical instruments to illuminate the novel’s ethical and aesthetic reach. By intertwining literary criticism, political philosophy, and novel theory, the article contributes to the understanding of the dilemmas faced by contemporary Brazilian literature in times of civilizational collapse. Ultimately, the essay proposes an interpretive model that situates Baldi’s work within a broader debate on the role of moral imagination in the face of the brutalization of everyday life.
Keywords:
contemporary Brazilian literature; Cristiano Baldi; liberalism; conservatism
Resumen
Este artículo propone una lectura filosófica de la obra Correr con rinocerontes, de Cristiano Baldi, a la luz de dos paradigmas del pensamiento político británico: el pragmatismo liberal de John Stuart Mill y el conservadurismo liberal de Edmund Burke. El análisis investiga las formas en que la novela escenifica el agotamiento de las mediaciones institucionales y morales en el Brasil contemporáneo, articulando una sensibilidad liberal a la altura del sufrimiento y la fragmentación subjetiva de sus personajes. El recorrido argumentativo justifica el uso de categorías filosóficas no como moldes exógenos, sino como lentes críticas capaces de iluminar el alcance ético-estético de la novela. Al entrecruzar crítica literaria, filosofía política y teoría de la novela, el artículo contribuye a la comprensión de los impasses de la literatura brasileña contemporánea frente al colapso civilizacional. Este ensayo ofrece, en última instancia, un modelo interpretativo que inscribe a Baldi en un debate más amplio sobre el lugar de la imaginación moral en tiempos de brutalización de la vida común.
Palabras-clave:
literatura brasileña contemporánea; Cristiano Baldi; liberalismo; conservadurismo
Introdução
No romance Correr com rinocerontes (Baldi, 2017), de Cristiano Baldi, encontramos uma das expressões mais contundentes e inquietantes da literatura brasileira contemporânea ao tematizar o colapso moral de uma família diante da violência, da degradação institucional e da perda de sentido. Ambientada em Porto Alegre, cidade que se torna não apenas cenário, mas metonímia de um Brasil arruinado, a narrativa conduz-nos pela voz de um protagonista errante e saturado de niilismo, atravessando cenas de estupro, abandono e esvaziamento afetivo, sem jamais ceder à ilusão de redenção. Neste contexto, propomos uma leitura filosófica do romance, orientada por duas vertentes fundacionais do pensamento político britânico moderno: a teoria do pragmatismo liberal de John Stuart Mill e o conservadorismo liberal de Edmund Burke.
Nosso objetivo foi investigar de que modo o romance dramatiza a falência de princípios liberais clássicos, quer na sua versão progressista e racionalista, representada por Mill, quer na sua inflexão conservadora e comunitarista, representada por Burke. Para isso, partimos da hipótese de que a narrativa encena o esgotamento de duas promessas centrais da modernidade liberal: a de que a liberdade individual pode ser exercida sem que redunde em dano irreversível a outrem (Mill, 1991), e a de que a tradição e os laços comunitários são capazes de sustentar a civilidade e o pertencimento (Burke, 1790).
A pertinência desta abordagem justifica-se não apenas pelo valor estético do romance, mas pela sua rara capacidade de tensionar categorias fundamentais da teoria política moderna em chave literária, fazendo do estilo e da construção narrativa um campo de experimentação ética. A opção por um narrador que se apresenta como testemunha cínica e, ao mesmo tempo, afetada dos eventos, inscreve, na própria voz narrativa, uma crise de posicionamento que ecoa a crise do sujeito liberal: ora emancipado, ora culpado; ora observador, ora implicado.
A leitura aqui proposta divide-se em quatro eixos analíticos principais: (1) a falência da agência moral na figura do narrador e dos personagens masculinos, lida à luz da teoria da liberdade em Mill; (2) o colapso da família e da tradição como sustentáculo simbólico, em diálogo com a teoria burkeana da continuidade e da prudência; (3) a estetização do erotismo e da linguagem como modos de fuga, cuja insuficiência denuncia o esgotamento da inteligibilidade moral; e (4) a ausência da política como horizonte de ação coletiva, substituída pela brutalidade policial, pela indiferença estatal e pela estetização da miséria. Em todas essas frentes, o romance de Baldi oferece um quadro de decomposição moral que desafia tanto o otimismo progressista quanto o apelo restaurador, apontando para uma crise de inteligibilidade ética e afetiva sem precedentes na literatura recente.
Nos termos da crítica literária contemporânea, trata-se de um romance que transita entre o realismo cru e a digressão ensaística, aproximando-se, em tom e estrutura, de autores como Joca Reiners Terron e Veronica Stigger, mas singularizando-se pela conjugação rarefeita entre densidade filosófica e contundência política. Nesse sentido, este artigo busca, ao trazer o referencial filosófico de Mill e Burke para o campo da literatura brasileira contemporânea, contribuir para o fortalecimento do diálogo interdisciplinar entre teoria política e análise literária.
Das escolhas teóricas, metodológicas e literárias
A análise empreendida neste artigo parte de uma articulação inusitada, porém epistemologicamente fértil, entre a literatura brasileira contemporânea e duas vertentes do liberalismo britânico do século XVIII e XIX: o conservadorismo liberal de Edmund Burke e o pragmatismo liberal de John Stuart Mill. A escolha dessas tradições de pensamento político e filosófico não decorre de um impulso exógeno ao objeto literário, mas de uma afinidade crítica entre o universo ficcional de Correr com rinocerontes, de Cristiano Baldi, e os dilemas normativos centrais da modernidade liberal; a saber, a tensão entre ordem e mudança, entre responsabilidade histórica e experimentação individual, entre os limites do sofrimento humano e os horizontes éticos da ação.
A adoção desse eixo teórico visa, portanto, iluminar os processos de elaboração simbólica do trauma, da decadência institucional e da corrosão moral presentes na obra, deslocando o enfoque tradicional da crítica literária para um campo de análise onde a literatura é compreendida como uma instância de dramatização das condições da experiência moderna. Nesse sentido, o romance de Baldi, publicado em 2017, embora com alto reconhecimento público,1 ainda é credor da devida e merecida fortuna crítica.2 A obra oferece um material literário de altíssima densidade, capaz de incorporar e desafiar simultaneamente categorias herdadas da filosofia política. Ao narrar, com extrema acuidade formal, os efeitos da desagregação familiar, institucional e subjetiva em meio ao colapso silencioso de uma cidade brasileira (Porto Alegre), o autor oferece um comentário ético sobre o Brasil contemporâneo que ressoa, em diferentes níveis, com as angústias constitutivas da tradição liberal.
A escolha de Correr com rinocerontes como objeto analítico justifica-se não apenas pela densidade estética e filosófica de sua construção narrativa, mas também por sua trajetória crítica, que já aponta para sua relevância no panorama da literatura brasileira contemporânea. Finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2018, na categoria “Melhor Livro do Ano” para autores estreantes com mais de 40 anos, o romance de Cristiano Baldi insere-se desde seu surgimento na constelação das obras contemporâneas que problematizam os limites da subjetividade, da moral e da ação em contextos urbanos degradados (O Globo, 2018). Notável ainda é o fato de que o romance tenha sido gestado no contexto de uma dissertação de mestrado em Escrita Criativa pela PUCRS (Baldi, 2015), o que indica a autopercepção do autor quanto à organicidade entre reflexão crítica e elaboração literária. Publicada, em 2017, pela Não Editora, a obra recebeu resenhas favoráveis, tanto da crítica quanto do público, que identificaram, na tessitura da prosa (alternando brutalidade, lirismo e um humor ácido), uma tentativa eficaz de problematizar o colapso das formas tradicionais de sentido diante de um mundo afetiva e politicamente fraturado (Pécora, 2022; Timm, 2018). Essa recepção reforça o valor da obra como documento estético e existencial do presente, dialogando com o impulso filosófico de compreender as tensões entre indivíduo e sociedade sob perspectivas distintas (liberais, no caso deste estudo) que sublinham, por caminhos diversos, a dignidade e os limites da experiência humana.
A opção por Correr com rinocerontes justifica-se, assim, não apenas pela potência estética do romance, mas por sua singular capacidade de pensar literariamente as consequências morais da degradação civilizacional. A estrutura narrativa, marcada pela intermitência da memória, pela oscilação entre o ensaístico e o lírico, e pela ironia como forma de resistência, demanda uma abordagem filosófico-crítica que vá além das categorias puramente imanentes do texto. Trata-se de um romance que solicita pensamento, e que tensiona o campo da literatura não apenas como forma artística, mas como instrumento de diagnóstico ético-político.
Nesse escopo, a análise é realizada em duas frentes complementares. A primeira examina o modo como a obra de Baldi encena, em sua poética do desamparo, uma crítica indireta à noção burkeana de tradição como vínculo entre gerações e fundamento da coesão moral e institucional. Burke concebe a sociedade não como um contrato efêmero ou meramente utilitário, mas como uma “parceria em todas as virtudes e em toda a perfeição”, que une os vivos, os mortos e os que ainda nascerão, estabelecendo um pacto civilizacional cuja legitimidade transcende a vontade individual e está ancorada em compromissos históricos e afetivos (Burke, 1790). Ao confrontar essa concepção com o universo narrativo de Correr com rinocerontes (em que as instituições são inócuas, as famílias colapsam e a linguagem se mostra impotente diante da violência), a análise evidencia o esvaziamento dos dispositivos simbólicos que, para Burke, sustentariam o julgamento ético, a prudência e o pertencimento. Contudo, longe de representar uma refutação do pensamento burkeano, o romance de Baldi acaba por confirmá- lo, ainda que às avessas: ao retratar um mundo em que as formas de mediação tradicionais foram desfeitas, a narrativa literária expõe com força dramática as consequências da dissolução desse “contrato eterno” entre gerações. Assim, a ficção torna-se a cena onde se verifica, com dolorosa clareza, a veracidade do diagnóstico burkeano.
A segunda frente mobiliza o pragmatismo liberal de Mill, especialmente a defesa da liberdade individual como valor ético-moral a ser garantido contra as pressões da conformidade e do autoritarismo social (Mill, 1991), para examinar o sujeito-narrador como expressão da autonomia moderna em estado de fratura: alguém que age, deseja, elabora, mas que o faz sob a sombra de um niilismo cotidiano e de uma impotência ética crônica.
Do ponto de vista metodológico, a leitura do romance opera por meio da construção de constelações conceituais que aproximam passagens específicas da narrativa de formulações teóricas extraídas dos textos “Reflexões sobre a Revolução na França” (Burke, 1790) e “Sobre a Liberdade” (Mill, 1991). Tal procedimento não implica a subsunção da literatura à teoria, mas o esforço de interpretar a obra como produção simbólica que mobiliza e reconfigura categorias políticas e morais. A análise é, portanto, hermenêutica e comparativa, e se ancora na hipótese de que a literatura, ao representar o esgarçamento do tecido social, revela simultaneamente os limites e as promessas dos projetos normativos da modernidade ocidental.
Por fim, deve-se ressaltar que a escolha por essa combinação específica de arcabouços filosóficos, aparentemente anacrônica em relação à literatura brasileira contemporânea, é justamente o que permite renovar a abordagem crítica do romance. A escuta atenta ao texto literário, somada à elaboração conceitual rigorosa, faz da presente análise não um exercício de aplicação teórica, mas um experimento interpretativo, no qual o entrelaçamento entre tradição liberal e ruína pós-moderna revela, com dolorosa clareza, os impasses de nosso tempo.
A liberdade ferida: individualismo, dano e a crise da agência liberal em Correr com rinocerontes
A leitura de Correr com rinocerontes, de Cristiano Baldi (2017), à luz do liberalismo clássico de John Stuart Mill, revela um dos mais incômodos paradoxos da modernidade tardia: o colapso interno das promessas emancipatórias do individualismo liberal. O romance, atravessado por sujeitos exaustos, niilistas e ora autocentrados, ora dissolvidos em um mundo ético-moralmente implodido, confronta diretamente os pressupostos fundamentais da teoria milliana da liberdade.
Em On Liberty (1859), Mill argumenta que a liberdade individual deve ser protegida contra qualquer forma de coação, estatal ou social, desde que as ações de um indivíduo não causem dano a terceiros. Esta formulação, conhecida como o princípio do dano, é o esteio do liberalismo progressista e repousa sobre a crença no indivíduo como agente racional, autônomo e moralmente responsável: “A única liberdade que merece esse nome é a de buscar o nosso próprio bem à nossa própria maneira, desde que não tentemos privar os outros do bem deles, nem impedir seus esforços para obtê-lo” (Mill, 1991, p. 14, tradução nossa).
Baldi, no entanto, oferece um retrato de mundo em que essa concepção de liberdade não apenas falha como é revertida em seu oposto: a liberdade como instrumento de cinismo, indiferença e dano. O protagonista (sujeito narrativo e agente moral) encontra-se imerso numa inércia afetiva e ética que desafia a ideia de liberdade como autodeterminação. Seus gestos são mecânicos, sua fala hesitante ou vazia, e sua relação com o outro é atravessada por um desprezo soterrado sob camadas de ironia. A cena em que ele simula competência e ética diante da família da vítima, apenas para não “dizer coisa alguma e ainda assim tranquilizar o público” (Baldi, 2017, p. 218), é uma alegoria do sujeito liberal reduzido a performance: não mais alguém que age por convicção, mas alguém que ocupa o lugar vazio da moralidade.
Esse deslocamento entre discurso e ação, entre o liberalismo normativo e a realidade concreta, dramatiza uma crítica radical à noção de liberdade como autoformação. A liberdade, que em Mill exige o cultivo das “faculdades humanas de percepção, julgamento, sentimento discriminativo, atividade mental e até mesmo preferência moral”, uma vez que elas “só são exercidas no ato de escolher” (Mill, 1991, p. 53, tradução nossa), aparece em Baldi como liberdade desancorada, à deriva, sem horizonte de desenvolvimento. A autonomia converte-se em isolamento; a não interferência do Estado, em abandono. O inspetor Becker, símbolo da autoridade pública, opera sob a lógica do desgaste moral e institucional, o que, por sua vez, leva o personagem central a quase desejar a morte do irmão, quando do seu sumiço, a ter de gerar trabalho à autoridade pública (e acabar com seu próprio conforto): “Você quase deseja que o retardado esteja morto porque talvez isso dê menos trabalho e é claro que você não pensa isso a sério” (Baldi, 2017, p. 219-220).
A falência do princípio do dano (tal como formulado por Mill) é um dos eixos mais consistentes da narrativa. O dano, no romance, não é exceção: é o próprio modo de vida. A clínica psiquiátrica, a delegacia, a escola, a casa, todas as instituições tornam-se cenas em que a violência é administrada, normatizada e estetizada. O protagonista age por omissão, pela recusa em intervir. A frase “Você passa a mão sobre os cabelos, sorri e balança a cabeça, como se andar por aí com um pedaço de carne enegrecido fosse uma travessura” (Baldi, 2017, p. 221) encerra essa lógica da evasão: o corpo do outro é reduzido a anedota, e a liberdade é sinônimo de irresponsabilidade.
Esse quadro é consonante com a crítica de Charles Taylor à modernidade liberal, que alerta para os riscos de um individualismo desvinculado, no qual os vínculos afetivos, simbólicos e cívicos perdem força diante de um ethos da autorrealização isolada. Em suas palavras: “Uma sociedade de autorealizadores, cujas afiliações são cada vez mais vistas como revogáveis, não pode sustentar a identificação forte com a comunidade política de que a liberdade pública necessita” (Taylor, 1989, p. 508, tradução nossa). O romance de Baldi dramatiza precisamente esse impasse: um universo em que a autonomia subjetiva se realiza sem inscrição em qualquer horizonte coletivo de sentido, comprometendo assim a própria possibilidade de ação ética partilhada.
Por outro lado, há no romance elementos que complicam essa crítica unívoca. A figura de Bárbara, mulher livre, lúcida, sexualmente afirmativa, representa uma forma possível de liberdade não moralista, que resiste à vitimização e ao ressentimento. Ao dizer “Estou aqui apenas porque estou aqui” (Baldi, 2017, p. 284), Bárbara recusa tanto os pactos românticos quanto os imperativos morais tradicionais. Seu gesto é radicalmente moderno, mas também revela a insuficiência do desejo como ética. Ela é o eco de uma liberdade sem horizonte de justiça, ainda que ofereça ao narrador uma forma mínima de sustentação subjetiva, uma ética da presença, não da transcendência.
Nesse ponto, a teoria milliana ainda fornece recursos para a leitura. Ainda em On Liberty (1991), Mill amplia sua concepção de liberdade como capacidade de experimentação ética, sublinhando que “O valor de um Estado, a longo prazo, é o valor dos indivíduos que o compõem” (Mill, 1991, p. 107, tradução nossa). Em Correr com rinocerontes, o valor do Estado (lido aqui como cidade, comunidade, coletividade) está comprometido pela falência de seus sujeitos. A liberdade tornou-se um espaço sem fim moral, uma experiência sem mediação.
O deslocamento do narrador a São Paulo, em busca de um mestrado, é uma das poucas decisões que carrega algum resquício da ética liberal de Mill. Ainda assim, trata-se de um gesto ambíguo: fuga ou reinício? Afirmação de autonomia ou evasão da responsabilidade? O narrador mesmo parece ciente da contradição:
Decerto, se não tivesse se transformado em um dispositivo de engolir e expelir sopa, se não passasse as tardes tomando sol ao lado de uma fonte de concreto ornada com um pequeno tritão de mármore, se não passasse essas mesmas tardes na companhia de pardais extremamente asseados, minha mãe ficaria muito grata por me ver escalando a hierarquia do conhecimento oficial (Baldi, 2017, p. 264-265).
O conhecimento, nesse universo, já não redime. A ascensão acadêmica é apenas mais um dispositivo da performance.
Em Utilitarianism (Mill; Bentham, 2004), Mill insiste que o desenvolvimento moral requer a harmonização entre liberdade individual e bem-estar coletivo: “Devo repetir, novamente, o que os críticos do utilitarismo raramente têm a justiça de reconhecer: que a felicidade que constitui o padrão utilitarista do que é correto na conduta não é a felicidade do próprio agente, mas a de todos os envolvidos” (Mill; Bentham, 2004, local. 476, tradução nossa). Baldi, no entanto, descreve um mundo em que essa harmonização é impossível. O sofrimento do outro é visível, mas inoperante. O narrador vê, sabe, mas não age. Seu niilismo elegante é o ápice de uma liberdade autodestrutiva. Becker, símbolo trágico desse processo, consuma o colapso da agência liberal ao
Se você é um inspetor de polícia, você é um inspetor de polícia e esta é a forma com que você se comporta. Então você não pode culpar o inspetor Becker por se comportar assim. Você não pode nem mesmo culpá-lo por enfiar nas têmporas dez gramas de uma liga de chumbo, em uma espécie de jogo muito arriscado, apenas alguns meses mais tarde (Baldi, 2017, p. 222).
A liberdade final é a do suicídio.
E, no entanto, há lampejos de resistência. Pequenos gestos, como a solidariedade entre irmãos, o cuidado da avó, ou o deslocamento de Bárbara para levar a avó do personagem central à missa, apontam para aquilo que Mill chamaria de cultivo moral: uma forma de liberdade que se realiza no convívio, na escuta, na delicadeza. Ainda que esparsos, esses gestos configuram uma ética possível no caos. Como lembra Mill: “Um homem que não tem nada pelo qual esteja disposto a lutar, nada que lhe importe mais do que a própria segurança pessoal, é uma criatura miserável que não tem chance de ser livre, a menos que o seja e continue a sê-lo pelos esforços de homens melhores do que ele próprio” (Mill, 1862, p. 268, tradução nossa). Os personagens de Baldi talvez já não saibam lutar, mas ainda carregam, fragmentariamente, a memória de uma dignidade perdida.
O colapso das instituições simbólicas e a imaginação moral: um diálogo com o conservadorismo liberal de Edmund Burke
Em Correr com rinocerontes, Cristiano Baldi não se limita a retratar a degradação das relações familiares ou o cinismo das autoridades públicas: propõe, em seu núcleo trágico, uma meditação sobre o esvaziamento das instituições simbólicas que estruturam a vida em comum. A clínica psiquiátrica, a escola, a família, o Estado, o jornalismo, a religião, todas aparecem como formas institucionalizadas que perderam seu poder de significação e, portanto, de mediação. Esta falência, embora expressa por meio de personagens específicos e situações localizadas, aponta para um quadro mais amplo: o colapso da cultura como sistema transmissor de sentido. É nesse ponto que a crítica burkeana se oferece como lente interpretativa fecunda.
Para Edmund Burke, a estabilidade de uma sociedade repousa menos em constituições formais ou leis abstratas do que na sedimentação histórica de costumes, afetos, instituições e formas simbólicas que conferem à experiência social um contorno inteligível e moralmente partilhável. Em suas “Reflexões sobre a Revolução na França” (1790), escreve:
Você notará que, da Magna Carta à Declaração de Direitos, tem sido a política constante da nossa constituição reivindicar e afirmar nossas liberdades como uma herança vinculada, recebida de nossos antepassados e a ser transmitida à nossa posteridade [...] Por uma política constitucional, que opera segundo o modelo da natureza, recebemos, mantemos e transmitimos nosso governo e nossos privilégios da mesma forma que usufruímos e transmitimos nossa propriedade e nossas vidas (Burke, 1790, p. 28, tradução nossa).
Essa sabedoria coletiva, transmitida ao longo do tempo por hábitos e instituições, é o que permite o florescimento do que Burke chama de “imaginação moral”: a capacidade de imaginar a dignidade e a complexidade da experiência humana em sua multiplicidade histórica, social e simbólica.
O romance de Baldi, ao retratar personagens que operam num universo destituído de densidade simbólica, dramatiza a falência dessa imaginação moral. Becker, o inspetor de polícia, figura inaugural da narrativa, encarna uma paródia da autoridade pública: “você se admira com sua capacidade de não dizer coisa alguma e ainda assim tranquilizar o público” (Baldi, 2017, p. 218). O que se vê aqui é a substituição da autoridade baseada em dever, serviço e confiança, por uma retórica meramente instrumental, que apenas performa a aparência de um vínculo. Becker não apenas mente: ele sustenta sua função sobre a ignorância generalizada, convertendo a função pública em teatro vazio. A autoridade, neste caso, já não tem base moral nem simbólica, é apenas ruína.
Esse deslocamento reverbera no plano familiar. A figura de Igor, irmão do personagem central, é fundamental para pensar o paradoxo da tolerância liberal diante da violência e da disfunção. O narrador afirma que “a condição de Igor servia também para reafirmarmos a nossa própria condição. A família esclarecida, tolerante e razoável. A família secularizada havia três gerações” (Baldi, 2017, p. 225). Trata-se, como ele próprio sugere, de um uso tácito de Igor como emblema: “meu irmão era muito conveniente no papel de estandarte. Olhe para este menino fodendo com tudo e veja como somos fortes. Olhe para este menino e tente ao menos imaginar o tamanho de nossa integridade” (Baldi, 2017, p. 226). A ironia trágica do romance reside em explicitar que esta família, orgulhosa de sua resiliência racionalista, não está efetivamente protegendo ninguém, menos ainda Igor, mas apenas encenando uma narrativa de integridade moral diante de uma plateia imaginária.
Aqui, a crítica burkeana é novamente pertinente. Burke via na revolução francesa (que, em sua leitura, abolira não apenas o trono, mas as linguagens da reverência, da autoridade simbólica e da continuidade) uma ameaça à própria tessitura moral da sociedade. Criticando acidamente a filosofia da revolução, Burke escreveu:
Segundo o esquema dessa filosofia bárbara, fruto de corações frios e inteligências turvas […] as leis devem ser sustentadas apenas por seus próprios terrores e pelo interesse que cada indivíduo possa nelas encontrar a partir de suas especulações privadas ou do que possa lhes dedicar a partir de seus interesses particulares (Burke, 1790, p. 64, tradução nossa).
No romance de Baldi, essa substituição não é revolucionária, mas entropicamente banal: a dissolução das formas simbólicas ocorre não por insurreição, mas por negligência, cinismo, e uma lógica da conveniência. Os personagens não rejeitam a tradição por ideologia, apenas a deixam escorrer pelos dedos, como um patrimônio herdado que perdeu sua funcionalidade.
Essa inércia é exemplificada também na figura da avó, que abraça uma religiosidade ad hoc, repleta de imagens viradas para a parede, terços, velas, e santinhos instalados de maneira performática sobre móveis domésticos: “Antes de se mover pelo quarto [...] ela virava as imagens na direção da estante, de modo que os olhares, moldados em gesso, jamais se descuidassem dela” (Baldi, 2017, p. 254). Trata-se aqui de uma fé que não se articula mais com uma teologia ou uma cosmologia compreensível, mas que sobrevive como ritual privado, resposta supersticiosa ao caos. Mesmo assim, como observa o narrador, “aquela insensatez ainda era uma forma de sensatez” (Baldi, 2017, p. 254-255). Essa ambiguidade expressa com precisão o ponto em que a crítica burkeana se encontra com a observação literária: a tradição, mesmo quando esvaziada, ainda guarda alguma capacidade de resistência, de sustentação da forma.
Do ponto de vista burkeano, o perigo maior não está na crença mística, mas na perda do que ele chamaria de hábito da reverência, que sustentava o vínculo entre os indivíduos e a coletividade histórica. Quando esse vínculo se dissolve, a imaginação moral colapsa: os outros deixam de ser percebidos como parte de uma mesma comunidade de sentido e passam a ser obstáculos, cifras ou estorvos. Assim se explica o gesto final de Becker: “enfiar nas têmporas dez gramas de uma liga de chumbo” (Baldi, 2017, p. 222). Trata-se, ali, não apenas de um ato de desespero pessoal, mas da inscrição de sua falência no corpo, como se só pela morte pudesse restaurar alguma consistência simbólica à sua trajetória.
A grande questão, que Baldi levanta e Burke ajuda a iluminar, é: o que resta da vida pública e da moralidade comum quando as formas simbólicas que a estruturavam são corroídas pela indiferença, pelo sarcasmo ou pelo niilismo funcional? A linguagem de Baldi parece sugerir que ainda resta o corpo; o corpo como campo de inscrição da perda, da violência, da promessa falida. As patologias familiares, os estupros na clínica, a destruição psíquica da mãe e a pulsão sexual como substituto da intimidade são modos de narrar essa corporeidade sem mediação simbólica.
Como adverte Roger Scruton, intérprete moderno de Burke, “Ao debater a tradição, não estamos discutindo normas arbitrárias e convenções, mas respostas que foram descobertas a partir de questões perenes. Essas respostas estão implícitas, compartilhadas e incorporadas nas práticas sociais e nas expectativas inarticuladas” (Scruton, 2015, p. 33). Essas questões perenes são a chama que mantém o fogo aceso sendo passado entre gerações. Baldi nos mostra personagens que, incapazes de manter acesa essa chama, passam a se aquecer com suas cinzas, como quem se apega ao calor residual de instituições já carbonizadas. Se há uma ética possível nessa paisagem (e essa é uma pergunta que o romance lança ao leitor), ela não virá da restauração nostálgica das formas perdidas, mas talvez de um novo tipo de consciência trágica: aquela que reconhece, sem autoengano, o esgotamento da imaginação moral e a urgência de sua reconstrução.
Em última instância, Correr com rinocerontes performa o luto por um mundo que não sabe mais o que reverenciar. Nesse aspecto, torna-se não apenas uma narrativa sobre o Brasil contemporâneo, mas uma crítica moral da modernidade sem lastro, uma modernidade que, tendo perdido as coordenadas da tradição, já não sabe sequer de que lado fica o rio.
Reflexões finais
Ao mobilizar as tradições do liberalismo britânico clássico em sua inflexão conservadora (Edmund Burke) e progressista (John Stuart Mill), este artigo procurou iluminar Correr com rinocerontes como uma narrativa que dramatiza o esgarçamento das gramáticas morais, políticas e afetivas da contemporaneidade brasileira. A escolha por pensar o romance de Cristiano Baldi à luz de uma tradição filosófica estrangeira (e, aparentemente, alheia à matéria de nossa literatura) não busca qualquer gesto de transposição anacrônica ou reducionista. Ao contrário: o gesto comparativo, neste caso, pretende atualizar, por via da crítica literária, os potenciais heurísticos dessas filosofias no diagnóstico da experiência brasileira ‘tardomoderna’.
Correr com rinocerontes é um romance sobre os estilhaços. Estilhaços de uma subjetividade que não suporta a própria consciência. Estilhaços de uma cidade cuja urbanidade não mais ampara. Estilhaços de uma família que mantém a dignidade não pela ordem, mas pelo afeto mutilado que ainda sabe resistir. A Porto Alegre de Baldi (quase uma personagem) é um campo de tensão entre ruína e sopro. Assim como os protagonistas, ela não morre de todo: ela paira, lamacenta, semi-viva, como o pedaço de carne enegrecido em forma de concha que reaparece na mão do “retardado” e que, como o trauma, insiste em voltar.
Ao recorrer à noção burkeana de tradição como cimento moral da vida pública, demonstramos como a narrativa evidencia a falência dos dispositivos comunitários que sustentam o julgamento, a prudência e o pertencimento. A lógica do “dispositivo de engolir e expelir sopa” (expressão que o narrador usa para descrever o corpo da mãe, já sem linguagem e sem desejo) é também a imagem final de um país que perdeu seus filtros simbólicos. A crítica de Burke à decomposição das instituições pela corrosão do imaginário realiza-se no romance não como tese, mas como atmosfera: em meio a travestis acusados de esfaquear outro ser humano, jornalistas omissos e inspetores cínicos, não há mais aquilo que Taylor (Taylor, 1994) chamaria de horizontes de significação, quadros simbólicos e valorativos que tornam possível o julgamento moral, o reconhecimento mútuo e a construção de uma identidade em que o sujeito possa se reconhecer.
Por outro lado, ao convocar Mill, procuramos deslocar a crítica do campo da tradição para o da deliberação racional e da responsabilidade individual. A figura do narrador (um homem educado, irônico, lúcido até o sarcasmo) encarna a paralisia moral da liberdade que já não se sabe como usar. Em um tempo em que a autoridade moral das instituições foi deslegitimada, cabe ao sujeito deliberar por si. Mas o sujeito baldiano já não dispõe dos recursos internos para fazê-lo. Ele não age, não escolhe, não denuncia. Apenas presencia. E, ao presenciar, perpetua. É a encarnação do que Mill denominaria “apatia cívica”, o estado em que a liberdade degenera em narcisismo, e o sofrimento do outro torna-se apenas mais um dado do cotidiano, como o café azedo das delegacias ou as filas nos hospitais psiquiátricos.
Contudo, o romance não se entrega ao desespero absoluto. Ele reserva, em seus interstícios, imagens de delicadeza e de escolha ética mínima: o cuidado com Igor, os gestos da avó, a entrega amorosa de Bárbara. Se a crítica conservadora aponta a ruína, e a liberal denuncia a evasão, a literatura, aqui, faz algo mais. Ela remancha o que não se pode corrigir. Ela reata, por meio da narrativa, o que os sujeitos já não conseguem enlaçar por si.
É nesse sentido que Correr com rinocerontes desafia tanto o leitor quanto os próprios modelos liberais que aqui convocamos: Burke talvez exigisse mais reverência à autoridade; Mill talvez mais confiança na razão. Baldi, no entanto, opera numa zona em que ambas as fundações estão em crise. Sua literatura não prescreve nem redime, apenas mostra. Mostra o que é viver após o naufrágio da linguagem, após o apagamento da culpa, após o colapso das garantias morais. Ao mostrar, convoca o leitor a recuperar, se possível, algum gesto de hospitalidade, de lucidez ou de coragem, mesmo que apenas para carregar sua mãe escada acima, ou para contemplar com uma mulher amada o entardecer sobre o Guaíba.
Neste sentido, o romance de Cristiano Baldi apresenta-se como uma obra-chave para pensar a literatura brasileira contemporânea não apenas como espelho da catástrofe, mas como dispositivo ético-estético que interroga (de forma lúcida e impiedosa) os fundamentos últimos da ação humana. Seja sob a sombra da tradição perdida (Burke), seja sob a falência da autonomia ilustrada (Mill), o que Correr com rinocerontes nos entrega é a tarefa de decidir se ainda é possível (e sob que condições) correr com os monstros que nos habitam.
O universo construído é breve e repleto de silêncios, lacunas que se apresentam misteriosamente para o leitor. Não são todas elas, entretanto (as lacunas), passíveis de preenchimento, já que se tratam de parte fundamental da narrativa: a realidade oca de uma vida em que algo está faltando. O batom, os jornais, o sal no tomate: pouco a pouco elementos simbólicos são trazidos; elementos que estão lá, mas apontam para o que não está - quase que paradoxalmente preenchendo a narrativa por espaços vazios, espaços antes outros. É pensando, portanto, no tempo, no passado e na memória que chegamos por fim nas considerações finais desse estudo. Quando pensamos no tempo, é, em muitas ocasiões, válido recordar das profundas contribuições articuladas na célebre obra de referência Em busca do tempo perdido (Proust, 1992). “Nem tudo o que acontece me ocorre” (Proust, 1992, p. 90), reflete o narrador, antes de exemplificar com: “o sino tocando em Saint Hilaire: Muitas vezes até essa hora prematura soava duas batidas a mais que a última; havia, portanto, uma que eu não ouvira, algo que ocorrera não acontecera para mim” (Proust, 1992, p. 90).
Nesse sentido, é interessante levar em conta que, na tentativa de encontrar fatos perdidos em um passado já inacessível, temos a memória como uma estratégia na realidade muito pouco efetiva, em diversas medidas. Isto já que, durante nossas atividades diárias e tendo em vista as diversas preocupações e ocupações que nos permeiam, muito do que nos acontece também não nos ocorre - isto é, muito daquilo que nos circunda é simplesmente ignorado por nós e, inevitavelmente, também o será pela nossa memória (pelo menos conscientemente). Segue Proust (1992, p. 91): “O interesse na leitura, mágico feito um sono profundo, iludira meus ouvidos alucinados e apagara o sino de ouro sobre a superfície azulada do silêncio”. Concentrado na leitura, o narrador reconhece que algo acontecera, porém é como se ele não tivesse vivido esse acontecimento - e é nesse sentido que o passado segundo aquilo que lembramos não consiste no passado em si, mas em uma memória lacunar. Lacunar porque uma lembrança recriada pelos elementos que temos em nossa disposição e que são, inegavelmente, passíveis de questionamento “factual”.
Em busca do tempo perdido, o narrador de Proust (1992) em muito se aproxima dos narradores de Nur na escuridão e de Lavoura arcaica, os quais, em boa parte das narrativas, também estão em busca do tempo que perderam, bem como do passado que não foi. Nesse sentido, o narrador de Proust (1992) considera razoável a crença céltica acerca da morte e daquilo que ela representa. De acordo com ele, para os celtas, “as almas das pessoas que perdemos se mantêm cativas em algum ser inferior, um animal, um vegetal, uma coisa inanimada, e de fato perdidas para nós” (Proust, 1992, p. 54). Aqui o narrador relembra a mitologia dos celtas, para os quais os homens e mulheres mortos teriam suas almas transferidas para animais, plantas, pedras etc., quaisquer elementos presentes naquele mundo - isto é, contemporâneos aos seus familiares e conterrâneos, que ainda se lembram deles. “Até o dia, que para muitos não chega jamais, quando ocorre passarmos perto da árvore, ou entrarmos na posse do objeto que é sua prisão. Então elas palpitam, nos chamam, e tão logo as tenhamos reconhecido, o encanto se quebra” (Proust, 1992, p. 55). Dessa ideia de um outro mundo que habita o interior de nosso próprio mundo, material e concreto, o narrador de Em busca do tempo perdido (Proust, 1992) aproveita-se para estabelecer um paralelo com a memória, que também opera de modo similar. Se, para os celtas, todos os seres humanos possuem dentro de si uma fogueira tranquila, essa chama que para nós é a alma, o processo de conexão com nossa própria alma ou com a alma das coisas aproxima-se do processo de reconexão com o passado através da memória.
Isto é dizer, se observar uma árvore que nos relembra um ente querido faz com que este se liberte, isto é também verdade para os elementos concretos que nos fazem recordar subjetiva e inconscientemente de uma experiência vivida ou de alguém que já se foi - o cheiro de uma comida, um cesto de roupas sujas, uma foto há muito esquecida no fundo de uma gaveta. Para os celtas, ao libertarmos essas almas que, antes de nós, estavam presas nesses objetos, somos recompensados: “Libertas por nós, elas venceram a morte e voltam a viver conosco. O mesmo se dá com o nosso passado” (Proust, 1992, p. 56). Sobre o passado, o narrador continua, “é trabalho baldado procurar evocá-lo, todos os esforços de nossa inteligência serão inúteis” (Proust, 1992, p. 56). O narrador associa, portanto, as almas das pessoas com as almas das lembranças, lembrando que evocar a memória a partir de uma estratégia semelhante consiste em uma das únicas formas de acessarmos aquilo que, através única e particularmente da inteligência, poderia ser considerado esquecido. Isto porque, ainda que seja extremamente e profundamente complexa a capacidade de nosso cérebro e de nossa percepção consciente acerca das coisas, dependemos ainda, em grande medida, do nosso inconsciente - de intricadas operações que levamos a cabo mesmo quando não percebemos. Surge, assim, a memória, e surge quando menos esperamos e motivadas pelas razões as mais adversas. É por sua causa, e através dela, que muitos dos mistérios de nosso passado são desvendados, a partir do estímulo de elementos surpreendentes. Concluo, portanto, emprestando a delicada reflexão que o narrador de Proust (1992, p. 55) faz, por fim, acerca do passado, que está escondido, fora de nosso domínio e de nosso alcance: “em algum objeto material, na sensação que esse objeto material nos daria, que estamos longe de suspeitar. Tal objeto depende apenas do acaso que o reencontremos antes de morrer, ou que não o encontremos jamais”.
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Referências
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O livro foi finalista da edição de 2018 do Prêmio São Paulo de Literatura (Prêmio São Paulo de Literatura, 2004?).
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Há um único trabalho acadêmico de fôlego tratando sobre a obra (conforme pesquisa no banco de dissertações e teses da CAPES): a dissertação de mestrado do próprio autor (Baldi, 2015).
